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A K t E S -^CIF' TiA VBRITA8 



ARCHIVO 



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ARCHIVO 



PITTORESCO 



SEMANARIO ILLUSTRADO 



EDITORES PROPRIETARIOS, CASTRO IRMAO & C/ 



^©Lym ^D = Oidi 



PREQO DE CADA VOLUME 
Bm Lisboa 2|f000 Hi*} nat Piovincias, Craiioo de porte, 2^200 réìi 



TYPOGRArHIA DE CASTRO IRMÀO, BUA DA CRUZ DE PAU, 31 



MDCCCLXVIII 






Il HIVO PITTORESCO 

SISiil&MAIBIl© IILILUSTIB&B© 



EDITORES PROPRIETARIOS, CASTRO IRMÀO k C 



Aesigno tura— Lisboa e Porto 2iSOOO rél8— Provinciaa, polo 

EKrlptorlo, rnk da Bo* -Tlgbl — pilicto do 



2i!200 réis— Numero a 
I Sumpiio 



ll.° ANNO — 1868 




PACOS REAKS DE EVORA 



Evora duo Toi sempre urna cidudc silenciosu e trìBle. 
As pompag e ostentacòes da corte, o fasto da nolireza, 
cslrondo das armas de guerra, os sons das niuskas 
e Tolias, o ruido das riTramentas das arles e officios, 
por mais de urna v(?k a cngrandeceram e animaram. 
Klorpsceu entro as povoagups opuleitlas da petiinsuia, 
de secuios a seculos, n'alguiis periodos de sua longa 
oxislencia, cuja origem se perde nas trevas das eda- 
des ante-bislorìcas. Deotro e fora dos muros, que de 
velhos e inuteis se Ihc amiinam, no solo em qtie ja- 
zcm sepultadas tanlas gerafóes e ni^as difieretiles, por- 



manecom aìuda dos passados esplendores os vcstigios 

3 uè tempo uùo consumiu ou o homem se esquccctt 
e deslruir. 
Ha quasi dola mil annos que Serlorio, lìberlando a 
cidadc do jugo de Roma, Ihe conservava e augmen- 
lava as grandezas da cìvilìsagào romana. E quando, 
multo depois, vieram a renovar-se em Portugal, nas 
letraa, nas artes, nas emprezas militarcs, as excellen- 
cias do Latium, os reis da segut)da dynastia jlluslra- 
ram lambem a velba colonia dos imperadores, restau- 
rando ou imitando as obras da antiguidade, e pondo 
n'oulras, todas suas, claros testimunhos de predilec- 
^ao e aprono para com a terra em que vinham rcpoi- 
sar à sombra dos loìros da Victoria. 



ARGUIVO PITTORESCO 



Das poucas rellquias que d*aquellas ultimas obras 
se conservarli ó a galena dos pa^os reaes, que a Dossa 
gravura represenla. 

Il 

Até ao tempo de D. Affoiiso v aposentavam-se os 
reìs com a sua corte nas casas que tinham na Praga, 
e se chamavam estàos i, corno as que em Lisboa e 
n*outras cidades e villas serviam aa mesmo firn. 
palacio do sr. José Maria de Sousa Matos occupa hoje 
terreno onde estiverara, do lado do sul ou da rua 
da Cadeia, os estàos, e, do lado do norte ou da rua 
do Raymundo, urna casa que pertenceu aos condcs 
das AicaQOvas. Separava os dois predios, ora rcunidos 
e totalmente transformados, a rua dos Toiros, assim 
deiiominada porque por ella salam os que na Praga se 
coslumavam correr. 

Alóni de duas cartas dei-rei D. Manuel, relativas à 
prelengào que teve Ruy de Sande de alargar suas ca- 
sas da Praga (as que depois foram dos condes das Al- 
cagovas) até ù esquina dos estaos, guarda-se no ar- 
chìvo raunicipal de Evora um alvariì de 29 de dezem- 
bro de 1502, em que el-reì Ihe concedeu para aquelle 
effeito lodo o ar da cancella onde se mettiam os toiros. 
«E (lé-se no documento) a dita cancella ficarà tao alta 
do cbào e assi craro auejaiido convenha pera o cor- 
rer dos ditos touros.» Ha no mesmo archivo mais ou- 
tro alvarù de 6 de fevereiro de 1503, mandando met- 
ter de posse do ar da cancella a Ruy de Sande, para 
elle alargar as suas casas até aos «estàos, com tanto 
que seja despejada a entrada dos touros e tao alta 
corno uma langa.» Por aqui se prova: 1.° que os es- 
tàos foram na Praga, contra a opiniào de alguns es- 
criptores, que suppozeram terem sido nas casas deno- 
miiuuias de Sartorio, ou nas que depois serviram de 
inquisigào; 2.° que n'aquella epocba a rua dos Toiros 
fìcou so conìmunicando com a Praga por meio de um 
arco, que veiu mais tarde a ser tapado com toda a 
parte orientai da rua. 

É tradigào constante que nos estàos se hospedaram 
el-rei D. Dìniz e a santa rainha D. Isahel, assim corno 
outros antigos monarcbas. Na cbronica de D. AtTonso vi 
escreveu Ruy de Pina que os desposorios do infante 
D. Pedro com D. Gonstariga Manuel se celebraram por 
procuragao, em 1336, nos pagos de S. Francisco. E 
na cbronica de D. Affonso v atllrmou tambeni o au- 
ctor que nos mesmos pagos de S. Francisco fallecéra 
em 1455 a rainlia D. Isabel. Razào ba para duvìdar 
se cbamariam assim anligamente os estàos, por fica- 
rem proximos do convento de S. Francisco, ou se Ibes 
applicaria Ruy de Pina a denominagào que em seu 
tempo tinbam os iiovos pagos, edificados a pequena 
distancia dos estàos, na berta e convento dos francìs- 
canos. Duarte Nunes de Leào, naturai de Evora, em 
cuja bistoria deveria andar ver>ado, rcpeliu nas suas 
cbronìcas a expressào de Ruy de Pina. 



Ili 



As ruinas e as poucas memorias que restam dos 
pagos de Evora nào permittem determinar com exa* 
ctidao a sua antiga fabrica, e as obras com que em 
cada reinado se foram augmentando ale ao tempo de 
D. Sebastiào, o ultimo dos nossos monarcbas que n'el- 
les residiu. 

D. Affonso V poisou ainda nos estàos ou antigos pa- 
gos reaes. Como, porém, fossem casas pequenas e aca- 

1 Sobre A et/mologla da palnvra estào» ha diversa» e extravagan* 
te» opiniòes, quo ae podem ver no Vocabulario de Blntcau. nas Me- 
moria» fle D. JoSo I, de José Soares da Silva, e no flucùfario de Vi- 
terbo. Daa mais aingulares é, por certo, a do padre Fonseca na Evora 
gloriosa, onde affima que estàoa vem do tttaca». E, conitudo, Duarte 
Xunes de LeSo, nas Origent da lingua portngtuza, cìtadas por Morae», 
trax, entre o» vocabuloa que ae encontram era cacripturaa antigas, a 
palavra hostao» com a slgnifica^ào do hospedaria, deixando assim bem 
manifesta a etymologla que tanto deu quo fazor a alguns escriptores. 



nhadas, pcdiu aos frades de S. Francisco para se apo- 
sentar na parte do convento mais proxima do Rocìo, 
com pretexto de mais facilmente sair ao campo. 
Apossou-se el-rei nào so da casa que primeiro Ihe ce- 
deram, e era a que ser via aos estudos, senào tambem 
de outras do convento, as quaes accommodou, com va- 
rias obras, ao seu uso; e assim deu princìpio aos no- 
vos pagos. Nào se sabe ao certo o tempo em que iato 
succedeu. Depois de tomar Alcacer Ceguer, em 1458, 
esteve D. Affonso v algum tempo em Evora. Toda via, 
comò por carta de 4 de margo de 1462 mandou à 
camara que aposentasse seu sobrinbo D. Joào em suas 
casas da Praga, parece que so mais tarde, quando vi- 
ctorioso de Arzilla e de Tanger regressou a Evora, 
comegaria a transformar em palacio real o convento 
de S. Francisco. 

Conlinuou nos reinados seguintes a alargar-se o pa- 
lacio pela casa e borta dos Franciscaiios. De D. Joào ii, 
diz Garcia de Rezende, que tendo deliberado, por causa 
da peste que assolava Lisboa, celebrar em Evora as 
festas dos desposorios de seu filbo D. Affonso, man- 
dàra fazer nos pagos muitos aposentos de novo com 
grandes salas para si e para o principe e princeza. E 
que pela brevidade do tempo tantos offìciaes metteu 
na obra, que em seis mezes concluiram o que levarla 
muitos annos. 

Como palacio nào tivesse, ainda assim, capaci - 
dade para aquellas festas memora veis, mandou el-rei 
construir entre elle e a portaria do convcMito uma sala 
de madeira com 300 palmos de comprido, 72 de liirgo 
e 75 de alto. Nào tentaremos descrever aqui està e 
todas as outras maravilbas que n'aquella occasiao se 
admirarara em Evora, e o cbronista de D. Joào n 
tratou longamente em alguns capitulos da sua cbro- 
nica. 

edifìcio representado na gravura é de D. Mniiuel; 
a denominada galeria das damas, cujas ruinas licam 
proXimas, e a torrinba do aqueducto, sào prova vel- 
niente de D. Joào iir, o que mellior adianté explana- 
remos. 

IV 

Facilmente se avaliarà a extensào dos pagos e jar- 
dins reaes no seculo xvi, imaginando uma curva con- 
vexa para a parte do convento, desde a muraiba, so- 
branceira à berta dos Soldados, até à rua do Pago, 
tocando quasi a portaria junlo do largo de S. Fran- 
cisco, e cortando as ruinas do velbo clausti'O. Pi'ova- 
se que os pagos se alargavam tanto para o lado do 
norte, porque fazen do- se algumas demoligOos ba qua- 
ttro annos n'esta parte do convento, appareceram ao pé 
da torrinba do- aqueducto vestigios de tanques niuito 
ornamentados; e da banda do sul. a pequena distancia 
da porta, uma sala soterrada com azulejos e pinluras 
de varios instrumentos, que denotavam ter servido 
para bailes e festejos. pavimento d'està sala estava 
nivelado com o da galeria das damas, cujas paredes 
se véem pouco afastadas para o lado do poente. 

Por concessào de Filippe in de Hesf)anha ficaram 
OS frades senboi'es da parte orientai do palacio, que 
transformaram em dormitorios. Era aqui o quarto da 
rainba, cujas janellas ainda hoje se conservam, tanto 
do lado da rua do Pago comò da parte opposta. É de 
crer que n'essa epocba se insulassem os frades o mais 
que podessem para se forrarem a futuras extorsOes, e 
destruissem ou, pelo menos, promovessem a mina das 
casas do palacio proximas do convento, deixando ape- 
nas de pé a galeria mais occidental, e portante a mais 
remota de todas. 

Pelo desapégo de um rei estrangeiro e ignorancia 
de uns franciscanos, se perdeu urna das maiores e 
mais ricas residencias que, fora da capital do reino, 
tiveram os monarcbas portuguezes. 

(Contln&a) A. Fn.iPPS SiuÒes. 



ÀRCHIVO PITTORESCO 



FRUCTOS DE VARIO SABOR 

(A Julio de Castilho) 

I 

HI8T0RIA DE Vìi ROUXINOL 



Età no mcz de abnl. A casa onde viviamos fica va 
toda occulta pelo arvoredo, e tinba urna varauda que 
deitava para o rio. Nao tinbamos por visinhos scudo 
OS passarinhos; iiào ouviamos outros ruìdos além do 
murmurar das aguas, do cantar das avcs e do susur- 
rar das folbas batidas pelo vento. À noìte ìamos am- 
bos sentar-nos na varanda, que se tinba forrado coni 
rosas e madresìlvas, e ahi ficavamos longas boras, 
roudos, ioiinoveìs, ouvindo o canto de um rouxìnol 
que soltava seus bymnos roelodiosos n'um ramo in- 
di nado sobre as nossas cabegas. 

Nas noites de luar era dobrado o encanto que nos 
dominava. Os raios da lua, coando-se por ontre os 
ramos, espclbavam-se na corrente comò esti'cllas de 
prata. As flores espalbavam seus inebriantes aromas 
no ar que respiravnmos; e o rouxinol, que sabfa que 
nos tinba sempre alli, tao prcsos, tao altentos, t5o 
onternecidos a ouvir-lbe a historia de seus castos amo- 
ros, foi pouco a pouco, apesar da sua naturai timidez, 
famiiìarisando-se com o auditorio. De noite para noite 
descia um ramo e vinba poisar-sc mais perto de nós. 

Havia quasi um anno que tinbamos ido esconder a 
nossa felicidade n aquelle paraiso ignorado. So nos 
viamos um ao oulro na terra; Tbereza nào tinba ciu- 
nies dos rouxinocs que eu cscutava: eu nào era cioso 
das toutìnogras que vinbani ao parapeito da janella 
comer-lbe as migalbas quasi na mào. mundo aca- 
bava para nós a porta da quinta^ e o eco comegava 
à borda do rio. Ninguem nos invojava, porque nìn- 
guem nos coniiecia. Nào nos aborrecìamos, porque 
gastavamos o xempo em amar-nos. Nada cobigavamos, 
porque um bastava para a ventura do outro, e tinba- 
mos ainda em cima o rouxinol na varanda. 



II 



Que tempo, santo DeusI que divina felicidade n'a- 
quellas noites de estio, e que sublime embriaguez! E 
comò tudo passou, comò tudo morreu, comò tudo mu- 
dou com a prisào e a morte de um rouxinol!... Ob! 
ninguem roube a liberdade às avesinhas, ninguem 
prenda os rouxinoes, porque Deus castiga a quem 
pOe em captivciro aquelles que Elle creou livres. 

Ao alvorecer recolbia o cantor ao seu ninbo, e nós 
ao nosso. Elle ia, corno artista triumphante, repoisar 
a gloriosa cabecinba no scio da companbeira, que ató 
cntào entreouvira em seus amorosos sonbos^ e que 
agora velarà em quanto elle dormir. Nós, cbeias as 
almas da barmonia quo nos communicava a natureza, 
esqueciamos quanto bavia em nossos seres de mate- 
rial, de profano e mortai, e, deixando voar o espirito 
para as'regiues cciesles, entreviamos a aurora da exis- 
tencia divina. 

Urna noite em que ja nào bavia luar, e estavamos, 
comò de costume, sentados no banco da varanda, o 
rouxinol» poisou tao perto, que eu podia, crguendo o 
brago, toral-o quasi coni a mào. 

A avcsinba, eboia de boa fé e confiada na lealdade 
que parecia garantir-lbo a nossa admiragào, manifos- 
tada por tao religioso siloncio e tamanba assiduidade, 
teslimunbava, aproximando-se cada vez mais, que ac- 
ceitava e agradecia a nossa protecgào, e que as nossas 
rolagOes Ibe eram agradaveis. Mas a sua voii era tao 
vibrante, que,. ouvida assim de perto, custava a sup- 
portar. 

Eu nào ousava, comtudo, mover-me, receioso de 



assu&tar o artista e de perder no seu conceito a opi- 
niào que elle parecia formar da nossa fìdelidade. 

Ella, porém, que era nervosa e delicada, estendeu 
a mào com o intuito de sacudir os ramos, mas tao 
pequena era a distancia, que encontrou o rouxinol e 
apanhou-o, exclamando: «D*aqui em diante bas de 
cantar so para nós.» 

Ili 

Corremos para casa e mettemol-o n'uma gaiola; po- 
rém infeliz dava taes saltos, atirava comsigo tao des- 
esperadamente de um para o outro lado, que Ibe adi- 
vinbei a intendo de suicidar-se. Quiz soltal-o, ma.s 
Tbereza nào conseutiu. As mulberes sào crucis... às 
Vezes. E, comtudo, aquella tinba um coragào de pom- 
ba; — mas nào soltou o rouxinol! 

pobre passarinbo, a principio, manifestava a sua 
dor esvoagando furióso e batendo centra as grades da 
gaiola, com a visivel intengào de despedagar-se; de- 
pois cafu em prostragào, occultou-se no recanto mais 
escuro e doixou-se ficar immovel, com as pcnnas eri- 
gadas, olbar fito, e estremecendo de vez em quando 
com uma convulsào nervosa, corno se fosso epileptico. 
Quando a minba companbeira se aproximava, fallan- 
do-lbe, acariciando-o e querendo apanbal-o para Ibe 
metter o corner no bìco — porque elle tinba feito pro- 
posito de morrer de fome — o desgragado entrava em 
accessos de furor louco, impossiveis de descrever. A 
mim, pelo contrario, nào so me tolerava, mas resi- 
gnava-se a que eu o apau basse e alimentasse contra 
sua vontade. Parecia com oste procedimento dar-me a 
enlendor que me nào odiava, porque nào fora eu que 
Ihe roubàra a liberdade. 

IV 

Passaram assim tres dias — tres noites oni que nào 
fomos à varanda. — Ao tcrceiro dia pendurei alli a 
gaiola no mais escuro da ramada. Entào uma scena 
patbetica e commovedora se vorifìcou. k femea, que 
durante os tres dias voàra sem cessar awi torno da 
casa sellando pios lugubres e dolorosos, apenas viu o 
amado companheiro precipitou-se sobre a prisào, que- 
rendo desfazel-a corno bico; porém, reconhccendo que 
eram inuteis os seus esforgos, poisou-se n'um ramìnbo 
ao lado d*elle e comegou a gemer sem pausa. 

rouxinol dei.xou-se ficar onde estava, som movi- 
mento, iosensivei às tcntativas que fazìa a sua amadu 
para libertal-o, indifferente à dedicagào com que ella 
parecia disposta a sacrificar-se por elle, nào fugiudo 
quando eu me aproximava. Conbecia-se que o ca- 
ptìvo fizera voto de nào sobreviver à sua desgraga e 
que se deixaria morrer de paixào. De repente o preso 
estremeceu; uma corrente electrica agitou-lbe todas as 
pennas; ergueu a cabega e escutou. A femea agitàra-so 
tambcm e tarabcm esentava. Um canto suave, distante 
ainda, mas que se aproximava rapidamente, comegon 
a ouvir-se. Era a voz de um rivai, de um rivai de- 
testado e audaz que ousava requeslar, nos seus can- 
tos amorosos, a mulher do prisioneiro. Este ouvia at- 
tento, e rapidos estremecimentos Ibe.sacudiam a miude 
a escura plumagem ; a voz estava cada vez mais per- 
to, e a amante do meu rouxinol, depois de olbar para 
a gaiola e lalvez convencida de que o escravo nào 
mais se libertaria, teve o animo cruci de o desarapa- 
rar, voaodo para um salgueiro mais alto. desgraga- 
do, vendo-a ausentar-sc, presentiu que ella ia ser-lbe 
infiel, trocando-o por outro, e soltou um pio doloroso. 

rivai preferido veiu cantando até poisar no ramo 
em que estava a gaiola, e onde o seguiu immediata- 
mente a perfida que por elle deixava o infeliz captivo.- 
rocem-vindo, depois de atormenlar o preso com o 
espectaculo das suas caricias à desieal que se Ibe en- 
tregava, soltou a voz n'um canto agudo e prolongado, 
bymno de triumpbo selvagem e covarde, que eu tra-^ 
duzi assim: 



ARCHIVO PITTORESCO 



«A viogaoga é mais doce do que a semente do li- 
nho e as dormideiras amassadas com sangue, que os 
bomens costumam dar aos rouxinoes captivos! Eu nasci 
n'uma giesteira florida à borda de um arroyo, cujas 
aguas cantavam noite e dia. Quando as minbas azas 
tiveram pennas, sai do ninho onde o amor materno 
me tinba embalado, e vim procurar nos sinceiraes do 
Mondego uma companbeira que accendesse no meu 
peito entbusiasmo do canto, e perpetuasse com- 
migo a raga dos fìibos da luz e da barmonia. Mas. o 
meu corpo era debil, e a minba vida, comegada ape- 
nas, nào me permittia entrar em lucia com os qué, 
velhos pela experiencia, mestres pela arte e orguibo- 
sos pelos seus triumpbos, se tinbam tornado no mcio 
dos saigueiros o terror das novas geragòes. No mo- 
mento em que o meu coragào sentiu pela primeìra 
vez a inspiragào divina, a vista d'està amiga que ora 
poisa a meu lado, tu, que contavas as amantes pelo 
numero dos teus dias, abusando da tua forga, da agi- 
lidade das tuas azas, e da fereza do teu coragào en- 
durecido pela gloria e a vaidade, cafste sobre mim 
comò abutre sobre a pomba, corno se fòras inimigo 
da minba raga; e depois de me roubares a doce com- 
panbeira que eu tinba escolbido, dilaceraste- me o peito 
e obrigaste-me a expatriar para nào ser victima da tua 
brutalidade nem testimunba do teu triumpbo. Tu ni hai 
patria ed amante rapita^ ó Àtiia dos rouxinoes! Mas 
as amarguras do desterro tornaram-me forte, e os teus 
immortaes gorgeios, que eu vinba, durante as longas 
noites da primavera, esentar de longc, fìzeram-me 
tambem meslre. Hoje, que eu podia raedir-mc com- 
tigo em qualquer genero de luctas, vinba desaGar-te, 
e acbo-te preso! Envilecido pela escravidào, até per- 
deste jà a nobre isengdo da nossa especie, que é nào 
sobreviver à perda da liberd&de! Consentes que te ali- 
mentem occultando o teu covarde apégo à vtda com a 
desculpa banal de que te mettem o comcr no* biro ! 
Que fizeste das unbas com que ferias teus irmàos? Por 
que te nào serves d ellas para arrancar tuas proprias 
entranbas, libertando-te assim dos teus algozes? Oh! 
que se eu podesse quebrar-te-bia as prisdes para te 
disputar depoi^ a posse d'aqueiia que o teu captiveiro 
me entregou scm combate! Mas que importa que mor- 
ras na gaiola ou fora d'ella, se eu me vingo rouban- 
do-te a esposa que tanto amavas, saboreando à tua 
vista as deiicias do meu triumpbo, e dizendo-te que 
a vinganga é mais doce do que a semente do linho e 
as dormideiras amassadas com sangue!» 



VI 



cantor vin^attvo foi aqui interrompido por uma 
especie de rugido doloroso que soltàra o ultrajado 
amante. A gaiola e o ramo que a sustinba trcmeram 
com a violenta sacudidela com que a avezinba inves- 
tiu as grades. A desleal esposa fugiu aterrada, receian- 
do-lbe as iras se porventura elle conseguisse libertar- 
se. capti vo, porém, estacou de subito, comò tendo 
mudado de»resolugào; e, depois de meditar um pouco, 
subiu a uma das varinbas que Ibe serviam de poleiro 
e dispoz-se para cantar. A nossa alcgria foi grande, 
mas durou-me pouco a mim. babito da solidào ti- 
nha-me corno que ensinado a iinguagem das aves, e 
eu traduzia com facilidade os seus cantares. 

rouxinol tomou uma posigdo grave e digna, co- 
mò quem se preparava para tratar nobremente a sua 
causa. Alizou as pennas que tinba em desordem por 
causa das ultimas commogòes; limpou o bico de am- 
bos OS lados contra o poUdro, comò que para o afìar; 
olbou para a janelia onde nós estavamos, a fim de 
assegurar-se de que tinba testimunbas conscienciosas ; 
mediu com olhar desdenhoso o rivai, quo pasmado o 



contemplava; e, depois de por varias vezes alongar a 
vista para o mais espesso das ramadas, procurando 
talvez a fugitiva infìel, preludiou os seus primeiros 
cantos. Ao principio eram notas soltas e sern nexo, 
fragmentos ae poemas differentes, musica varìada mas 
sem unidade, que o artista exhibiu comò para expe- 
rimentar a voz. Pouco a pouco veiu vindo a ordém e 
a barmonia; percebia-se que elle estava estudando, 
compondo e corrigindo a sua composigào, corno o 
poeta antes de publicar os seus ultimos versos. A fi- 
nal, jorrou comò uma torrente de melodias o prologo 
da sua bistoria, em que respondia assim ao seu odiento 
rivai: 

VII 

«Ó cedros saudosos da fonte das Lagrimas, ó ecbos 
do penedo da Saudade, ó loireiros gioriosbs, ó chou- 
pos e saigueiros do Mondego, ó vós todos que tantas 
vezes me embalastes em vossos raraos odorantes, e 
que fostes sempre os fieis confidcntes de minbas alc- 
grias e trìstezas, guardac perpetuamente a memoria 
do feito mais covarde que jàmais se deu desde quo 
ba rouxinoes! Dizei às geragòes futuras que aqueiie 
cuja voz foi tantos annos alma de vossas ramadas aca- 
bou n'uma prisSo, vii e affrontosamente offendido pelo 
mais indigno e mais fraco de todos os entes que ves- 
tem pennas! — E ousas tu, ó miseravel insultador de 
captivos, ó roubador de csposas indefesas, ó vilào quo 
desafìas os que nào podem defender-sc, ousas tu di- 
zer que és meu discipuio e que aprendeste commigo 
teus desentoados cantos?! Pois bem! Até em meu triste 
captiveiro acceito o teu repto. Nào posso, porque m'o 
impede a gaiola, medir comtigo a aurcza das minbas 
unnas e do meu bico; mas tenbo a voz livre comò tu. 
Canlemos, pois! E que aquella que me desamparou na 
desgraga para seguir a tua prosperidade possa ouvir 
OS meus ultimos hymnos, porque te juro que morrerà 
arrependida de me baver deìxado. Desgragado! Cc- 
gou-te a paixào e o odio ao ponto de me caiumniarcs 
tao atrozinente! Julgas que um fìlbo daliberdade, da 
luz e do amor, o maior poeta que Deus creou, o unico 
artista que aprende so comsigo e sem auxilio de mes- 
tre, ente que està mais porlo do ceo, cuidas tu que 
póde viver cscravo dos bomens? Jàmais! Eu nào ac- 
ceito destino que elles me impozeram, porque so o 
Creador podia impor-m'o. Esperava morrer de desos- 
pero, mas essa morte é indigna da creatura. Morrerei 
cantando, e morrerei digno de mim e da nobre fami- 
lia de quem venbo. Tu nào pertenccs à minba raga; 
gerou-te uma vii toutinegra e uin obscuro pintasilgo-7 
ìmitadores servis de meus immortaes hymnos. — E 
verdade que te puni outr ora pela audacia com que 
pretendeste usurpar-me aquella que eu tinba bonrado 
com a minba escolba; e se hoje me fosse dada a li- 
berdade nào te deixaria vivo por novamente m'a te- 
res disputado. Mas ba uma Providencia que castiga os 
maus. Quem insulta os desgragados é um miseravel 
fora da lei commum. Se tivcres fìibos da amante que 
me usurpas, vel-os-has devorados pelas cobras; e se 
algum sobreviver sera para me vingar, roubando-te 
incestuosamente sua propria màe, e fazendo-te expiar, 
na tua vergonbosa e inulil velbice, os nefandos crimes 
da tua covarde virilidade!» 

(Continua) F. Gombs de AHoanr. 



LUXO E MAGNIFICENCIA DA CORTE 
DEL-REI D. JOÀO V 

I 

Nào fòram as riquezas do Brasil, comò ere muita 
gente, movel que inclinou animo dei-rei D. Joào v 
ao amor do luxo. Esse amor desenvolveu-se n'elle tao 
precocemente corno em el-rei D. Affonso v. Houve en- 



ARCaiVO PITTORESCO 



tre csles dois monarchas notaveis poDtos de Bimilban- 
£a. Ambos amaram a fausto qaasi deade o ber£o. A 
ambos lan£ou està incliDagQo fatai nos excessoa da 
prodigalidade. Um e oulro, finalmente, EeDtÌram-ae 
impelìidos para as aventuras por seu caracter caval- 
leiroso. Esles Bentìmentos e inclinacfics, sendo iden- 
licos na essencìa, obraram de modo diverso, pela dif- 
fcrcDca das epocliaa, pclas alterasOes que o tempo vae 



operaodo nas idéaa e nos costiunes. D. Alfonso v dis- 
sipava OS bens da coroa para enrìquecer os fidalgos, 
e corria a quebrar lanj^ em Africa para saliefazer o 
seu animo aventuroso. Bl-rei D. JoSo v exhaurìa os 
cofrcs do eslado para oruar'os templos e locupletar o 
tbesouro do papa; e quando Ibe .assomavam ao espi- 
rìto veleidades cavai lei rosas, divagava de noite pelaa 
ruas de Lisboa em myslerioso disfarce, buscando avcn- 




Coche de gsta del- 



turas cm que se experimenlasscm o valor do seu brago 

e a fina tempora da sua espada. 

Ainda saiigravam abundantemenle as feridas aber- 
tas no cora^ao do reino peias guerras da restaurammo da 
nossa indupendencia e da succeasao da corca de Hespa- 
nba: atnda cscasseavam os recursos necessarios para 
acudir às mais urgentes despezas do eslado, e jÀ ei- 
rei D. Joao V, no vcrdor dos annoa e novel no tbro- 
no, dispendia Ho largamente em todas as oslentagóes 
da realeza, comò se livera os seus cofres repielos de 
oiro e saiisfeitas as necessidades publicas. 

IVesl'arte prcsenciou o pali! um triste cspeclacalo 
durante alguns annos, logo que o jovcn soberano em- 
(lunliou sceptro. Ao passo que crcsciam cxlraordi- 



ite as despezas da casa rcal, naa so pelo au- 
gmenlo da pompa e apparato uaa sotemnidades da 
corte e nos prestitos reaea, mas lambem pelo muito 
que el-rei gastava em obras nos seus pagos, e em 
feslividades religiosas, a que sempre se mostrou af- 
feÌGoado, padecia o servigo publìco em assumptos de 
gravidade, e até com quebra no decoro nacional, por 
faila absoluta de dinheiro. 

As minas de oiro e de dìamantes do Brasil, cujo 
descobrimenlo leve princìpio no firn do reinado de D. 
Fedro ii, nSo poderam acudir com promplo remedio 
a tao grande desequilibrìo na fazcnda pulilica, nflo 
olislanle as avultadas riquezas que de si ian^aram so- 
brc Porlugal quasi desdc o come{o da sua cxplora^ùo. 



ARCaiVO PITTORESCO 



lì comò nào succederla assim, se D. Joào v requiotava 
em iuxo e maguificencia, e, por conseguinte, tripli- 
cava as suas despezas, ù, mafleira que essas footes au* 
rìfcras e diamantinas derramavam as suas preciosida- 
des no rcal tbesouro? Mas tal era a possanza d*aquellas 
minas; tanto parecifi quererem compctir eoi prodiga- 
lidades com o monarcha portuguez, que, durante al- 
guns annos, deram ineìos para tu^o, abundaotes meios 
para as despezas correntes, para inuitos e importan- 
tissimos melijoramentos publicos, e, em 6m, para sa- 
tisfagào de todos os capricbos da vaidade do soberano. 

Pois que tocàmos nVsta cbaga, pela qual se fez mais 
conhecidct e celebre o reinado de D. Joao v, pede a 
justiga que se diga, em homeoagem ò. verdade, que 
governo d'este soberano se occupou com fervoroso 
empenho, durante um longo periodo, em promovcr 
todo genero de melhorameritos.que n'aquelles tem- 
pos mais podiam concorrer para a prospcridade de um 
paiz. 

As immonsas riquezas que n'essa epocha nos vie- 
ram do Brasil nOo foram todas consumidas improdu- 
clivamente. Nao foram transformadas sómente, corno 
em geral se apregoa, nas obras de Mafra, nas bullas 
da erecQào da patriarcbal, em donati vos a inflnito nu- 
mero de egrejas, e cm cercar o throno real de esplen- 
dores cada vez mais deslumbrantes. Serviram tambem 
para grandes emprezas de abertura de canacs, em-que 
figuram, entre oulros, a chamada valla da Azamhuja^ 
que ia ale Rio Maior, e o Tejo Novo, a mais gran- 
diosa obra bydraulica que tem sido cmprchendida cm 
Portugal. Serviram para a conslrucQao de innumera- 
veis pontes e das principaes eslradas do reino, recons- 
truidas ou reparadas nos dois reinados seguintes, e 
quo a final, por nosso desleixo, vicram a caìr em 
completa mina. Serviram pani a crcayfio de inipor- 
lantes estabelecimenlos fabris e para a inlrotluccao de 
iudustrias novas; para a restauragào da marinba de 
guerra; para a fundagao e manuten^-ào de acadomias 
e de varias escbolas. Serviram, em (ìm, para estas e 
para muitas mais coìsas uteis, umas que ao diante se 
annullaram ou porderam, por effeito da dccadcncia e 
desordcm quo se introduziram em todos os ramos da 
administragào do estado nos ultimos nove annos do 
reinado de D. Joao v, cm que eslo soborano esteve 
paralytico, oulras que, em razao das reformas com 
que se estreou o governo dei-rei D. José r, vieram, 
no decurso do tempo, a ser attribuidas ù. patriotica 
iniciativa do marquez de Pombal. 

Agora, que pagàmos este tributo de imparcialidade 
à memoria de um rei que tem sido julgado por uns 
com excessiva lisonja, e por oulros com dcmasiada 
severidade, volvendo ao assumpto de que nos afaslà- 
mos, vamos, nao cxpor um quadro bem delineado, 
mas sira indicar simplesmente alguns casos em que 
se palcnlearam com mais vivas córes a vaidade dei- 
rei D. Joao v, e seu amor desenfreado do luxo e da 
ostentagao. 

(Continua) I. dk Vilhema Barbosa. 



WALI DE SANTAREM 



ULTIMO ARADE 

Quao longe eslava jà o imperio sarraceno da Hes- 
panba da sua primitiva ^randeza e do seu antigo es- 
plendor! sol do dominio islamita pendia para o 
occidente, e o seu occaso afogueava-se no rubor do 
sangue derramado em discordias civis. Quem dirla que 
essa f^ixa do Andaluz, mera dependencia do Maghreb 
africano, era o que restava d'esse formidavel imperio 
Occidental, que, irradiando de Kordova para os Pyre- 



neos e para as Asturias, além atravessava os montes 
que separavam das terras do Afranc, e estabelecia 
a sua guarda avaogada dentro dos muros de Medina 
Narbonna, corno os cbronistas arabes chamam à an- 
tiga capital da Gallia Narboneza, do outro lado com- 
prìmia nas agruras selvaticas dos montes de Al-Djuf, 
corno elles dizem tambem, as debeis reliquias do im- 

tierio visigotbico, agrupadas em torno do intrepido Pe- 
ayo! Quem dirla que esse povo, ebrio de sangue e 
agitado pelas paixOes mais brutaes, era o mesmo povo 
culto cuja civiltsaglio resplendia com tao intensa luz 
no melo das trevas em que estava sepultada a Euro[m, 
quando Abd-er-Rabman iii, o fellz e victorioso emir, 
poeta mimoso, o protector das artes, o adorador do 
bello, recebia no seu palacio de Azzabrat, entre os 
esplendores do luxo, os embalxadores que Ibe enviava 
de Constanlinopla o imperador grego, o lierdeiro dos 
Cesai^s, quando nas universidades de Kordova entrava 
bumlldemente, para ouvir com mudo respeito as ligOes 
dos doutores musulmatios, o estudante Gerberto, que 
depois, com o nome de papa Sylveslre, devia gover- 
nar a egreja cbrislà e catbolica! Entào o imperio nra- 
bometano das Hespanbas era polente e forte, ainda 
que do lado septentrional jà urna larga zona Ibe fora 
arrancada pelo glàdio infatigavel dos foragidos das As- 
lurias, ainda que o brado de alerta das sentinellas 
avangadas do conde de Castella Fernao Gongalves jà 
podià ser ouvido nos muros de Toledo, ou Tolaitola, 
corno OS arabes diziam, a cidade sempre inquieta e 
buligosa, e sempre querida dos kalifas. Mas o grilo 
de guerra dos cavalleiros zenelas da guarda do emir 
fazia descórar os mais intrcpidos entre os guerreiros 
da Cruz, e para o lado do sul as suas bandeiras viclo- 
riosas tremulavam na Africa revolta, e as tribus do 
deserto curvavam-se respeitosas ao ouvirem pronun- 
ciar seu nome. Senhor do Andaluz e do Magbrob, 
cibando com desdem para os chrislàos que ibe tumul- 
tuavam ao norte dos seus dominios sem ousarem ul- 
trapassar a fronteira tragada pela cimilarra do emir, 
olbando sem inveja para o tbrono dos kalifas do Orien- 
te, a cuja altura ergmlra o seu solio Occidental, Abd- 
er-Rabman m, orgùlboso da sua nào interrompida pros- 
pcridade, podia exclaraar com ufania: «A este imperio 
consolidado pela minba niào poderosa assegura a Pro- 
videncia rcsplandecenlc immortalidade!» 

E, comtudo, seu reinado foi o ponto culminante 
do poderio e da civilisagào musulmana, ponto culmi- 
nante onde nào se dcmorou um momento so, come- 
gando logo, logo a desabar com a rapidez de urna 
avalancba pelo pender da decadencia. Debalde o bad- 
jeb El-Mansur, levando o terror e a assolagao ao scio 
das monarcbias cbristàs, fiizendo recuar todos esses 
godos impeluosos dianle dos relampagos da sua es- 
pada, illuminava com o esplendor da Victoria os ullì- 
mos dias da dynastia dos Ommyadas; a sentenza es- 
lava lavrada, e nao bavia coisa alguma que Ibe podesse 
adiar a execugào. imperio musulmano da Hespanba 
ia succumblr; linba dentro de si mesmo o germcn da 
dissolugào — despolismo. Quando aos despotas intel- 
ligenles succcderam os despotas idiotas; quando, co- 
mò na familia dos Merovingios em Franga, se senta- 
ram no throno kordovez reis faineanis, em nome dos 
quaes governavam tambem esses maires da palais 
arabes, que se cbamavam hadjebs^ entào póde-se ver 
corno despotismo em putrefacgào produz a anarchia, 
e comò da anarchia brota a morte de urna nacionali- 
dade. Os walis arabes sublevaram-se por todos os la- 
dos, cada provincia se transformou em reino, cada ré- 
gulo quiz governar so; comò succede sempre em casos 
similbantes, houve um rei imprudente ou mais exal- 
tado que cbamou os estrangeiros em seu auxilio; fo- 
ram estes OS almoravides de Africa, que de auxiliares 
em breve se tornaram dominadores. Assim tinbam es- 
tabelecido a sua supremacia em Hespanba os arabes 



ARCHIVO PITTORESCO 



de Tarik e de Musa, simples alliados do conde Juli&o 
de Sebta e do partido dos Glbos de Witiza. Mas o go- 
verno almoravide nào se estabeieceu sem grandcs lu- 
ctas. Andaluz tornou-se tbcatit) de urna guerra feroz 
entre irmàos; muitas vezes os velbos adversarios da 
ra^a musuimana foram cbamados pelos cbefes dos dif- 
ferentes bandos para favorecerem a sua parcialidade, 
e assim o ìnimigo naturai, o cbristào, era introduzìdo, 
pelos proprios que tinham interesse em desvial-o, no 
ainago do imperio de Abd-er-Rabman. 

A ponto de complicar estas discordias, surge na 
Africa a seita e a dynastia dos almobades ìniuiigos 
dos almoravides. Entào divìde-se o Andaluz em ceu- 
tenaros de fac^óes; é diilicil distinguir o amigo do 
ininiigo. Està fortaleza toma voz pelos almobades, n'a- 
quella tremula ainda o pendào dos almoravides; esle 
wali quor a sua indcpcndencia, aquell'outro suspira 
|>ela apparJQào de algum rarho ignorado da dynastia 
ommyada. E entretanto os quatro reinos christios, Por- 
tugal, Lcao, Aragào e Navarra, sera deixarem de ser 
dilacerados pelas discordias internas, vao ampliando 
sempre o seu territorio, ampliagfio que està scudo para 
alguns d elles uma condigào esscncial da sua existen- 
eia. A invas5o cbristà, ameagadora e triumpbantc, a 
alnrgar cada dia as suas fronteiras; a discordia civìl 
a banhur de sangue musulmano os ferteis plainos da 
Andaluzia e do Al-Gbarb, sào os dois abutres que pai- 
ram sobre o cadaver ainda palpitante do antigo impe- 
rio kordovez. 

Entre os differcntes reis nazarcnos que abriam com 
o seu montante, cada vcz mais ao sul, novas exlrc- 
nms ao seu territorio, um bavia, cujo nome inspirava 
profuudo terror aos musulmanos. Era o rei de uma 
nova monarcbia desabrocbada no occidente da penin- 
sula, era o rei de Portugal. tyranno Ibn-Errik, no- 
me pelo qual as cbronicas arabes dcsignam sempre o 
nosso bcroico Afifonso Henriques, nào Ibcs deixava um 
momento de socc^go, e quasi que nao bavia mcz em 
que seu pendào nào tremulasse nas ameias de mais 
alguma fortaleza rendida. Os arabes do Al-Gbarb es- 
cutavam com terror ao longe o tro^ear do cavallo de 
Ibn-Errik, viam relampaguear nas "mbras o seu rude 
montante, e a reaiidade quasi sempre seguia o sonbo. 
Um grito de Victoria, soltado no adarve de uma for- 
taleza surprebendida, assignalava a cada instante a 
apparigào de Affonso Henriques, subita e fulminante 
corno um raio. Era um leào na batalba campai, era um 
tigre nas surprezas nocturnas; era verdadeiramente o 
aujo das vingangas do Omnipotcnte, o anjo Azrael das 
crengas mabometanas suicando com as suas a/as si- 
lonciosas a profundeza da noite, ou apparecendo em 
pieno dia, tcrrivel e resplandecenle, a ceifar com a 
sua espada a lugubre seara dus campos de batalba. 

E, comtudo, Affonso Henriques tinba adversarios di- 
gnos d'elle. As bostes musulmanas das fronteiras con- 
«ervavam todo o seu vigor antigo; sabiam militar os 
seus cbefes, e entre outros o nome de Abu-Zakaria, o 
wali de Sanlarem, era bem conhecido entre os cbris- 
tàos pelas terriveis algaras com que pagava as cor- 
rerias do joven monarcba de Portugal. 

(Continua) M. PizrnBiRO ChaoaS. 



LEALDADE E VALOR 

Um dos mais brilbantes feitos que ìllustraram o 
nome e o valor portuguez, na expulsào do exercito 
francez d'este reino, era 1811, foi, sem dùvida, a be- 
roica defensa da praga de Campo Haior. Seudo ata- 
cada por forgas numerosas, sob o commando do raa- 
rccbal Mortier, póde aquella praga defender-se com 
espantosa beroicidade, padecendo por espaQO de al- 
guns dìas (desde 12 até 21 de margo do refendo anno) 



08 rigores de um apertado sitio. Campo Mator a final 
rendeu-se, mas bonrosamento; e tanto assim, que o 
iniraigo nào oegou a coragem dos defensorcs, segundo 
consta das publicagOes da epocba. 

Como testimunbo da lealdade e heroismo de scus 
benemeritos defensores e babitantes, os cinco gover>- 
nadores do reino, em nome do principe regente (de- 
pois el-rei D. Joào vi) determinaram, em portarla de 
abril, nào so gratificar toda a guarnigào da praya e 
promover o governador (major de engenbeiros José 
Joaquim Talaia) e juiz de fora (dr. José Joaquim Car- 
neiro de Carvaibo) à patente e ao cargo immediatos, 
por seu brioso procedimento era tal e tao crìtica cir- 
cunstancia, mas tambem que a villa d'alli em diaiitc 
se denominasse a ìeal e valorosa villa de Campo 
MaioTy e que por baixo do escudo das suas armàs 
se inscrevesscm as palavras lealdade e valor ^, 

B. A. 



A LAPONIA 



Na extremidade septentrional da Europa estendc-se 
um paiz tristemente celebre pelos rigores excessivos 
do seu clima. Essa regiào, em que a natureza é tao 
avara, que mais parecc madrasta que màe, chama-se 
Laponia, 

Banba-a pela parte do sul o golpbo de Botbnia; 
limila-a pela parte de lèste o mar Branco, e por todo 
lado do norte cercam-n'a os gelos eternos do oceano 
Glacial Arctico. Os reinos da Succia e Noruega, e a 
Finlandia, provincia russa, sào os estados com que 
confina pelo lado do sul. Conta de comprimento, na 
sua maior extensào, que é de sudoeste a nordeste, 
300 legoas, e obra de 100 no ponto em que tem mais 
largura. A sua superficie é estimada em 10:000 le- 
goas geograpbicas quadradas. 

A Lapouia é pouco accidentada. seu territorio é 
quasi todo plano; os montes sào baixos e, em geral, 
separados uns dos outros. Apenas uma cordiibcira per- 
tencente aos Alpes Scandinavos, e cujos pinaculos se 
elcvam 800 melros acima da superficie do mar, Ihe 
borda as fronteiras or^identaes. granito, o gneis * e 
alguns melaes sào as principaes materias, ao que pa- 
rcce, que entram na formagào d'estas montanbas. To- 
davia, em torno d'ellas encontram-se calcareos e scbis- 
tos. ferro é o minerai que mais n'ellas abunda: 
mas dizem que tambem mostram cvidonles indicios 
de occultarem em suas entranbas ricas minas de cobre 
e de prata. 

Gortam e regam a Laponia diversos rios. Varios la- 
gos e extensos pantanos Ibe occupam muitas legoas 
de terreno. 

D'entre os rios mencionaremos so os que sào no- 
taveis por alguma particularidade. Alten ou Alata 
atravessa as montanbas occidentaes, precipitando-se 
do alto de elevadas rocbas e correndo de cascata em 
cascata. Tana, afamado por seus corpulentos e sa- 
borosos salmOes, serve em parte de raia à Russia e 
à Noruega. Touloma fórma uma grande e formosa 
cataracla antes de banbar a cidade russa de Kola. 
Torneo vae langar-se no golpbo de Botbnia depois de 
ter formado em seu curso impetuoso muitas e visto- 
sas cascatas. Remi rivalisa com o antecedente na 
belleza e numero das cacboeiras. 

Os maiores lagos sào: ao norte o Enara, semeado 
de pequenas ilbas, tendo de comprimento 23 legoas 
e de largura 12; e a lèste o Imandra, com 21 legoas 
de comprìdo e 5 de largo, o qual desagua no mar 
Branco. 

Todos esses rios e lagos, dispersos em uma regiào 

1 Vld. Oaxeta de LUboa, n.« 98, do 35 de abril 1811. 
^ RochA primitiva composta dos metmov elementos qne o granito. 
£ urna modifica^&o d'ette. 



ARCStVO PtTTOIffiSCO 



extremamenle fris e quasi deserta, aào faltos de anì- 
magfio, e raras vetca apparecem viajantes eatrangei- 
ros nas auas margeDs. TodaTÌa, offerecem preciosos 
recursos aos pobres que ii'ellea vao lan^ar as suas 
redes; ao intrepido fìnlandez, que procura submetter 
a sua voDtade essas massas de agua, obrigando-as a 
cODduzir aE niadciras que foi cortar aos bostjues do 
sertao; ao induatrìoso sueco, modclo de actividade e 
paciencia, que edìGca as suas azenbas e forjag junlo 
dos rìos e lagos para Ihes aproveitar a corrcDte corno 
motor, Qu eimplegnieute as aguas para gasto das ofii- 
cinas. clima da Laponia, ape»ar àt frigidissimo, nSo 
é tfio inbospilo pelos rigores do frio corno o dos ou- 
tros paizes eoi egual latitude. Em quanto que n'estes 
nfto se desfaz completamente a sua cobertura de gelo 
atites do firn de junho, os portos da Laponia descon- 
gclam e tornam-se acccssiveis no Gai ae maio. Està 



vantagem, porém, é neutralisada até certo ponto pelos 
espessos nevoeiros, que vem sem intemipcSo após o 
derretimenlo dos geios, envolveodo em sombrio manto 
de humidade todas as leiras visinbaa das costas do 
mar. Portanlo, apeoas no interior do paiz, ao abrigo 
dos ventos maritimoB, e em urna elcvac&o que nào 
seja superior a 170 metros, se dà a cultura ae algu- 
mas especies de cercaes; pois que so ahi se experi- 
menta loda a foi^a do calor accumulado durante um 
longo dia de seis semanas. 

Ncgou a natureza a està regimo os eocantos e do- 
curas da primavera. Ao cabo de mais de oito mexes 
de carrancudo inverno, em que o sòl nunca deixa ver 
OS aeus eepleodores, vem rapidamente o vergo dar ù 
terra luz e color, vida e alegria, durante sesaenta e 
seis dias. N'esle curto cspago de tempo vestem-se os 
roontes e cobreffl-se os valles de mimosa vcgetagSo. 




nebe[)tam, Horescem e dao fnicla as raras arvores fru- 
ctiferag que os rigores do inverno deixam mcdrar. 
lavrador prepara a terra, semeia e colhe a cevada, a 
aveia e o centeio, unicos cereaes a que a brcvidade 
da boa esta^ào dà o' tempo necessario para que se 
deseovolvam e amadurecam. ^ 

Nào sào sòmente os gelos, um Trio intensissimo e a 
escurìdiìo dos dias, o que alli faz o inverna tao triste 
e feio, qu3o penoso de supportar. Outro flagello nào 
menor, constante apanagìo do termo da esta^ào in- 
vemosa, f: a violencia dos ventos, desordem atmos- 
pberica produzìda pelo derretimenlo dos gelos. 

Para compensar as trìstezas aue aos lapOcs deve 
causar tao longa aiisencia do sol, concedeu a Provi- 
denria a taes regióes as aureras boreaes, essa luz que 
gerla tdo poetica e tao beila comò a tua se os gelos 
polares nfio obstassem a que se reflectisse na super- 
ficie tranquilla e cristallina dos lagos, nas cgpnmas 
e vapores das cascatas dos rios, e nas relvas e flori- 
nbas dos prados '. 

I Tld. ■ p*g. 14S do vai. TI, e ■ pie, 7 e S do voi, vii, oiiiirllK« 



A Laponia su é cultivada em certas partes. .Mém 
dos cereaes rcfendos, os llabìtantes cultìvam a batata, 
cenoura e couvc. D^o-se alli algumas especies de ar- 
vores fructireras de oulros paizes da Europa; mas os 
seus fructos nào chegam a amadurecer. U ruims or- 
clicus e rul/xts chamirrosus, duas especies de grò- 
selhas, sào os unicos arbustos indigenas que produ' 
zem fructos de agradavel sabor. Ouanto a arvores sjl- 
vestres, sào poucas as variedades. Os piobeiros e o: 
abelos sào as que mais abundam, ora dìspcrsas ou 
formando de longe em longe pequenos grupss, ora 
reunidas em bosques ponce densos, 

Nào 6 mais rica a Laponia em planlas rasteiras. E 
mui restricto o numero de variedadcs que possue, de 
sorte que a principal pastagem de que se alimentam os 
seus rebanhoa de rangiferos, ou rennos, consiste em 
urna especie de musgo, cujas expansfles folinceas co- 
brem, em algumas paragens, grande vaslidào de Eer- 
renos. musgo islandico, que a medicina emprega 
coni proveilo no ti-atamenlo das molestias de peito, 
cresce n'aquelle pah por loda a parte. 



ARCelVO HTTOBESCO 




FrooUri* Sa «ct^Jk dfi 8. PnnclMO, t 



BGREJA E CONVENTO DB 8. FRANCISCO 



Dos graiides moDumcntos disse um grande cscriptor 
que rcpreseolam dììo tanto o sentir individuai dos ar- 
chiicctos, comò as idéas soctaes das epocbas em que 
foriiin constniidos. 

iteOectcm, coin effeilo, as artes o espirilo da civi- 
lisafàc que as sustenta e promove; e a cada urna de 
suaB partcs iotegranles, a cada povo ou sociedade tra- 



duzem-lhe o principal caracler, a fei^ào proeminente 
por que mais se distingue. Asaim è que oos cdìflcios 
monaelicos se dusenhana os geaios das religioes que 
OS fundaram; as indoles das communidades que por 
longos seculos encheram de scus canticos os templos, 
ora silenciosos e desertos ; os penaameulos que os mon- 
ges herdavam aos que ibes gobrevjviam, comò aa cel- 
las que se vào desmoronando em lamentaveis ruinas. 
Deixaram os jcsuilaa em muitas fabricas a vastid&o 
de suas amliìcóea e a pouca luz de seus systemas. Os 
domìiiicos esculpiram no marmore signacs maoifes- 
tos do csmoro e do gosto com que se applicavam ao 



10 



ARCHIVO PITTORESCO 



estudo das letras e à cultura das aiies. Os francisca- 
nos, ein fìm, pozeram em suas construcgdes a austc- 
ridade da primitiva regra de Assiz ; e se, por mercé de 
reis e poderosos, n'algumas chegaram a ostentar gran- 
dezas, nunca de todo Ihes escureceram estas aquelle 
originario attributo. 

Taes sào as reflexOes que nos occorrem quando con- 
templùmos/a egrcja de S. Francisco em Evora, e at- 
tendemos corno n'ella a magestosa graudeza e a sim- 
plicidade extrcma se alliam em admiravel concordane 
eia, nào so no exterior, nos arcos esguios e elegantes 
do portai, nas fachadas erguidas sem outros ornatos 
mais que as ameias e corucbéos, sendo tambem no 
interior, na franca amplidào do tempio, e na maravi- 
Ihosa altura em que a abobada se estriba sobre del- 
gadas paredes. 

Suscitam-se-nos, porc^m, aqui outras idóas. espi- 
rito, cedendo ao magico influxo da cscassa luz coada 
através dos vidros das frestas, deixa-se enievar em 
profunda mcditagào, e, evocando raeraorias do passa- 
do, povóa a tribuna, o còro e a nave de nobrcs figu- 
ras de reis; de graciosas damas e gentis cavalloiros 
adornados das luzidas galas da corte; de gravcs e 
austeros frades vestidos de borei e cingidos de espar- 
to; e do bom povo, simples e devoto, n'aquelles tra- 
jos singelos que se perdcram coro o crer e sentir dos 
tempos que foram. Dào assumplo a longo phantasiar 
as muitas e interessantes tradigoes que de geragùo em 
geragào chegaram até ao presente. 



II 



Nào se sabe ao certo o anno da fundagào do con- 
vento de livora. Indicam vagamente os escriptores da 
ordem a data de 1224, que, por falla de mcmorias 
autbenlicas, nem se prova, nem se contesla. docu- 
mento mais antigo de que temos noticia é uma doa- 
gào feila aos religiosos em 1245 ^ 

Anda em tradi^ào que, sendo ainda vivo o patriar- 
cha S. Francisco, sairam tres religiosos dos convontos 
da Galllza, da mesma sorte que, pouco tempo aules, 
em 1217, linbam vindo de Italia fr. Gualter e fr. Za- 
charias, e que, assim comò esles fundarara os con- 
ventos de Lisboa e Guimarftes, e talvez oulros das pro- 
vincias do norte, instituiram aquelles a casa de Evora, 
a primeira, segundo a mesma tradigào, d'entre Tejo e 
Guadiaua. 

Fora do tempio, entre a capella dos ossos e a casa 
do capilulo, està uma urna grande .de marmore, e 
lì'ella a seguinlc inscripgào com as datas da fu{ida(;ào 
do convento e da trasladagào dos ossos dos fundadores. 

Christiferi quondam vemunt tria pignora Patris 

Galleci patria y surgil et ista domus, 

Jfjneus hinc fervor Francisci impleverat illos, 

Tanti ignis cineres clandit utcrque lapis. 

1G29, et venere 1224. 

Està inscripgào resolvcria todas as dùvidas se nao 
fosse tao recente, e se um dos clironistas de S. Fran- 
cisco, pretendendo auctorisal-a, nfio deixasse boas pro- 
vas da uenhuma fó que merece. Eis aqui em poucas 
palavras a lenda referida por fr. Jeronymo de Beloni. 
Fallecidos os fundadores, foram cnlerrados no cemiterio 
commum do convento, e comò seus reslos eslivessem 
ahi expostos a continuos piedosos furlos, pela grande 
devocào em que os tinbam os fìeis, assentaram os reli- 
giosos trasladal-os para o claustro, onde occultamente 
OS dopositaram n urna paredc. Com o decurso dos an- 
nos se perdeu a memoria do sitio; e querendo desco- 
bril-o em 1629 o guardiào do convento, fr. Diogo de 
Monroy, mandou cantar uma missa a Santo Antonio, 
com sermào analogo ao que pretendia; e em meio 

1 Allegada por fr. Jeronymo de Bdem na Chronica Seraphiea, 
parte i, pag. S8. 



d'ella, e sendo grande o concurso do povo na egreja, 
caiu por sì, na capella d'aquelle santo, a parede que 
entesta com o claustro, e deixou patentes os ossos dos 
fundadores. 

jesuita Manuel Fialbo, no seu vasto repositorìo de 
noticias contestaveis, que intitulou Evora illustraday 
e exta na bibliotheca d'està cidade em quatro volu- 
mes manuscriptos, referiu tambem o mesmo milagroso 
successo. Accrescentou, entretanto, nào sabemos se in- 
genuamente, se para que os franciscanos se nào ris- 
sem d'elle, que ndo era para admirar o arrombamento 
da parede, fazendo Santo Antonio tantos milagres de 
arromba. 

No mesmo anno de 1629 se collocaram os ossos 
dentro da urna que hoje os guardam, em certo logar 
do claustro, e d'ahi foram mudados em 1647, por 
devogao parlicular do bispo de Fez, D. Bernardino de 
Santo Antonio, para uma capella da egreja. Ignora- 
mos a epocha em que acertadamenle os removerani 
do tempio para o silio onde se conservam. 

(Continua) A. Filii>pe Simòks. 



A LAPONIA 

(Conclu8&o. Vid. pag". 7) 

A fauna da Laponia nào ó tao pobre comò a sua flo- 
ra. As ordens mais importantes do reino animai, e par- 
ticularmente da classe dos mammiferos^ acbam-se allì 
represenladas por especies nào menos dignas de atten- 
gào que as que povoam as regióes selvagens da zona 
torrida e da zona temperada. Mencionaremos, entre ou- 
tras, as seguinles: boi almiscarado fovibos nwschaimj^ 
animai intermediario enfre o boi e o carneìro, mais pe- 
queno que o primeiro e maior que o segundo, devendo 
seu nome ao cliciro de almiscar que exhala e de quo 
està impregnada a sua carne: o alce ou grà-besla i; o 
veado; o rangifer ou renno, representado na gravura 
a pag. 8; o urso branco; o lobo; o lemmingo; a raposa 
azul; a marta: o furào; a bermiiiia; a barda; o lagou- 
my; a lebre; a lontra; o castor; o glutào; a phoca; a 
morsa, eie. É pequeno o numero de replis, pois que pou- 
cas especies podem resistir às grossas camadas de gelo 
que cobrem a terra na maior parie do anno. A mesma 
causa afugenta as aves d'aqueila regiào. As prìncipaes 
especies que alli abundam pertencem à classe dos pal- 
mipedes. 

Raros animaes domesticos da Europa meridional po- 
dem supportar o clima da Laponia. Os bois, vaccas e 
carneiros foram alli intmduzidos ba seculos, e, gragas 
aos cuidados com que os lavradores os tratam, resis- 
tem à intemperie das estagoes. Porém o rigor do frio 
despoja os bois das suas armas passado pouco tempo 
depois que ellas chegam ao seu estado de completo 
desenvolvimento. As vaccas, qualquer que seja a cor 
que Ibes tinja o pello ao nascer, tornam-se alvas co- 
rno esse manto de neve com que a naluroza envolve 
; a Laponia n'aquelles invernos inlerminaveis. Sómente 
carneiro conserva os caracteres da sua raga, sem 
dùvida porque Ibe serve de egide a espessa là de que 
se veste. 

Por effeito d'aqueila sàbia lei das compensagOes com 
que a Providencia acode à bumanidade nos paizes onde 
menos parece favorecel-a, o rangifer ou renno 6 para 
OS lapOes que o camelo é para os arabes do deserto. 
Empregam-n'o na lavoira: a|)plicam-n'o ao tran sport e 
de passageiros e de generos, mettendo-o a urna es- 
pecie de carro sem rodas cbamado treno; bebem-lhe 
leite; comem-llie a carne; vestem-se com a sua pel- 
le, e aproveitam-lhe as armas para o fabrico de diver- 
sidade de utensilios domeslicos *. 

1 Vid. pag. 208 do voi. x. 

« Vid. pog. 397 e S98 do voi. m. 



ARCHIVO HTTORESCO 



11 



Bepois do rangifòr é o cdo, tdlvez, o animai mais 
util aos lapucs, pois que (ambem o erapregam na eoa- 
ducQào de passageiros e de generos. Para este flm é 
oonduzido o Ircnó por dois, quatro ou mais càes, con- 
forme peso que devem transportar e seguodo a dis- 
ta ncia que tem a percorrer. 

Os lapOes, aos quaes todos os povos scandinavos duo 
nome de /inn, eram deuominados lappes no seculo xir. 
Nos annaes da Russia s5o cbamados lapones. 

Reprcsentae um homem com metro e meio de altu- 
ra, membrudo mais que o pede a boa proporgdo, rosto 
lurgo, faccs encovad«')s, oibos pardos, mais pequenos 
que grandes, nariz e boca reguiarcs, barba pouco es- 
pessa e desegual, cabello preto e grosso, pelle amarci- 
lada e ennegrecida pelo fumo, e assim complctareìs o 
retrato de um niho da Laponia. 

Os viajautes que tem visitado cste paiz descrevem 
o caracter dos lapGes com as seguiutes pbrascs, nada 
lisonjeiras: Sao desconfiados, egoistas, avarentos, as- 
tuciosos, scrvis, deshumanos, sém affeigOes de fami- 
lia, deixando-se, em fim, arrebatar das paixues que 
facilmente os dominam. Da-sc comò causa de tao abo- 
minavel caracter, primeiramente o culto supersticioso 
0. sem moral que cste povo seguia até ao principio (io 
seculo actual, cm que a luz do cbristianismo come- 
gou a dissipar as trevas da ignorancia em que tem 
vivido; em segundo logar, a falla quasi absolutu de 
tralo com gente civilisada, entrctendo apenas relagues 
com maritimos rusticos e grosseiros, e com commer- 
ciantes àvìdos e pouco lisos em seus negocios; e, fi- 
nalmente, o uso immoderado da aguardeote. Todas 
estas causas tem, pois, concorrido, a seu turno, para a 
depravagào da indole e para a corrupQào dos costu- 
mcs d'aquolle povo. 

Agii, vigoroso e robusto, o lapào tcni babitos de 
nctividade: nuo recùa facilmente diantc dos obstacu- 
ios; e soffre com singular resignagfio e paciencia as 
priva^òcs, os rigores do tempo e os azares da fortu- 
na. Nfìo costuma sair do seu paiz, mas dentro d'elle 
faz lougas e penosas viagens, quer a pé ou nos trc- 
nós, quer embarcado, navegando em frageis Icnhos 
nos seus lagos e rios. Nào viaja, lodavia, por simpics 
divertimento ou curiosidade, mas sim para adquirir 
meios de subsistencia, ora indo a caga ou a pesca, ora 
ao córte de niadeiras nas florestas das montanbas. 
Aquclle que se considera rico, e tanto mais o sera 
quanto maior for o rebanbo de rangiferos que pos- 
i^uir, raras vezos deixa os seus lares ou as visiiilian- 
^as d'olles. Trabalba o lapao mais no eslio que no in- 
verno, porquo, além de se accumularem nVsse breve 
periodo do anno todas as litles da lavoira, precisa tam- 
beni aprovcital-o para fazer o seu fornecimento de peixe 
e decada para se alimentar e à sua familia durante a 
longa eslagfio invernosa, em que os gelos escondcm 
OS peixos afugentam a maior parte das aves para as 
rcgiùos monos frias. Conserva taes provisues seccan- 
do-as iU) fumciro. Està pratica, o rauito uso que faz 
do fogo para se aquecor e rosistir melhor a inlensi- 
dade do frio, e tambem a fórma e disposigào da sua 
babitacAo, que é conica, sem janelias e coni urna 
unica porla, tendo na parte superior do teclo urna 
aberlura para dar salda ao fumo, de que està quasi 
sempre elicla, ludo isto concorre para llie cnnegrecer 
a pelle, comò acima ohservàmos. 

idioma dos lapòes é um dialecto da antiga lin- 
guagem do paiz, corrompida, e mesclada de alìeniào 
e de bungaro. 

ramo mais importante do commercio de expor- 
tagào da Laponia consiste em pelles de diversos ani- 
maes, taes comò a marta, a lontra, o castor, o ran- 
gifer, etc. Das duas primeiras faz-se um commercio 
importante, tanto pela quantidade das pelles que se 
cxportam, comò pelo subido aprego e alto valor que 
Ibes dao na Europa e na Asia. 



A Laponia pcHencc parte a Suecia o parte à Russia. 
Pelos ultimos tratados cclebrados entre estas duas pò- 
tencias ficou possuindo a segunda dois tergos d'aquelie 
paiz. Na Laponia russa està a cidade de Arkangcl, si- 
tuada junto da foz do rio Dvina« É a capital d*esta pos- 
sessào da Russia, e, apesar de se acbar descatda da 
sua primitiva florescencia, ainda hoje é a priocipal ci- 
dade de toda a Laponia, e o centro do commercio ex- 
terno das regiues septentrionaes. 

I. DE VlJJlEVA BaBBOSA. 



FRUGTOS DE VARIO SABOR 

I 

HISTORIA DE UM ROLXINOL 
(Vid. pag. 3) 

vm 

Aqui parou um instante. Estava comò timisfigiirado 
I pela inspiragào e pela colera. A sua estatura parecia 
' ter crescido o dobro. outro nào respondia; tinba-sc 
' encolbìdo de envei'gonbado sobre o ramo, e fìtava os 

olbos pretos clieios de ira no terrivel adversario. Ven- 
I do-o parar, quiz replicar-lbe, mas o captivo interrom- 
; peu-o logo com urna aria, estridente de indignagào, 

brilbaiite de movimento e de rytbmo, e admiravel pela 

correcgào e pelo sentimento. 



IX 



«Este infame (dizia o preso), que me rouba e insulta 
através das grades da minha prisào, ativve-se tambem 
a interromper os meus subiimcs cantos?! Emmudece, 
ó louco, e sabe que a minba voz tem alegrado cinco 
primaveras e quatro outonos, em quanto que tu eii- 
tras apenas no segundo anno de uma exislencia in- 
gloriosa ! Eu lenbo vislo muitas vezes o bomem sns- 
pender o seu rude labor para escutar-me, e a mulber, 
atlrabida pelos meus gorgeios, ir procurar, debaixo 
dos arvoredos onde me ouvia, os mysteriosos sonbos 
do amor e da felicidade. Caiavam-se todas as aves, 
conimovidas (*om a melancolia das minbas saudosas 
endecbas; as agaas applaudiam-me rolando entre as 
quebradas; e a Ina enternecia-sc a tal ponto com a 
bistoria das minbas tristezas, que muitas vezes o seu 
pranto me orvalbava as pennas, e cu via ao romper 
da aurora as arvorcs e as flores cobertas das suas la> 
grimas! Tenho inspirado em milhares de coracòes a 
alegrìa, a magna, a paixào, a saudade, o desejo, o 
arrependi mento, e o gozo infinito de prazeres desco- 
nbecidos. Tenbo cantado, de en volta com os meus 
amores, os amores das plantas e dos rios, das aves 
e dos boniens, dos astros e dos anjos. Os meus poe- 
mas comprehendem o Genesis e o diinvio, a vida e a 
morte, o passado e as aspiragOes do futuro, a terra e 
eco. Desde o t'iolibri até Deus tudo tenbo exaltado 
e commovido com a poesia de meus sonoros liymnos, 
enchendo de saudades tudo que foi, de tristezas tudo 
que é, de dùvidas tudo que lia de scr. Quando os 
ecbos da minba voz percorrem os ares diz-me tudo 
quanto me rodeia que eu me rbamo gloria, inaravi- 
Iba, prodigio. — E tu quem és?» 



X 



Està ultima eslropbe foi cantada em trillos preci- 
pitados, brilhantes e rapidos, articulados com forgae 
paixào. 

I inspirado vate tinha na voz um riso diabolico 
' quando concluiu com a terrivel pergunta ao seu adver- 
' sario: «E tu quem és?» Depois de llie ouvir tiìo glorio- 
I SOS feitos, que podcria responder o outro desgragado? 



12 



ARCBIVO PITTORESCO 



Bateu as azas, piou lugubremeote, e afastou-se, corrìdo 
e humilhado, para o mais escuro da ramada. A amante 
chilreou tambem de eovergonbada, e veiu, saitaudo 
de ramo em ramo, poisar novamente ao pé da gaiola. 
captivo soltou um grito, grito de indigna^ao e ao 
mesmo tempo de triumpho. Dir-se-hia que se repre- 
sentava eatre os salgueìros o Barbeiro de SevUha^ o 
Alila ou qualquer outra opera dos rouxinoes. Tem-se 
cantado muitas vezes no tueatro de S. Carlos palavras 
arranjadas em musica absolutamente similhantes às 
que alli soltou o affrontado esposo; se havia differenga 
era toda a favor do rouxinol, que exprimia os seus 
sentimentos com maior verdade e cantava com mais 
aRnagSo do que os tenores. 



XI 



«Està perfida (cantou elle) toma ainda a provocar 
as minhas iras! Segue, segue o teu novo amador, esse 
bastardo deshonrado, que sobreviveu à vergonba de ter 
escarnecido um triste prìsioneiro. Segue-o! E em quanto 
cbocaros os ovos da prole adulterina, dìze-lbc que te 
caute as mascavadas trovas estrangeiras com que pre- 
tende mesclar o canto nacional de philomela, ou que 
te refira o modo vergonboso por que fugiu quando eu 
lance! na corrente d'este mesmo rio as pcnnas que o 
meu bico Ihe arrancou do peito desleal.» 



xn 



A femea carpiu-se aqui tao sentidamentc, que tive- 
mos piedade d*ella. rouxinol proseguiu: 

«Por que ficas? Nào vds que o traidor jà partiu? 
que se ausentou sem te esperar... que... quem sabe? 
quem sabe se comega jà o teu castigo? — que te dei- 
xou por nào querer sua altivez abatida na tua pre- 
senga? Ah! por que nào posso odiar-tef infiely eu 
ainda te amo!» 

Este admiravel trecho, estropiado outr'ora pelo in- 
glez Swift, extasiou-nos. Que vocalisagào, que fogo, 
que cxtensào de voz! Como a alma se revelava no 
canto, ardente e apaixonada! A misera esposa respon- 
dia com dolorosos gritos: «Perdào! perdào!» 



XIII 



rouxinol, tal qua! comò Carlos v no He^mani, can- 
tou: «Perdono a tutti! Sim, perd<>o-te, porque a mi- 
nba vida chega ao seu termo. triste captiveiro em 
que me acho, os desgostos que boje me ailligiram e 
OS esforgos que fiz para dominar a minba raiva esgo- 
taram-me as forgas. Assiste, pois, à minba morte, e 
vangloria-te porque morrò cantando. 

«ludo é silencio ao longe e ao perto; so a minba 
voz retine gloriosa no espago. Os musculos da minba 
larynge foram jà mais rijos que os de qualquer outra 
creatura; mas agora vao afrouxando, encolhidos pelo 
cangago da vida. A cotovia e o cocbìcbo, o tentilbào 
e canario, a pintarroxa e a toutinegra, o pintasilgo 
e melro, todos aprendìam commigo, emmudeciam 
todos quando os meus gorgeìos, variados e languidos, 
encbiam a natureza de voluptuosidade. Que elles can- 
tem na minba morte, se nos seus coragOes ba sensi- 
bilidade para as grandes desventuras! 

«Adeus, frescas e formosas auroras de abril! adeus, 
noites sercnas e perfumadas do florido maio ! Nào mais 
ouvireis minhas languìdas endechas, que fazìam pal- 
pitar OS mais duros coragóes! Estrellas das celestiaes 
campinas, prateados campos por onde discorre a lua 
enamorada, tapetes florentes do saudoso Mondego, 
florestas sombrias onde ndo entra a tempestade, ro- 
seiras da fonte pura onde se aninbou a minba longa 
felicidade, salgueiros que me tomastes credulo e con- 
fiado, creaturas bumanas quo tao dcslealmenle me en- 



ganastes e perdestes! adeus todos! para sempre adeus! 
Eu a todos amava e por todos cantava! A ninguem cau- 
sava damno a minba innocente liberdade; fieì-me dos 
bomens, escravisaram-me e mataram-me! Quando el- 
les sào assim para os passarinhos, comò serào para 
OS outros entcs?» 

XIY 

Enterneci-me de ouvil-o; olbei para Thereza evi 
que Ibe corrìam as lagrìmas em fio. 

— Soltemol-o, exclamei eu. 

— Um instante; espera ainda um instante! 

A avezinba proseguiu n'uma torrente de barmonias, 
de suaves tristezas e de mysterìosos delirios, que eu 
jà nào entendìa. Pouco a pouco os ramos do arvo- 
redo cobriram-se de passannbos de varias especies, 
attrahidos pelos sons maviosos e extraordinarios. 
proprio rivai se aproxìmou bumilde, arrependido e 
pasmado das maravilbas que esentava. Os bymnos pro- 
seguiam cada vez mais precipitados, mais variados, 
mais repassados de profundas e dolorosas maguas. To- 
das as avezinbas olbavam assombradas para o cantor, 
corno perguntando-lbe que vagas des^ragas annuncia- 
va, que terriveis e incognitos presagios Ha no futuro. 
Repentinamente, depois de urna nota mais alta e pro- 
longada, baixou a uma melodia doce, interrompida 
com pequenas pausas, corno seria talvez o delirio de 
Mozart ou de Beetboven moribundos, e caiu para o 
lado. 

Precipitàmo-nos para a gaiola; Tbercza abriu-a, pe- 
gou no rouxinol, que afagou e acariciou contra o scio. 
Vàos esforgos! o poeta cantàra o seu ultimo canto! 



XV 



Os ramos despovoaram-se; todos os ouvintes fugiram 
aterrados, menos a levìana companbeira do morto, que 
testimunhava no seu dorido carpir a resolugào de ex- 
piar breve a fatta commettida. Tres dias alli andou a 
gemer de ramo em ramo; ao quarto caiu sem vida na 
corrente que a levou. 

Tbereza nào se consolou jàmais. Cfaorou durante 
oito mezes; e quando as arvores despiram as folbas, 
expirou, sentada no mesmo sitio onde tinba apanbado 
rouxinol, depois de me ter feito jurar que, por rauito 

3 uè me durasse a vida, nunca mais roubaria a lìber- 
ade aos passarinbos. f. Qohu db amobim. 



ORIGEM, ENGRANDECIMENTO E DECADENCIA 
DA CIDADE DE VENEZA 

No seculo v da era cbristà viam-se no ponto ex- 
tremo do mar Adriatico, a uns 8 kilometros de dis- 
tancia do continente, uma infinidade de ilhas, ou ca- 
begas séccas, aridas e pouco elevadas acima da su- 
perficie das aguas. Nao se ornavam com as galas da 
vegetagào. A monotonia do seu solo arenoso era que- 
bmda apenas por algumas cabanas, mesquinba babi- 
tagào de pobres pescadorcs, e, de vez em quando, 
pelas suas redes estendidas ao longo das praias. 

Um grande e terrivel acontecìmento, verdadeiiD ca- 
taclismo na vida das nagóes, que assolou a Italia, des- 
truindo pelos fundamentos a civilisagào que se irra- 
diava de Roma, comò briJbante foco de luz, para todo 
orbe antigo, povoou e deu animagào àqueilas ilbas 
miseraveis. A invasào dos povos septentrionaes, que 
derrubaram o tbrono dos Cesares, varrendo a Italia e 
mais provìncias do imperio com o agoite da sua bar- 
bara vinganga, espalbou por toda a parte tal borror e 
consternagào, que centenares de familias, babitantes 
das margens do Adriatico, abandonaram seus Jares, 
e, levando o mais preciso do seu move!, foram prò- 



ARCHIVO PITTORESCO 



13 



curar refugio no asylo d'aquelles miseniTeis pesca- 
dores. 

Serriram-lbes de baluartes as aguas do mar. Ab 
hordafl de Alila e de Theodorìco, embora sedeotas de 
sangue e de pilhagem, qAo ouBaram transpor esscs 
foasos naturaes, unica defensa e derradeira esperan^a 
de salva^So dog trieteB Toragidos. Bsiea cuidaram logo 
de conslmir liarracas para sua accommodagfio, e de- 



pois, leradoB da nccessldade da nianuIen{3o da ordcm, 
eacDtberam d'eotre si qiiem oa governaBse, eob a de- 
nomìaa^ao de Iribwios. Urna d'aauellaa ilhas, chamada 
Rialto, tornou-se em brere grae de um governo re- 
golar. 

As toscas barracaa de madeira e as pa)ho{a3 dos 
pescadori^ pouco a pouco se foram transformando em 
casag de constrac£9o mais solida. A povoaf&o foi crea- 




i^endo e opnlenlando-se pelo amor do traballio e ppjo 
poder da industria. E os Iribnnos, ao cabo de du!:en- 
tos annos, trocaram o gru nome bumilde pelo tilulo 
pomposo de duque ou doge. 

Correram os tempos, e prospera correo a fortuna 
para o nove! eslado. Em bora boa empunfaaram armas 
seus fdhos, ao princìpio buscando aveiilurag enlre os 
axares da guerra, depoìs procurando dilatar as fron- 
Eeiras que tanto os apertavum. Foi-lbes propìcia a sor- 
te. Victorias su»:9ssiva3 Ihes enramaram as frontes de 
loiros, que novos Iriumpbos conservaram sempre vi- 
ri' ntes. 



doge, inveslido dog allrìbutog e prerogalivas da 
soberama, ìmperou alSm comò senbor em toda a ex- 
tensao do Adriatico, teodo ja firmado o seu dominio 
em terras do continente. K sobre as ìlbotag areenlaa, 
aue oulr'ora derain guarida aos que fugiam ao Furor 
tjos barbaros do Norte, ergueu-SR urna cidade popo- 
losa, rìca, magnifica, solierba com o esplendor dos 
seus lemplos e palacìos de marmore, e rom as riifue- 
zas vai^adas rm seu regalo pelo commercio da Asia e 
da Africa, de que se lomou o principal emporio. 

PassadoE drz scculos depois que os proscrìplos de 
Rialto fundaram o i-iu governo patriarrlial, esse pe- 



14 



ARCHIYO PITTORESCO 



3ucno estado, que nascerà bumilde no melo das aguas 
Adriatico, agora engraodecido com as provincias 
de Istria, Treviso, Vicencia, Feltrino, Belluno, Frioul, 
Dalmacia, Padua, Poiesina, Bergamo, Brescia, iihas 
de Gypre e Candia no archipelago da Moréa, Negro- 
ponte, Zante, Cepbalooia, S. Mauro, Corfù e parte da 
costa da Albania, avultava entre as prìmeiras poten- 
cias da Europa. Filho do mar, sujeitaya ao seu tri- 
dente as ondas do Mediterraneo. E, impellido por seu 
espirito cavalieiroso, estcndia o seu uome^ respeitado 
e temido, por toda a parie onde levava o eslandarle 
coni le&o de S. Marcos, que bavia tornado corno 
emblema da sua cxistencia e corno guia nas suas cm- 
prezas. 

Nao se emprebendia guerra, por assim dizer, n'esta 
velba parte do mundo, sem que fosse solicilado o au- 
xilio, ou, pelo menos, a neutralidade do doge. As 
mais poderosas na^Oes requcstavam a sua amizadc e 
allianga com o mesnio empenbo e fervor com que o 
apaixonado mancebo supplica d. dama dos seus pen- 
samentos um olbar de tcrnura e de esperanga. Era 
fim, varios monarchas se bouraram indo recebcr a 
bospilalidade dos doges, e alguns dos que mais bri- 
Ibarara na scena do mundo pela vastidào dos seus do- 
minios, pela grandeza do seu poder e pelo prestigio 
da gloria militar, vencidos pelos valorosos dcscenden- 
tes dos proscriptos de Rialto, viram-se forgados a do- 
brar a cerviz orgulbosa ante o attivo chefc da rcpu- 
blica do Adriatico. 

Tal foi a origem da cidadc de Vcneza e da repu- 
blica do mesmo nome. Poncos imperios viram dilata- 
rem-sc a sua grandeza e poder por tao longa serie de 
annos. Raros potentados da terra desfructaram por 
tantos seculos os favores da fortuna, os csplcndorcs 
da riqneza e as alegrias da prosperidade. 

A cidade, assenlada em sessenta illias pequenas, 
corlada por innumeraveis canaes, C4^ijas margens se 
communicam por mais de quinbenlas ponles de pe- 
dra, paroce obra de poder sobrenalural, que a um 
aceno a fez surgir do fundo do mar, radiante de for- 
mosura, rica de monumenlos, esplendida de galas e 
primores artisticos, illuminada pelo brillianle reflexo 
de tradlQOes gloriosas, e cercada, em fini, pela mais 
luzente aureola de poesia. Nascida entre as ondas, por 
ellas embalada em seu bergo de cristal, a ellas de- 
vendo seu engrandecimento, a sua opulencia, a sua 
coroa de rainba, julgar-se-bia fadada para empunbar 
sceptro dos mares até à consummagào dos seculos! 

A republica, fundada em urna constilui^;ào sabia- 
mcnte elaborada para Mie dar forga e durn(;ào; tlrmada 
em uma organisagào social vigorosa; forlalecida pela 
rigidez e simplicidade dos costomes publicos, pelos ha- 
bitos do trabalbo, pelo amor da patria e mais virtudes 
civicas, presumir-se-bia, no correr do seculo xv, egual- 
mente fadada para resistir em todos os tcm[)os a quaes- 
quer inimigos, para zombar da sorle que tem prostrado 
OS maiores imperios do universo! 

Porém toda essa grandeza e gloria caducaram e fe- 
neceram, corno obra que era dos bomèns. Vasco da 
(ìama, rasgando o vóo que encobria o camiubo da In- 
dia, e el-rei D. Manuel, eslabelecendo as relagOes com- 
merciaes de Porlugal com o Oriente, deram o primeiro 
golpe no coragao da poderosa republica. Lisboa em 
breve arrancou das màos de Veneza o commercio da 
Asia; e desde esse momento principiou a fortuna a 
voltar as costas à cidade dos doges. 

Ferido profundamente o mais importante ramo da 
industria que alimentava a na^Ao e locupletava os co- 
frcs do eslado, nSo tardaram a manifeslarcm-se os 
symptomas do definhamento que pouco a pouco se foi 
apossando do corpo social, até que Napoleào Bona- 
parte, victorioso em toda a Italia, riscou do mappa da 
Europa a grande i*epublica de Veneza, ao cabo de mais 
de treze seculos de uma existencia gloriosissima! 



vencedor cntregou ù Austria, em troca de outros 
favores, o territorio da extincta republica, a esse tempo 
mui limitado; e o imperador Francisco i, unindo-o a 
Lombardia, creou o reino lombardo-veneziano. 

No fim de mais de sessenta annos de captiveiro, 
raion para Veneza a aurora da liberdade. A aguia aus- 
trìaca, vencida em Sadowa pela aguia prussiana, dei- 
xou cair das garras entre as màos de Napoleào in os 
estados de Veneza, que este soberano se apressou em 
cntregar ao rei de Italia, Victor Manuel. 

A cidade de Veneza ve hoje despedagados os gri- 
IbOes que a opprimìram, mas os eneitos de tao dura 
oppressào ainaa pesam sobre ella; ainda mostra na 
fronte os signaes iodeleveis de seus longos padeci- 
mentos. magnifico palacio dos doges; a suraptuosa 
cathedral de S. Marcos, e muitos outros templos de 
cùpulas magestosas; o famoso arsenal; os palacios 

3 ne bordam os canaes, ostentando em suas facbadas 
e marmore toda a pompa e poesia dos estilos arabe, 
gotbico e do rcnascimento, sào padrOes que comme- 
moram o immenso poderio da republica, e o lustre e 
fasto de outr'ora da cidade. Porém, no palacio dos 
doges, so OS passos de aigum vjajante curioso Ibc vem 
de vcz em quando acordar os ecbos. Nào resoam nas 
abobadas dos templos os canticos sagrados pelas vi- 
ctorias das armas venezianas. Estd ermo o arsenal 
d'onde saiam continuamente temerosas armadas. Al- 
guns palacios ameagam proxima mina. Outros, que 
antigamente a miude pernoilavam em festas grandio- 
sas, agora desertos, offerecem, no silencio em que ja- 
zem, a imagem do sepulcbro. Nas ruas, nas pragas, 
nos cacs, nào se accumula a multidào, corno no tempo 
em quo a cidade contava mais de duzentas mil almas, 
era vez de oitcnta mil quo boje encerra. Nos canaes 
nào giram, comò d'antes, milbares de gondolas. Em 
fim, com a perda das riquezas figiram-lbe, e ainda 
nào voltaram, a animagào, o bulicio, a alegria, coni- 
panbeiros inseparaveis da prosperidade. 

I. t>£ VlLIIKNA BaUBOSA. 



WALl DE SANTAREM 

(Vid. pag. r») 



Como o Tejo là corre em baixo limpido e susur- 
rante, reflectindo nas suas aguas a casaria branca da 
arabe Cbantarin, e cspclbando a muralba rugosa da 
alcagova erguida no pincaro da sua montanba! Debru- 
gando-se das ameias do vellio castello moirisco, quem 
nào sentina uma suave sensa^ào, de todo estranba 
aos agros jubilos da guerra, vendo espraiarem-se ao 
longe pela margem do Tejo tantos vergeis opulentos, 
tantas campinas verdes, tantas searas loirejantes, que 
ondeiam e se acamam, comò um vasto mar de espigas 
de oiro, ao sópro da fresca brisa do sul. E que doccs 
pensamentos de voluptuosidade suave e encanladoru 
nào inspira tambem essa longa fita azul do rio quo 
vae deslìsando caminbo de Lisboa, embalando no scio 
a barca indolente do pescador mosarabe, que parere 
ir dormindo à sombra da vela triangular, corno um 
passarinbo à sombra da aza branca! E o sol ri no 
eco tambem azul e sem maucba, e as gaivotas pai- 
ram sobre o rio descre vendo no ar os seus graciosos 
circulos, e ao longe ouve-sc uma vaga toada de cantiga 
de barqueìro, e do lado da terra vem comò que n'uma 
bafagem a cantilena monotona do lavrador guiando 
OS bois melancolicus e vagarosos! Quem pensaria em 
guerra e em combates no scio d'essa natureza pacifica 
e fecunda, debaixo d'esse ceo tao luminoso, a beira 
d'esse rio palreiro! 

Pois eram os pensamentos de guerra e de comba- 



ÀRCBi\'o prrroiàseo 



13 



tes 08 que pairavam sobre essa paixagem tranquilla, 
|)orque nos muros de Santarem ti*emulaira ainda a 
nieia-lua musulmana, e além, ao norie, no seio dos 
sombrios retiros de Goimbra, o terrivel Ibn-Errik, por 
algum tempo adorrnecido nos bra^os de sua joven es- 
posa, Mafalda de Manrianna e Saboya, comegava a 
csprcilar com olbos cobi^^osos a formosa Alba dos 
arabcs. 

Estamos em 1147, e o Ài-Gharb da Hespanha vé-se, 
mais do que nunca, dilacerado pelas discordias civis 
dos seus possuidores. Entro almoravides e almobades 
està-so travando a lucia mortìfera, e os walis da Hes- 
panba, desconfiados uds dos outros, rasgam por todos 
OS lados a tunica sumptuosa do Andaluz. Aqui no oc- 
cidente tres walis principaes formam entre si urna al- 
lianga que ihes assegure a independencia, o ivali de 
Mertola, o de Badajoz e o de Silves; o ultimo beroico 
defensor da dynastia almoravìde, Ibn-6anyab, semeia, 
para os dominar, entre elies a discordia. wali de 
Mortola, Ibn-Kasi, alvo da dcsconfìanga dos seus dois 
alliados, chama para o salvar o mais terrivel inimigo 
dos musulmanos, Affonso Henriqucs. Depois invoca o 
auxilio do emir almobade de Africa, e este, que ainda 
nào veiu estabelecer o seu dominio em Hespanba, ac- 
ceita represcntantc que se Ihe offerece. Assini co- 
nio Ibn-Ganyah, o wnli de Valencia, 6 o ultimo chofe 
almoravide, é Ibn-Kasi o primeiro cbefe almobade. De 
um lado e de oulro se enfìloiram os walis do Anda- 
luz; so AbU'Zakaria, o walì de Santarem, olbando 
com dcsprezo profundo para todas estas discordias, 
immovel no seu posto de combate, esprcita ancioso a 
tcmpestade que se accumula ao norte, e do seu ni- 
nbo de fraguedos sao, comò a aguia que n5o teme o 
raio, a pairar sobre as campinas dos chrislàos. 

É urna tarde de primavera, pura e suave. A brisa 
cnruga Icvemwttc as aguas do rio; as atalayas moi- 
riscas velam indolentes nas guaritas da forte alcayova. 
Dentro da forlalcza ergue-so o palacio do wali, ro- 
deado de jardins pequenos, mas deleitosos, que pcn- 
duram os seus canteiros de flores, corno taboleiros 
aéreos na rocha alcantilada, sobre o rio murmurante. 
Pequenos sào, dissenios, mas alli conio que em mi- 
niatura se reflectom todos os esplendores dos maravi- 
Ibosos jardins de Kordova; alli, entre os bosquesinbos 
frondosos, brilbam na sombra as limpida» aguas de 
pequenos lagos: alli se encontram as tliermas de abo- 
bada estrellada, por onde se insinuam frouxos raios 
do sol, que derramam luz suavissima n'esses asylos 
da voluptuosidade. No meio dos jardins um pavilhào, 
a cuja porla urna eslalua de pòrfido, lavrada por maos 
de artista primoroso, represenla a iniagcm do silencio. 
No centro d'esse pavilbào, onde ainda talvez chegue- 
mos a penetrar, ouve-se cà de fora o murmurìo de- 
licioso da agua balcndo n urna bacia de marmore, som 
argentino que espalba eni torno de si urna doce sen- 
sagao de frescura. 

Era csseo retiro predilecto de Zuleyma, a filha que- 
rida do velbo wali de Santarem, Abu-Zakaria. 

A està bora em quo a tarde vae declinando, em 
que as vastas sombras do arvorcdo so prolongam ale 
ondearem là em baixo na corrente paireira do rio, 
Zuleyma nao està no pavilbào predilecto. Sentada à 
beira do ten'ago quo domina o Tcjo, contempla com 
tristeza urna arvorc eslraoba que vegeta debilmente 
junto d'ella. É urna palmeira. A filba do wali teve o 
capricbo de transpiantar para a sua nova patria a ar- 
vorc das rogiOes do sol, onde leve a sua raga o bergo. 
Mas a verdcjanle filha d'rssas terras abrazadas nao 
póde vingar n este solo mais frio do occidente: pediu 
debalde à brisa o calido bafejo, ao eco a cbamma 
abrazadora dos seus raios, e, privada d'essas caricias 
ferventes, feneceu em breve, estendendo apenas, co- 
rno bragos enfezados, os seus ramos murcbos sobre 
o frescor do rio. 



Zuleyma tem entre os dedos a harpa melodiosa. 
Contempla tristemente, ora a palmeira rachitica, ora 
as vastas campinas verdes que se desenrolam aos pés 
do alcagar, e onde a luz alterna com as sombras, que 
augmeotam a cada instante; Envolta no véo estrelia- 
do, com as trangas negras apanbadas na coifa moi* 
rìsca, a fronte cingida por uma faxa de perolas, a 
formosa filha do wali parece Terdadeiramente uma das 
fadas que os contos arabes devaneiam fluctuando na 
transparente nebrìna da tarde. No rosto levemente mo- 
reno scintillam com melancolico fulgor os seus rasga- 
dos olbos negros. Volta-os de novo para o rio, e com 
tristeza o contempla; para a vela branca do barco de 
pescador que voga em direcgào a Lisboa, e a sua al- 
ma parece querer seguir-lhe a espumea esteira; cra- 
va-os na arvore enfezada, e, sentindo lagrimas invo^ 
luntarias escorrerem-lhe nas faces, empunba a harpa 
de oiro, e canta com voz melancotica estas sentidas 
endecbas, compostas por Abd-er-Rabman i, o funda- 
dor da dynastia ommyada na Hespanba arabe, tam- 
beni por elle desmembrada da monarchia dos kalìfas 
orientacs : 

Tambem tu, insigne palma, 

'stós sendo aqui forasteira; 

beija-te os ramos do Algarve 

a brisa doce e ligeira. 

Lang:indo fuiidas raizes 
n'estc fecundo terreno, 
erguis a copa frondosa 
ao firmamento sereno. 

Tristes lagrimas choràras 
se comò eu sentir podesses... 

— E d'està vez adivinbou o real poeta, acudiu uma 
voz junto d'ella. One motivo ignoto desfiou esse col- 
lar de perolas nas luas faces, rosa? Foi o caler da 
tua pbautasia que dìssolveu a faxa que te cinge a 
fronte, ou a mmha querida Zuleyma esconde a seu 
pae alguma triste;!a profunda? ^ 

— Meu pae! disscra a gentil Zuleyma apenas sen- 
tirà a voz do wali. 

Era um formoso velbo de longas barbas brancas, 
a cujo porte magestoso davam realce ainda as ampias 
vestes musulmanas. 

— Meu pae, continuou Zuleyma, nada tenbo quo 
me afflija; mas, vendo essa triste palmeira sem poder 
vigar ao sópro d'estas brisas tao suaves, impressionou- 
me tristemente o contrasto que fazia com os versos 
do sublime e potente emir. Nada mais. 

— Enganou-se em tudo, respondeu com grave e 
melancolico aspecto o venerando velbo, enganou-se 
em ludo o beroico fillio dos Menian. Era forasteira a 
palma, e nós forasteiros somos. A tetra da Hespanha, 
que estremecemos tanto, repelle as arvores e os filhos 
do deserto. Ó Andaluz vigoso, ó terra de esmeraldas, 
captiva graciosa e meiga, nào te adornou de bastan- 
les pompas a niSo dos teus emircs, nào recamou 
de palacios de olro e marmore, de mesquitas mara- 
vilhosas, de soberbas aljamas, o leu solo qiie a na- 
lureza opulentou? E, desdenhando ale os preccitos do 
prophela, nào desprczàmos a nossa missào religiosa, 
nào rcspeitómos as crenga» de teus filhos, nào os fi- 
zemos sentnr ao nesso lado no banquete da hospita- 
iidade? Por que assìtn nos foges entào, sullana favo- 
rita; para te ires entregar nos bragos d'esses bomens 
de ferro, selvagens e rudes, que so brutalisar-te sa- 
bem? Ahi triste palmeira foragida, murchou corno as 
tuas folhas a nossa prosperidade, e o nesso dominio 
està prestes a baquear comò o teu carcomido tronco. 

E wali deixou descair na mào a sua larga fronte, 
e pelas barbas alvas de neve viu-se deslisar uma lagri- 
ma. Zuleyma aproximou-se d'elle tristemente, e poi- 
soulhe ao de leve a mào no hombro: 



16 



AfiCffliVO PITTORESCO 



— Jà as tristezas fugiram, corno foge a noite quando 
raia a aurora, disse elle sentindo-a. E tu és a aurora 
que derrama sempre um raio de luz nas sombras do 
meu crepusculo; és a primavera que me acalenta o 
outono, a rosa fragrante aue povóa de aromas, o rou- 
xinol que povóa de meloaias a minba sombrìa e de- 
serta alca^va. És a perola cuja rosea transparencia 
encontro sempre a consolar-me quando desgo ao fundo 
dos abvsmos de tristeza em que estes pensamentos me 
mcrgulnam. Ai, rosa pura! nunca te arranque o tem- 
poral do teu canteiro abrigado. Ai, perola nacarada! 
Dunca a tempestade revolva as aguas do teu ieito. 

Ella sorriu-se para elle com um sorrìso angelico. 

— Nào ba perigo, disse, que o vendaval derrube o 
ninbo alpestre das aguias, pelo menos quando é des- 
encadeado pelas màos dos bomens. A vaga irritada 
dos cavalleiros nazarenos vem bater jà sem forgas nas 
muralbas da alcagova de Santarcm ; e a nuvem de pò 
que levantam na investida os pés dos seus gìnetes 
dissipa-se com um sòpro quando resòa no adarve das 
torres o grìto de guerra de Abu-Zakaria, a aguia do 
Al-Gharb do Andaluz. 

A fronte dovali ergueu-se resplandecente de orgulho. 

— Ah ! ndo temo os cbrìstàos. Posso tambem dizer, 
corno emir AMlakem, que vi fazerem-se os montes 
em valles quando Ibes trepava ao cume, bumiiharem- 
se OS mais audaciosos entre os cbefes nazarenos ao 
verem resplandecer entre as sombras da noite, corno 
luminosas estrellas, as cotas dos soldados das minbas 
tropas. Mas, estrella da roinha vida, o que me dila- 
cera coragào é ver assim bumilhado o imperio dos 
Beni-Merùan; é ver este imperio poderoso e tranquillo, 
em vcz de dar, comò d*antes, à Europa o exemplo da 
civilisagdo, dar-lbe o exemplo da selvagerìa. Os cul- 
tos walis do Andaluz sào os primeiros a escolberem 
por dominadores os rudes bereberes, quer sejam os 
de Lamtuna, quer sejam os sectarios de Abdallah! 
Outr'ora o Magnreb era escravo dos poderosos kalifas 
de Kordova, e Abd-er-Rahman Annasir, o filho aben- 
Qoado do escravo nazareno, afagando as ondas da sua 
barba sedosa, via com desdem ajoelharem-lhe aos pés, 
nas salas magniOcas do alcagar de Azzahrat, os ne- 
gros cbefes das tribus do deserto. E boje sdo elles 
que domìnam; boje é à pobre Fez que se vae pedir 
a senha. Jà em Kordova se nào renne a corte sum- 
ptuosa onde os doutos khatibes, os hafites depositarìos 
das tradi(;óes, derramavam em torno de si os esplen- 
dores da sciencia; boje sào esses escravos do deserto 
OS mestres de theologia dos doutores musulmanos; jà 
se nào edificam mesquitas corno a de Kordova, com 
as suas mil columnas de marmore e as suas ciuco 
mil lampadas de prata, mas arrasam-se talvez. Em- 
bora! Aqui na rìsonba Santarem nunca se ba de transi- 
gir com OS barbaros de Al-Maghreb, nem com os bar- 
baros da Galliza. Aqui ha de sobreviver o que resta 
da civilisagào kordoveza, e dentro d'estas muralbas 
se ba de conservar resplandecente o sanctuarìo das 
nossas tradigOes, sanctuarìo de que tu és, Zuleyma, 
a lampada doirada. Morrerei sepuUado debaixo das 
ruinas da alcagova, mas ao expirar poderei dizer aos 
traidores: «Morreu o ultimo arabe.» 

E a estatura do velho erguia-se desempenada e alti- 
va, e a jiua nobre cabega, illuminada peios raios do sol 
poente, tipha uma bella expressào de magestosa poesia. 

— Nào morrerois, meu pae, exclamou a gentil Zu* 
leyma langando-lhe os bragos à roda do pescogo, por- 
qpe hh de quercp o propbeta que fìqueis servindo de 
nobre exemplo aos degenerados filbos de Musa e de 
Tarik. Deus é grande, e ouvirà as minbas preces, 

Abu-Zakaria nào Ibe prestava jà attengào. luflam» 
mava-o um estranbo enthusiasmo. Voltando-se na di- 
recgào do norie e estendendo o brago para o lado da 
serra de Albardos, exclamou: 

— Iba-Errik, tyr^nno ^uscjtado pelp propbeta ps^a 



3 



castigar os crimes e as discordias do seu i)Ovo cor* 
rompido, vem; por que tardas? Pendem à minha cin« 
tura, de envolta com as chaves de Santarem, as cba- 
ves de Alisbona, da rainha do Tejo, cuja posse ha 
tanto cobigas; vem ou extinguir no meu sangue a ul- 
tima esperanga de resurgimento do Andaluz, ou deixa 
uè eu apague no teu sangue maldito a minha sède 
e vinganga.» 

Um grìto que rcsoou no espago, cheio de terror e 
angustia, foi a unica resposta que obteve a apostro* 
phe do vali. Voltou-se com susto, e viu ao seu lado 
Zuleyma, pallida corno fior batida pelo vendaval. Àbu- 
Zakarìa apertou-a ao peito, exclamando: 

— Oh! nada temasi Sào altas as muralbas da al- 
cagova de Santarem ; para aqui chegar é precìso ser 
aguia, e Ibn-Errìk é so abutre. 

Mas no momento em que o vali pronunciàra a ve- 
hemente apostrophe sumfra-se de todo o sol no oc- 
caso. As sombras melancolicas do crepusculo iam-se 
espraiando nos campos; o rio là em baixo murmurava 
queixoso e piangente; accendiam-se uma a uma no 
ceo as lampadas da noite; e a brisa suspirava com 
tristeza nos ramos nus da palmeira. 

(Continua) M. PunueiBo Chaoas. 

UM HOMEM UTIL 

Jà ia mui adiantada a segunda metade do seculo xvii, 
e ainda os babitantes de Locle (Suissa) viam as horas 
marcadas nos quadrantes solares. Um dia viera um es- 
tranbo fixar a sua residencia n'aquella cidade e trou- 
xera de Londres um relogio de algibeira, que fora a 
admiragào d'aquelles que depois se baviam de entre- 
gar exclusivamente a està industria. relogio des- 
manclìou-se, e o dono cntregou-o a um babitante da 
Sagne, cujo merito provavelmente conhecia. Daniel 
Richard conservou o relogio por espago de seis mezes, 
mas nào o conservou inutilmente para o dono nem 
para si. Em tao curto lapso esludàra o seu mecanismo 
complìcado e invejotàra a coUecgào de ferramentas ne- 
cessarias para concertar o famoso relogio ìnglez. Pas- 
sados outros seis mezes, Richard achava-se habilitado 
para fabricar os relogios mais complicados. Dirigiu-se, 
pois, a Genebra, onde eiiudou. Dizem que estudar é 
trabalhar para os outros; e os oiUroSj com effeito, apro- 
veitaram-se. Richard tinba ciuco fiihos, que herdaram 
com bonrado nome do pae a sua pericia e os seus 
conhecimentos. Assim aquelle cantào suisso se povoou 
de habilissimos relojoeiros. Daniel Richard falleceu em 
1741. 

OS HOMENS E OS VESTIDOS 

Àcerca de qual seja a estatura melbor que bào de 
ter 08 bomens, diz com muita graga o padre D. Ra- 
phael Bluteau: — «Se das arvores brotassem bisalhos 
de diamantes, nào ha dùvida que fora bom ser multo 
grande para os coiber; e se debaixo dos pés nos safs- 
sem fios de perolas, bom fora ser pequeno, e abai- 
xando-se langar logo mào d'ellas; mas corno nem uma 
coisa nem outra se acha n'este mundo, acho que o 
ser multo grande é coisa escusada, e por outra parte 
nào é coisa grande ser multo pequeno: mela estatura 
é a melbor.» 

Fallando a respeito dos veslidos, diz o mesmo padre 
Bluteau: — «Nào ha no mundo apparencias mais en- 
ganosas que as dos vestidos. Vestiduras ecclesiasticas 
causam veneragào, vestiduras mìlitares imprimem ter- 
ror, pomposas admiram, modestas edifìcam : debaixo 
de todas ellas o homem é quasi sempre o contrario 
do que parece. Muitas mazellas encobre a cambraia, 
multa tabala rasa cobre a purpura, muitas vezes sào 
mascara de iniquidade trajos de penitcncia,» 



ARCBIVO PlTTOIffiSCO 




is Cbjialo — Cupla de utn eabo^ de Domlps 



IniDginem urna auuìa prearla a um rochedo. Ila gc- 
nios a quem a falaltdadc puc aos p>>s urna bniga, cliun> 
bat)do-a pelo outro lado a essa rocha broncit da ipno- 
rancia e da ìiidìffercnca communi. talento, seiilìndo 
deiilro CUI sì o grande mobil creador, a grande for^a 
quc arrebata, levanta o olhar e o espirilo, e forcrja 
por corlar em rapidos vdos essas regiOcs csplendidas 
por onde Ihe divaga o corag9o e a pnantasia. Quc lue 
succede jior vezes? ambiente afoga-o, o venlo con- 
Irarìo impelle-D, tenleia o espa^ coni as aiias, e as 
azas desplumam-se-llie ro^ndo pelas penedias; quer 
Iil»rar-se enire o fóto das nuvens, e eenle-sc alagado 
pela espuma das vagas, quando oao é pela babà da 
inveJQ. EeIus luctas silo provacOes. Os quc saem d'cN 
las trìumphantes sao os verdadciros herocs, os semi- 
deuses prodigiosos. Um homem póde crear uin seculo; 
exemplo: Voltaire. Um seculo póde atrophiar um ge- 
nio: cxcmplo: florage. 

Fonde Mirabeau na tribuna de hoje, inllHmmae-lhc 
verbo, se poderdes, com a discussSo de um inle- 
jvssc mesquinho, com a fulilidade de uma qucstiun- 
eula sem alcance. Miraboau desapparecc. Supponde 
José Estevao no meio d'eesas contendas em que se 
agita a Grecia, replicando às ambicOes de Filippe; abi 
tendes Deinoslhencs. 

Quando a Europa, no forvor da renasccnca, nos dias 
da sua primavera bitcHectual, mostrava o risonbo qua- 
dro do3 reis Iransformados em coriezUos do talento, on- 
tao OS arlislas pullulavam, alentados por aquella seiva 
de gloria; esse 

"favor com que mais se accende o engcnboi', 
comò disse um dos menos favorecidos dos homens, 



incitava aos cominellimentos arrojados e às cmprezas 
audaeiosas. A arte, corno a suprema divindade roma- 
na, via as tiaras e as coroas cairem-Ilie, por assim 
dizcr, no pegaso. Tìciano tem por seu famulo um im- 
perudor, e Rapbacl lem jK>r seu aulico um papa. Mi- 
guel Angelo, maior de lodos, evoca o inferno dan- 
tesco, e, à similbanga do fiorentino, arvora-se em juiz 
terrivel dos dislatcs que o cercam. 

pintor a quem se deve o esboco, cuja gravura 
apresenlilmos boje, so leve conlra si o paiz e o seculo. 
que Deus confcre aos seus escolhidos possuiu-o elle 
em tal grau, que iiQo sabemos de outro que Ihc so- 
breleve. Caracterisa-o a imaginagao robusta. Nos seus 
Iragos ba o que quer que seja do relampago. Tem 
inesperado e o luminoso. Substilui esles dois no- 
mes — Fedro Alexandrino e Cyrillo Volkmar Hachado, 
enire os quaes se aperta a fipura colossal de Sequei- 
ra, por esles dois outros — Vinci e Buoiiarolti; con- 
vertei 1823 em 1500; (Ride lédes Ajuda, escrevei con- 
celho de Fiorenza; ale onde ìmaginaes que sóbe o 
auctor do Calvario, da Àdoracào dos Maifos, da As- 
ceiìsdo e do Juixo Universali Ninguem o anii-mar6 ao 
cerio. 

conde de Raclizynski, com o seu admiravel sen- 
timento do bello, nao pftde deixar de suspender a se- 
veridade do seu juÌ!;o para se extasiar em frenle d'es- 
ses qualro quadros que denunciam um genio. Ab un- 
guìinis leo. 

Domingos Antonio de Sequeira nasceu em Belem a 
10 de marco de 1768. A sua biographia veiu em sum- 
mario no n.° 12, tomo ti, selemnro 1858, d'esle mcs- 
mo Archivo. Inulil seri rememorar o que ha de ter- 
reno n'aquclla existencia: a bistoria das contrarieda- 



18 



ARanVO PITTORESCO 



des e dos martyrios fecha-se dìante d'esse livro de 
oiro aberto pela posleridade, e em cujas folhas se gra- 
vam OS oomes radiantes. de Sequeira là existe. No 
dia 7 de mar^o de 1837^ quando a morte poisou a 
nido sobre a cabega inerte do grande bomem, sentiu 
que a gloria jà a cingira com urna coroa. 

Roma foi para o nosso pìntor escbola, ao mesmo 
tempo que Ihe era exìlio. Quatoi'ze quadros safram 
do seu pincel infatigavel; os desenhos succediam-sc 
aos rctratos; parecc nSo ter havido um momento de 
ocìo para aquelle talento prompto e vigoroso. Estimu- 
lava-o a contemplagOo das grandes obras; o amor da 
gloria induzia-o; medi.a a sua estatura pela craveira 
gigantea dos mestres, e a conscicncia nSo o fazia en- 
vergonhar. Quando expirou, viu beni que linba flr- 
mado seu nome em bronzes perpeluos. Haverà al- 
guem que o conteste? 

assumpto que deu causa ao presente esbogo foi 
tirado dos Aclos dos apostolos. Ahi se lo: 

«E ha vendo Jesus dito eslas cousas, vendo-o elles 
(os apostolos), foi nlevantado em alto; e urna nuvem 
tirou de seus ollios. 

«E estando elles com os olbos postos no ceo, entre 
tanto que elle ia sobindo, etc, etc.» 

Sequeira, impressionado por està descripcSo breve, 
mas grandiosa, bosquejou a scena em dois tragos. 
N'essas fìguras, ainda indecisas quanto ao desenho, 
lia jà a sublimidade da composicào e do agrupamen- 
to. A idèa jorrou, e desde logo Ibe appareceram os 
moldes proprios. mais seria trabalbo de cinzel, apuro 
de lavrados, i^ecamos da opulencia, exigencias do bom 
gosto. que 6 pensamento, conccpQào, raio de luz, 
està alli n'aquello assombro inelTavel, n aquelle sa- 
grado terror que revelam os apostolos, e que se con- 
trapùe a serenìdade com que vemos elevar-se no ar 
a figura candida e graciosa do Ghristo. 

pìntor do Juizo universal dou mais latitude ao 
diìjcr do evangelista, congregando um maior numero 
de fìguras e imprimindo no quadro toda a magestadc 
congenere. Em Sequeira presente-so o lurbilbno. Pa- 
rece que o genio do Dante poisava por momentos ao 
lado do que tambem foi seu interprete, e que Ihe en- 
sinava a comprehender a vertigem das sombras e o 
indescriplivel redomoinho dos espiritos. Fitar uni d*es- 
tes esboQOS 6 ver comò que agitar-se uma multidào 
confusa de bomens; julga-se ouvir o rumor d'aquella 
gente que se atropella; por debaixo d'aquollas iinbas 
incerlas corre um oceano de idéas, palpitam os ger- 
mens que nào poderam desabrolbar em toda a sua 
cfflorescencia. É entào que veni à memoria o terceto 
do florenlino: 

Facevano un tumulto, il qual s aggira 
Sempre in quell'aria senza teinpo tinta 
Come la rema, quando il turbo spira, 

Estas obras incompletas dos grandes mestres tem 
um secreto altractivo para os que prezam os lavores 
do talento bumano. Como os viajantes se assenlam so- 
bre as ruinas, e tentam reconslruir o edificio desaba- 
do, pela estructura de uma columna ou de um mai- 
nel, assim o pensador se inclina sobre eslas iniciagOes 
de uma sublimidade, e pergunta a si mesmo o que 
sairfa d'aquelle montao de porpbydo destinado a mo- 
delar-se em estatua. Sequeira ó dos artistas que por- 
ventura legaram uma copia mais abundante d'estes 
improvisos. brago n&o Ihe podia acompanhar o ce- 
lere movimento do espirito; precisava d'estas valvulas 
para dar largas às erupfOes do seu genio. trabalbo 
rcmansoso era para quando abonanyava a tempestade 
interior, para quando se acalmava a febre do enten- 
dimento. 

Quem n&o conhece dois ou tres d'estes bosquejos ma- 
ravilhosos? quem nào tem pasmado na contempiagào 



d'estas sementes, que deveriam ser florestas? Podémos 
pronunciar beni alto o nome de Domingos Antonio de 
Sequeira, sem temer que os mais exigentes nos cen- 
sui*em de desasisado patriotismo ou de cega naciona- 
lidade. Os anatro quadros jà citados, pertencentes boje 
& galeria dos srs. duques de Palmella, sobejam para 
dar testimunho do rouilo que valia e podia o nosso 
compatriota. Por alguni tempo o nome do mestre an- 
dou, para os profanos, envolvido n'um sombrio véo 
de esquecimenlo; o véo principia a desfazer-se, e Se- 
queira a popularisar-se. A photograpbia poderia com- 
pletar està reacgào beneGca. Por que nào ha de o paiz 
e mundo todo conhecer e familiarisar-se com tama- 
nho homem? 

Alguem que vó longe e ve fundo escreveu ha pouco 
seguirne : — Ce commencement de connaissance des 
gi^ands hommes est necessaire au pexiple. 

Sequeira valia beni o ser conhecido. É preciso que 
povo saiba uma vez por todas, que acima d*esses 
beroes da espada, com cujos nomes elle tanto se ufa- 
na, ha tambem na sua hìstorìa outros beroes, que em 
vez de sangue derramam luz, e que em vez de destmir 
edificam. b. a. vipal. 



EVORA 

EGUEJA E CONVENTO DE S. FRANCISCO 

(Vid. pag. 9) 
III 

Nao durou muito a pobreza primitiva da ordem. Da 
citada doagào de julbo de 1245, escripta por mestre 
Payo, tabelliào, coosta que Jodo Estcves e sua mu- 
Iher, Maria Marlins, deram uma terra aos religioso^ 
para se alargarem mais, com a obrigagOo de os en- 
commendarem a Deus. Por outra escriptura, feita em 
setcnibro de 1250, Jofio Pelagio Gordura e sua mulber, 
Mayor de Guimaràes, doarain aos frades um lagar e 
oulra terra junto a porta de Alconchel para estende- 
rem mais o convento ^ Finalmente, por oulra escri- 
ptura, quo fez Domingos Martins em 22 de junbo de 
1280, Pedix) Alfonso, mercador, e sua mulber, Maria 
Soares, deram aos frades uni campo contiguo ao con- 
vento para o mesmo firn, pelo amor de Deus e em be- 
neficio de suas almas. 

Foi tambem o convento, nos primeims lempos de- 
pois da sua fundagào, favorecido pelos monarchas 
portuguezes. D. Affonso ni deixou-lhe em testamento 
cincoenta libras, D. Fernando e D. Duarte Ibe deram 
terras e casas para se alargar. Alguns o protegeram 
com importantes privilegios e isengOes. 

Com estas e outras esmolas augmentou a casa dos 
franciscanos a ponto de Ibe chamarem commummente 
convento do oiro. Que cbegàra a estender-se por boa 
parte da cidade é o que se deprebende das alludidas 
doagOes, e tambem de uma velbo memoria manuscri- 
pta que andava n*uni livro de pergaminbo do còro por 
onde se cantavam as horas menores. Gomega este cu- 
rioso documento da maneira seguinte: 

«Està casa de S. Francisco de Evora quero aqui por 
que tem para que os que vierem saibam o que é da 
casa. Està casa lem por cérca da porta do Rocio até 

i Catta hojo a screditar, se nXo commetten alguin erro quem eopion 
ou extracton a escriptura, que se podesse o convento de 25. Francisco 
estender para a porta de Alconchel, multo distante da porta do Rorio, 
quo é a que ao mesmo convento fica mais proxima. Como vcrcmos 
adlante, no seculo xv cbegava até à porta do Raymundo; poróm.d'ahi 
d porta de Alconchel vae ainda graAde espa^p. Convem advcrtir que, 
alargando-se pouco e poaeo a cidade, e gallando os muros que em 
tempo dos roma nos e dos arabes a eingiam nas alturas da collina, 
vieram as portas que el-rei D. Fernando abriu nos que de novo edi- 
ilcou a afastarse malto das que antecedentemente existiam, sendo, 
portante, possivol que no soculo xui bonvesse urna porta de Aleonchd 
mais proxima do sitio do convento. 

Todas as alludidas doa^Ses cita-as o anctor da Chronica Seraphiea, 
e declara acharem-se anthenticadas na Torre do Tombe. Dcprchen- 
de-se da cota marginai que foram coUigidas por fr. Rodrigo de S. 
Thiago. 



ARCHIYO PITTOBESCO 



19 



a porta do Reymondo, toinando pela ma dos Toiros 
abaixo até à porta. E tem este alpeudre e todo o adro 
sagrado asciai conio sdo as claustras ambas e a egreja, 
e da baada do maro da cidadc nào 6 sagrada, posto 
que scja o adro. A cgrcja era de sete oaves, e qo 
couee estava um còro muito boarado; e prégam m 
alpeodre para cabér a gente. A egreja de sete naves 
cabiu, e com esmolas a tornaram a fazér os padres 
de tros uaveS) e tornou a cahìr com parte do alpen- 
dre, de que està casa reccbeu grande perda e damno, 
e reinou D. Affouso v, e bouve grandes guerras com 

Castella » 

Nào merece credito a bistoria do tempio aqui refe- 
nda, que OS cbronistas repetiram e a cidade conserva 
em tradìgào. Admittir que em pouco mais de doìs se- 
culos 08 frades, tendo prìncipiado em grande pobre- 
za, alevantasscm urna egreja de sete naves, nào tendo 
mais de cinco as maiores da cbristandade ; que no 
mesmo espago de tempo caisse por terra, fosse reedi- 
fìcada e tornasse a cair; que os rcligiosos a conser- 
vasscm depois em ruinas muitos annos, à espora que 
i\ real munificcncia Jb'a reconstruissc, tudo isto ó o 
mesmo que inverler a ordcm. naturai dos factos, e co- 
megar por onde se deveria acabar. Baldadas diligcn- 
cias nos parcccm, pois, as que pozeram alguns escri- 
ptores em conservar este glorioso brazào à ordem de 
S. Francisco e a cidadc de Evora. 

IV 

Tinba o convento, corno diz a memoria, duas claus- 
tras. lima existc ainda, posto que muito arruinada; da 
outra apenas restam alguns vestigios. Era està ultima 
n*ura espago alastrado de ruinas, que boje vemos cn- 
tre edificio e o muro que entesla com a rua que ba 
pouco tempo se abriu desde a porta lateral do passeio 
publico aio a rua do Pago. Con.serva-sc de p6 urna 
parie do lango septentrionai da veiba claustra com 
(Jois ou tres grandes arcos de volta abatida, muito ob- 
slruidos e alterados com posteriores reconslrucgOos; e 
no mcio do largo subsiste a velba cisterna, tao enlu- 
Ibada quo jà custa a conbecer. Urna paredc que re- 
centemente deu em terra do iado do pocnte deixou 
dcscobcrto um abundante ossario. 

A primeira claustra em breve seguirà està na ruina 
que OS bomens, aindu mais que o tempo, Ibc vào 
aprcssando. Km partcs os arcos ogivaes dcram jà de 
^i a ponto de desaprumarcm a dobrada ordem de co- 
lumnas de marniore em que se eslribam. Foi cons- 
truida no anno de Gbristo de 1376, comò se lo n'uma 
lapida que d'alli trasladaram ba alguus annos para a 
bibliolbeca pubiica: — «Doni Fernando Affonso de Mo- 
raes, commendador de Montemor, mandou fazer està 
crasta a fr. Joào d'Alcobaga, custodie, e a fr. A.° de 
Montemor, guardiào, na grande fome em 1414.» 

Os caracteres gotbicos minusculos, muito perfeitos 
e eleganles, desta inscripgao formam um quadro, em 
cujo meio se v^^em esculpidas as armas dos Moraes 
com a Cruz da ordem de S. Tbiago, ù. qual pertencia 
a commenda de Montemor. Talvez por difficuldadc que 
se Ibes deparasse nas abbreviaturas, os cbronistas da 
ordem e o padre Fialbo deram so metade da inscri- 
[igfio, com quanto seja importante o facto da grande 
fome alli mencìonada. Se foi particular do Alemtejo 
ou geral do reino nfio o sabemos nós, nem temos no- 
ticia de ncnbuma que se refira ^quelle anno de 1376. 

Outra pedra mais uotavel e de maior valor artistico 
foi ej?ualmente transferida do claustro de S. Francisco 
para a bibliotbcca pubiica. E um marmore de l'°,23 
de largura, de 0™,94 de altura, e de 0'",23 de es- 
pessura, que representa em mais de meio relcvo a 
Annunciagào de Nossa Senbora. Na parte inferior lé^se 
em caracteres gotbicos maiusculos o seguinte, que tam- 
bem temos por inèdito: — «Aqui jaz Ruy Pires Alfage- 
me, frade da terceira ordem. Era 420. » 



As figuras sdo toscas, bcm corno todas as que nos 
iicaram da mesma epocba, ainda nos primeiros tra- 
balbos d*este genero; mas o gracioso e bem acabado 
baldaquino que as cobre revcla jà o escopro que al- 
guns annos de{)ois abriu os delicadismios ornatos da 
Batalha. relevo do velbo claustro é, pois, um dos 
mais interessautes moaumentos da escuiptura portu- 
gueza do seculo xiv. 

Dlz-nos auctor da memoria qual era em seu tempo 
a importancia do convento: 

• Tem està casa dois refeitorios, um de peixe, outro 
de carne. Tem mais està casa estudo, que é a melbor 
coisa que tem este refno; e estào aqui sempre os prin- 
cipaes mestres em tbeologia. Tem aposentamentos dos 
padres mestres e estudanles *. Tem livraria, onde se 
acham todas as obras compridamente; Testamento ve- 
lbo e novo, e todos com suas cadOas. Està casa cba- 
ma-se Convento de Ouro. Aqui vem toda a.clerezia com 
suas cruzes, e todo o povo vespera de Kamos, e nós 
todos em procissào, e seis padres com varas vermelbas 
e capas; e eramos por todos às vezes oitenta: e tra- 
zeudo OS ramos a està egreja aqui se benzeni coni 
grande solemnidade e prazer, e isso temos por privi- 
legio corno outras coisas.* 

Durando ainda o seculo xiir, se tornaram os con- 
ventos de S. Francisco de observantes em claustraes, 
|ìor meio de dispensas e privilegios que Ibes permit- 
tiram accumular riquezas, contra o primitivo espirito 
da ordem. Perdeu com està raudanga a austeridade 
monastica, mas ganbou muito a cultura das letras, 
que em todos os conventos do reino se promoveu com 
(iiligencia e arder. E corno das aulas que mautinbam 
nao recebesscm estipendio, pouparam a dcspeza da 
cadeira de tbeologia na universidade a el-rei D. Di- 
niz, que em eslatuto determinou que os csludantes a 
aprendcssem com os frades de S. Domingos e de S. 
Francisco. Vigorava ainda està disposigào quando pela 
segunda vez se trastadou a universidade para Coimbra. 

Nào era sóniente nos conventos desta ultima cidade 
e de Lisboa que bavia estudos regulares. No de Evora 
ensinavam-se, além da tbeologia especulativa e da mo- 
ral, as bumanidades, e davam-se, tanto aos de casa 
conio aos de fora que frequenlavam as aulas, os graus 
de doutor, licenciado e bacbarel. Costumava lambeni 
a ordem mandar alguns filhos seus às universidades 
estrangeiras para se aperfeigoarem nas disciplinas que 
no reino baviara de professar.- 

Quando D. Joào in trasladou e reformou a univer- 
sidade de D. Diniz, e o cardeal D. Henrique fundou a 
de Evora, pelos privilegios e augmentos que estas ins- 
tiluigòes obtiveram, comegaram a decair os estudos sc- 
rapbicos da altura a que antecedentemente baviam cbe- 
gado. Em Evora so a unÌ4'ersidade podia ter aulas pu- 
blicas. D'està e outras prerogativas muito se queixavam 

1 Acham-so aqui menos aTgumas linhas, etija falta dos obriga a dar 
explica^òes, o nos proporciona ao mosmo tempo occasìao do fazer ccr- 
tos rcparos de hcrmcneunca àcorca do manuscripto. D'elle derara ex- 
tractos o6 padres Esperan^a e Fialho, e transcrcvca-o o padre lielcm, 
mas com algumas matila9Òc8. it ama d'estas a das linhas a quo al- 
ludimos, as qiiaes se refercm aos fundadorcs, e contém a prophecia 
de que se acharlam os seus ossos. 

Vimos a còpia quo o guardiào fr. Accursio de 8. Fedro mandou 
laudar cm 1643 no livro do tombe do convento, que se conserva no 
archivo do governo clvil d'està cidade. Cita fr. Jeronymo de Belcm 
a mesma còpia, d'ondo Ibe extrahiram em Evora a noticia que pu- 
blicou em 1750. De proposito supprimiram. pois, os frades a proplic- 
ela do achado dos nseos, manifesta Interpolarlo (que até no estilo se 
coubece) com quo preteuderam auctorisar o milagrc os seus prede- 
cessores do seculo xvir. 

Oa nltimoa factos mencionados na memoria silo do rcinado de D. 
JoJlo III. Por Isso, pelo cstilo, e porquo no rcinado de D. Manuel, 
que tanto bencflriou o convento, nao bavia Jà razìlo para que os fra- 
des se queixasscm amargamente das régias extorsdcs, nos parecc nào 
se dever reputar este papel posterior aos princlpios do seculo xvi. 
Para q Julgar dos fins do secalo precedente é mister snppor que ns 
outras prophecias, que adiante vercmos, n&o foram forjadas, mas es- 
criptas i maneira do impreca^des, e que por acaso se realisarnm. E 
a vclha memoria do livro do còro o unico documento que nos resta 
para a historla antfga do convento, e portante nos soccorreremos d'el- 
la, corno flzeram os cbronistas. AppHcar-lhe-hcmos, porùm, sempre que 
for mister, o escalpello da critica, de que elles nAo quizeram ou udo 
sonberam usar. 



20 



ARCHIVO PITTORESCO 



— ■ -^— .^ 



OS franciscaDOs, de toda a maneira desattendidos e ave- 
xados pelos jesuitas, que chegaram até a Ihes tirar o 
logar, que de direito Ibes pertencia, logo depois da or- 
dem de S. Domingos, nos argumentos publicos da uni- 
versidade. 

Havia tambem n'oulros conventos, comò no de S. 
Francisco, o uso de prender os lìvros cono cadeias às 
estantcs. Os estatutos da universidade de Evora orde- 
naram a este respeito o seguinte: — «Averà nas esco- 
las bua casa pera iivrarìa da Universidade, na qual es- 
tnrào livros de todas as faculdades eoi abastanga, pos- 
(OS em estantes, e presos por cadeas, e enquadernados 
orn tavoào, com seus titulos de boa ietra ^.» 

VI 

Lé-se mais adiante na memoria do livro do còro: 

«Pousava D. Affonso v nos estùos, e porquo sabìa 
muìtas vezes ao campo, pediu-nos os cstudos para 
n'elies pousar, e nós Ibos dèmos com todas as casas 
dos mestres, por ser nosso rei e senbor; e elle comò 
se viu de posse, e as casas tao boas, commetteu-nos 
que Ibe dessemos aquelles aposentos, em que estava 
e nos faria a egreja; e nós todos com campa tangìda 
ibos outorgamos, nào nos parecendo que elle mais to- 
masse; e elle comegou logo de fazer suas camaras e 
portas para a nossa casa, e cada dia pedia casas; as- 
sira que tomou bem ametade da casa, e depois ame- 
tade da horta ; e depois os padres choravam pelas bar- 
bas, e reclamavam Sem Ibe aproveitar, que para isso 
el-rei bouve provisào de grande sacerdote, e por isso 
se foram d'aqui muìtos padres » 

Os estàos ou pagos reaes eram na Praga de Evora, 
entre a rua da Cadcìa e a rua dos Toiros, que ainda 
em 1500 se prolongava até à mesma praga, o que 
tudo mostràmos jà n'outro artigo d'esle jornal. Fica- 
vam, portante, proximos de S. Francisco e na mesma 
àrea que, segundo o velbo manuscripto, o convento 
occupava. Nào se rcputarà por està razào ìmpossivel 
que cbamassem antigamente pagos de S. Francisco aos 
estàos, comò parece deprebender-se das cbronicas de 
Ruy de Pina e Duarte Nunes de Leào, a que alludimos 
no mencionado artigo. 

D. AlTonso v, fazendo em Evora mais longas resi- 
dencias que os reis seus antecessores, e acbando pe- 
quenas as casas da Praga, resolveu ediOcar novos pa- 
gos no convento e horta dos franciscanos, o melbor 
sitio que para tal 6m se Ibe deparava em toda a cì- 
dade. Com o pretextode sair facilmente ao campo, 
se hospedou na casa dos estudos e se foi apossando 
do que mais ibe convinba, embora deixasse os pobres 
frades a chorar pelas bar bas. 

Jà vimos tambem que nào é facil determinar o tempo 
em que principiaram estas régias invasOes pelos domi- 
nios dos frades, e que so com alguma probabilidade 
suppozemos que seria pelos annos de 1471, depois 
das victorias de Arzilla e de Tangcr ^. 

(Continua) A. FiLrppB 8ihoe8. 



' bellas e estupendas curiosidades que a natureza tem 
produzido. Ufanam-se a Suissa, a Escocia e outros pai- 
zes europeus da vistosa perspectiva das cascatas forma- 
das por alguns dos seus rios, que se despenham do ci- 
mo de altas rocbas. Mas que valem essas cascatas em 
belieza e magestade comparadas com a famosa cata- 
racta do Niagara? 

A Italia, a Irlanda e a Belgica mostram com desva- 
necimento aos forasteiros mui formosas e singuiares 
grutas. Porém as grutas de Mammuth, em Kentucky ^, 
na America do Norte, nas quaes o viajante percorre, 
ora a pé, ora embarcado, o espago de muitos kilome- 
tros, sempre cercado de rocbas, que briibam incrusta- 
das de cristaes, e coberto por urna continuada abobada 
de lindas stalactites, estas grutas, dizemos, excedem 
em grandeza e originalidade a quantas possa oppor- 
Ibes velbo mundo. 

Nos Pyreneos, nos Alpes, e em varias outras cor- 
dilbeìras da Europa, admiram-se penedos giganteos e 
singuiarissimos pela sua fórma ou posìgào. Mas em 
neubuma parte do globo avultam serranias imitando 
perfeitamente ao naturai, uà disposigào das suas pe- 
nbas phantasticas, castellos da edade mèdia e gran- 
des cidades em ruìnas, comò se ve na celebrada serra 
Negra da America do Norte. 

A curìosidade naturai, que apresentàmos em gravura 
aos nossos assignantes, nào se póde contar entre essas 
maravilhas que deixàmos referidas. Entretanto, me- 
rece a attengào dos viajantes. É um grupo de rocbedos 
basalticos descommunaes, t&o notaveis por se acba- 
rem solitarios na coroa de pouco elevada collina, co- 
mò pela sua fórma estranha, que deixa presumir, a 
quem de longe os avista, aue tem diante dos olbos 
um castello de antigas eras derrocado pelas luctas dos 
homens ou pela mào destruidora do tempo. 

Erguem-se estes rocbedos nas margens de rio Walah- 
Walab, que nasce e rega o territorio de Oregon, indo 
desaguar no Colombia, que a poucos kilometros se 
langa no Grande Oceano. Aquelles penhascos denc- 
gridos, contrastando com a verdura que os cerca e 
com as aguas cristallinas em que se espelbam, dào 
realce à paizagem, que é de si propria amena e for- 
mosa. I. DB VlLnCKA BABB08A. 



ESTADOS UNIDOS DA AMERICA DO NORTE 

IlOGHEDOS BASALTICOS NAS MARGENS 
DO RIO WALAH-WALAH 

Nào ha paiz algum mais rico em curiosidades na- 
luraes que os Estados Unidos da America do Norie. 
viajante apreciador d'esses pbenomenos encontra alli, 
por toda a parte, e em variadissimos generos, as mais 

1 Nfto Mbemos de ontros estatutos da aniversidade de Evora senio 
dos que so conservam, manuscriptos em boa letra do scculo xvi, na 
bibllotheca d'està eldada. Intltulam-se: EatcUtUoe ordenados pelo Mui 
aito e txctlUnte principe, o Serenissimo Senhor D. Anriqve por merce 
de Deus, e da Santa Egreja de Roma Cardeal do numero dos Santos 4 
eoroados, Iffante de Portugal, Legado e Arcebispo de Lisboa ete. pera 
a Umeersidade qve ordenou e fnndou na cidade de Evora, da int^oea- 
^So do Espirito Santo eom atUoridade do Santo padre Paulo 4. 

3 Vid. a historia dos pa^os reaes a pag. 1 d'este volume. 



WALl DE SANTAREM 

(Vid. pag. U) 

II 

FILHO DO DESERTO 

Ainda largo tempo ficou Zuleyma debrugada sobre 
rio, cujas aguas arrastavam na corrente, comò ou- 
tras tantas perolas, o reflexo das scintiilantes estrel- 
las. Salteava-a um vago presentimento, e a audaciosa 
evocagào de Abu-Zakaria parecia-lhe quasi uma blas- 
phemia que o destino nào tardarla a punir. Com os 
olbos cravados na escuridào da noite, receiava ver sur- 
gir ao longe o vulto gigante de Ibn-Errik, e ver scin- 
tillarem nas trevas os relampagos do seu elmo. Porém 
nada viu senào a noite, naaa ouviu senào o ramalbar 
da brisa, o murmurio do Tejo e o grito das aves no- 
cturnas. 

Sobragando a barpa, dirigiu-se entào com passo li- 
geiro para os seus aposentos na alcagova. Quem a 
visse atravessar quasi aèreamente os jardins silencio- 
sos, quem visse branquejar entre as arvores,, à luz 
trèmula das estrellas, a alvura do seu véo recamado 
de estrellas de oiro, quem visse de subito accender- 
se-lhe na fronte comò que um pallido fogo, aureola 
que provinba do vago scintillar da sua faxa de pero- 
las, julgal-a-hia entào devèras uma d'essas fadas do 

t Vid. pag. 197 do voi. vi. 



ARCHIVO PITTORESCO 



21 



OrìeDtD quo vagueìam nos jardìns, procuraDdo, corno 
Titania, o altrìgo das rosas. 

Subito Zuleyma parou sollando urti grifo. Ergui?ra- 
EC diaiUe d'ella um vulto, cuja pbysioQomia negrc- 
iiiva, em contraste com a alvura do capuz do seu ai- 
bornoz flucCuante. lima barba negra e espessa povoa- 
va-lhe tostado resto, e oos olnoB negros brilhava 
tim Tulgor selvagem. 

— Mogbar! exclamou ella assustada e deitando a 
correr na direc^ao do palacio. 

Mas, aoles qiie desse dois passos, estava Mogbar 
juDto d'ella, e impedia-a poìsando-lhe ao de leve a 
mSo no bombro. 

— Por que foge a gazella quando apparece o leSo 
do Allaaì" exclamou o berebere, e a sua voz tinba in- 
(lexfies de cxtraordioaria do^ura; por que ee esquiva 
a paimcira flexivel e airosa As carìcias ardentes do 



turbilbao do deserto? Sou eu por acaso Uin d'esses 
nazarenoa descridos, abutres que so ousam cmpolgar 
as pombas que arrulham noa terrados da alcacova? 

— Os nazarenoa descridos, respoadeu ella coni certa 
energia, combatem os inimigos; e tn, Mogbar-lbn- 
Ibrabim, enlerras o punbal trai(;oeìro no seio dos teus 
inn3os de creuga. 

— Nào b5o meus irmaos de crenj^, respondeu som- 
brìo berebere, aquelles que, mergulbados na devassi- 
àào e no luxo, rasgam com desdem as paginas do Al- 
korau, motejaai nas suas orgìas blaspbemas do santo 
nome de Aliati, e dcsprezam os manaamenlos do pro- 

Iiheta. £ impio quem oào segue os preceitos de Abdal- 
ab-el-Nebedi ^, e eu desprezo mais o impio que re- 
nega da sua crenga, do que o cego que nunca abriu 
OS olbos A iuz que de Mekka irradia. 

— Abdallah-el-Mebedi, tornou Zuleyma com des- 




Rocbedoa busltlcoi 



« ao rio WaUb-V 



IO dlMxIcto do Orofon 



dem, li pois esse o nome do audacìoì 
Iraz rcYolto o dcsgrdgado Al-Maghreb, e que pretende 
lanibem inundar de sangue musulmano as ferteis cam- 
piaas do Andaluz? 

— Abdallah-el-Mebedi, respondeu o berebere com 
exaltagùo, é o santo, o propbeta que ousou face a 
face com o tyranuo almoravide, no recinto da mes- 
quita de Fez, estygmatisar a sua impiedade e a dis- 
solufào dos seu.s cof^tumes. È, o santo que, expulso 
da cidade dos vivos, foi soltar a voz inspirada no ce- 
miterìo, na cidade dos mortos, e sili concorreram de 
toda a parte os Seis a ouvir-lbe os salutares pre- 
ceitos. 

— Sim, redarguiu Zuleyma com suprema amargu- 
ra, correram ao cemiterio comò correm aa byenas, 
porque tu, que te dizes leSo, i^s so a bycna que vens 
buscar a tua parie no repaslo em que vos cevaes no 
cadaver do imperio doa Ommyadas. 

— A pomba amea^a quando a aguia arnilba, é de 
regra, rctorquiu o berebere com sardonico sorriso; 
pois eu vinba trazer-vos palavras de paz. 

— Nem palavras de paz, nem palavras de guerra 
me devias fazer ouvir, acudiu Zuleyma com gravi- 



dade; eou musulmana, és musulmano, ndo és nem 
meu pae, nem meu esposo, e, comtudo, estfis-me fal- 
lando a sós no jardim, comò fallaria um nazareno 
descrido a alguma das suas virgens impudìcas. 

— Apagam-se as Ieis, apaga-se o respcito das ve- 
Ibas tradigOes no conigilo que a paix3o impetuosa in- 
vade. Assim se apagam as palavras escriptas no areial, 
quando a onda transpóe os limites marcados e vem 
beijar a praia com os seus labios de espuma fremente. 
Rosa do Al-Gbarb, o teu delicado aroma inebriou os 
sentidos do fillio do deserto, que passava sombrìo para 
cumprir a sua mìssao fatai. Parou a respirar a fra- 
grancìa desconbecida, e nfio pensou n'outra coisa que 
nao fosse em colher a rosa perfumada e dìzer-lbe: 
■ Vem florescer, sósinha e sem rivaes, no meu harem 
deserto.-' Tudo sacrilico a este desejo infrene. Quer 
leu pae, na sua selvagem independencia, governar o 
seu forte castello sem render preito a ningnem? por 
Mabomet te juro que ninguem o perturbare na posse 
do seu waliado. Quer, pelo contrario, reconheccr a' 
soberania de Abd-ei-Muraen, o poderoso emir-al-mu- 
minim, dìscipulo de Abdallab? terà sujeilos ao seu 



22 



ARCHIYO PITTORESCO 



poder todos os valis do Àl-6harb. Juro-o pelos sete 
dragOes do lago inferaal... 

— Nào jures; que cu so por Mahomet te juro que 
te odeio e desprezo comò um vii escravo rcvoltado, 
e intimo-te para quo nSo ulti^cs mais o nome sem 
mancha de meu pae com as tuas propostas infames. 

Mogbar soltou comò que um rugido e avangou para 
olla com gesto amea^ador. 

— Queres-me embargar o passo? disse Zuleyma al- 
tiva. 

— Oucro saudar-vos respeitoso, nobre filba do wali 
de Santarem, disse o berebere coro uma subila mu- 
danga na voz e nas maneiras. 

E cruzaodo as màos no peito, à moda arabe, cur- 
voU'SC até ao cbào, abrindo caminbo à donzella. 

Està passou ligeira comò corga perseguida, mas pal- 
lida e trementc. Conhecendo as fogosas paixOes dos 
filhos do Magbreb, tremia d'aquelle subito asserenar. 
Adivinhava a tempcstade por baixo d'aquellc gesto im- 
passi vcl. 

palacio ainda ficava longe. Zuleyma prcferiu abri- 
gar-se no pavilbào, onde algumas das suas escravas a 
costumavam esperar. 

berebere, cntretanto, apenas ella se afastou, er- 
gueu ao ceo o punbo fechado com ar ameagador. Os 
seus olhos negros despediram relampagos de furor sel- 
vagem, e a sua voz soltou um rouco e borrendo grito 
que Dada tinba de humano. 

— Imprudente, cxclamou elle, que assim brincaste 
com a colera de Ibn-lbrabim. Leào #ou byena, eu te 
juro que ainda Ibe bas de palpitar oas garras. 

A noite dcsdobrava sobre a terra o seu manto re- 
camado de estrellas, que so pareciam aconselbar se- 
renidade e paz; o rio la em oaixo munnurava tao de 
manso, que parecia embalar o sonino de uma crianga. 
E cntretanto os mais sinistros pensameiitos tumultua- 
vam na mente do berebere. É porque elle nào era da 
raga d*esses arabes voluptuosos e scismadores, aos 
quacs as iioiles suaves da Peninsula iospiravam um 
continuo enlevo; nao, elle nascerà nos jareiaes africa- 
nos requeimados por um ceo de fogo, e as paixOes 
que sempre no seu espirito bramiam nào deixavam 
iloresccr là dentro um so d*estes suaves sentimentos. 
proprio amor, que nos arabes era a suavc brisa que 
dava mais \ìqo e frescor às rosas do coragào e do es- 
pirito, n'elle era vento abrazador que deixava crestada 
e murcba a fior que envolvia com o seu habito de fogo. 

Sombrio, soltando ao vento nocturno as pregas do 
seu branco albornoz, dirigiu-se Mogbar para a alca- 
gova. Abu-Zakaria, na sala do meschitar (conselho de 
estado), ouvia alternativamente o seu wali alahdi^ ou 
inspector das revistas, os cadis (juizes) da sua cida- 
de, e OS seus mechtiseb (recebedores). As particìpagOes 
d'estes funccionarios tinnam-n*o deixado satisfeito. As 
taifas dos defensores da cidade andavam pagas em dia, 
OS tribulos cobravam-se regularmcnte, e no bairro de 
Scserigo nenbuma discordia grave cbamàra a attengào 
dos cadis. Afastando-se d estes subaltcrnos, Abu-Zaka- 
ria aproximàra-se do seu wasir, ou logar-tenente, e 
perguntàra-lbe: 

— Que novas trouxeram os forcnicos (correios) de 
Cintra? 

— As mesmas que ale aqui. Nao ha nem rumor de 
guerra. Os almogavares percorrem o terreno dez le- 
goas era redor sem encontrarem um vestigio so de 
esculcas nazarenos; na torre dos vigias dorme apa- 
gado fogo das almenaras. 

— Pois que velem elles! Nunca vera mais proxima 
a tempestade do que quando a natureza està assim 
immersa n'um letbargo profondo. 

— Ibn-Errik adormeceu no leito da mulber d'além- 
mar; descanga com elle a sua espada, e os seus cavai- 
leiros bocejam de enfastiados nas salas das alcagovas 
de Coimbra. 



— É repoiso do leao. Sei'à terrivel o despertar. 
Vigiiancia, wasir! 

N'isto entrou um escravo, e, depois dos innumeros 
salamaleks de rigor, anounciou que Mogbar-Iba-Ibra- 
bim-Ibn-Sofian pedia uma audiencia. 

— Que entre, exclaroou o wali de Santarem visi- 
velmcnte irado. 

Mogbar entrou. 

Curvou-se respeitosamente diantc de Abu-Zakaria, 
comò se curvàra diante de Zuleyma. 

— Poderoso wali, disse elle, vae fiodar a minba mis- 
sSo e eu vou partir. Concede-me a graga de uma res- 
posta benevola que eu possa transmittir com jubilo. 
Com impaciencia a espera o sublime emir-al-muminin. 

— Emir-al-muminin, cbefe dos ci^entes! exclamou 
Abu-Zakaria comò se uma vibora o bouvesse picado; 
quem ousa tornar esse titulo sacrosanto? 

— Quem ousa tomal-o? redarguiu Mogbar, e o seu 
olbar frio luzia comò a foiba de uma espada; quem 
tem direito a fazel-o! Abd-el-Mumen, o senbor do Al- 
Maghreb e do Andaluz, o kalifa eletto pelo represen- 
tante do propbeta, por Àbdallab, o santo iman-el-ma- 
hedi. 

— Blasphemias! exclamou Abu-Zakaria, e a espuma 
da colera refervia-lbe à flor dos labios pallidos. Um 
aventureiro, sagrado por outro aventureiro, ousa ufa- 
nar-se do titulo eminente que so pertence aos succes- 

' sores do propbeta, aos kalifas de Bagdad, boje que a 
! raga dos seus legilimos possuidores, os Beni-Mer&an 
i de Kordova, se exiinguiu no sangue dos ultimos rc- 
I presentantes d essa familia illustre! Ao menos, os al- 
I moravides, a quem a fatalidade nos obrigou a obede- 
' cer, so tomavam o titulo mais modesto de emir-al- 
moslemim, cbefe dos musulmanos; mas o aventureiro 
saldo da lama nào se contenta com menos do que com 
titulo de cbefe dos crentes. Vae, vae levar as tuas 
palavras a Ibn-Kasi, o renegado que cbama os naza- 
renos em seu auxilio, mas nào as tornes a proferir 
diante do wali de Santarem. 

— E vou, respondeu friamente Mogbar; prefiro os 
que se «lliam coni o cstrangeiro para fazer triumpbar 
a causa santa, aos que se revpltam contra os envia- 
dos de Allab. 

— Pelo monslro do monte Safa juro que a paciencia 
tem limites. Sabib-el-berid, capitào das veredas, con- 
tinuou Abu-Zakaria voltando-se para um novo perso- 
nagem que bavia pouco entràra, é teu officio. linipar 
de saileadores as cstradas. Olha-me para cstc bere- 
bere, e se elle de boje em diante se aproximar a tiro 
de setta dos muros de Santarem, frecha-m'o sem pic- 
dade. E agora, Mogbar-Ibn-lbrabim-Ibn-Sofian, vae-to 
em paz, e Allah te acompauhe, se te julga digno d^isso. 

Mogbar curvou-se de novo com respeito e salu. 
Levava a cabega em fogo. Ainda mais Ib'a tinbam 
abrazadò os esforgos que Ozerà para se conter. 

— Uaga imprudente e cega! exclamou elle assim 
que se viu so nos jardins. Quào mal couhecem o leào 
do deserto! Em breve saberào que nào se injuria im- 
punemente um filbo da tribù dos Beni-Aglab. 

Parou a beira de um lagosinijo, e deteve-se instan- 
tes a contemplar o reflexo trèmulo das estrellas. Pa- 
recia absorto em cogitar profundo. 

— Abd-el-Mumen està longe, disse elle erguendo a 
final a cabega, e Ibn-Errik eslà perto. Que me imporla 
qual seja o instrumento da miuha vinganga, comtanto 
que me vingue! 

Caminbou direito à porta ogival dos jardins. Ao pas- 
sar diante do pavilbào de Zuleyma viu luz là dentro. 

N'um dos quartos do pavilbào, cujas paredes esta- 
vam magnificamente vestidas de azulejos, cujo am- 
biente se perfumava com as emanagOes das mais pu- 
ras essencias da Arabia, reclinada suavemente nos 
macios coxins, com o olhar comò que absorto em 
vaga contemplagào, Zuleyma pensava na sua entre- 



ARCHIVO PITTORESCO 



23 



vista com Mogbar, e dos loucos presentimentos que 
durante esse dia lodo a tinham salteado; a seus pés 
urna formosa escrava syria, cujos artelbos nus eram 
apcrlados por braceletes de oiro, esperava, muda e 
immovel, que a sua seuhora saisse d'aquella especie 
de somnoleucia. 

De subito ouviu-se urna voz rude e selvagem, que 
cntoava ìù, fora com urna iuflexdo viril urna cangào 
eslranha. Levantàra-se um vento aspero que zunia lu- 
gubremcDte, e cujas queixas se confundiam com as 
ameagas d'esse canto rouco e ameagador. A voz dizia 
assini : 

Sou comò fogo escondido 

na dura pedra do vai; 

se alguem a fere e a'cxcita, 

lù brola a cbamma infernal. 

Sou corno leao que os fìlbos 
guarda ao looge na floresta; 
se cào ladraodo o irrita, 
nào tarda a morte funesta. 

Sou mar em calma; suas ondas 
póde-as o vento alterar. 
Temerario navegante, 
receia a furia do mar. 

Com olhar espantado, os labios convulsos, as maos 
trcmenles, Zuleyma cscutou essa voz sinistra que vi- 
brava cbcia de ameagas no silencio daiioite; depois, 
soltando um grito angustioso, scpultou a cabega nos 
coxins dos divans, comò para fugir à perseguigào d*a- 
quelle demonio invisivcl. 

Mas a noite tornùra-sc de novo silenciosa, e nos 
jardins do alcagar de Santarem nao se ouvia mais do 
que ramalbar da brisa nas folbas, e o murmurio do 
Tojo que là em baixo corria limpido e palreiro. 

(Continua) M. Pikhbibo Cìiaoas. 



3 



LUXO E MAGNIFICENGIA DA CORTE 
DEL-REI D. JOÀO V 

(Vid. png. 4) 
II 

Succedeu cl-rei D. Joào v na coroa d'esle rei no, pelo 
faliecimento dei-rei D. Fedro ii, seu pae, aos 9 de dc- 
zembro de 1706, contando 17 annos de edade. Accla- 
mou-sc no 1.° dia de Janeiro do anno seguinte. Ccle- 
brou-se està ceremoniacom muita pompa; todavia, nào 
foi nella que se estreou a inclinagào do mogo rei para 
as festas esplendidas. Porém pouco tardou em a reve- 
lar de um modo que deu cabal medida do que bavia 
de ser essa propensào em todo o curso do seu reinado. 

Um dos primeiros negocios de que se occuparam os 
seus ministros foi o do casamento do soberano. 

Desejoso cl-rei D. Fedro ii de ver accrescentado o 
lustre da dinastia de Draganga com o enlace do ber- 
deiro do seu ibrono com uma princeza da fumilia de 
Ihibsburgo, entabolàra as negocingOos para o ajuste 
(lo consorcio do principe D. Joào com a arcbiduqucza 
D. Maria Anna do Austria, GIha de Leopoldo i, impe- 
rador da Allemanba, a esse tempo jà fallecido, e irmà 
do iinperador José i, entao reinante. Tiveram exilo 
fciiz as primeiras negociagOes, tratadas particularmen- 
te; porém a morte colbeu el-rei D. Fedro ii quando 
se dispunba para mandar pedir a mào da princeza em 
acto publieo e solemne. Por està razào, apenas el-rei 
D, Joào V eropunhou o sceptro, cuidou logo de con- 
cluir 08 ajustes encetados por seu pae. 

N*estas nupcias, pois, que tanto lisongearam o seu 
orguHio, é que o joven soberano patcnteou pela pri- 
mcira vez o seu amor da ostentagào e do luxo. 



A 14 de setembro de 1707 largou do Tejo a nau 
uè conduzia o conde de Villar Maior, Fernào Telles 
a Silva, embaixador encarregado de ir pedir à corte 
de Vienna d'Austria a mào da arcbiduqucza. Nunca, 
em casos taes, se apresentàra em corte alguma es- 
trangeira uma embaixada portugueza tao apparatosa 
pelo acompanhamento que levava, e tao pomposa pe- 
las galas e luzimento com que fez a sua entrada pu- 
blica na capital do imperio allemào. 

Compunba-se a comitiva do embaixador de noventa 
e duas pessoas: secretano, geotis-homens, thesourei- 
ro, porteiro da camara, guarda-roupa, medico, con- 
fessor, pagens, reposteiros, lacaios, palafreneiros, so- 
ta-cavallarigos, cocheiros, etc. prestito do conde de 
Villar Maior, na sua entrada solemne na cidadc do 
Vienna, constava de sete cocbes da embaixada, dois 
do imperador, e quarenta e dois dos ministros, con- 
selbéiros de estado, e mais funccionarios e Gdalgos 
da corte imperiai, e de grande numero de pagens, 
lacaios e outros criados, ricamente fardados, e que 
iam a pé ou a cavallo. coche em que ia o embaixa- 
dor caminbava entre trinta lacaios da sua casa, a pé, 
trajando riquissimas fardas. Atraz d'elle seguiam dozc 
pagens montados em cavallos, sendo egualmente co- 
bertos de oiro e prata os vestidos d'aquelles e os jaezes 
d'estes. Após vinham o estribeiro, scis palafreneiix)s 
conduzindo à mào seis soberbos cavallos do embaixa- 
dor, ricamente ajaezados, e depois ossotas-cavallarigos. 

Os sete coches do embaixador foram mandados fu- 
zer na Hollanda expressamente para està solemnidade. 
Eram todos mui ricos, principalmente um, que era 
recamado de oiro tanto no exterior comò no interior. 

Està entrada do embaixador de Fortugal foi tao vis- 
tosa e magnifica, que o imperador José i e toda a fa- 
miiia imperiai, contra a pratica nào so da corte de 
Vienna, mas tambem de todas as cortes da Europa, 
em casos similbautes, presenciaram das jaoellas do 
pago a passagem do cortejo. 

Sirva està amostra para se ajuizar da grandeza e 
profusào das galas, do apparato das ceremouias, e do 
esplendor das festas com que el-rei D. Joào v solem- 
nisou a cbegada da raiuba a Lisboa e a celebragào do 
seu consorcio. 

Durante anno e meio Irabalhou-se activamente nos 
preparativos para estas funcgOes. Ornaram-se as salas 
dos pagos da Ribeira com preciosas sedas e brocados, 
e tapegarias fìnissimas. Guarneceram-se com moveis 
de summa rìqueza. Fabricaram-se cocbes de muita 
sumptuosidade. Fizeram-se novos e riquissimos far- 
damentos para toda a criadagem da casa real, e para 
as guardas dos arcbeiros. Construiram-se dezenove ar- 
cos triumphaes; um ampbitbeatro no Terreiro do Pago 
para as corridas de toiros; varias obras de arcbitectura 
e uma monlanha, figurando o Etna, para grandiosos 
fogos de artificios; coretos no pago para grandes con- 
certos de musica, etc. 

A rainha cbegou ao Tejo, conduzida em uma ar- 
mada ingleza de dezoito naus, no dia 26 de outubro 
de 1708. resto de outubro e alguns dias de novem- 
bro foram consagrados aos festejos. A ceremonia da 
entrada publica da rainha realisou-sc com grande so- 
lemnidade no dia 22 de dezcmbro. Foi n'essa occa- 
siào que servìram os coches reaes que se mandaram 
fazer, pois que a rainha desembarcàra do bergantim 
real, em uma ponte junto aos pagos da Ribeira, enca- 
minhando-se logo a pé para a capella real do mesmo 
pago, onde se recebeu com el-rei. 

Dispenderam-se n'estas funcgOes alguns centos de 
contos de réis. 

Posto que fosse mui precario o estado da fazenda 
publica ao tempo em que assim se gastava com tanta 
largueza, outras occasiOes se apresentaram, e d'ahi a 
poucos annos, em que essa fatai propensào do monar- 
cha tomou proporgOes de verdadeìra prodigalidade. 



24 



ARCHIVO PITTORESCO 



ni 

Tendo el-rei solicitado e obtido do papa Clemente xi, 
no correr do anno de 1710, a instituigào de urna col- 
legiada na sua capella reaJ, composta de seis digni- 
dades, dezoito conegos e doze beneflcìados, testimu- 
nhou a sua gratidào ao summo pontifice enviando-lbe 
por embaixador extraordinario ao marquez de Fontes, 
a quem depois mudou o titulo no de Abrantes. 

fim ostensivo da embaixada era dar obediencia 
ao papa. Mas achando-se Clemente xi sentado na ca- 
deira de S. Fedro desde o anno de 1700, e tendo el- 
rei D. Joào V por seu enviado e ministro plenipoten- 
ciario na corte de Roma, bavia jà alguns anuos, a | 
André de Mello e Castro, por via do qual tinha al- { 
cangado as referidas gragas pontiQcìas, ba razào para 
se presumir que el-rei apenas teve em vista retribuir 
favor do pontifice com o especlaculo de urna "em- 
baixada apparatosa. E, com efifeito, o marquez de Fon- 
tes, muito tempo depois da sua cbegada a Roma, parte 
do qual gastou em preparativos festivaes, fez a sua en- 
trada publica com esplendor e luxo poucas vezes visto 
na cidade eterna em ceremonias taes. 

Todavia, nào obstante a magnificencia que o mar- 
quez de Fontes aiardeou n*esta solcmnidade, nào foi 
mais que o preludio de outra de muito maior riqueza 
e fulgor com que D. Jolio v assombrou a capital do 
muudo catholico. 

Decorridos poucos annos depois de ter a sua capella 
real organisada comò uma sé, pareccndo-lbe que ainda 
nào era sufficiente preeminencia para o lustre da sua 
coroa, encarregou o seu ministro junto da santa sé, 
André de Mello e Castro, de requerer ao papa a erec- 
Qào da mesma capella em egreja patriarcbal. que o 
monarcba portuguez solicitava era nada menos que o 
estabelecimento de um simulacro da corte pontificia 
dentro da sua real capella, que assim ficaria quasi 
competindo em ma^estade com a egreja do Vaticano. 
Clemente xi, que amda cingia a tiara, ou por afifeigào 
particular a el-rei D. Joào v, ou por muito acostumado 
às suas liberalidades, concedeu quanto a tal respeito 
Ibe foi pedido. 

A bulla Aurea da instituigào da patriarcbal foi ex- 
pedida em novembro de 1716. No anno seguinte pre- 
senciou Lisboa pompas religiosas até entào so vistas 
em Roma nas festividades em que officiava o soberano 
pontifice. Como todos sabem, os doze principaes da 
santa egreja patriarcbal de Lisboa, divididos, comò 
sacro collegio de Roma, em principaes primarios, 
presbyteros e diaconos, vestiam babitos cardinalicios 
nas funcQóes da sua egreja, e celebra vam pontificai. 
Os trinta e seis monsennores eram repartidos por qua- 
tro turnos: o primeiro de doze monsenbores prelados 
(mitrddos) ; os tres restantes de monsenbores protono- 
tarios, sub-diaconos e acolytos. Os conegos eram vinte 
e quatro, e os beneSciados e capellàes-cantores pas- 
savam de cento e vinte. Os mestres de ceremonia e 
mais empregados eram cento e quarenta e doìs, e os 
musicos italianos e portuguezes setenta e dois. 

Custaram sommas immensas ao tbesouro portuguez 
as bullas da creagào da patriarcbal. Cada concessào 
que el-rei D. Joào v la obteodo de novo para a au- 
gmentar em preeminencias e prerogativas, era paga a 
peso de oiro. Nào obstante, o soberano, que conquis- 
tou epitbeto de magnanimo à forga de liberalidades, 

8uiz ainda mostrar-se reconbecido à munificencia de 
lemente xi por meio de uma embaixada que ecli- 
psasse em apparato e sumptuosidade as mais esplen- 
didas cmbaixadas de que havia noticia. 

André de Mello e Castro, elevado ao cargo de em- 
baixador extraordinario, a fim de ter pretexto para 
fazer entrada publica e solemne na corte onde residia, 
desde os principios do reiuado de D. Joào v, com o ca- 
racter de seu ministro plenipotenciario, correspondeu 



tao cabalmente aos desejos do soberano, que este Ihc 
recompensou um tal servilo nomeando-o conde das 
Galvéas. 

Nada esaueceu nem poupou André de Mello de tudo 
quanto podesse dar realce à solemnidade da sua en- 
trada publica, que se verificou no anno de 1718, em 
consequencia dos muitos, importantes e variados pre- 
parativos que foi mister fazer para està funcgào. que 
é certo é que eram tao notaveis a riqueza e perfeigào 
dos cocbes e das librés que o embaixador mandou fa- 
zer para esse dia, e tao numerosa e luzida a sua co- 
mitiva, que ficou memorada està ceremonia corno a 
mais grandiosa que um monarcba estrangeiro fez ce- 
lebrar em Roma. Depois deixaram de se fuzer, por 
largos annos, na corte pontificia, entradas solemnes 
de embaixadores, porque nenbuma nagào se accom- 
modava à idèa de dispender tanto dinheìro na cere- 
monia de um so dia, corno Portugal dispendeu; ou 
de fazer menos brilhante figura que este pequeno 
reino dos confius occidentaes da Europa. 

Passado pouco tempo pubbcou-se em Roma uma 
descripQào minuciosa d'està embaixada em um volu- 
me in-folio adornado de gravuras, representando os 
cocbes do embaixador que serviram n'essa occasido. 
A bibliotbeca publica de Lisboa conta entre os seus 
livros raros um exemplar d'està obra, bastante curiosa 
para a hisloria da corle ostentosa dei-rei D. Joào v. 



IV 



Ainda nào estariam pagas, sem dùvida, todas as 
despezas d'aquelle capricho da vaidade real, e jà o 
mesmo soberano se entregava desassombradamente a 
novos e grandes dispendios para ordenar uma funcgào 
religiosa na sua corte. 

Lembrando-se el-rei de restaurar a solemnidade do 
Corpo de Deus, que, em consequencia das passadas 
guerras da nossa independencia, cbegàra a perder 
quasi inteiramente o brilbo com que outr'ora era cc- 
lebrada n'esta capital, determinou, no anno de 1719, 
nào semente que fosse restituida ao seu anligo lustre, 
mas, além d'isso, que se accrescentasse em galas e 
magnificencias. Foram executadas com pontualidade 
as ordens do soberano e satisfeitos todos os dcvaneìos 
da sua imaginagào. A festa da pmcissào de Coiyus 
Christi que se fez no dia 8 de junho de 1719, e que 
serviu de norma para a dos annos soguintes, foi a 
mais sumptuosa e brilbante festividade de que dào 
noticia OS fastos da egreja olysiponense. 

Existem extensas descripQòes d'està funcgào, escri- 
ptas por testimunbas oculares com miudeza e até pro- 
lixidade. Nào é nosso proposito dar agora uma amos- 
tra d'ellas aos nossos leitores. Bastarà dizer-lbe^, para 
que fagam uma idèa aproximada da grandiosidade e 
riqueza da festa, que se dispendeu n'elia, dos cofres 
do estado, cérca de 200:OOOi5^000 réis. E ao tempo em 
que assim se ^astava tao prodigamente em uma so- 
lemnidade religiosa, luctava ainda o governo com gra- 
ves embaragos pecuniarios para acudir a todas as ne- 
cessidades do servigo publico! 

(Continua) I. dk Vilhbna Barbosa. 



Por uma palavra inconsiderada se descobre um se- 
gredo; por um segredo descoberto se póde perder um 
reino. Quantas familias inteiras nào poderam nunca 
lavar uma nodoa que Ibe poz uma so palavra de um 
«ouvi dizer»? Em fim, nào fora ella sentenga do Es- 
pirito Santo, se nào fora vcrdadeira sentenga a que 
diz: Que a morte e a vida estào na mào da lingua. 
Resta logo para remedio e cautela de tantos perigos, 
que nunca nossas palavras se afastem da ré^oa da 
prudencia, porque so entào sairào rectas. 

P. Mand£L Bbrhardzs. 



A«CmVO PITTOHESCO 




la do BrlgHDfH, rklulu dr 



De todas as negociagocg dìplomaticas quc hzemos 
para susteiitar a reslauraciio de 1640, a maifl noiavei 
e contestada foi a do casamento da infaDla D. Catha- 
rina, Qlba dei-rei D. Joììo iv, com o rei da GraD-Brc- 
tanha, Carlos ii. 

Bem viram os mìnislros e conselheìros da nova dy- 
nastia que o reino nào tìnba for^as proprìas parare- 
eistir ao poder de Castella e a loda a casa de Austria; 
por isso seu principal empeobo foi conseguir o re- 
coDhecimento e auxilio das principaes potencias da 
Europa. 

Logo em 1641 fez Porlugal Iralados de allianya com 
a FraD(a, Suecìa e Dìnamarca; de ire^as com a Hol- 
landa; e em 1642 de paz e commercio com a Ingla- 
(erra. Mas islo so conseguia nfio tormo8 estas na^es 
por inimigas. Era urgente havel-aa lambem por au- 
xiliares, dando-noa soccorros de gente e muaicues de 
guerra. 

A este inlento se enviaram os Gdalgos e letrados de 
maior sulTiciencìa (que os bavia entao de inao chciu) 
para diversas cortes. 

Como assGssor de lodos ellcs, o famoso padre An- 
tonio Vieira passou sete vezes o canal de Inglaterra, 
duas golpho de Lv3o, qualro alravessou a Franga, 
e a maior parte da Inglalerru e Hollanda '. 



De tantas e tao activas diligencias, ed couseguinios 
da Fran^ promessa de soccorros, & cusla de grandes 
subsidios; o comprarmos alguns navios e armamento 
na Hollanda; asBoldadarmos aiguma iropa arenturei- 
ra; e fazer um emprestimo na praga de Amcstafdào. 
PAde-se dizer que anies da vinda do marecbal conde 
de Scbomberg em 1660, com seiscentos voluntarios, 
por intervengao do marecbal Turcnue, Porlugal sus- 
tentou a guerra de Hespanba sómente com us tropas 
nacionaes, durante vinte annos, em que alcancou ou- 
iras lanlas victorias, até à decisiva, em Montes-Claros, 
unica em que entrou Scbomberg com o posto de mes- 
tre de campo general, commandando o exerciloedi- 
rigindo a bataiha o marquez de Marialva. 

Se tal fa^anha nos parece boje fabulosa, maior sorÀ 
assembro, se considerarmos que Portugal, quando 
soltou o grìto da independencia, >acbava-8e inteira- 
mente desprovido de dinbeiro, de artilberia, armag e 
polvora; quc os armazeiis e arsenues careciam de ludo 
quanto 6 mister para ii gueri-a, tanto por mar comò 
por terra; que o povo nao tinba nenbuma disciplina 
mililar; que nao bavia cavallos; que n'uma Tronleira 
de cento e cincoenln legoas ndo existia uma so pra^a 
em eslado de defeuder-se; que o dominio (bens pro- 
prios) dos antigos reis estava empenbado nu vendido; 
e pela mrsma mancira o rendimento das airundegas 
de Lisboa, quc consliluiu a maior parte dot^ do reìno, 



26 



ARCHIYO PITTOWESCO 



OS quaes, corno se achasscm cmponbados em mào de 
pessoas que tinham grandemente contrìbuido para a 
acclamagào dei-rei, nào havia meio de desempenhal-os 
senào pagando o que Icgitimamente se Ihes devia; por 
ser costume da coroa de Castella, sempre conforme 
com dos usurpadores, comegar por vender o deslruir 
patrimonio dos reis deslhronados, para tirar-lbes 
loda a esperanga de o poderem recobrar.» 

Este quadro, tao fiel corno lastimoso, transmittido 
pelo enviado de Franga em Lisboa ao cardeal Maza- 
rino ^, nùo so nos servirà para aferirmos a heroici- 
dadc da rcsistencia com que, em tal abatimeoto e 
desajudados, nos defendemos da invasào hespanbola 
no seculo xvn; mas tambem para que os pusillani- 
mes, que nos julgam boje em estado de nào podermos 
manter a nossa autonomia, vejam quanto póde a uniào, 
patriotismo e o amor da liberdade. 

Portugal nào està presentemente tao empobrccido 
corno em 1640; e se depois de urna guerra de quasi 
irinta annos, se restabeleceu até chegar à opulcncia 
do reinado de D. Joào v, o aproveitamcnto dos rc- 
cursos que ainda temos nos póde abrir um futuro de 
prosperidadc e graudcza. 

Jà vimos corno os nossos alliados, a Franga e a 
Inglaterra, nos deixaram, por espago de vinte anno», 
luctando a sós com a Hespanba, rcpellidos pela curia 
romana, e trahidos pelos bollai\dczes ; vejamos agora 
as diligencias que os diplomatas portuguezes fizenim, 
durante esse periodo, para conseguirem os soccorros 
com que podessemos por termo a tao arriscada lucia. 

Como n'aquelle tempo as alliangas matrimoniaes en- 
trc as casas reinantes eram os pactos que decidiam 
quasi sempre a sorte dos povos^ logo em 1643 enviou 
1). Joào IV um embaixadodr a Paris para ajustar o ca- 
samento do principe D. Tbeodosio, herdeiro da coroa, 
com a duqueza de Montpensiec,.sobrinha de Luiz xiir. 

Nào tendo vingado està lentatìva, foram incumbi- 
dos marquez de Nìsa o o padre Vieira de Iratar do 
matrimonio do mcsmo prìncipe- com a Bilia mais ve- 
Iba do duque do Orleans, interessando n*esta negocia- 
gào ministro absoluto de Luiz ^v^ o cardeal Maza- 
rino, ao qual offoreceram o arcebispado de Kvora, e 
um presente de trezentos mil cruzados. cm pimenta, 
alcatifas e outras coisas prociosas da Judia, para elle 
distribuir corno entendesse; porque, nlaquelle tempo 
toda a diplomacia calgava d estasJutJiAS, e Mazarino 
tinba fama de peiteiro. astuto cartleal prometteu fa- 
vorecer este projecto, mas nào aompriu a sua pala- 
vra, ao que era uscirò, coma fcem o provou depois, 
excluindo Portugal da paz do& Pyrenóos, era 1660, 
contra a boa fé do tratado que baviamos celebrado 
com a Franga, que elle entào governava despolica- 
mente. 

Nova tentativa fez o afamado padre Vieira, para 
casar o principe D. Tbeodosio com D. Maria Tbcreza 
de Austria, filba e betxicira de Filippo iv, que depois 
casou com Luiz xiv. Contava o eloquente jesuita que, 
celebrando- se este consorcio do successor do Ibrono 
portuguez com a herdeira da monarchia bespanbola, 
rei de Castella desistirìa das suas pretengòes à coroa 
de Portugal, em beneficio de sua Alba, e assim ter- 
minaria a guerra. 

Baldou-se*lhe tambem este projecto, porque a Hes- 
panba tinba jà destinado està princeza para Luiz x[v, 
e com ella comprar a paz da Franga, cuja guerra Ibc 
era mais nociva que a nossa. 

Nào descorogoou Antonio Vieira com ver mallogra- 
das todas as suas Aidigas para alcangar a paz do reiiio 
com casamento do seu augusto discipulo, porque, 
embora o principe D. Tbeodosio nào recebessc ligOes 
do padre Vieira, tinba elle alvarà de mcstre de sua 
alteza. 

i Quadro Ehm., tomo iv, pag. 884, pnblicado pelo viscondc de 
JBaDtarem. 



A ultima tentativa foi mais audaciosa. Com instruc* 
góes secretas, escriplas pelo secretano de estado Pe- 
dro Vieira da Silva, depois bispo de Leiria, se transfe- 
riu a Paris, e ahi as apresentou ao marquez de Nisa, 
nosso embaixador, para que buscasse logo o cardeal 
Mazarino, e Ibe dissesse que el-rei de Portugal levava 
em gosto casar o principe D. Tbeodosio com mada- 
moysela de Longueville, podendo logo vir com ella o 
duque seu pac, a quem sua magestade largarla o go- 
verno do reino, para o governar em quanto o prìncipe 
nào ti vesso edade; passando o sr. D. Joào iv ao Ora- 
sii com titulo de rei d'aquelle estado. 

embaixador, espantado da novidadc de tal pro- 
posta, e repugnando-lhe o seu conteudo, exclamou 
«que nào era elle o vassallo que havia de entregar o 
reino de Portugal aos francezes e tiral-o a el-rei D. 
Joào; e que autes coriaria as màos do que assignar 
tal tratado.» 

Consta este facto (que demanda longo commentario, 
a que n oulro logar nos enlregareraos) de um docu- 
mento originai que possuimos ^ 

Apenas coro dezoito annos, falleceu o principe 1). 
Tbeodosio, solteiro, apesar de baver lido tantas noi- 
vas e tao solerte casamenteiro ! Mas p padre Vieira, 
se Ibe nào fez o casamento, escreveu-Ibe o necrologio, 
no eloquente e affectuoso sermào das exequias que a 
Companbia de Jesus Ibc celebrou no seu collegio do 
Maranbào, onde Vieira por esse tempo residia. 

N'esta memoranda oragào funebre, onde ha lances 
dignos de Bossuet, seu contemporaneo, nào deixou 
elle de commemorar o assumpto que tanto o bavia 
preoccupado, mas de modo que elegantemente subli- 
ma a resignagào com que D. Tbeodosio acceitava to- 
das as propostas matrimoniaes, com tanto que a paz 
e scguranga do reino se conseguissem. 

Eis as palavras do padre Vieira: 

«Tratou-se por vezes do casamento do principe. K 
corno se havia elle n'cste ponto? mais desinteres- 
sado voto de quantos eulravam n'cste consci bo era o 
seu. Porque os oulros procuravam de Ibc saber a in- 
clinagào, e elle nunca jà mais a mostrou; e assim 
discorria comò se Ihe nào tocàra. Os outros principes 
consultam os casamentos com os retratos; o nosso 
consultava-o com as convenieucias do reino; e entro 
as princezas que se propuuham, aquella que cstavu 
melbor ao reino, essa Ibc parecia mclbor.» 

E nào se baja isto por adulagào de panegy rista. 
D. Tbeodosio nunca mostrou inclinagào ao matrimo- 
nio. Os seus amores (dìz o mesmo orador) eram Deus 
e OS livros. Todas as historias do tempo exaltam o 
raro talento d'estc principe, que aos trezo annos jà 
assistia ao conselbo de estado. Tinba muita instruc- 
gào e perspicacia; sabfa as linguas latina, franceza, 
italiana e hespanbola. Abonx*cia os cortezàos e adu- 
ladores, mas gostava dos poclas, porque (diz engra- 
gadamentc o padi*e Vieira) quem mente por profìssào 
falla verdade, nào engana. 

Tem-se dito que os jesuilas o educavam para entrar 
na Companbia; mas o proprio Vieira, n'uma carta quo 
Ibe escrcveu de Roma, exborta-o a que va para a 
frente do exercito, dizendo-lhe; «Eia, meu principe; 
despida-sc dos livros, que ó chegado o tempo do e«- 
sinar aos portuguezes e ao mundo o que vossa alteza 
n'clles tcm cstudado. Armas, guerras, victorias; por 
bandeiras inimigas e coroas aos pés; sào de boje cni 
diante as obrigagùes de vossa alteza; e estas as mi- 
nhas esperangas. » E o principe parliu logo para a 
fronteira do Alemtejo. 

Nào cessaram, com a morte do successor de D. 

i O eommendador J. V. hi^bon, escriptor brasllelro, a quem démoa 
rópia d'este documenro, Juntamcnte cera outra» noticiaa para a lUa 
do pa'irc Antonio Vieira, quo andava compendo, e que foi publicada 
no tomo IV daa suas Oòra$, impressa^ na cidade do Maranhio om 
186G, tran^creveu-o e analyaou-o, mas nem aotiuor raatreon a signifi- 
eaf&o qne tcm aqnelle papel para a hlstnrìa daa mlaaSes dlplomatk-as 
do quo foi encarregado e das qnc suggcriu o padre Vietra. 



ARCHIVO PITTORESCO 



27 



Joào IV, as diligciìcms para se consoguir a paz eom 
urna vantajosa allianga matrimoniai. 

A infanta D. Catbarina, irmk de D. Theodosio, nlio 
tinba coroa para affereccr ao marido; foi entdo forgoso 
descnoravar da de Portagal as joias lapidadas com as 
iaminas dos nossos aguerridos cofìquistadoros da Asia 
e da Africa, para servirem de dote e arrbas t lìtha 
<]o cmpobrecido senhor d^iqucm e d'alóm-mar, ber> 
deiro del-nei D. Manuel! 

Tal foi a desastrosa conjunctura em quo, com a 
nido da infanta D. Catbarina, dèmos ao rei de Ingia- 
terra Bombaim, Tanger e Ceylào em 1661 , para sal- 
var a hcran^ aecumuiada de taritos seculos. 

f^ ainda assim, bouve muitos pregOcs, mas uro so 
langador, n*csta basta publicar 

Quatro foram os principes a quem se ofTercceu a 
mùo de D. Catbarina: l."* a D. Joùo de Austria, fìlbo 
naturai de Filippe iv, rei de Hespanba; 2." ao duque 
de Reaufort, noto de Henrique iv; S.** a Luiz xiv, rei 
de Franga; 4.° a Carlos ii, rei de Inglaterra. 

Summariemos as negocìagOes que bouve com cada 
um d'cstes principes. 

<€oDtlu&ft) A. DA Silva Tullio. 



NOTICIA AnCHEOLOGIGA 

Em fevcreiro ou raargo d'este anno, cavando uns 
trabalhadorcs para abaccllarcm urna terra do sr. Dor- 
dio, lavrador de Arrayollos, encontraram um sarco- 
pbago romano. Era um caixùo fcito de'pedras de mar- 
moro de 0"',02 a 0™,03 de espessura, completamente 
lisas, som Ictras ncm ornatos. Véem-se n'estas pedras 
signaes de terem sido serradas; quatro tem 1"',60 de 
comprido e O^jeO de largo. As outras duas, com di- 
mcnsòes proporcionadas, formavam os topos do cai- 
xfio. Estavam todas em sous logares, mas sem ne- 
nlium cimento, e apenas lìgadas por trcs pegas de 
ferro, que engatavam as pedras laleraes por baixo da 
pedra superior, que servia de tampa. lima camada 
de tijolos cobria toda a sepultura. Dentro apparcceram 
ossos humanos, e na pedra do fundo algumas man- 
chas denegridas, em correspondcncia às partcs mais 
salientcs do corpo, que as baviam produzido coni os 
bumores acidos da decomposigào cadaverica, Affirma- 
ram-nos que se enconlriira junlamcnle urna moeda de 
cobre de Augusto. 

Nos sitios de Arrayollos bouve uma povoagào ro- 
mana cbamada Caiani ica. Na distancia de menos de 
seis kilomclros e a nornoroesle da villa acbam-se mui- 
tas reiiquias d'aquella povoagào, scndo a principat o 
proprio tempio de Sant'Anna, que conserva ainda, se- 
^undo diz sr. Rivara, quasi tres quartas partes da 
fabrica primitiva. 

Stircopbago apparcceu do lado opposto, no sitio 
quo cbamam Villa Ladra, a um kilomctro de Arrayol- 
los, da parte de sudoeste. Aqui mesmo se tem acbado 
algons raros vcstigios romanos, e tambem ba pouco 
tempo, conforme nos disseram, uma moeda de oiro 
golbica. Os ferros, um fragmento do marmore e um 
tijolo romano, obscquiosamente nol-os cedeu o sr. Dor- 
dio psirn a bibliotbeca publi(!a de Evora, onde boje se 
conservam. a. Pw.iprE simòes. 



BEIJA-FLOR E PASSARINHO MOSCARDO 

Ha no Brasi! e em outras regiOcs da America me- 
ridional uns passarìnbos, a que bem quadra o titulo 
de portento da creagao, porquc em nenbum outro ser 
tao peqnenino reanin o Creador tantos e taes dotes de 
elegancia e formosura, de brìlho e graga. 



No sertào do Brasil chamam-lbes os gentios, em 
umas partes garracicam, e H*outras guainumòi. No 
Rio de Janeiro e nas outras cidades do imperio dào- 
Ibes nome de beijorflor, Os francezes denominam- 
n OS colibris e passarinhos moscardos. A sciencia de- 
signa-os sob o vocabulo troehiim, qne constilue um 
geiìem da familia dos passarìnbos tenuiroslros^ ou de 
bico delgado. Os oruitbologìstas modernos formam 
d*estas avesinbas uma pequena familia naturai, com- 
posta de um unico genero, dividido em dois grupos 
ou sub-gencros, um dos beija-flores propriamente di* 
tos (trochUus)y outro dos passarinbos moscardos Yor* 
thorhynexis ou ornistìiya, e tambem por alguns na- 
turalistas denominados trochUm), 

Os beija-flores, em geral, sào maiores que os pas^ 
sarinbos moscardos. Esles tem o bico direito, aquelles 
curvo, mas em ambas as espccics é dclgadissimo. Sào 
muitas as variedades que ba d'estas avesinbas, dilTe- 
rengando-se tanto pelo lamanbo e pela fórma, conio 
pela diversidade de córes da sua plumagem. Todas 
sAo de corpo tflo pequenino, que, pela maior parte, 
pouco excedem as proporgOcs em que as represenla 
a nossa gravura. 

Quanto às còres, sao estas tao vivas e tanto bri- 
Ibam com seus rcQcxos metallicos, que nào póde a 
penna, nem podere o pincel mais sublil e amestrado, 
descrever ou rotratar com exacgào tao peregrina l)el- 
leza. Dào alguma idèa d ella os nomes por que sào 
conbecidas certas variedades; pois que ba bcija flores 
e passarinbos moscardos a que cbamam esmeraldas^ 
a outros amelhistas, a alguns granadas^ a outros ru- 
bim-topasioSj etc. E esles nomes ajuslam-se perfei la- 
mente a tao gentis aves, porque a sua plumagem nào 
sómente imita nas còres as pedras preciosas, mas alò 
as excede no brillio. 

Vamos copiar de um dos nossos mais elegantes es- 
criptorcs do seculo xvn a descripgào de uma d'cslas 
aves. Com a penna molbada em negra tinta nào é 
possivel, certamente, fazer retrato mais parecido de 
um passarinbo que tem por principal dote da sua gen- 
ti leza esplendor das còres de que se veste. padre 
Rallbazar Telles, cbronisla da companbia de Jesus, 
Iralando do Brasil no tomo i da sua Chronica, des- 
ere ve do seguinte modo uma variedade dos passari- 
nbos moscardos: 

«Tambem é maravilbosa a formosura e diversidade 
de aves e passaros que Deus creou no Brasil, alguns 
de còres finissimas, de tao suaves musicas, de tao ga- 
Ibarda vista, de instinctos tao parliculares e curioso?, 
que ó multo para louvar e engrandccer ao Supremo Au- 
ctor da natureza, que assim soube enriquecer aquella 
terra com plantas, povoal-a de animaes, e encber scus 
ares com tantas aves e com passaros tao curiosos. E 
pois cntrei n està materia das aves, ainda que vou tao 
apressado, nao posso deisar de me deter em descre- 
ver a curiosidadc da vista, ao menos, em um, e o ins* 
tincto da naturerà em outro. 

«Ha um passaro que, alùm de constar de còres H- 
nissimas, tem um comò barrete na cabega de pennas 
tuo formosas, que reprcsentam toda a rariedade das 
que escassameute alcangam os que melbor d ellas en- 
tendem. Se o pucm de uma parte, nfio ba veludo 
carmesim nem escarlate de mais viva cor; e logo se 
o viraes para a outra, nào ba preto mais escuro nem 
mais lindo azul celeste; e se Ibe daes outra volta, nào 
ha pega mais doirada nem diamante mais resplande- 
cente. papo é de cor peregrina, a que nàosabemos 
bem dar o proprio nome, porque se Ibe quereis cba- 
mar amarello, logo se vos represenla verde; e quando 
aiidaveis que era azul, de repente se v(» mostra encar- 
nado, e em um momento parece laranjado; e logo ju- 
rareis que ó leonado; coro urna tao notavel mistura de 
todas as còres juntas, que, pol-as furiar todas à na- 
tureza, Ihc quadrava melbor o nome de furta-còres; 



S8 



ARCHIVO PITTORESCO 



se Ibe nSo quìzennoB chamar Protheo das cAres. 
mais corpo é revestido de om pardo luui gracioso, 
quc faz reat^ar mais e eair mais brilhanies as outras 
cAres, mas ale esle mesoiD pardo sae comò sobrc doi- 
mdo, enrequecido com mit esmaltes e retoques de cn- 
carnado, ^ue avullam mais sobre a cor parda do VGS- 
tido. bico é muiiQ comprìdo, e lodo preio, cora o 
qual apanha o orvaJho e mei de que ee manlem a ai, 
e suslentam seus fìlhos; de modo que a EUsten(as9o 
n6o É da terra, corno dos outros animaes, mas loda 
<iepcndendo do ceo, comò se nao lÌTesHe a terra pasto 
digno de tao formosa ave. Cbamam-tbe os naturaes 
garracicam . • 

observador estudioso que seguir estas aves no li- 
vre exercicio dos snus habitOB, acbal-as-ha, sem dù- 



vida, tao ÌDteressaDtes em seus coslumee, corno sao 
bellas e cncantadoras para a vieta. 

A rida em sociedade é a quc mais apraz ao beija- 
flor. Todavìa, nSo é raro rei-o solitario, errando en- 
tre OS raminhos de urna arvore florida. Mas ordina- 
riamente onde se eleva urna arvore ou um arbusto 
coberto de flores, ahi se represenla a mais vistosa e 
aiegre scena que os olbos do homem ^odem ver. FI- 
gurae um bando numerosissimo de beija-fìores e pas- 
sarinbos moscardos, eevoacando em contìnuoB volteìos 
em torno da arvore ou arbusto, qual enxame de abe- 
Ihas, que perfeitamente imitam na rapidez dos movi- 
mentos e no zumbido. Cruzando-se em todos ne eenli- 
dos, ora se dirìgem a ama fior corno enamorados da 
sua belleza, ora a deiSam bruscamente apenas tocam 




B^a-florM ermltu 



nas suas pétalas, voando ligeiros em busca de outra 
mais bella. Aqui, suspeosos, immoveis sobre a co- 
rolla gentil quc os erauz, sugam cm um relancear 
d'olbos neclar melilluo aue o calice encerra. Allì 
disputam à porGa, em ruiaosa contenda, a posse de 
um tbesouro de mei e de orvalbo que os raìos do sol 
mal inai acabam de abrir. A lem salta m, brincando, de 
tronco em tronco, ou penduram-se das folbas, corno 
flugiado cair. Acold, poisados nas extremidades dos 
mais frageis raminhos, deixam-se emhalar pelas au- 
ras, parecendo embriagados dos suaves pcrfumes que 
ellas vào espalhando. E n'essc feslim aèreo em que 
andam embevecidos, antolha-se a quem os ve, umas 
vezes que descrevem nos ares, na rapidez do vAo, um 
arco iris lào formoso comò o que os raios do sol pro- 
jectam sobre as nuveus; outras vezes que vào derra- 
mando por cima da folhagem e das flores esmeraldas 
e topazios, amethistas e rubios. 

Nao se presuma que, para se desfructar tao donoso 
espectaculo, é necessario entranhar-se o curioso nas 
solidOes do Brasil. Nao obstanle serem estas avezinhas 
tao timidas que o menor bulicio as assusta, afugen- 
tando-as ale o simples murmurìo das folhas que o 



vento agita, aproximam-se afoitas das habitasOes, at- 
trahidas das numerosas flores que nos jardìns conti- 
guos Ihes offerecem abundante e saboroso pasto. 

Singuem dirà, observando estas aves pequeninas e 
mimosas, que nào sejam doladas de indole e bahitos 
tao constaiiicoiente doces comò o mei de que se ali- 
meiilaoi. Pois, pelo contrario, os seus instinctos assu- 
mem és vezes o aspecto das paixOee que fazem pulsar 
com forga o coragSo do homem. Se alguma ave estra- 
nha vem poisar na arvore florida, que o lindo bando 
piumoso alegra, adorna e explora, logo de subilo al- 
gum beija-Qor, e após esle muilos outros, vao perse- 
guir intruso, comò em defeusa do direito de proprie- 
dade, e, tirando forgas do numero e da coragem, com 
seus continuados e imperlinentes ataques, que mal se 
podem chamàr vìolencias, cùnseguem afugental-o. 

Nao sao menos ardentes nas manifestagfies do amor, 
que n'aquelles impulsos da ambigao cìosa. Quando a 
femea foge, esquiva, aos afagos do amante, é coisa 
etigrajada ver esle a perseguil-a com evidentes signaes 
de colera, que se manifestam no vAo por grìtos agudos 
e repelidos, e ao alcangar a ingrata pelas picadas en- 
raivecidas com que precede as caricias. 



ARCHIVO PITTOBESCO 



29 



A femea fax duas posturas no aoDO, cada uma ape- 
nas de dois ovos, brancoa e tao pequeainos comò uma 
crvilba. E para a crìacao da tenra prole constraem os 
beija-Qores e passariobos moscardos o mais delicado 
ninbo que a naturesa eosiaou éa aves a fabrìcar. Es- 
terDamente é entretecido de urna varìedade de musgo 
multo roimoso, de cAr cinzenla, aliraodo para azul, 
que se cria nas arvores anaOHas. interior é forrado 
com a felpa do algod&o, ou da sumahuma, ou de ou- 
tras flores cujaa semente^ sào acompanbadas de Eub- 
Btancias volatela. Com a sua saliva que é uma espe 
eie de gluteo, uaem e pegam uqb aos outros os pe 
dacinhoB de musgo e por meio das fibros de certas 



plantas ligani o ninho, raras vezes aos troncos, quasi 
sempre &s folhas de um arbusto que sejam mais com- 
prldas que largag. Menos de tres cealimetros de dia- 
metro, e pouco mais de tres de altura, s&o as dl- 
meusOes d'esles niuhos em miniatura. Ém firn, esse 
berco aèreo, que as mais llgeiras brìsas embalam, é 
uma obra prima de delicadeza, de elegancìa e de so- 
lidei. 

Que paioel mais intereasaute e eucautador pòàe apre- 
aentar a crea^^ào ; que egpectaculo mais maravilboso que 
este de uma familia composta de pae maee Qlbiobos, 
todos radiantes de formosura babitaudo alegres, em 
doce e amorosa uiutio oa stmples foiba de uma ar- 




\'ore ou arbusto? Que esforgo de arte e iutelligencia ; 
que expressfto tao vìva de aeDlimento; que sceua tHo 
bella e gracìosa paasada cm um dedal de musgo e 
algodfto! 

macho e a femea repartem entre si os culdados 
e fadigas da Incubando, bem corno os deavelos e ca- 
rìnhos da crìa^cio. E uao so os repartem, mas até mu- 
tuamente se auxillam, para que menos Ibes custem 
laes enfados. Asslm, poia, em quanto um estd no cbd- 
00, ostentando os reÓexos metaliìcos do seu peito furta- 
cdres, a outro ora Ibe f&t companhia, poisado na borda 
do raminbo; ora esvoa^a cm tomo d'elle em alegre 
folguedo; e se por momeotos o abandona, é para ir 
roubar o nectar às flores, volvendo promplamente a 
depoaital-o no blco do seu amavci companbelro. 

Bastam qulnze dìas para se gcrarem e nascerem os 
filbinbos, que noa prlmeiros dias nilo fazem mais vulto 
que uma abelba. E apenas nascem, é muito curioso 
ver corno nos paes redobram os culdados e desvelos, 
e corno em tao pequenos corpinhos se manifesta e des- 



envolve tdo grande coragem na defensa da prole, ar- 
remettendo ousadamente qualquer ave ou reptU que a 
ameace, sem que os amedronte a graodeza do ini- 
migo. 

Os beìja-Qores e paasarìnbos moscardos habitam as 
regiOea mais calidas do novo mundo. Brasil é uma 
d'aquellas onde se encontrani em malor numero. 

Alnda nào vae longe o tempo em que se dizla que 
eatas graciosas creaturinbaa eó podiam viver nos pii- 
zes que trajam eternamente as galas da primavera. 
Todavia, boje nào é permillìdo duvidar de que, me- 
diante assiduos culdados e coachegos, com oa quaes 
se Ihcs proporcione uma temperatura corno a da sua 
terra natal, se oblem iransporiar para a Europa, e 
ahi conservar por longos tempoa vivos, ageis e bem 
dlapostos estes interessantes paasarìnhoa. Na Franca 
e na Inglaterra admiram-se aoberbas collecj^óes d'el- 
les cm grandes viveiroa eQvÌdra(^doa, aquecidos arti- 
ficialmente. Na ultima expoeìcSo universa! de Parìa, 
erguia-se nos jardins que cercavam o palacio de crìa- 



30 



ARCBIVO pnroREsco 



tal uttt esbelto pavilhfla, qae tiolia sempre junto ùs 
suas vidragas numeroso conourso de visitantes, en)e> 
vados na geotilaza das avesque o povoavam. Via-se 
alli urna das mais compietas e lindas coliecQóes de bei- 
ja-florcs e passariiilios moscardos que presentemente 
ha na Europa. 

- Nào sdo difBceis de domesticar. Citam-se moitos 
excinplos de pessoas, principalmente senboras, que, 
tendo-os em urna camara, em liberdade, conseguiram 
ensinai-08) sem grande custo, a acudirem à sua voz, 
para Ihe tornarceli dos iabios ou da mào algum doce 
manjar. 

Os metos gei^alinente eniprogados para ca^r as aves 
nào podiam servir, corno beni se imaginaró, para apa- 
nbar vivos e perfeitos, ou mortos de maneira quo se 
podessem embalsamar, estes pequeuos pnssarinhos. 
houbar-Ihes-bia o visco a formosura e brilbo das co- 
res, que movem invoja às pedras preciosas. chum- 
bo, por màis miudo que fosse, faria pcdagos, reduzi- 
ria ao nada aquelies corpinbos tdo exiguos. Colbem- 
n'os, porém, de differente modo, segundo o fìm para 
que OS querem. Matam-n'os, para os embalsaniarem, 
atirando-lhes com erviibas despedidas por urna sarà- 
batana, ou com tiros de pistola carregada com grdos 
de areìa. Apanbnm-n'os vivos com urna rede mui fina 
e subtil, a que chamam (eia (le aranha^ ou por meio 
de um processo infailivei, é verdade, mas indigno de 
sor applicado a creaturas tao celestes e poelicas. Ac- 
commettendo repentinamente com o esguicbo de urna 
scringa o bando descuidado, consegue o cagador lan- 
gar por terra muitas d^aquellas avczinbas, que, ator- 
doadas com a violencia da agua, facilmente se deixam 
apanbar. i. j>jb vxliuixv barbosa. 



SANTA CATHARINA 
(TRADigAo religiosa) 



Santa Calharina nasccu na Alexandria. Era fìlhade 
uma familia muito uobre. 

Segundo um piedoso bistoriador, Catbarina resoiveu 
baptisar-se por effeito de um sonito, ou antes de uma 
visào. Sonhando que a Virgem a apresenCava ao Me- 
nino Jesus, que Udo queria attendei-a porque nào es- 
tava baptisada, apressou-se em receber este sacra- 
mento. Entào Menino Jesus apresentou-sc-lbe no- 
vamente, e a toinou para esposa na presenta de sua 
Màe e dos anjos, e, em signal d'este consorcio, Jesus 
ihe deu um annel, que a joven encontrou depois de 
acordar. 

Catbarina era muito viva e intelligente. Applicou-sc 
ao estudo da theologia, e em pouco tempo achou>se 
babìlitada para argumentar coni os varQes mais dou- 
tos da Alexandria. 

II 

Maximino reinava no Egypto. 

Pagào, comò fora Constanlino, no comego do seu 
reinado perseguiu os cbristàos, mas depois mandòu 
pubHcar um edito em seu favor, quando julgou con- 
veniente aos seus interesses reconciliar-se com elles. 
odio inciterà as perseguigdes ; a politica extingut- 
ra-as. 

Antes, poróm, de succeder islo, e com o intuito de 
obrigar os cbristàos à apostasia, Maximino um dia 
ordenou extraordinarios sacrificios, os quaes todos os 
subditos deviam presenciar sob pena de morte. pro- 
prio Maximino presidia a <!sta solemnidade no tem- 
pio de Serapis. 

Foi D'està oecasiào que Santa Cathariua, que tres 
vezes argunoentou com o imperador, tevc com este o 



seu primeiro colloquio. Queria a joyeo provarlbc a 
superiorìdade do christianismo sobre o paganismo. 

Maximino era ignorante, porém conhecta que nào fi* 
cava em bom terreno se quizesse entrar em lucta com 
tal adversaria. Filbo de um pegureiro, e sendo tam- 
bem pegureiro e depois soldado, nuoca tivera tempo 
nem opportunidade nos campos para aprender a ra- 
ciocionar in modo et figura, Como, porém, estava coni 
OS seus doutores ou doutrìnarios, Catbarina foi^hcs 
entregue. 

Estes doutores, que andavam na corte do imperador 
Maximino, nào eram mcnos de cincocnta. A joven nào 
recusou nem se intiraidou ante o numero. Argumcntou 
com todos. 

Descéra das alturas urn anjo para a animar e prò- 
metler-lbe a Victoria; e a Victoria foi completa. 

Apoiando-se na auctoridade de Socrates, Platào, 
Aristoteles e outros, Catbarina demonstrou tao cabal- 
mente a excellencia do christianismo, que o decano 
da faculdade deciarou-se vencido, e nSo so vencido, 
mas tambem convertido. 

Declarando os outros quarenta e nove doutores que 
participavam das opiniOes do seu decano e as susten- 
tavam, Maximino mandou-os queimar. 

Assegura a tradigào que a fogueira onde morrc- 
ram Ibes respeitóra os corpos. 



Ili 



Fedirà Catbarina ao imperador que se fizesse cbris- 

tao se ella conseguisse converter os doutores; mas, 

apesar de suppor a proposta muito ousada, o impe- 

. rader nào mandou, todavia, que a joven fosse coni- 

prehendida no auto de fcV 

facto explica-se. Maximino era barbaro e odiento 
no governo, mas no intimo amoravel para com o bello 
sexo. 

Posto nào quizesse ou nào pòdesse acceitar as don- 
tri nas de Catbarina, o seu fervor causàra-Ibe enthu- 
siasino; e a belleza da mulber, realgada pelo calor 
de portlada contenda, rendOra-lhc a final o coragào. 

Tendo-se exaltado o seu amor pela indifferenga de 
Catbarina, um dia resolvcu-se o imperador adizer-llic 
que a tornarla para niulher se ella quizesse correspon- 
der-lhe, mas a joven recusou afoitamente uma pro- 
posta que julgava offensiva. 

Dcsde esse dia, pois, Maximino jurou vingar-se. Ca- 
tbarina foi entregue aos carrascos, os quaes, por meio 
de cruelissimas torturas, deviam tornal-a mais bene- 
vola para com o desencadeado affecto do imperador. 

A virgem, estendida sobre um cavallete que Ibe des- 
conjunctava os membros, foi afoitada, até Ihe fazereni 
sangue, por espago de duas boras, e depois langada 
no fundo de um calaboigo para ahi morrer de fome. 

Maximino, para dissipar a paixào e esquecer-sc da 
vinganga em que tao cruelmentc se exercitava, dizem 
quo por essa oecasiào se foi distrahir pelas suas prò- 
vincias, esperando que a pobre virgem se finassc na 
prisào. 

No entretanto, sua mulher, a imperalriz Faustina, 
tcvo uma visào. Catbarina fizcra assental-a junto de 
si, e, pondo-lbe uma corea na cabega, dissera-lbc: 

— Princeza, é meu santo esposo que vos dà està 
corea. 

A ìraperatriz quiz ver o esposo da que Ibc fazia 
similbante brinde, e pediu a um capitào da guarda 
imperiai que Ibe indagasse onde estava. capitào 
logo conseguiu que se avistasse coni Catbarina, a 
qual, no fundo do calaboigo, predisse que os dois 
morreriam dentro de alguns dias, o que, com effeito, 
succedeu. 

Nem a tortura, nem a fome, nem a sède tinbam 
mudado Catbarina. Quando se avistou coro a impera- 
triz estava mais beila que nunca. Nào so està extraor- 



ÀRGHIVO PITTORESCO 



81 



dioaria circunetancia, mas tambcm a notayel eloquen- 
eia da joven, determinaram a conversdo de Faustina 
e do capìtào. E Maximino soube isto, e castigou o 
attentada. 

No praso fixado por Catharina, a imperatrìz e o ca- 
piUko da guarda imperiai pagaram a sua curiosìdade 
e seu atrcvimcuto com o suppiicio. 

Vendose viuvo, Maxìmino conlava quo a joven Ga- 
tharina seria mais affavel para com elle, e nue a fi- 1 
iial se renderla. Os esforgos empregaram-se oaldada- ! 
mente. Reconhecendo quc era impossivel conseguir a \ 
sua vontade, o imperador detcrminou quc decepassem 
a cabega da joven. 

Foi depois do terceiro colloquio com o imperador 
que este barbaro deu a Gatharina similbante prova de 
affecto. seguudo colloquio, quc se verificou logo que 
Maximino regressàra da sua excursSo pelas provincias, 
e no qual insterà com Gatharina para acceitar o logar 
quc vagàra pela morte da imperatrìz Faustina, teve as 
mais tristes consequencias. Àntes de mandar-lbe cor- 
car a cabega, o imperador dccidiu-se a submettel-a a 
iiovas torturas; mas o singulur é que os algozes que 
exccutavam as crucis ordens de Maximino foram as 
unicas victimas d'eslc martyrio, porque os instrumcn- 
tos da tortura, despedagando-se quando os applicavam 
a Gatharina, tiraram-lhcs a vida. Assim reza a tradigào. 

Santa Gatharina contava dozonovo annos apenas, 
quando tantos factos maraviihosos chamavam pura 
ella a attengào de todos. A 25 de novembro de 307 
foi juntar-se a seu celeste esposo. 

Accresccnla a tradigào quc os anjos transportaram 
corpo da virgem e martyr para o monte Sinai, onde 
encoulraram intacto passados seiscentos anna«(. 

Os anjos desciam de vez eni quando sobrc o monte 
para entoarem hymnos em louvor da santa, corno tes- 
timunham os cavalleiros ou monges quo se dedicanMn 
a guarda das venerandas reliquias alli encontradas. 

U nome de Gatharina quer óizerpura e sem mancha. 

A virgem do monte Sinai é representada com ama 
coroa de princeza, corno signal de sua illustre prosa- 
pia, e tondo ao lado urna roda de navaihas, corno 
para indicar os martyrios que padeceu. 



IV 



Algumas muibercs cclebres tem bavido com o nome 
de Gatharina. Fallaremos em primeiro logar das que 
foram canonisadas. 

Santa Gatharina da Succia, filha de Santa Brigida, 
tem uma vida tdo povoada de factos maraviihosos co- 
rno a sua padroeira. Viveu virgem comò ella, e aos 
sete annos, segundo affirmam os biographos, foi per- 
seguida peios demonios, que a agoitai-am, saindo in- 
colume de tao singular provagQo. 

Santa Gatharina de Sena tem ainda mais analogia 
com a virgem do monte Sinai. Dcdicou-sc corno està, 
dcsde muito nova, aos esludos theoiogicos, e por seus 
extasis, revclagOes e naturai eloquencia, fez tambem 
innumcras conversOes. Està santa, que desccndia de 
tima familia de industriaes e eutn^ra em negociagóes 
com OS pontifices do seu tempo, deixou algumas obras 
quc, pela pureza e elegancia do estilo, so podem con- 
siderar classicas. 

Veni depois ainda Santa Gatharina de Bolonha, cuja 
festa 6 a 9 de margo, e Santa Gatharina de Genova, 
que a egreja celebra a 14 de setembro, as quaes se 
tornaram egualmente famosas |K)r suas virtudes e por 
seus escriplos. 

Gatharina de Medicis, naturai de Floreoga, mulher 
de Henrique n e màe de Fraucisco ii de Franga, ja 
nao entra, nem póde entrar, na classe das santas. Dm 
de seus mais nolaveis e dedicados biographos, tam- 
bem fìllio de Florenga, tcntou a rebabilitagao de Ga- 
tharina de Medicis, poréai baldadamonte. A vida d'està 



Gatharina marca a epocba mais odiosa e odienta da 
historia de Franga, e nào ha aguas no Oceano que 
dissipem a negrura de que o espantoso morticioio de 
S. Bartholomcu envolveu para lodo o sempre a sua 
memoria. 

De Gatharina de Franga, filha de Garlos vi e viuva 
de Henrique v, re} de logìaterra, descende a casa de 
Tudor. Seu segando marido usou d*cste uome. Ou pro- 
ceda da antiga uobreza de Galles, ou de uma familia 
de bomildes operarios, corno dizem alguns, é certo 
que foi o avo aos Richmond que, sob o nome de Hen- 
rique VII, subiu ao throno de Inglaterra logo que se 
verifìcou a morte do ultimo dos Plantagenets. Desdo 
entào sangue reul francez andou misturado com o 
sangue real mglez. até que se deu o primeiro desas- 
tre da casa Stuart. 

Catbarìi^a de Aragao, filha de Fernando e Isabel, 
foi a primeira mulber de Henrique viii. Embora nào 
se mostrasse amavel, era, comtudo, boa. Apesar d'is- 
so, Henrique repudiou-a sem conseguir a auctorisagào 
que pedii*a ao summo pontifico; e o que o chefe da 
egreja catholica nomeàra «defensor da fé* separou-se, 
assim corno o povo inglez, da egreja catholica, para 
nào so assumir o titulo de «pix)tector e cbc*fe supremo 
da egreja de Inglaterra», mas para casar-se com Anna 
Bolena, a quem, pouco tempo depois, mandou cortar 
a cabega. 

Gatharina Howard, quinta mulber de Henrique viii, 
teve egual sorte. 

A sexta miilher d'cste originalissimo soberano cha- 
mava-s&tiambem Gatharina ^ Tinha a mania de argu- 
mentar óstrca de assumptos religiosos, e com isso 
amoGnava;i Henrique viii. A morte de seu augusto ma^ 
rido, occorrida quando elle pensava em mandar-lhe 
egualmente decepar a cabega, deu por certo a Gatha- 
rina Parr maior auctoridade, porque o facto era em 
favor das suas crcngas. 

Gatharina de Portugal casou com o rei Garlos ii do 
Inglaterra^. Dizem d*ella «que nào tinha o corpo tao 
formoso corno a alma», e, todavia, nào Ibe faltavam 
encantos. Està filha do duquc de Braganga (D. Joào iv), 
que subiu ao throno de seus antcpassados, era mulber 
do filho do primelix) dos Stuarts, que foi desthronado. 
Singular coincidencia! 

A Russia conta duas Galharinas, ambas esposas de 
grandes homens. A primeira casou-se com Pedm o 
Grande. Passou dos bragos de um soldado para os do 
imperador, e foi digna desta elevagào. Durante a vida 
do reformador Pedro, cujos costumes ella tambem se 
encarregou de reformar, Gatharina salvou-o e ao seu 
exercito nas margens do Pruth, e depois da morte do 
czar assentou em bases mais solidas e melborou mui- 
tas das instituigòes com que elle dotàra o imperio. 

Decorridos trinta e cince annos, subiu ao tbrono, 
a que a sua antecessora dera tamanbo realce, outra 
Gatharina, nào menos digna d'aquelle solio. Posto quo 
nào fosse esposa tao afTectuosa, Gatharina n tinha as 
altas qualidades da heroina de Livonia, mas, sem dù- 
vida, quadrava-lbe muito bem o cognome de Semira- 
mis do Norie, que Ihe deu Voltaire e Ibe ficou. 



EVORA 

EGREJA E CONVENTO DB S. FRANCISCO 
(Vld. png. 18) 

VII 

Gonclue, finalmente, o nosso Jeremias franciscano : 

«Morto este rei, ficou seu filho D. Joào ii, e este 

acabou de nos tornar o mais e nos tirou a vista do 

Rocio, e nos pòs no que agora védes ; e porem quem 

i Gatharina Parr. 
t Vld. pag. 25. 



32 



ARCHIYO PITTORESCO 



Yivér vera que os mortos, que isto deram a S. Fran- 
cisco, bSLo de clamar e pedir justica a Deus. N'este 
tempo tinha el-rei grandes fadigas de guerra e outras 
coisas que a seu tempo pareceràO) que tarabem n'es- 
tas casas, onde se liam as escripturas de Deus, se deu 
sentenga de morte com que degolaram o duquc de 
Braganga; e agora querem fazer festas, que se bào 
de tornar em pranto; e quem viver vera. Dizem os 
padres velbos que cada rei que vier ba de tomar seu 
pouco, até que tomem toda a casa, nào olhando que 
foi edificada com licenga de S. Francisco e por seus 
companbeiros santos, onde jazem tambem muitos le- 
trados e bomens santos, nao eotendendo os castigos 
e agoutes que Ibes Deus dà.» 

Tanto se alargou D. Joào ii pelo convento, que, se- 
gundo affirma o padre Esperanga, no aperto em c^ue 
poz OS frades, até officinas Ibes faltavam. Restitum- 
Ibes, porém, a fìm de a transformarem em enfermaria, 
uma casa que servia de relagao. 

Diz auctor da memoria, que nos estudos, por onde 
D. Affonso v comegòra a apropriar-se do convento, se 
deu a sentenga de morte do duque de Braganga. Di- 
verge n'este ponto das cbronìcas coutemporaneas, que 
sào concordes em declarar que nos pagos do conde de 
Oiivenga (onde é boje a casa do duque de Cadaval) 
se bospedou el-rei, por serem melhores para o verào, 
e abi foi sentenciado o infeliz duque. 

As festas de que falla sào as que se celebraram em 
Evora pelos desposorios do principe D. Affonso com 
a infanta de Castella em 1490; e os prantos que se 
seguiram tiveram por causa a morte desastrosa do 
mesmo principe em Santarem, oito mezes depois, no 
anno de 1491. 

Obteve D. Joào ri uma bulla de Alexandre vi, pas- 
sada a 14 de abril de 1495, conRrmando as annexa- 
gòes feitas, sob condìgào de compensar o convento com 
as obras mais uteis e necessarias, o que nào cbegou a 
cumprir, porque falleceu n'este mesmo anno de 1495. 



vni 



Gomegando a reinar D. Manuel, acbava-se reduzido 
à ultima extremidade, no material e na extensào, o 
convento de S. Francisco de Evora. Da grande casa 
que OS frades antecedentemente baviam occupado nào 
Ibes restava mais que o tempio em ruinas, a claustra 
e as edificagóes proximas, tambem em grande parte 
arruinadas. Da extensa boila, onde outr'ora podiam 
espairecer em dilatados passeios, apenas conservavam 
um pequeno quintal junto da portarla, até onde se 
tinbam alargado os jardins dos pagos reaes. A mào 
poderosa dos monarcbas de quasi tudo os privàra para 
augmentar e engraudecer a sua residencia predilecta. 

Cuidou, porém, o novo rei de melborar o convento, 
re^diflcando o alluido tempio, rcstituindo a cozinba 
antiga, que estava tambem annexada ao palacio, e 
fazendo o dormitorio com outras obras de necessida- 
de. Conta-se que em certa occasiào se queixaram os 
religiosos ao seu real edificador de Ibes deixar mui 
pequenas as portas das cellas, e que elle, entrando 
n'uma, Ibes respondéra que por onde cal)ia um rei 
bem podia caber um frade. 

Reedificou-se a egreja nos principios do seculo xvi. 
D'estas obras ficou uma curiosa memoria no forai que 
D. Manuel deu à cidade em 1501, e se guarda no ar- 
cbivo da camara. Tem no principio um desenbo de 
còres, tosco e iraperfeìlo, que representa a cidade n*a- 
quella epocba, e por cima a seguinte epigrapbe go- 
tbica: Ebura colonia romana. Abi se ve a egreja de 
S. Francisco, tendo as paredes incompletas com um 
guindaste a indicar as obras que n'ella se fazìam. 
forai é tambem escripto de letra gotblca em pergami- 
nbo com tarjas e illuminuras. 

N'este mesmo reinado, tendo sido cento e oitenta 



e tres annos cabega de custodia, se reforinou o con- 
vento de Evora na regular observancia por bulla pon- 
tificia de 7 de julbo de 1513. A carta em que D. Ma- 
nuel mandou entregar aos observantes foi passad^ 
em Lisboa a 22 de julbo do dito anno, e apresentada 
no dia 29 do mesmo mez aos frades pelo licenciado 
Joào do Soìro, juiz da cidade, com a intimagào de sai- 
rem do convento. 

IX 

Pelas obras e concess6es dei-rei D. Manuel, nào se 
chegaram a separar os dominios reaes dos francisca- 
nos, antes permaneceram, comò antecedentemente, em 
reciproca dependencia. Servia-se a corte da tribuna da 
egreja por melo de communicagóes interiores, e consta 
que no tempo de D. Joào ni nào bavia menos de sete 
portas communs aos pagos e ao convento. Assim con- 
tinuou tudo até ao tempo de Fìlippe iii de Hespanba, 
que em 1619 deu aos religiosos todo o ferro do pa- 
lacio para o applicarem a obras suas. Em 1626 deu- 
Ibes tres saias, sendo uma d ellas o quarto da rainba, 

3 ne era do lado do Rocio, para o transformarem em 
ormitorio, e, além d'isso, o jardim, o laranjai e a 
agua da Prata. 

Aproveitaram-se os frades das concessóes, destruindo 
as grandezas do palacio, e cnxertando no convento os 
marmores, as madeiras e todos os ricos despojos que 
alli encontraram; de modo que de tao vastos edificios 
nào restam mais que as ruinas de duas galcrìas ^. 

Do convento jà tambem se nào conserva muito. A 
parte menos arruinada é ac[uella onde se construiram 
no seculo xvii os dormitorios, cujas janellas dào so- 
bre a rua do Pago e para o passeio publico. quo 
d'abi se segue até à egreja sào tudo ruinas. refei- 
torio, construido por D. Manuel, comò se via pelas 
espberas da abobada, e que estava contìguo à claus- 
tra, foi demolido ba quatro annos, depois de ter ser- 
vido de tribunal judicial. Destinàra-se o espago que 
occupava e o terreno proximo à construcgào de um 
mercado, que nào teve ainda principio. 

Os restos do convento e dos pagos, com a cérca, 
pertencem boje à camara. que passou dos fieis de- 
votos aos frades, dos frades aos reis, e d*esles outra 
vez àquelles, veiu a final, pela successào dos tempos, 
a ser do municipio. Assim se restituiu ao dominio po- 
pular aquillo que primeiro pertenceu ao povo. que 
as revolugóes anniquilaram, o que a ignorancia e o 
desleixo destruiram, isso que a ninguem utilisou, sirva 
ao menos de persuadir a necessidade de preparar um 
futuro mais civilisado que os ultimos seculos, com- 
prebendendo, apesar de todas as luzes, este em que 
vivemos. 



(Contlnàa) 



A. FlLIPPB SufÓKS. 



DE UMA BRIGA 



Uiboa — Typographia de Castro IrmAo — nia <I« Boi-Vista — palacio do conde de Sainpaio 



Vistes que cada dia acontece nos povos, e cida- 
des, prvìcipalmente grandes? Levanlar-se entro bo- 
mens sediciosos uma briga ou arruido subito, que na 
campanba se podéra cbamar batalba. Todos puxam 
pelas armas, e sào armas tudo o que de mais perto 
se offerece às màos. Cbovem os golpes, vòam as pc- 
dras, uns fercm, outros caem, todos correm e acodem 
sem saber a quem ou contra quem, nem a causa: uns 
incitados do odio e da ira, outros sem ira nem odio; 
tudo é grita, tudo desordem, tudo confusào. 

P. Aktonio Visir a. 

1 O padre Manuel Fialbo via, scgundo diz, entre os papeìs do con- 
vento as provisSes de Filippa in. Jorge Cardoso etcreveo a este rea* 
peito seguinte no Agiologia Lusitano: «Hoje està reedificado (o con- 
vento) e ero grande perfei^So e restituido à sua prinieira grrandesa 
por mercé de iPilippe in, quando vein a oste reino, o qual pensando 
n'ellc fez doa^&o do tudo aos religiosos, que de seus famosos portaes 
se aprovciiaram para a obra, lograudo aìnda agora o celebre tanquQ 
e laranjai,» 



ARCniVO PITTOBESCO 




A LUI de Qatha 



Eslc gracioso vulto quo apparece na estampa é uma 
dus mimosas crca^es de Goethe, reproduzida pelo fei- 

lici^iro lapis du Kaulbacli >. Lili perlence à cfaoréa dee- 
lunibranlc de docea fìguras, de walkyrìus fascinadoraB, 
que a ferie ìmaginagào do grande poeta germanico 
evocou do mundo niysterioso eoi que flucluavam para 



formar OB elos Ooridos d'ossa cadeia sublime, que prin- 
eipiu na Margarida de Favsio e acaba na Mignon de 
Willulm ìleisler, 

Poela neutium talvez soubc, comò Goelbe, apresen- 
lar um lai euxame de vultos fcmiiiiuos, todos suaves 
e todos diversos; na vasla collecjao das suas obras 
a|ipai-eccn], engai^ladaR no seu estilo de oiro, estas mi- 
nialurus delicìosas. A Clara de Ef/moul, tuo descuìdosa 



34 



ARCHIYO PITTORESCO 



e tao niciga; Margarida, a pomba palpitante; Mignon, o 
typo da mais sublime ai)negaQào que se pódc encerrar 
DO espirito iocuito, mas profundamente dedicado, de 
urna pobrc rapariga desamparada; a noiva de Corin- 
thOj Yoluptuosa e sombria; e descnhos sem numero, 

3 uè elle afaga um instante com o lapis namorado, que 
eixa ficar corno simples esbogos, mas que se gravam 
para sempre na memorìa das gcragóes. 

Entre esses esboQOS, tocados ao de leve nas suas 
poesias soltas, avulta o typo gracioso de Lili, que pa- 
rece uma verdadeira incarna^ào da primavera. Irei eu 
descrevel-o? Nào; por muito aiTojaaa quo seja a ten- 
tativa, prefìro dar aos icitores um reflexo, ainda que 
pallido, dos versos de GcBthe, a substituir d graciosa 
descripgào do poeta a minha prosa humilde. 

Nào ha museu mais variado 
(porém museu anirnado) 
do que o da minha Lili. 
Com as azas matizadas, 
tendo as guias decepadas, 
as pombinhas enrufadas, 
OS passarinhos esquivos, 
pobres principes captivos, 
tudo pula e folga alli. 
Nào sei que estranba magia, 
n5o sei que cstranho condào 
pOe aos pés d*esta crian^a 
toda a piumosa na^ào. 

Que barulho! que ìnfcrneira! 
quando ella surge radiosa, 
abrìndo eo'a mào mimosa 
as portas da capoeira. 
Erguendo a crista escarlate, 
sae gallo magestoso, 
a gali in ha segue o esposo, 
vem atraz turba paireira 
de pintainhos implumes 
a namorar-lbc o agafate 
que encerra o milbo doirado! 
Oue de arrulhos! que de amores! 
arvores, moitas e ilores, 
tudo parece anirnado. 
T6 OS peixes em cardumes, 
saltando fora do lago, 
procuram o meigo afago 
d'esse olhar cncantador 
que fascina os immortaes... 
sem fallar nos animaes. 

Cometa a discordia cntào. 
Este debica, outro cngole; 
este audaz conquistador 
furta a comida; outro bolo 
na alva codea que ella traz 
meio escondida na mào; 
gallo, ganso ar^anaz, 
pato, esbelto faisao, 
a meiga rola saudosa, 
acham-n'a mais saborosa 
do que o nectar e a ambrosia 
da celeste confraria. 

E a sua voz ! Quando brada : 
«Pequenino, pequenino!» 
'Té mesmo a aguia altanada, 
que junto ao solio campeia 
de Jove Capitolino, 
correria ao seu chamado! 
As pombas que a Cytheréa 
tiram o carro doirado, 
de Juno o altivo pavào, 
virìam, juro, se ouvissem 
d*essa voz de semi-déa 
a doce modulando. 



Quem traduziu a poesia de Goethe, mil vezes me- 
Ihor do que eu o poderia fazer, foi o lapis do dese- 
nhador. Como alli se sente bem o meigo idyllio que 
Joào Wolfgang dcvaneou! Que doce vulto de crianga! 
fìi-lhe a primavera nos labios, no olhar, nas faces, e, 
comò a primavera tambem, flores, borboletas, passa- 
ros, saùdam-n'a, enlagam-n'a, beijam-n'a, esvoagam- 
Ihe em torno, comò se a reconbecessem por irmà, 
comò se soubessem que o bafo mundano ainda nào 
apagou um so dos esplendores d'essa fìiba luminosa 
da natureza. 

Quem ensinou a Goethe o segredo, a nenhum outro 
poeta revelado, de pintar, debaixo de tao suaves e tao 
variados aspectos, o encanto nativo da mulhor? Foi 
talvez seu proprio egoismo. A paixao nunca turvou 
aquelia alma de cristal, corno o cristal transparente 
e fria, que todas as imagens espelhava e onde ne- 
nhuma conseguia gravar-se. Immovel na sua indiffe- 
renga olympica, o Jupiter germanico assìstiu, durante 
a Vida, ù sua propria apotheose. leve o dom unico de 
inspirar aos homens uma idolatria incrivel, As mu- 
Iberes um louco enthusiasmo. De edade de sessanta 
annos, viu uma menina de dczoito, Cariota Brentano, 
depois casada com o poeta Achim de Arnim, consa- 
grar-lbe a paixào mais delirante e mais viva ! E elle, 
sempre risonbo e sempre sereno, acolhia conio home- 
nagens que Ihe eram devidas esses transportes que 
deveria repellir com paternal carinho. Tinha razao 
talvez debaixo do seu ponto de vista; quem se infiam- 
mava com reflexo d'essas paixucs abrazadoras q\ie 
deixavam o poeta insensivel, era a arte, esse deus in- 
timo que sempre conscrvou dentro d'elle, mau grado 
aos gelos do inverno, a sua juventude resplandecente 
e immortal. 

Assim sobrancciro 6s paixOcs da terra, mas apro- 
veitando-as comò a arvore aproveita os succos nutri- 
tivos do solo para enfolhar a copa, esse genio, sereno 
e sublime, conquistou a admiragào estupefactado mun- 
do, porque, segundo a bella phrase de llenrique Heine, 
a sua ramaria se elevava tao magnificamente para o 
ceo, e a tal altura, que as eslrellas nao parociam se- 
nào OS doFrados fructos d'essa arvore maravilbosa. 

M. PlVHBEUO ClUQAS. 



AS REPUTAgfJES 

(Esuogo critico) 

Entràmos um dia em certo café, com o intuito de 
nos demorarmos pouco tempo, quando uma discussào 
acalorada, que se ouvia a um lado, chamou a nossa 
atlengào. Julgàraos ao principio que fosse uma discus- 
sào vuigar, que terminasse com a intcrvengao da poli- 
eia, e iamos acauteladamente retirar-nos quando nos 
obrigaram a ficar estas palavras que se proferiram em 
voz alta: 

— É impossivel ter reputagào mclbor! 

— Nào é possi vel ter peior reputagào! 
Tratava-se de um honiem que possue um bem'quc 

falta ao auctor d'este arligo, de um homem de quem 
todos fallam, de um homem, em firn, que tem repu- 
tagào. ^ 

— É um dos homens mais notaveis da epocba, dir 
zia um homemsinho que, aprovcitando uni instante de 
sereflidade, levantàra a voz sobre os demnis interlo- 
cutores para ser ouvido. Sim, senhoros, é homem do- 
tado de um bello talento, de nobre coragào e espirito 
elevado; e é so para lastimar que Ihe falte caractor. 
Olhem que està opiniào nào 6 propriamente minha; 
se me dào licenga, lerci um artigo em que se ella en- 
contra: é parte de uma biographia que eu consulto 
sempre que desejo sabcr o que devo pensar de um 
homem conhecido que nào couhego. 

E nesso homemsinho leu o artigo onde a opiniào 



ARCHIVO PITTORESCO 



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qae cmittfra se acbava reprodozida) mas com tanta 
cxactidSo que 6c podia inferir, ad libitum, ou quc 
tinha cscripto o artigo, ou que o tinha decorado. 

— Penso contrario do homem de quem falla o sr. 
P..., disse um segundo: falta>lhe talento, teoi pouco 
espirito, mas possue um caracter elevado; e n&o sou 
eu so d*e6te parecer. 

E leu um artigo inteiramente opposto ao quc se 
acabàra de ouvir, artigo extrahido de outra hiogra- 
phia, em que oste leitor baseava o seu juizo critico. 

— Pois é possivel encontrar-se caracter em tal ho- 
mem? replicou vivamente um terceiro interlocutor. Ha- 
vera outro mais leviano, mais versati!? Hontem ap- 
plaudìa vermeiho, hoje segue o branco, ùmaubà 
cslarù do lado do azul; e às vezes tem ao almoQO 
urna cor e ao jantar nutra. È um iris. Aqui estù um 
artigo que nol-o assegura. 

— Isso nào tem auctoridade, acudiu o quarto inter- 
locutor. Nào se póde afBrmar que falte caracter a um 
homem porque conservou em o novo governo o cm- 
prego que Ibe dera o governo transacto. As func^Oes 
pubiicas nào mudaram de natureza. Serve ambos com 
rgual fìdeiidade. E se elle incensiir o que ìnsultou e 
perseguir o que serviu, ndo Ib'o levemos em mal. 
A necessidade obriga-o; as ciix;unstancias inslam-n'o. 
Nem por isso dcixou de ser magistrado integi*o e io- 
corruplivel. 

A discussilo nilo tenniodra, porém; muitos eslra- 
ohos a ella liaviam yà tornado parte, ora dirigindo-se 
a um, ora a outro, e proferindo alguma palavra a res- 
peito do paciente, cuja reputagao fora tratada corno 
OS cadaveres entregues ao escalpello dos estudantes 
da eschola de medicina. 

Nao sabiamos ainda o que se devia aci*editar, nem 
corno se conciliariam pareceres tao diversos, quando 
um homem de physionomia grave e animada, que se 
r^nservàra siloiicioso, pcdìu iicenga para entrar na dis- 
russào, e dirigiu à assemblèa o seguinte discurso, que 
serenou todos*os auimos: 

— Todos tem muita razOo, senhores, e a todos falta 
a justiga. G homem de quem fallam tem essa reputa- 
(,!ào, e por isso nào se dififerenca das muitas pessoas 
(ias ouaes se nào falla. E nào se admìrem. A reputa- 
^0 de quc cercùmos um homem é tao sómente a ex- 
pressào do nosso parecer; e nào serào os pareceres 
tao diversos conio os interesses? D'ahi vem as con- 
tradiccOes cm quc os senhores incorrem. No meio do 
dcscnfreamento das paixOes, quem póde gabar-se de 
nào ter detractores, e quem deve aliìigir-se por en- 
contrar apologistas? Os homeos publicos estào mais 
sujeitos quc os demais bomens a estas eternas fluctua- 
«jOes, a verein-se alternativamente exaltar e humilhar 
por contradictorios rumores. Quando se alcanna repu- 
ta^ào, alcanna-se quasi sempre duplamente: é o efTeilo 
óo ponto de vista d*onde cada um a considera, ou da 
cor do vidro atravós do qual a obscrva. 

Tal general, cuja memoria se rohabilitou, nào é 
um heroe para teda a nayào; muitos aioda nào o vi- 
ram rehabìlitado. sr. de... 6 julgado de um modo na 
corte, a que pcrtence, e de outro modo na cidade, onde 
raras vezes apparece; as damas do pago formam àcerca 
dVlIe um juizo, e as niàes de famìlias outro muito di- 
verso. Um delegado do procurador regio é o defensor 
da sociedade, mas os advogados, para salvarem os 
clientes, chamam-ibe accusador publico. Um auctor 
de grande merito nào agrada a todos. Acaso dizem 
todos beni de Victor Hugo ou de Garrelt? K o quc es- 
tes julgam ou juigaram de si é muito difTerente da 
opiniào alheia. 

Cada um, pois, comò disse, tem duas reputagóes: 
boa e ma. A rcputagao que se nos fórma em volta nào 
é sempre a que permauecc quando safmos da scena 
ou quando deixamos este mundo. As faltas leves que 
obscurecem as grandes acgóes, os pequenos servigos 



que encobrcm as grandes faltas, desapparecem n*a- 
quelle momento, que anniquila todas as illusOes, e 
cm que o homem, avaliado pelas suas obras, vù todas 
as reputagóes fundirem-se em uma so, boa ou ma, 
definitivamente, conforme a somma do bem ou a som- 
ma do mal que langou na balanga onde tem que ser 
pesados os seus actos. 

Està reputagào unica é importante: consome-se n'elia 
a Vida inteira; e nào é sem custo e diiBculdade que 
se conquista para se nào gozar. 

Dizendo isto, o desconhecido safu. 

Està conclusào, que achàmos sensata, fez-nos re- 
Oectir. Visto que é tao difBcil adquirir uma reputagào, 
ó muito melhor nào a conquistar. Ha pessoas que se 
amofinam porque ninguem as conhece, nem tem me- 
ritos para se tornarem nolaveis: consoleino-nos de ser 
ignorados. Que os poetas, os legisladores, os prógado- 
res e os ministros corram atraz da fama, por causa das 
trombetas que bào de levantal-os mais, entende-se: o 
amor do ruido nào està sempre n*elles de accordo com 
amor proprio. Para nào sairmos, pertanto, da me- 
diauia, nem servirmos de assumpto para tantas con- 
tradicgóes, conservemo-nos ignorados e modestos. 



CARDEAL D. J.AYME 



Do consorcio do infante D. Pedro, duque de Coim- 
bra, fillio deirei D. Joào i, com D. Isabel, filha do 
conde de Urge!, e neta de D. Pedro iv, rei de Aragào, 
foi quarto fructo D. Jayme, nascido no anno de 1434. 

Tiuha pouco mais de 14 annos quando rebentou em 
Portugal aquella fatai discordia, soprada por inveja e 
ambigào do primeii*o duque de Braganga, entre el-rei 
D. Affonso v e infante D. Pedro, tio e sogro do mo- 
narcha, e que fora regente do reino durante a sua 
raenoridade. 

principe, amado do povo pela sabedoria e jusliga 
coni que governàra o reino por espago de dez annos, 
viu-sc collocado pelos seus inimigos na cruci alter- 
nativa de procurar a morte dos valentes no campo de 
bataiha, cm guerra fratricida, ou sujeitar-se ao op- 
probrìo dos condemnados peraote juizes parciaes e 
vingativos. 

infante D. Pedro, querendo justifìcar-se so na pre- 
scnga dei-rei das vis calumnias que levantaram centra 
a sua lealdade e probidade, e receiando-se, coni justo 
motivo, de alguma traigào dos seus adversarios, resol- 
veU'Se a sair de Coimbra, on<le entào residia, acom- 
panbado dos seus amigos mais dedicados, e seguido 
de gente armada. D. Jayme, apesar de ser ainda uma 
crianga, quiz por forga ir participar dos perigos que 
ameagavam seu pobre pae. E seguiu-o corno fillio ex- 
tremoso, nào corno soldado. 

D. Affonso V, a quem fizeram considerar aquellc 
procedimento do tio comò um acto de relielliào accia- 
rada, poz-se a frente das suas tropas, e foi de Lisboa 
ao encontro do infante. Avistaram-se uns e oulros em 
um sitio chamado Alfarrobeìra, a pouca distancia da 
villa de Alverca. 

Antes quc o infante livosse tempo de fazer chegar 
aos oiividos de seu sohrinbo propostas de conciliagào, 
envoltas em proteslos de innocencia, de respeito e sub- 
missào, algumas frechas e dardos, partidos do arraial 
de D. Affonso v, accenderam de improviso a lucta, sem 
que fosse possivel ao infante suspender o brago irado 
dos seus parciaes. 

Foi ctjrta a peleja, se bem que muito encarnigada, 
porque, apenas principiada, poz-lbe termo a morte do 
desditoso infante D. Pedro, ao qual uma frecha tirou 
instantaneaniente a vida (20 de maio de 1449). No 
mesmo instante se viu D. Jayme orpliào e prisioneiro. 

Conduzido a Lisboa, oblivcram-lhc a liberdade as 
lagrimas e sùpplicas de sua irmà, a rainha D. IsabeK 



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ARCHIVO PITTORESCO 



E logo depois està soberana, nao julgando bastante o 
seu valimento para o protegcr centra a sanba dos ini- 
migos de seu pae, enviou o joven principe a Flan- 
dres, para a companhia de sua tia, a infanta D. Isa- 
bel, mulber de Filippe ih, o Bono, duque de Borgonba 
e conde de Flandres. 

A duqueza D. Isabel, que scnapre conservou terna 
affeigào aos seus parentes, corno tambem urna viva 
saudade d'este paiz, ondo teve o bergo, recebeu a D. 
Jayme com amor e carinbo de màe. 

Depois de o ter junto de si por algum tempo, an- 
nuindo aos desejos do mogo principe, qae o impelliam 
para o estado ecclesiastico, deixou-o ir para Roma, 
mas fez que o precedessero e seguisscm instantcs re- 
commcndagóes suas e do duque seu esposo ao papa 
Nicolau V. 

pontifice foi prompto em mostrar a sua benevo- 
lencia para com D. Jayme. Àchando-se vaga a sé de 
Lisboa pelo faliecimento do arcebispo D. Luiz Conti- 
nho, papa nomeou-o administrador perpetuo da dio- 
cese lisbonense, visto nào permittir a sua pouca edade 
que cingisse a fronte com a mitra archiepiscopal. A 
bulla pontificia oue concedeu aquella administragào 
tinha a data de i453. 

Nomeou D. Jayme um vigario geral para governar 
em seu nome o arcebispado, e conservou-se em Ro- 
ma, onde desfructava os rendimentos da sua diocese. 

Elevado ao tbrono pontificio Calisto iii, logo na pri- 
mcira nomeagdo de cardeaes, que fez aos 18 de se- 
tembro de 1456, deu o barrete cardinalicio a D. Jay- 
me, com titulo de Santa Maria in Porticu, ao diante 
mudado no de Santo Eustachio. 

Decorridos poucos mezes depois de elevado a està 
dignidade, quiz dar testimunho o cardeal D. Jayme de 
que, apesar da queixa que magoava o seu coragào Q- 
lial, e que o obrigàra a expatriar-se, nào estava es- 
quecido, nem perdóra o amor àXerra natal. Solicitou, 
pois, e obteve de Calisto in, correndo o anno de 1457, 
a bulla da cruzada para estc reino, cnvìando-a a ei- 
rei D. Affonso V, seu primo, por D. Fr. Alvaro Paes, 
bispo de Silves, que a esse tempo se acbava em Ro- 
ma, e ao c|ual o papa fez seu legado, e D. Jayme seu 
commissario geral, ou governador do arcebispado de 
Lisboa. Aos proventos que recebìa d'este benefìcio ac- 
crescentou-lhe o summo pontifico as rendas da mitra 
de Arras, em Franga, nomeando-o arcebispo d'està 
diocese. 

AfRictas e aterradas a curia romana e toda a cbris- 
tandade pela dcstruìgdo do imperio do Oriente e to- 
mada de Constantinopla por Mahomet ii, no anno de 
1454, rcsolvéra Calisto iii nersuadir a todos os prin- 
cipes cbristàos a necessidaae de se unirem para mo- 
verem guerra aos turcos, oppondo assiro urna forte 
barreira à ousadia e continuados triuropbos de tao 
terrivel inimigo. Porém a morte do pontifice, succe- 
dida no anno scguinte de 1458, deixou em projectos 
a empreza meditada por Calisto iii. 

Portanto, apenas Pio ii se sentou na cadeira de S. 
Pedro, tratou com o maior zelo e actividade de reali- 
sar plano do seu antecessor. Para este efTeito con- 
vocou um concilio na cidade de Mantua, nos cstados 
da republica de Veneza, para onde partiu com o col- 
legio dos cardeaes no principio do anno de 1459. 

cardeal D. Jayme, tendo saldo de Roma um pouco 
mal de saude, enfermou gravemente ao chegar a Fio- 
renza. Ficando por este motivo retido n'essa cidade, 
ao cabo de algum tempo de padecimentos, para os 
quaes a medicina n&o achou remedio, falleceu no dia 
21 de abril de 1459, na edade fiorente de vinte e 
ciuco annos e alguns mezes. 

Foi D. Jayme o decimo portuguez que vestiu a pur- 
pura cardinalicia, mas o primeiro que se adornou com 
ella no verdor dos annos. seu brazào d'armas ora 
um escudo esquartclado, tendo no primeiro e quarto 



quarteis as quinas de Portugal, e no segundo e ter- 
ceiro as barras de Aragào. E por empreza usava de 
um arminho coro a letra — Mali mori, quam fxdari, 
que diz era vulgar — Antes morrer que manchal-o. 
Mote e emblema que bem quadravam à candidez da 
sua alma, à benevolencìa da sua indole, & dogura do 
seu genio e à pureza dos seus coslumes; virtudcs que, 
juntas a outras, o fizeram amado e rcspeitado em toda 
a parte. 

seu corpo foi conduzido à egreja de S. Miniato, 
pertencente a um mosteiro de monges benedictinos, 
edificado no seculo xi sobre um monte, cujas faldas 
servem de recosto à cidade de Floreuga. Em urna ca- 

Ì)ella d'esse tempio, fundada pelo proprio D. Jayme, 
òram sepultados os seus restos mortaes ^. Passado 
tempo fez-se a trasladagào d'clles para um sumptuoso 
mausolèo construido na dita capella. As mesmas pie- 
dosas m&os que, movidas da saudade fraternal, en- 
viaram de Flandres para a sé de Braga o magnifico 
tumulo de bronzo em que repoisa o infante D. Affon- 
so, filho primogenito dei-rei D. Joao i, agora impel- 
lidas pela alTeigào ao sobrinbo, erigiram junto é ci- 
dade dos Médicis o primoroso asylo de marmore, onde 
illustre proscripto dorme o somno eterno. 

D. Isabel, duqueza de Borgonba, querendo que o 
mausolèo fosse digno da piedade e munificencia de 
quem o fundava, e das reaes cinzas que devia rece- 
bcr e guardar, encarregou da obra Antonio Rosselino, 
um dos mais eximios escuiptorcs de que se bonra a 
Italia. E eminente artista, esforgando-se por corres- 
ponder aos desejos e altos espiritos da augusta prìu- 
ceza, produziu um dos mais primorosos monumentos 
de esculptura da arte toscana, d'essa arte que tanto flo- 
resceu e que a tao subido gran cbegou de perfeigào. 

Antonio Rosselino ndo se limitou a construir um 
tumulo; tambem decorou com muita riqueza e singu- 
lar gosto a capella que o devia conter. Substituiu as 
lageas do pavimento por lìndos marniores de variadas 
còres, dispostos em graciosos desenhos. Na parede do 
fundo da capella levantou um aitar, que adornou com 
admìraveis esculpturas em preciosos jaspes e alabas- 
tro. Vestiu a parede do lado esquerdo com marmores 
de córes variegadas, ora luzindo comò espelhos, ora 
relevados em capricbosos lavores. E junto d'ella col- 
locou uma cadeira da mesma materia, de gosto anti- 
go, e de fórma e proporgdes esbeltas, significando a 
sède que o illustre prelado delxàra vaga. Na parede 
do lado direito abriu um arco de volta redonda com 
delicada cercadura de miudos relevos, e debaixo d'elle 
collocou soberbo mausolèo, de que a no^sa gravura 
apenas mostra tragadas as linbas que Ihe descrevem a 
fórma e os lavores. 

Sobre um envasamento ornado de grinaldas e de 
genios, excellente imitagao das formosas esculpturas 
da antiguidade, assentou o insigne artista o cofre se- 
pulcbral, à similhanga da magnifica urna de porfido 
que, depois de ter attrabido por longos annos a ad- 
miragào publica sob o portico do tempio de Aggripa, 
foi transferida no seculo passado para a sumptuosa 
capella dos Corsinis, na egreja de S. Joào de Latrào, 
em Roma, a fim de encerrar os despojos mortaes do 
papa Clemente xii. 

Ero cima do refendo cofre, que é sustentado por 
qualro pilastras, ergue-se o leito mortuario, com a 
estatua do principe cardeal estendida sobre um largo 
panno, suspendido nas extremidades por dois genios, 
que estào sentados na tampa convexa do cofre. So- 
bre mesmo envasamento, aos lados do sepulchro, 
levantam-se duas pilastras, rematando era uma corni- 
ja, que sóbe um pouco acima e por detraz da es- 

i Està fnnda^So nAo a achAmos mencionada pelos oossos escripto- 
res qne trataram de algnns actos da v!da d'oste principe. Tambem 
nJlo dteem que antet) da viagem em que adoecou tivesse estado em 
Fiorenza. Entretanto, aquoUa obra faz presumir quo D. Jayme feria 
visitado anteriormente a capital da Toscana. 



ASCmVO PITTORESCO 




il D. Jajnn de Portabili, om agni]» de S. Hlnlito, Jan 



tatua de D. Javmc. Pìlastras e corDÌja eSo coberlas 
de Itrìncados relcvoa. Noa poatos exlremos da cornija 
cstao ajodbados dois anjos, um tendo nas maos a co- 
rca de principe, que a D. Jayme cabia por nascimen- 
lo; outro empuabando a palma, symbolo da castidade 
do virtuoso prelado. Entre os anjos vé-se um quadro 
corno janella, e por cima d'elle um lindo medalhSo, 
cercado por urna grìnalda de flores e euslenlado por 
dois anjos, do meio do qua) resalla, com soberana ma- 
gestade, a imagem da Virgem Maria com o Menino Je- 
sus nos bra^os. 



cpitapbio que eslà fsculpido na caixa, e quc a 
gravura deìxa ler, diz que D. Jayme morreu aos viiHe 
e ciuco aunos, onze mezes e dez dias da sua edade. Al- 
guns dos Dossos auctores dào-lhc pouco mais de vinte 
e cince annns. 

È riquissima loda aquella obra pela profusao das 
decora^Ocs. Mas o que a faz verdadoiramente admi- 
ravel 6, sobre ludo, a corrocgào de desenlio;-a no; 
brcza, graga e cxprossao das Gguras; e, cm firn, a de- 
licadcza e perfcicio das esculpluraa, 

U nioQum(.'n(o é lodo couslmido de fiuìssimos map- 



38 



ARCHIVO PITTORESCO 



inorcs, no estilo do renascimcnto. Nào foi o primcii'o 
monumento que se erigiu na Italia scgundo aquelle 
estilo de arcbitectura. Muìtos outros o preccderam com 
a anticipagào de bastantes annos, que estào provando, 
de um modo irrecusavel, que ndo foi a tomada de Cons- 
tantiuopla por Mabomet ii, corno muitos auctores affir- 
mam, que dcu causa, em razdio da fuga dos arcbite- 
ctos e cscuiptores d'està cidade, à introducgào da ar- 
cbitectura do renascimeuto na Italia e nos outros paizes 

da iìuropa. I. db Vi^nsKA barbosa. 



WALI DE SANTAREM 

(Yid. pag. 20) 
111 



NA ALCAgOVA DE COIMBRA 

6 noilo, e Coimbra, a rainha do Portugal nascente, 
dorme rccostada nas suas collinas vcrdejantes, ba- 
nhando os pós no Mondego, e deixando-se bcìjar amo- 
rosamente pelo luar candido e sereno que Ibc bran- 
queia as ameias da sua catbedral torreada, verdadeiro 
symbolo da egreja militante d*essas cras. 

Dorme a formosa cidade oscolbida por D. Affonso 
Henriques para capital do reino, cujos limites a sua 
valente espada nào cessa de ampliar; dorme, e nào 
jbe perturba o somno o galopar dos almogavares par- 
tindo para as suas correrias nocturnas, nem tem de 
acordar sobresaltada vendo accender-se nos pincaros 
distantes dos serros meridionaes a pallida cbamma das 
almenaras moiriscas. 

Porque D. Aflbnso Henriaues, o lidador infatigavel, 
pendurou das paredes da alcova nupcial o seu temido 
montante, e parece esquecer nos bra^os de D. Mafal- 
da, a sua gentil noiva italiana, a missào que elle a si 
mesmo impoz de assentar em basca solidas na Penin- 
sula a nacionalidade que Ibe coufiou os scus dcstinos. 

Mas nào sera permittido um momento de dcscango 
a qucm, desde que vcstiu armas, quasi que nào co- 
nbeceu outros foìguedos que nào fossem as sangren- 
tas pelejas? a quem raras vezes levaiitou a viseira 
para limpar o suor que Ihe escorria na fronte, a quem, 
à testa dos seus cavalleiros, so atravessava a galope 
as ruas das cidades, quando partia, ora contra os moi- 
ros de Belatila, ora contra os leonczes d'alOm-Minho? 

E depois, quem sabfa os projectos que se rcvolviam 
na mente do intrepido guerreiro? tigre nào uiicolhe 
OS mombpos, nào recurva as garras, uào arma o pulo 
em silencio antes de se arrojar ao inimigo? Quando 
no primeiro impeto Affonso Henriques tiuha de encon- 
trar diante de si a linba forlificada do Tejo, Santarem, 
a bem siluada, Lisboa, a rainba do Oceano, guarda- 
da, comò rainha, pelos rauros torreados e pelos adar- 
ves das fortalezas, nào devia meditar um pouco antes 
de ir batcr com o ferro da langa nos porlacs d essas 
tao cobigadas cidades? 

Quantas vezcs nào se teria elle visto cm sonbos es- 
calando OS muros de Santarem, ou pondo em firn a 
cinta com as cbavcs de Lisboa as cbaves do seu rei- 
no, aberto até abi às incursOes dos sarracenos? Enlào 
talvez a sua joven esposa, acordando sobresaltada e 
di'brugando sobre elle a fronte loira, ouviria coni pas- 
mo sairem dos labios do guerreiro adormecido, no 
sonho bellicoso, os ^ritos ferozes do combate; entào 
Mafalda empallideceria, comò se sentisse de subito ao 
seu lado o rugido do leào, mas na seguinte manhà, 
quando aos claròes da alvorada fugiam os sonbos tu* 
multuosos, fìlbos da noile, Affonso Henriques acordava 
com um sorriso, e a rainha de Portugal via outra vez 
a seus p6s seu namorado cavalleiro. 

Por isso OS honrados burguezes de Coimbra menea- 
vam as orelhas melancolicamente, e diziam em quanto 
iam limpando ao jantar a sua escudella cheia de do- 
brada: «Adeus! adeus! Affonso Henriques jà se es- 



queceu de que ainda ba moiros na Hespanba! Enfei- 
tigou-o demonio da romana, saboyana ou que vem 
ella a seri Mulberes, mulberes, sois a nossa pei*diyào 
desde que o mundo é mundo!» 

Ora comò os dignos burguezes e homens-bons de 
Coimbra podiam ser almotacés e alvasis no municipio, 
mas habitualniente em casa nào exerciam as funcgoeS 
da governao^a, succedia muitas vezes que as orelhas, 
que elles assìm meneavam ao proferirem o seu dìs- 
curso, cresciam melo palmo puxadas violentamente 
pelas suas Evas, que acudiam em defesa do sexo of- 
fendido. 

Mas OS cavalleiros e bomens d*armas, esses sorriani 
e encolbiam os bombros dizendo: a Ai do primeiro so- 
bre ([uem desabar a espada, lioje ociosa, de Affonso 
Henriques! Nào tardarà muito que o adail nos venfaa 
despertar antes do romper d*alva dizendo: — Alerta, 
cavalleiros, que el-rei de Portugal jà corre à desGlada 
caminho de Lisboa! Vamos arvorar a cruz nas mura- 
Ihas onde o crescente campeia.» 

È porque esses conheciam-n*o por terem lìdado com 
elle desde que o joven principe, à testa dos barucs 
portuguezes, reclamàra com as armas na mào, nos 
campos de S. Mamede, a governan^a do l'cino que 
um estrangeiro usurpàra; sabiam que aquelle espirito 
era ago fino com que a ferrugem nào entra, lamina 
de Toledo que póde descangar por instantes na bai- 
nba, mas que ao primeiro ensejo favoravel brilha de 
novo, sempre limpido e fuzilante, ao sol ardente das 
batalhas. 

E OS sarracenos partilbavam a mesma opiniào, por- 
que temiam despertar o leào adormecido; os seus al- 
mogavares nào vinbam talar os campos dos cbristàos; 
e castello de Santa Olaia, a sentinella avangada de 
Coimbra, silencioso e sombrio no seio da noite, nào 
soltava grito de alarma, nem guarnecia de besteiros 
as suas barbacàs, annunciando a apparigào de hoste 
moirisca; nào que a3 atalayas ismaelitas, immovcis 
tambem nas guaritas dos seus alcagares, diziam bai- 
xinho entre si: «Quando veremos nós inflaramar-se 
horisonte com a apparigào d esse meteoro devasta- 
dor, esse flagello de Deus que se chama Ibn-Errik?» 

Mas entretanto na corte nào se pensava senào em 
festas e saraus; os cavalleiros de Ourique e Valdevez, 
encostado o montante às paredes das salas d*armas, 
desferiam brandamente as cordas da viola dos trova- 
dores e rendiam finezas às damas, em quanto nào cbe- 
gava a occasiào de quebrarem por ellas uma langa no 
peilo dos villaos descridos. 

È noite, pois, noite de luar ameno; a brisa da pri- 
mavera enruga ao de leve as aguas do Mondego, e a 
lua projecta no cbào a vasta sombra das muralhas da 
alcagova real. Dorme a cidade jà, mas em torno do 
palacio tudo é borborinbo e agitagào; é porque là den- 
tro ba n'essa noite sarau, comò o demonstram os jor- 
ros de luz intensa que, insinuando-se através das flo- 
res e arabescos das janellas moiriscas, deseubam na 
parede, branqueada pelo clarào mais brando da lua, 
umas ogivas de fogo. Nas salas tumulluam as dangas 
e ouve-se o som estridulo das musicas; cà fora os 
cavallarigos, que tem à mào os cavallos dos ricos-bo- 
I mens e as mulas dos prel^os, trocam entre si ditos 
e risadas, com que se vào tambem enlrelendo, cm 
quanto os seus ^enbores se desfazem em galanterias 
cortezàs, ou riem a bandeiras despregadas com os ar- 
remedilbos dos truGes. 

Apesar de nào pertencermos a nenfauma das duas 
classes privilegiadas, nobreza e clero, entremos nós, 
usando do privilegio dos romancistas, na sala d onde 
seriamos, se nos vìssem, infalli velmente excluidos na 
nossa qualidade de villàos; entremos, e, escondendo- 
nos por traz de uma d*estas coiumnas esguias que 
sustentam o tecto artezoado, espreitemos o aspecto ge- 
ral do sarau. 



ARCHIYO PITTOIIESCO 



39 



A quem conhecesse os csplendores dos palacios ara- 
bes devia parecer beni mesquinha a orDaroeolagao da 
sala onde a corte de ASbnso Henriques se entregava 
ao prazer da danga e da musica; nào era poQsivel 
deìxar de se confessar que a rude civìlisagào nco<go- 
thica fìcava aioda multo óquem da civilisagào requin- 
tada e luxuosa dos nctos de Agar. Os soldados da cruz 
podia-se dizcr que estavam para os arabes corno os 
seus barbaros antepassados das tribus germanicas para 
os romanos que venceram; mas talvez tambcm por 
isso mesmo a sua energìa indomavcl superasse n'esta 
iucta de seculos a raga policiada que possuia o impe- 
rio do Andaiuz. A civitisagào, quando se manifesta 
aponas pelas pompas e maravillias do desenvolvimeoto 
material, tem por companbcira inseparavel a corru- 
pgao, e as ragas rudes, mas virgeos, bào de sempre 
trìumpfaar das nagóes que escondcm debaixo do lus- 
tre cxterior da opulencia o germen fatai de urna ve- 
iblee prematura. 

Deljaide procurariamos, pois, nas salas da alcagova 
de Coimbra os pavimentos, as paredes e as columnas 
de preciosos marmores, os tectos plotados de oiro e 
azui com perolas suspcnsas, as footes de jaspe com 
cysnes de oiro no centro, que opulentavam o paia- 
ciò de Azzahrat, fundado pelo poderoso kaiifa Abd-er- 
Rabman ; debalde reianccariamos os olbos para os can- 
t08 do aposento em busca das cassoletas de prata onde 
rescendessem perfumes arabicos; nem tapeles pcrsia- 
nos alti verìamos, nem cortinas de damasco, nem os 
nossos ouvidos scriam deliciados pelo som melodioso 
dos alaudes de oiro e pelas vozes suavissimas de can- 
tores gregos; mas, em rompensagào, tinbam essas re- 
unióes cncanto supremo que fallava aos festejos dos 
mabonietanos, a doce convivcncia com as donzellas 
gcntis, cujos meigos olbares derramavam luz mais 
sua ve para os cavalleiros que as requestavam, do que 
a quo podia emancir dos milbaros de lampadas de oiro 
da mesquitu de Kordova. 

Km almaxadrequas enfìlciradas ao longo das pare- 
des se sentavam as donzellas eocantadoras da corte 
de D. Affonso Henriques, ouvindo as trovas que, ù 
moda provengal, os seus enamorados Ibes descanta- 
vam a mela voz. No topo da sala, n'uma cadeira de 
cspaldar situada em cima de um estrado, si'intava-se 
a joven raiuha D. Mafalda, cujos olbos seguiam, com 
uma exprcssào amorosa e inquieta, o vulto agigantado 
de seu esposo, que, junto de uma janella, conversava 
com alguns dos seus cavalleiros. A luz intensa prò- 
duzlda por numerosos lampadarios pendcntes do tecto 
illuminava alegremcnte o grupo folgazdo das damas 
risonhas e dos cavalleiros descuidosos; de quando em 
quando uma torrente de melodias vinba fazel-os es- 
tromecer e convidal-os a revolutearem no turbilbùo 
das dangas. Eram as barpas, as citulas, as dogainas, 
combinadas com instrumentos mais bellicoso», corno 
as charamellas, trombetas e lympanos, que aconse- 
Ibavam aos guerreiros cortezaos de D. Affonso Henri- 
ques esquecerem por instantes a sua vida austera 
de combates no louco e inebriante prazer das rodo- 
piantes folias e dos amorosos enlevos. 

Affonso Henriques, come dlssemos, apartadoda turba 
doidejaote, conversava con^ alguns dos seus cavallei- 
ros. DistÌDguia-se entre elles pela sua alta estatura; 
estava no vigor da edade, na flor da vida, em ple- 
nos trinta e quatro annos, e a sua organisagào, que 
a extrema velbice e os desgostos que a acompanha- 
ram nOo podcram abater, ostentava-se entào em teda 
a sua maravilbosa robustez. 

N'essa noite, porém, estava elle, sogundo parecia, 
inquieto e preoccupado. A miude voltava os oiiios para 
a porta, corno se esperasse algucm. Està preoccupa- 
tilo, comtudo, passàra despercebida no melo dos fol- 
guedos goraos; so nao escapara aos olbos perspicazes 
de D. Mafalda. Com o seu doce insllncto de esposa 



estrcmecida, adivìnbdra que a inquietagao de seu ma- 
ndo se prendia com os seus projectos guerreiros, e 
que OS soubos que tanto a assustavam nào tardariam 
a transformar-sc n*uma realidado mais afflictiva ainda» 
Os cavalleiros com quem entào conversava eram 
dos mais notaveis entre essa erpica phalange que to* 
mou parte com elle nas sangrentas luclas que funda- 
ram a nossa nacionalidade; os seus nomes, os seus 
gloriosos appellidos, vibram, quando os pronunciàmos, 
sons de guerra e de Victoria, comò os escudos onde 
baie ferro das langas; Gongalo Mendes da Maia, o 
Lidador, Lourengo Viegas, o Espadeiro! Junto d'estes 
dois vultos todos os outros desmaiam, e chegam a 
parecer pequenos mesmo os gigantes d'cntào. 

(ContÌu6a) H. PiariiBiRO Cragai. 



LUXO E MA6NIFICENCIA DA CORTE 
DEL-REI D. JOÀO V 

(Vld. pag. 83) 



Expozemos aos nossos tcitores, em abbreviada no- 
tlcia, as furicgOes mais esplendentcs e custosas orde- 
nadas por el-rei D. Joào v nos primeiros treze annos do 
seu reinado. Por esse quadro, apesar de sor um sim- 
ples esbogo, mal contornado, de còres pallidas e com 
frouxa luz, póde ajuizar-se, todavia, do luxo e ma- 
gnifìcencia da corte de D. Joào v, bem corno do seu 
animo ostcntoso e gastador. Porém a solemnidade de 
que vamos tratar sobresalu multo em apparato e gran- 
deza, e nas imn^sas sommas que custou ao esfado, a 
todas as l'uncgGes reaes que estc paiz tem presenciado 
antes e depoi» duella. 

Eram passados^^ dez annos depois que està capital 
assistira mara^Mlibada à memoravel festa de Corpus 
Chrittì, de qus-faJlànKvs no capitulo antecedente. No 
decurso d*este periodo tal desenvolvimento teve ala- 
vra das mi nas auriferas e diamanti nas do BrasfI, que 
as frolas qoe largavam de .là todos os annos para o 
reino, nào obstante constarem de muitas dezenas de 
navioSy vinbam sempre pejadas de oiro e pedras pre- 
ciosas ^. 

Pelo exccsso das despezas de mei*o luxo a que el- 
rei se enlregou, em tempos em que o estado da fa- 
zenda public» era mais precario que prospero, ima- 
gine-se o que este mooarcba faria, vendo os seus co- 
fres a trasbordarcm riquezas, que boje, contadas, bào 
de parecer nao roalidade, mas sim obra da pbantasia 
do auctor das Mil e uma noiles, 

Entretido e distrahido na adolescencia por algumas 
damas francezas, que vicrani de Paris no sequito da 
rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya, el-rei D. 
Joào V foi embalado ao som de cantigas, em quo a 
poesia parisiense debucbàra com vivo colorido os fes- 
tins e amores da corte voluptuosa de Luiz xiv. E 

3uando o uso da razào Ibe foi dando conboclmento 
sentido das palavras, nào havia bistorias que mais 
captivassem a attengalo do joven principe, e em que 
mais se enlevasse o seu espirito, que nos contos em 
que a velba Catbarina de Verg6, e sua formosa Olhn, 
D. Anna Armanda de Vergè *, Ihe descreviam e exal- 
tavam as grandezas e csplendores da corte franceza, 
e a munifìcencia e galbardia do soberano que, nos 
assomos da sua vaidade, so comparàra ao sol. 

t £m 1719 foram dttsoobortfis as mlnaii de oiro de Qulabà e de 
GoyAKCs. Puuco dcpoia dcscobrira-ee a mina do diamantca e de oiro 
de Serro Prlo. 

^ D. Anna Armanda do Vergè Tela para Lisboa de tenroe aonoa, 
casou n*esta cidado, e depo!« de enviuvar teve dei-rei D. Fedro ii um 
fliho, qne se chamou D. Mlgnel, ao qual el-rel D. JoSo v, seu irmlo» 
reeonbeeeu, e casoa com D. Luixa Casfmira de Soosa, eondessa de 
Miranda, marqueza do Arronches, e por occasifto d'este enlace crcada 
dnquexa de Laf^es. 



40 



ARCHIVO PITTORESCO 



D'est*arte Gzeram brotar no corano do principe o de- 
sejo de imitar, quando empunhasse o sceptro, aqueiie 
grande rei, cuja coroa fulgurante o dcslumbrava, e 
cuja vangloria o ensinaram a invejar. 

Pertanto, quando D. Joào v se viu tao opulento coni 
OS immensos tributos das minas do Brasil, pensou em 
conseguir urna Victoria para o seu amor proprio, hu- 
milhando com a ostentagào da sua opulcncia e gran- 
deza neto de Luiz xiv, que entao se scntava no tbrono 
de ilespanha. consorcio de duas iofantas, filhas dos 
dois monarchas da Pcninsula, com os principes ber- 
deiros das respectivas co'roas, serviram de pretexlo 
para, na occasiào da troca das prìncezas, se a vista- 
rem e conferenciarem as famiiias reaes de Portugai e 
de llcspanba. 

Taiilas vezes lemos alludido a essa fastosa solemni- 
dude nas paginas d'este semanario, promettendo sem- 
pre referir com miudeza, na primeira opportuuidade 
que se nos apresentassc, as pompas que cnlào aiar- 
deou a nossa corte, que nos julgàmos agora obriga- 
dos ao cumpriméiito d'essa promessa, embora por sua 
causa ultrapassemos os limites que baviamos tragado 
ao principiar esle trabalbo. 



VI 



Ajustado duplo consorcio do principe do Brasil, D. 
José, com a infanta de Hespanba, D. Marianna Victo- 
ria de Bourbon, e do principe das Aslurias, D. Fer- 
nando, com a infanta de Portugai, I). Maria Barbara, 
celcbraram-se os esponsaes em Lisboa e Madrid nos 
primeiros dias de Janeiro de 1728. Desde lego orde- 
nou ei-rei D. Joào v que se desse comego aos prepa- 
rativos para os feslejos das nupcias de seus Glbos, e 
para a conducgào da corte à cidade de Elvas, e d'alti 
ao rio Gaia, na fronteira do reino, onde devia effei- 
tuai*-se encontro e visita das familias reaes de Por- 
tugai e Hespanba, e a troca das princezas. 

Mandaram-se fazer em Paris qualro coches ricos, 
dos denominados eslufas, forrados de veludo carme- 
sim bordado de oiro; duas calegas e vinte e tres ber- 
lindas; trinta sellas de veludo, de varias còres, bor- 
dadas de oiro e prata, com todos os seus arreios, tendo 
uns ferragens doiradas e oulros de prata; trinta teli- 
zes ricos de veludo carmesim, bordados de oiro e pra- 
ta, dczoito com as armas dei-rei e doze com as ar- 
nias do principe; seis telizcs de panno encarnado, 
bordados de oiro e prati; duzenlos e trinta repostei- 
ros de panno encarnado, bordados de là, com as ar- 
mas reaes; e vinte e qualro coberturas para galeras, 
umas de panno e outras de oleado, com os brazóes 
d'armas dei-rei, da rainba, do principe e princeza. 

Em Lisboa mandaram-se fabricar os seguiutes ob- 
jcctos: um coche rico para a pessoa dei-rei, forrado 
de tissù de oiro; nove coches eslufas, doirados por 
fora, e forrados interiormente de veludo carmesim, 
bordado, ou agaloado e franjado de oiro, para servi- 
rem de coches de respeito aos soberanos, principes e 
infantes; vinte e dois coches eslufas, forrados no in- 
terior de veludo carmesim, uns com guarnigòes de 
oiro e oulros de retroz, destinados ao servigo das ca- 
mareiras-móres, damas, agafatas e ofiiciaes-móres; 
seis seges ricas, forradas de veludo carmesim, com 
guarnigòes de oiro e de retroz; cento e vinte e seis 
sei^es forradas de seda encarnada; doze carros matos 
cobertos; sete galeras; novecentas e oitenta e sete 
sellas, mais ou menos ricas, para os cavallos em que 
haviam de ir os porteiros da canna, reis d'armas, 
araulos e passavantes, offici aes-menores, muita diver- 
sidade de criados, etc. Além d'islo, uma infinidade de 
muitos oulros objectos, que scria fastidioso mencio- 
nar; uma grande quantidade de fardamentos e librés 
ricas para os alabardeiros e archciros das guardas 
reaes, e para a criadagem, etc. E deve-sc nolar que 



possuia a casa real, a esse tempo, grande còpia de 
todos OS objectos de que fazia agora nova encom- 
menda. 

Para o scrvigo dos coches mandaram-se comprar a 
Hungria, à llollanda e Inglaterra avullado numero de 
urcos, e outros beiios cavallos de differentcs ragas. 
Para as seges, galeras e carros de transporte encom- 
meudaram-se em Hespanha muitas parelhas de mua- 
res. E por lodo o nesso paiz, nào obstante o excel- 
lente gado fornecido pelas caudelarias reaes, Gzeram-se 
muilas coropras de soberbos cavallos para sella. 

Ao mesmo tempo que se punham em execugào lo- 
das estas ordens, era encarregado o arcbilccto Cuslo- 
dio Vieira de delinear a traga de um palacio, que se 
devia erigir no silio das Vcodas Novas, entre as vil- 
las de Aldeia Gallega e de Montemòro-Novo, a 40 
kilomelros da primeira, com a capacidade necessaria 
para n'elle pernoitarem, commoda e condiguamente, 
a familia real e loda a sua numerosa comitiva, na 
ida e na volta da fronteira. 

Principìaram os trabalhos em margo d'esse anno, 
de 1728, pela demoligào de uma casa que alli bavia 
cbamada a estalagem dd-rei. N esse legar, ale enlào 
quasi deserto, via-se no mez seguinte, Irabalbaudo 
com a maior actividade, mais de 400 pedreiros, can- 
tciros e carpinteiros; 500 serventes; 400 soldados de 
infanteria empregados corno trabalbadores; 30 solda- 
dos de cavallaria encarregados da policia e da expe- 
digào das ordens; 200 bestas de carga; 500 carros e 
carretas, e muitos outros vebiculos de fórma diversa 
e com differentes nomes para o transporte dos mate- 
riaes. Pouco depois foi accrescenlado o numero dos 
operarios com algumas cenlenas de ferreiros, serra- 
Ibeiros, vidraceiros, pintores, marceneiros, enlalbado- 
res, etc. E posta a trabalhar loda està gente dia e 
noite, consumindo-se nos seròes mais de dez mil ar- 
clioles, conseguiu-se acabar a obra no curio espago 
de nove mezes. 

É palacio das Vendas Novas um edificio mui gran- 
de. Tanto no exterior conio no interior, a sua archi- 
tectura ó singela e despida de ornamentagòes. Toda- 
via, por occasiào da viagem da familia rea! ostentava 
internamente muita riqueza e magnificencia, porque 
a todas as salas e camaras se vestiram as [)aredes e 
cobriram os paviincntos com ricos brocados, damas- 
cos, sedas, pannos de Arras e alcatifas, guarnecen- 
do-se todos os aposentos com moveis e aderegos que 
nào desdiziam da sumpluosidade das lapegarias. 

Dispendeu-se n'este palacio e suas officìnas, bem 
corno em uma casa pequena, que se construiu no si- 
ilo dos Pegdes, a 25 kilomelros de Aldeia Gallega, 
para as pessoas reaes ahi lomarem alguma refeigào, 
dispendeu-se, dizemos, cérca de 400:000i&000 réis. 

Està avultada quanlia, gasta na conslrucgào de um 
palacio pobrissimo das galas da architectura, da es- 
culptura e da pintura, revela, alò certo ponto,' aos que 
nào conhecem o edifìcio, as proporgòes d'elle, Poréra 
que dà mais ajustada medida da sua grandeza é o 
numero de pessoas e cavalgaduras que compunham a 
real comitiva, e que n'elle se alojarain com a commo- 
didade e largueza proprias nào da residencia de duas 
noites, mas de uma babitagào permanente. Pertanto, 
cremos poder allìrroar que nenbum oulro monarcba 
da Europa erigiu um edificio tao girando e custoso para 
um servigo tao passageiro. 

Concluidos, pois, todos os preparativos em dezem- 
bro de 1728, e feito o accordo entre as duas cortes 
de Portugai e de Hespanba sobre o programma da 
viagem, a firn de que chegassem no mesmo dia, a 
porlugueza à cidade de Elvas, e a hespanhola à ci- 
dade de Badajoz, foi destinado o dia 8 de Janeiro do 
anno seguinte para a parlida dei-rei D. Joào v dos 
seus pagos de Lisboa. 

(Continua) I. de Vilubua Barbosa. 



\BCniVO PITTOBESCO 




la do* pftfDfl retea de Evora^ 1 



PACOS REAES DE EVORA 



A galeria dos pa^os de Cvora, spesar de multo dea- 
figuradu com allei-afócs e [nudaii^as de loda a ordem, 
é aioda um boni exempjar da arctiitectura denoniinada 
manueliiis. 

lìm cima do portai estSo as cs))beras. Mo nos àìz, 
porém, meuos que a dìvjsa o cstilo do proprio ediS- 
cio. Recorda-iios, da mesma sorte que o mosleiro da 
Belcm, convento de Thomar, a egreja de Santa Cruz 
de Coimòra e lanlos monumcntos que ergucu ou reedi- 
licou et-rci D.'Uauuel, ob descobrimentos e coiiqutslas 
do seu rcìiiitdo. Os ftiitos {.'loriosos que insrcaram na 
hìstoria urna epoclia notavpj, produzioni laiubem uà 
arcfaiteclura um eslilo caracleristico. Nem sào menos 
brillianles e portuguezas que aa outras estas pagioas 
de pedra. 

ìi advertiu Garretl que o egtllo d'aquella epocba mais 
depressa innuiria do que roeeberla influencia du outros 
generos conlemporaneos. NSo houve patrìollra exapge- 
ra(;ao [io asserto, que depois conlìrmou Ituckzynski, e 
ha pouco vimos sanccionado na exposi^Jo univcrBul 
de Pai'is. 

A archìlectura manudìna domìnou em Evora corno 
rm todo o ruìno. Abundam as roliquias cm muitas ca- 
sas da cidude. As janellas e porlaes, em lo^r das ogi- 
vas dos tempos anieriores ou liaa vergas poslerlor- 
mente usadas, tcm os arcos de muilos coiitcos ou as 
linbos sitiuosas e recurvadas, cojiforme os lypos gra- 



ciosissimos que produziu a amanza dos estìlos golhico 
e arabe, a niodìlicav^o das fùrrnas graves e scveras 
do prìmeim pela» galas e pbantasias do segundo. Em 
partes a combina^ao de dois arcos fc^rma bem clara- 
Hicnlc a figura de um M golhico, inicial do grande 
nome d'aquelle que, por cingìr a coroa de Porlugal, 
inQuia uos dcslìnos do mundo. 

1^ niosmo e invariavel o plano de todas estas cons- 
truccOes. Ae voltas ou archivoitas de granito estrlbam- 
sc em columuas de marmore, cuja aivura contrasta 
com o deuegrido da pedra nos casos raros em que os 
prìmores do architccto hdo escapado ao pinccl ignobìl 
do caiador. 

Eram assim as elegantes e rasgadas janellas da ga- 
lena do pa(;o, que maos de vandalos laparam de pedra 
e cai, depois de Ibes roubarein os marmores que as 
exornavam. 



Ao topo meridional da galeria > correspondem trcs 
arcoH elevadoB, com voltas em fórma de ferradura, de 
puro estilo arabe. Por seu gracioso aspeclo, pela dis- 
poBÌcBo e recortcs dos tijolos, trazem à iembran[a os 
das mais bejlaa conglruccOes de Sevìiha ou de Gra- 
nada. Este genero de architeclura foi lambcm muìlo 
usado em Evora nos pnncipios do seculo xvi, e talvez 
nOB fins do anterior, umas vczcs puro, outras vezcs 
dando a feigao mais proeminenle ao ostilo manuelino. 
Conservam-se ainda n'algumas casas da cidade miran- 
les, que as peEsoss itlustradas, mas desprcvenidas, fa- 
cilmente lomam corno reliquias da domioa^So arabe. 



42 



àuchivo pittoresco 



Nos mirantcs a quo alludimos, e em muitas janellas 
e porlaes, os arcos de lijolo ou de granito, coni re- 
cortes mais ou menos vivos, sustentam-se sobre co- 
lumnas de marmore, A maneira d*aque]le8 coi que 
mais propriamente se conhece o estiio oianuelino. 

As trevas que envoivcm a bistoria da arte em Evo- 
ra, corno nas outras cidades de Portugai, nào nos per- 
miltein explicar a abundancia de reliquias do estilo 
arabe que so aqui se encontra. Conservar-se-biam ainda 
cm tempo de D. Joào ii ou de D. Manuel monumentos 
genuinos que servissem de modelos aos arcbitectos? 
Comprazer-se-hia algum artista bespanhol em imitar 
longe da patria as construcQpes da Albambra ou de 
Cordova, cuja lembranga Ihe avivavam as saudades 
do berQO natal? Nào o sabemos. Nem é muito que jà- 
mais se nos revele a causa do facto que ninguem até 
agora, segundo julgdmos, registou uà bistoria da ar- 
cbitectura portugueza. 

VII 

Comparando a gravura anterior com a que hoje il- 
lustra este artigo, razoavelmente se tomarào por cons- 
trucgOes diffcrentes a part&austral e a septentrional 
da gaieria. So a primeira, com o portico, é de estilo 
manueliuo, e em tudo muito^ similbante ùquella parte 
dos pagos reaes de Cintra quo no mesmo tempo foi 
construida. Os arcos da parte septentrional sSo inteira- 
mente lisos, comò o eramtambem outros, muito mais 
pequenos e numerosos, que por cima dos que se yéem 
na gravura formavam uma .varanda extensa que se 
prolongava ainda por um lan^o que faz angulo recto 
com que a estampa representa. D'estes arcos, com- 
pletos no primeiro lango, apenaà se conservam no se- 
gundo as voltas embebidas na alvenaria com que Ibes 
taparam os v&os depois de Ibes roubarem as colum- 
nas. 

tclbado, que se avtsta na gravura, foi tambem en- 
xertado no edifìcio primitivo. No seculo xvii ou xvnr, 
arruinando-se o tecto, que era, provavelmeute, de ma- 
deira, porque as delgadas paredes nao comportavam 

Eesada cobertura, construiram dentro da gaieria, e so- 
re a abobada em quo assenta o pavimento, grossas 
paredes de metro e meio de cspessura, e em cima 
d'ellas firmaram a pesada abobada com o telbado que 
boje se ve. Assim, eslupida e brutalmente, se rcparou 
a mina do tecto, promovendo a das paredes, que jà 
tom algumas brechas. 

Ignora-se o nome db- auctor de tamanbo vandalis- 
mo, e tambem o do arcbitecto que edificou a gaieria. 
Martim Louixìngo, o mesmo que reconstruiu o tempio 
de S. Francisco, era em 1513 o mostre das obras dos 
pagos reaes. Na gaieria, comò n'aquella egreja, as 
paredes sào muito delgadas, e toda a sua seguranya 
està na abobada inferior. Em ambas as construcgOes 
se occuUaram, pois, cuidadosa e elegantemente os ar- 
tìficios empregados a firn de Ibes dar a devida soli- 
dez. Està analogia, porém, nào basta para provar com 
evidencia a identidade do arcbitecto. 



vili 



A pequena distancia do edificio que as gravuras re- 
presenlam era a gaieria das damas, da qual i^stam 
apenas no meio da cCtcù de S. Francisco as paredes, 
cm grande parte desmoronadas. Tinba està casa de 
fórma quadranguiar a frontaria muito ornamentada, 
corno se vù pelas columnas jonicas e pelos ornalos 
das janellas, tudo no estilo do rcnascimeoto; o que 
nos leva a attribuir com probabilidado està construc- 
gao ao reinado de D. JoSo in. As paredes sào de al- 
venaria, mas as columnas, architraves e todos os de- 
mais ornamentos foram feilos de tijolo e cobertos de 
estuque para imitarem marmore branco. Parece obra 
do mesmo arcbitecto, posto que mais elegante e deli- 



cada, a torrinha do aqueducto que fica proxima da 
gaieria das damas ^. 

Este genero de arcbitectura nào se encontra com- 
roummente em Portugal. No anno de 1556 bavia na 
cidade de Evora um padre Pasquino Vilanes, que ti- 
nba a seu cargo o laranjal dos pagos reaes e a obra 
dos canos que D. Joào m mandou fazer para levar 
aos jardins a agua da Prata que sobejasse ao ebafariz 
da Praga ^. Parece este padre pelo nome italiano, e ar- 
<;bitecto pelo encargo. Nào sera, portanto, fora de ra- 
zào attribuir-lbe a gaieria das damas e a torrinba do 
aqueducto, ambas italianas no estilo e no modo por 
que foram edificadas. 

A està arcbitectura leve e elegante faltaram imita- 
dores, se bem oue muito merecia tel-os n'uma terra 
em que tanto aBundam o tijolo e a cai. A barateza 
dos materiaes e a facilidade com que se fingiriam to- 
dos OS generos de oruamentagào, todas as grandezas 
arcbitectonicas, compensariam o nào ficarem tao du- 
radoiras corno se foram de marmore ou de granito. 

As reliquias dos pagos reaes com os terrenos adja- 
centes foram coocedidos à camara municipal, com o 
convento e cérca de S. Francisco, por carta de lei 
de 25 de julbo de 1864. Como parte d'estes terrenos 
vicsse a juntar-se ao passeio publico, està boje n'elle 
encravada a gaieria ae D. Manuel, que a actual ve- 
reagào louvavelmeote deseja restaurar. Os restos da 

Saleria das damas desapparecerào dentro em pouco 
logar em que jazem, o qual se destina para um 
novo mercado. Seria mais para lamentar este sacrifi- 
cio que tem de fazer-se à commodidade do povo ebo- 
rense, se o estado das ruinas nào fosse tal que a pro- 
pria acgàb do tempo bastasse para brevemente acabar 
de dcstruir o que ainda nào deu de todo em terra. 

A. FIL.IPPE SlMÒES. 



MAIS UM NOME PARA INSGREVER NO CATALOGO 
DOS RESTAURADORES DE 1640 



Viu a luz ba annos nus columnas d este semanarìo ^ 
um artigo em que se recopiiou, com ampliagào de al- 
gumas particulares e ainda nào vulgarisadas noticias, 
a memoria dos successos que em 1640 preludiaram a 
nossa independencia, arrancando Portugal às garras de 
Castella. Seu benemerito auctor abi observou, e muì 
discretamente fez notar, a incerteza em que os contem- 
poraneos nos deixaram àcerca do numero e nomes dos 
conjurados que, comò promotores e principaes agentes 
de tao gloriosa quanto arriscada empreza, couvirìa es- 
tremar dos que so cbegaram a tornar n'ella uma parte 
mais secundaria, quando a revolugào rebentou no 1.° 
de dezembix). Distincgào impossivel ju agora'de fazer 
com acerto e seguranga, pois quo a tradigào que nos 
finóra do immero de quarenta mal se ajusta com as 
relagues e listas nomiuaes publicadas nos annos im- 
mediatos ao successo, ou que foram para diante in- 
ctuidas nas bistorias mais recentcs : deparando-se-nos 
cm algumas, alóm dos que a todas sào communs, no- 
mes que n'oulras se omittem, de sorte que em tal dis- 

1 Pelo que dizemos Iiojo, e por todas as dctnais razSes qne constam 
de uma carta publieada em 1867 nVstoJornal, terooa por demonstrado 
que a torrinha do aqueducto é posterior ao reinado de D. Manne], e 
nào do tempo dos romanos, corno alguns cscriptores suppozoram. De- 
pois que escrevemos a mcnclouada carta, dcscobrlmos uma aingnlari- 
dade que registaremos n'cste logar. No convento de Santa Catharina, 
em Evora, ha uma custodia do prata doirada, em eujo pé se ve uma 
parte com a roosma fórma qne tem a torrinha do aqueducto. A cua- 
todia 6 obra estrangeira, talvcz itaiiana. £ d*aqui deduzimos que ha 
n'aigum monumento notavel um typo que o architecto fmltou com 
tfjolo e cai, e o escnlptor roproduzin no moldo em quo vasou a cna- 
todia. Vid. pag. 83 e 4G do voi. x. 

^ Tudo Isto consta de uma carta de D. Jo&o m dlrigida à camara 
de Bvora, e datada de Lisboa de 5 de maio do 1556. Conserva-se ette 
documento no archivo municipal. 

3 Voi. lY, de pag. 289 a 294. 



ARCHIVO PITTORESCO 



43 



crepancia o complcxo do todos excede considcravel- 
mente o numero tradicional consagrado pela fama ^. 

N*esta dìversidade ofto é para admirar que a emù- 
lagào ou ma vontade de uns, a ìgnorancia ou esque- 
cimeoto de outros, circunstancias que nem sempre 
coDscntem que narrativas de coe?08 sejam a expres- 
8do Gei da verdade, dessero causa à pr^erìgào de in- 
dividuos que por seus feitos deveram ser enuroerados 
entre os primeiros fautores d'aquelle arduo commetti- 
mento. E ainda mais se se attende a que o poucp 
tempo que alguns sobreviveram t execu^o da em- 
preza, e porventura outros incidentes que nos sQo oc- 
cultos, tiraram talvez aos lesados a opportunidade de 
intentar quaesquer reciamagòes ao verem*se injusta- 
mente deslerahrados. 

D'entre os que por taes causas poderào ter jazido 
até agora sepultados nas sombras de um esquecimento 
immerecido, emprefaendemos hoje, movido do unico 
interesse de que a verdade se apure, a reivìndicagao, 
bem que tardia, da memoria de um Tardo egregio, 
que, embora dcslembrado dos historiadores da restau- 
ra(;do, nem por isso deixou de tornar n'ella urna parte 
mui conspicua. Sobram testimunhos para assim o crer 
om documentos. insuspeitos que temos prescntcs, e que 
mais auctorisados ficariam se nos fosse dado acompa- 
nhal'Os com outros que existem extraviados, on a que 
talvez ndo perdoou a voracidade do tempo. 

A snjoito a quem nos referimos o dr. Joao San- 
thcs de Baena, que, tendo sido lente de canones na 
universidade de Goimbra, trocàra em 1614 a carreira 
do magìstcrio pela da magistratura, e, entrando no 
exercicio de desembargador da rclagào do Porto, de- 
pois de exercer successiva ou cumulativamente os car- 
g03 de juiz das justificagOes, conselheiro e procurador 
da fazenda, havia em firn chegado no anno de 1637 
à elevada posigSo de desembargador do pago. Ligado 
por seus antepassados ù casa de Braganga, a cujo am- 
paro viora acoliier-se de Castella, em prìncipios do se- 
culo xvr, seu bìsavó, Gii Alvares Sanctaes, cavalleiro 
de S. Thiago, e entretcndo elle proprio com o duque 
D. Joao dcsde 1631 urna corresponaencia seguida so- 
bre negocios de familia e estado, ningucm mais que 
elle estava, por conselbo, edade e expericncìa, nos ter- 
mos de inspirar ao futuro monarcha uma pienissima 
confianga. E foi por virlude d'eslu, que vindo D. Joào 
a Almada em 1639, Ihe mandàra communicar por Joào 
Finto Ribciro as primeiras noticias das disposigóes que 
yà entào se tomavam para a restauragSo, scudo encom- 
mendado ao%)esmo Finto que houvesse de conferir com 
elle e seguir o seu parecer *. 

Isto, e o mais que os bìstoriadores calaram por falta 
de nolicia ou por outros ignorados motivos, acba-se 
Clara e substancialmente revelado no documento que 
passdmos a transcrever. É uma representagào ou me- 
morial de sorvigos, que em 1683 dirigiu ao entào re- 
gente, e logo depois rei D. Fedro ii, o fiiho do sobre- 
dito, Luiz Sancbes de Baena, requerendo remuneragao 

1 A llatA qne vem no firn da Kela^So Impressa em 1641, e qne se 
attribue aos padrea Nlcolau da Maia ou Manuel de GalhegoH, man- 
dada suppriuiir e recolhcr por decreto de 20 de ontnbro do mesmo 
anno, aprcsenta nào monos que oa nomea de €8 fidalgo» e 85 noòre». 
Ainda nào encontràraoa a expllcafio aufilcicnto doa motivos que de- 
tcnnlnaram aquolla suppressào, posto que alguns se nos offere^am 
mais on mrnos provaveis. 

S «Joio Finto Uibelro é uro nomo venerando para todos oa portu- 
gtiezcs. O agente do duque de Uraganfa, dopois rei D. Joao iv, pres- 
tou relevnntissirooa servila para se realiaar o feito da restauralo, 
mas n&o foi elio o aea iniciador... Muitoa eaeriptorca referem que no 
anno de 1638 oa fidalgos, queji entJlo pensavam na restaura^ào de 
Purtugal, haviam convidado o Infante D. Duarte para acceltar essa 
coroa; isto em occasi Ao que o infante vlera de Aliemanba a Lisboa, 
pois andava ao servilo do imperador, o qnal depois trai^ociramente 
o ontrcgou ao rol do Castella, etc... Acatando a memoria de Jofto 
Finto Ribelro, n&o aó eomo nm doa eoQperadorea da revoln^So de 1640, 
senfto tambom corno um aabio eacriptor e zeloaiaaimo defenaor da In- 
depcndencia naeional, n&o podèmos todavia dar o nosao apoio a qoal- 
quer monumento destlnado a commemorar a restaara^&o de 1640, em 
que se ihe dd preeminencia aobreoa prlncipaea coi^uradoa... Fagando 
està homenagom àqueltes que mais contribnlram para emancipar Por- 
tQgal do Jugo cstrangeiro, devemoa aer juatos, e n&o attribuir indevi- 
damento maior gloria a una, quando a outroa ella mala compete.» 
(Jornal do Commercio de 22 de ontubro de 1807.) 



dos servigos de seu pae; e cujo traslado ou rascunbo se 
conservava ainda ba pouco tempo no cartono da casa 
representante do ramo primogenito d'aquella illustre 
familia. D*ahi o extrabiu o nesso mui babii e laborioso 
genealogista o sr. Joào Carlos Feo Gardoso, para dar- 
Ifae legar na sua Besenha das casas tiluiares de Por- 
tugalj que ora se imprime, mandada publicar por or- 
dem e a expensas da academia real das sciencias de 
Lisboa ^. 

As ciausulas da representagào parecem-nos assas 
explicitas e terminantes para que possam deixar som- 
bra de dùvìda sobre a veracidade do allegado. Eil-a 
aqui, conservando a sua textual ortbographia : 

«Senhor: — Luiz Sancbes de Baena representa a 
V. A., que Joào Sancbes de Baena, seu pay, scrvìo 
nos Lugares de Letras de maior reputagao por espago 
de trinta annos: comessando na Rclagào do Forte, 
prosseguindo na Gaza da Supplicagào, continuando no 
Conselbo da Fazenda, e acabando no Dcsembargo do 
Fago, procedendo com summa inteireza na admtnis- 
tragào da justiga, e com particular estudo na limpeza 
dos procedimentos, de que deixou bOa memoria. 

«Hera Joào Sancbes de Baena por seus Fays e Avoz 
criado da Serenissima Gaza de Braganga, e comò tal 
teve com elle estreita correspondencia o Snr. D. Duar- 
te, Marquez de Frecbila, e Gonde de Oropeza, filbo da 
Snr.* D. Catbarina, irmào do Snr* Duque D. Theodo- 
zio, avo de V. A., na forma que testemunbào as suas 
cartas que se offerecem. 

«E sabendo o Snr. Rey D. Joào, pay de V. A. deste 
traete, mostrou que o dezejava prosseguir, e fazer suc- 
cessivo com Joào Sancbes de Baena, escrevendo-lbe 
bua carta de Villa Vigoza em 3 de Fevereiro de 1631, 
que vai junta, e diz assim: 

«•i4 noticia que tenko da ohrigacóo que nesta caza 
temos a V, m., e da correspondencia que havia entre 
V. m. e Snr. D. Duarte, meu thiOj que Deus tem, 
me faz dezejar ter a nusma, vallendo-me do, bom 
animo em qtie V. m. se ackoii sempre para as nos- 
sas cousas, que eu em todos os tewpos reconhecerei. 

«£ sendo cousa tao importante a confirmagào dos 
seus estados ^, logo na mesma Garta se quiz valler 
mesmo Snr. do seu conselbo, diligencia, e indus- 
tria: entendendo que era tal a capacidade de Joào 
Sancbes de Baena, que para os acertos do seu servigo 
terìa prudencia e cuidado, e sìmulagào, que isto im- 
porta a concluzà da mesma Carta, que diz o seguinte: 

«Estimarei que me de seu parecer ^ dizendo-me a 
forma em qu€ isto se deve fazer: e sejulgar que deve 
ser por carta^ folgarei de gite V, m, me mande hùa 
copia della; porque corno pede ter algumas clauzulaSy 
sera bem que vamos advertidos dellas: e havendo ne- 
cessidade de informar-se V, w. de outras pessoas fio 
da bòa manha de V, m. quje o farà com lodo o re- 
cato^ que convém. 

«E assentada està correspondencia, continuou Joào 
Sancbes de Baena no servigo do dito Sor., com tal 
prestimo, cuidado e zelo, que raereceo da sua Gran- 
deza repctidas conGssóes de obrigado, e reitcradas 
promessas de agradecido; e sobre tudo mereceo que 
mesmo Sur. se humanasse tanto coni a sua pessoa, 
que nem bouve occasiào de pezar, em que nào se al- 
tcrnassem os avisos, nem successo de gosto, que nào 
mutuassem as gratulagOes: corno tudo mais altamente 
se mostra das mesmas cartas que se aprezentào. 

«E chegou a tal ex tremo o bom servigo de Joào 
Sancbes de Baena coni o dito Snr., e foi tao experi- 
mentada a sua fidelidade e o seu animo, que lanqan- 

DO-SE A PRIMEmA FEDRA NO EDIFICIO DA SUA ACGLAMA- 

1 Trata-ae de concluir a Impress&o d^esta obra, que ficou intcrrom- 
pida pelo recente fallcclmento do auctor. Vimos o citado documento Jà 
impresso a pag. 818 do voi. i. 

3 O duque D. Jofto havia entrado de poueo tempo na posse da 
caaa, por obito de seu pae, D. Theodoslo, fallecldo em Villa Vifoaa 
a 29 de novembre de 1630. 



44 



ÀRCHIVO WTTORESCO 



gÀo, quiz mesmo Snr., que Joào Sanches de Baena, 

FOSSE PRIMBIRO ARTIFIGE, MANDANDO: 6 601 SE6UND0, 

^ue Joào Finto Ribeiro Ihe desse a primbiba notigia, 
E SEGUISSE SBU PAREGER, mandando-o chamar i 
banda d'allem. 

«De maneira que Servio ao dito Snr. em todos os 
acontecìmeotos, e por todas as partes, porque Ihe Ser- 
vio, a Gaza, a pessoa e fortuna: e fazia tanto cazo o 
Snr. Rey D. Joào da fidelidade delle Joào Sanches, que 
em quanto vivéo, que forào quatro annos depois da 
sua feliz Acclamagào, se ihe encarregou todo o nego- 
ciò da incoufidencia; que naquelle tempo nào se pas- 
savào nenhùas cartas para Castella para os negocios 
dos Vassallos de bua e outra Goróa, que nào fosse 
por registo seu; e por essa razào foi o primbiro con- 

DEMNADO EM CASTELLA POR TRAIDOR» COmO he no- 
torio. 

«De todos estes servigos nào pcdio Jo&o Sanches 
algùa satisfagào em quanto vivéo, tendo tao bons val- 
iedores, nestas Cartas, para aspirar a hù augmento 
Xho consideravel que servisse de Padrào honroso, em 
que seus lìlhos tivessem etema memoria de sua pes- 
soa, e illustre exemplar de suas acgOes. 

«Àcha-se Luiz Sanches de Baena successor da Caza 
de seu pay, sem nenhùa mercé: e comò athe agora 
n&o sahirdo a pubh'co aquellas cartas, Alvaràs de lem- 
branga de summa estimag(ko, os appresenta a V. A., 
esperando da sua Grandeza o seu desempenho, e 
neste o seu reqiierimento com as pertengdes seguin- 
tes *: 

«Teve Fedro Alvares Sanches, seu irmào, a mercé 
d'hùa commenda de 100j( reìs de lote, e de 40j^ reis 
de tensa effectiva, em quanto nào fosse provido nella, 
e nada chegou a ter efreito. 

«Servio mesmo Fedro Alvares Sanches nos Luga- 
res de Letras vinte e hù annos, comessando pela Re- 
lagào do Forto, em que entrou para Dezembargador 
em 14 de Agosto de 641, e continuando na Caza da 
Suppiicagào, em que entrou em 27 de Outubro de 
642, em que falleceo : e em todos estes postos e Tri- 
bunaes Servio comò pcdia* a sua obrigaydo e a sua 
qualidade: e pela Sentenza da justifìcagào que vai 
junta consta pertencer a Luiz Sanches de Baena o di- 
reito da mercé e satisfagào dos servigos. 

«Manoel Quaresma Carneìro Freire, thìo de Luiz 
Sanches, e irmào de sua may, servio vinte e dous 
annos a Coroa deste Reyno nas armadas de Fortugal, 
do Brazil, em Fiandres, e na India, sendo Capitào de 
faù Galeào de alto bordo nas occasiOes das batalhas 
navaes que houve naquelle Estado com as Nàos Olan- 
dezas e higlezas, e sendo Cabo do soccorro] que se 
introduzio no arraial de Fernambuco. 

«E depois foi Capitào General da pra(^ de S. Tho- 
mé, servindo em todos os postos mihtares e politicos, 
com particular vallor, e summo zelo, no qual governo 
Servio cinco annos, e nelle morréo no servigo de V. A., 
e pela Sentenza de JustiGcagào Ihe pertence ao dito Luiz 
Sanches este Servi^. 

«E sobretudo, por sua propria pessoa servio Luiz 
Sanches de Secretarlo do Dezembargo do Fago pertp 
de cinco annos, accudindo aos maiores negocios, com- 
mettidos ó cuidado, no tempo em que V. A. entrou 
no Governo d'este Reyno, com estudiozo cuidado, e 
expedigào, e segredo: e assim se acha capaz por seus 
servigos, e pelos de seus irmàos, e de seu pay, e thio, 
que V. A. Ihe faga mercé eoi remuneragào delles: — 
P. a V. A. que em consideragào e premio dos taes 
servigos Ihe faga mercé de bua commenda de 200^ 
reìs para seu filho mais velbo, e de ìbOfi reis de pen- 
sOo nos Bispados para seu filho segundo: E. R. M/^» 

(Continùs) IvMOCKVcio Frascibco da Silva. 

1 Poder-se-hia omittir aqui o resto da repreaenta^Ao por ser de me- 
noA intereme para o ponto de qae se trata; porém entendemoa qne n&o 
convinha mutilar o documento, e 8lm conservar-lho todo o caracter 
de aatbenticidade, reproduzindo-o tal qual na sua integra. 



A FABRICA DE VIDROS DA MARIMBA GRANDE 



Entre as diversas industrìas que as estatisticas de 
Leirìa mencionam, o prìmeiro legar pertence, sem dù- 
Vida alguma, ainda hoje pelo seu valor real e pela 
importancia da -sua producgào, à fabrica de vidros da 
Marinha Grande. 

A fundagào d'està fabrica data do seculo passado, 
e consta dos documentos officiaes que, antes ao inglez 
Guilherme Stephens langar os fundamentos da que seu 
herdeiro doou ao estado, jà n'aquella povoagào se pro- 
duzia vidraga e coparia ordinaria, trakalho em que se 
empregavam muitos de seus habitantes; e, embora 
nào possa provar-se, talvez d'està circunstancia e da 
proximidade do pinhal real nascesse a idèa de fazer 
alli desenvolver a industria, aproveitando tambem o 
bom animo com que o marquez de Fombal alimentava 
a forga creadora da oagào, valendo-se de muitos ele- 
mentos que achàra accumulados, porém mal aprovei- 
tados, dos ultimos tempos do reinado dei-rei D. Joào v. 

Effectivamente, o marquez de Fombal ordenou, em 
beneficio do emprehendedor Guilherme Stephens, que 
ihe fossem emprestados dos cofres publicos 32:000^000 
réis sem juro ^ para as principaes despezas da funda- 
gào da real fabrica de vidros, e ao mesmo tempo con- 
cedeu varias isengdes, sobresafndo entre ellas a de ti-^ 
rar gratuitamente do pinhal de Leiria o combustivel 
necessario para a fabrica, sem prejuizo das madeiras 
de construcgào do mesmo pinhal. 

Estes privilegios, jà de si ìmportantes, que deviam 
durar pelo espago de quinze annos, conforme consta 
do alvarà de 7 de julho de 1769, foram accrescenta- 
dos logo no fim dos primeiros sete annos com diver- 
sas providencias relativas ao fornecimento das lenhas, 
entre as quaes se notava a declaragao officiai de que 
a fabrica ficava sob a immediata protecgào dei-rei co- 
mò util ao bem publico e ao dos pinhaes de Leiria, 
no presupposto de que o dito fornecimento para a fa- 
brica, bem e conscienciosamente dirigido, em vez de 
prejudicar, beneficiava os mesmos pinhaes. 

Fassados mais quatro annos depois d està nova con- 
cessào, isto é, em dezcmbro 1780, os edificios da fa- 
brica e seus terrenos annexos, bem corno os que vies- 
sem a annexar-se, foram declarados por alvarà comò 
de natureza de praso fcUeosim perpetuo^ para que tudo 
podesse couser var-se indiviso e illeso, ^para que em 
tempo algum viesse a parar a laboragào da fabrica, 
com grave prejuizo do publico e das familias n'ella 
empre^adas. 

Expirando o praso de quinze annos determinado no 
alvarà de 1769, o governo prorogou por mais dez an- 
nos as concessdes respectivas à isengào de direitos de 
entrada sobre os generos necessarios para a compo- 
sìgào do vidro, e de todos os direitos de saida nas 
alfandegas do reino e de entrada nas do ultramar a 
favor dos productos da fabrica, e ao mesmo tempo 
regulou, em beneficio da producgào nacional, a admis- 
sào das chapas de vidraga estrangeira. 

Em 1794 foram prorogados por mais dez annos to- 
dos OS privilegios e isengOes até entào concedidos ao 
proprietario da real fabrica da Marinha Grande, sendo 
egualmente approvada e louvada a construcgào da es- 
trada que Guilherme Stephens fizera à sua custa para 

i Nas Becorda^e* de Jacome Ratton le -se a este respeito o segninte: 
cEntre mnitos outros estabelocimentos, feitos à cnsta da Real Faxenda, 
em quo bem se deixa ver a munificenoia do sr. rei D. José, a bon»- 
flcio da industria naeional, referirei o estabeleclmento da fabrica de 
▼idros da Marinha Grande, junto a Leiria, por Onllherme Stephens, 
o qnal receben nm emprestimo, ignoro por quo eofre, de 80:000 era- 
zados, a pagar sem limite de tempo, e em cai, prodneto dos fomoa 
que tinha erigido nas pedreiras de Alcantara, nos qnaes ardia carrio 
de pedra vindo de Inglaterra, livre de direitos. Além d'este empres- 
timo, tinha o dito Stephens a permÌ88&o de se servir de toda a lenha 
t tirada do pinhal d^KIrei, grcttvt.» 



AfiCHIVO PirrOBESCO 



torDar mais facil o servilo esteroo, e alirahir alli di- 
recla e commodamentc os almocrevee e agentes que 
promoviam a eslracfào doa productos da fabrica, e 
aos quaes se dava certa perceDUgem. Em I79G orde- 
Qou govenio que ae fizessem por conta do estado 
OS cortes de madeira necesaarios para ae acabarem as 
obras da dita estrada. 

Em 1799 fez-se nova nroroffa^ao de todos os privi- 
legios por dez annoa, aìém doa dei concedìdoa em 
1794, a favor dos primitivoe proprietarios, regulando- 
ae deSniiivamente o fornecimento de lenbas dos pi- 
nhaes reaes de Leiria para a laboragao da fabrica. 

Desde 1799 até 1802 novoa prìvilegios foram con- 
cedìdoa à fabrica, por effeito de repetidas instanciaa 
do proprietario, e pelo favor e influencia de que elle 
de certo gozava na corte, cbegando até o ponto de 
isentarem do servigo do excrcilo e da annada todos 
OS emprcgadoa e operarioa da fabrica! 

A invasSo franceza, que foi urna verdadeira calami- 
dade para a peninsula iberica, e qae nfio ptipou coisa 
alguma, templos, palacios, livrarias, reliquias, cdifi- 
cioa publiros e particularee, ofiicinae, laboralorioa, io- 
dostrias, pois que o exercito de NapoleSo i ein o nosso 
paiz mostrou ser n'aquellea tempos composto de gente 
barbara e iudisciplioada; a invaafto francexa, diiemos, 
tambem nSo iaentou a fabrica de vidros da Marinila 
Graodc. Nao aó jfae foram retirados os privilegio^, mas 
egualmente sequestradoa os edilicios, ulenailios e ter- 
raa auuexas, e Stephens, por nào queriT cumprir as 
dcterminagOes de Junot, leve ordem de prisco, que 
padeceu por L-spago de quatro niezes e onxe dias, re- 
cebeudo a linai a liberdade com a vexatoria clausula 
de se apresentar & respectiva aucloridade todas as 



fispulsos os francezes do reino, e livrea, felizmente, 
OS seus babitautes dos vexamea e tropelias que elies 
esercitaram aqtii em larga escala, a fabrica recuperou 
03 antigos privìlegios, com a prorogu^o de mais vinte 
annos. Foi iato em 1811. 

Faltam-cos os est-I arecimenlos sobre quando occor- 
reu fallecimento de Guiliicrme Stepbens, primciro 
proprietario da fabrica, e a rcspeilo da cpoclia em que 
6CU irmiio Jofto Diogo vtiu a possuìla e adminìstral-a. 
Em um rclalorio ■ que tumos presenie, e o qoul segui- 
0103 n'este artigo, por ser traballio de grande valor, 
Temoa que foi Joiìo Diogo Stepbens * quem em 1826 
fez doa^ao da fabrica e de todos os seus perlences à 
nagào portugueza, seguodo consta da vcrba do testa- 
mento que «n scguìda transcrevemos ^: 

• . . .iJs cdiGcios e caaa de babilagào e mais casas, 
herdades, terras, pomarcs, vinbag, jardins, engenfaos 
de agua, etc., na Marinba tirande, e ao que se possa 
dar o nome de fixo capital do meu trafego de vidros, 
tendo sJdo tratado e conveucionado enlre mim e meu 
multo lameotudo socio e irmao Guìlbemie Stepbens 
que o mcemo passaria indivisivel para os ropresentan- 
tes ou succcsaorea do sobrevivente aocio a beneficio 
d'este reino e da gente ou familiaa empregadas n'este 
estabcleci mento, assim comò foi approvado e ratìS- 
cado por sua magestade Gdeiissima no § 1.° do alvarA 
de 11 de dczembro de 1780, agora para ìnteiramenle 
se cumprir aqtielle tratado ou conven^ao, e servir co- 
rno um monumento de meu alto aprcgo e gratidào 



< TM. o Rtlalori 



r porurls da 1 tl« JUDbo de 1899. Llibos, 
io 4 ftbrleii «r* compofli òom in. Jolo de 





moa ■ 




ulatUH 


cn (ndtaltiit. 






























































Ureo 


D DODW 


de Sleplieu 


que al 


Dd> tu] e un- 


a. 1 IttlaloTio 




poiC. 1. 










46 



ÀRCHIVO MTTOBESC» 



pelos favores e protec(;ào que n'este paiz me tem sido 
concedidos, dou e deixo à nagào portugueza todos os 
meocìonados beos e estabelecimentos, supplicando ao 
governo que baja de eleger e nomear urna auctori- 
dade para està os reger e admioistrar, rogando tam- 
bem mais que nào deixe de baver contemplagdo para 
com actual administrador José de Sousa e Oliveira, 
e conceder-se-lhe aqueila dignidade e remuneragào, 
que tSo devida é ao seu merecimeoto, e d'està sorte 
espero fixamente, corno assira o desejo, que prospe- 
ridade, estabilidade e permanencia acompanhem està 
ulii e bella fabrica, a beneficio da Marinba Grande 
em particular, e utìlidade d'este reino em geral, e 
assira para sempre.» 

Està é, em rcsumo, a bistoria da real fabrica de 
vidros até a sua doagào à corea d*estes reinos. D*ahi 
por dìante, por ser essa a opiniào das estagóes com- 

Ectcotes, cujas consultas suniram ao governo, a fa- 
rica, levada à praga, continuou a ser administrada 
por emprezas particulares mediante contratos mais ou 
menos vantajosos, conservando-se em parte os anti- 
gos privilegios, e tendo sempre em vista os interesses 
e a prosperidade dos habitantes da Marinba Grande, 
no que se cumpria a vontade do doador. 

(Continua) Bkito Arahha. 



OS PREMIOS DE VIRTUDE GONFERIDOS 
PELA ACADEMIA FRANCEZA 

Sabfa eu vagamente que o benemerito barào de Mon- 
tyon fundàra em Franga os premios de virtude, e que 
a academia franceza os distribue annualmente; mas 
ndo tinba idéas claras sobre o processo que a tal res- 
peito se segue, nem sobre a natureza dos factos e 
qualidades das pessoas que sào objecto dos premios. 

Quiz a minha boa sorte que ha pouco se me prò- 
porcionasse a occasiQo de Icr uma obra de mr. Sainte- 
Beuve, e que ahi encontrasse um dìscurso de tao cons- 
picuo litlerato e academico, profondo perante a indi- 
cada academia na sessdo publica annual de 3 de agosto 
do 1865, precisamente destinada à distribuigào dos 
mencionados premios. 

N'esse discurso bebi as informagòes que desejava; 
e, por quanto as nào quero so para mira, venho agora 
traiismittir, em resumido quadro, a noticia que adqui- 
ri, e que julgo interessai a curiosidade de um ou en- 
tro leitor que necessito esclarecimentos n'estc parti- 
cular. 

Gomo é naturai, nSo sao as proprias pessoas vir- 
tuosas quem se inculca à academia: é, por assira di- 
zer, a fama publica quem apresenta os candidatos. De 
ordinario, pessoas notaveis e auctorisadas, scientes de 

Sue foram eslabelecidos premios de virtude, e conhece- 
oras de individuos que estào no caso de os merece- 
rem, incumbem-se de dirigir à academia as convenien- 
tes propostas, acompanbadas de memorias, de certi- 
dOes, de attestados, comò se se tratasse de formar um 
processo regular. 

Aqui cometa o improbo e melindroso trabaiho da 
academia, que consiste em examinar com o maior es- 
crupulo e com o mais apurado criterio as propostas, 
as memorias, os documentos. Muitos mezes leva este 
exame, até que a final se apura a verdade, se ca- 
racterisam os factos, se dcsignam as pessoas, se ap- 
plicam na devida graduando os premios. 

Succede por vezes que à academia cabe coroar ac- 
gues de grande lustre e extraordinariamente notaveis; 
mas n'outras occasiòes, comò succedeu em 1865, tem 
ella que premiar feitos mais modestos: existencias, 
vidas inteiras silenciosa e obscuramente dedicadas ao 
bem, e santamente empregadas no exercicio da vir- 
tude. 



que mais desafiava a minha curiosidade era a 
noticia de alguns exemplos da escolha feita pela aca* 
demia, n&o sómente para me deiiciar na eontempla- 
gao de primorosos rasgos na ordem moral, mas tam- 
bem para me instruir sobre as preferencias praticas 
que a sàbia corporagdo estabelece. ' 

N'estc particular ficaram completamente satisfeitos 
08 meus aesejos. 

Entro oitenta e nove concorrentes deu a academia, 
em 1865, a primoira recompensa, o primeiro premio, 
a Rosalia Marion, solteira, mostra communal em Beau- 
mont-Hague, no departamento da Mancba. Tendo nas* 
eido no anno de. 1791, contava em 1865 setenta'e 
quatro annos. 

Quaes circunstancias, quaes feitos a recommenda- 
ram à escolha bonrosa da academia? 

Rosalia Marion entrou em Beaumont, corno mestra, 
nos primeiros dias do mez de Janeiro de 1816, e desde 
entSo, e por espago de quasi meio seculo, foi n'a- 
quella povoagdo, ao mesmo tempo, mestra de ensino 
primario, enfermeira e irmSi da caridade, reunindo sem 
as confundir e desempenhando com admiravel activi- 
dade todas as fuucgOes d'estcs empregos. Para enea- 
recer està singularidade de Rosalia Marion so me pa- 
rece apropriada aquella valente expressdo do nosso 
Vieira: «De tal sorte acudiu a uma obrigagSo sem fai* 
tar a outras, que a todas satisfez adequadamente. » 

As horas da aula foram sempre para ella sagradas, 
e jàmais as sacrificou às das outras occupagOes; sondo 
multo notavel que ainda depois de passar umas pou- 
Gas de noites à cabeceira de enfermos, tem bastantes 
forgas e assaz de energia para nào faltar ao cumpri- 
mento dos deveres de mestra. 

Na povoagSio de Beaumont tem ella exercitado com 
tal assiduidade, desvelo e perseveranza os misteres 
de irmà da caridade e de solicita enfermeira, que, 
apenas a morsida dos pobres é visitada por qualquer 
infortunio, immediatamente se ouve alli o grito: «V3o 
depressa buscar a mestra ! » A mestra corre pressuro- 
sa, e na companhia d ella chegam o soccorro, o con- 
forto e a cousolagào! 

Nem asqueroso das chagas, nera o desaceio das 
casas dos enfermos, nem os ruins cheiros, nera o te- 
mer do contagio, nera o aterrador aspecto da morte... 
nada a detem, nada Ihe embarga os passos no carni- 
oho da dedicagao! 

Entro as muitas privagòes que presenceia nos a1- 
bergues da pobreza enferma, 6, sobre tudo, multo sen- 
si vel a falta de roupas. là vae a mestra* solicitar do- 
nativos, promover subscripgoes, e consegue por firn 
estabelecer uma bem provida despensa de roupas de 
linbo, de algoddo e de là, que administrn com habi- 
lidade e todos os annos' vae refazendo. É o armario 
permanente dos pobres! 

Muito e multo mais teriamosi que apontar a respeìto 
do Rosalia Marion; mas é necessario reservar espago 
para revelar oulros actos meritorios que merecem a 
contemplagào da academia. 

segundo premio foi concedido a mad. Navier. 

Feiicidade Barilliet (que assira se chamava mad. Na- 
vier antes de casada) nasceu em Paris no anno de 1806. 
Teve a desgraga de perder seu pae muito cedo, e de ihe 
ficar enferma a mae, rodeada de quatro infelizes crian* 
cinbas. Feiicidade Barilliet, a mais velha de seus ir- 
maosinhos, teve o admiravel instincto de se conside- 
rar desde logo o cabega da sua desvalida famìlia: e 
de tal modo se houve n*esle proposito, que na visi- 
nbanga comegou a ser conhecida pela bonrosa desi- 
gnagao de maesinha fpetite mèrej, dando occasi5o «a 
que todos se maravilhassem de ver urna crianga cui* 
dar da educagao de outras criangas, e improvisar-se 
mae na edade em que apenas era menina.p 

A baroneza Pasquier, visinha de Feiicidade, teve 
noticia da dedicagao admiravel d*esta crianga pheno- 



AIIGHIVO PflTOKESCO 



47 



mena], e a encarregou de tornar coDta dos pobres que 
ella baroneza soccorria. Outrus pessoas caritativas imi* 
taram o exempio da barooeza; de sorte que Felicida* 
de, logo desde os doze annos naturalmente inclinada 
para a beneficencia, mais e mais se fortìEicou no gos* 
to, no faabito e na necessìdade iiresìstivel de bemfazer. 

Velar à cabecelra de doentes, educar e recolher or- 
phuos, prestar todo o genero de servigos aos infeli* 
zes... tem sido sempre a occupagào mimosa da sua 
actividade. Nem seauer o casamento, que mais tarde 
contrahiu, a pòde aesviar d*aquella sendaabengoada; 
antes redobrou de zelo, porque tambem teve maior 
somma de recursos pessoaes, adquiridos por um pe* 
queno ramo de negocio. 

Seria um nunca acabar, se houvessemos de parti- 
cularisar o merecimcnto d'està muiber. Um dia rece- 
beu ella a visita do arcebispo mr. Morlot, o qual Ibe 
disse: «Venho aqui para vos probibir que veleis as 
noites. Deveis poupar-vos para os vossos e para os 
pobres.» E dizendo isto, entregou-lbe comò premio 
uma medalha de prata. 

Mcncionaremos a correr os nomes de duas pessoas 
as quaes a academia conccdeu uma medalba das oito 
da t.* classe. 

Paul Àiabert, sargento irreprehensivel do regimento 
Cl.° de linba, modcio dos bons filbos. 

padre Felix de Brandelet, cura de Laviron, do- 
tado de uma vocagào extraordinaria para crear està* 
belccimentos de caridade e de instrucgào» e para pro- 
mover construcgOes de egrejas. Durante quarenta an- 
DOS tem consagrado a tao prestante cmpenbo tudo 
quanto possue, e conscguido attrabir avultados dona* 
tivos, com que tem satisfeito a sua louvavel paixào 
em beneOcio da infancia, da religiào e da patria. 

Agora poderia eu commentar cxtcnsamente o que 
deixo apenas esbogado; mas tenbo para mim que vale 
muito mais que todos os commentarios a sìngeleza 
eloquente dos factos. 

Lù disse S. Gregorio papa: «Nào a rhctorica de 
palavras, scnùo a eloquencia de obras é a.verdadcira 
prova da caridade. » joa^ sxlvbstub ribbiko. 



LUXO E MAGNIFIGEiNClA DA CORTE 
DEL-REI D. JOÀO V 

(Vid. pag. 39) 
VII 

No dia 8 de Janeiro de 1729, pouco antes das oito 
boras da manhà, desceu cl-rei D. Joào v dos seus pa- 
qos da Ribeira ao caes do Forte, contiguo ao tori'eào 
dos mesmos pagos, edificado por Filippo ii de Castella 
no logar em que vemps agora o torreào da secretarla 
de estado dos negocios da guerra. soberano, acom- 
panbado do prìncipe do Brasil, D. José, seu fiibo, do 
infante D. Antonio, seu innao, e dos gentis-bomens e 
caniaristas, embarcou no bergantim real, e, seguido 
de quinze galeotas e escaleces, em que iain os oi&- 
ciaes-móres e outras pessoas do servigo de sua ma- 
gestade e aitezas, dìrigiu-se a Xabregas, onde desem- 
barcou para visitar a egreja do convento das relìgio- 
sas da Madre de Deus. Feitas as oragOcs tornou a real 
comitiva para bordo do bergantim e galeotas, que, 
pondo as proas ao sul, alravessaram o Tejo em di- 
recgào a Aldeia Gallega. 

N'esta villa cstava esperando el-rei, juntamente com 
um numeroso concurso de auctoridades de differentes 
terras, o marquez de Capecelatro, embaixador de Hes- 
panba. Depois das sabidas ceremonias usadas na en- 
trada dos nossos rcìs nas cidades ou villas, D. Joào v, 
principe e infante foram liospedar-se na casa do es- 
crivào da camara, Rodrigo Tavaros Pacbeco, a qual 



tmha sido convenientemente preparada para esse firn, 
e abi jantaram e passaram a noite. 

No dia seguinte, pelas sete e meia boras da ma- 
nhà, partiu el-rei de Aldeia Gallega. 

Descreveremos com individua^^ào este e outros [wes- 
titos que abrilbantaram està solemnidade, nào so por- 
que essa narragào minuciosa esclarece e patenteia com 
maior evidencia o assumpto que nos propozemos a 
tratar n'esta serie de artigos, mas tambem porque of- 
ferece uma pagina curiosa para a bistoria dos costu- 
mes nacionaes no seculo passado, e principalmente da 
corte dei-rei D. Joào v. 

Na frente do prestito ia um piquete de oito soldados 
de cavallaria, com trombetas e alabaleiros, comman- 
dados por um tenente. Seguiam-se: o aposentador da 
corte e seus subalternos, e seis correios de gabìnete, 
com suas trombetas de posta, todos a cavallo; a ber- 
linda dos confcssores dei-rei, do principe e infante; 
uma berlìnda dos mogos da guarda-roupa dei-rei ; duas 
berlìndas de clerigos e padres da companbia de Jesus; 
a berlinda do estribeiro-menor; tres berlìndas com o 
corregcdor da corte e fidalgos da casa dei-rei; a es- 
tufa do duque de Cadaval, estri bein)-mór; quatro co- 
cbes dos camaristas dos infantes D. Antonio e D. Fran- 
cisco, irmàos dei-rei; uma estufa de respeito da in* 
fanta D. Fraocisca, egualmente irmà dei-rei; duas 
estufas de respeito dos infantes D. Fedro e D. Carlos, 
filbos dei-rei; duas estufas de respeito, uma do prin* 
cipe do Brasil, e outra. dei-rei; Lourengo Galvào, a 
cavallo; o coche .efUu que iam sua magestade e aite- 
zas; seis mogos da^stribeira, a cavallo; quatro estu- 
fas, conduzindo a camara dei-rei; a sege do cirurgiào 
Manuel Vieira;.iluas seges de rcserva para o sobera- 
no; mais tres.s«^es ricas de reserva para el-rei e para 
principe; quatro cavaiios de mào para o monarcha, 
e doìs para o principe; uma sege de reserva para o 
duque estribeiro-móp; i»n cavallo de mào para o mes- 
mo duque ; a guarda de hanra^ composta de quinhen* 
tos soldados de cavallaria> commandados por um ca- 
pitào; uma sege em que ia o padre jesuita Luiz Gon* 
zaga, meslre de D. Joào v, e mais o seu companheiro; 
uma sege com o padre Tbomaz Feio e Fedro Antonio 
Vergolino; outra sege com Antonio Rodrìgues da Paz, 
barbeiro dei-rei, e um criado; cinco seges de copci- 
ros-menores, e oCTiciacs que preferem aos mogos da 
real camara; dezenovè seges que transportavam os 
mogos da camara; uma do cirurgiào Isac Eliote e o 
seu ajudante; .OMlra sege com o architecto Joào Fre- 
derìco Ludovica» e seu filbo, Joào Fedro; tres seges 
de capellàes erocolytos; duas dos porteiros da camara; 
uma com o. aschitecto Antonio Cancvari e seu ajudan- 
te; outra em que iam Manuel da Maia, mestre do prin- 
cipe,, e José da Cruz, sargonto-mór; outra com dois 
leigos, companbeiros do confessor do principe e do 
mestre dei-rei ; outra com os medicos José Rodrigues 
Froes e José Rodrigues de Avreu; outra de Estevào 
Galhardo, algebrista, e Felix Pereira; outra com o 
escrivào da cozinba; outra com Joào Baptista de Mou- 
ra, mogo da casa dos arreios; cinco seges em que iam 
OS ofQciaes da secretarla de estado; uma dos botica- 
rios; outra com o pagador-das cavallarigas; quatro 
em que iam os reposteiros particulares; uma com o 
tbesoureiro da jornada; outra com as lavadciras; duas 
galcras com a guarda-roupa dei-rei e do principe; umu 
sege coni o cozinbeiro-mór; outra de reserva para al- 
gum caso em que fosse necessaria; vinte e seis ca- 
vaiios de mào para el-rei, prìncipe e infantes; e tres 
seges, em uma das quaes ia o alfaiate dei-rei. 

Pelas sete boras cliegaram os reaes viajantes à ca- 
pcila de Nossa Senhora da Atalaya, onde ouviram 
missa; e perto da uma bora da tarde apearam-sc 
nos Pégoes, para tomarem algum alimento, que Ibes 
estava preparado na casa para esse fim construida. 
Acabada a comìda, e feita a muda dos cavaiios dos 



48 



ÀRCEDVO PITTORESCO 



coches e seges, continuaram a jornada, chegaodo ao 
paiacio das Vendas Novas ùs quatro horas da mesma 
tarde. 

Sua magestade e altezas, depois de receberem os 
comprimentos do bispo de Pàtara, deao e mais digni- 
dades da sé de Evora, que vieram render-lbes home- 
nagem em nome do cabido da dita cathedral, passa- 
ram a ver o paiacio e todas as suas officinas. 

N*esta visita colbeu o monarcha um grande trium- 
pbo para a sua vaidade. Todas as pessoas do seu se- 
quito pasmavam, vendo um ediBcio de taes proporgòes 
levaotado no meio de umas cbaroecas. Porém no que 
se mostravam verdadeiramente admiradas era na bre- 
vidade com que se executou similhaule obra; o que 
deu pretexto para os lisonjeiros exclamarem que «ludo 
e todos se curva vam e obedeciam ò. vontade dei-rei, 

3 uè sabia fazer milagres, corno aqueile que tinham 
iante dos olhos.» 

Jantaram e pernoitaram n*este paiacio o soberano 
e toda a sua comitiva, e no outro dia, 10 do mez, 
antes do romper d'alva, pozeram-se a caminbo para 
Montemór-o-Novo. 

Na vespera tinbam partido de Lisboa a rainha D. 
Maria Anna d'Austria, a infanta D. Maria Rarbara, sua 
filba, agora princeza das Asturias, e o infante D. Fe- 
dro, tambem seu filbo. E(Teituou-se o trajecto do Tejo 
do mesmo modo que o flzera ei-rei. Posto que cbe- 
gasse a rainba a Aldeia Gallega peias onze boras da 
manhà, consumìu-se o resto do dia na visita à egreja 
matrìz, no ceremouial das recepgOes e beija-m&o, e no 
jantar, de sorte mie so na seguirne madrugada se deu 
principio à jornada por terra. 

Compunba-se o prestito da seguirne maneira: dois 
trombetas e oito soldados de cavallarìa, commandados 
por um tenente ; seis correios de gabinete, tambem a 
cavallo, com suas trombetas; tres seges com mo(;os da 
real camara; o cocbe do estribeiro-menor, em que iam 
porteiro da camara, os companbeiros dos padres con- 
fessores, e o medico Joào Valentim Caupers; o coche 
dos veadores da princeza das Asturias; a estufa do es- 
tribeiro-mór e mordomo-mór da mesma princeza; o 
coche dos veadores e confessor da rainha; outro coche 
com mais veadores; a estufa do mordomo-mór e estri- 
beiro-mór da mesma soberana; uma estufa de respeito 
da priuceza; outra da rainba; Jodo Xavier, estribeiro- 
menor, a cavallo; o coche em que iam sua magestade 
e altezas; seis mogos da estribeira, a cavallo; uma es- 
tufa com a camareira-mór e damas de houor; cinco 
estufas com damas; sete estufas com agafatas; tres es- 
tufas com a camara da rainba; quinbentos soldados 
de cavallarìa, fazendo a guarda de bonra ; os mogos do 
monte, a cavallo; tres seges de reserva para as ca- 
mareiras-móres; uma sege rica de reserva para a rai- 
nha; vinte e nove seges com damas e criadas da rai- 
nha e princeza; a sege do guarda-damas; tres seges 
de capellàes; onze de clerigos; oito de musicos; duas 
de porteiros da canna; uma com o cirurgido Joào Hen- 
rìques Wite e o seu ajudante; cinco grandes galeras, 
que conduziam as alfaias mais preciosas; doze carros 
matos com bagagens; vinte andas com o enxovai da 
princeza; um cabo e oito soldados de cavallarìa. « 

Voltando agorà a face d'està luzente medalha dos 
esplendores da corte de D. JoSio v, vamos mostrar no 
reverso d'ella verdadeiras miserias, que fazem singu- 
lar contraste com tantas galas e magnificencias. 

Durante a noite que a rainha passou em Aldeia Gal- 
lega comegou a chover copiosamente, e assim progre- 
diu no dia seguinte com tanto excesso, que os ca- 
minhos ficaram logo intransitaveis. Como a estrada, 
exceptuando varias pontes e alguns pedagos de cal- 
gada ò entrada e salda das povoagOes, era mais obra 
da natureza que dos homens, pois que a estes apenas 
devia o nào consentirem os pés dos viandantes que 
n'cUa crescesse o mato, nos silìos em que atravessava 



terrenos baixos achava-se transformada em lagos e la- 
meiros, perigosos ao tempo em que a rainha e sua 
comitiva partiram de Aldeia Gallega. 

Foi muìto penosa a jornada até aos Pégóes. Mas 
d'esse ponto até às Vendas Novas era uma lastima ver 
a passagem do prestito, porque apresentava um aspe- 
cto muito similhante ao de um exercito que se recolhe 
destrogado a uma praga visìnha do campo da batalha. 

A chuva, cada vez mais grossa, tinha feito tras- 
bordar as ribeiras, as quaes, alagando grande exten- 
sào de terreno, cobriand em muitas partcs a estrada 
publica. Aquellas pesadìssimas machinas dos coches 
reaes, ao transporem os atoleiros, enterravam-se de 
modo que ndo havia forgas que d'alli as tirassem. 
Quanto mais possantes e fogosos eram os urcos que 
puxavam pelos coches, tanto mais se atolavam pela 
violencia do esforgo. Foi mister que se mandasse bus- 
car grande numero de junias de bois para, com o seu 
anxilio, serem tirados os coches de tao critica si- 
tuagào. 

Depois de muita demora, de inauditas fadigas e de 
nao pequenos sustos das damas, a rainha e seus fi- 
Ihos, com parte da comitiva, chegaram ao paiacio das 
Vendas Novas, indo a noite jà muito adiantada ; e a 
outrd parte viu-se obrigada a voltar para os PégOes, 
onde pernoitou. N'essa noite morreram nas cavallarì- 
gas do pago das Vendas Novas muitas cavalgaduras 
dos coches e dos outros vehiculos, em consequencia 
do cangago e resfrìamento. 

Nào obstante os incommodos, fadigas e até perigos 
por que passàra em todo aquelle dia e. noite, e apesar 
dos rìgores do tempo continuarem cada vez mais in- 
clementes, a esposa de D. Joào v era tao animosa, 
que, ainda mal repoisada, jà queria proseguir na via- 
gem, a fim de que a sua demora nào transtornasse 
a ordem estabelecida no programma combinado entre 
as duas cortes. 

N'essa mesma noite, portante, cbamou a rainha ao 
tenente coronel Luiz Garcia de Bivar para Ihe dizer 
que desejava partir d'alli antes que despontasse o dia. 
Bivar observou-lhe a impossibilidade de satisfazer esse 
desejo; e comò a soberana instasse, declarando que 
estava resolvida a affrontar a iuvernia e quaesquer in- 
commodos, respondeu-lbe com firmeza: «A inclemen- 
eia do tempo continua com todo o excesso, comò vossa 
magestade està vendo; e o caminbo que temos d'aqui 
a Montemór é o peior que nos espera, pelos muitos 
atoleiros, ribeiras e maus passos que n'elle ha, e do 
que eu, pelo bom conhecimeiito que tenho do paiz, 
estou bem certo. Por todas estas, e ainda por muitas 
outras razòes, sou de parecer que vossa magestade 
nào deve querer entrar em um perigo tao grande, que 
talvez nào póde ser vencido por forgns humanas.» 

Ouvindo tao fortes razòes, rcsignou-se D. Marìa Anna 
d'Austria a esperar que se tomassem providencias para 
facilitar a continuagào da jornada. Expediram-se logo 
ordens ao juiz de fora de Montemór para que man- 
dasse com toda a brevidade e diligencia cntulhar os 
lamagaes, desfazer e terraplenar as quebradas, em 
fim, por caminbo transita vel. E em quanto se em- 
pregavam n'estes trabalhos milhares de bragos, era 
encarregado o coronel José da Silva Paes e Vascon- 
cellos de ir arranjar e dispor nos logares convenien- 
te» numerosas juntas de l)0is para tirar os coches, 
seges e outros vehiculos nos pontos mais difìiceis e 
arriscados. 

No dia seguinte, 11 do mez, veiu dos Pégoes a 
parte do prestito que fora obrigada a retroceder. E 
no dia 12, acbanao-se concluidas as reparagOes da 
estrada, do modo que cabia na estreiteza do tempo, 
e assim tambem dispostas as mais coisas necessarias, 
safu a rainha e sua comitiva do pago das Vendas No* 
vas pelas 4 horas da manhà. 

(Continua) I. i>e.Vxliikha Baubom. 



ARCmVO PITTORESCO 




Dcsengancmo-nos ; a faìstorìa do genio ha de ser 
sempre a histona dau grandes luclas; a gloria sairìt 
do altysmo, nfio, corno a deusa aniiga, aljofradu pelas 
ciDdidas sguas, mas coberla de suor, de poeira e de 
Eungue; o nome que lem de ser eterno sentir-se-ha 
primeìro ridiculo. Erguei altare^, queimae incensoa, 
enfeixae pa!mas, engrinaldae os templos, celebrae a 
iipolheose, proslne-vos era frcnte da divindadc de 
liojc; para que ludo isso se rumpra é necessario que a 



tenliaes vorberado, insullado, negado, cegos ao pro- 
digio, indìfferenles i graudeza, adversos ao que mais 
tarde endeosaes, fanaticos até A iotolerancia. 

Eugenio Delacroix é mais urna prova radiante. As 
briga» incnientas, mas nao por isso menos dolorosas, 
precederam-ihe o verdadeiro Iriumpbo; comò todoe os 
taienlos originaes e supremos, fenu o olhar dos que 
8ó ci'iam no veiho cullo, e teve de arcar com a multi- 
dfto dos rabbia, conlrarios fìgadalmmlc ao novo credo 
dos apOBtolos. comodo d'esle sccnlo trouxe comsigo 
estes recoDlros.c estas campanhas formidaveis. Tanto 



50 



ÀRCHIVO PITTORESCO 



3 



nas bellas artes corno na litteratura, a Franca, sobre 
tudo, apresenta-nos o maraviJhoso quadro d'essa ia- 
vasào de novas idéas, d*essa contenda em que os bar- 
baros do romanlismo cscalam os reductos greco-Iati- 
nos, e rccbagam com a framea em punbo as ultimas 
legióes do imperio que desaba. Quo fogo e que vida! 
uc sublimcs cxaggeragOes, mas que trasbordamento 
e seiva, que confianga arrojada, que germens àsmJkos 
clicias, que florcslas exuberantes, que vigorosos ala- 
mos bracejando por cntre as arvores alinbadas e tos- 
quiadas do classicismo convencional ! 

\i cntdo que apparoce a nova raga dos pootas, dos 
titans que accommettem o Olympo pagào, e que em 
logar de Doileau enlhronisam o Bello, esse filho Icgi- 
limo da Inspirando e da Verdade; e que em vcz de 
jurarem sobre a Arte-poelicOy juram sobre esse cvan- 
gciho sagradO) que é a nalureza. É entào que Victor 
Hugo, de um lado, atira com as suas folbas de si- 
bylla para o meio do povo, e que os seus dìscipulos 
auirmam a palavra do mestre, contra o tostimunho 
dos oppostos; 6 entSio que, em pintura, Delacroix Ic- 
vanta o sceptro que cafra das màos inanimadas de Gé- 
ricault, e, à frenle de Ary Sclieffer, de Leon Cognict, 
de Cbampmartin e de outros, cae sobre as hosles da- 
vidianas com a fogosidade de um Samsào membrudo. 

que bouve de rcsìstencia contraria, de oppugna- 
gào contumaz, de rcluctancia medonha, sabem-n'o to- 
dos OS quo se dào ao esludo de similbantes fuctqs, e 
prcsuppOem-n'o de certo os que attentarem um mo- 
mento no que ba de dìfTicil e de rude quando se trata 
de impiantar urna idèa, um principio, uma doutrina 
que dostòa dos babitos e das fórmulas consuetudina- 
ri as. 

Os classicos (sogundo a futil denominatilo estabe- 
cida) baviam consiruido, comò os senbores da edadc 
media, uma especie de forno banal onde os seus bo- 
mens deviam ir cozor o pào do espirito, iilssc forno 
oram os mudeios antigos, era a estaluaria gentilica, 
eram os prcceitos dos mestres, era o immuta vel apru- 
mo dos reitores de boa nota. Quem infringisse a do- 
tenninagào assente soffria a pena merecida. Um dia 
03 cnfeudados insurreccionaram-se, e com tres pan- 
cadas de alviào derrubaram o forno, ennogrecido pelo 
tempo. N'esta Victoria succedcu o que costuma suc- 
ceder em todas. Houve a anarchia do jubilo, a febre 
do contentamento. Desvairaram-se os que tinham has- 
tcado pendao glorioso sóbre as ruinas dos vencidos, 
e morticinio e o saco foram por algum tempo impla- 
caveis. Asserenados os ani mos, percebeu-se que entre 
esse monlào de pedras liavìa muito para admirar, e 
que mais de uma columna era exemplo, e mais de 
um fuste conselbo. 

Os barbaros acceitaram, pois, dos romanos o quo 
era fructo de experiencia secular, e robusteceram com 
sangue novo o que era anemico e impotente. De feilo, 
entendimento bumano nao podia estar de continuo 
sob a tutoria do passado, nem podia suspirar debalde 
pela sua maioridade tardonba. Respeitemos os veltios, 
acatemos-lbes as maximas — é justo; os que chegam 
(i virijidade podem, todavia, dispensar-lbes a mao con- 
ductora. 

N'islo se resumé a guerra mal ferida d'aquelles mo- 
gos francezes contra os granadeiros encanecitlos da 
arte, comò se poderia resumir a de todos os que for- 
cejam por quebrar os moldes onde nào cabem, e des- 
vìar-se do rumo para onde nào tcndem. A revolugào 
toma a principio o caracter de tempestade. Os bomens 
transformam-sc em elementos. Alguns derrubam, e fi- 
cam soterrados debaixo das ruinas; outros, e esses 
sOo OS verdadeiros edifìcadores, arrasam e nivelam o 
terreno para jevantar sobre elle a mole grandiosa que 
ba de mais tarde merecer a sagragào da posteridade. 

Fernando Victor Eugenio Delacroix nasceu em Cba- 
renton Saint-Maurice a 2G de abril de 1793. Com o 



primeiro leite bebido cntraram-lbe nas veias os esti- 
muios revolucionarios. Sobre o bergo da crianga on- 
dulavam ainda as fumaradas d'anuelle incendio prodi- 
gioso que mudou a face do munao, e que, devastando 
as florestas seculares, fez rebentar do solo uma vege- 
tagSio mais perfumada. Seu pae, que fora deputado na 
convengùo, ministro no directorio, e que depois, no 
primeiro imperio, exercéra successivamente os car^os 
de prefeito de Marselba e de Bordeus, bavia morrido 
em 1805, sem deixar a seu Riho o minimo amparo 
de riqueza. 

Ndo queiramos perBlhar agora a opinido, talvez um 
tanto chimerica, dos que procuram na meninice as 
revelagOes dos grandes factos da madureza; ha um ou 
outro exemplo d*estas sublimidades precoces, e Dela- 
croix certifica-o; o que juigdmos, porém, é que dos 
primeiros vagidos niuguem poderà tirar horóscopos, 
e descobrir n'elles a inicìagào dos cantos futuros. 

No avoejar de comego tanto primam as cotovias 
corno as aguias; depois de robuslecidas e empluma- 
das é que vemos serem aquellas desti nadas para vi- 
ver nos parreiraes e nos soutos, e estas para se cr- 
guer até onde esplendem os astros. A primeira mào 
protectora que se estendeu a Delacroix foi a de Hie- 
sener, pae d'esse outro pintor notavel que ao diantc 
fez quadro de Leda, de Vcmts e da Bacchante, 

Até 1817 vemol-o seguir o curso das bellas artcs 
com a assiduidade e a distincgao, prenuncias dos seus 
dotes brilbantes. N'esta data entra elle na officina de 
Guerin, n'essa casa de trabalbo classico, n'esse ninbo 
d'onde sairiam os que mais tinliam de se empenhar 
na briga imminente. N'esta communidad(>, o homem 
a quem Delacroix se ligava mais pela estima era Gé- 
ricaull, jà conhecido pelo retrato de Dieudonné, ex- 
poslo em 1812, e mestre consummado depois do Nau- 
fragio da Medusa. Góricault pintava nào so em ca-^a 
de Guerin, corno tambcm n'um quarto do baìrro dos 
Martyres. seu visinbo do lado ora Horacio Vernot. 
Quando alguem, por engano, porguntava por Vernot, 
balendo a porta de Géricault, oste respondia sempre: 
• Cesi la boutique à cóle,» pinlor da Barreira de 
Llichy era a sua bète noire; apesar d'i*so, viviam em 
boa pratica de amigos, e conta-se que Vernet nao doi- 
xava de tirar das visilas do seu confrade as maximas 
consequencias em proveito proprio. Os esbogos do hos- 
pedeiro serviam para as composigóes do bospede ^. 

Tornemos, porém, a Delacroix. Foi em 1822 que 
elle se manifestou completamente. A Barca do Dante 
encarregou-se de dizor bem alto o que valia aquollo 
mogo de vìnte e quatro annos, que se atrevéra a ar- 
rancar das paginas de um dos primeiros livros do 
mundo esse grupo do Dante, Virgilio e IMilogias, e 
collal-o na téla com a sublime inspiragao de um Ìli- 
guel Angelo nascente. 

Em torno d'elle Icvantou-so o ruido da admiragilo 
e do a.ssombro. Os mais ostrenuos dofensores da ve- 
Iba cschola, os que ainda pegavam rof^pei tosamento 
no manto caudato de David, esses deliveram-se em 
frenlo de um testimunho tao grande, e entreolbaram- 
se com a desconfianga da sua dorrota. Delacroix ven- 
céra. Dissera-lh'o o applauso do paiz inteiro. Gros, o 
celebre pintor da Peste de Ja/fa e do Combate de 
Aboukir, dora de mào às suas predilecgGes classicas, 
e dissera ao mancebo que o bavia procurado, comò 
que para receber a sancgiìo do mestre: «Kous avez 
fait là un chef-dasxtvre; dest dn Rubens réfoi^mé, » 

que faltava em Delacroix era a correcgào do de- 
senho, a fìnura do contorno, o apuro, a modelagào 
perfeita. Seriam isto mesmo qualidados que, sob o 
ponto de vista meticuloso, se Ibe podessem estremar 
ao diante? Nào o cremos. No desenho de Delacroix 
que se observa sempre, desdc a Barca do Dante, 

i Thcophile Silvestro -> Eugènc Delacroix — Doctimtnt* noureaiur, 
puff. 85. 



ARCHIVO PITTORESCO 



51 



é a expressfto e o movimento. Algaem escrcvia em 
1854, a proposilo do grande pintor, estas considera- 
gOes profundas: «0 contorno deve ser feito dclicada- 
mente e conforme as Icis naturaes. Um sécco trago 
linear nào póde dar a fórma dos objectos que se es- 
morgam nas degradagóes de luz até se perderem no 
ar ambiente. Em ve;s de tragar duramente o contorno, 
Delacroix fal-o sentir n'um toque indefinito; dà-lbc a 
rara mobilidade, e dcixa-o no scio da naturerà, cuja 
elasticidade é immensa. Fodera alguem dizcr em frente 
de um quadro de Delacroix : — Nào sabfa dcsenho? — 
Dcveria antes dizer-se que elle desenba corno pou- 

COS^t 

Dois annos depois, em 1824, apparecia a Carni/i' 
Cina de Scio (Massacre de Scio), Delacroix, com cste 
quadro, langava-se abcrtamente no meio da conflagra- 
gao romantica. Os inìmigos, que baviam concedidoas 
primeiras ovagOcs, recolberam as palmas dìspersas e 
vozearam, contra o temerario. proprio Gros oxcla- 
màra: «É a carnificina da pintura!» Que partido se- 
guir? Recuar? Ndo. As idéas avangavam no scu curso 
immutavel. Géricault morréra; Delacroix achava-se na 
vanguarda dos combatcntes,* dos mogos impetuosos, 
dos pintores que boje Uepunbam a palbeta, e que àma- 
nbà, pegando da penna, se transfìguravam em criticos 
despicdosos, e a^grodiam os ultimos peiejadores con- 
tcarios. Ary Scbeffer era dos quo balalbavam com duas 
espadas. 

Os baluartos academicos desmoronavam-se de bora 
a bora; a raga nova galgava fossos e tranquciras; a 
pintura escuiptural codia terreno aos quadros patbe* 
ticos. Novos tbemas e novas lendas suggeriam os in- 
vasores modernos; podìam deixar-se dormir um pouco 
OS gregos e os romanos, e pedir ao drama e ao poema 
alguma coisa mais commovcdora do que a estafada 
myibologia. 

Hra esse o mole de Delacroix. Em 1826 expunba 
a Movie de Marino Faliero, em 1828 o Combate do 
ffiaour e do pacha^ e nos annos subsequentes o Assas- 
sinio do hispo de Liège, a Morte de Carlos o Temera- 
rio, Prisioneiro de Chillon, o Rei Joào na hatalha 
de Poiiiers e Hamlet, 

Sobcrbo inlerprclc dos grandes escriptores! que 
pela inspiragào do poeta bavia passado em sombras 
confusas, o quo olle onlrevlra n'um vago arroubamen- 
(0, que era sobrcnatural e elbcrco, passou a rcali- 
dudc palpavei, surgiu sob o pincel do mostre, appa- 
receu reveslìdo de luz e de córes. verbo fez-se ho- 
mem. Aquellc Hamlet no cemiterio, que tem na mào 
craneo de Yorick, é o mesrao que Sbakespearc 
phantasiou sobrc a plataforma de Etsiuour. Se o poeta 
contemplasse, diria talvez corno o scismador da Dt- 
namarca dizia n'aquella occasiao ao scu amigo Hora- 
ciò: •Alas, poor Hamlet! — I Knew himl* 

colorido (3 a primoira qualidadc de Eugenio De- 
lacroix. N'osto ponto estabclccóra para comsigo um 
systoma absoluto. Multiplicava os tons inCnitamonto, 
conlrapunbaos, dando-lhos d'osto modo urna dupla 
iutcnsidade. As excellencias de Ticiano niio o subju- 
garam de pmmpto: comegaram por Ibe parecer mo- 
notonas. Os offoitos pittorescos om Delacroix resultam 
sempre dos contrastes. Em Ruhons póde a cor brilhar 
corno a superficie do um lago tranquillo; n'olio tom o 
ostromocimonto radiante da agua fustigada pclas bor- 
rascas *. A paixao, o vivo sentimento do assumpto, ro- 
salla de lodas as composigOos do mostro. As figuras 
tem sangue; n'aquoilas télas lia coragóes que batom. 
Os pintores da cscbola veneziana, Voronez inclusivo, 
silo coloristas quo nào cbogam à allucinagfio, ao arre- 
batamonto, ùquolla rapidoz torrentosa com quo os tons 
so succedem corno as nolas de urna escala. N'osta suc- 
cessilo de notas ba, comtudo, a barmonia. Isto cons- 

i Histoire de» artitttà vivemU^ prómlòre sèrio, iii-8.^ 
S Théophile Silvestre — I.oc. eU», p«ig. 16. 



titue em Eugenio Delacroix a sua enorme elevagdo 
poetica. A pintura para elle era a arte do produzir a 
lUusào no espirito do observador. Para isso deixava 
a Ingres as oombinagOes rogradas, e pintava com o 
calor da sua organisagdo nervosa. Aquella febre nfio 
tresandava em delirio. Era apenas a manifestag&o de 
um sublime entbusiasmo. 



(Contln&a) 



E. A. VlDAL. 



ESCULPTURA EM METAL 

BACULO DA SÉ DB BVORA 

A nagSo portugueza, na sua infancia, vivia, por as- 
sim dizer, da guerra e para a guerra. Fundàra a mo- 
narchia no meio de am campo de batalba, ao som dos 
bymnos da Victoria. Com a espada ou a langa em pu- 
nbo, firmou a sua independoncia e libordade, e alargou, 
em ionga serie de triumpbos, as fronteiras do novo roi- 
no, expulsando do sou solo as moias luas do Mafoma. 
Vencer ou raorrer pela fé e pela patria, guerroaudo os 
inimigos implacaveis da cruz de Jesus Cbristo, era a 
mais subida e invejada gloria, a unica entdo a quo 
aspìravam nobros e piobous. 

Os iilbos de Portugal, assim criados entro o ostridor 
dos combates, nào ambicionavam, goralmonte fallan- 
do, outra occupagào que nào fosso a das armas. Nom 
bavia indijstria que promettesse componsagào digna ao 
trabalbo db bomom comò o officio de soldado. Os mais 
esforgados enconlravam seguro premio do seu valor nos 
arraiaos do ìuimigo, ou no rico despojo quo Ibes offore- 
ciam as pragas conquistadas. Os monos valontos acba- 
vam do que saciar a sua cubiga nas corrorias por tcr- 
ras de infìeis, no saque do povoagóos indofosas ou mal 
defendidas. 

Os campos, talados contìnuamente pelas bostos cbris- 
tàs ou sarraconas, nào doixavam modrar a agricullu- 
ra. Essa lucia som trogoas ora obstaculo insuporavol 
para o commercio. A rudeza das idéas, a simplicìdado 
dos costume^, a frugalidade da vida, a falta do indus- 
tria, e, por consoguinto, a pobreza da nagào, oppu- 
nbam-so absolutamonto ao dosonvolvi monto das arlos. 

Por està razào, quando os nossos priraoiros rois qui- 
zoram origir alguns cdiGcìos mais grandiosos, jà so 
sabe, tomplos e convonlos, rocorriam aos architectos e 
canloiros musulmanos, pois que cntào florosciam com 
grande esplondor a arcbitectura e a oscuiptura nas 
cidades nioiriscas da Andaluzia, foco do civilisagào, 
d*onde se irradiava a luz das artes, com mais ou mo- 
nos brilbo, para todas as torras da peninsula ainda 
sujeitas ao dominio sarracono. 

Os arlistas arabes foram, portante, os mostres, pó- 
do-so afoitamonlo dizcr, dos nossos primoii'os arcbito- 
ctos e escuiptoros om podra. D'ìsto rosultou innocu- 
lar-se o estilo arabe na arcbitectura nacional, de nia- 
noira que adulterou, em maior ou monor escala, os 
difforontos estilos architoctonicos quo so introduziram 
e prodominaram em o nosso paiz ale aos fins do pri- 
raciro quartel do soculo xvr. Além d'isso, tambom fai 
rcsultado d'aquolla escbola a ignorancia dos nossos 
escuiptoros aniigos om obras do estatuaria; pois quo 
n'osto ramo da arto nada tiverara a aprondor dos moi- 
ros, aos quaos o Alcorào probibe Icrminantomonlo rc- 
prosenlarcm, do qualqucr modo que soja, tanto a fi- 
gura buraana, comò a dos outros animaos da crcagào. 

Porém, ao tempo em quo a arcbitectura e a oscui- 
ptura om podra se acbavam entro nó3 tao dcseuradas, 
e em tao grande atrazo quo era mister a cada passo 
mendigar os servigos de artistas ostranlios, dosenvol- 
via-so pouco a pouco, mas fazendo assignalados pro- 
gressos, a oscuiptura om metal. 

Esto desonvolvimento e progrosso tinbam urna causa 
nào so multo legitima e conbecida, mas até poderosa. 



52 



ARCHIVO PITTORESCO 



Os vasos sagrados e outras alfaias para o exercicio do 
culto, adorao das imagens e scrvigo dos templos, of- 
fcreciaQi um campo vastissimo ao talento e actividade 
dos ourives. Incitavam-n'os ao trabalho e ao aperfei- 
goamcnto a devogào dos fìeis, franqueaado-lhes gene- 
rosamente as suas bolsas, ù. frcnte dos quaes se col- 
Jocavara sempre os nossos reis e rainhas. Da concur- 
rencia, quo é um dos mais fortes incentivos das artes, 
tiravam os ourives novo alento e novos brios para 
mais arrojados commettimentos. E para que Ihes nQo 
faltasse estimulo algum dos que mais podem ìnQuir 
na alma de um artista, era a religiào de seus pacs 
que Ihcs ministrava assumptos para as lides artisti- 
cas, e quo Ihes suggeria inspiragOes elevadas na su- 
blimidaue dos seus augustos mysterios. Em Bm, o sen- 
timento religioso era o facbo que Ihes illuminava o 
espirito, a aurora que derramava em sua imaginagdo 
OS briUiantcs orvalhos da poesia, o condao que im- 
primìa vigor no seu brago, dirigi niio-lhes o cinzel pela 
senda ardua, mas gloriosa, que levava as suas obras à 
perfeigào, e que levaria os nomes de todos esses ar- 
tistas à immortalidade, se muitos d'elles nfio fossem 
langados no esquecimento pela ignorancia dos tempos 
e pelo desleixo dos contemporaneos. 

Foi assim que, reinando D. Sancho i, n'esta terra, 
entào ainda sùfara para a cultura das artes, comega- 
ram a apparecer bons escuiptores em metal. Dào tes- 
timunbo d'està verdade aignns vasos sagrados e cru- 
zes, em que se notam delicados lavores, em prata 
branca e doirada, offerecidos por aquelle monarcha e 
por sua esposa, a rainha D. Dulce, aos mosteiros de 
Alcobaga e de Santa Cruz de Coimbra. 

Apesar dos terremotos e das invasOes estrangeiras, 
que em differentes eras deslruìram ou nos levaram 
rouitas preciosidades artisticas d'aquelle genero; e nao 
obstante o descamìnbo que outras, nào poucas, tive- 
ram por occasiSo da extincgào das ordens reli^osas, 
em 1834, Portugal ainda boje é rico d'esses pnmores 
de arte, que attestam a profìcicncia e bom gosto dos 
ourives portuguezes desde os fins do seculo xiu. 

Grande numero de egrejas enccrram em seus the- 
souros vasos sagrados, relicarios e outras alfaias de oi- 
ro, prata e bronze, bellos na fórma, e excellentemente 
cinzelados segundo os estilos gothico e do renascimen- 
to. Entro aquellas egrejas avultam as sós do reiuo, 
principalmente as de Lisboa, Evora, Braga e Coim- 
bra; a capeila real dos nossos soberanos; a collogiada 
de Nossa Senhora da Oliveira de Guimaràes; a mise- 
ricordia do Porto, etc. Guarda-se urna boa còpia de 
tacs objectos, que pertenceram aos extinctos conven- 
tos, na academia real das bellas artes de Lisboa, para 
onde conseguiram leval-os a diligencia, zelo e amor 
da arte do sr. marquez de Sousa Holstein, com o pa- 
triotico intento de formar um museu nacional archeo- 
logico e artistico. Finalmente, a nossa casa real pos- 
sue urna riquissima baixella de prata doirada em que 
se admiram numerosas pegas de exquisito gosto, e de 
rara belleza e perfeìgào, feitas nos seculos xv e xvr. 

É certo que a muitas das preciosidades a que allu* 
dimos ignora-se ou é duvidosa a origem. Entretanto, 
aquellas cujo auctor é conhecido, seja por documento 
ou testimuuho competente, seja porqne ellas proprias 
revelem o seu nome, sào provas de sobejo em abono 
do que temos aqui expendido. 

Os nossos assignantes conhecem, pelas gi'avuras pu- 
blicadas n'este semanarìo, a linda custodia e calice 
fabricados em Guimaràes nos principios do seculo xvr, 
e pertencentes à coUegiada de Nossa Senhora da Oli- 
veira 1. Pois ha na mesma egreja, de epocha e ppoce- 
deneia eguaes, uma grande cruz processionai, de prata, 
que é obra de primor incomparavelmente maior. A es- 
tas pegas, porém, e a outras muitas de industria na- 
cional, que seria prolixidade mcncionar n*este logar, 

i Vld. pag. 5 e 41 do voi. iv. 



a todas essas, dizemos, sobrcleva a custodia de oiro 
que el-rei D. Manuel doou ao mosteiro de Belem *. 
Para demonstrar o aito gran de perfeigào a que che- 
gou entre nós a esculptura em metal no seculo xvi, é 
bastante essa gentil e celebrada custodia. Ostentando 
muita poesia e boni gosto na invengao, extremada ele- 
gancia e belleza no porte, e singular delicadeza e ex- 
cellcncia no trabalho do ourives, quadra-lbe o titulo 
de sublime poema da religiào e da arte, impresso em 
oiro pelo inspirado lapis de Garcia de Rezende, e pelo 
insigne cinzel de Gii Vicente! 

Nào se diga que este ramo de arte, que tanto fio- 
resceu em o nosso paiz, correndo a sorte da monar- 
chia, se eicvàra com ella, e coni ella caira tambem 
dò seu esplendor, sem tornar até hoje a fiorir. A fa- 
mosa baixella de prata feita n'esta -cidade pelos dese- 
nhos do eximio pintor Domingos Antonio de Sequei- 
ra, offerecida pelo principe regente D. JoSo ao duque 
de Wellington, em galardào dos servigos prestados por 
este distincto generai à independencia da nossa patria, 
ó uma prova irrecusavel do estado fiorescente em que 
se achava a esculptura em metal n'esta cidade nos prin- 
cipios do presente seculo-^. 

Com proposito de ir reunindo materìaes para o es- 
tudo da introducgào e progressos da ourivasaria em 
Portugal, tem o Archivo Pittoresco publicado varios 
artigos e gravuras '. Continuando no mesmo empe- 
nho, vae offerecer n'este volume aos seus assignantes 
còpia em gravura de algumas das mais preciosas e in- 
teressantcs pegas do thesouro da sé archiepiscopal de 
Evora. Sera o baculo a primeira de que trataremos. 

É de prata doirada, de estilo gothico, e do tama- 
nho commum a todos os baculos. A baste 6 cavada 
em meias cannas. Guarnecem-n*a, logo abaixo do nò 
e entre dois frisos, dois anneis ou circulos de pedras 
preciosas, os quaes resaitam da baste para fora. nò 
é um comò edificio gothico, composto de duas ordens 
de baldaquinos. Apoiam-se estes cm uma base a modo 
de capitel, ornada de figuras de mera phantasia em 
melo rclevo, umas com azas nas espaduas, outras na 
cabega, e todas em posturas mais ou menos extrava- 
gantes, fingindo sustentar o ediGcio gothico. Sobre 
està base ergue-se o primeiro baldaquino, que é va- 
sado e representa uma arcada gothica, tendo a parte 
superìor floreada. Dentro d'elle, correspondendo aos 
arcos, estao seis estatuas, de relevo inleiro e separa- 
das da baste: sào os quatro evangelistas e dois pro- 
phetas. baldaquino supcrior, tambem vasado, é mais 

f^equeno e recolhido, servindo comò de cùpula ao in- 
erior, e egual a este na architectura e na ornamcn- 
taglio. Dentro véem-se encostadas à baste, em alto 
relevo, as figuras de dois apostclos e dois prophetas, 
sondo um d'aquelies S. Pedro, e um d estes Moysés. 
A parte superior da baste e a voluta por ella fonnada 
85o decoradas com 41 pedras preciosas e relevos a 
maneira de folhagem. N'esta voluta, que termina por 
uma grande amethista, ergue-se na parte interior d'ella, 
sobre uma peanha de fofhagens, a imagem de Nossa 
Senhora da Conceigào em estatua de maiores propor- 
gOes que as dos baldaquinos. As pedras preciosas com 
que se guarnece està pega sào amethistas, esmeraldas, 
chrisolitas brancas e da sua cor vulgar, tambem aguas- 
marinhas, se nos nào engana a memoria, e talvez aigu- 
ma outra especie de que nos nào lembràmos. 

Para saber-se a epocha em que foi feito este baculo 
nào é necessario recorrer a penosas investigagóes. Basta 
vél-o, ou attentar na còpia que d'elle damos em gravu- 

1 yid. a gravara e artigo a pag. Sii do voi. n, e o artigo a pag. 183 
do voi. X. 

S Està copiosa baixella foi fabricada em 1R14. Era admiravel pela 
gra^ do desenho e pela porfei^io da m%o d*obra. Eeleve expoata ao 
publlpo antes de Ber enviada para Inglaterra. Pouco depois da saa 
chegada a Londres tambem foi i>08ta em exposi^lo, obtcndo do6 en- 
tendedores geraes applansos. 

3 Vid., além dai graviiraa indicadas em as notas antecedentos, as 
(jue vera publicadas a pag. 97 e 169 do voi. vii. 



ARCfflVO PirrORESCO 



ra, a scu turno copìada de urna photograpbia, para se I 
rceonhecer que é obra do seculo xvi. obs«rvador 
mcnos expenonle, illudido pi^b estilo gotbico- florido, ' 
que n'elle domina, julgal- 
o-ha produc^ùo do princi- 
pio d'esse seculo. forém 
quem contemplar com rc- 
flexao e estudo os grossos e 
peaados pilares que suslen- 
tam OS arcos dos dois bai- 
daquinoB, convenrer-se-ba 
de qtic iiao foram ciiizela- 
dos ao mpsmo tempo que 
eram esculpidas as delga- 
du8 e esbeltas columuas do 
ci austro do mosloìro du Be- 
iera '. 

(ìousiderado na sua fór- 
ma geraj, nuo 6 fallo de 
eicgancia oste baculo. Pó- 
de-se dizcr que o seu de 
seiibo 6 gracioso mas a 
esculplura nao aprescnia 
aquella varìedade e delica 
deza de iavoces que Bao o 
dislinclivo da ounvasana 

EortuguezD nos reinados de 
. Joiìo II cD. ìlanuel bo 
o rompararmos com a cus 
todìa de IJelom, cremoa pò 
der tirar por conclusalo que 
a obra mimosa de Gii Vi 
conte representa o apogèo 
do esplendor u que cbe^'ou 
em nosso pah a e-j,ul 
ptara em metal; e que o 
rii'o baculo da sé de I vora 
iifio obslante fazir bonra 
aos arlìsias que o deliiiea 
ram e cinzelarani rivda 
o principio da dccidcnud 
deste ramo da arte 

Porlauto, se eslas con':! 
dera^es lem o {«so que 
Ihes lìgùmos, dcvein sir 
suQicicntes para se detir 
minar o reinado d( 
Jofio III corno a cpocha em 
que foi fabricado o baculo 
K, com efleilo, eala insi 
gnia do poder episcopal (. 
atiribuida ao cardeal in 
fante D. llenrique irmao 
d'aquelie soberano e que 
foi arcebispo de tvora de 
braga e de Lisboa e no 
cxtrenio da vida, por infe 
licìdade iiossa, rei de Por 
tugal. 

È na verdade muilo para 
eslraidiar que, tendo este 
principe governado o arcL 
bjspado de Kvora em urna 
cpocba em que a civilisa 
(fio tiiiba feitu bastante» 
progressos, e em que mui 
los escriptores dislinctos 
nlguns dos quaes residen 

Ics na cidade de Liora se b«uIo ìm ar» 

applicavam a arcbivar e 
coordenar as aniigualhas e os acontecimenlos bislon 
cos do paiz, nììo licas^t menioni escnpia sobn. a doa 
q&o à sé do urna po^a tao preciosa e custosa conio i 




o referido baculo. Felìimente, a tradi^fio està em per- 
feita faarmonia com a aualyse e estudo que se queira 
fazer sobre aquclle objeclo. A figura- se- nos que nos nao 
afasluremos multo da ver- 
dade suppondo que o car- 
deul infante D. Henrique 
mandarla fazer este baculo 
pelos annos de 1550. 

A decadericia da monar- 
cbia, que princìpiara coni 
o reinado de D. Joao in, 
ao tempo a que acimu n«B 
rcferimos linha jà estendi- 
do a sua iiilluencia sinis- 
tra, mais ou menos, sobre 
todos OS ramos das bellas 
artes. A arcbitectura foi o 
primeiro d'eases ramos, e 
que mais se resentiu d'a- 
quelJa nialelìca acuito, pelo 
motivo de coincidir coni a 
decadencia do paii a gran- 
de revolucao que se operou 
na mesma arcbitectura. Por 
essa razao, em quanto que 
estilo do ronascimento ti- 
nba origido e continuava 
a erigir, sobre ludo na Eu- 
ropa centrai, tSo esbeltos e 
furinosos monumontos, in- 
Iroduzido em Porlugal ap- 
pareceu desligurado, pro- 
duKindo enlrc nds, com 
raras excepsOes, edilicios 
acanhados, scm elegancia 
nas fómius. sem gra^a nem 
belleza na ornamonlaciio. 
A arcbitectura do rcnas- 
cìmenlo proscreveu, des- 
de a sua ìnlroducgao n'esle 
pniz, estilo golbico, que, 
tendo acompanbado em seu 
desenvolvimeiilo o progres- 
so das grandezas e glorias 
de Porlugal, assistila ao 
aperreigoamenlo e esplen- 
dor dos outros ramos da 
arie. Porém a ourivasaria, 
a|H'sar de ferida do mal 
cnmmum a suas ìrmàs, 
Eublrabiu-se, feliitmenle, 
ùquella proscrìp^ao duran- 
te lodo o seculo xvi. Assiin 
consenou por mais tem|)0 
a gra^a do desenbo e a geii - 
tiJeza das fórmas. Assim se 
e\ plica corno o baculo da 
nò. de Eìvora foi fubricado 
segando o esilio gotliico, 
em lempoemqueaarcbile- 
clura do renascimenlo do- 
mmava em lodo o reino 
(om imperio alisoluio. 

(.luanlo aos nomes dos ar- 
t]«las que execularam està 
aprecia^el obra d'arte, deì- 
\ir<im n os em complelo 
cbquecimenlo a mesma in- 
cuna e desleìxo que nos 
occuilaram a data d'aquelie 
Iribitho e da doarao do cardeal infante. Todavia, nào 
póde por se em dUvida a sua origem porlugueza por 
duas ra?Oes multo pliusiveis. (lonsisle a prìmelra em 
po--uirmo= nos principìos d'esse seculo unia escJiola 



54 



ARGHIVO PITTORESCO 



naciooal de ourìvasaria muito aperfeìgoada. A segunda 
estù nos costumcs publicos, que ainda prcvaleciam 
n'essa cpocha, os quacs Dào peroiittìam que se fosse 
buscar ao estraogeiro o que tinbamos em a nossa terra. 
Este baculo e outras pegas do tbesouro da sé cbo- 
rense foram levados & exposigào de Paris de 1867, 
onde figuraram com muita dislincyilo na seccào da bis- 
toria do trabalho. i. db vilhbva bahboba. 



WALI DE SANTAREM 



(Vld. pag. 38) 

Quando disscoios que D. Afiboso conversava com os 
seus cavalleìros, devìamos dizer antes — deixava-os 
conversar; elle prestava o ouvido ao mìnimo rumor 
quo vioba dos lougos corredores, e escutava com um 
sorriso dìstrabido o dialogo animado dos seus compa- 
nbeiros de armas. 

Estes conbcciam a distracQ&o, e, curiosos de sabe- 
rem a causa d*ella, tudo era provocarcm-n*o a respon- 
der às suas perguntas indircctas, e el-rei, impenetra- 
vel, conservava o mesmo aspecto benevolo, proferiudo 
apenas de quando em quando aigum monosvllabo vago. 

— Voto a Cbrìsto, dizia Gongalo Mendes da Maia 
n'um tom bastante elevado, dirigindo-sc a um eccle- 
siastico de pbysionomia energica e varonil, que o ou- 
via compiacentemente, voto a Cbristo que yà me vou 
cnfadando de mirar as aguas do Mondego e de gozar 
as frescas sombras dos arvoredos de Coimbra! Eu nuo 
nasci para isto; nào me servem folias nom dansares; 
tudo quanto for dcscavalgarem-me do meu ginete mur- 
zello, despirem-me a cervilbeira e pórem-me a gastar 
lagedo das alcagovas, é darem commigo de caval- 
leìro desempenado em dona velba cheia de acbnques 
e esbrugadora de rosarios. Isso ó bom para os vossos 
conegos de Santa Cruz, sr. D. Tbcotonio, que se rc- 
galam com o descango, e nunca rezam mclbor os seus 
latins do que depois de dormirem um somno bem dor- 
mido. 

— Fazei corno eu, sr. Gongalo Mendes, rcdarguiu o 
bellicoso prior de Santa Cruz, que me resigno a ver 
as langas dos cavalleiros cncostadas ainda por mais 
algum tempo aos lanceiros das salas d'armas; pois 
bem sabcis, continuou elle sorrindo, que eu nunca 
rezo melhor os meus latins do que depoìs de urna re- 
frega bem travada com os inimigos do nome cbrislao. 

— Verdade é, retrucou o sr. da Maia, que nao ba 
melhor langa do que a vessa, dom prior, nas bostes 
do senhor rei; mas em Gm, sempre sois homem de 
egreja, e n&o sabcis o que ó ter sido nado e criado 
nos campos de batalba, ter vestido armas desde crian- 
gxi, e ter os ouvidos costumados ao silvo dos virotcs 
e ao tropear dos ginetes de combate, que nao ba abi 
tangcres de dogainas e alaùdes que me sejam mais 
deliciosa musica. Com os meus sdenta annos, que os 
tonbo bem contados, sinto saudades do galopar das 
arrancadas, do investir tumultuoso, dos assaltos das 
cidades. Ahi é que eu remogo, e me sinto ainda verde 
e rijo; mas nos saraus, junlo das donzellas rosadas, 
esfriam-me dcvéras os gclos do meu inverno. 

D. Alfonso Henriques sorriu-se. 

— Deìxae cstar, meu velho cavalleiro, disse elle, 
que ainda nào acabaram as lides em Portugal. 

— Deus vos oiga, senhor rei, redarguiu Gongalo 
Mendes, que, se este marasmo continua, a-la-fé que 
me sinlo com vontade de me alistar na primeira frola 
de cruzados que ahi se vier refrescar no Douro, e de 
ir procurar à Palestina as langadas que por cà me fal- 
tam. E frotas por ahi nào tardam, que, segundo ouvi 
dizer, o nesso santo padre o papa prégou nova cru- 
zada. 

Affonso Henriques tornou a sorrir. 



— Querendo Deus, continuou elle, para outra coisa 
nos hào de servir os cruzados de Flandres que nSo 
seja para nos roubarem um dos mais valentes cavai» 
leiros das Hespanbas. Nào é assim, D. Theotonio? 

D. Theotonio ioclinou-se em signal de assentimento, 
com um sorriso enigmatico nos labios. Evidentemente 
el-rei e o prior de Santa Cruz entendiam-se As mil 
maravilbas, mas o velho Gongalo Mendes é que os 
nào entendia a elles; Lourengo Viegas pasmava tam- 
bem, e, cravando em silencio os olhos no rosto do 
monarcha, parecia perguntar-lhe o que signiGcava o 
seu modo inquieto e mysterioso. 

N'isto um pagem entrou na sala, e, depois de re- 
lancear os olhos para todos os lados H procura dei- 
rei, aproximou-se do grupo e veiu dizer algumas pa- 
lavras ao ouvido do soberano, que se inciinou para 
esentar. 

Ao endireitar-se, o resto de D. Affonso Henriques 
estava radiante de jubilo. 

— Esperae-me aqui, senhores cavalleiros, disse elle 
com voz vibrante, que boas novas bei de trazer em 
breve. 

E safu da sala, depois de trocar uma rapida vista 
d*olhos com D. Theotonio, deixando ficar assombrados 
OS seus dois curiosos Qdalgos. 

Os rumores do sarau expiram em frouxos echos na 
sala d'armas abobadada dos pagos de Coimbra. Dois 
ou tres lampadarios apenas, suspensos por grossas 
correntes de ferro do fecho dos arcos que suslentam 
a abobada, derramam uma luz mortiga na vasta qua- 
dra, accendem uma pallida chamma no ferro das lan- 
gas, cncostadas aos lanceiros, e matizam de reflexos 
scintillantes os sombrios corpos d'armas suspensos das 
coiumnas, que dào ar de sentinellas silenciosos e im- 
movcis, volando durante as longas noites de inverno 
na amplidào do aposcnto sinistro. 

Primeiro parece que està deserta a sala d'armas, 
poróm quem se alTirmar vera projeclarem-se no cliào 
lageado sombras gigantcs, cujo movimento nào é pro- 
duzido so pela oscillagào dos lampadarios; quem es- 
tiver bem A escuta ouvirà um ciciar de vozes sumidas 
que parte de um dos cantos do aposenlo. 

Tres homens convorsam, effectivamente, junto de 
um d'esses feixos de coiumnas esguias que alli abun- 
dam. primoiro conhecemoi-o jà pela sua alta es- 
tatura, 6 D. Affonso Henriques; dos oulros dois, um 
traja comò nobre cavalleiro christào, o oulro veste as 
roupas odiadas dos moìriscos. Conbecemol-o a este 
tambem; é Mogbar, o sombrio africano, cujo amor Zu- 
leyma repeliiu, e que Àbu-Zakaria, o Wi de Santa- 
rem, tao cruelmente offendeu. A sua vinganga està-se 
aili preparando. 

Vae no firn a convcrsagào, e, comò que resumiodo 
que anteriormente se fallàra, D. Affonso Henriques 
diz, voltando-se para o cavalleiro christào: 

— Eulào, Mem Ramires, é absolutamente verdade 
que nos fora aflìangado? 

— Senhor, sim, respondeu Mem Ramires, o sarra- 
ceno disse a verdade pura; disfargado em trajos moi- 
riscos, e guiado por elle, que nunca me desamparou, 
vi e ohscrvci tudo em Santarem; a vigilancia nocturna 
é pouca, e na quadrella indicada nào vigiam esculeas 
nem sobrc-roldas. Pelo valle que fica enlre a fonte 
de Atamhar e o monte Iraz discorre o atalho que nos 
conduzirà A fortaleza. Podeis dizer, senhor rei, que 
Santarem 6 vessa. 

— Bem, Mem Ramires, tornou Affonso Henriques 
com gesto soberano, apraz-me a vessa confianga, e, 
effectivamente, nada me sera impossi vcl, tendo ao meu 
lado cavalleiros tao audaciosos e tao babeis comò vós 
mostrastes ser. Ide descangar, que bem precisào ha- 
veis de ter de repoiso depois de tantos dias de fadiga 
e sobresalto. 



ARCHIYO PITTORESCO 



55 



Mem Ramires retirou-se, e o scu passo pesado, que 
acordava os cchos d'aqueilas vastas abobadas, nào tar- 
dou a perder-se ao longe. D. Affonso Heoriqucs e o 
nioiro ficaram s6s. 

Houve um silencio entre cllcs; a final, D. Afifonso, 
depois de ter encarado longamcntc o resto sombrio 
do africano, disse-lbe com voz pausada: 

— Sarraceno, se fosses da nossa fé, tamanho ser- 
vigo me prestaste, que nào hesitaria em calgar-te as 
esporas de oiro de cavalleiro; mas professas urna lei 
inimìga, e, sera querer penetrar o motivo que te le- 
vou a auxiliar-nos, reconhcgo que ISo fielmente o fi- 
zcste, que nào ha premio que nào meregas; falla pois, 
e fìca corto que nas arcas da torre albarran dos pagos 
de Coimbra ainda ha oiro bastante para saciar a tua 
cobiga. 

moiro moneou a cabega com desdcra. 

— Nos campos de Al Magbreb, quando despego uma 
setta do meu arco, duzentos cavaileiros correm à re- 
dea solta a agrupar-se ^m torno da minba tends\ flu- 
ctuante. Meu pae, com os seus proprios dinheiros, le- 
vantou a aljama de Cairwan, cujo mibrab, todo de 
marmore, tem na frente duas columnas de pòrfido 
purpureo, quo as nào ha similhanles no Oriente, e 
que cmir cbrislào de Byzancio offereceu por ellas 
seu peso de oiro. Guarda, pois, as tuas riquozas, 
Ibn-Errik; o leào do deserto nào veiu pedìr o auxilio 
da aguia das montanhas de Al-Djuf senào porque ella 
tem azas para ir buscar a preza aos pincaros aonde 
nào chogaria o leào. Abu-Zakaria, o a^negado infame, 
que rejeifa a santa fé dos sectarios de El-Mahadi, 
affronta os verdadeiros crentes, e orgulhoso domina 
em Santarem a formosa; tu, Ibn-Errik, foste o esco- 

. Ihido de Allah para punir o criminoso: cumpre a tua 
missào, que cu so quero o que te pedi. Segundo as 
tuiis promessas, Abu-Zakaria e sua fìlha pertoncem- 
me; nenhum dos teus Ihes podeni tocar, e tu deixar- 
me-iias completamente dispor da sua sorte. 

— Que a tua vontade soja feila, respondeu Affonso 
Henriques. 

moiro cruzou as màos no peito, murmurou um 
sah\ rcspoitoso, e salu vagarosaraenle. 

Affonso Henriques algum tempo se conservou pen- 
salivo, comò se procurasse sondar estes mystcrios do 
coragào humano, depois, erguendo altivo a cabega, 
encaminbou-se com passos rapidos para a sala onde 
tumultuava o sarau. 

lam afrouxando as dansas e as conversngOes; os 
bobos, fatigados jà, despertavam apenas um sorriso 
nos labios dos que os ouviam; as violas dos nienos- 
treis expiravam em languidos aceordes, e as damas 
a custo escondiam mal reprimidos bocejos, quando 
de subito Affonso Henriques entrou na sala com passo 
vivo e desombaragado. 

So ao verem-n'o, lodos perceberam que elle acabava 
de tomar alguma grande determinagào; nos seus olhos 
brilbantes respiendia o jubilo, a sua fronte erguia-se 
com altivez. 

— Scnhores cavaileiros, disse elle, e a sua voz vi- 
brou dura e sonora no meio do silencio que de su- 
bilo se estabelecóra, àmanbà antes do romper d'ai va 
devemos sair de Coimbra; é necessario dcspregarmos 
de novo à brisa da Victoria o estandarte da cruz; é 
necessario que os infieis saibam que el-rei de Porlu- 
gal e OS seus valentes cavtilleiros ainda nào csquece- 
ram o caminho das cidades moiriscas. 

— Rcal, real, bradaram com jubilo todos esses he- 
roes de epopèa alli agrupados, e oste som de guerra 
comò que foi vibrar ao longe na sala d armas silen- 
ciosa, e acordar cchos sonoros nos escudos pcndentes. 

Com esse brado de enthusiasmo confundiram-se al- 
guns flobeis suspiros de donas e donzellas; uma la- 
grima deslisou pelas faces da gentil italiana, mas en- 
xugou-a logo, que a esposa de Affonso Henriques, a 



rainha de Portugal, n'essa cpocba de beroismo, tinba 
obrigagào de compelir com as espartanas em varonil 
inflexibilidade. 

D'abi a pouco, pelas ruas de Coimbra adormecida 
ouvia-se o tropear dos ginetes, e o riso e as conver- 
sagOes dos cavaileiros que voltavam radiantes de ju- 
bilo aos seus solares ou às suas habiCagOes urbanas. 

E na sala, minutos antes chela de luz e de harmo- 
nia, aninhava-se a treva e o silencio; nos maineis e 
lagarias das janellas, nos artezOes do tecto, nos capi- 
teis das columnas, nào restava nem um lampejo, nem 
um echo; apenas se ouvia esse vago zumbido que pa- 
rece a conversagao mysteriosa dos cspiritos da noite. 

E a Ina banhava com o seu branco esplendor as 
pallidas muralhas da alcagova silenciosa. 

(Contln&a) H. Pihiiexro Cbagas. 



MAIS UM NOME PARA IN'SCREVER NO CATALOGO 
DOS RESTAURADORES DE 1640 

(Conciasi^). Vid. pag. 42) 
II 

Nào foi possivel ù nossa diligencia descobrir onde 
hoje parem, ou que destino levassem as carlas enun- 
ciadas e appcnsas ao requerimento supra, nas quaes 
devei'ia achar-se demonstragào pienissima de que o 
edificio da acclamacelo de D, Jodo iv tivera, comò ahi 
se diz, no dr. Joào Sanches de Baena o seu primeiro 
artifice, A existencia d'ellas e a veracidade do seu 
contexto sào, porém, reconhecidas e comprovadas por 
outro documento authentico, e proprio para desvane- 
cer até sombra de dùvida, ainda em consciencias me- 
ticulosas. É a mercé feita ao impetrante Luiz Sanches 
de Baena, por alvarà de 23 de juiho de 1683 (em vir- 
tude do requerimento que deixàmos transcripto), lan- 
gada a fi. 136 do Livro ni do registro das mercés de 
D. Fedro ii, que no arcbivo nacional da Torre do 
Tombo se conserva ao alcancc dos que pretenderem 
vélo 1. 

è 

A prova resultante das alludidas cartas accrescem 
ainda algumas consideragóes, em nosso entender de 
grande peso, e que, comò taes, nos parece nào dei- 
xarào de scr avaliadas pelos que attenta e imparcial- 
mente entrarem no exame e averiguagào do assximpto. 

Nào constando que Joào Sanches de Baena, nos 
quatro annos que sobreviveu à restauragào de 1640, 
requeresse a el-rei graga ou mercé por scrvigos pres- 
tados por si, nem ainda pelos de seus avós, que to- 
dos serviram a casa de Braganga, e eram da obriga- 
gào d'ella 2, é comludo certo que logo era Janeiro de 
1641 Ihe foi por D. Joào iv couferido o fòro de Gdalgo 
cavalleiro, bem comò o de mogos fidalgos, com exer- 
cicio no pago, aos quatro fìlhos que entào tinba. E 
notc-se que o decreto que dopois generalisou a con- 
cessào de simìlhante fóro aos desembargadores do pa- 
go, tornando-o inherentc ao cargo, é de 14 de juIho 
de 1758, e, por conseguinte, cento e dezesete annos 
posterior ù data d'aquella graga especial *. Uma so 
d'estas mercés era tìda, em tempos de menor prodiga- 
lidade, comò avanlajada recompensa de servigos relc- 
vanlissimos. 

1 Temos presente a certldio anthcntlca dVssa mercè, extrahida do 
refendo llvro, a qual n&o reproduzimos para n2o alongar mais este 
artif^o. 

) Entendlam-se por osta phrase crlados ou eropregados de conflan- 
fa, taes comò secretarios, roodicos, advogados, etc. 

3 Sens fllhos houveram ainda todos, durante o proprio reinado do 
D. JoAo IV, ten^as e favores de grande monta, a sabor: O primeiro, 
Pedro Alvares Sanches, a promessa de uma commenda da ordem de 
Cbristo da lota^io de ccm mil róis, e em quanto n&o entrasse niella 
a pcnsio annual de qaarenta mil réis effcctlvos com o habito. O se- 
gundo, Luis Sanches, quaranta mil réis com o habito, a titulo de com- 
menda. O terceiro, Francisco Sanches, uma capclla effectlva do ren- 
dimento de trlnta mil réis. E o quarto, Qaspar Sanches, eincoenta 
mil rois de pensSo em um dos bispados do reino. Estas mercfts tem 
a dau de 35 de Junho de lùòi, Vid. no archlvo nacional o Livro xi 
d<u por:aria$ a fl. 400. 



56 



ARCfflVO PITTORESCO 



Se para alguem for materia de reparo a circunstan- 
cia de que nos diplomas por que taes gragas secon- 
feriram iiào ha sequer a ininima allusào à parte que 
Joao de Daena tomàra no feilo da indepeudencia, dir- 
Ihe-bemos que nào so n'estes, mas em todos os que 
por aquellc tempo se passaram, se observa a mcs- 
raa omissào. Julgou el-rei D. Joao iv que couvinba 
guardar n'esta parte um silencio absoluto; e nos li- 
vros da sua chancellaria, que se guardam na Torre 
do lombo, nào existo um so alvarà ou carta de mercé 
em (^ue, tratando-se dos individuos que de noloriedade 
influiram ou concorreram para a sua elevagào ao tbro- 
no, se alluda, remotamente que seja, asìmìibanlefacto. 

A razào deste silencio, e da parcirtionia que cntào 
houve na distribuigào das gragas, acbàmol-a em parte 
explicada em obra coeva e raanuscrìpta, de que pos- 
suimos còpia, e ò, qual, por effeilo do nesso bubitual 
e incurioso desleixo, se negou ató agora a pul>licidade 
da impressào, concedida a tantos escriptos de some- 
nos valor e interesse. É o Tacito portuf/uez, vichi dei- 
rei D. Joào IV, por D. Francisco Manuel de Mello. No 
livro IV d'essa obra, infclizmente incompleta, diz as- 
sim distincto bistoriador: 

«ElRei aconselhado do secretarlo Lucena, elegeu 
pela primeira e mais conveniente maxima nào tirar 
oflTicio nem fazer mercé, comò primeiro Ibe parecesse; 
assegurava os animos dos occupados, e conseguindo 
que seria mais facil a seguranga que a conformidade 
(los subditos, confiava que os portuguezes antes sof- 
freriam Ihes tardassem as mercés, que as julgariam 
por bem repartidas: por ser gente por aquella emu- 
iagào que os leva a sentir mais o proveito alheio, que 
seu damno proprio. Era practica constante do rei 
e dos ministros: Defendamos todos a capa, e depois 
partamol-a. » 

Cabe em conGrmagào do nesso presupposto apontar 
aqui que se ve coni respeito a Joào Finto Kibeiro. 
leve elle carta de coiwelho em 11 de Janeiro de 1641 ; 
carta de contador-mór do reino em 14, e de desem- 
bargador do pago em 20, tudo do dito mez e anno; 
e foi ainda noraeado guarda-raór da Torre do Tombe 
em 2 de abril de 1644. Pois em nenbum d'esles do- 
cumentos, registados a fi. 6, 6 v., 20 v. e 318 v. 
do livro XIII da supracitada cbancellaria, se encontra 
a mais leve refercncia aos successos de 1640, limi- 
tando-se todos às clausulas geraes: ^Tendo em comi- 
deracùo as letras e merecimmtos, etc.r> 

proprio D. Antào. de Almada, que obleve uma 
pensào annual de oitocentos mil réis, por alvarà de 
10 de junbo de 1643, registado no livro xii a fl. 329: 
recalu essa graga exclusivamente sobre os servigos por 
elle prestados na sua embaixada a Londres, sem que 
niengào alguma se fìzesse do muito que interviera, e 
com tamanho perigo, na empreza da restauragào. 
titulo de conde de Almada, que muitos se persuadem 
datar d 'aquella epocha, so chegou a veriGcar-se em 
seus descendentes passado seculo e rneio, por mercé 
da rainba D. Maria i, em 13 de maio de 1793. 

unico documento, pois, officiai que apparece por 
aquelles tempos, em que se falla de servigos à casa 
de Braganga feitos com amor e zelo, é o que se pas- 
sou a favor de Luiz Sancbes de Baena, referindo-se 
aos de seu pae, Joao Sancbes, e dando por verdadei- 
ras e provadas as allegagOes constantes do requeri- 
mento que acima trasladàmos. 

Occorre por ultimo uma reflexào que, embora sub- 
sidiaria, nào deve ser esquecìda. 

Joào Sancbes de Baena foi casado com D. Guiomar 
Carneiro de Sousa Freire, terceira neta de D. Alvaro 
Vaz de Almada, primeiro conde de Abranches, aquelle 
que na batalba de Alfarrobeìra pagou com a vida a 
sua generosa e leal dedicagào ao infante D. Fedro. As 
familias Sancbes de Baena e Farinha contrabiram al- 
liangas successivas na casa dos Almadas desdc o rei- 



nado de D. Affonso v até o de D. José, corno se ve 
de nossas hislorias e memorias genealogicas. Aobao- 
do-se, pois, seus membros em proximo grau de pa- 
rentesco ao tempo da restauragào, que coisa mais uar 
turai entre familias assim aparentadas, e nas quaes 
militava a communidade de sentimentos e interesses, 
que mutuo e prèvio accordo em negocio de tal ma- 
gnìtude, corno era o da conspiragào destinada a tor- 
nar a patria livre e independente?... É uma conje- 
ctura que pouco valor teria por si so, mas que, à vista 
das provas positivas que possuimos, adquire para nós 
um caracter de probabilidade que toca as raias da 

certeza. Isvocekcio Fkamcisco da Silya. 



A DANSA 



I 



A dansa é a arie que, com o auxilio da musica, 
regi|la os movimenlos, os gestos e attitudes de uma 
pessoa. 

compasso caracterisa a dansa, comò caracterisa 
canto. Sem compasso, os movimentos mais vivos 
e animados do dansarino sào apenas saltos, corno as 
vozes do cantor sào tao sòmente gritos. 

Assim corno o canto, a invengào da dansa data dos 
primeiros. tempos da civilisagào e teve origem em as 
nossas paixòes. Mas commogòes mais violenta», o bo- 
mem nào podia ficar tranquillo nem soccgado. Foi-lbc 
mister recorrer aos meios extraordinarios para demons- 
trar extraordinarios sentimentos. As palavras sairam 
mais accentuadas e os movimentos foram màis vivos. 

luventaram-se o canto e a dansa quando um inte- 
resse commum inspirou o mesmo sentimento e a mes- 
ma expressào a muitos individuos. Para evitar a con- 
fusào que resultaria de tantos gritos e movimentos que, 
embora simultaneos, eram discordantes, sujeilaram- 
u'os a um rytbmo e compasso communs. 

Tal regularidade parece achar-se em barmonia com 
a primeira organisagào do culto dos douses, com a 
qual se prende tambem a primitiva legislugào. in- 
ventor das leis inventou, sem dùvida, o canto e a dan- 
sa, que procedeu evidentemente do espirito de ordem. 

II 

A dansa, comò o canto, enconlra-se em todos os 
ritos religiosos. 

Entrava nas ceremonias que se celebravam no tem- 
pio dos judeus. Segundo a opiniào dos interpretes das 
sagradas letras, os sacerdotes do Senbor estavam di- 
vididos em dois córos, um dos quaes dansava ao som 
da musica que servia para o outro entoar os psalmos. 
Quando o mar que se abriu ante os judeus tornou a 
cerrar-se para os egypcios, os filhos de Israel celebra- 
ram este grande beneficio do Supremo Greador dan- 
sando ao som de cantos ìmprovisados pela irmà de 
Moysés. 

Foi dansando ao som de timbales que a filha de 
Jephté veiu com as companbeiras ao encontro de seu 
pae. Estavam dansando as raparigas de Silo para cele- 
brarem o anniversario de uma festa do Senbor, quando 
foram arrebatadas pelos benjamitas. Foi, em fim, com 
dansas oue os judeus fìzeram a inauguragào da esta- 
tua do Dezerro que adoraram em quanto Moysés es- 
teve no monte Sinai. 

David dansou ante a arca santa quando a levou da 
casa de Obededom para o seu proprio palacio. rei- 
propbeta dansava, segundo o texto sagrado, de totis 
viribtis, com todas as forgas, ao som das lyras, das 
violas, das barpas, das trombetas, dos sistros, dos tim- 
bales e das citbaras. 

Os hebreus imitaram n'isto os egypcios, que jà ti- 
nhara side imitados pelos gregos; e os gregos intro- 
duziram oste uso enire os romanos. 



Allenivo PITTORESCO 







n quadra da Bttchjn 



A NUBU 

Enlrc Egypto, a Abjssinia e o mar Vrrrncllio ca- 
londe-sc urna vasta rcgiiìo chamailn Nubìii, pur onde 
COITO Niloanlcs de entrar no Hgyplo. Tt'iu iR' coin- 
primpnlo, de Dortp a sul, 1:750 kitomclros, n uns 
1:000 na sua maior largura, de ìfsìn para oi^lc. 

Comprt-lieiide a Nut)ia os soguiiUes paizcs: roìno 
de Seiinaar 6 a mais importante das suas divit<ues. 
Com este nome fundaram oscheluks, no principio do 
soculo XVI, urna poderosa monarchia, quo so achava 
em muita decadi'ncia nos come^s do scculo actual, 
quando os e^ypcios Ibc invadirum o lerritorìo, dci- 
xando-o stì dt'pois de o terem dividido e feito seu tri- 
liulario. Presentemeiilc, as fronteiras d'oslo reino ape- 
oas cncorram a ter^a parte do sru aniìpo lorrilorio. 
A sua capilal 6 a cìdade do Scnnaar, quo e!>ta mos- 
irando eni um monrao do ruinas do edifìcios gmodio- 
sos, entro os quaes avuila o pago do sous aniìgos reis, 
a par do um laliyrinibo de ruas estrcilas, lortuotias e 
iminundas, guarncridas de miscraveis cahanas cotter- 
las do colmo e barro, comò as cidades e na^'ics des- 
com do fastigio das grandezas o dos esptctidoros alò 
se ronfundìrcni no pò da miRcna, quando a sorto iiao 
as lan^a no sepulcliro dos imperios. Scnnaar apenas 
conta uns nove mil habìtantes. 

Ifalfay £ um pai;: coilado pelo Nilo, (ambcm iribu- 
lario do Hgypto, tendo por capilal uma cidadc do seu 
mesmo nome, em muila decudcncia, e contendo Ircs 
a qualro mil almas. 



reino de Cliendy, cslcndido ao longo do Nilo, ba 
trcs scculos (lorescenle v poderoso, 6 muilo notavcl 
na hisloria porquc corresponde ù parie mais impor- 
tante do celebre estado tbcocralico de Ueroc, o qual 
foi i>or muitos seculos um grande centro de civilisa- 
£30, d'onde se irradiava a luz da sciencia e dos artes, 
projeclando o seu ctarfio no meio dos povos barbaros 
quo cireundavam. Protendem alguns oscriptores quo 
tOra aquelle estado o bor^o das insliluicOos rcligiosas 
e politicas dos egypnios. Cliendy, capital d'estc eslado, 
era, atò ao tempo da invasSo de Isroail-bach-i (1822), 
emporio commercial da Nubia, e o seu principal 
mercado de escravos. Agora, muito rodur.ida e cmpo- 
brccida, nao encerra mais de scic mil moradores. 
, Nas suas cercanias estuo duas bumitdcs uldeìas: 
Naga, quo por sua pequenez e pobreza singularmenlo 
contrasta coni as ruinas de sete templos quo ainda 
abi alardciam restos soberbos da sua grandiosidado e 
opuleiicia; e Assur, ou Hachur, que, mcio escondida 
entro as fragas de uma collina, parece envergoiibar- 
se da sua bumildade ante as proximas ruinas da aii- 
tiquissima cidade de Meroe, tao ceiebrada pelos ì^eus 
monumentos, pela prosperidade do seu commercio e 
pelo oraculo ae Jupiter-Ammon, consonando ainda 
algumas pyramides corno padrùcs d'esse passado glo- 
rioso. 

paiz Damer, banhado pelos rios Nilo o Atluimb, 
é um eslado pouco exienso, outr'ora govcrnado por sa- 
cerdoles mabomelanos, sob a presidoncia de um pon- 
lilicc du meama scila, coni o tilulo de d-Fukyh el- 



58 



ARCHIVO PITTORESCO 



Kebir. Tom por capital a cidade de Damer, que nao 
possue pergaminhos de nobreza, mas que, cm com- 
pcnsagào dos brazOcs que Ihe faltani, apresenta qui- 
nheutas casas, guarneeendo ruas direitas, alinhadas e 
arborisadas; urna bella mesquìla; commercio muito 
animado; agricultura bastantemente descnvolvida; al- 
gumas industrias raanufactoras em progressiva adi- 
vidade; e, por Umbre d'oste escudo de mais aprecia- 
vel fidalguia, urna eschola, a mais celebre da Africa 
orientai, onde recebem variada instrucgào muitos man- 
cebos musulmanos. 

paiz de Barbar, ou Berber, é t5o circunscripto 
em territorio, que apenas contém quatro grandes al- 
deias, ao presente babitadas por arabes da tribù Mey- 
rcfab. 

Gbaykciah, ou paiz dos chaykeì'ahs, povo rude e 
bellicoso, porém mais dado ao roubo que ao trabalbo 
licito e honesto, estava conslitui<lo em republica an- 
tes da invasào acima refenda, sendo governado por 
Ires meliks. Korli é a principal povoagào d'este torri- 
torio. Perlo da aidcia de Moraooy oxìstem as ruinas 
do monte Barbai, reliquias da cidade de Napata, que 
desfructou durante seculos, depois de Meroe, o tilulo 
de capital da Nubia, e quo foi destruida por Petronio, 
general romano. Da sumpluosidade dos seus monu- 
montos ainda ostao dando testimunbo varias pyrami- 
des; OS restos de um tempio, que é roputado por um 
dos mais bellos padmos da antìguidade que a Etbiopia 
inforior offorcce à admirag5o dos viajantes; e o try- 
phoiiium, que 6 a mais esplendida reliquia que se 
obsorva entre as magnifìcas ruinas de Napata. 

Dongolah era o estado mais poderoso da Nubia 
na edade mèdia. sou territorio tem de coniprimonto, 
de lèste a oèsto, 1:000 kilometros, e de largura, de 
norie a sul, mais de 800. As dìvorsas invasóos dos 
cbaykeialis, dos mamelukos e dos egypcios, que dis- 
putaram uns aos outrcs a posse d'elle, despovoaram- 
n*o, e fizeram-n decadente e pobre, apesar da ferti- 
lidade do sou solo. Marakab, ou Novo Dongolah, 6 a 
sua principal cidade, de fundagào moderna, mas que 
uno oncerra mais de quatro mil babitantes. Dongolah 
a Velba, hojo quasi deserta, ora a capital nos lempos 
da sua prosperidade. Os fusles e capileis de granito, 
que jazem por terra em grande numero, espalhados 
por entre a mesquinha casaria, dizom ao viandante 
quo alti florcsceu em eras mui remotas uma cidade 
opulenta e cìvilisada. 

psiiz de Mahas 6 mui limitado. Corre ao longo 
do Nilo, e a sua maior povoagào 6 a aidcia de Tyna- 
reh. Comprobende a iiha de Says, aonde se formou 
uma pequena republica aristocratica, a qual, por se 
recusar a pagar tributo ao ìnvasor triumphante, foi 
anniquilada pelo cxorcito do vice-rei do Egypto no 
anno de 182o. 

paiz dos Barabras, mais conhccido pela denomi- 
nagào de Baixa-Nubia, dìvide-se em duas partes entro 
a primeira e sogunda cataraclas do Nilo. Derr, capital 
da Baixa-Nubia, possue tivs mil almas. Nas suas vìsi- 
nhangas vóom-se ruinas de grandiosos odificios, e uq\ 
tempio ogyf)cio aborto na rocba, e cuja construogao 6 
atlribuida por Champollion a Sesostris. Pelo numero 
de babitantes da capital conhecor-sc-ha que as outras 
povoagOes d'osta rogiào carcccm de importancia. To- 
davìa, algumas merecom mongào por causa dos odi- 
fìcios magnificos que jazem derrocados nas suas cer- 
canÌ4i8. 

Uady-llalfa é uma pobre aldeia, situada proximo de 
uma cacbooira ou cataracta que ahi fórma o Nilo, pre- 
eipitando-se por cima de alias rochas. Junto d'osta al- 
deia estào Iros famosos lomplos arruinados^ em um 
dos quaes o distincto viajantc e archeologo Champol- 
lion encontrou columnas que oUe reputa corno origem 
das ordens gregas. Cssambol ù outra aldeia miseravoi, 
porto da qual se admiram 4ìs mais assombrosas exca- 



vaQoes e magnificos templos de toda a Nubia, visitados 
e descriptos por muitos viajantes modcrnos. Sao dois os 
templos: um, mais pequeno, chamado Athor, e cons- 
truido pela mulher de Sesostris o Grande; o outi*o, 
fundagào d'este soberano, é uma verdadeira maravi- 
Iba pela vastidào da sua fabrica e pela ousadia do 
commettimento, pois que 6 lodo cavado em rocha viva. 
Adornam-Ibe a facbada quatro estatuas colossaes, sen- 
tadas, tendo cada uma de altura 14 metros, e repre- 
sentando Rhamses o Grande, que é o mesmo que Se- 
sostris Grande, e sua esposa. Transpondo o portai 
entra-se n'uma sala, cuja abobada é sustentada por 
oito piiares, aos quaes se encostam outras tantas es- 
tatuas colossaes de 6 metros e meio de altura. As 
paredes s5o decoradas coni hyeroglificos, em baixo 
relevo, e pintados, relalivos às conquistas de Pharaó 
na Africa. As córes parecem conservar a viveza e bri- 
llio primilivos, n&o obstante a immensidade dos se- 
culos que nos separam da epocha om que o pìncel 
egypcio alli deposilou essas córes. Este tempio é o 
mais bem conservado monumento da antiga arie egy- 
pcia, e que melhor a representa, porque n'elle se 
acham reunidos mui importantos specimons de archi- 
teclura, de osculptura e de pintura. 

Junto da aldeia de Amada està, meio soterrado pt^la 
areia, um tempio, fundado por Thouthmosos m ou 
Ma)ris. 

Proximo da aldeia do Ghirschó existe um tempio 
hemispeos, isto é, edificio meio conslruido de canta- 
ria, meio aborto na rocha. É obra do tempo de Se- 
sostris Grande. 

Tambem sao notavois as aldeias de Dandur e de 
Kalabscbi por dois monumentos da arte romana, que 
se erguem a par das suas mesquinhas habitagòes. 
que fica vìsinho da primeira é um tempio nào aca- 
bado, conslruido no tempo do imporador Augusto. 
que està junto da sogunda è oulix) tempio, de fabrica 
maior e mais sumptuosa, o qual love principio no rei- 
nado do mesmo imporador, continuando-se nos dois 
scguintos reinados, som que chegasse à concIbsOo, até 
que a final veiu a sor aproveitado e transformado om 
egroja chrìstà. 

Comprobende mais a Nubia, na sua parte orientai, 
OS paizes situados entre os rios Atharah e Nilo, e o 
marVermelbo. Este vasto territorio compOe-sc, princi- 
palmente, de extensos dosorlos para o lado do Nilo, e 
de montanhas penhascosas e oscarpadas para o lado do 
mar Vormolho. Està parte orientai é babilada por niui- 
tas triljus nomadas, perloncentes à grande familia tro- 
gloditica (babitantes de cavernas) e ù, numerosissima 
nagào arabe. Em mzùo da vida errante d'ossas tribus 
nao ha no interior do paiz povoagòes fìxas. Algumas, 
porém, se encontram nas margens do rio Atharah, e 
no litoral do mar Vermeiho, dadas A agricultura e ao 
commercio. Olba e Suakim sào as principaos da boìra- 
mar. Està ultima tem bom porto, multo frequentado, 
e cncorra umas oilo mil almas. 

A parte occidenlal da Nubia, mais pequena que a 
orientai, fica a oéste do Nilo. Comprobende o deserto 
de Bahiuda, extensa solìdào de absoluta esterHidade, 
e desorto que so estende junto à margoni esquerda 
do Nilo, no meio do qua! se acha o oósis de Selinieh, 
wlobrado polas formosas palmoiras que ahi baloigam 
nos aros suas graciosas copas carrogadas de tamaras; 
e tambem afamado polas camadas dosai gemina, que 
alli se encontram, e que sào exploradas annualmente 
polas tribus nomadas do paiz visinbo d'este deserto. 

A Nubia, em goral, 6 uma rogiào formada de de- 
scrtos de areia, de planicies de torrenos de alluviào, 
de cordilbeiras de sorras mais ou monos olevadas, com 
seus vallos de per meio, todos forleis, e alguns de 
multa frescura e amenidade polos ribeiros que os cor- 
tam e regam, e polos palmares e outros arvoredos 
que OS assombram. 



ARCHIVO PITTORESCO 



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Às planicies que lem escapado À invasao assoladora 
das areìas do deserto vestem-se cspontancanienle de 
tamargueiras, gracioso arbusto de delicada folbagem, 
e de urna especie de palmeìra, a que os arabes cba- 
mam doum, de porte elegante, cuja frondosa copa 
pai'cce vergar coro o peso de grossos cacbos de va- 
gens vermclluig. B nos bons terrenos das margens do 
Nilo crescem vigorosamente o lìnho canhamo, a canna 
de assucar, o sorgbo, variedadc de gramineas e outras 
plantas uleis. natciro, depositado nos campos mar- 
ginaes peJas inundagOes periodicas do Nilo, faz com 
que a cultura dos cereans seja n'elles tao facil quào 
productiva. lavrador, para ver cbeios os seus cel- 
leiros, nao precisa cangar o gado era revolver a terra, 
nem regala com o suor do seu rosto. Basta, passada a 
cbcia, ir fazendo no solo, de espago a espago, uns bu^ 
racos pouco profundos, e langar n'elles alguns gràos, 
para os ver dentro cm pouco transformados em urna 
vigosissìma seara, nào sómentc rica d'aquellas espc- 
rangas que em o nosso clima a falta de cbuvas em 
um momento dissipa e anniquila, mas tambem sem- 
pre opulenta e generosa em realisar o que promctKVa. 

Com taes auxilios da natureza n5o so póde esperar 

3 uè 0» habilantes da Nubia sejam movidos pelo amor 
trabulbo. Assim é que, em regra geral, sdo mais 
indolentes que laboriosos. Mas nào se julgue que Ibes 
falta actividade. Quando o interesse ou as paixOes os 
impellem para a guerra ou para o roubo, nenbum ou- 
tro povo OS excede na energia da alma, no vigor do 
brago, na rapidez dos movimcntos e na vcloridade da 
carreira, qucr caminbora a pé, quer a cavallo, 

Sào robustos, bem proporcionados, de tez dcnegri- 
da, cabellos pretos e corrodios. Os que se empregam 
na lavoira, nào obstante a rudeza dos seus costumes, 
a sua crassa ignora ncia e a ferocidade do seu aspe- 
cto, sfio dotados de boa indole, e, pódc-se dizcr, in- 
ofTensivos, excepto se de qualquer modo os maltra- 
tam, porquc n'este caso nào ba considcragào que Ibes 
suspenda o brago e cstorve a vinganga. Os que va- 
guoiamcrrantes, reunidos em grandes tribus nomadas, 
accumulam a occupagào de pastoros com a infame prò- 
fissào de salteadores. Escusado seria dizer que estes 
sào tao ferozes no aspecto quào perversos de indole. 
A temperatura do clima, hastantemenlo qucnte, tor- 
nando desnecessario para a commodidade o vestuario, 
faz com quo o dispensem os povos mais selvagens da 
Nubia. Assim, tem por unico vcstido uma simpies tan- 
ga, e por adorno os instrumenlos agrarios ou as suas 
armas. ILstas, porém, que consistem em um punbal, 
preso ao brago por uma correla, em um arco de pau 
ferro, algumas frecbas e um escudo de pelle de ero- 
codilo, sào n'elles distinctivo de independencia e li- 
berdade. Os lavradores, sejam cscravos ou livres, nào 
trazem armas. As mulheres usam sómente de tanga, 
se sào inteiramente desprovidas dos bens da fortuna. 
As outras trajam umas roupas compridas, de extrema 
simplicidade nas de mediana riqueza, e de feitio ex- 
quisito com extravagantes adornos nas que se con- 
sideram opulentas. xilli mede-se a riqueza, principal- 
mente, pela extensào dos campos cultivados, ou pelo 
numeroso dos rebanhos. As mulberes que mais pro- 
curam agradar pintam os beigos, e fazem do cabello 
muitas e delgadas trangas, que dispOem de diverso 
modo. Tambem occultam o rosto, encobrindo parte 
d*ellc com uma Inalba ou véo, mas nào tanto comò 
as lurcas e egypcias. 

(Continua) I. dr Vilhkka Barbosa. 



D. CATIIARINA DE BIL\GANgA 

(Vid. pag. 25) 

Andava toda a Europa accesa cm guerras dynasticas 
e relìgiosas, quando Portugal rccobrou a sua indepen- 
dencia em 1640. 



Essa horrenda lucta de trinta annos, que o Scbiller 
compendiou corno bistoriador e poz em scena comò 
poeta, foi atalhada pelos tratados de Wcstpbalia, as- 
signados em Munster, pelos quaes a casa de Austria 
perdeu a sua funesta preponderancia, que passou en- 
tào para a estirpo dos Bourbons, a cujo servigo esta- 
vam as espadas de Turenne e de Condó, que foram 
as pontas do dilemma a que se rcduziu toda a argu- 
meutagào do memoravel protocolo de 1648. 

Foram convocados para està dieta universa! os re- 
presentantes de todos os sobcranos da Europa; e as- 
sombra-nos a porfla de alvitres e instancias que em- 
pregaram os conselbeiros dei-rei D. Joào iv para que 
Portugal fosse representado no congresso de Munster, 
e ahi rcconbecida a nossa independencia. Os arcbivos 
de Lisboa, Paris e Madrid, encerram grande parte da 
correspondcncia diplomatica, das memorias e propos- 
tas que bouve nos cinco annos (1643-48) que duraram 
as conferencias. E esses documentos sào outros tantos 
titulos da capacidade dos nossos plenipoicnciarios ^. 
Entro elles cslava o Cicero dos jesuitas portuguezes, 
padre Antonio Vieira, cuja labia devia refcrlar a ra- 
posia do cardeal Mazarino, que foi o arbitro d'esse 
famoso congreso. 

Mas d'osta vez a purpura venceu a roupota. Portu- 
gal nào conseguiu sor representado n'aquelle congres- 
so, fìcando por isso excluido da paz geral, e forgado 
a continuar a guerra coni a Hes|)aniia na Europa, e 
com a llollanda na Amerìca. 

Desenganados de que nào podiamos alcangar allian- 
gas, nem a inda soccorros, sem custosas permutagùes, 
e essas seriam mais decorosas para o reino a titulo 
de apanagio dos filbos do monarclia, proseguiu-se nas 
negociagOes malrìmoniaes, apcsar da ma ventura com 
que se ha via m comegado. 

primciro marido que se destinon para a infanta 
D. Catbarina (tendo ella apcnas oito annos) foi D. Joào 
d'Austria, lìlbo naturai de Filippe iv de Ilespanba. 

Por um documento acbado pelo viscondc de Santa- 
rem nos arcbivos do ministerìo dos negocios eslran- 
geiros de Franca, sabe-se que este casamento fora 
proposto pela corte de Madrid, para obter uma Iré- 

S[oa de vinte annos, ou, quando nào, passar elrei^D. 
oào IV ao Brasil comò soberano d'aquellc estado, fì- 
cando OS dois consortes, D. Catbarina e D. Joào d'Aus- 
tria, reinando em Portugal. 

documento a que nos referimos 6 um officio do 
ministro de Franga em Lisboa para o cardeal Maza- 
rino, relatandolbc uma conferencia que livera com o 
secretano de estado Pedro Vieira da Silva, em que 
este Ibe revelóra a proposta de Castella; accrescen- 
tando que havia outras proposigOes de quo era motor 
padre Vieira. 

Como este officio vem na obra do visconde de San- 
tarcm por extracto, e muito imperfeito, bouve quem 
inferisse que o casamento com D. Joào d'Austria fora 
tambem suggerido pelo padre Vieira. 

Nào nos parece bem fundada està illagào, porquc 
alilado jesuita so visava ós alliangas com succcsso- 
res de soberania, e D. Joào d'Austria era bastardo, 
nào podia succeder a Filippe, que tinha Glbos legi- 
timos. 

Egual pccba de bastardia foi posta pelos nossos mi- 
nistros quando depois se intentou o casamento d'està 
mesma infanta com o duque de Beaufort. 

i •'È cofsa multo digna do reparo e sentimento qne se n&o rcja em 
Ltoboa nm erahaixador do um so principe estrangciro da Europa, 
quando tem saido d'osta corte onte depois da accIama9ào, e actaal- 
mento estSo «f/« em dlvcrsns psrtes.» — Vieira. 

£ OS bistoriadores estrangolros a dizercm quo fomcw mntto auxilindoa 
contra a UeBi>anba, o nomcadamcnte o actual ministro da instruc^io 
pobllca, o sr. Dnmy, na sua Hisloire de* ttmp» moderne», «fHrmando 
que vieram a Portugal 4:000 homebs com o marechal de Schombcrg; 
quando apenas foram 600, assoldados pelo visconde de Turenne, e nio 
por conta do governo franccis, quo chegou a expedir ordem para scr 
preso o marechal. Vid. a Vida do eonde de Sdiomberg^ escrtpCa era 
allemlo por F. A. Ha gnor. 1789. E as Campoffne* du mariekal de 
Schowherfff pelo general Pnmouriez. 1808. 



60 



ARCHIVO PITTORESCO 



E ainda mais. ìà desterrado da corte e accusado 
pela iuquisigào, o padre Antonio Vieira, alegrando-se 
de estar desfcito o casamento dei-rei D. AQbnso vi, 
ajiistado coni a filha do duque de Elbeuf, por compra- 
zer ao marechal visconde de Turenne, que nos pro- 
tcgia eni Franga, escrevia a D. Rodrigo de Menezcs ^ : 
«A nova do descasamento tcm sido mais acceita de 
muilos do que foi o casamento; e eu entro n esle nu- 
mero, porque havcndo o nosso rei de casar com filha 
de vassallo, nào faltaria urna lav^radora em Porlugal, 
quando o juiz do Povo nào tivesse filha. • 

Hoje, està linguagcm seria attribuida, nào jà a um 
democrata, mas a um demagogo. 

Como qucr que seja, pois nào temos mais noticias 
da uegociagào d esle segundo casamento da infanta, 
certo e que foi interrompida pela Franga. conde 
da Ericeira, que miiitou coutra D. Joào d'Austria, elo- 
gia-o no Porliigal restaurado, concluindo por dizer 
que bom merocia o titulo de grande capitào. Vemos, 
porém, que os historiadores modernos uào sào do mes- 
mo conceito, e alò um da propria Hespanha o mede 
por differente rasoira, dizendo: D, Juan de Austria 
fm por ckrto un militar de buenas prendaSj si bien 
desgraciado en todas sus combinaciones, 

segundo noivo que se destinou para a nossa prin- 
ceza foi duque de Beaufort. Quando se ncgociou o 
casamento, que jà referimos, do principe D. Thcodosio 
com a duqueza de Montpensier, sobriuha de Luiz xiii, 
a mademoiselle por antonomasia (auctora das Memo- 
rias bem conhecidas), offereceu-se juntamente, para 
compensagào d este enlace, que nos era entào mui 
vantajoso, a ^nào de D. Catharina ao duque de Beau- 
fort, neto de Henrique iv por baslardia. 

Este vaiente general era grande inimigo do cardeal 
Mazarino, e inquietou o governo d'este ministro por 
niuitos annos. Foi o caudilho da facgào dos Impor- 
tants, e, com o grande Gondc, capitaneou o partido 
da Fronde, conlra o valimcuto do cardeal; mas, ter- 
rninada a guerra, foi-lhe confondo o posto de almi- 
ranto, e n'essa qualidade veiu commandando a esqua- 
dra franceza que acompanhou a Lisboa a noi va dei-rei 
D. Affonso VI, a princeza de Aumale, que era sobrinha 
do almirante, filha do duque de Nemours, que Beau- 
fort matàra em duello. Dolorosa coincidencia, ser a 
nova rainha escoltada pelo assassino de seu pae! se 
ò que nào foi pronuncio das angustias que padeceu, 
e com ella a tranauillidade e decoro da nagào por- 
tugueza, no escandaloso reioado do successor de D. 
Joào IV. 

duque de Beaufort veiu a morrcr de ferimentos 
no assedio da ilha de Candia contra os turcos, sendo 
generalissimo das tropas francezas. Outros dizem que 
desappareceu depois da bataiha, e por isso é este um 
dos personagens que anda na lista dos nomes dados 
ao homem da mascara de ferro, preso na Bastilha, 
e cujo incognito està ainda impenetravel. 

Tambem estes desposorios se nào effectuaram, por- 
que pae de mademoiselle nào acceilou o casamento 
do principe D. Theodosio, objectando que Portugal es- 
tava assoborbado de guerra, e que demais sua filha 
jà nào era de edade (tinha vinte e quatro annos) para 
ficar sendo princeza. Accrescentando o nosso nego- 
ciador, o coosummado diplomata Francisco de Sousa 
Coutinho, que o duque destinava a filha para Carlos ii 
(entao ernigrado em Paris), «porque em Fran(;a se en- 
tende que vale mais um rei de Inglaterra sem terra, 
que um principe de Portugal em posse de tantos rei- 
nos ^.B Allogou-se tambem contra o casamento.da in- 
fanta com duque de Beaufort, o ser bastardo, pelo 
que nunca daria o titulo de magestade a sua mulher. 

(Contluùa) A. da Silva Tullio. 

i Carfcu, torao i, pug. 23. 

^ Correspondencia diplomatica. Manuscripto da acadcinla real das j 
scienciaD de Lisboa. i 



PISCICULTURA 



Nem todoB os animaes tem o mesmo regimen. Nu- 
trem-se uns de gràos, e d ahi Ihes vem o epitheto de 
granivoros; nutrem-se outros de hervas, e por isso 
OS denominàmos herbivoros. A alguns apraz sómentc 
a carne: sào os carmvoros; a outros é alimento ex- 
elusivo o poixe: a estes denominam os naturalistas 
ichtyophagoSy que vale tanto corno dizer comedores 
de peixe. 

homem, ao qual o Creador concedeu, além da 
intelligencia e do dom da palavra, muitos privitegios, 
para o differengar de todos os outros entes organisa- 
dos, sobreexcede-os tambem na faculdade que tem de 
alimenlar-se com substancias tiradas de todos os trcs 
reinos da natureza. 

Nem cause surpreza dizermos quo cxtrahe alimen- 
tos do reino minerai, nào obstante aiFirmarem muitos 
sabios ser condigào indispensavel das substancias ali- 
menticias o terem pertencido a entes organisados. 

A analyse do sangue, que é d'onde todos os orgàos 
tiram os seus elementos constiluiutes, e de todas as 
outras partes solidas e liquidas da economia revela a 
existencia no organismo de muitas substancias anor- 
ganicas, ou minoracs, figurando em primeiro logar o 
carbonato de cai, de que sào formados, em graude 
parte, os ossos; o sai commum, ou da cozinha, que 
em quasi todos os liquidos do corpo, se nào em to- 
dos, se acha; a silica; o ferro, cuja falla ou conside- 
ravei diminuigào origina doengas gravissimas; o co- 
bre e phosphoro, que primeiro se extraliiu da urina, 
em que abunda, e que existe na materia de que sào 
formados o cerebro e os nervos. 

Levam à economia ostas e muitas outras substan- 
cias inorganicas, simples e compostas, as materias 
animaes e vegetaes, que sào os alimentos por excel- 
lencia. 

Do facto do homem poder empregar comò melos de 
alimentagào muitas e mui variadas substancias pro- 
veiu chamarem-lhe os sabios omnivoro, querondo com 
esle termo scientifico indicar que é suscoptivol de co- 
mor de ludo. 

E nào se enganaram, nem nos quizoram enganar. Se 
nào, vejamos. Dos vegetaes, que conslituiram prova- 
velmente todas as suas iguarias na infancia da huma- 
nidade, ainda hoje aproveita raizes, tuberculos, talos, 
folhas, flores, fructos, sementes, e um numero infinito 
de materias extrahidas de todos estes orgàos. Digam- 
n'o as cenouras e nabos; as batatas; as hortali^as; 
OS formosos e odoriferos dons de Pomona, com que 
no estio e outono vergam as arvores e se alegram as 
mesas; as pevides; as amendoas; o assucar; os oleos; 
OS succos, etc. 

Dos animaes quasi todos os orgàos prestam agra- 
davel e substancial sustento. Sirva de exemplo o boi, 
companhoiro e amigo do homem, que o serve e en- 
riquece vivo, e Ihe abastece a mesa depois de morto. 

Tem a sciencia demonstrado que a forQa ou poder 
nutritivo dos alimentos depende da existencia n elles 
de um principio chimico, a que chamam azoto. 

Quanto maior for a quantidade d'este elemento em 
uma substancia alimentar, quanto mais propria ella 
sera para reconstruir os orgàos, que a cada momento 
se eslào comò que desfazendo. 

azote predomina nas carnes e productos animaes. 
É por isso que o povo, sabio na sua desculpavel igno- 
rancia, tantas vezes repete aquelle prudente aphoris- 
mo: «Carne, carne cria.» Por abundarem em com- 
postos azotados 6 que tanto servilo prestam comò ali- 
mento leite, OS ovos nào coagulados pela frilura ou 
cozodura, e a carne crua ou quasi crua. 

Nas partos dos vegetaes que se emprogam . corno 



ARCHIVO PITTORESCO 



61 



alimento, sobrccxcedc aos oulros componeotcs o car- 
bone, coui quanto muitos tenbam lambccn azote. 

Serve o carbone, n5o para reconstruir os orgaoa, 
mus para suslentar a respira^flo, que a sciencia mo- 
derna compara à combusiao do azeile noa candieiros 
ou,das matcrias do quc s.ìo feitaa as velas. 

È por isso quo as gorduras animaes (n'eslas lam- 
Iiem predomina o carbone), as fcculas, as gommas e 
assucar sao considcrados alimentos combustiveis ou 
respiralorios. 

Para quc a rida se mantenba em boas condigOes 6 



indispensavel que os alimentos Gejam simultaneamente 
azolados e carbonatados. 

Antes da sciencia doscobrir està verdade, parece que 
a adivinli.ìpa o boniem. 

Da imperiosa necessidade de matar a fome nasce- 
ram murtas industrias e artes, scudo uma d'estus a 
arte culinaria. 

Em quanto a fainilia htimana vlveu na siroplicidade 
primitiva, simples e frugai foi tambem a mesa. 

So OS fructos, rindo nas floree, comò elegantemente 
disse sr. Caslìlho, perFumando os ares e alastrando 




Vlrelre 4e MlBSea 



amadurcctdos o solo, eoamoravam oa olhos, Boduziaro 
o oiraclo e desaiiavam o paladar, dizendo: comei-me; 
razoavei é crer que as tetasinhas das cabras e ovelhas 
e OS uberea das vaccas, fartos de delicioso leìte, àvi- 
damente bebido pelos tenros Glbiobos, euscitassem ao 
homem a idèa de saborcar tambem aquelle nectar, de 
que, no porvir, a arte, esclarecidu pela sciencia, lira- 
ria a nata suave e divinai, a preciosa manleiga, o 
saborosissimo queijo, e o salutar aoro, em que abunda 
o assucar. 

Us ovos das aves, candidos uns, outros de cArea 
variegadas, sempre bellos e agradaveis à vista, en- 
contrados no /ufo e gracìoso ninho, cscondido enlre a 
rama das urvores, ou na griita mais accessivel à cu- 
riosidade dos mocinbos travéssos, provocariam o ap- 
petite e subministi^riam o segundo alimenta animai, 
nao liquido corno o leite, mas de consistencia mais 
l'begada à das cames. 

lììtas saboreal-as-iiiam , tio principio, os primitivos 



cacadores cruaa, sangrentas e palpitnntes; depois as- 
sadas na fogueira. 

Seria livro curiosiasimo o em que se acbassem re- 
gìstadas todas as modìficafOes por que a alimenta$9o 
Humana lem passado deade a mais remota antiguidade 
até à epoclia actual, em que urna grande patle da 
gente vive pra comer, e nào se contenta cora comer 
para viver. 

Do pooco aue a lai respeito ha escrìpto, quer em 
livros espectaimenle consagrados ao assumpto, quer 
em obras em que elle é incidentemente tratado, facil 
é inferir quanto, em (odos os tempos e em todos os 
paiies, estomago lem influido noa deatinos da hu- 
manidade, umas vezes para bem, outraa para mal. 

Deixaremos esle ponto a pennas mais bcm apara- 
das, e limilar-nos-bemos a dizer duas palavras àcerca 
de urna arte utilissima, que na gulodice de alguns, 
diga-se a verdade, leve origem, mas que hoje serve 
u muitos, ainda doa menos mimosos da boa fortuna; 



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ARCHIVO PITTORESCO 



que reprcsenta um grande capital de scicncia, de per- 
severanga e de diribeiro; que presta actualmente valio- 
80S servigos à communidàde, e que tende a nada me- 
nos, consìderada nxts suas mais uteis applicagOcs, que 
a attenuar mnìto e multo as borrorosas crises que as 
nagOcs por vàrias vezes tcm atravessado, e por que 
ndo estào isentas de passar, quando a terra se negue 
a produzir fructos, ou quando urna ou mais epizootias 
dizimera as cspecìes animacs que constituem a base 
da alimentagào dos povos. 

Referimo-nos d piscicultura, ou arte de criar peixes, 
a qua! desde muìto tempo tem attrabìdo a attengào de 
varios bomens notaveis, e que n'estes ultìmos annos 
por tal modo se ba aperfeigoado, que constitue um 
ramo importantissimo da economia rural. 

E antcs de proseguirmos, sera boni que previnamos 
uma observagào estulta, que mais de uma vez temos 
ouvido a pessoas levianas. Nào se crcia que os esfor- 
gos empregados em aclimar especies animacs e vege- 
taes, comeslivcis, e principalmente peixes, ou estes se 
recommendcm pela delicadcza do sabor ou por qual- 
quer outra quahdade, scjam para se conlranarem ou 
para se vcrem com indifferenga e desdem. Por mais 
fertil que seja o solo de um paiz, por mais poyoados 
que scjam de caga os scus bosqucs e malagacs, por 
mais que em seus mares e rios abundera peixes e 
mariscos, nunca terà de sobra para satisfazcr as ne- 
cessìdades da populagào, que, à medida que se vae 
muUiplicando e civilisando, vae tendo nocessidades 
mais variadas e imperiosas a satisfazcr. 

Nào ba muito, nos disse um bomem, que suppu- 
nhamos melhor pcnsador, que ndo bavìa nccessidadc 
de cuidar da piscicultura no nosso paiz, porque, alcuni 
de termos uma extensa costa maritima e muitos rios, 
possuìamos mais pcixe do que necessitavamos. 

Isto nao se discute, porque é um delirio. 

A diminuigao do peixe em Portugal é sensivcl ha 
tempos a està parte, e parece continuar. 

Especies bavia oulr'ora abundantissìmas, que quasi 
nào apparccem nos mcrcados, e que, quando a ellcs 
vem, se vcndem por excessivo prego. Além de oulras, 
citaremos a popular e saborosissima sardinba, a sadia 
e prestimosa pescada, o suavissimo savel e o lingua- 
do, digno de mesas rcaes. 

Quaes as causas que tem concorrido para csle grande 
mal, que nào so prejudica os consumidores, privan- 
do-os de um alimento barato, sadio e saboroso, mas 
que reduz t exlrcma penuria povoagOes intoiras do 
liloral, cuja unica industria é a pesca, nào é facìl 
dizel-o. 

Uma e importantissima 6 o uso, ou antcs o abuso, 
das chamadas redes de arrastar, e outras artes, que 
colbem a miibares os peixinbos inaprovcilaveis, e des- 
povoam as aguas. 

Em Franga tambem se expcrimontou egual pobreza 
de peixe. Mr. Milne Edwards, naturalista distincto e 
conbccido em toda a Europa pelos seus escriptos, al- 
tribuiu-a em grande parte aos progi*cssos da indus- 
tria. 

Segundo o respeitavel zoologista, as numerosas ta- 
pagens construidas ao longo dos pequenos affluentes 
oppOcm-se às migragOes dos peixes, cujas ovas devem 
sor dcposit^das junto das nascentcs. Nào podendo os 
rios mais pequenos fornecer aos maiores uma quan- 
tidade tao consideravel de peixinbos, e continuando 
as devastagóes da pesca, as especies diminuem e des- 
apparecem. 

movimento communicado Ab aguas pelas rodas e 

Eàs das cmbarcagòes movidas por vapor concorre tam- 
em muito para a diminuigào do pcixe. 
De razào é, pois, que se vulgarise o conhecimento 
da piscicultura, que tem por 6m remediar estes ma- 
les, que Udo sào pequenos. 

(OontlnAa) Sousa Tbllm. 



A FABRICA DE VIDROS DA MARINHA GRANDE 

(Vld. pag. 44) 
II 

Dìssemos aue Guilberme Stephens encontràra jà uma 
fabrica de vidros na Marinha Grande quando alii foi iau- 
gar OS fundamentos de outra fabrica, em maior escala, 
com auxilio pecuniario que Ihe dera o roaixfuez de 
PombaI, além dos immensos e ìmportantes privìlegios 
de que o cercóra. Ora, pelas inforraagOes que temos 
podìdo alcangar a este respeilo, nào foi a pequena fa- 
brica estabelccida desde todo o principio na Marinba 
Grande, mas para alii se transferìu da margem es- 
querda do Tejo. 

Nào podendo continuar a laboragào de uma fabrica 
de vidros, que nos fins do scculo xvii se fundàra na 
antiga villa de Coina (Equa- bona dos romanos), por 
falta de lonbas, pois que os carretos d'este combusti- 
vcl, scu elevado prego e outras circunstancias torna- 
vam difBcil e muito dispendioso o abastecimento da 
mcsma fabrica, lembraram-se os scus proprietarios de 
a transferir para a Warinlia Grande, por ficarem pro- 
ximos OS pinbaes reaes, o, por consequencia, breve 
e facii córte das lenfias para acudir às necessidadcs 
do fabrico. 

Nào sera està a verdade; mas é, sem dùvida, a tra- 
digào, confìrmada pelos restos de alguns fornos e pe- 
los vestigios da fabricagào do vidro, que todos podeni 
ver em Coina, na propriedade dos berdeiros da sr." J. 
Pouchet, onde depois se estabeleceu uma fabrica de 
zuarles, que se exportam em grande quanlidade para 
a Africa. 

Para conlieccr a exconlricidade dos Stephens, pore- 
mos aqui duas anccdotas que ba pouco tempo nos rc- 
ferìram. Sào muito curiosas. caractcr singular do 
ingloz em todas as parlcs e em todos os lances se re- 
vela. 

Guilberme Stephens safra um dia de Lisboa coni 
direcgào à Marinba Grande, corno era seu costume, 
para ver com os proprios olbos o andamento das coi- 
sas na fabrica, " cmbora tivesse ìnteira confianga na 
pessoa que enlào a adminislrava. Chegando a Rio 
Maior, dcscangou em uma cslalagem que alii exislia 
ainda nào ha muitos annos. 

Estava dentro a estalajadeira, a qual, ou porque 
conheccsse o bospede, ou porque este Ib'o pedissc, 
trouxe-lbe para ao p<5 um copo grande com vinbo. 
copo nào tinha de notavel senào a fórma colossal e 
a grossura do vidro. Stephens, depois de observal-o, 
chamou a estalajadeira. 

— Onde comprou este copo, boa mulhcr? 

— Veiu da Marinba Grande e nào me custou muito 
dinbeiro, meu senbor. É de tao boa qualidadc que j4 
tem cafdo no cbào algumas vezes, e ainda se nào 
quebrou. 

— Dcvcras ! 

— É tao certo que, se nào tivesse agora medo de 
que nào me safsse o dito verdadeiro, pediria ao se- 
nbor que deitasse ao cbào. 

— Se quebrar, bei de pagar-lb'o. 

Guilberme Stephens atirou o copo ao solo, e a mu- 
Iher teve o prazer de ver que ficou inteiro. 

— É de boa qualidadc, nao ha dùvida, resmungou 
Stephens, e accrescentou allo: 

— Compro este copo... 

— senbor... 

— Sim... Quanto quer por elle? 

— Jà tem uso e faz-me falla. 

— Nào importa... Guarde isso. 

E Guilberme Stephens deu uma moeda de oiro à 
estalajadeira, que a guardou com a alegria de quem 
ha muito nào ve nas màos tao avuitada quantia. 



ÀRCmVO PITTORESCO 



63 



— Visto quG jà copo é mcU) dé-me agora um 
martello, boa mulbcr. 

A estalajadeìra correa a buscar o instrumento pe- 
dìdo, e Stepbens com duas martelladas fez o copo em 
mil pedaciobos. A mulbcr estava attonita. 

— Eutào senhor pagou-mc o copo t(Lo generosa- 
mente para o quebrar em seguida? 

— Nùo se admirc. Vossé ba de vir um dia a saber 
para que isto se fez. 

Guiiberroe Stepbens dirigiu-se à Marinba Grande, 
e logo que cbegou alli mandou cbamar o admìnis- 
trador. 

— Dissoram*me, e eu vi, que se fazem aqui, para 
as tabernas e estalagcos, uns copos de fórmas gran- 
des e vidro muito grosso. 

— É verdadc, e por tal sigual que tcm oxtraordi- 
uario consumo, pois os almocreves cstào sempre abi 
a gabal-os pela duragiio... Affirinam clles que se nào 
quebram. 

— Fique sabcndo, sr. adminislrador, que isso é 
contrario aos inleresses da fabrica. 

— Pois cu julgo que simiibante fama deve acredi- 
tar a fabrica. 

— Assim deve ser. Mas de bojc por dianle nào se 
bào de fazer mais copos, nem vidros, que se nào quc- 
brem. 

Effectivamcilte, d*alli por diante nunca mais se fa- 
bricanim na Marinba Grande copos corno o que Stc- 
pliens sacrificàra em Rio Maior ^ 

A segunda anecdota é mais simplcs, mas tambem 
nào dcixa de ser interessante. fundador da real fa- 
brica de vidros falleceu cm Lisboa, ao que parece, no 
principio do segundo decennio do presente scculo. Sou 
irmào e bcrdoiro, Joào Diogo, corno respeitosa bomc- 
nagem à memoria do fìnado, ordcnou que ninguem 
mais entrasse no cscriptorio d'elle na rua das Flores, 
que flcassc fccbado comò se encontr<!ira na occasiào 
em quo o dito seu irmào o deixàra para sempre, e 
que assim se conservasse ató que os futures berdei- 
ros resolvessem o contrario. Quando se tratou de cum- 
prìr testamento de Joào Diogo, para o que, segundo 
consta, viera um parente de Inglaterra tornar conta 
dos baveres e dar a fabrica ao estado, e se abriu o 
cscriptorio, viu-se que se observàra com tal escrupulo 
OS preceitos de Joào Diogo, que alguns papeis de va- 
lor estavam em cima da secrelària no mesmo logar 
em que se deve suppor os deixàra Guiibcnne Stepbens 
para os conferir ou para Ibcs dar o necessario anda- 
mento. 

Entro esses papeis bavia Iclras que se venccram, e 
parcce que j a mais foram cobradas ! 



Entremos agora na fabrica. 

(Continua) 



BaiTO ASARHA. 



EVORA 

EGREJA E CONVENTO DE S. FRANCISCO 

(Yid. par- 31) 

X 

É grande a altura da ogroja, e todavia, exccpto a 
arcada que guarncce a frento e algumas construcQóes, 
baixas e irroguiares, quo se Ibe encostam ao indo, 
nào toni oscoras, botaréos ou quaesquer oulras obras 
de reforgo que extefiormcnte nuintenbam iirmes as 
paredes. Parece que de proposito a deixaram assim, 
erma e desacomponbada, para melbor representar em 

1 Està anecdota, bcm corno a ftegnlnto, foi-tios contatta pelo sr. José 
Maria da Fonscca, que, corno sabcm todot os qno tem o praser de 
conhecel-o o tratal-o, procura o tlcsr.an9o da sua vida activissima Junto 
dos bons e sftos livree, comò cstudioso e entcndedor. O sr. Fonseca 
ouviu a aaocd«ita. que reprodnsimoe oomo nol-a referìn, nfto se lem* 
bra a quem em Lisboa; mas indo visitar a Marinba Grande tove a 
satisfa^ào de que um dbs mais antigos operarlos da fabrica lh*a repe- 
tlsse tal qaal elle a loabera. 



sua grandeza e simplicidade a maior e a mais siroples 
de todas as idéas. 

Corresponde ù, exterior a vista interior do tempio. 
Nada obstrue a amplidào da nave, unica e indivisa*. 
Além dos rebordos dos arcos, quo tranaversalmente 
cortam a abobada e se prolongam bifurcados por Ibe 
formarem os avangamentos, nào ba outras saliencias 
nas alias paredes que se aprumam lisas e desornadas, 
corno o babito singolo de S. Francisco ^. 

Desde a porta principal até aos degraus do altar-mór 
tem a egroja 44" de comprimente; e de largura, em 
qualquer parte do corpo, abaixo do cruzeiro, IS"". A 
altura, desde o pavimento até ao fecbo da abobada, 
nào sera talvez interior a 24"*. 

Conta-se que entrando de uma vez D. Joào de Castro 
na egreja de S. Francisco, exclamàra: «Bravo tempio!» 
Foi naturai a exclamagào. Quem mede com os olbos a 
espcssura das paredes nas frestas, que é, pouco mais 
ou raenos, de 0"',70, e a compara com a eleva^ào e 
largura da abobada, receia de a ver desabar, simi- 
Ihantemente ao que, por diversa razào, succede na 
casa do capitulo da Batalba. N'uma e n'outra quizo- 
ram os arcbitectos deixar-nos d aquellcs milagres da 
arte que assustam e admiram. 



XI 



A traga que o de S. Francisco imaginou para re- 
solver problema com que nem todos se atreveriam, 
foi muito simples e engenbosa. Em vez de uma so 
paredc de proporcionada grossura, construiu duas de 
cada lado da egroja, separadas por um vào de pouco 
mais de 3", cuja parte inferior aproveitou para accom- 
modar as capellas lateraes. De espago a espago travou 
as duas paredes com outras transversaes, que em baixo 
separam as capellas entro si. Sobre estas paredes trans- 
versaes, que sào sois de cada lado, eslribou egual nu- 
mero de arcos, que dividem o lecto n*outras tantas 
socgóes, e ao mesmo tempo servem de baso a novas 
paredes, que por cima da abobada conlinuam as trans- 
versaes de um lado da egreja com as do lado oppos- 
to. E cm correspondencia a estas paredes superiores, e 
nos mcsmos planos, construiu outras debaixo do cbào, 
que egualmente conlinuam as transversats. D'esfarte 
formou no tempio scis quadros ou caixilbos enormes, 
que dentro d*ellc se nào vóem, por Bcarcm dos lados, 
entro as paredes geraos, em cima superiores à abo- 
bada, e cm baixo onterrados no cbào. Descobrom-se, 
porém, sobre os tolbados as paredes que transversal- 
menle prendem as facbadas lateraes da egreja, isto 
é, as partes superiores dos quadros. 

Para fazer mais segura a sua obra, o arcbitecto er- 
gueu outra paredc longitudinal por cima do lodo o acu- 
me da abobada, cortando assim perpcDdicularmonte e 
na linba mèdia do tecto as paredes transversaes, e do 
mesmo modo travou as inferiores com uma parede si- 
miibante, que liga debaixo do cbào os dois extremos 
da nave. Os corucliéos que se avistam na aresta mais 
alla do tecto assentam sobre as interseegGcs da parede 
longitudinal superior com as transversaes, e augmen- 
tam coni o seu peso a solidez de loda a fabrica. Como 
dissemos, sO em cima do& tolbados se vó o quo cba- 
maremos esqueleto da egreja, no qual reside a forta- 
leza com que ella lem resislido aos seculos quo de- 
correram depois da reeditìcagào, apesar do serem de 
alvenaria as suas delgadas paredes. . 

(Continua) A. Fit.ippc Siu&Ea> 

1 O padre Fialho eoneoma està singeleza, que ié uin dos mais apre- 
ciavo!s attributos do tempio, dizcndo que, se cstivcsso ornado corno 
podéra cstar, seria «um.gostoso enlevo dos olhos e admtra^o dos 
Jaiaos; e qae multa gra^a achava a quem diala 4|ae oe rellgtoeos de 
proposito o conservavam assim, por dlzer bera o pardo da pedra e do 
rofado com a cor do hablto.» Vè-sc, pois, qne nos prlncipfos do seculo 
passado estavam J4 de Incuba^fto na cabo^.x do bom do Jesnita oe ger- 
mcns da eschoia dee emplastradores, que mais tarde se formou e des- 
envolveu, e por ci^a tncan^avel diligencia vemos bojo cobertos de cai 
e reboco oe princlpaea monamcntos da cidado. 



ARCQIVO PITTORESCO 



MADREPORA CARYOraiLLIA RAHEA 

S5o infìniias as obras da crcat^o, que por loda a 
riarte, e a cada passo que damos, iios estSo asaom- 
Lrando com a sua grande^a ou com a sua maravi- 
Ihosa organisa^^o. Muitas, sobrrsalndo por seu pro- 
prio vulto, ostcnlam-se grandos e admiraveis perantti 
OS otiios do subio comò aole a vista da mais rade das 
creaiuras humanas. Outras ha, poréra, qne o vulgo 
vó com indiffercnvo ou com desprezo, mas que o es- 
pirilo reOeclido do liomcm esclarecido observa com 
enievo e verdadeiro assembro. Algumas vezps poveJa- 
sc n'estas a sabedoria e a omnipotencia de Deus com 
muìlo maior csplcndor que nas outras que mais iios 



A està ultima classe perlencem esses inratigavi'is 
arcbiteGlos que constroem os singulams cdiOcios cha- 
mados madrèporas, de Tórmas tììo exquisitas e varia- 
das, e com feitios tao liodos e tao delicados dcsenbos. 
E u&o se limita ao artificio de tacs Tabricas tudo quanto 
ba de adoiiravel e estupeudo n'easeg operarìos do Ocea- 
no. Dando principio aos seus trabalhos no fundo rio 
mar, por tal modo se estendem, se ramilicam, se mul- 
tiplicam e desenvotvem, que cUegam a formar peri- 
gosissimos cscolhos. Nilo poucas vezes ostes parceìs, 
subindo, no seu progressivo crpscimcnto, ale & su- 
perficie das aguas, cobrindo-se de areias, que as on- 




^mM"^^ -éìP^ 



das para alli arroiam da fi^luba costa, e que a seu 
turno se cobrem de regetagSo, fonnam itluis de al- 

guns kilometros de circunTerencìa. 

Eis corno esses aerea pequetiinos, fracoa e epheme- 
roa, que ao9 nossos olbos ec apreseatam creaturas in- 
signi ficantes, e aliS dosprezivcis, por sua apparente 
inercia e presumida nuliidadc, s&o dotadas de Ines 
condic&cs de fecundìdade, de for^a e de actividade, 
que, edifìcando constmccCes gìganleas, chepara, no 
loDgo curso dos tempos, a faxer notaveis alterat^Oes 
no aspccto do globo. Dù-se eate plicnomeno unicamente 
em OS marcs situados sob a zona torrida, porque n'el- 
les esiste muito maior quantidadc de zoopbitos que 
nas oulras paragens; sendo alli mais varìadas aa es- 
pecies, e propagando-se com mais forga e rapidez. 

Em voi. X d'este semanario, a pag. 108 e 109, 
ofTercccmos aos nossos assignantes urna noticia sobrc 
as madri^poras, ainda que reaumida, eufficiente para 
so ter algum conhetimento d'estes iutCrcssantes 7oo- 
pliilos. Por essa occasiào moslr;ìnios em gravura duas 
especies de dola generos differentcs de madrt'poras, 
nuandriiia e asina. Agora adornSmos cste numero 

lJ,lK,j - T,|».jr»|.l:ji Jt Ci,lro Irm,., - zi,- 



com Ulna gravura que represcnla a e.^pccic que serve 
de typo a outro genero, denominado car^opkiUia, 
egualmente rìeo em variedades curiosas e bcllaa. 

Caryophillia ramea é o nomo dado pcloa natura- 
listas il cspecic represenlada na gravura junlu. Eii- 
conlra-se em maior abundancia nas rcgióes Iropicaes, 
mas lambem existe em algumas paragens dos mares 
da Europa, onde a temperatura Ibe nSo é absolula- 
mente desfavoravcl. Tem a fórma de um tronco do 
arvore, todo guarnecido de ramiOcasdcs ; tronco e rd- 
mifica^Oes cylindricas, terminando eslas em tima co- 
mò estrella, feita por diversas laminas mui deigadas, 
por entro as quaes respiram e saem do seu involucro 
calcareo os animaes que a fabricaram para sua rao- 
rada. A cflr è similbante à da canella. 

Està madrèpora exhala agradavcl chciro. tamanho 
d'ella varia muito. Possuinios dois exemplares desta 
especie; um que apenas tem de altura 30 centimetros, 
pesando quasi 1 kilogramma; e o outro, com 65 cen- 
timetros de altura, pesa mais de 8 kilogrammns, em 
razao das suas muilas ramiliea£oes. 



ARCHIV6 PITTOBESCO 




«To» da V»r»ini — Fnt* A 



A|>C0ar das diffcreiites opiniOps que lem apparpcido 
rclalivamciilc ao iiomp de Yarzim dado a osra povoa- 
(Co, o que parete fora de dbvida é que lai denomi- 
iia^ao llie veìu da varzea cm que c^eU assente, pois 
puppondo-se que, no tempo do conde D. Uenrique, pae 
do fundador da monarchia, D. AfToiiso Menriques, exis- 
lira allì a fregueiìa de Argivaes, no logar da Varzinba, 
é bem de crer que jà fosse este nome uma derivagùo 
do de Varazim de Jusào, que tambem leve, e d'ahi, 
com o andar dos leoipos, o povo oncurtasse e ado- 
rasse lìtulo até tìcar com o unico nome que tcm 
toiiservado até os nossos dias. 

Nao se encontra, comludo, em documento alguin, 
poslo se hajam fello muitas e sérias invesliga^Òes a 
eate respeito, a data em que principiou a dar-se àVar- 
wnha o nome de Povoa de Varzim; sabe-se apenas que 
cra_ umas cartas datadas de 3 de Janeiro 1305, e en- 
defe^itdas . por D. Diniz ùs relìgiosas de Villa do Conde, 
era eujo convento devem ainda existir ', o rei lavra- 
dor chamava-lhe Varazim de Jusào; e na carta de 
doag3o pnssada a favor de seu Gibo bastardo AfTonso 
Sanches, na mesma data, confirma aqueJle Ululo. 

Em Nolrìliario vimos que o conde D. Pedro Ihe 
chama porlo de Yarazim, o que parece indiraj que 
n'aquella epocha tambem assira era conbecida a po- 
voa^o, e que jd linba importancia, embora perten- 
cesse ao senhorio e jurisdic^go de Villa do Conde, de 
que so no scculo xvii veìu inteìramenie a ecpurar-Ge. 



Quando o conde D. Ilenrique. atravessando as Hes- 
panliQg, vciu servir Alfonso de Caslclla, trouxe em sua 
companbia cavalleiros, amigos e avenlureiros que qui- 
zeram parlìcipar com elle dos perigos, a^ares e ven- 
turas da guerra; e entrc esses cavalleiros, dizem as 
chronicas, se contava um lai D. Guterro, naturai da 
Gascunfaa, antigo paìz da Franca, hoje dividido n'esle 



1, edlAelo do* W" ^ 



«cslbo, egrqja vutrli 



imperio enlre as provincìas dee Altos e Baixos Pyre- 

iieoB. 

Conquistada uma parte da Lusitania pelos esfor^os 
de D. Henrique, o sendo este possuidor j& dos leire- 
nos que entào governava romo ronde, ou consul, pelo 
dote que Ibe irouxera D. Theresa ', quiz recompensar 
a lìdelidadc e o valor dos spus companheiros d'armas, 
e a D. Guterro, comò cspecial teslìmunho de reconhe- 
cimento pelos assignaJados servi^os (jue Ihe presterà, 
deu-ibe herdades e terrenos entre GuimarSes e Braga, 
comprehendendo-se em tal e tao maliosa mercé a Po- 
voa de Variini. 

D'oste D. Guterro provfm a nobre famìlia dos Cu- 
nhas ', cujo senbono foi, comò se sabe, n'aquellas 
lerras até o reinado de D. Dìnìz '; e sendo no comedo 
do seculo XIV encorporado este senborio, ou parte d'el- 
le, na coroa, fot entào que ASbnso Sanches rccebeu 
a doagao do senborio da Villa do Conde, em que se 
incluia Varazim de Jusào *. 

Era Riho bastardo, corno se disse, dei-rei D. Diniz e 
de D. Atdon^a Rodrìgues Telba, ou de Souza, aquelle 
D. Afibn!-o Sanches, o qual casou com D. Tberesa 
(Tarejaj Martin» de Menezes, fìlha do prrmeiro conde 
de Barcellos, D. Joùo Affonso Tello de Menozea e Al- 
buquerque *, 

(ConKnlu) Bmitd AeiSKJ. 



Vfj»-, 



■MprtlO. 






do termo da OuinAri», por Hr inllgii do* Hdalf» 
io do conde t>. Pedm, pag. SIO, Hit: — -O prlmalra 



4 Vld. pig. SU do lol. IV da Àrthiro Pilivrttio. 
^ Vid- Chtrm^Taphia portuffvaa do pkdn Antonio de Car 
CoiU, tao» I, puf. SU. 



66 



ARCHIVO PITTORESCO 



EUGENIO DELACROIX 

(CoDclua&o. Vtd. pag. 49) 
II 

Àcompanhar o mestrc na sua tarcfa improba, e enu- 
merar OS quadros que no decurso dos vinte annos se- 
guintcs safram do seu gabinele, seria nào so fastidioso, 
mas tambem inutii. Delacroix trabalhou. Aivo cons- 
tante das metralbadas inimigas, deixou-as zunìr e sil- 
var, e pfoseguiu na sua obra. Talento originai e flexi- 
vel, todos OS generos Ihe quadravam e todas as scenas 
embebiam. Passava do scnlimental ao borri vel, co- 
mò depoìs de esbo^ar a Cagada do ledo desenbaria 
as abroteas e as madresilvas do seu jardim de Cbam- 
prosay. 

A ìndividualidadc do seu gonio firmava-lbe todos os 
quadros. Km 1855 esse mundo disperso de obras pri- 
mas rcuniu-se e condensou-se, e entSo os detractores 
do mcstre poderam medir toda a fccundidade d'aquellc 
espirito e todo o vigor d'aquellc engcnbo. No livro de 
T. Gautier Les beaux arts en Europe cnconlra-se ein 
resenba o numero e a vaiìa dos quadros cntào expos- 
tos por Eugenio Delacroix. A Franga comprebendeu a 
injustiga dos sarcasmos, e a Europa fìxou o olhar us- 
sombrado n'essas lélas cbeias de vida e de esponta- 
neidadc. A academia tinba de sujeitar-se ao decreto 
assellado pelo voto unanigie de milbOes de admirado- 
res, Ifigres là estava, com a sua Apothtose de Home- 
ro, glacial e tranquillo; mas Delacroix contrapunba- 
se-lbe, tendo em urna das mSos a Medea furiosa, e 
na outra a Justiga de Trajano. 

Abi estava o romantismo e o classico, a paixào dcs- 
grenhada e a ornamentaydo correcta, o poema e a bis- 
toria, a tragedia e a chronica, a vida e a morte. Com- 
tudo, Delacroix, quando procura na antìguidade ro- 
mana sujeito dos seus quadros, procura-o di* uni 
modo livrc e energico, corno Sbakespeare o procura- 
va, segundo a justa comparacào de Tbeopbilo Gautier. 
A sciencia do arcbeologo n&o o subordina nem o ca- 
ptiva; injecta sangue nas veias dos lieroes, e dà-lbes 
a duimgào perpetua. Està vida caracterisa a sua obra. 
Nos demais trabalbos dos mestres, comprebende-se 
que as fìguras estào conmiodamente n'aquelles qua- 
drados de iinbagem; vé-sc que a moldura nào é tra- 
vanco, e nào ba receio que os cavallos empinados se 
precipitem sobrc os espectadores: nos do auctor da 
Carnificina de Scio, o caso (*. diverso. Os corceis re- 
lincbanri e correm,. os homens agitam-se, as nuvens 
baloigam-se, ba Iremitos na folbagem, e as palavras 
resoam. Descon(ìa-se à momentos de que vào sair da 
tiMa aquelles grupos maravilbosos. 

Foi por isso que os sectarios da escbola de David 
feriram o ceo com a celeuma ao apparecimento do 
uma ousadia tuo insolita. Gritaram contra a profana- 
gào, contra desacato as boas regra», e cxorcisma- 
ram o espirilo mau, o diable au corps, que induzia 
novo filho da arte a lacerar as entranbas mater- 
nas, convertendo tao celestial densa em malavenlu- 
rada Agrippina. Bem dizia o proprio Delacroix n'uma 
das suas Agenda: «Os bomens da escbola de David 
passaram a sua vida a rcpetir as mesmas fórmas, nào 
imitadas, mas moidadas sobre o anligo. A Venus, o 
Gladiador, ole, sào typos que elles (em reproduzido 
com OS olbos fechados. Como se convenceram de que, 
VLÌ^.m disto, tudo o mais é um attentado contra o gos- 
to, tem para si que o bello nào ó mais do que a ap- 
plicagào de uma receita. Um passo àquem ou ak^m de 
Rapbael é para elles uma ìnfracgào detestavel; imitam 
parvoa e servilmente o mostre, até nos mesmos des- 
\ios e dcsapuros ^» 

A exposigào de 1855, congregando os trabalbos es- 

1 Th. Silvestre — Loc. cit., pRg. C7. 



pai-sos do pintor, dou a oste os foros de nobrcza artis- 
tica e OS titulos de fidalguia intellectual que Ihe haviam 
regateado os aristocratas de peruca e os academicos 
sapientes. Um genio vale bem um sabio. Um pintor 
comò Delacroix póde alguma vez incorrer em poccado 
venial contra a regna e o tira-linbas, corno um poe- 
ta, à similbanga do crcador de Othello, póde facil- 
mente supportar os dcsagrados de La Harpe. A gloria 
nào costuma cbamar a depoimento os episcopaes do 
synodo para saber se ha ou nào idoneidade em tal ou 
tal creatura sublime. talento conbece-se pela es- 
trella que tem na fronte, corno o Icào se conbece pelo 
rugido. Poderiamos ainda accresccntar : e os medio- 
eros distinguem-se, corno os astbmalicos, pela respi- 
ragào curia e pelo . vagaroso do passo. 

Gontinuemos. Delacroix nào póde ser, comtudo, ab- 
solutamente apreciado pelo simples exame dos qua- 
dros a que alludimos. A critica assevera que 6 nas 
pinturas mur.ies onde as sùas brilbantes faculdades 
se desenvolveram de um modo mais ampio. A sala do 
tbrono na camara dos deputados; o Elyseo dos poetas, 
na bibliotheca da camara dos pares; o salào da Paz, 
no Hotel de Ville; e o tecto da galeria de Apollo, no 
Louvre, sho trabalbos monumentaes d'oste pintor, que, 
arrancando a escbola frameza do arcbaìsmo greco-ro- 
mano em que ella se bavia atufado, a elevou a outras 
aituras e Ihc indicou outras veredas ignotas. 

Em quanto os bufarinbeiros da pintura olbavam de 
sostalo para os eternos quadros de Delacroix, a con- 
siderayào officiai, pelo contrario, revelava-se-lbe por 
estas incumbencias successivas. Isto e digno de mon- 
cionar-se, porque é raridadc. Quasi sempre os Pilatos 
da governacào é que mandam agoitar os civilisadoros 
egregios, deixando em quietagào beatifica a mais de 
um Barrabaz delecterio. 

A medalba da exposigào universal e o suffragio da 
academia, que Ibe abriu as portas em 1857, esperta- 
ram os amadores e os trafìcanles, e os quadros de 
Delacroix entraram na sua tardia primavera de glori- 
ficagòes unanimes. que ale entào bavia jazido no 
esquecimenlo foi procurado e applaudido. A munili- 
cencia otllcial balèra na pedra bruta de todos esses 
ignaros, e Ozerà faiscar uma centelba de admiragào 
em prol do bomem, que Ihes bavia de retribuir illu- 
minando-os com o sol da sua immortalidade glorios<i. 

A 26 de maio de 1863 a doenga veiu baler Ibe à 
porta. Partli*a olle para o seu retiro de Cbamprosay. 
corpo, extenuado pelo trabalbo continuo, e devas- 
lado pelas tempestades interiores, vergava com o pe:?o 
d'essa mào fria e plumbea. A 22 de junbo mal podia 
elle descer ao jardim a contemplar aquellas flores que 
adornavam, ou a deitar a vista ao longe para as mon- 
tanbas agrestes. A lividez augmentava, mas o sorriso, 
abria-sc socegadamente nos labios. •Aliami ga revlen- 
dra!» dizia elle com a serenidade dos que nào deitam 
sombra na terra. Depois continuava: «Uh! se eu me- 
Iborar, comò croio, bei de fazer coisas pasmosas. Sinto 
a cabega em labaredas.» A 9 ou 10 de agoslo um 
membro da academia das bollas artes veiu, em nome 
dos sous collogas do ìnstituto, saber novas do mori- 
bundo. Nào o receberam. Delacroix, sabendo quom 
era, disse com uma tristeza profonda: «Bem me affli- 
giram, bem me insultaram, bem me conìbaleram es- 
ses bomens, meu Deus!» 

E OS olbos corra vam-se-llie a pouco e pouco, talvez 
comò que para nào se fitarem n'osse quadro de luctas 
passadas e de protervas invojas. 

No dia 13 sino de SaintGermain-des-Près acabava 
de tanger a Ave-Maria, e Delacroix, com as màos en- 
tro as da sua boa serva Jenny, soltava manso e manso 
espirito, comò àquolla bora, nos alegrctos do seu 
jardim sombrio, as ultiinas flores do verào exbalavam 
mysteriosos perfumes. Gaia a noite; às sete boras me- 
nos um quarto ainda olle respirava; às sete boras ro- 



i 



ÀRCHIYO PITTORESCO 



67 



dou-liic a boca um corno que sorrìso ineffavcl> e a 
luz d aquclla alampada exlinguiu*sc à miogua de olco. 
No outro dia um punbado de terra, calcada e batida, 
cobria o corpo onde se tinbam agitado as mais gran- 
diosas paixOcs e concebido as mais audaciosas em- 
prexas. 

Tal foì esse homem que a Franga ba de contar sem- 
pre no numero dos scus primeiros filbos. As conquis- 
tas que elle fez nào sao das que podem retomar-sc. 
Para estcs Buooapartes da inleiligencia nào ba Wel- 
lingtons aforlunados. Wilkie, Lawrence, Ficiding, Co- 
n]ey, Turner, e os mais que essa rivai da patria de 
Delacroix póde agrupar no scu tempio de artistas, es- 
lendcni as màos ao auctor do Marino Falievo, e cora 
sìs proprias foibas da sua coroa tccem o laurei do 
meslre. liis ahi a confraria dos talenlos. A iiivcja nao 
transpOe os umhracs do atrio, e Gca sobre o seu mu- 
iadar, roendo-se na dcsespcragao da impotencia. Os 
filbos diloctos da arte pdiram na mesma atmospbera 
luminosa. Se ba sombra que Ihes càia das azas, essa 
nào se- eslampa senào nos vultos mcdiocres, que vi- 
vcm constantcmente agacbados, deitando o olbar cu- 
bicoso para o bando eminente das aves. 

Nas breves linhas que escrevcmos a respeito do pin- 
lor francez, nào podémos entrar no largo esludo que 
tal tissumpto merecia. Scria isso materia para um 11- 
\ ro, se que traga eslas palavras livesse bombros para 
tamanbo peso. Os Atiantes escasseiam, nào direi so 
por cà, mas por lodo esse mundo fora. As goragues 
l)arece que vào dcfinbando; e nào sei se o lavor ma- 
terial, ou anles a degeneragao dos coslunies, lem aper- 
lado e estrangulado os que Deus nào fadàra para gar- 
ras de abulres. 

Quem 6 hoje o successor de Eugenio Delacroix? 
onde estào os primogenitos d'esses poetas da rcvolu- 
gào liberal? quem póde florear a clava com que os 
albletas do cbamado romantismo alluiram as nìuralbas 
da gontilidade vetusta? segundo imperio tem lido a 
esterilidado vergonbosa. Se pcrcorrormos a linha das 
oulras nacOos, là veremos comò nas fileiras rareadas 
apenas sobrclcvam algumas cabogas cob(uMas de cans. 

Aqui nào vae confìssào de desanimo, nem falla de 
confìanga no fuluro. Recordo o que fere os olbos dos 
quo se aprazem em contemplar o movimento dos es- 
l)iri!os. Ksle movimento, em relagào ao ideili, é boje 
tardo e incerto. Accelerar- se- ba àmanbà? É possivcl. 
Do norie comegam a clevar-se uns fumosinbos tcnues, 
e as borrascas podem desalrellar-se n'um credo. va- 
galbào germanico lem de lavar oulra vez estas mus- 
gosas penedias lalinas. Dcpoìs, conio succede em lo- 
das as coisas, a messe ba de rebentar mais vigorosa. 
Devanearemos porventura? Oulros mais sabedores que 
digam. 

Vollemos ainda a Eugenio Delacroix. Em 1863 to- 
dos OS esbogos, desenbos e quadros do grande homem 
forani expostos ao publico; e entào se póde ver n*a- 
queiles tragos vagos e ìodefìnidos o embryào das suas 
mais bellas obras. N*aquelles bosquejos apenas deli- 
neados, os que tac^bavam o pintor de cegamente pre- 
cipitado poderam convencer-se de que elle, a|)esar de 
lodo arrojo da sua pbantasia, nào dcixava de pro- 
curar em rapidos lineamentos o que ao diante Iradu- 
ziria em rasgos sublimes. 

Todos esles trabalbos postbumos subiram a um prego 
fabuloso. escriplor que mais de urna vez lemos ci- 
tado (Tfaéopbile Silvestre) diz textualmeote: •Oìi est 
alle jusffà mettre en venie j à cinq franosi iks tato- 
naqes encadres.» 

Kste fanatismo significava a beatificagào do genio. 
Todos queriam possuir uma d essas reliquias, corno se 
cllas estivessem sanctiGcadas pelo conlacto d'aquella 
mào peregrina. 

Agora que, nas suas linhas geraes, conbeceroos o 
artista, vejamos um pouco o homem. Eugenio Dela- 



croix pintava assiduamente. I.evantava-sc por costume 
ùs sete horas da manbà, e trabalbava em jejum ató às 
tres da tarde; tomava entào urna refeigào das mais 
simples, recebia por comprimente algumas visitas, e 
tornava a embragar a palbeta ale desapparccer a eia- 
ridade do dia. Era sécco e nervóso, melancoiico e vio- 
lento. Prozava o iouvor dos entendidos, mas detestava 
a bajulagào dos nescios. A critica, sem que o demo- 
vesse dos seus propositos assentes, todavia incommo- 
dava-o. Na conversagào era capricboso, volubil e pit- 
toresco. Frécbava os contendores com o sarcasmo, e 
goslava de derrubar um sillogismo com duas palavras 
|)icaiites. Tinba convicgóes profundas, mas fugia a ma- 
nifestal-as. Quando, apertado pelas instancias de ami- 
gos, dava a lume na Revisla cìos dois mundos alguns 
dos seus escriptos, fazia-o desviando polidamente o 
alvo a que se destinavam os tiros. Nào Ihe era des- 
coubecida a Onura diplomatica. No irato intimo era 
expansifo e caloroso; mas em publico pai*ecia forrar- 
se com uma certa coura que o desfìgurava. Mais de 
um amigo, e dos que entranbadamente o prezavam, 
tcve resentimento da sua frieza exccntrica e impre- 
vista. Apontemos Charles Baudelaire. Julgava com re- 
clidào e escrevia com elegancia. Alguns dias antes de 
morrò r deitou ao fogo dezesetó ou dezoilo Agenda, 
onde, dia por dia, escrevéra os seus pcnsamenlos so- 
bre a arte, a vida, os grandes mestres e os contem- 
poraneos. 

Iloje, na constellagào de nomes que irradiam na 
Franga, o de Eugenio Delacroix nào lem o brillio me- 
nos intenso. A.^ luctas e as negagOes pertinazcs des- 
appareceram dianle de um sepulcliro que tinba de ser 
transmudado em aitar. Sobre esse aitar veiu a poste- 
ridade depor as grinaldas votivas, e em fronte d'elle 
curvaram-se os que créem na religiào da arte e na 
sanlidade do talento. Assìm lem de ser. Para taes bo- 
mens a morte precede a resurroigào esplendida. Ao 
tercciro dia levantam ellos a campa e surgem entro 
a acclamagào uni versai. Os vulgares dormem, no en- 
lanto, no scio da terra, cobertos de musgo e de es- 
quecimento. e. a. vidal. 



LigÀO PARA FATUOS 

(costo) 

I 

ESPEHTEZA DE UM ANALPHAnETO 

Dizem que um berdeiro da corea da Franga... 

— Qual? pergunlarào. 

Nào sabemos ao certo, mas é possi voi que fosse 
(Carlos vili. A cbronica falla de um mogo rei tao pobre 
de espirito, que, quando subiu ao tbrono, nào tinba 
aprendido coisa alguma. Ora, nào oflfenderemos a me- 
moria do successor de Luiz xi suppondo-o modelo 
deste retmto, porque, com verdade, quando aos 30 
de agosto de 1483 seu pac passou d'està para melbor 
vida, e o delpbim Carlos foi proclamado rei, oste mo- 
go, que ia cingir a coroa da Franga, contava treze 
annos e dois mezes, e nào sabia ler. Posto isto, con- 
tinuemos, ou antes rocomecemos o conto. 

Dizem que um berdeiro da coroa da Franga, que 
se considerava comò preso nos ullimos annos do rei- 
nado antecedente, expressàra o desejo de passar só- 
sinbo uma ou duas horas cada dia, assim que foi ou 
se jnlgou senhor no seu reino. Como os cortezàos, 
que por cautela o acompanhavam, se conservavam 
em grande distancia e sem sereni vistos, o mogo rei 
suppunha que Ibe tinbam feito a vontade e andava 
salisfeito. Ape^ar d'isso, os passeios diarios nào iam 
além das circunvisinbangas do pabicio, onde todos o 
conbeciam. 

Um dia, quando regressava a casa, viu no caminbo. 



ARCH[VO PITTORESCO 



sentado em urna pedra, um anciiìo que se cooservaTa 
curvado e mui attenio na comparacSo de dois livros 

3UC abrira sobrc os joelboa. ino{o rei parou ao pé 
anciao e otbou-o com espanlo, nìio porque fosse 
misa nova para elle ver algueiu enlregar-se à teilura, 
pois na corte, excepluatido o rei, todos sabiam ler; 
que sDi'prebcndiu ora a immobilìdado do leitor na 
sua preBcnga, porquo jil estava acoslumado a ver todos 
curvados e huinilbados ao eeu olbar, e n5o podia com- 
prebende)' que uni misero campone^ n&ose inlerrom- 
pesso, nem Iremesse, nem ajoelhasse dianlo d'elle, se- 
gando uso d'aquelles tempos. 
— Nao \6a quem sou? aissc o rei ao camponez, 



dando-lhe levemente com a exlremidade de um latego, 
que nao deixava nos seus passeios quotidianos. 

camponez ergueu a cabe^a, e, notando que o 
maucebo que o inlcrrogava truzia plumas no kiné, 
levou a mùo ao harrele de ìi; e, depois d'este meio 
comprimento, conlinuou a observar os dois livros co- 
rno 8G nSo bouvcsse pessoa algunia junto d'elle. 

O&odido com a desattungào e ou.vadia do campo- 
nez, mo^o rei tornou encolerisado : 

— Nao sabes, 6 amigo, que me comprìmenlam de 
outro modo as pessoas que me conhecem? E sou aqui 
conhecido de todos. 

-~ Assim sera, rcplicou o camponez sem se levan- 




O eoilmo prlBUia 



tar, e apoiando as m9os nos dois livros, corno se re- 
ceiasse que Ib'os roubassem em quanto respondia ao 
ino(o que de novo o interpellàra tao desabndamente. 
tiio duvido de que seja coobecìdo dos moradores d'està 
terra, continuo», e nem é isso para estraahar; mas eu 
Eó posso saber quem o senhor é quando fizer o favor 
de dizer-m'o. Como é possivel conhecei-o, se venbo 
de um senborio distante d'aqui mais de trinta le^as? 
moco rei, que, apesar do seu orgulbo e da sua 
ignorancia, tinba inlelligencia para avallar bem uma 
dcsL'ulpa, satisfez-se com a que Ibe deu o camponez, 
Borcnou logo, e accrescentou comò simples observa- 
cao: 

— Morando l3o distante, vens eniìio ler para aquì? 

— Acabei a minba viagem, senhor; mas quando me 
dirigia ao palacio do rei, onde vou cumprir a ultima 
voiitade de um Guado, pareceu-me que la commetter 
umi grande falla, e deacancei n'esle sitio para me 
cerlifìcar de quo a minba commissao seria bem dea- 
emponbada. 



— E por (lue nSo o v erìGcas? 

— So lenao 6 que o conseguiria, e tal é a minba 
infelìcidade n'este momento que nem sequer sei ler, 
respondeu o bomem, mostrando-se bumilbado da sua 
confisaào. Tenho, pois, medo de enganar-me quando 
me apreseotarem ao senbor rei para Ibe dar propria- 
mente que para elle conGaram ao Gnado, cuja ul- 
tima vontadc cumpro. 

Estas ultiraas palavras excitaram a curiosidadc do 
mogo rei, e, comò desejava continuar a conversacao, 
disse ao camponez: 

— Ha muito tempo que estas abi sentado, e eu te- 
nbo precisào de me sentar; levanta-te para me cede- 
res esse banco de pedra, e depois conta-me em breve» 
palavras os teus pezares, porque é possivel que possa 
mitigai -OS. 

camponez levanlou-se, com eO'eito, e de pé, em 
frenle do rei, conservando sempre os liviys aperlados 
conira o pcilo, refcrìu que indo, comò criado, acom- 
panbando um frade da abbadia scnborìal que tòm en- 



ABCHIVO PITTORESCO 



G9 



carregado de levar ao rei um brìnde do abbade, suc- 
cedeu que o dilo frade foi accommetlido de urna grave 
doenga, da qual Buccumbiu no camìnho. Anles, po- 
rém, de fallecer leve tempo de coDfiar ao seu cooi' 
paaheim o firn da vìageni. 

Tratava-se da apresenlar ao rei um dos dois li 
bavia de eutregar so um e guardar o outro sem que 
rei visse. ISascia d'abi a difGculdade. Os volume^, 
quando menoa na appareocla, eram EÌmilbaGtes; t 
nbam ambos capas de porgaminho branco, e altura 
largura tao eguaes, que entre um e o outro nflo bave- 
ria differenza de um cabcllo. So pelo texto poderiam 
conbecer-Be. volume que se nao desliuava ao rei 



fora dado ao porlador do brinde do sr. abbade comò 
remuncraj^o do seu trabalho, e por certo bavia de 
produzir quantia avulluda se o Fosse offereccr, pura 
a sua livraria particular, ao sr. Joùo de Vaqucrìc, 
presidente do supremo tribunal de Paris. Ora o ponto 
importante era nào se enganar quanto iio destino que 
devia ter cada um dos volumes; se desse ao rei o que 
era para Paris, commetterla urna falla grave para com 
o rei, mereceria severo castigo, e perderla boa occasiSo 
de enriqueccr-se. 

— Eut5o fiuado, perguntou o mo^ rei, quando 
te deu, na bora da morte, similbante incumbencia, 
nao se kmbrou de indìcar-tc o melo de conbocer o 




livro que n5o devia moslrar-se ao rei ? E accrescentou 
para comsigo: Se eu soubesse ler, era esse que de- 
sejava ter. 

— que ainda cbegou a diier-me, reepondea o 
pobre camponei!, é que o que devia levar ao rei, da 
parte do sr. abbade, come^ava assim: «Sob a santa 
guarda de Deus*; ora quando o senbor parou dianlc 
de mim, queria eu tentar o impossivel; isto é, com- 
parando a primeira pagina de um livro com a primeira 
pagina do outro, querJa adivinbar em qual dos dois 
estavam as palavras que nSo sabla ler. 

campooez fez aqui urna pausa, e depois, corno 
subitamente inspirado, accrescentou: 

— É verdade: o senbor prometteu atixiiiar-me para 
«air da difiiculdade, o que é facilimo, pois nlio posso 
acredilar, seni offendel-o, que o eenbor seja tao igno- 
rante corno eu. 

Bm seguida, tomando os livros aberlos naa mSos, 
mostrou-os ao mo^o rei. Leve rubor subiu il fronte do 
inancebo, o qual se inclinou algum tempo para os 



volumes comò se quizesse indicar que os ealava com- 
parando, mas certo era que pretendia occultar a sua 
vergonha e salvar a sua dignidade. Quando acliou meio 
de sair de tal apuro, o mo(o rei fecbou os livros, cujas 
linbas negras o incommodavam devéras, porque em 
geral uma inesperada cin-unstancìa que encerre em 
sì lì^ào e adverteucia, excìta o orgulbo dos fatuos e 



mogo rei era muito soberbo, e mais pur causa 
do orgulho que da pobreza de espirilo é que elle nao 
reccLéra inslruc^ào alguma. Receber ligOes, accettar 
preceitos, entrar no conbecimeuto dos deveres, era, 
segando elle, descer abaixo da classe do inferior que 
se cncarregasse de iustruil-o. Sem obrigai;<ìo de es- 
tudar, desejava, comludo, saber; mas a solu^iìo dada 
a oste problema, sem quebra da dignidade nem do 
orgulbo, devia ser a seguinte: ou conscrvar-sc ao pé 
do mealre durante o tempo que durasse a li^ùo- do 
camponez, e, de palmatoria em punho, appurentar que 
auxiliava o cnsino, quando na verdade era elle quu 



70 



ARCHIVO PITTORESCO 



tainbcm aprendia; ou chamar o discipulo paralhe fa- 
zcr i*epetìr a liyào, e ir assiin aprcndendo, mostmodo 
qoc cnsinava. problema de um analphabeto ensinar 
um Itomem que jà soubesse o abecedario seria por- 
ventura insoluvel, mas resolveu-sc. 
Gntretanto, o camponez comegava a manifestar ìm- 

fiaciencia para conhecer o resultado do exame dos doìs 
ivros, e mogo rei respondeu: 

— Nada tenbo a dizer-te àcerca do que vi n'estas 
paginas, porquc nào é conveniente que apjesentes ao 
rei urna coisa seni sabcres propriamente se te encar- 
rogarara de aiguma commissào que ihe agrada ou que 
o offende, pois no primeiro caso serùs recompcnsado, 
e no scgundo punido. Antes de dirigir-te ao palaclo 
do rei, corno enviado do sr. abbade, appende a ler. 

— Desejaria aprender, nào ha dùvida, tornou o cam- 
ponez, desgostoso porque jà nào podia contar com o 
auxilio promettido; mas, observou, estou velho, e, 
corno se diz na aldeìa, bomem velho nào aprende lin- 
gua; por isso gastaria multo tempo antes que sou- 
besse ler correntemente em um livro. Além de que, 
accrescentou corno ultima objecgào, o alforgc que o 
fìnado me deixou para continuar a viagem nào està 
bem rccbeado, e posto que soja muito sobrio, se vi- 
ver ainda alguns dias por cete mundo, depois de ter 
comprado o necessario para o alimento quotidiano, 
nào me restarà o sufficiente para pagar a um mcstre. 

— Nem a hospedagem, nem o sustento, nem as li- 
^Oes do mestre lìào de diminuir scquer um obolo do 
que resta no tcu alforge, retorquiu o mo^o rei, que in- 
teriormente amadurocóra o scu projeclo. Ha n*cstes si- 
tios, junto da egreja cuja torre se ve d'aqui, um ho- 
mem instruido, o mestre Joào Gautior, que reccbe 
todos OS annos do paiacio do rei uma boa esmola; 
dize-lhe que vaes da parte do pequeno Carlos para que 
le dil poisada e ensino; e d aqui a pouco recebcrà elle 
uma recommendagào pura que nào te haja comò cmbus- 
teiro. Logo que saibas ler eu te apresenlo ao rei; mas 
comò dcsejo certificar-mc do adiantamento que vaes 
tendo, pois me sera agradavel conhecer que a minha 
prolec(;ào 6 bem empregada, bas de ir todos os dias 
repetir-me a ligào da vespera. Logo te mandarci di- 
zer a qual porla devcs baler e por qucm dcvoràs per- 
gunlar para me veres. 

Foram estas palavras proferidas com tal accentua- 
Qào de auctoridade, que nào deixaram de infundir 
piena confianya no camponez; e, portanto, na occa- 
siào de dirigirse para a casa do indicado nìestre fez 
so a seguinte pergunta : 

— Devo mostrar os livros ao mestre Joào Gautier? 

— Nào fagas tal coisa, respondeu o mo^o rei; so 
deves mostral-os a mim quando possamos lél-osjun- 
tameote. 

H 
ENSINO PRIMARIO 

Como fora ajustado, passados dois dias o camponez, 
discipulo do mestre Joào Gautier, foi apresentado ao 
mogx) rei por um criado confidente d'està crian^a co- 
roada. 

camponez ajoelhou humildementc em frente da 
especie de throno onde se empoleiràra o scu prote- 
ctor. Este conservava erguido na mào direita o habi- 
tual latego. velho discipulo apresentou-lhe entào a 
taboa onde o mestre Joào Gautier tragàra com tinta 
as vìnte e quatro letras do alpbabeto latino, e os nove 
signaes numericos a que cbamàmos arabicos. pobre 
velho tinha aprendido apenas a conhecer as quatro 
primeiras letras do alpbabeto; mas o scu improvisado 
examinador, a cada letra que o camponez nomeava, le- 
vantava o latego sobre o pobre bomem e dizia-lbe se- 
veramente, corno se estivesse preparado para corri- 
gil-o : 



— Estàs bem certo, de que nào te enganas? 

— Estou, sim, senhor. 

— Nào lem dùvida... le outra vez. 

E fazia-lhe repetir a mesma ligào ale que elle pro- 
prio a soubesse. 

Tal foi a primeira ligào, que serve de assumpto a 
gravura junta, e assim as subsequentes. 

Ao cabo de seis semanas, o mogo rei, despedindo 
discipulo do mestre Joào Gautier, dignou-se dizer- 
Ihe: 

— Estou satisfeito com os nossos progressos. 

Era justiga fallar no plural; pois que, gra^as ao 
camponez, o pseudo-examinador conseguirà, em firn, 
aprender o alpbabeto. 

No mez seguinte, continuando o methodo referido, 
ambos soletraram sem hesilagao, e no iim do lercoiro 
mez deste ensino primario, em que um ia aprendendo 
à custa do outro, figurando que o examinava, ambos 
liam correntemente. 

No dia em que o pseudo-examinador julgou que o 
discipulo do mestre Joào Gautier sabia Lastautc, d'i^- 
se-lhe: 

— Traze àmanhà os livros ao paiacio real: ha do 
scr um para o rei, a qucm o entrogaràs; e o outro e 
para mim, pois estou dccidido a compral-o. Parece-me 
que devo ter preferencia sobre o presidente do supre- 
mo tribunal de Paris. 

— Parecc-me que sim, respondeu o velho estudanic; 
sem auxilio do senhor nào saberia ler. 



lU 



OS DOIS LIVROS 

A unica pessoa que no paiacio real sabfa das li^Oes 
era o criado encarregado de trazer à presenta do mogo 
rei discipulo de Joào Gautier. 

Quando, no dia seguinte, em execugào da ordem do 
moyo rei, n'aquelle momento rodeado dos cortczàos, 
foi inlroduzido na camara real o simples camponio que 
vinha, em nome do sr. al»bade, entregar um livro ao 
rei da Franga, houve para os circunstantes diversas 
razOes de surpreza e admiragào, sendo a prihcipal a 
escoiha da pessoa encarregada de tal incumbencia. Os 
cortezàos queriam demonslrar a sua indignagào, mas 
o,rei, que Ihes podéra ler nos roslos aquelle baixo 
sentimento, que de certo nào o lisonjeava, impoz-lhe.s 
silcncio com o olhar, e os signaes de desagrado ces- 
saram. 

0. pobre velho nem sequer percebeu està mimica 
palaciana. 

Chegado a presenta do rei, o camponez reconheceu 
n'elle o seu severo examinador. suste e o reconhe- 
cimento, mais que o respeito, obrigaram-n'o a dobrar 
OS joelbos; a palavra gelou-selhe nos labios, e o li- 
vro cair-lhc-hia tambem das mSos altonilas, se o rei 
nào se apressasse em animal-o. . 

Em quanto o velho se conservava n'este enievo, o 
mogo rei abrfra o livro, e, passando successivamente 
as folhas, lia em voz alta, ora aqui, ora aili, alguns 
trechos. 

Espantados realmente ao vt'I-o tao sabio, os corte- 
zàos tiveram desejo de expressar a sua admiragào, 
gritando : 

— Milagre! o rei da Franga sabc Ieri 

Mas as conveniencias, que n'aquella epocha se guar- 
davam comò hoje, suffocaram-lhes a exciamagào, que 
apenas transluziu em olhares arregalados. 

Nào se pozeram na chronica os titulos dos dois vo- 
lumes, um dos quaes era destinado ao rei, e o outro 
a um illustre magistrado, amador de livros, que era 
imprudente e inconveniente apresentar na corte. 

Sabe-se unicamente que uma estampa do volume, 
que rei nào podia ver sem se juigar offendido, re- 



ARGHIVO PITTORESCO 



71 



presentava um asno coberto com rìca manta, tendo 
no dorso um vaso cheio de moedas de oiro; e a For- 
tuna, quc, erguendo os bra<;os, levantava o asno à 
maior altura, corno se ve na segunda gravura junta. 
A estampa tinha por baixo a seguìnte inscripglko: 
• Quanto mais alto a Fortuna ergue o asno, tanto 
mais breve o deixa cair ^» 



LUXO E MAGNIFICENCIA DA CORTE 
DELREI D. JOÀO V 

(Vld. pajr. 47) 

Nao obstante os grandes esfor^os das auctorìdades 
para facilitarom a jornada da familia real desde as 
Vendas Novas ale Montcmór-o-Novo, o mais quo al- 
cangaram foi evitar os maiores perigos, cegando os 
pégos e atoleiros feitos na estrada pela cbuva e inun- 
dagOes. A jornada foi trabalbosa e muito incomnioda. 

A rainba, a princeza e o infante D. Fedro deniora- 
ram-se em Montcmór algumas horas, meno» para des- 
cancarem que para darcni audicncia, recebcrcm com- 
primentos e visitarcm a casa onde nascerà S. JoQo do 
Deus, transformada entào em cgreja e convento da or- 
dem dos bospitaleifos, iustituida pelo mes^mo sauto. 
Depois do jantar, que foi servido na casa da livraria 
do refertdo convento, poz-se a real comitiva a cami- 
nho de Evora. 

Era ja muito noile quando cliegaram às portas da 
cidade. El-rei, que se acbava em Evora desde o dia 
10, ordcnàra urna recep^*ào solemne e festiva para sua 
esposa e fillios. Sairara, pois, a recebel-os as aucto- 
rìdades, muila nobreza e cirro, dois batalbóes de in- 
fanteria dois ivgimentos de cavallaria. D. Joào v, 
com principe do Brasi), e infantes D. Antonio e D. 
Francisco, o ultimo dos quaes bavia cbegado a Evora 
na vespera, acompanbndus de todas as pessoas da 
corto, esperavam a rainba no largo do cbafariz das 
Bravas, que fica junto da porta da Alagda, da parte 
de fora dos muros. 

A capital do Alemtojo adornou-sc com as suas me- 
Ibores galas. Alcatifaram-sc de verdura e floros as 
ruas por onde o prestito real bavia de passar, desde 
a porta da Alagóa até ù sé, e as janellas estavam ar- 
madas de sodas e damascos. A familia real atravessqu 
a cidade debaixo de um cbuveiro de flores, que as 
damas Ilio deitavam das janollas, ao som das musicas 
marciaes, e ao ostrondo das salvas de arlilberia e das 
girandolas de foguetes, a que vinbam misturar-se as 
acclamagOes populares. 

Feitas as costumadas ceremonias da ontrega das 
cbaves da cidade, rccitados os iongos discursos de 
felicitagào, e cantado o Te Deiim em acgào de gragas, 
OS soberanos e principes passaram da egroja da sé 
para os pagos do arcebispo, contiguos à calbedral, os 
quaes se acbavam esplondidamentc preparados para 
receberem os augustos bospedos. Soguiu-se o beija- 
mOo, que foi tao apparatoso e concorrido corno os que 
el-rei dava nos seus pagos do Lisboa. Depois serviu- 
se urna lauta ceia. A familia real comeu primeiro em 
urna sala rosorvada. As pessoas da corte que a tinbam 
acompanbado e os principaes personagens de Evora 
tomaram legar om a mesa de estado, que ostava na 
maior sala do palacio. Heforiremos, por nos parccer 
curiosa, uma succinta narragào d'osta ceia, tal qual a 
oncontràmos cscripla: «iPozoram-se oitenta talboros; 
e as duas cobortas consta vani de prato de meio cada 
uma, dezesete pratos de rozinba, oito pratos flamen- 
gos de salada, vinte e dois de moia cozioba, quatro 
flamenguinbas do azeitonas; e a terceira coberta era 
de ciuco corbelbas de dece e oito de frutas...» 

1 Este conto fui tratladado do Magwtm Pittoregqut, ondo no t. XXXT 
•e 1è sob tltnlo: Lu leqon» du j ttU roi. 



Demorou-sc a familia real em Evora até ao dia 14 
para ver os seus principaes monumentos ; e, em quanto 
anda a visitar as numerosas egrejas e conventos da 
cidade, convidaremos os nossos leitores para assìstì- 
rem à passagem do prestito do patriarcba de Lisboa, 
prestito verdadeiramente regio, cuja descripg&o nfio 
sen\ superflua no ouadro que vamos esbogando. 

D. Thomaz de Aimeida, primeiro patriarcba de Lis- 
boa, safu da capital no dia 10 do mesmo mez de Ja- 
neiro em direcgdo a Aldeia Gallega, onde se demorou 
dois dias, ó espera que se reunisse toda a sua comi- 
tiva. No dia 12 partiu d alli para Elvas, por Evora e 
Villa Vigosa. Caminbava o prestito na ordem seguinte: 
Dois palafrenoiros a cavallo; vinte e quatro mogos da 
cavallariga, levando ó mào outros tantos cavallos, co- 
bertos com telizes; dois palafrenoiros com as umbrel- 
las, e no meio d*elles o cruciferario conduzindo a cruz 
patriarehal, montado em uma mula ruga, e acompa- 
nbado de dois mogos; uma berlioda franceza muito 
rica, em que ia o patriarcba; oito palafrenoiros a ca- 
vallo; um decano e seis officiaes, tambem a cavallo; 
uma ostufa rica de respeito; quatro estufas e uma ber- 
linda, as quaes transportavam os capellàes, caudata- 
rios e mais familia do prelado; uma soge com dois 
mogos da guarda-roupa; doze officiaes da casa a ca- 
vallo; quaronta e seis bestas de carga cobortas com 
seus reposteiros; tres tiros de mulas, que iam de so- 
brecelente; varios criados da cavallariga e outras pes- 
soas, todos a cavallo. 

No dia 14 partiram de Evòra para Villa Vigosa el- 
rei, principe e os infantes D. Antonio e D. Francisco. 
A rainba, a princoza e o infante D. Pedro, tendo fi- 
cado om Evora, assistiram na tarde d'esse dia a uma 
representagào theatral, dada pelos padres jesuitas no 
seu collegio do Espirito Santo, em applauso da cano- 
nisagào de dois membros da ordem, S. Luiz Gonzaga 
e Sauto Estanislau Kostka^ que o papa Henedìclo xnr 
acabava de decretar. Armou-se o thoatro na propria 
egroja do collegio, com tablado, bastidores e mais 
scenario, e n cUe se rcpresentou uma tragi-comedia 
latina. 

No dia seguinte effectuou-se a partida da rainba 
para Villa Vigosa. Tanto n*esta villa comò nas outras 
do transito, foram recebidos os soberanos com as mos- 
mas ceremonias e solemnidade com que os recebéra 
a cidade de Evora. 

Safram de Villa Vigosa todas as pessoas reaos em 
dirocgao a Elvas no dia 16, pelas seis boras da ma- 
nbO. As comitivas dei-rei e da rainba, caminbando 
agora reunidas, formavam um acompanbamentb nu- 
merosissimo e esplendido. E pois que estamos ebega- 
dos a grandiosa funcgào do encontro e visita dos dois 
soberanos da peninsula, e da troca e consorcio das 
princezas, devem tambem ficar consignados n'este le- 
gar, comò documentos importantes do luxo e magni- 
Scencia da corte dei-rei D. JoSo v, a relagào, embora 
summaria, das pratas que compunbam a baixella para 
servigo das pessoas reaes, e a lista dos empregados 
da real ucbaria. Tanto as pratas, com a numerosa 
crìadagem que Ibes andava antiexa, comò ludo quanto 
perlencia ù ucbaria, precediam os soberanos nas jor- 
nadas com a necessaria anticipagào, para que ao cbo- 
gar a qualquor terra acbassem promptas as coisas de 
que baviam mister. 

Para o servigo da mesa das pessoas reaes foram 
trinta e oito caixOes com baixella de prata doirada. 
Para o servigo dos quartos e toucadoros foram vinte 
e quatro caixOes com pfata branca (pratos, jarros, ba- 
cias, fogareiros, pàs, otr.) Caixas de roupa Tma erani 
seis. Para o servigo das mosas de estado foram sos- 
senta caixas com baixella de prata branca; vinte e 
uma caixas com prata branca de bastiòes; tros cai- 
xas de salvas de prata de bastiòes; quatro fontos de 
prata ; duas caixas com dois jarróes doirados e lavra- 



72 



ARCHIVO PITTORESCO 



dos com sua folhagem ; duas idrìas de prata branca e 
doirada; tres caixas com tres brazeiros de prata branca 
e suas carrancas doiradaB; e trinta e seis caixas de 
roupas de flores. 

pessoal da ucharia compunha-se do escrivao da 
cozinha, do seu ajudante, do cozinheiro-mór, de um 
francez que exercitava a mesma occupagao, do com- 
prador da ucbaria, de dezesete mogos das compras, 
de sete mogos da ucbaria, dez mestres de cozmba, 
selenta e oito cozinheiros, quarenta e cinco ajudantes, 
sessenta e seis mogos da cozinha, vinte e quatto var- 
redores e um apontador; total, duzentos cincoenta e 
tres criados. 

Ao caìr da uoite do mesmo dia 16 chegou a rea! 
familia ante os muros da praga de Elvas. Aiém da 
guarnigào da praga, foram para alli mandados varios 
regimentos de differentes armas, em forga superior a 
seis mil homens, para abrilhantarem aquella funcgdo. 
loda està tropa se achava, pois, disposta em alas ao 
bngo da estrada, a comegar junto à porta da cidade 
denominada de Olivenga, d*onde seguia por espago de 
uns 3 kilometros. 

Ao tempo em oue rompìam as salvas das baterias 
da praga, saudanoo a cbegada dos soberanos de Por- 
tugal à cidade de Elvas, acabavam de salvar os ca- 
nhOes da fronteira praga castelfaana, annunciando a 
entrada dos reis de Hespanba na cidade de Badajoz. 
Nao.se julgue, porém, que està coincidencia fora obra 
do acaso. Foi, pelo contrario, o resultado derecipro- 
cos esforgos e sóbias combinacóes. Desde que as duas 
cortes, porlugueza e hespanfaola, safram das suas res- 
pectivas capitaes, entretiveram contfnuas relagOes por 
meio de expressos, que urna à outra enviava, a firn 
de que, mcdindo mui bem as suas jornadas, ambas 
chogassem exactamente ao mesmo tempo às duas re- 
feridas cidades. Se uma livesse de esperar pela outra, 
reputava-se isso corno urna ofFensa ao decoro do roo- 
narcba e à dignidade nacional. 

À porta da cidade acbavam-se as communidades re- 
ligiosas, cabido e clerezia, e o senado da camara 
de Elvas. El-rei e mais pessoas reaes apearam-se alli, 
e, depois das ceremonias do estiio, quiz o soberano 
proseguir a pé até à calhedral. Porém, tendo dado al- 
guns passos, comegou a cair neve, e D. JoSo v, vol- 
tando-se para a rainba, disse-lbe que nSo se atrevia 
a passar adiante por causa do frio, que era excessivo. 
Tornou, portante, a familia real a entrar para os co- 
ches, e n'elles foi até k cathedral, onde se cantou o 
costuipado Te Deum, acabado o qual foi poisar nos 
pagos do bispo, convenientemente preparados para a 
receber. Festejaram os elvenses a cbegada dos seus 
soberanos com vistosas luminarias, fogos de artificio, 
serenatas e outras demonstragOes de regozijo. 

No dia seguinte (17) de manha, trocaram as duas 
cortes comprimentos enlre si, enviando el-rei D. Jo5o v 
marquez de Alocrete, seu gentil-bomem, a saber 
comò suas magestades catbolicas e altezas haviam che- 
gndo a Badajoz; e vindo a Elvas, com identica mis- 
suo da parte dei-rei D. Filippe v, o duque de Solfe- 
rino, seu gentil-bomem. De tarde veiu a Elvas o conde 
de Montijo, camarista dei-rei catholico, trazer a joia 
que principe das Asturias offerecia à princeza sua 
noiva, a infanta D. Maria Barbara. Ao mesmo tempo 
chegava a Badajoz o marquez de Cascaes, camarista 
dei-rei fìdelissimo, levando a joia que o principe do 
Brasil offertava à princeza sua desposada, a infanta 
D. Marianna Victoria. 

No dia 18 reuniram-se em conferencia no rio Gaia 
OS secretarios de cstado de ambos os monarcbas, Diogo 
de Mendoga Corte-Real e o marquez de la Paz, com o 
firn de concluirem os ajustes, jà multo anteriormente 
comegados, do ceremonial com que se haviam de ver 
OS dois soberanos. Foi um aclo que pinta bem ao na- 
turai, e com vivas córes, as feigOes da epocha, nao 



so em relagdo aos dois povos da peniosula, mas a res- 
peito de todas as nagòes da Europa. As dùvidas e os 
alvitres que se apresentaram nas conferencias diplo- 
maticas que precederam està, sobre a intrìncadissiraa 
questdo de qual dos monarcbas ha via de apparecer 
prìmeiro à porta da sala; depois de se avistarem, qua! 
darla o primeiro passo para transpor o Hmiar da por- 
ta; vencida està difficuldade, quaatos passos darìam 
um para o outro; quantas e quaes palavras proferi- 
riam nas primeiras saudagOes; corno, quando e a que 
distancia um do outro se haviam de sentar; se se des- 
cobririam ou ndo; todas as dtividas e alvitres que a 
tal proposito se offereceram, e o modo por que os dois 
referìdos secretarios conseguiram chegar a um accor- 
do, conciliando tao oppostas conveniencias e tdo con- 
trarìas opiniòes, rcsumem em si a historìa das nagOes 
da Europa nas suas reiagOes exteriores durante uma 
boa parte dos seculos xvif e xvrir. 

Eram aquellas futilidades, que hoje se nos antotham 
pueris e incriveis, que dictavam a politica dos estados 
nas suas relagòes internacionaes, e de que pendìara, 
na roaior parte dos casos, a paz e a guerra. 

Decidiu-se, finalmente, na conferencia do Caia, que 
as acgòes dos dois monarcbas, ao avistarem-se, fos- 
sero tao simultaneas, corno se os movesse o mesmo 
impulso, e as suas primeiras phrases t5o uniformes, 
corno se as dictasse o mesmo pensamento. 

Resolveram nmiS) entre outras coisas egualmente 
sérìas e graves, que suas magestades n&o se cobri- 
riam; que a funcg&o das bengSos nupcìaes se cele- 
brarla no mesmo dia das entregas das princezas, em 
Elvas e em Badajoz; que os prìncipes poriam as prin- 
cezas à sua mSo esquerda, e que fallariam de pé; e 
que no dia seguinte (19), pelas nove horas e mela da 
manhd, sairiam as duas cortes das cidades de Bada- 
joz e de Elvas para o rio Caia. 

(Continua) I. db Vilbxva Babboia. 



É urna convicgSo minha que na poesia da lingua- 
gem genero parallelo A estatuarìa é a tragedia ; as- 
sim comò a epopèa A grande architectura; e os outros 
generos, especìes e variedades litterarias aos seus cor- 
respòndentes na pintura: ode à allegoria, idyllio à 
paizagem, epigramma à caricatura, romance e drama 
ao quadro historico, e assim os mais. A musica segue 
as divisdes da poesia fallada, cuja irmd gemea nasceu. 
Ao cabo, a arte é uma so; expressada por variados 
modos, segundo sào variados os sentidos do homem. 

estudo do homem é o estudo d*este seculo, a sua 
anatomia e physiologia moral as sciencias mais busca - 
das pelas nossas necessldades actuaes. Colligir os fa- 
ctos do homem, emprego para o sabio; comparal-os, 
achar a lei de suas series, occupagào para o philoso- 
pho, politico; revestil-as das fórmas mais popularcs, 
e dcrramar assim pelas nagOes um ensino facii, uma 
instrucgào intellectual e moral que, sem apparato de 
sermào ou prelecgào, surprehenda os animos e os co- 
ragóes da multidào no meio de seus proprios passa- 
tempos — a missào do litterato, do poeta. 

Os despotismos da Asia, corno entdo eram e ainda 
hoje sSo, nascem da exaggeragao do governo patriar- 
chai do chefe da familia, da tribù, da nagào. ab- 
solutismo europeu é a usurpagào dos dìreitos do povo; 
là a coisa publica formou-se pelo principe e com elle; 
aqui é o principe que se impoz à republica. Desde 
Julio Cesar até agora, a origem de todas as monar- 
chias absolutas na Europa, a fundagào de todas as 
suas dynastias, tem sido a usurpagào mais ou menos 
violenta, mais ou menos flagrante, mais ou menos 
astuciosa, dos direitos da nagào por um homem. 

Alveida Qarkbtt. 



10 



ARCHIVO PITTORESCO 




profundo seniìmenlo poclico dos povOH manifcB- 
ta-Be na lenda. tjue a historiii dcsenha coin a se- 
v<>ri<ladc das suas linbaa, a inspirocfio popular indora 
e alcgra com a sincerìdadc das suas IcDdeiirias. D'cBla 

Tono XI issa 



eltiboni;9o secular rcEultam os typos. É eni&o (|ue ap- 
parecem oa grandrs vullos cavallrirosos e 08 suavea hc- 
roes da piedade evangelica. Os campeadores da edade 
mèdia, pui-iGcados o'csle crìgol sublime, iransfiguram- 



74 



ABCHIVO PITTORESCO 



se om mantCDcdores da justiga e da innocencia. Sàò ci- 
Ics OS que desfazem dcsagutsados, e os que se votam 
ao sacrificio para salvar a virgindade imbelle e casti- 
gar a concupiscencia tyrannica. Na religido dào-se, de 
um modo mais hrilbaote aioda, estes factos de re- 
construcgdo portentosa. 

povo vae muitas vczes ale o dogma, e allcrao 
segundo o sentimento que o domina. Nos hymnos da 
egreja encontram-se innumcraveis exemplos. 

Quando este sentimento popular se concentra em 
um determinado individuo, as feigOes hisloricas de tal 
individuo alteram-se, mas illuminam-se. Actuou sobrc 
cllas urna corrente electrica. De que procedcm, em 
regra, estes pendores do povo? Como se explica o 
amor com que elle afag*a e alinda a imagem de um 
dos seus santos? D onde Ibe veiu està predilecgào sin- 
gular e profunda? Nao serei cu que me atreva a son- 
dar mysterios de tal ordem. Paro diante d'clles com- 
movido, e inclinome. 

nosso Garrett, em uma nota ao seu romance Noite 
de San'Joào, escreve o seguinte: «San*Jolio fez-se um 
santo de exemplar tolerancia desde que Ibe tiraram 
a cabega por elle nao poder ver, sera ralbar, as des- 
envoltas pernas da baiadera Herodias. Nào queró fol- 
gar com o que é serio : mas é notavel que a devogào 
quasi universa! dos chrislaos tornasse por patrono e 
orago de seus mais livres folgares e festangas, e Ihe 
consagrasse a mais risouba e lasciva estagdo do anno, 
ao austero precui'sor do Ghristo, o jejuador penitente 
do deserto, o severo censor da soltura cortezà, o pro- 
tomartyr da moralidade evangelica. Seria que a timida 
singeleza de nossos passados fosse de proposito bus- 
car aquelle austero e invisivel inspector de seus ainda 
entdo innocentes brinquedos?» 

que poeta escreve e pergunta a respeito do en- 
viado de Deus, poderia ser dito em relagùo ao nosso 
santo popular. 

Santo Antonio perdeu, aos olbos do povo, a rigidez 
inlratavel e cenobitica, e veiu presidir com sorriso af- 
favel aos dansares e foiguedos da adolescencia. seu 
cortejo é feilo de mocidade e de amor. K elle que incli- 
na ouvidb para as oragOcs da donzella, oragOes onde 
jù resoam os primeiros suspiros da alma, e onde jà 
brilbam as primeiras lagrimas; é elle que acceita a 
oblala das criangas, e que, jovial corno ellas, parcce 
instigar às travessuras pueris. 

Dopois, que é o santo na lenda, na creacào do 
povo, no sentimento conterraneo? Ouem o ve de co- 
guia apostolando o gentio? Quem o observa «os extasis 
da sua cella, recolbido e melancolico? Quem o imagi- 
na, erguido no pulpito, verberando os dez mandamen- 
tos mundanos? Nlnguem, de cerio. Santo Antonio é 
amigo dos rapazes travéssos e das mogoilas ena- 
moradas. Elle mesmo cortava as trangas, o galbofeiro 
celestial, para depois as prender de novo àquellas ca- 
begas de quinze annos, que Ibe vinliam perturbar can- 
didamente a sua tranquillidade monastica. Era elle que 
pania OS cantaros cbeios de agua, para se rir das quei- 
xas da meninice, e para em seguida a consolar cari- 
nhoso. Assim o creou o povo, assim o concebeu, as- 
sira quor, assim o adora. Levanta-lhe tbronos nas 
ruas, nas casas, e nos coragues primeiro; accende-lbe 
fogueìras e queima as aleacbofras bentas, que b5o de 
presagiar venturas, ou, ainda mal, desditas amorosas; 
saùda-o comò a um amigo querido, comò a um con- 
socio de alegrias, e, sem terror, mas sera irreverencia, 
beija-lbe aquelles pés, que o povo nào sabe ver reta- 
Ibados pelas silvas, mas que Ibe rescendem comò fi*a- 
grancias de nardo. 

É este nosso santo por excellencia; abrimos os 
olbos no bergo, e vimol-o logo, enramado e vestido 
de seda, na sua peanhasinba, onde ardiam os lumes 
e onde se esfolbavam as rosas. Qual de nós se nào 
recorda d'esse tempo com saudade, d'esses dias em 



que pediamos ao amor da màe o culto para o nosso 
bora amigo? Mal do que se esquecen da pureza dos 
poucos annos, para so cuidar nas muodanidades do 
seu presente, e que se nào lembra dos cabellos loiros, 
para se ufanar com os seus brancos, quantas vezeé 
mancbados ! 

Quando estes contentamentos juvenis vào cedendo 
campo aos cuidados, ainda o santo se nos enli*emette 
na Vida com a solicitude de auem nos conbeceu pe- 
quenos, e de quem nos nào na de abandonar ainda 
velbos. N'esse tempo vcm arraiando o amor. Como ha 
de povo dispensar o patrocinio infalli ve] ? Como nào 
ba de beijar a fimbria d'essa roupela e cnlregar o rc- 
querimento dos seus anhelos, a conQssào dos seus se- 
gredos? Oigamol-o n'uma das suas canligas: 

Oh, mogas, andem ligeiras, 
Vào pedir a Santo Antonio 
Que as ponba todas em lìnba 
No livro do matrimonio. 

Oh, mogas, se querem noivos, 
Vào està noite à ribeira, 
Que OS mogos em honra ao santo 
Vào armar uma fogueira. 

Santo Antonio, Santo Antonio, 
Às mogas estende a mào; 
Corram, mogas, vào depressa, 
Fagam-lbe uma petigào. 

Santo Antonio aviva os mortos 
E dà saude aos doentes; 
Nào é ffluito que despacbe 
Mil sadios pretendentes. 

Està cantiga popular (conforme a versào do Algarve) 
dà medida perfeila do que acima escrevemos. No pe- 
riodo do amor o santo ó invocado pelos que nào afrou- 
xaram na crenga originaria, e inveslido nas tarefas de 
advogado obsequenle. As mulberes, sobre tudo, que 
melbor guardam os sentimentos inocuiados com o pi*i- 
meiro leite, essas conservam perpetua a crenga dos 
annos infantis. Sào ellas que, solteiras, voltara o olbar 
para este consolador dos afflictos de coragào; sào el- 
las que, màes, se entregam jubilosas ao doce encargo 
de coadjuvar. OS filbos na sua devogào inconsciente; 
sào ellas que, no extremo quailel da desesperanga ou 
da Vida, se agarram, comò naufragos, a este patrono, 
que no inlimo sentir do povo foi sempre o mimoso e 
valido celestial. 

Estas crengas, porém, nascidas e alimentadas pela 
poesia legendar, comegam insensivelmente a perder o 
seu mavioso colorido e o cbeiro que as embalsama- 
va. A expansiva alegria de outros tempos diminue e 
afraca; escurece a claridade das fogueiras, comò as 
auroras vào esmorecendo nos coragòes. Ha tristeza no 
povo. A shade immense. Ha pouco, n'uma das publi- 
cagOes mais auctorìsadas do paiz, protestava-se contra 
innocente folguedo das criancinbas; e a gravidadc 
prosaica, o materialismo sapiente tra va va do macbado 
para derrubar aquella ultima reliquia da nossa poesia 
popular. Assim vào os tempos, e assim pensam os bo- 
mens. Minem-se, escalavrem-se, esboroem-se esses re- 
duclos da crendice alvar ou do fanatismo cavilloso, onde 
se acoitam os inimigos da liberdade evangelica; repul- 
sem-se até os confins da terra os que querem coalbar 
com as pedras broncas de ignorancia os campos es- 
lerroados pelos obreiros do futuro; nào se déem tré- 
goas aos paladinos da sombra, que fazem do despotis- 
mo a dama dos seus pensamentos; mas sustentcm-se 
de pò, mas acatem-se, mas conscrvem-se essas pagi- 
nas radiantes de uma poesia que nào conspira, de urna 
fé que nào ameaga. 



ARCfflVO PITTORESCO 



75 



Deixei-me levar por urna commoydo de des^osto, 
naturai cm quem so ve o belio da iiuniaiMdade n estes 
effluvios de poesia e de amor. Ha muito que arrasar 
e que recoDStruir, de feito; ndo ha de ser, comtudo, 
o tbroDo humildc, o culto infamila a piedade d'aquel- 
Ics devotos que ainda se acbegam aos beijos matcr- 
nos que pódc empecer a rapida andadura do cocbe 
^splendido da civiiisagào. 

Santo Antonio tornou-se para os portuguezes um 
bemaventurado supremo. Jesus, sentado em seu bra- 
^0, ouve-lbe os rogos e acceita-lh'os. povo pede-lbe 
corno a um confidente. Nao ba perigos do mar, tbe- 
souros perdidos, inales insana veis, cstorvos desespera- 
dores, tcmpestades de natureza alguma que nào possam 
ser debellados pela vontade d cste bcatifìco padroeiro. 
A lenda fel-o joviai, communicativo, docc no Irato, ri- 
sonbo com os bomens; d*aqui nasceu essa franqueza 
intima com que o povo Ihe estende a mào para rece- 
ber d'elle a esmola da caridadc. 

Hoje mesmo, que os espiritos se voltam para outro 
rumo, dia consagrado pela egroja ao nosso santo é, 
se assim o podémos dizer, um dia de rcgozijo nacio- 
nai. Os vclhos ainda se comprazcm com o espcctacuio 
galbofeìro, os pobres esquecem por momentos os es- 
pinhos da sua vida para so cuidarem nas flores, e as 
criangas tripudiam na noitc da vcspera, movidas por 
essa causa secreta, que nào 6 mais do que o senti- 
mento da poesia, innato em todas as organisagOes. 

Agora que jà fallùmos do nosso milagroso santo, 
comò elle vive na tradigào do povo, mais poetisado do 
que nos vcridicos agiologìos ^ consagremos aigumas 
palavras ao pintor, cujo quadro se apresenta em gra- 
vura, e que se inspirou de um dos mais enternece- 
dores assumptos. 

Muri Ilo resumé no, seu nome toda a grandoza da 
pintura bespanhola. É olle que realga no meio d'essa 
csrbola, a que nùo fultam vultos eminentes. 

Pinlor dei cielo, cbamaram-lbe os seus, e a critica 
nao Ibe contestou o epitbcto. Sevilba, palria sua, co- 
nio de Velasquoz, é o prodigioso reposìtorio das suas 
obras primas. Um apreciavel escriptor contemporaneo 
oscreveu ao visitar a capital da Andaluzia: «j/uriZ/o, 
comme sHl avail voulu laisser à sa patrie le secret de 
son genie j n'exlste réelement, et ne se révcUe qu'ki *. » 

Nào vem agora para està resumida noticìa entrar 
na parte biograpbica nem mesmo artistica do mestre. 
A primeira é de sobojo notoria, e a segunda consta 
de nào poucos livros auctorisados. 

A pesar do quadro Santo Thomaz de Villanueva ser 
considcrado o primor d'arte de Murillo, comtudo al- 
guem ha que resolutamente Ihe prefere o Santo An- 
tonio que adorna a cathedral de Scvilha, e do qual 
està gravura é còpia. M'elle reuniu o pintor, cm apu- 
rado gran, todas as suas qualidades sublimes; condcn- 
sou as beliezAS que disseminerà por immensas télas, 
e deixou-as alli, patentes e eternas. 

Ha um sorriso n'aquella exaltagào religiosa; ba um 
raio de sol na obscuridade d aquelia gruta. santo, 
inclinado, rendido, albeado em extasi, deixa transpa- 
recer um jubilo extremo, um gozo ineffavel. mestre 
))aroce tor-lhe posto nos labìos aqueilcs apaixonados 
versos de Santa Theresa: 

Està divina xtnion, 

Y ci amor con que yo viiw, 
Ilaze a mi Dios caulivo 

Y libre mi cor neon; 

Y causa en ini tal pasion, 
Ver a Dios mi prisoniero, 
Que muero porque no muerol 

que Gca escripto sobre o Santo Antonio de Mu- 
rillo ó apenas resultado da impressào que nos causou 

1 Vid. o voi. VI do Archivo, pag. 102. 
9 F. MalIeflUe — IfeM. de D. Juan, tomo i. 



traosumpto, que nao póde ser mais do que um re- 
flexo. Um bomem, cujo voto competente ninguem se 
atreverà a rejeilar, disse o que se segue: «Nunca a 
magia da pintura foi levada mais allo. Quem nùo viu 
Santo Antonio de Padua nào coubece a ultima pa- 
lavra do pintor ^. » 

Donzcllas, criangas, coracOes por onde nfio deslisou 
a sombra de urna agonia ou de um i*emorso, alroas 
candidas que pairaes sobre as ternas alegrias da fa- 
milìa, que nào deixastes queimar no ardor das pai- 
xOcs a fior immaculada da pureza, saudae o vesso 
sauto, aquelle amigo da infancia, aquelle affavel com- 
panheiro cujo nome decoramos entre as faxas, em- 
balados pela màe que Ihe rezava por nós. Nào deixeis 
perder essa poesia siogela, esse unico refugio dos que 
nào podem enconlrar na terra as coosolagóes verda- 
deiras. 

Que tem que rìam os pbilosopbos? quo vos importa 
a cbocarrice dos nescios? que nial vos faz o olbar de 
soslaio que dcitam comicamente os materialòcs da bu- 
manidade? 

A imbecilidade moral trouxe sempre comsigo esle 
prosaismo charro e truanesco. Guidam elles que pre- 
param terreno, e travancam-n'o; crcem-se os Baptis- 
tas da idóa nova, e suo fatuamente os Herodes da pie- 
dade e da innocencia. Ricm-se de tudo e de todos, 
porque nunca souberam enxugar urna lagrima. 

que ba de sair d este esfervilhar de padres cons- 
criptos que nos dccopam as azas? que qucrcm es- 
ses reformadores que comogam por seccar as fònlcs 
vivas de todo o sentimento generoso? Dcixae-os rìr e 
passar. 

dia de àmanhà tem de ser feito de iuz; mas essa 
luz vira da liberdade, comò a libcrdade vira da re- 
ligiào, corno a religiào vira do amor! e. a. vidal. 



A NUBIA 

(Conclusilo. Vid. pag. 57) 

Imaginae, pois, um vastissimo valle entre duas ex- 
tensas cordiiheiras de montanbas: urna, arabica, tendo 
a vertente orientai hanbada pelo mar Vermelho; a en- 
tra, lybica, tendo as faldas occidentaes cnterradas nas 
ardeutes areias da Lybia. Estendei no meio do vaile, 
comò ampia fita ondulante, o Nilo, ora placido, ora 
susurrante, semcado de ilbas, orladas de papyrus e 
nenuphar, onde pastain entre os juncaes numerosos 
patos e cegonbas. Situae junto aos campos cultivados 
aigumas cabanas de bambùs, cobertas de colmo. Al- 
ternae com prados vigosos areiaes sem iìm. Collocae 
de muita em muita distancia urna povoagao, maior ou 
menor, mas quasi sempre miscravel, composta de ca- 
sas de adobos, com folhas de paimeira por cobcrtura. 
Sentae nas cncostas das serras, aqui os aH^ muros 
de um grande convento, meio escondido entre bre- 
nbas, e corno qucrendo trepar aos pinaculos da mon- 
tanha para fugir do contacto dos bomens; alli urna ve- 
Iha mesquita, à qual a pesada mào dos seculos fendeu 
jà as pàredes e inclinou as torrinbas ou minareths; 
por toda a parte, cm firn, ruinas de edificios magni- 
fìcos, meio solerrados, mas, ainda assim, dando testi- 
munho da civilisagào e grandeza dos povos que os le- 
vantaram. Delineae tudo iste na vessa imaginagOo, e 
tereis rcpresentado n'ella um quadro geral da Nubia, 
mui aproximado do naturai. 

Pois este paiz, que nos aprcsenta agora um aspccto 
sclvagem e tristo, territorios pela maior parte eslereis 
e deserlos, outros incultos ou mal cultivados, habi- 
tantes rudes e enì geral barbaros; este paiz, dizcmos, 
foi outr ora o centro de um grande imperio, que bri- 
ihou pela sua civilisagào muito antes que os gregos 
e OS romanos lograssem o tituio de povos civìlisados. 

1 Tb. Oantier — Koya^e en Eapoffné. 



76 



ARCniVO PITTORESCO 



Depois de ser muitas vezes invadida e assolada pe- 
los Pharaós, do correr de loogos annos, a Nubia ar- 
niou para a vingaD^a o brago de seus filbos, que, 
arremessando-se, em firn, sobre o Egypto, expulsaram 
para além da cidade de Tbebas as dynastias oacio- 
naes. Àssumindo entào o imperio egypcio urna Dova 
face, com que rejuvenesceu, a Nubia policiou-sc, ador- 
nou-se de monumentos, e torDOu-se tbeatro de gran- 
dezas e de gloria, porque logo floresceram n'ella as 
sciencias e as artes, cujo borgo fora o Egypto. 

Volveram seculos, levantaram-se outros imperios na 
Asia e Da Europa, e o colosso do Nilo, jà debiiitado 
por mil aoDos de cxisteocia e eafraqDCcido por con- 
linuadas revolugóes, derrocou-se ao rijo embate de 
invasores atrevidos e feiizes; e sobre os seus moDU- 
DieDtos, feitos ruiuas, vieram seDtar-se, por seu tur- 
DO, OS persas, os romaDOs, os arabes e os turcos. As- 
sim, passaudo por tao graDdes alterDativas, que ora 
a elevaram ao fastigio da prosperidade e da nqueza, 
ora a despeobaram do abysmo da miseria e da servi- 
dào, voltou a Nubia ao seu primitivo estado — terra 
pobre e mal povoada de geute embrutecida e selva- 
gem. 

Todavia, Dumerosissimas testimunbas, mudas, é ver- 
dade, mas muito expressìvas Da sua mudez, attestam 
aos viajautes, por loda aquclla regiào, que alli flores- 
ceu um imperio graode, poderoso e civilisado, em 
tempos em que a Europa jazia uas trevas da iguoran- 
cia^ e do barbarismo. 

É ùm espectaculo que deve impressionar vivamente 
viajantc que navega pelo Nilo, rio acima, ver além 
do tropico, a par de Degras massas de rocbas grani- 
ticas, coDtrastando com a Datureza bruta, alterosos e 
esbeltos obeliscos, porticos magnifìcos, soberbas gale- 
rias de columoas, altas e robustas paredes cobertas 
de hicroglifìcos, estatuas e espbinges colossaes, reli- 
quias de templos grandiosos, em que boje se acoìtam 
as hyenas e outras feras; em fim, cucontrar em cada 
volta que o rio faz, e a cada relancear d'olbos, spe- 
cimens estupeodos de uma arcbilcctura, e padrOes gi- 
gantescos de um povo que existiu tres mil annos an- 
tes de nós! 

Na gravura que precede a primeira parte d'este ar- 
tigo, a pag. 57, véem-se os restos de uma das mais 
sumptuosas obras da antiga arte egypcia. Sào duas 
espbinges colossaes, as unicas que se conservam in- 
teiras d'entre muitas outras que outr*ora guarneciam, 
dispostas em duas longas flleiras, uma rua que con- 
duzia ao hémis-peos de Séboua. Este tempio, meio ca- 
vado na rocha, meio construido de cantarla, teve por 
fundador Sesostris o Grande, mais de mil e setecentos 
annos antcs da era christa. Nas faldas da montanba, 
que se divisa ao longe por detraz das espbinges, ainda 
avulta pronaos, ou portico do tempio que era con- 
sagrado aos deuses solaros Phré e Phtà. Porém as 
areias, alli accumuladas pelas tempestades no correr 
de tantos seculos, afogou-lbe a facbada de cantaria 
até mais de mela altura, impedindo completameote a 
entrada no interior do tempio. 

As areias do deserto tem sepultado, pouco a pouco, 
DO Egypto e na Nubia muitas preciosidades historicas 
e artisticas da mais veneranda antiguidade, assim co- 
rno as lavas do Vesuvio sepultaram na Italia, posto que 
improvisamonte, as cidades de Herculanum e Pompeia, 
tao ricas de recordagdes historicas comò de obras de 
arte. Porém a essas terriveis invasoras quadra com 
mais justiga o tilulo de guardas, embora importunas, 
que epithelo de destruidoras d'essas respeitaveis mo- 
morias do passado. 

Às lavas do Vesuvio tem sido para aquellas cidades 
comò um estojo, que nSo so as preservou da ruina 
completa a que foram reduzidas as suas irmas pela 
barbarjdade dos homens e pela acgao corrosiva dos 
tempos, mas que Ihes conservou, o que ainda é mais 



apreciavel, a par das suas feigues, tudo quanto pódc 
revelar materialmente os usos e costumes, as crengas 
e as aspiragOes do povo que as habitou. 

Se Dào fosse a ÌDvasào das areias, talvez que bem 
poucos moDumeutos tivessem podido resistir, do Egy- 
pto e Da Nubia, ao agoite assolador de centenares de 
seculos. Conserva-se incolume o sobcrbo tempio de 
Séboua, porque um mar de areias, escondendo-o em 
grande parte em seu seio de ondas, quasi tao move- 
digas comò as do Oceano, tem-n'o defendido do mais 
cruel ÌDÌmigo dos monumentos, que é, sem dùvida, 
a brutalidade dos homens. Pouparam as areias a ma- 
gestosa rua que conduzia ao portico do tempio; e por 
essa razSlo apenas restam duas das numerosas espbin- 
ges colossaes que por ambos os lados a guarneciam. 
As outras ou desappareceram, sem dcixarem sequcr 
vestigios, ou jazem por terra feitas pedagos. Se algum 
dia se tentarem fazer excavagoes archeologicas do Egy- 
pto e Da Nubia, comò modernameute tem sido feitas 
Da Italia, é de presumir que se vejam surgir do se- 
pulcbro algumas das cidades que mais floresceram sob 
sceptro dos Pharaós. 

A Dossa gravura é còpia de um bello quadro de 
Berchére. artista escolheu a bora do crepusculo da 
tarde para tirar a vista do uatural. As cercaDias de Sé- 
boua sdo de si monotonas e trìstes, porque Ibes fal- 
tam OS arvoredos, as fontes e os ribeiros, que sào ao 
mesmo tempo o adorno e a alegria dos campos. Mas 
a claridade duvidosa do crepusculo; a luz frouxa e 
melancolica da lua; de longe em longe o clarao das 
fogueiras, em torno das quaes os pastores descangam 
das lides do dia, em quanto preparam a ceia; o re- 
manso das brisas, deixando elevar-se o fumo das fo- 
gueiras, comò delgadas columnas a que cinzel capri- 
choso recortou os fustes, e que bem se assimilham, 
na suavidade e constancia da sua ascensào, às prcces 
do justo, subindo, subindo direitas até ao throno do 
Altissimo; os rebanbos de ovelhas e carneiros, lassos 
da sua percgrinagào diaria em busca das gramineas 
que verdejam por aquelles arredores, dormindo agora 
ao abrigo das gigantescas espbinges; estas sentinellas 
perdidas de um passado tdo remoto, mostrando em 
sua magestosa sereoidade, e do colossal das fórmas, 
comò se fora escripto com caracteres, os pensamentos 
e crengas do povo que alli as collocou; tudo isto, em 
fìm, derramando uà paizagcm ÌDflnita poesia, dà ao 
quadro d5o sómeDte formosura, mas tambem um sin- 
gular aspectp de solemuidade. i. db tilheita barbosa. 



MUSEU DO BISPO DE BEJA 



Ha homcDs que valom academias. Dolados de fa- 
culdades superiores e de universal aptidao, applicam- 
se com successo a todos os estudos, cultivam com di- 
ligencia e arder os campos illimitados das sciencias, 
das letras e das artes, e em todos deixam claros tcs- 
timunhos de sua fecunda activìdade. D. Fr. Manuel 
do Genaculo Vilias-Boas, bispo de Beja e arcebispo de 
Evora, foi um d'estes homens extraordinarios. Os be- 
neScios que a patria Ibe deve, mal conbecidos ainda, 
belo de illustrar as paginas da bistoria litteraria de 
Portugal do seculo xviir, quando a politica nos con- 
sentir escriptores e leitores para coisas d'cste ge- 
nero. 

estudo da thcologia, da philosophia e da pbilo- 
logia, a que o sabio prelado de preferencia se dedi- 
cava, nào impediu de se applicar tambem às scien- 
cias naturaes e à archeologia. A boa e verdadeira 
opiniào que tinba da importancia das primeiras ex- 
uberantemente a provou na pastoral de 25 de Janeiro 



AncniVO PITTORESCO 



77 



de 1786, rocom me n dando com grandcs inslancias os 
estudos iihysicos ao clero do seu bispado. muilo em 
quc cstiiDiivu a sppundii bcm se avalia uà bisloria 
quc n'um lìvro inèdito nos deixou da cidade de Beja. 
lì se taes provas nao fasscm de sobra, alle^nriainos 
as mcmorias do muscti, cm <jue, sondo bispo d'aquella 
dioccse, colligiu grande vancdade de productues na- 
luracs e de preciosas reliquìas da industria do pas- 
&ado. 

As vaslas relat^es que mantevc com sabios e es<TÌ- 



ptorcs de Hcspanlia, Franca, Italia e outras na^es da 
Huropa, e com os portuguezes mais distinclos que ser- 
viam nas possessóes ultramarinas, proporcionaram-lhc 
a acquisi^ùo de muilos objcclos de idra do reìno. Cons- 
tava, porém, a maior e melhor parie da colleccao de 
antiguidades dcsenlranbadas da terra nas encavagóes 
quc, a expeiisas suas, mandava Fazer niio so cm ItGJa, 
mas n'ouiras partes, onde prcsumia a exislencìa de 
rìcos e abundantes veios do oiro que cxploravu. 
Na hìstorìa da arte, cuja imporlancia priiici|iia agora 




a ser conliocida, dcparava-se-lhe jà ao sabio prelndo 
o interesse que ella nfio tinha atnda para os seus con- 
temporaneos. Dominado por aquelle vìvo e ardente de- 
sejo de sabcr que leva 03 espirìtoa emprebendedores 
a vaiiosas dcscobcrias, nao se poupava sacrifìcios jiara 
colbcr e encelleirar os pcrdidos fructos da induslria 
liumana das cdades que foram. Desde as armas de 
pedra, curioso achado quc muitos repulam urna no- 
vìdade dos nossos dias, ale às obras dos artisias por- 
tucuczes, ludo colligia com empcnbo e cuidadosa- 
mente guardava para illustrar os ponlos mais obscuros 
da archeologia. 
Escolbi!ra a egreja de S. Sisenando, proxìma do 

fia^o episcopal, para deposito das lapidas, cippos, co- 
umnas e fragmcntos quc, por volumosos e pesados, 



se niio accommodavam n'um gabincte. Eni lionicnn- 
gcm àqucllc santo, naturai de Ueja; ao anti^ nome 
desta cìdade, cujas eram grande parte das relìquias; 
e em atlen^ao ao colleclor, dcnominava-sc a collec(,'ilo 
iluseu Sisenando Cenaculo Pacense. Eram mais de 
cento e vinte as lapìdas que conlinba. Algumas, e 
nao de certo as mais notaveis, desenhou e dcscrcvcu 
ìlurpliy na sua Vwffem em Porlwjal. 

Contava I). Fr. Manuel do Cenaculo salenta e oilo 
annos quando foi nomeado arcebispo de Evora. N'fio 
arrefecéra em tao avan^'ada edadc o ardor com quc 
antecedentemente se cntregòra aos trabalbos littera- 
rios. Logo depoìs do tornar posse do scu novo cargo, 
fundou a biblìolbeca publica, e tomou as convenien- 
les disposì^'Ocs para instituir vaslos csludos ccclciiias- 



78 



ARCHIVO PITTORESCO 



ticos e litterarìos para instruc(ào da mocidade trans- 
(agana. 

Oe Beja havia trazido, com a melhor parte dos li* 
vros que possuia, os objectos mais preciosos das suas 
coilecgOcs, deixaodo, porém, D'aquella cidade, por 
causa das difficuidades do transporte, quasi todas as 
pedras que estavam na egreja de S. Sisenando. An- 
ncxado o museu à bibliotheca, e tencionando ampliar 
edificio, com pequena capacidade para as numero- 
sas collec(^es, rcservava talvez para entdo mandar vir 
as antiguidades que dcixàra em Deja. Os successos 
calamitosos dos annos que se seguiram ndo so obsta- 
ram a que pozesse em execugfto estes grandes planos, 
mas tambem fizeram logar ao roubo dos objectos de 
oìro e prata que se conservavam na bibliotheca. Do 
antigo museu de Deja, comprehendendo n*esta dono- 
minagào tanto a collec(;ào da egreja de S. Sisenando 
corno as que enriqueciam a rcsidencia episcopal, pcr- 
deu-se, pois, uma parte em 1808, ficou outra parte 
n'aqueila cidade, e c^nscrvou-se o restante na biblio- 
theca. que a invasOo franccza nào deixou fazer ao 
diligente e benemerito coiiector (referimo-nos à am- 
pliagào do edificio e ao transporte das lapidns) tel-o- 
bia feito de certo algum dos nossos governos, se de 
alguma vez se attendesse a necessidade dos meiho- 
raroentos moraes e a influencia das artes na civiii- 
sa^ao. 

resultado de tamanha incuria foi perderem-se tam- 
bem quasi todas as pedras que haviam ficado em Deja, 
e que nào seriam menos de ceni, pois apenas vieram 
para Evora umas doze, pouco mais ou menos. De tan- 
tas reliquias que o illustrado Cenaculo ajuntou com 
grande diligencia, trabalbo e despeza; de tantos mo- 
lìumentos que scrviriam para elucidar muitos pontos 
da bistoria anterior e posterior d fundagào da monar- 
chia, conservam-se em Deja sómente dez pedras, quo 
tulvez dentro em pouco dcsapparecerào, comò as ou- 
tras, embebidas nas paredcs ae algum currai ou trans- 
formadas em degraus de algum palheiro! 

Ha vinte e seis annos, pouco mais ou menos, tendo 
de se destinar a egreja de S. Sisenando pam escliola 
normal, foram as lapidas, ainda em grande quantida- 
dc, trasiadadas para a egreja incompleta dos jesuitas. 
D'ahi, por falta de resguardo, as tem tirado pouco e 
pouco, deixando apenas as mais pesadas ^. 

Felizmcnte, porém, D. Fr. Manuel do Cenaculo, que 
em muitas coisas se avantajou à presente geragào, 

[)reviu, segundo parece, o desleixo e a ignorancia que 
laviam de anniquilar a sua obra, e perpctuou no pa- 
pel que na pedra nào póde resistir àquellcs ele- 
menlos destruidores. Mandou desenbar com fidelidade 
cento e vinte e duas lapidas do museu, e juntar a 
estes desenlìos as roedidas exactas das dimensGes de 
cada objeclo, e a indicagào dos logares em que mui- 
tos foram encontrados. Conserva-se na bibliotheca de 
Evora està curiosa colleccao, que, juntamente com as 
pc^as rcstantes do museu, nos babiliia para come^'ar 
liojc no Archivo a publicagao das gravuras e nolicias 
das antiguidades mais curiosas. 

Damos o primeiro logar a um fragmento de uma 
lampada romana que se guarda n'aquelle estabcleci- 
mento, e foi acbado no seculo xviii na Troia, junto 
de Setubal. Este fragmento de barro vermcibo, muito 
simiibante ao de Estremoz, prova-nos o gran de per- 

i S. Sisenando vivea no secalo ix da era cbrlstS. A bistoria dVste 
martyr, escrlpta por £ulogrÌo, sea contemporaneo, foi reproduslda por 
Uorales e dlvalgada por mcstro Manuel Feo, prior da egreja do Sal- 
vador de BeJa. Por diligencia d*este sacerdote se instituia em 1598 
n'aquella cidad« a confrarla do S. Sisenando. 

Em 1652 se lanfou a primeira pedra da egreja qne para este santo 
se edlflcoa em a rua Cega, na propria casa em que era tradirlo ter 
residido. No mesmo secalo zvii foram ostabclecer-se era BeJa os Je- 
suitas, a qaem a irmandade fez doa^ da sua egreja e fazenda. £ 
no anno de 1693 a rainba Maria Sophia Ihes consignou a pcnsSo an- 
nual de dofs mil crusados para os appllearem nas obras do novo col- 
legio. Espulsa, porém, do relno a ordem de Jesus em 1759, nÌo se 
acabaram as obras nem do collegio nem da egreja, onde hoje se con- 
•ervam, oa, antes, se perdem as ultimas lapidas do museu Sisenando. 



fei^&o a que na ceramica, bem comò n'outras artes, 
haviam chegado os romanos na peninsula. A uva agi- 
gantada que duas figuras humanas sustentam nos bom- 
Eros era o emblema do culto de Dacché. 



A. FiupPB Sim9b8. 



WALI DE SANTAREM 

(Vid. pag. 54) 

IV 

FESTIM 

Tinbam passado alguus dias depois do sarau dos pa- 
Qos de Coimbra, e ainda nenhuma cidade tomada, nc- 
nbum castello incendiado assi^nalàra o cumprimento 
das promessas de ASbnso Henri^ues. Santarem, a for- 
mosa, continuava a reclinar-se indolentemente na sua 
collina d beira do Tcjo, e os atalayas immoveis nos 
adarves dos castellos', nao vendo scintillar no bori- 
sonte para o lado da serra de Albardos o ferro das 
langas christds, encostavam-se descuidosos t muralba, 
e ficavam-se a contemplar as aguas palreiras do rio 
que là em baixo deslisava. 

wali Abu-Zakaria, confiado na fortaleza dos seus 
muros e na fama do seu nome, conservava a cimi- 
tarra na curva bainha, e entregava-se às volupluosas 
diversOes, reminiscencias da sumptuosa corte dos emi- 
res do Kordova, que elle tanto folgava de recordar. 
Vendo o civilisado imperio do Andaluz dilacerado de 
uma banda pelos rudes christdos, da outra pelos bar- 
baros africanos, o wali de Santarem conservava-se no 
seu isolamento e considerava-se comò o ultimo ara- 
be. Um so dos walis das tres provincias de Delatba, 
Àl-Kasar e Al-Fagbar, que constituiam o Al-Gbarb, jà 
tao cerceado pela espada de Affonso Henriques, uni 
so d'esses walis partilbava as suas idéas e Ihe more- 
eia confian^a: era o wali de Lisboa, ou Medina Alis- 
bona, comò os arabes diziam. Ainbos collocados nas 
fronteiras septentrionacs do imperio musulmano, am- 
bos protegidos contra os' cbristàos pelas fortes mura- 
Ihas dos seus castellos, centra os seus correligionarios 
pela ampia barreira do Tejo, tinbam formado entre si 
corno que uma tacita allianga, e tinbam jurado fazer 
sempre (remular nas suas fortalezas a bandeira im- 
maculada do crescente. 

Lagos mais fortes estavam n*essa occasiào para li- 
gar OS dois cbefes. filho do wali de Lisboa, Abmod- 
Ibn-Abdaliah, seduzido pela fama da belleza de Zu- 
leyma, a filba de Abu-Zakaria, quizera desposal-a, e 
Abu-Zakaria acceitùra com jubilo a proposta; assim, 
Zuleyma estava n*essa occasiào em vcsperas de ir sor 
a rainba do harem de Ahmed. 

joven filho do wali de Lisboa cstù n'essa occasiào 
em Santarem, e o wali desta cidade, em honra d elle», 
reune em torno da mesa do banquetc o seu wasir, os 
seus kbatibes, e os seus cadis e al-kaides. É ao cair 
da noitc que o banquete cometa, contra o costume 
arabe, que marcava para o janlar a bora do meio-dia ; 
mas wali e o seu bospede baviam partido n'essa 
manbà para a caga, e, arrastados pelo enthusiasmo 
da diversào fragueira, so tinbam voltado ao declinar 
da tarde. 

Na sala do festim est5o jà agt*upados os kbatibes e 
OS cadis, cuja pbysionomia rovela a fome que os an- 
ceia. Pouco dados, pelos seus pacificos misteres de se- 
I cretarios e juizes, ao divertimento montesino da caga, 
tinbam ficado na cidade, e tinbam visto correr as bo- 
ras sem que o jantar apparecesse; por isso todos os 
labios se desfranziram n um sorriso de jubilo quando 
velho Abu-Zakaria e o seu joven e elegante bospede 
appareceram à porta do aposento. 

Logo todos, comò bons musulmanos, trataram de 
se ir purificar nas fontes de ablugdo dispostas ao longo 



ARCBIYO PITTORESCO 



79 



das paredes da sala, e, depois de se perfumarem com 
agua de cssencia de rosas, dirigiram-se para a mesa. 
Està, de precioso ebano ricamente marclietado, eie- 
vava-sc apenas alguns palmos acima do chào alcati- 
fado e juncado de flores; mas em torno coxins de 
seda, cotlocados a alguma distancia uns dos outros, 
cspcravam os convivas, que se sontaram cruzando as 
pernas à moda orientai. 

Como crepusculo ìa cada vez declinando mais, e 
a noitc jil projcctava as suas vastas sombras na sala 
do banquele, vieram escravos sospender do tcclo in- 
numeras lampadas de oiro, cuja luz intensa alegrou 
de subito a ampia quadra, e, repcllindo para os can- 
tos do aposento as trevas nào, mas a penumbra vaga, 
dcu um vivido rcalcc ao panorama brilbante que apre- 
scntava a mesa rodcada dos convidados, todos vesti- 
dos com OS espleodidos trajos moirìscos, e cingiado 
cimitarras e puobaes ornados de pedras preciosas, que 
scintìllavam corno outras tantas estrelias em volta da 
mesa oblonga. 

Gomegou o jantar, servido com toda a sumptuosi- 
dade e toda a elegancia da vclha gastronomia arabe. 
Àlém das succulentas viandas, e dos saborosos peixcs 
do rio e do Oceano, que vinbam para satisfazer a fome 
dos convivas, dos variegados pasteis que Ibes acari- 
eia vam paladar voluptuario, outros pratos apparece- 
ram que deviam servir mais para prazer dos olbos do 
que para regalo do estomago. Entravam n'esta conta 
OS passaros de plumagem brilbante, scrvìdos, taes co- 
mò se estivessem vivos, em pratos de oiro e prata. 
Os vasos de arroz cozido em leite, que os arabes mis- 
turavam com todos os manjares, circulavam, por màos 
de escravos, em torno da mesa, e, apesar do Koran, 
OS vinbos n5o faltavam. É verdade que os arabes, 
com uma subtileza digna de theologos cbristdos, para 
se conformarem com o preceito de Mabomet, que pro- 
bibc vinbo tiiUo, a que cbamam ghamarj so bebiam 
sahba^ quer dizer, vinbo branco. 

N*uns a fadiga da caga, n'outros a fadiga da espera, 
tinbam despertado bastante o appetite para que nào 
se pensasse em conversagao antes da sobremesa. Cbe- 
gou efla em firn: frutas do novo anao em cestas de 
prata lavrada, doces magnificos cm vasos sumptuo- 
sos; juntamenlc com a sobremesa vieram graciosas 
ampboras cbeias de mais preciosos vinhos, e tagas 
tambem mais ricas. Era a occasiào dos brindes; Abu- 
Zakaiia fez uma saude ao invencivcl wali de Lisboa, 
Abdallab-lbn-Mondbir-lbn-Said-Ibn-Àlhasan-lbn-Muha- 
mad, e a seu fillio, o heroico Abmed-lbn-Abdallab, 
cuja espada era jù o terror dos cbristàos. 

Os convivas acompanbaram o brinde erguendo-se, 
e logo depois fizeram razao ao seu nobre bospcde, 
que propoz uma saude ao wali de Santarem e a sua 
filila Zuleyma, a perola do Tejo, a rosa orvalbada 
das campinas de Belatba, a radiante estrella do Al- 
Gbarb. 

Depois das saudcs, a conversagao, até ahi languida, 
animou-se, ao passo que de um aposento proximo vo- 
zes suavissimas de escravas cbrìstùs, combinando-se 
com as melodias dos ìnstrumeotos moiriscos, vieram 
delcitar os ouvidos dos convidados. 

assumpto da palestra foi primeiro um collar pre- 
cioso de oii*o, perolas e diamantes que Abmed-lbn- 
Abdallab tencionava offerccer a Zuleyma. collar cir- 
culou ti roda da mesa; todos elogiaram ou a riqueza 
do presente, ou a galanteria do presenteador. Quando 
cbegou, porém, às màos do vasir de Santarem, velho 
guerreiro encanecido nas luctas desaslrosas com os 
rbristdos, que tinbam assignalado o recente periodo 
do dominio arabe uà penìnsula, o wasir raeneou a 
cabega com desdem, e uSo pódc deixar de dizer ape 
uma joia tao rica melhor estarìa no tbesouro de Aiis- 
bona, onde seria recurso precioso nas circunstancias 
apuradas em que talvez odo tardarìam a ver-se. 



Ahmed-Ibn^Abdallab escutou-o com um sorriso, e 
redarguiu depois: 

— Nobre ivasir, essas pedras que te deslumbram 
tem mais velia pela raridade do que pelo proprio es- 

Elendor; comò podem ellas comparar-se com a perola 
umana que o mesmo Deus creou, e a quem deu vida 
e animagdo? Estas joias so nos encantam os olhos; 
Zuleyma encanta os olhos e os ouvidos, delicia o es- 
pirilo e corog&o; é dover meu, se possuo diamantes 
e perolas, enrolal-os corno grìnalda de gentis escravos 
em torno do pcscogo alabastrino d*aquelia maravilba 
do occidente. 

Todos applaudiram os engenhosos conceitos do jo- 
ven Ahmed, e Abu-Zakaria disse, evidentemente li- 
sonjeado : 

— Ahmed, os teus olbos na peleja tem o scintillar 
do relampago, e os teus labios no banquete exbalam 
o perfume das rosas da poesia. Ibn-Xamri, continuou 
voltando-se para o seu poeta prcdilecto, ndo merecem 
cstes pensamentos ser engastados corno perolas no 
collar de oiro dos teus versos? 

Ibn-Xamr) inclioou-se sorrindo, e cbamou um es- 
oravo, que jbe trouxe o alaude. Abrindo o melodioso 
instrumento com uma cbavinba de oiro, descantou os 
seguintcs versos: 

Junta ao collar maior brilbo 
quem excede em resplendor 
a lua e sol confundindo 
seu brando e ardente fulgor. 
Creou-te um sópro do Etemo; 
vences, formosa sem par, 
OS diamantes e as per'ias 
da terra e do vasto mar! 

Os applausos soaram em torno da mesa, e Ahmed, 
inclinando-se com cortezia, accresceolou : 

— incenso tem so fragrancia quando, cafndo no 
fogo que arde em cassoletas de prata, se transforma 
em aromatico fumo; assim o fogo do teu espirito deu 
perfume aos meus pensamentos. Nao para que baja 
entro nós certame poetico, porque jà te cedo a palma, 
porém para que seja mais digna de ti a minba res- 
posta, proferindo-a na tua lingua harmoniosa, conce- 
de-me, doce emir dos reinos da phantasia, que cu 
profane por um momento o teu divino alaude. 

Abdallab-lbn-Xamri apressou-se a passar ao filho do 
wali de Lisboa o seu instrumento de oiro, e Ahmed, 
reclinando um pouco para traz a fronte coroada de 
negros cabcUos apeitados por uma pequena faxa de 
seda verde ornada com a meia lua, e scintillando-lbe 
nos olhos negros e realmente formosos o fogo da ins- 
piragào, descantou com voz melodiosa, ao som do 
alaude, a seguinte poesia: 

Illumina os pensamentos 
teu verso deslumbrante, 
bem comò as sombras da noite 
dissipa a aurora radiante. 
Insinua-se em noss'alnia 
sua harmonia tdo pura; 
bem comò a graga e beldadc 
da formosa creatura, 
que OS olbos nos arrebala 
e enfeitiga o coragao. 
Meu coragdo e meus olbos, 
se meus todavia sào 
desde que vi a Zuleyma, 
quizera-os ir engastar 
cntre as perolas e o oiro 
do seu formoso collar. 

De novo brotaram os applausos unanimes e sìn- 
ceros. A noite ia jd aita, e os convivas, deiiciados 



80 



ARCHIVO PITTORESCO 



com aquelles recreios do espirilo, que sempre lanlo 
delcitaram a ra^a arabe, nem pensavam em retirar-se. 
Os perfumes que encbiam o aposento faziam suavis- 
sima a atmospbera ; dos copos scintillavam os topazios 
dos vinbos geoerosos; nas corbelhas de prata, ainda 
cm cima da mesa, as iaranjas de Tanger e os limòes 
docés de Fez encantavam tambem o.oifaclo com a 
fragrancia que exbaiavam da casca aromatica. Àbu- 
Zakaria, lodo entreguc a essas doces voluptuosìdadcs 
do espirilo e dos sentidos, julgava-se Iransportado a 
Medina Àzzabrat, a residencia prediiecta de Àbd-er- 
Ratiman iii, o grande bomem da dynastia dos Om- 
myadas, e pensava assistir a esses sumpluosos ban- 
quetes, cm que o proprio kaiifa, seu filho EI-Hakem 
e OS grandes poetas da corte kordoveza encantavam 
os convivas com as melodias dos seus versos concei- 
luosos. So ^asir, guerreiro costumado apenas às al- 
garus das fronteiras, parecia estar inquieto e preoccu- 
pado. Ouvira fallar vagamente em movimentos cbris- 
tàos, e na noite antecedente houvera um eclipse da 
lua, quo Ihc fizcra presentir grandes desgragas, comò 
a bom e supersticioso musulmano que elle era. 

— No tempo do emir Abdallab, exclamava entre- 
tanto wali de Santarem Abu-Zakaria, bouve um ca- 
vaileiro, por nome Sadi-Ibn-Suleyman-Ibn-Gudi, de 
quem se disse que reuniu em si as dez prendas re- 
queridas para bomens de linbagem csclarecida — bon- 
(iade, valentia, cavallaria, gentileza, poesia, bem fal- 
lar, forga, destreza na langa, na espada e no atirar 
do arco. De ti, Ahmed-lba-Abdallab, podémos dizer o 
mesmo, porquc és realmente a perola da cavallaria 
do Al-Gbarb. Ab! se me fosse dado ver ainda erguido 
solio dos kalifas de Koi'dova, desejaria tambem ver- 
te sentado n'elle, porque.és em ludo um verdadciro 
filho dos Meruan; comò elles, és beroico nas pugnas, 
prudente nos conselbos, e na tua phantasia accesa 
desabrocbam, comò no solo ardente da Syria, as flo- 
res mais perfumadas. 

— Senhor, dizia-ibe ao ouvido o prudente wasir, 
OS forenicos trouxeram novas de que se dizia para as 
baadas da fronteira que havia movimento de cavallei- 
ros cm torno de Coimbra. Bom seria que ao romper 
d'alva podcssem os nossos abnogavares ir bater o 
campo. 

— Deixa-os, Mubamad-Ibn-Musa, deixa-os, redar- 
guiu Abu-Zakaria em voz alta, deixa-os vìrem sallear- 
nos as terras, que terào de largar, segundo o nosso 
velbo proverbio, a preza pela volta. Se aquelles fal- 
cOes mansos se atrevem a vir procurar a aguia no 
scu ninbo, sentirlo as garras da ave-rainba. 

As reminiscencias da corte kordoveza, e talvez tam- 
bem OS fumos do sahbà e de outros vinbos mais ge- 
nerosos, tinham exaltado até à loucura o orgulho de 
Abu-Zakaria. AHonso Henrìques jà era para elle ape- 
nas um falcào domesticado! 

wasir mcneou a cabega comò quem se nào dava 
por convencido. Abu-Zakaria continuou, voltando-se 
para o seu poeta: 

— A noite vae alta, a lua jà afogou no horisonle o 
seu disco rutilante, e ndo tardarà que apenas brilhe 
no eco a estrella d'ai va precursora da luz. Ibn-Xamri, 
nntes que nos separemos, transporta-nos aos tempos 
fclizcs da dynastia ommyada, cantando-nos alguns dos 
versos do grande kaiifa Abd-er-Rahman Annasir. 

Sem motivo algum, comegava a reinar uma certa 
tristeza na assemblèa. As conversagòe^ tinbam esmo- 
recido, e uma tal ou qual somnolencia pesava sobre 
OS convivas. Iba-Xamri, comtudo, afìnou o alaude, e 
procurou na memoria alguns dos versos do celebre 
kaiifa. Por fatalidade, logo Ibe lembràram os mais 
Iristes que elle compoz, e que sào os que principiam : 

Como suspirar nao ha de? 

cantor cedeu t tristeza de que eslava impregnada 



a poesia, e foi com lagrimas na voz que entoou os 
ultimos versos: 

matiz das minbas rosas 
dissipou-se com martyrios; 
. recéio que o vento iroso 
venha murcbar os meus lyrios. 

Meus claros dias passaram; 
cliega a noite tenebrosa, 
que nunca sera rendida 
pela aurora radiosa *.» 

Quando terminou, uma corda do alaude partiu-se, 
soltando uma vibragào dolorosa que fez estremecer os 
convivas. 

As luzes mesmo parecia esmorecerem e derramareoi 
sobre a mesa um clarào mais frouxo, que projectava 
no cbào sombras vagas e pbantasticas. 

Subito um grito longinquo, agudo, vibrante, resoou 
nos ares e vciu expirar nos ouvidos dos nobres moi- 
ros, ba pouco tao festivos, agora silenciosos e tristes. 

Instinctivamentc levautaram-se todos, e pozeram o 
ouvido à escuta. Os mais denodados estavam pallidos, 
e màos beroicas bouve que tremeram poisando-2»e no 
punho das cimilarras. 

Um outro grito, mas agora abafado e doloroso, veiu 
de novo expirar comò um tenue murmurio nos ouvi- 
dos dos bospedes do vali. 

— que é isto? pergunlou Abu-Zakaria dando um 
passo para a porta. 

Mas no mesmo instante a porla abriu-se, e um es 
cravo appareceu, pallido e convulso, soltando logo do 
limiar o terrivel grito : 

— Os nazarenos! 



(Continua) 



M. PlSHKIRO CflAOAS. 



Oh! quanta verdade é que a figura d*e€te mundo 
sempre està passando, e nós com ella... Olba cm espe- 
cial para os povoados, porque o mundo sào os bomens. 
ludo està fervendo era movimentos que acabam e co- 
megam: uns a sair dos ventres das màes, outrós a en- 
trar no ventre das sepulturas; aquelles cantam, d'alli 
a pouco choram; est'outros choram, dalli a pouco can- 
tam; aqui se està enfcitando um vivo, parede meia es- 
tào amortalbando um defuncto; aqui contratam, acolà 
distratam; aqui conversam, acolà brigam; aqui estào 
à mesa riodo e fartando-se, acolà estao no leito ge- 
mendo que riram e sangrando-se do que comeram. 
D'aquclla porta para dentro ouvem a palavra de Deus, 
d ella para fora apupam os que passam e dào-lhe vaia. 
Là vae um no seu coche com os pés sobre téla e ve- 
ludo, alraz das rodas vae um pobre nù e descalgo. E 
que turba-multa é aquella que vae cobrindo os campos 
de armas e carruagens? É um exercito que vae a uma 
de duas coisas: ou morrer ou matar. E sobre qué? So- 
bre que dois palmos de terra sào de cà e nào sào de 
là. E que arvores sào aquellas que vào voando pelas 
ondas com azas de panno? Sào navios que vào buscar 
multo longe coisas que piquem a lingua para corner 
mais, coisas que afaguem a pelle, coisas que alegrem 
OS olhos, isto é, especies, sedas, oiro, eie. 

Olbae trófego! ludo ferve, ludo se muda por in- 
stantes. Se divertires os olhos, d'alli a nada tudo acha- 
reis virado. rico jà é pobre, o mecanico jà é fidalgo, 
mogo jà é velbo, o sào jà é enfermo, e o homeoi 
jà é cinzas. Jà sào outras cidades, outras ruas, outra 
linguagem, outros trajos, outras leis, outros homens... 
ludo passa! 

1 Ksta nltima quadra vem no niagni6co (mas infelizmente incom- 
pleto) romanoo do sr. A. de Oiiveìra Marreca, o Condt aottcrano r/e 
Ccutella. Aproveitoi-a, pórque niio podia traduzil-a mais fielraenle do 
quo està. A outra quadra e todan a« outras -poesias arabe» quefifru- 
ram n'estc romancinho sào vprtidas da traduc^ao hoppanhola de D. 
José Antonio Condo na sua- MiMtm^a de la dominacion de lot arxtbcr. 



n 



ARCHLVO PIITORESCO 




A amistà villa, lioje cidade, in Sctulial Toi roitifìcadu 
por el-n-i D. AfTonso iv, quc Ihe majidou Tuzcr urna 
boa cérca de muros coni cìnco portas e nove posligos. 
ìNu derurso do tempo, nào catiendo deniro do cinlo di: 
pL'dra quo a apertava, estendeu-se por fórfi d'elle, for- 
mando doÌB arratialdes, com o Dome de Palìiaes ou 
Fonlainhas, e Ticino. ConlJNuando o tempo a correr, 
em parte db convulsòcs do solo, em parie o progressivo 
desenvolvìnienlo du populiigSo, foram ian(;aiido por ter- 
ra, pouco a poueo, a veiha cérca de [). Affonso iv. 
EnlSo OS dola arrabaldes, unindo-se i villa, lomaram 
a d«nomiija(<lo de bairros. Assim fìcou SptubaI com 
quatro parocbias, duas noe scus novos baìrros, e as 
DUlras duas no baìrro da villa, comprebcndido dentro 
do aniigo recinto murado. 

EBlae Eio dedicadas a S. JuliSo e a Santa Maria da 

Tomo xi IWe 



Gracu. É de tao itmota dala a ingliluisilo de ambag, 
que, por falta nbsolula de documcnlos quc a ducla- 
rem e compmvem, diapulam nTiciaiiìdadc umaàoub^. 
E, n&o obstante ser dado à de Santa Maria da Gra^a 
o [itulo de matriz, a parocbia de S. Juliuo disputou- 
Ibe por Iarg09 annos essa honra, e se a lina) deaisliu, 
foi mediante um accordo, pelo (fual consenliu aquella 
ein repartir com està uma das prerogativns de matrìz 
que geralmeniG mais se apreciam. Consislia, pois, o 
accordo em que saisse a prociss3o do Corpo do Deus 
alleriialivameiite, um anno da egreja de Santa Maria 
da Graja, e outro anno da cgreju dn S. Juliio. 

Parece que a parocbia de S. Juliao teve principio 
em uma capella cdiGcada pclos pescadorca, e por el- 
ica dedicada ao meamo santo. 

Hào sabemoB quc reediGca{Ces leve a referìiht ca- 



82 



ARCniVO PITTORESCO 



polla, depois de sor erìgìda em parochia, até aos Cns 
do seculo XV. N'osla cpocba, porém, ou por se achar 
multo detcriorado, ou por ser o edificio de fabrica mes- 
quinlia, procedcu-se a urna reconstrucgSo completa do 
tempio, nos ultimos annos do reinado de D. Joào ir, 
ou reinando yà el-rei D. Maouel. 

Conservou-se a nova ogreja em bom estado por dois 
seculos e melo. Sobrevindo, porém, o terremolo do 
1.° de novembro de 1755, posto que a nào langou por 
terra, causou-lbe bastante estrago, sendo o maior dei- 
xar-llie.as parcdes por lai modo fendidas e desapru- 
madas, que, ao cabo de alguns annos, ameagando rui- 
na, foi necessario demolil-u quasi inteiramentc para 
se reedificar de novo. 

Setubal padecéra tao grande destruigao com aquelle 
cataelysmo, que por multo tempo escassearam os bra- 
gos para a levantar das ruinas, sendo foi^goso acudir 
primeiro ao que mais urgia de promptas providencias, 
comò era reconstruir ou reparar a casaria da villa, 
para que regressasse a seus larcs a populagDo, que, 
fugindo espavorida na occasiao do sinistro, ficàra vi- 
vendo, pela maior parte, com grande incommodo e 
mal resguardada do tempo, em barracas do Iona ou 
de madeira, armadas por ordem do governo nos ar- 
redores de Setubal. Por oste motivo 6 que bouve tanta 
demora nas obras da egreja de S. Juliào, que so se 
cmprcbenderam no reinado da rainha D. Maria i. 

Està situada està egreja na praga do Sapal e (5 con- 
tigua ao edificio que foi palacio dos duques de Aveiro, 
qual linba tribuna para o dito tempio, onde os 11- 
lustres descendentes de D. Jorge de Lencaslre, duque 
de Coimbra, coslumavani assistir ao olììcio divino e 
mais festividades da parocbia, quando habitavam tcm- 
porariamente aquelles seus pagos. Està circunstancia 
de terem estcs fidalgos tribuna para dentro da egreja 
mostra que foram, certamente, bemfeitores d'ella. Cre- 
mos que, além de Inrgas esmolas com quo concorrc- 
ram para as solemnidades religiosas, e da doa^ao de 
algumas alfaias preciosas, que se perderam ou des- 
encaminharam por occasiao do mencionado terremoto, 
fora fcila, ou pelo mcnos renovada, a expensas dos 
duques de Aveiro a obra de talba doirada da capella- 
mór da egreja. 

Da reedifìcagfto de D. Joào ii ou dei-rei D. Manuel 
apcnas resta uma memoria artistica, que 6 o rico por- 
tal do tempio, reprcsentado em a gravura que juntà- 
mos a esle artigo, copiada de uma pbolograpbia. 

Dispensa-nos da descripgào a gravura por estar multo 
oxacta e perfeita, assim comò nos dispensaria o portico 
de declararmos a epocba em que foi fabricado. Aquella 
arcbilectura capricbosa, em que estSo mislurados os 
eslilos gotbico e arabe com alguma ornamentagào co- 
Ibida no estilo da renascenga, denuncia claramente o 
ultimo periodo da arcbitectura gothlca, o periodo da 
transiyào da arte gotliica para a do renascimento, que. 
em nosso paiz corresponde aos fins do seculo xv e 
primeiro quartel do seculo xvi, abrangendo os reina- 
dos de D. Joao n e de D. Manuel. 

Se cscudo quo se vó sobre o portai tcm esculpido 
um pelicano, comò se nos afigura, e o que nao podó- 
mos agora verificar, foi el-rci D. Joào u o roedifica- 
dor, pois que o pelicano, alimentando os filbos com 
seu proprio sangue, era a divisa ou emblema que 
D. Joào II escolb(?ra para com ella designar o amor e 
dedicagào que tinlia para com os seus subdìtos. 

Nos edificios erigidos por el-rei D. Manuel, ou cons- 
truidos com algum auxilio seu, sempre se Ibes punha 
a Cruz da ordem de Gbristo e as espheras armillares, 
conhecidas divisas d'oste monarcha. Na porla de S. 
Juliào nào se véem simllbantes emblcmas do seu mes- 
tradod'aquella ordem de cavallaria, e das descobertas 
é conquistas feìtas por sua ordem nas diversas partes 
do globo. Entretanto, é possìvel que as tivesse collo- 
cado arcbitccto em outra parte da frontaria que se 



demoliu para se levar a effeito està ultima reconslruc- 
gào. Em todo o caso, diremos que este portai póde ser 
attribuido, seni anachronismo da arte, a el-rci D. Joào ir 
ou a el-rei D. Manuel. 

resto da fachada é simples e sem belloza, des- 
dizendo completamente da arcbitectura do portico, co- 
rno tambem da sua clegancia e riqucza. 

tempio interiormente é dividido em tres naves, 
com olio capellas, além da principal. Àfóra a obra 
de talba relevada e doirada, que adorna as suas ca- 
pellas, reina por todo elle a maior singeleza. 

I. DR VxLiiBVA Barbosa. 



FRUGTOS DE VARIO SABOR 

(Vid. paff. Il) 

n 

AVENTURAS DE UM CARANGUEJO 

I 

individuo de quem vau escrevcr a amargurada 
Vida pertence a uma ra^a de infelizes, antlpathicos ao 
genero humano. 

A sua figura desengragada, o seu andar atravessa- 
do, seu ar de desconfianga, a sua timidez e os seus 
gestos bruscos e arrebalados, mereceram-lbc injusta- 
mente o desprezo dos outros entes. Nào bastava que 
a nalureza o deslierdasse das perfeigòes physicas.e o 
privasse de um animo valoroso, tao necessario à sua 
existencia aventurosa; ainda, por cumulo de sua in- 
feliz sorte, sobrecarrega-o o liomem com os seus des- 
dens e epigrammas! 

É movido por um sentimento de picdade e pela sym- 

: pathhi que me inspiram os grandes infortunios, quo 

vou tentar, nào direi a robabilitagào da especic, mas 

adquirir para ella uma pouca de compaixào das almas 

gcncrosas- 

II 

Nasceu o triste de quem trago a biograpbia nas pro- 
fundas fendas de um dos rochedos que povoam as 
praias da Povoa de Varzim. Sua màe tlnba-o apenas 
deposto no borgo com*um sem numero de irmàos, 
quando uma vaga, subindo furiosa pelos intersticios 
do penedo, espcdagou o pae contra o duro granito da 
propria babitagào, e arrebalou a turba recemnascida 
para os abysmos do Oceano! Pensava com razào uni 
patriarcha dos caranguojos, cuja vida se tinba alon- 
gado por espaco de ciuco goragOes, que nào havia me- 
moria nas passadas eras de uma devaslagào simlllianto! 

meu beroe, arrancado assim subitamente, no co- 
mcgo da sua primeira aurora, às doces e seronas alc- 
grias da familia, foi levado nos turbilbOcs das vagas 
alò ficar em sòcco n'uma praia barbara e inbospita, 
onde 03 seus irmàos liubam perecido aos milhares, 
por effeito do cataelysmo. Acbando-se som forgas para 
procurar a subsistencia, e sem abrigo contra os pori- 
gos da noite, quo se aproximava; vendo as suas ten- 
ras antennas melo quebradas pelo furor das ondas, 
sentindo os olbos pisados, e mal podendo supportar 
brilho do sol no occaso, o misero dosejou e esperou 
a morte com a consciencia da sua fraqucza e com a 
doce ignorancia dos que nào tem alma para aspirar a 
um mundo molhor. 

IH 

N'osta triste situagào, e todo entrogue a dosanìma- 
doras refiexOes, occotreu-lhe que na bora em que nas- 
cerà, e pouco antes da torri ve! catastropbe que o pri- 
vara dos maternaes afagos, recebéra sua màe a visita 
de um elegante caranguejo, e quando seu pae se apro- 
ximàra o visitante se escondéra entcrrando-se na areia. 



ARCOIVO PITTORESCO 



83 



Sem cdade nem juizo para tirar corollarios de uno suc- 
cesso tao naturai, tentou tirar partjdo d^essa vaga re- 
cordagào, e, depois de dolorosos csfor^os, couseguiu 
abrir urna toca supportavcl para passar a noite. 

Dcilou-se, pois, e adormeceu com o profundo somno 
da innocencia. 

lY 

Apcnas ccrrou os olljos leve um sonho — urna vi- 
sQo que Ibe pareceu um poema immenso e indocifia- 
vel. Viu pela primeira vez esses colossos enornies que 
nas memorias da sua nacjào se chamam homens, e 
scnliu-se gelado de terror calculando que cada um 
d'aqueiles monstros seria capaz, pela sua grandeza e 
voracidade, de comcr de uma so vez toda urna gera- 
(jào de caranguejos com cascas e tripas! Nolou com 
admiragào crescente que esses individuos, apesar da 
sua estatura agigantada, se cimmavam uns aos ou- 
tros caranguejos; e que o caranguejo tinlia chegado 
elitre as ragas liumanas a ser tornado corno symbolo 
de parlidos politicos ou de nafòes inleiras; que, sob 
tilulo de retrocesso ou retror/rado, altingfra tal forga 
corno entidade, que se atrevia a arcar com o pro- 
gresso e com OS progressislas todos! 

Pasmado com esles conbecimenlos, que crani igno- 
rados por todos os da sua especie, quiz investigar a 
causa d'elles, e, sempre sonbando, mergulbou o seu 
espirito nos abysmos do passado. 

Depois de lòiigo exame reconbcceu que toda a scicn- 
cìa, todo movimento intelligente residira, desde lodo 
sempre, no trazeiro dos individuos ou das coisas. 
Os instrumenlos agrarios, que lavram e lornam produ- 
ctiva a terra que sustenla o bomem, guiam-se todos 
pelo poslcrior; os navios, que pelos gloriosos desco- 
l)rimrntos pozcram o mundo todo em communicagOo, 
govcrnam-se pelo leme, collocado na pópa; os papa- 
gaios de papel, pelo rabo, para se podcrcm suslcr no 
ar; e comò eiles, todas as avcs e todos os peìxes; a 
artilberia e todas as arnias de fogo, embora vomilem 
pela boca os eslragos funestos que todos conbeccm, 
ó. para traz que dào o coice; a espada nao fere por 
si, é pela mào que a impunba; para as bestas anda- 
rem bale-se-lbes por traz, e ale às vezes se llies torce 
rabo, ou se Ibes puxa por elle para as endireilar; 
e u n5o ser a ignorancia e dosperdicio dos primeiros 
boniens, o cavallo nao se governaria pela boca, mas 
sim por essa pega naturai que a natureza sollcita Ibe 
|)0z entro as ancas; e, finalmenle, 6 ainda pelo pos- 
terior que se operam as revolugòes mais salutares na 
economia animai. 

Km \isln, pois, do que fica dito e dcmonstrado, cx- 
plicou infanlil caranguejo a si proprio a razao por 
que OS da sua especie andam para traz, procurando, 
com uma prudeucia diirna do maior respeito, as Ori- 
fjens de toda a sciencia, e ensoberbeceu-se proviso- 
riamenle por esse facto. 

(Continua) F. Comes db Auoriìi. 



KVOUA 

rX.HKJA E CONVENTO DE S. FRANCISCO 

(Conci asSo. Vid. pag. 63) 

XII 

Por cima da porta principal, da parte de fora, e 
tambem dentro, no alto do cruzeiro, estao as armas 
reaes enlre o pelicano e a esphera, pelo que preten- 
(Icm alguns quo a reedificagao do tempio foi comegada 
por el-rei D. Joào ji e concluida por D. Manuel ^ 

1 Ko portai do hospital de Todos os Santos, ora Lisboa, hnvia tam- 
bem OS dois cmblcmas, por ter sido estc edificio comefado por D. 
JoAo II e conclnido por D. Manuel. Vid. voi. iv, pag. 213. 



Em logar nenhum do ediOcio apparcce a data da 
construc^do ou o nome do arcbitecto. Eutrctanto, o 
conde de Raczynski menciona em o seu Dicciouavio 
lìistorico-artislico de Porlugal uma communicayào que 
Ibe foi feita pelo visconde de.Juromenba, d'onde consta 
baver sido Martim Louren^o o meslre das obras de S. 
Francisco. Assim o desjgnam alguns alvaràs dei-rei D. 
Manuel, que em 1507 e 1512 ordenava que Ibe pa- 
gassem os salarios, em 1513 nomeava-o inestre das 
obras reaes e outras da cidade de Evora, e n'este 
mesmo anno Ibe mandava dar os utensilios necessa- 
rios para edillcar o dormitorio do convento. 

Segundo uma tradiyào que se conserva na cidade 
e alguns escriptores repetiram, o arcbitecto, depois 
de le vantar as paredes, fugiu, e so passados dez annos 
vollou para concluir as obras. É provavel que o tempo 
que levarla a consolidar o esqueleto da egreja desse 
origem a està fabula. 

XIII 

À direila de quem entra no tempio, na primeira ca- 
pella, està, em grande parte occultado pelo retabulo 
de madeìra, um tumulo multo antigo e de eslranbo 
lavor. Tem no tòpo as armas dos (logominbos, na 
frenle as imagens dos apostolos, e em cima,-deìlada, 
a figura gigantesca d'aquelle cujos reslos enccrra. Por 
cima dos apostolos e das armas lù-se a scguinte in- 
serì pgao: 

«Aqui jaz o muito bonrado Fermio Concai ves Cogo- 
minbo, senbor que foi das villas de Aguiar e Oriolla, 
inslituidor do morgado da Torre dos Coelbeiros, fidalpo 
dei-rei D. Affonso o quarto. Falleceu na era de 13G4 
annos. >» 

tumulo é de marmore branco e assenta sobre 
leOcs do mesmo, assaz emplastrados de rebóco e tal- 
vez em partes mutilados. Os amadores dos preciosos 
restos da antiga esculptura porlugueza lamentam que 
esle se nao acbc mais bem conservado, e mais limpo 
e desobstruido do pò, da madeira e da cai que o cn- 
cobrem. 

XIV 

Jazem pelo cliào das capellas e da nave muitas cam- 
pasconi seus letreiros. Algumas, segundo ouvimos, fo- 
ram ba poucos annos para aqui transportadas da (egreja 
da Grara, o que poderà iuduzir a graves crros quem o 
ignorar. 

Occupava antigamcnte a tribuna real nào pequeno 
espaco por cima da capella mais proxima ao cruzeiro 
do lado da Epistola. Porque estava arruiuada e pare- 
cia de lodo inutil, a taparara seni deixarem vestigios, 
quando se fizeram os ultimos rcparos no tempio. 

relabulo da capella-mór é de marmore. Mandou o 
fazer no seculo passado o coiiego Antonio de Landim 
e Sande, que à sua cusla reedificou tambem a enfer- 
maria do convento em 1772. É aquella obra de [pes- 
simo gesto, deslaca desagradavelniente do esilio da 
egreja, e mostra baver sido descnbada por quem nào 
sabla as regras mais simples da arcbitcclura. 



XV 



Houve no convenlo de S. Francisco alguns bons 
quadros, altribuidos, segundo o costume, a (ìrao Vas- 
co. Transportou-os em 1834 |)ara Lisboa, |)or ordcm 
do governo, o dr. Antonio Nunes de Carvalbo, com 
OS mais que colligiu nos oulros conventos da cidade. 
Passavam de quatiocentos todos ellcs. 

Dos melbores dos franciscanos apenas Ocaram os 
que estào embebidos nos relabulos dos altares lale- 
raes contiguos a capella-mór. Taes sào no lado do 
Evangelbo: S. Francisco, Santo Antonio, Santa Clara 
e oulro santo da ordem ; e no correspondente do lado 
da Epistola: S. Jerouymo e outro santo eremita, o 



84 



ÀRCeiVO PITTORESCO 



Ànjo Custodìo e S. Miguel, todos pintados cm madoi- 
ra. Elste ultimo quadro representa o arcbanjo braudindo 
a espada coni a mào direìta, e corno que acertando 
OS golpes a urna nuveni que tem presa por urna ca- 
deia na niùo esquerda. A uuveni pareee uni borrSo 
coni quo quizeram encobrir a figura do demonio, que 
cm similbante sitio se costuma pintar. 

Conta-se a este respeito urna anecdota que repeti- 
remos aqui, apesar do anachronismo e das demais ra- 
zues que a tornam inadmissivel. Morrta de amores o 
Grào Vasco por certa dama da corte dei-rei D. Manuel. 
Nào Ihe correspondia ella, antes por sua fealdade o 
cscarnecia e desprezava. Cangado o pinior do scu in- 
util galanteio, transformou-se-ibe o amor em odio, e 
ostando de urna vez na egreja a pintar o quadro de S. 
Miguel, corno visse a dama na tribuna, zombando con- 
forme costumava, relratou-a aos pós do santo, por que 
ficassc aiii, fdta domo, pagando suas cuipas. Esteve 
assim painel muitos annos, até que certo guardilo 
do convento, lembrando-se que algumas vezes se dis- 
trabira a contemplar as perfeigOes do diabo, para que 
isto n5o tornasse a succeder, mandou garauulbar a 
figura na fórma que se ve. 



XVI 



Na capolla do cruzeiro, da parte da Epistola, ba uma 
porla, que de ordinario permanece aberta, patonleando 
ao publico tres casas, que largamente communicam en- 
tro si, lodas subjacentes ao dormitorio. A primeira é a 
casa do capitulo, onde se enterravam religiosos. 

A soguuda serviu antìgamcnte de capella de Santo 
Antonio; aqui se conserva a urna de marmore com 
OS ossos dos fundadores, a que alludimos no principio 
d'este arligo. 

A tcrceira é a casa dos ossos, notavel por seu estra- 
nilo revestimento, e pela devogdo e assiduidade com 
quo povo eborense a venera e frequenta. N'um es- 
pago de 11™ de largo e 18'",70 de comprido, à debil 
claridade que entra por umas pequenas frestas, nao 
se véeni senào craueos e outros ossos bumauos, que, 
ligados por cimento pardo, cobrem completamente as 
paredes e os oito pilares que sustentara a abobada. 

Por cima da porta lé-se : 

«Nós ossos que cu estamos 
Pelos vossos esperamos ^«» 

Pareee que o auctor do distico pretendeu augmeu- 
tar efifeito de lerror e tristeza que n este legar se 
experìmeuta, animando os ossos e dando-lhes voz para 
annunciarem aos vivos a idèa lugubre da morte. 

Usavam alguns antigos povos collocar os ossos hu- 
manos em sitios frequentados, a firn de que os bo- 
mens, pela continuagào de os verem, repugnassem 
meuos a idèa da morte, se recordassem de seu io- 
evitavel termo, e se expozessem tambem com mais 
coragem aos perigos da guerra. 

É possivel que estas idéas de raoral e de politica 
movessem egualmente os frades, em epocba remota, 
que se ndo póde boje determinar, a construir a ca- 
pella dos ossos. Foram de certo mui outras as que 
mais tarde os levaram a pendurar n'uma parede um 
es(]ueleto coro suas cartilagens, tenddes e pelle rese- 
quida, qual, segundo crémos, ainda là ndo estava 
no fim do seculo passado, pois deserò vendo Hurpby 
minuciosamente a capella, nào fez mengSo de tal ob- 
jecto. 

Ignoràmos a razào por que boje se conserva aquelle 
asqueroso ornato n'um legar tao concorrido, onde mal 

1 O traductor da Viagem de Murphy verteu este» dois versos noe 
segnlntei, qae chainou francez luterai: 

Tout ce qu'icl non» sommes d'os, 
LecteurSf runu attendon» tot peaux. 



pareee tudo o que nào é conforme ds regras da de- 
concia e do accio. 

No aitar da casa dos ossos està uma imagem do 
Senbor dos Passos. Serve-lbe de retabulo o modelo 
da capella-mór da so. Este modelo, de madeira pin- 
tada e doirada, é obra de alffum merecimento, e multo 
digna de estar em sitio onde melhor se podesse exa- 
mlnar. Defende o aitar uma balaustrada de madeira 
e de marmore que pertenceu à egreja da Graga, e bem 
se vó nào ter sido feita para estar entre ossadas hu- 
manas. 

xvn 

No anno de 1834, extinctas as ordens religiosas, 
ficou a egreja abandonada, e assim se conservou até 
ao anno de 1837, em que a irmandade da ordem ter- 
ceira, que tinba ba multo tempo a sua capella e casa 
de reuniOes contiguas ao tempio, pediu que Ibt3 fos- 
sem dadas as cbaves, a fim de cuidar do seu accio 
e conservagào, e patentear aos fieis a casa dos ossos. 
Em 1840 foi a egreja destinada à parocbia de S. Fe- 
dro, cuja transferencia se effeituou em 28 de novem- 
bre do mesmo anno. 

Todavia, comò jà em tempo dos frades o edificio 
ameagasse ruiria, progrediu o estrago a ponto de se 
determinar que de novo o fechassem e transferissem 
a parocbia para a egreja do Carme. N'esta conjuntura 
conseguiu o digno prior da freguezia, de accordo com 
a junta de parochia, cspa^ar a execugào da ordem, e, 
auxiliado pelas auctoridades locaes e por alguns res- 
peitaveis cavalbeiros da cidade, promoveu uma sub- 
scripQào para os reparos da egreja. Nào se pouparara 
a esforQOs e diligencias os membros da commìssào que 
para tal fim se organisou, e coube-lhes a gloria de 
levarem a cabo a erapreza, cuja iniciativa e prosegui- 
mento mais em particular se devem àquelle digno ec- 
clesiastico. 

Produziu a subscripQào a avultada quantia de réis 
3:4115481 ; e, além d'isso, concorreu o governo de sua 
magestade com a subvengào de 3:000iJ000 réis. Go- 
megaram as obras em Janeiro de 1860, e em junho 
de 1862 foi solemnemente restituida ao culto divino 
a egreja de S. Francisco. Assim, pela devogào e pa- 
triotismo dos cidadàos eborenses, se salvou da ruma 
mais bello tempio da cidade de Evora, e um mo- 
numento notavel da architectura nacional. 

A. Fiuvp* 8iuÒMB. 



ABDUL-AZIZ, SULTÀO DA TURQUIA 



Um dos acontecimentos mais notaveis do anno de 
1867 foi a viagem do sultào pela Europa. mystc- 
rioso soberano, que aìnda ha pouco mal se podia di- 
visar no centro da sua propria capital, n'alguma das 
solemnidades do rito mabometano, e que se conser- 
vava, a raaior parte do tempo, escondido na sombra 
venerada do serralbo, saia em fim do tabernaculo, e 
passeiava, corno simples mortai, nos Gampos Elysios 
de Paris, no Hyde-Park de Londres, no Prater de Vien- 
na. N'este ampio agape da civilisagào moderna vinba 
commungar tambem o descendentc do bomem que a 
afugentàra de Constantinopla, e a obrigàra a ir sen- 
tar-se pallida, mas com a fronte aureolada por um rc- 
flexo da civilisagào hellenica, nos lares grandiosos do 
Occidente. Na festa civilisadora da Europa vinha, para 
assim dizermos, sentar-se o ultimo baroaro, e o anjo 
luminoso do progresso humano cobria com as suas 
azas todo o continente europeu, logo que a ultima 
porta, que ainda se conservava cerrada, se abria de 
par era par, e sala por ella, para vir a seu encontro, 
vulto grave e melancolico do cbefe dos Osmaolis. 



ARCHIVO PITTOmSCO 



Este acoDlccìmonlo inilammou ao ultimo ponto ag 
imagina^Oes occidonlaes. Em primeiro logar a curio- 
sidadt! fAra vivamente excilada. N'este uiuiido ]& ea- 
ciado das maravillias modernag, que o genio do bo- 
mcm nìto cassa de produzir, o sullùo apparecia conio 
represenlanlo rid das maravillias do passado. eut- 
tùo na cxposÌ£ùo universa! ora o sonbo das SfU e urna 
noiles ao lado dus prodigios da industria; era o es- 
peclro de Saladino vindo visitar os desceiidentes dos 



aeus rudes adversarìoa; era a imagem d'essa magni- 
ficente cìvìlisagao arabe, tao deslumbrante para nossos 
barbaroa avós, ealudo do tumulo e comparecendo no 
congresso da mil vezes mais esplendiaa civìIisasSo 
moderaa. Vendo-o, parecia que se divi^avam em longa 
perspectìva todos os tbesouroe dos kaiifas, todas as 
magnilìceneias dos bazares orìenlaes, taneles de Smyr- 
na, espadas de Damasco, caflans bordaaos pelas màos 
daa fadas, alFanges curvos com o punho engastado de 




Abdul-AiU, laKio dm Torqnll 



perolas e diamantes, e que lodos esses espicndores de 
urna cìvilisaESo que se ìmmobitisou, csplendores que 
desmaiam persole o tuxuoso panorama dos prodigios 
d'csle seculo, vjnham na pessoa d'esse prìncipe semi- 
asiatico prestar bomcnagem ao triumpbai Occidente. 

sulUo, pclos tn-queniadores do palacio do campo 
de Marip, foi considerado menoscomo um homem do 
que corno um documento. Se os deixassem, fal-o-biam 
figurar dentro de urna vilrirìe, na sec^ao da hislorìa 
do Irabalho. ao lado de um oscuialorio do sgcuIo xiii, 
da espada do CJd, e das pinturas iconograpbicas da 
Russia. 

Para os bomens polilicos leve, comtudo, csla via- 
gem do Bultfio urna signiBcacSo diversa. Agora que a 
Bussia, recobrada por doze annos de absten^ao polì- 
tica, das gravEs ferìdas de Sebastopol, apparece mais 



poderosa do que nunca na scena europèa; agora que 
aos seus uumerosos exercilos, ds suas polenlcs esqua- 
dras, aos recursos, em firn, de sessenla miibOes de 
habilantcs, junla a forca moral de um principio, o 
panslavismo, principio falso, mas que o governo de 
S. Petereburgo lem sabido agitar naoccasiAo propria; 
agora que, l3o audaciosamentc comò no tempo do Oa- 
tbarina ii, e conio se os Iralados de 1856 jà fossem 
letra moria, inscreve o nome de Constantinopla na pri- 
meira pagina do seu programma de absorp^ào, a Eu- 
ropa fremente juigou ver u'esla viagem de Abdul-Aiis! 
urna esperanga de regenera^ào para a Turquia, um 
penhor dado à civìlìsa£3o do Occidente, o signal, em 
firn, de que na communhao dos povos europeus to- 
mava assento o povo ottomano, e de que se quebrava 
a linba de demarcalo que por tanto tempo separara 



86 



AfiOUVO nTTORESCO 



Q cbrislianidmo do islamisino, linhii de dem^ircagao 
(^ue subsistia mesnio quando as exigeucìas da poli* 
tica levavain a catbolica Franga e a protestante In- 
glaterra a combaterem ao lado da musulmana Tur* 
quia coQtra a scismatica Russia. 

Tendo nascidp no dia 9 de feverciro de 1830, e 
tendo subido ao tbrono qo dia 25 de junbo de 1861, 
sultào Àbdul-Azi2 conta trinta e oito annos de edade 
e sete de reinado. A. Europa saudou n^eile, pouco de- 
pois da sua ascensào ao soiio de Olhman, uni refor- 
mador mais energico do que Abdul-Mcdjid, mcnos fo- 
roz do que Mabamud. Vendo-o romper audaciosamentc 
coni muitas das velhas tradigóes da sua patria e da 
sua religiao; vendo-o ainda ha pouco, em 1865, ceder 
facilmente às rcpresentagóes das potencias occidentaes, 
e, tendo reprimido a revolla dos maronitas na Syria, 
revolta capitancada por José Karam, usar da Victoria 
com moderando pouco habitual na sua dynastia, a Eu- 
ropa concebeu a esperanga de ter Bnalmente na Tur- 
quia urna alliada que a imo envcrgonbasse. Vendo-o 
em 1867 calcar resolutamente aos pós os preconccitos 
da sua raga, e vir elle, o cbefe dos cronlcs, visitar 
a terra dos infieis nazarcnos, a esperanga subiu de 
ponto, e as acclamagOes do povo parisieusc, os toas(s 
das associagóes de Londrcs, as cortezias dos aulicos 
de Vienna, mostraram a Abdul-Aziz com quanto jubilo 
a Europa saudava na sua vinda o trcmular da ban- 
deira da civilisagào sobre as restabelecidas muralbas 
dos baluartes, que ella considera corno o unico pa- 
drasto ainda erguido contra as ^mbigòes moscowìtas. 

R tanto se enlevaram n'csses'applausos, tanto se 
ensurdeceram com as suas proprias acclamagOes, que 
nem ouviram os gemidos do Epiro, da Thcssalìa e da 
Macedonia, comprimidas pelas bayonetas lurcas, mas 
anciosas de indepondencia; o grito de agonia da illia 
de Creta, esmagada pelo galopar dos corccis de Omer- 
Pachà, mas estorcendo-se no exlremo arranco, e ju- 
rando aos seus irm&os hellenos luctar ató ù. morte; 
nem mesmo, o que mais os devia assustar, o grilo 
de desesperada aspiragSo que os slavos do imperio 
lui^co arrcjaram ao impcrador da Russia n 'esse faniigc- 
rado congresso de Moscow. 

Porque eu, civilìsada ou barbara, commungando na 
cucbaristia occidental ou obstinando-se no seu isola- 
menlo, nSo creio na Turquia corno nagSo europèa. 

(Continua) H. Pikueiro Ciiaoas. 



LUXO E MAGNIFICEiNCIA DA CORTE 
DEL-REI D. JOÀO V 

(Vìd. pag. 71) 

vni 

Amanbeceu o dia 19 propicìo a solemnidade que se 
ia celebrar. Era um lindo dia de inverno, corno os 
nào ha mais formosos fora d'oste nesso paiz. Acban- 
do-se, pois, tudo prompto em urna e outra corle, e 
ambas certificadas d'isso por meio de signaes conven- 
cionados, pelas dez horas da manbà rompeu ao mes- 
mo tempo, das baterias de Elvas e de Badajoz, a salva 
que annunciava a partida das familias rcaes de Hes- 
panha e de Portugal para as margens do Caia. A co- 
mitiva dos rei& catholicos era numerosissima e esplen- 
dida; mas a dos nossos soberanos eclipsava inteira- 
mente as pompas e esplendores do neto de Luiz xiv. 

Vamos descrever o prestilo real de D. Joào v. Te- 
remos de repetir, até certo ponto, coisas jà por nós 
descriptas n'este assumpto. Entretanto, està descripgao 
é essencial ao flm a que nos propozemos, e al6m d'isso 
nào deixa de cncerrar alguma novidade. 

Na frente do cortejo ia u'um codie rico da sua casa 
D. Pedro Henrique de Braganga e Scusa, duque de La- 
fOes, marquez de Arroncbes e conde de Miranda. Mao 



tendo sido accordes os parcceres dos mestrcs de ce- 
remonias àcerca do logar que competia no prestilo real 
ao aobrinbo dei-rei D. Joào v, fiibo e berdeiro de seu 
irmào, D. Miguel, a quem o mesmo monarcba havia 
recoubecido e dado as bonras que no reioo se costu- 
mava conceder aos 61bos bastardos dos nossos rcis, 
deliberou-sc o duque de I^afOes a corlar por todas as 
dùvidas e difficuldades da etiqueta, tomando de seu 
moto proprio a dianteira da comitiva. 

Após do coche do duque caminhavam quarenla co- 
cbes e berlindas dos titulares, tirados a seis cavallos. 
Cada um d'estes trens, bem comò o do duque, erani 
acompanbados e seguidos de numerosa criadagem com 
ricas librós, e de muitos cavallos a mào soberbamentc 
ajaezados. 

Seguiam-se : quinze soldados de cavallaria, comman- 
dados por um alferes; vinte e qualro trombeteiros e 
atabaleiros, a cavallo, vcstidos de veludo encarnado, 
agaloado de oiro, sendo as trombetas de prata; seis 
cavallos de mào do duque de Cadaval, estribeiro-mór; 
dezeseis cavallos de mao dos infantcs D. Antonio e 
D. Francisco, coberlos com telizes de veludo, borda- 
dos de oiro e prata; trinta e seis cavallos de mào dei- 
rei e do principe do Brazil, ajaezados do mesmo modo; 
urna partida de quinze soldados de cavallaria, coin- 
mandados por um tenente; doze poslilliOcs de gabi- 
nete, fardados de panno escarlale, guarnecido de ala- 
mares de prata; tres solas-cavallarìgos; dois cocbes 
com OS mogos da guarda-roupa dos infantcs D. Anto- 
nio e D. Francisco; a berlinda do confessor e medico 
da rainba; a berlinda do mordomo-mór e porteiro da 
mcsma senbora; uma berlinda com varios padres que 
acompanbavam a el-rei; a berlinda dos mogos da 
guarda-roupa dei-rei; a berlinda do corrcgedor do cri- 
me da corte e casa, e do confessor dei-rei; dois co- 
cbes com OS camaristas dos infantcs D. Antonio e D. 
Francisco; duas berlindas com os veadores, eslribei- 
rò-mór e mordonio-mór da princoza das Aslurias; tres 
berlindas com os veadores, mogos fìdalgos e estribeiro- 
mór di rainba; qualro berlindas com os veadores, mo- 
gos lìdalgos,. officiaes da casa, e cslTÌheiro-mór e gen- 
tis-liomens dei-rei; dois cocbes di» respeito dos infan- 
tcs D. Antonio e D. Francisco; dois cocbes de respeito 
do principe do Brasil e da princeza das Aslurias; dois 
cocbes de respeito da rainba e dei-rei, preccdidos dos 
seus estribeiros-menores a cavallo; um coche coni o 
infante U. Antonio; outro com o infante D. Francisco; 
outro com a rainba e a princeza das Aslurias; outro 
com el-rei, o principe do Brasil e o infante D. Pedro. 
Os coches das pessoas rcaes crani puxados por quatro 
parelbas de urcos, e todos os outros por tres parelbas. 
còche dei-rei era seguido de vinte e cinco mogo> 
da estribeira, a cavallo, ricamcnte fardados, e de qua- 
renla e tres mogos da camara em segcs. Após iani 
tres seges da pessoa dei-rei; tres da rainba; duas do 
principe do Brasil e da princeza das Aslurias; duas 
dos infantes D. Antonio e D. Francisco; uma berlinda 
das camareiras-niórcs;.tres das damas do bonor; tres 
de agafatas e mogas da camara; e cento e irinla se- 
ges com mais criadagem da casa real. Cobriam esl(* 
apparaloso cortejo um corpo de quiuheotos soldados 
de cavallaria e mais qualro esquadrOes. 

Proximo do Caia apearam-se os quarenla e tres mo- 
gos da camara e os vinte e cinco mogos da estribei- 
ra, postando-se logo em alas aos lados dos cocbes dos 
soberanos. Duzentos arcbeiros da guarda real, queti- 
nliam sido mandados para o Caia de madrugada, vie- 
ram formar terceiras alas aos referidos cocbes, às por- 
tinbolas dos quaes se coUocaram, a cavallo, os capi- 
tàes da mcsma guarda real, conde de Ponibeiro e D. 
Francisco de Sousa, senhor da casa do Calhariz e re- 
presenlante da illustre familia que hoje desfructa o 
titulo de duque de Palmella. 

Assim proseguiu o prestito até ao rio Caia, onde 



AnCHlVO PITTORESCO 



87 



cstavam formadas cm linba de bataiha as tropas por- 
tuguczas, sob o coromando dos condcs d'Alva e de 
Aveiras, e constavam de dez regimentos de iafanteria 
e seis de cavallaria. 

Elitre OS casos de mclindrosa e diflìcil resolu^ào qne 
se dcram a rcspcito d'estas vislas rcaes, um dos que 
mais deu qne fazer à diplomacia foi o modo por que 
se haviam de ver, abra^ar, congralular e conversar 
OS dois sobcranos da poninsula som que um ncm o 
outro safsse dos seus reiDos. Felizmente, depoìs de 
largas discussòes, em que mui distinctos bomens de 
eslado pozeram a prova a sua sciencia e perspicacia, 
acerlou-so com a resolugSo do problema. rio Caia 
tem a sua origem n*uma serica, na Castella; entra de- 
pois em a nossa provincia do Alomlejo, e, correndo 
a langar-so no Guadiana^ao, passar entro as cidades 
de Elvas e de Badajoz, serve de fronteìra às duas mo- 
narcbias. Decidiu-sc, pois, que se construisse abi urna 
ponte, e sobre ella um palacio, metade do qual fica- 
ria dentro da demarca^So bespanbola e a outra me- 
tade em dominios de Portugal. 

Fez-se a obra com muita rapidez e bastante dis- 
pendio das duas coroas, encarregando-se cada uma da 
parte que Ibe pertcncia. 

palacio-ponto era uma fabrica grandiosa e ma- 
gnifica, apcsar de sor feila de madeira. Davam-lhe jus 
a esscs litulos a vastidao do edificio, a sua arcbite- 
ctura monumentai, e as prcciosns aifaias e tapegarias 
que adornavam interior e oxteriormenle. A fachada 
que olhava para o nosso paiz era coroada com o bra- 
zào das armas portuguezas entro duas eslaluas alle- 
goricas. A frontaria opposta terminava com o escudo 
das armas castelhanas entro trophéos militares. Cons- 
tava esle palncio de tres grandcs salas: Jis duas das 
exiremidadcs perlenccntes urna a Portugal e a outra 
u llespanba, e a do contro metade a cada um d'estes 
paizes, dando a todas muita claridade varias janellas 
aberlas nas fachadas lateraes, que cafam sobre o rio. 
Subia-se para as salas de entrada por largas cscada- 
rias tapeladas e guarnecidas de balaustradas com seus 
vasos e figuras. As duas referidas salas estavam ri- 
camente armadas. À de Portugal vestiam-lhes as pa- 
rodes pannos de Arras, de subido prego, representando 
mui formosos quadros historicos *. As portas e janel- 
las decoravam-se com corlinados e reposteiros de da- 
masco carmesim, agaloado e frnnjado de oiro, e com 
sancfas de brocado de oiro. Estofos egualmente ricos 
cobriam os bofetes e as cadoiras. Sobre o pavimento 
eslava estendida uma alcatifa da Turquia. A metade 
do salao centrai que nos pertencia achava-se guarne- 
cida, paredes, portas e janellas, com veludo carme- 
sim, recamado de oiro, e com brocado branco com 
bordadura tambom de oiro. Uma soberba alcatifa da 
Persia de la, seda e oiro cobria o cbao. Havia n*esta 
parte da sala unicamente sete cadeiras, para as sete 
pessoas reaes portuguezas que dcviam assistir a està 
solemnidadc. Eram as cadeiras de obra de talba de 
lindo desenbo e do primorosa esculptura. As dei-rei 
e da rainba eram inteiramenle doiradas, e as dos 
principcs e infantes prateadas, sendo em todas o es- 
tofo lissù de oiro. 

A metade do salào pertencente à Hespanlia estava 
armada com tiras de brocado branco e verde, guar- 
necidas com galOes de oiro, as quaes, fingindo pender 
de um grosso ramo de oiro, pregado no lecto, imi- 

1 £l-rei D. Joào t gastou «omnias immensas nA compra d'este go* 
nero de tapf'^arian, entilo mnito em vng& pelo aperfci^oamcnto a que 
tinham ehegado. Aqaoilo «oberano reunln uma das mais oopiosas o 
rlcas coHcr^des qne em son tempo so conheciam em toda a £uropa. 
Infellzmcnte, a malor parte, cm que se Inrluiam as melhores e mais 
cnstosas, foram levadas para o BraslI cm novembro do 1807, por oc- 
easffto da partida da famllìa real, o por ordem expressa do principe 
rrgento, D. Joio. Arrccadadas no pavimento terreo do palarlo dos 
antiffos govemadores, na cidado do Rio de Janeiro, qno passon a ser 
resldencia real, alli foram dcstniidas, ao cal>o de pooeos annos, pela 
hamidade e pelaa baratas. 



tavam o interior de uma tenda real. Eram de eguaes 
estofos as cortinas das janellas e reposteiro da porta. 
N'esta parte da sala viam-se seis cadeiras de talba 
relevada e praleada, com assentos e costas de tissù 
de oiro. 

Junto ds margens do Caia, proximo do palacio-pon- 
te, construiram-se quatro elegantes tendas ou pavi- 
Ibues, duas do lado de Hespanba, e duas do lado de 
Portugal, uma para os aparadores e- servilo de copa, 
e a outra para os bofetes e refrescos. 

(Continua) I. db Viluska Babbosa. 



A FABRICA DE VIDROS DA MARINFIA GRANDE ^ 

(Vid. pig. 6«> 
III 

A fabrica està bem situada. Póde-se ale dizcr que 
a sua coliocagflo tem o que quer que seja de poetica. 
Por loda a parte, arvores, flores ^ e casas alvissimas. 
A povoagao e a fabrica formam um todo harmonico, 
e ao vól-as por primeira vez logo se presuppOc que 
uma ó necessaria a ex.istencia da outra, e que nao 
sera possivel para arabas viverem separadas. Com ef- 
feito, a vida da povoagào encontra-se na fabrica, e a 
Vida da fabrica existe na povoagao. 

A agradavel impressào que nos produziu a Marinha 
Grande quando a visitàmos ba bons trcze annos, au- 
gmentaria por certo boje, pois a real fabrica, em go- 
ral, tem melhorado muito desde entao, comò póde ve- 
rifical-o quem, obscrvando a gravura que publicàmos 
a pag. 45 d'oste volume, còpia fiel de uma boa agua- 
rella feita em 1866, se lembrar do que era n'aquella 
epocha ^. Confessàmos com franqueza e satisfagao que 
isso nos encanlou, e lornou mais vivas as saudosas 
recordagOes do bello tempo que passimos em Leiria, 
de cuja cidade a Marìnba Grande està distante, pouco 
mais ou menos, dez kilomelros, atravessando um ca- 
minbo mui pittoresco e deleitoso, assombrado de al- 
tos frcixos, e onde se ve, nao sem suave e intimo al- 
vorogo, a jung5o dos rios Lena e Lis, tao cantados 
e engrandccidos na Primavera de Rodrigues Lobo *. 

Formoso rio Lis, que entro arvoredos 
Idcs detendo as aguas vagarosas, 
Ató que umas sobre outras de iovejosas 
Ficam cobrindo o vào d'estes pcnedos *. 

É insigne cantor do Lis que nos faz assim a des- 
cripgao d'estes apraziveis sitios: 

«Èntre as fragosas montanbas da Lusitania, na costa 
Occidental do mar Oceano, onde se vécm agora, com 
mais nobreza levantadas, as ruinas da cidade antiga 
de Colippo ^, ha um espagoso silio, partido em verdes 
oileiros e graciosos valles, que a natureza com par- 

1 Para evitar errada Intorpreta^So, e completar o que so disse no 
eapitnlo antocedonto, icorca da fabrica do suartcs ftindada era Colna, 
notarcmos que essa fabrica J4 n&o esiste ba muito n*aqueIlo sitio, e 
se transferin para Sacavcm, onde parece quo ainda runcclona por 
conta dos hcrdoiros da sr.* Ponehet; e por Isso em vcz d*estas pala- 
vras: = que se oxportam «s deve ler-se =s qne d*alli so exportaram <=. 

S Na Marinha Grande as casas sSo, pela maior parte, de um so 
andar. £m 1RÓ5 vimos, o cremos qne ainda se rè, em mnitas d*essas 
casas uns canieiras de flores aos lados da porta da entrada, o qno 
dava à povoa^ilo singular cncanto. Isto é vulgar na Inglaterra, e ó 
do snppor qne o oso fosso transplantado por Stophens, quo para o 
mcihoramento da fabrica e da povoa^&o nada, para assim dizer, Ihe 
esqueccu. 

3 A'povoa^io tambem melboron muito, nio so pelo dcsonvolvimento 
qne tem tldo a industria do vidro, mas polo estabelecimento da ad- 
ministrafilo das mattas, da estasilo telographica, pelo augmcnto das 
lojas de venda, etc. Além dMsso, tata ligada a Leiria por urna boa 
estrada, o que torna bojo facilima a communica^Io dd Marinila Orando 
com a capital do distrlcto. 

4 Francisco Bodrlguos Lobo naseen n^oquellas ribdraa, corno elle 
proprio o dia: 

Nas ribclras do Lena fui nascido, 
e nas do Lis guardava o manso gado. 

E tambem é d^alll natnral o n%o menos suavissitmo poeta Antonio 
Xavier Rodrlgnos Cordeiro. 
K PrimaverOf ediflo do 1774, pag. 103. 
• Leiria. 



88 



ARCmVO PITTORESCO 



ticulares gragas povoou de arvores e de foDtes, que 
fazem n'elle perpetua primavera, em meio do qual se 
levanta um monte agudo de penedia, cercado corno 
ilha de dois rios, que pela falda vUo murmurando, 
até que, ajuntando-se no extremo da sua altura, le- 
vam ao mar em compauhia a vagarosa corrente; e 
assim da parte do rio Lis, que na còpia das aguas é 
principal, corno pela do claro Lena, aue, cscondido 
entre arvoredos, .faz o caminho, é culti vada a terra 
de muitos pastores, que n'aquclles valles e montes 
apascentaro, passando a vida contentcs com seus re- 
banhos, e cóm os fructos que a terra em abundancia 
Ihes oSerece, assim de Ceres corno de Pomona; por- 
que com a benigna inspirando do eco e disposigdo da 
terra, n&o sómente sdo as piantas mais formosas à 
vista, OS fructos mais saborosos ao gosto, as flores mais 
suaves ao cheiro e alegres aos olhos, mas ainda os pe- 
nedos mais engragados e parece que menos duros ^.» 

Voltando, porém, ao assumpto principal, de.que nos 
iamos afastando, diremos que a faLrica se acha a pouco 
mais de meio kilometro clos pinbaes de Leirìa, e que, 
além de um moinho e de uni armazem mais separa- 
dos, OS terrenos e as construcgòes pertencentos t mcs- 
ma fabrica, comò se reprosentam na gravura citada, 
coroprehendem-se em uma so pega, cercada de muro, 
e medindo a lèste 553'",75, ao sul 453", ao oéste 
652", 50 e ao norte 301"*,55, o que Uve dà a fórma 
de um trapezio em uma àrea de 18 hcctares ^; mas 
que alli ha mais notave), corno edificagào, ó o pa* 
lacio que o fundador Stephens mandou construir para 
sua habìtagào quando se demoi-asse na Marinba Gran- 
de, e para a administragào, com jardim e lago; o qual 
palacio, se nSo se recommenda pelas bellczas ardii- 
tectonicas, nào deixa, todavia, de ser muito regular, 
e de boa e nobre apparencia. Depois é a casa do ihea- 
tro ^, com diversas salas para concertos e bailes, que 
se lem alli verificado por vezes com grande esplendor. 

No espago que se destina propriamente aos labores 
fabris, comprehende-se o scguinte: 

Um pateo, que é a enlrada geral do estabelecimcn- 
to, com portnria para o nascente, e onde se acbam 
OS alojamentos menores, tendo ao sul o palacio, a 
oéste a officina da vidraga, e ao norie a olTicina de 
cristal e as casas de babitagao do conlra-nioslre e ou- 
tros empregados. 

Passada a officina de cristal, para o norte, ha um 
terreiro onde existe o deposito das Icnhas, e que lem 
pelo sul a dita officina e habitagOes annexas; a leste 
uma fileira de casas abarracadas, nas quaes trabalham 
OS carpinteìros, serralheiros, oleiros, etc. ; pelo norie 
a officina dos cadinhos; e a oéste diflferentes construc- 
gòes destinadas a accessorios do fabrico. 

Tem regularìdade e bom aspecto as officinas da vi- 
draga, seguindo o risco do palacio, e nisto se ve que 
architecto quiz conservar em barmonia os ^ndcs 
corpos d'està vasta edificagdo. Estao n'este edificio os 
fornos para a fabricagào da vidraga, e um forno para 
temperar os cadinbos. E no complemento d'està offi- 
cina comprehende-se o sagufio a oéste; um corpo de 
construcgCes que se communicam por dois puxados 
ao norte e ao sul, contendo a officina de estender a 
vidraga, com cinco fornos independentes e isolados 
entre si; uma casa para seccar os cadinhos; a offi- 
cina da sécca e da calcinagSio das materias primeiras, 
com caldeiras de cobre e de ferro para a refinagào do 
salitre e da potassa do commercio; e ainda para o 
norte uma pequena casa com um forno para cozer ti- 
jolo refractario. 

A officina do cristal é uma grande construc^do com- 

i Primaceraf pag . 9. 

t BtUUoriOf ptLg, 86. — InformofSu, pag. 71. 

S O cflUbelecimento do caminbo americano, em frente do edificio 
da fabiica, para o aervifo da admlniatrafSo das mattaa, tem damni- 
ilcado algans corpoi d^estas oonatmcfSes; notando^ae sobre todoa, co- 
rno mais prcijodicado, o theatro, porqae te acha a beira do dito ca- 
nlnho, eomo se y6 na graviira. 



posta de dois corpos unidos longitudinalmente, e com 
arcadasde communicagào praticadas na parede com- 
mum. É de alvenaria e cantarla. Ha n*esta officina 
dois fornos para a fabricagào do cristal, duas peque- 
nas arcas, à parte, para cozer os cadinhos, e mais 
tres isoladaà para temperar o vidro apromptado nas 
obragens; n'uma divisào de madeira e tabique, uma 
casa em que se fazem as pesagcns e determiuam as 
dosagens; e no pavimento levantado.sobre a mesma 
officina um armazem em que se aparta e acondiciona 
cristal que sae para a venda ou para os depositos 
de Lisboa, Porto, Evora, etc. 

Ha ainda annexos a està officina dois pavimentos, 
um dos quaes serve para armazem geral da venda do 
cristal, e o outro para guardar diversos materiaes. 

À officina dos cadinhos consta apenas de uma casa 
com algumas bancas fixa^, nas quaes os operarios, an- 
dando em volta, fabricam os cadinhos d mào e a mago. 

edificio cbamado das flores é a officina d'onde 
sae trabaibo da lapidagào. Consta de uma sala en- 
vidragada, tendo montados qualorze engenbos de la- 
pidar, OS quaes se movem por meio de um cixo ho- 
risonlal com quinzc conimunicagOes de movimento. 
motor é da forga de seis cavallos-vapor. A macbiua, 
que é de aha pressdo, foi assente em uma casa con- 
tigua a este edificio, e a caldeira estabcleccuse em 
um telheiro annexo. 

Além d*eslas construcg6es que se mencionaram, ha 
OS eslabelecimentos que o relator da commissdo de 
inquerito chamou subsidiarios, e os quaes sdo: l.** A 
casa da composigào da vidraga, ao poeiite do palacio, 
em quo dois operarios pesain e misturam as princi- 
piies materias priinas da vidraga. 2.'' Os telbeiros que 
se seguem, em que se faz a lavagem das areias, a 
aparlagSo e preparo do vidro qucbrado, etc. 3.* A 
forja, convenionlemenle mobilada, para o scrvigo da 
fabrica. 4.** A olaria, cstabelecida na fileira de casas 
abarracadas, de que acima se fez mcngào, e onde se 
preparam os barros para os tijolos, cadinhos, mesas 
de estender, eie. S,** A carpinteria, contigua pelo sul 
à officina do cristal, com pavimento superior, onde 
nào ha oulra mobilia sonào a que truzem os opera- 
rios que n'ella trabalham. 6.** A casa dos pisòes, onde 
se acha eslabelecido um bocardo de miiieiro composto 
de seis pilóes de madeira com sóccos de ferro fun- 
dido, pesando cada um 75 kiiogrammas, e serviiido 
de motor a agua do aqueducto por meio de uma roda. 
7.° A casa do forno, sob a fórma cylindrica e com 
ahobada de tijolo, de 14 mctros de diametro interior, 
a que se podia dar o nome de forno colossal. 8.° A 
amassaria, que aiiida serve para os ultimos preparos 
para o^ cadinhos. 9.** armazem dos vidraceìros, onde 
se corta a vidraga. 10.° A cavallariga. 11.** currai. 
12.** Os palheiros. 

Ao nascente e ao poente do palacio ainda se véem 
uns telbeiros sobrecellentes, que tem servido pura ar- 
recadagòes; e uma casa de dois pavìmeutos, a que 
chamam ceileiro. 

Fora do terreno murado, a real fabrica possue tam- 
bem um bom armazem, que a administragfto geral 
das mattas destinou para as experieneias de resina- 
gem; e um aqueducto de quasi tres kilometros, que 
tem abastecido copiosamente a quinta, as officinas, e 
um moinho de agua que vae aviar o quartzo e vidro 
em pò de que ha necessidade ^. 

(Continua) Brito Abamha. 

1 Loe. eit., pag. 87 e 73. 

O sr. Moasinho de Albnquerqnc, cbefe da reparti^Io de peaoa e 
mcdidas do dUtricto de Leirìa, diz-nos nas In/orma^ù» citadaa qne 
em 1862 o aquedacto «stava bastante arralnado, e que carccia de 
reparos, or^ados em mais de 2:400^000 réis. Nio sabemoa qaaea oa 
ooncertoa que ae Ibe flzeram doado aquella epocba, maa podèmoa ac- 
aegurar que a actnal empresa da real fabrica de vidroa Ji tem feito 
deapesaa avnitadaa com o dito aquedacto, doaentupindo oa eanaca e 
limpando aa naacentea, corrigiado aaaim a direc^&o da agua, que ia 
eacaaseando por canaa de frcquentes desvioa, aobre tudo naa proprleda- 
dea Tlilnfaaa. 



12 



AACHIVO PITTOHESCO 




da oldade d> Httru 



ILHA DO FAYAL — IIORTA 



Por muiliis e variadas tazòcs se roi'oinmotida à es- 
tima e esludo dos que se intercssam pelas coìsas de 
Portugal famuso arcbipclago dos Agorcs, )iro(iigio 
do {loder divino, quanto A sua formacao; Ibculro glo- 
rioso de gloriosi ss I mas facanhas, que muito contribuì- 
ram para o engrandecimcnto do nome porluguez, e 
para a conquista da liberdado, que ora gozòmos ; ber^o 
illustre de muitos varóes inclitos iias letras, oas ar- 
inas e nas virludcs; prova irrecusavel, pela frcqueu- 
eia de imponentes phenomenos geologicos, de que 
coutinùa ainda alli a nalureza a sua evolugùo tellu- 
rica; mananciai uberrimo de riqueza; ibeatro mages- 
loso e nunca assaz admirado de formosura e encanlos 
naturaes, onde 03 quadros da mais mimosa e louga 
paizageni se aJternam com os mais severos e ater- 
radores espectaculos que ao bomem é dado contem- 
plar; monumento eterno do genio emprebendedor e 
da grande inlelligencia do nosso infante D. Uenrique, 
do scismador de Sagres, cujo nome durarà tanto corno 
o mundo. 

Do multo que ucerca do arcbipelago dos Agorcs ba- 
via a dizer, veda-nos que iraleraos a cstrelteza do 
tempo e do espaco de que dispomoa u'esle semanano. 

I^m numcrosos livros e jornues, nossos e eslranbos, 
eocontrarà leitor curioso nolicias, que Ibe nSo damos 
agora, porque mesmo resumidus avullariam muito. 

De presente, diremos duas paiavras a respeìto da 
cidade da llorta, Gelmente reprcsenlada na gravura. 

Se quem ler eslas li<ibus nào tivcr tido a ventura 
de BUlcar Oceano em demanda do b'ayal; se nunca 
aporlou équelle abcn^oadD torrao, nem pisou solo 
da sua capital, delenba-se um pouqulobo e coolempte 
aquella vista, tao singcla e tao encanladora, diremos 
até tao casta e convìdaliva. 

Todos OS que a sua boa cstrella lem levado iìquel- 



las paragens sao concordes em dizercm que niko ba 
no arcbipeiago agoriano cidade mais seductora e ^ue 
mais esplendida perspectiva apresente 30 forasteiro, 
cujos olbos se nao fartam de Ibe admirar de Eonge aa 
bellezas, e cujo coratào, aiitt'gozando as delicias d'a- 
quelle paraiso jacenle no meio das immensas aguas, 
auhela rcpoisar à sombra de seus copados arvoredos, 
e sentir palpitar junto de si os generosos coragòes doa 
que babìtam aquelle èden. 

Tudo alli conspira para tornar a vida feb'z, e para 
lisonjear os senlidos e dilatar a alma que sabe com- 
prebender o que é a poesia. 

Imagine-se uma vasta babia semeada de navios de 
todas as partca do mundo, que alli v3o, ora para re- 
pararem as avarias que soffreram em suas rótas; ora 
para se abastecerem de agua e viveres, a firn de pò- 
derem demandar os portos a que se dcslinam; ora 
para se fornccerem do saboroso vinbo, que abundanle 
e opimo produz aquelle torrdo, e das saborosas e re- 
frigeranles laranjas, que, antes de serem fruclosgra- 
lissimos ao paladar, foram parte de candidas e fra- 
grantissimas Qores, que cmbalsamaram a atmosphera 
entre as tuzidias e sempre verdes folbas, e cboveram 
sobre a terra, alaslrando-a e formando mtmoso tapele, 
para sobre elle passarem as elegantes babitadoras da 
liba, das quaes affinna juiz competente, Paris insus- 
peilo, que aos mais bellos doles do espirilo e do co- 
ra£3o reunem' peregrina belleza. 

Ao fundo da babia, parccendo Burgtr das lìmpida» 
aguas, por vezes orvalhadas por ellas, er^ucra-se em 
exlensa liuba babila^ues elegantes, lìmpissimas, quasi 
lodas cercadus de alegres jardios esmeradameute cul- 
ti vados. 

Da circunstancia de ter cada babila^^o seu proprio 
jardim ou boria, com abundante agua para regas, Dor- 
bulbaiido em um ou mais po^os, deriva, su dermos 
credilo ao bom do jesuila Antonio Cordeiro, nome 
gracioso e bello que a cidade lem. 

(Cobllnùi) Som* Tuuu. 



J 



90 



ÀliCfllVO nTTOKESCO 



WALI DE SANTAREM 

(Vid. pag. 78) 

V 

NO EIRADO DA TORRE 

Eni quauto na sala do banquetc eram ludo risos e 
folgares, quando yà- liavia muito se apagara a luz ere* 
puscular, e a lua, alta no ceo, banliava com o scu 
clarào mclancolico as muralhas do alcagar de Santa- 
rem, Zuleyma, rccoslada em flacido divan n'um apo- 
scnto do barem que fica va proxinio da sala do festim, 
prestava curiosa o okvido às palavras que se trocavam 
cnlre os convivas. 

Envolta no vóo candido scmeado de estrellas de oiro, 
agitando o pi'^sinbo calgado com a alparca de seda, e 
inclinando para o lado d'onde vem o runfior das vozes 
a fronte liùipida cingida por urna faxa de perolas, a 
cabecinba airosa coroada de perfumadas trangas que 
a coifa moirisca prendo, Zuleyma, com o seio palpi- 
tante, OS labios de coral entreabertos por um sorriso 
cxtatico, rosto afogueado pelas vivas córes do jubilo 
e do pejo, escuta as pbrases apaixonadas do seu ado- 
rador. Os mais raros perfumes roscendeni em casso- 
Ictas de prata no aposento silencioso, e urna cscrava 
asiatica, tendo as suas longas trangas ennastradas de 
flores» espera, com a barpa de oiro na mào, as ordens 
da sua senbora. 

Zuleyma repara em firn que nSo eistà so, e, envcr- 
gonhada de se ter deixado surprehender no extasi em 
que a langaram as lisonjas do bomem a cujo amor 
ella secrctamente corresponde, despede com a mSo a 
escrava attenta aos seus minimos gestos. Ficando só- 
sinba em firn, a filba do ^vali de Santarem inebria-se 
a vontade com esse perfume longinquo de poesia e- de 
4imor. Escuta arrebatuda os vei^sos em que Abmed-lbn- 
Abdallab canta os seus feitigos, e lagrimas silencio^ 
sas, lagrimas de alegria Ibe deslisam, comò perolas, 
[jehis faccs cor de rosa. 

É porque ella ama devéras o honiem a quem seu 
pae a destina. Quanlas vezes, escondida pelas recbas 
da avara gelosia do harem, o nào viu ella passar me- 
neando com garbo o seu formoso ginetc andaluz, ro- 
deado pelos cavalleiros da sua guarda e pelos al-kaides 
de seu pae, e sobvosalndo a todos elles pela altivez 
do porte, pela lougania dos trajos e pela formosura do 
rosto! Quanlas vezes nào dissera ella a si mesma que 
seria aquelle o esposo dos seus sonhos, o bomem a 
quem desejaria votar o coragào e a vida, o senbor de 
quem desejaria ser a escrava apaixonada e bumilde! 
Mas esses devaneios terminavam sempre por um sus- 
pìro, porque para a donzella musulmana, ainda a mais 
querida de scu pae, n3o ba liberdade na escolba do 
bomem a quem deve confiar o seu destino; de nada 
Ibe vale mesnio a resplendente formosura, porque nào 
póde <^aptivar con) os seus encantos aquelle que a fas- 
cinou. Sepultada na obscuridade do harem, vé-se obri- 
gada a esperar do acaso a realisag&o dos seus votos. 

Mas acaso d*esta vez fora favoravel a Zuleyma. 
Quando seu pae Ibe disse que a destinava ao fìlbo do 
wali de Lisboa, arquejou-liie o seio com vìoloncia, e 
saltaram-lhc dos olbos lagrimas corno punbos. velbo 
wali julgou primeiro que a allligira a noticia, e afas- 
touse um pouco penalisado, ainda que pela mente 
nem Ibe pass;'ira a idèa de faltar ù patavra jd empe- 
nbada com o Albo do seu collega. É que elle nào sa- 
bla que os grandes jubilos d*esta pobre humanidade 
nào encontram outra expressào que nào soja egual- 
mente a das supremas dorcs. 

Agora, escutando os ardentes versos de Abmed-lbn- 
Abdallab, Zuleyma sentia um contentamento indizivel, 
e ao mesmo tempo um incjfprimivel espanto. Bastava 
so a fama da sua formosura para que o fìlbo do yrnìi 
de Lisboa a decantasse com tanto enthusiasmo? Nào 



era possi vel urna tal supposi^ào; Zuleyma, corno todas 
as fllbas das ragas do Oriente, acreditava na influen* 
eia magica dos sonlios. Talvez o amor que ella sen- 
tirà de subilo ao vél-o passar nas ruas tortuosas de 
Santarem, amor fèrvido e impetuoso, fosse, pelo mys- 
terio do proprio magnetismo, sobresaltar vagamente o 
espinto do moiro gentil. Talvez n'essa mesma noite, 
à bora fatidica em que as sombras comegam a desfa- 
zer-se e deixam lluctuar n'esse crepusculo vago, ainda 
mal arraiado pelo reflexo da madrugada distante, os 
pallidos pbantasmas, as fìguras nebulosas, filbas da 
pbantasia que, jà desperla, vagucia solta dos lagos 
corporeos, em quanto o involucro material està ainda 
enlregue ao somno, talvez n'essa bora baf(»jada pelo 
halite perfumado das sylphides rosadas^ filbas do amor 
e da aurora, talvez enlào a sua imagem, formosa e 
radiante, Ibe apparecesse debuxada no cspelbo trans- 
lucido do sonbo; e quando elle a final despertasse, 
talvez livesse jà gravada na alma essa forrfiosissima 
imagem, dìante da qual queimava no tburibulo de 
oiro dos seus versos o fragrante incenso do amor. 

Mas nào fora assim. Uma tarde em que Zuleyma, 
absorta no seu languido scismar, recostada no para- 
petto de um dos terragos da alcagova, deìxava discor- 
rer OS olbos distrabidos pelas veigas risonbas, onde 
comegavara a desdobrar-se, corno cscuro t^petc, as 
vastas sombras do crepusculo, Ahmed-Ibn-Abdallab, 
que voltava da caga e que se ndiantàra aos seus mon- 
teiros, deixando, lambem embevecido na bellcza da 
tarde, ir o cavallo a passo com a redea deslcixada, 
viu aquelle vulto gracioso, immovel no cimo do ter- 
rago, onde os raios do sol poente, que se apegavam 
antcs de se escondorem às grimpas dos minaretes e 
a todas as eminencias^da casaria, banbavam com a 
sua luz moribunda, mas aìnda alegre, as fórmas do- 
licadas da filba do wali. Abmed-Ibn-Abdallab ficou 
instantes extatico e assonibrado; julgou ter diante do 
si uma das fadas formosissimas, de que tanto fallani 
os contos orientaes. A belleza peregrina e etherea d'a- 
quelle rosto melancolico; a allitude. pensativa do seu 
vulto, que parecia fluctuar, porque em torno d'ella 
comegavam a subir lentamente os vapores que se ex- 
balavam do rio ao descair da tarde; o aèreo vèo des- 
caldo sobro OS hombros, e cujas estrellas de oiro o 
rubins, accesas pelos raios do sol, parecìam rodeal-a 
de uma verdadeira e fulgurante constellagào; ludo isso 
redobrou o enievo do mancebo, enievo que foi rapido, 
seu sequito venatorie appareceu d'ahi a instantes. 
e tropear dos cavallos, acordando .do extasi a for- 
mosa do eirado, obrigou-a a sumir-sc, envolvendo-se 
à pressa no véo transparente, e concbegando nos hom- 
bros a capa moirisca, que Ibe caira no cbào. Mas. 
sumindo-se, a gentil Zuleyma deixàra nos ares, corno 
as deusas da EneUla^ um perfume vago que inebriàra 
filbo do wali de Lisboa, e que Ibe inspiràra os versos 
em que elle tanto louvava a formosura da sua noiva. 

Zuleyma ouvia-os, e o coragào jà nào podia center 
jubilo que trasbordava. Era amada! amada, corno 
desejava scl-o, por aquelle a quem tambem consa- 
gràra o mais profondo alTecto! Oh! comò ella agrade- 
cia a Deus o ter assim ligado coragòes, entre os quaes 
as leis do mundo musulmano punham tantos obstacu- 
los, pelos lagos invisiveis de uma ignota sympatbia! 
Levantou-se e passoiou na sala, aiTastando as suas 
longas vesles. Pela gelosia estreita insinuava-se um 
raio da lua. Zuleyma sentiu um desejo immenso de 
confiar as suas esperangas ao luar, à brisa, à noite 
silenciosa, noite do primavera em cujo silencio au- 
gusto e fremente comò que se ouvem os murrourios 
dos anjos e a harmonia das espheras.. 

Saiu do aposento, e, subindo rapidamente ns osca- 
das, respirou desafogada no eirado solitario da torre. 
Alli nào bavia sentinellas; o inaccessi vel ck) sitio fi- 
zcra julgar essa precaugào escusada. Zuleyma olbou 



ARCHIVO PITTORESCO 



9r 



em torno de si* A lua, quasi a desapparccer do Gr- 
niamcDlo, envolvéiii-a toda n'um longo boijo lumino- 
so. A noitc ostava sileociosa e amena. Tcjo, soroiio 
e limpido, resplandecia ao longe corno um escudo de 
prata. A a/agem suspirava muito de manso ao ouvido 
de Zuleyma, e, agitaudo-lhe ao de leve as traiigas i*es- 
ccndcDtes, confundia com o perfume de primavera, 
que furtàra dos vergeis òs ameodociras em Oor, osse 
oulro perfume tambem de primavera, porque a moira 
gentil era corno que a incarnag&o paga da mciga es- 
tacilo em que os botues de rosa desabrocbam. 

Fot rouito tempo Zuleyma, enlevada nos proprios 
pensamcntos, se aeixou embalar pelas harmouias, po- 
Ins fragrantes exbalagues d'essa noitc luminosa e di- 
vina. Depois, quando o seu ouvido cessou de cscutar 
por um instante as melodias dcliciosas do- cora^ùo, 
parerou-ihc Fcntir aa longe um rumor estranho. Dir- 
sc-bia um tropear abafudo de cavallos, um tinir de 
armas tàt) sumido e tao vago, que parccia apenas o 
cebo expirantc de urna peloja (ravada muito ao longe 
ontre combalenles invisiveis. lOquiela, Zulcyma cbe- 
gou-se ao parapetto e apurou o ouvido pura o lado 
d'onde vinba o som alerrador. silencio reinava de 
novo na placida extensào das campinas; uem uro mur- 
murio se ouvia que nao fosse o tenue ramalhar da 
brisa nas arvorcs enfolhadas pelos primciros bafejos 
da primavera. luar, quasi a desapparccer do eco, 
aiastrava uinda pela vciga o seu dardo ja debil. Os 
olbos de Zulcyma, que o susto fizcra mais penctran- 
t(*s, di;^tinguiram de subito ao longe um rclampago 
fugitivo, corno a ciiamma pallida que a lua accende 
no ferro das lau^as ou nos einios polidos. Quiz-se af- 
firmar de novo, mas o disco luminoso desapparcceu 
em firn no borisonte distante, e as sombras da noitc, 
cortadas apenas pelo mortilo clarào dcis estrcllas, eu- 
volveram no seu tenebroso manto o rio, os canipos e 
castello. 

Zuleyma ficara suspensa e pavida. que bavia de 
fazer? (Ibamar os seus; mas por que? Porque ouvlra 
um rumor que logo expiràra, porque vira scintillar 
um clurào vago que se apagàra rapidamente. Mas se 
e.-isc rumor ó o dos cavalleiros de Ihn-Errik, vindo 
pela calada da noile saltear o castello? Nào ó, de 
certo; é apenas a brisa a suspirar mais lugubre n al- 
guni corredor abobadado do antigo alca^ar. li se essa 



cscravo Ihes dissipou as dùvidas, sottando do liroiar 
da porta esse brado fatai: 

— Os nazarenos! 

Erani effectivamenle os cavalleiros de Affonso Ilen- 
riques. 

(ConUnùa) M. Pisiikiico Ciuojis. 



TEMPLO DA INVOCACÀO DE SANTA MARIA 

CATHEDRA L DE LISBOA 

Sào vàrias e mui divcrsas as opiniòes quanto & ori- 
gem da sé do Lisboa. Uns adduzem argumentos para 
negar a sua antiguidado; outros a fazcm mesquita de 
moiros; outros, finalmente, a qucrem nada menos que 
te[nf»lo da gentilidade, consagrado ao Sol. Fundani-sc 
OS primeiros na memoria escripta pelo meslre Itlstevao, 
cbaiìtre da sé de Lisboa em tempo de D. AITonso llcu- 
riques, que (rata da trasladacao (lo corpo de S. Vicenle 
Martyr ^, e em outras razOes, as mais d'elias desmen- 
lidas pelos factos que alli se encontram. Os que a fa- 
zcm mesquita de moiros tambem allegam suas provus 
e raciocinios. li os que pretendem que fosse tempio 
de pagàos eslribam-se em forlissimas conjecluras, tacs 
por exemplo: 

1.° acbado de inscrip^Oes romanas, copiadas pelo 
abbade José Francisco Correa da Serra (nome beni co- 
nbecido na republica das letras e da Lotanica), e que 
conego Antonio José da Cruz, eiicarregado da recdi- 
ficayao depois do terremoto de 1755, fez nittler no 
cimento das paredes, a ponto de nào poder colejal-as 
do novo com a còpia o refendo abbade. sublerra- 
neo sobre que se le vanta o edificio, que foi de.scoberto 
pelo lerrcmoto de 1755, quando desabou a torre me- 
ridional, e se affirmou nào se Ibe descobrir firn. Hlle 
estava entào intaclo, e mostrava ter merecido certa 
considera(;ào, fosse qual fosse o uso a que o tivessem 
destinado. Corlando \ìov tudo os reedificadores em 1776, 
so cuìdaram de entullial-o. Consta que o reilor que en- 
tào era da sé, Placido Rodrigues Velbo, lizera disio 
assento no livro de suas memorias. 

2.° dizer de anligos auctores de que bavia um 
lemfjlo, proximo ao Tejo, consagrado ao Sol. 

3.° A serpente que Ibe cercava o zìmborio, conio 
se le na Miscellanea de Miguel Leitào de Andrade (im- 
(bamma longinqua denuncia as ferreas armaduras dos pressa em Lisboa em 1629), e que talvez symbolisasse 
nazarenos? Nào é possivel; foi o luar expirantc que a serpente Pliiton (a qual malou Apollo), 
accendeu urna cbamma epbemera n'algum cbarco das 4." facto, que veni cori-oborar este, das columnas 
campinas. Assim, procurando socegar os pavores da lateraes da porla [)rincipal, ainda boje alti existeiites, 
sua iniagina^ào exaltada, Zuleyma fica inuDOvel no e de que os capiteis, ^vm caracler algum do culto do 
eirado da torre, contemplando irresoluta as cslrellas Islam ou do cbrisiianismo, póde ser que denoteni os 
que palpilam no firmamento. 

De subito acodem-lhc a lembranga as vagas amea- 
cas do afrirano. Deus! se e.^se espirilo mau vem, co- 
nio um enviado de Iblis, o Satanaz das lendas musul- 
manas, laudar a perturbagào e o terror na sua felici- 
dade nascente! Kntào, pallida e inquieta, aproxima-se 
com passos rapidos do parapcilo da torre; mas de su- 
bito um vulto sinistro e negro ergue-se dianle d'ella, 
comò se brota.sse das profundezas mystériosas da noite, 
e logo oulro o segue, alleando-se pouco a pouco ao 



signos do anno. Da parte direita da enlrada: prinuM 
ni, urna mulbcr entre duas pequenas figuras, que de- 
nota Leda com os dois Glbos, Casfor e Pollux, os ge- 
meos do niez de maio; segunda, um genio com quatro 
azas, enlre dois delpbins, que signidcariam os delpbins 
de ÀmphilritCs Piscis do mez de fevereiro. Da parte 
esquerda: primeira, urna mulber coroada enlre dois 
ornatos, que parecem no feitio geral duas jmvéas de 
Irigo, talvez a densa CereSy symbolo de agosto; se- 
gunda, um Hercules sobre o leào, tendo na mào a 
longo dos muros do castello. Zuleyma, convulsa e at- j ma^a, symbok) de julbo. Na face contigua do mesmo 
tonila, solla um grito agudo que vibra funebremente capitel, um toiix) cavalg.ndo por uma mulber, que de- 
no sileneio da noite. «Us nazarenos!» ia ella a bra- nota ser a Europa, symbolo de abril. Estas coiumnas 
dar logo depois, percebendo em fim que genero de [ tinbam porvenlura relagào com o ziniborio em que se 
inimigos tem dianle de si; porém mào de ferro afo- vìa a serpente que rematava lodo o edificio. 



ga-lbe na garganta o grito, que esmorece n'um gemido 
fdangente e lugubre. Ao mesmo tempo lux um punbal 
nas Ircvas. embebc-se no peito da moira gentil, e a 
filba do wali de Santarem, ferida mortalmente, cae 
banbada em sangue no eirado da torre. 



5.** Finalmente, o subterraneo sobre que se levanla 
mesmo edificio. 

Os que impugnarem estes fundamentos, sem com- 
tudo darem por apocbrypbas as aucloridades citadas, 
ou as suas asser^óes (a estes ultimos nào lia respon- 



Foram esses dois gritos os que se ouviram na sala ' der), poderào objeclar: Que as inscripcOes romanas 
do banquete, e que os convivas escutaram com a pai- beni poderiam dar-se em lapidas transferidas para alli 
lidez no rosto e a turvayào uo espiriìo, até que um i i Em io do sctembro de ins. 



92 



ARCHIVO PmOBESCO 



de outros edificìos; que o tempio do Sol, proximo ao 
Tejo, em que fallam escriptores coevos, seria mais 
depressa o que ha via no cabo da Roca, cm baixo, 
junto ò, rocba, do qua], ainda em tempo de André 
de Rezende, existiam as ruinas dos cippos com le- 
treiros; que a serpente do zimborio tanto poderia si- 
gnificar a serpente Phiton corno qualquer outra, ou 
servir meramente de ornato, corno capricho de archi- 
tectura gothica. mcsmo argumento serve, quanto ao 
facto perduravel das columnas, para o capitel da rau- 
Iher e o toiro, além de que o numero das mesmas é 
ìnferìor ao dos doze signos. Mas quando effectivamente 
OS denotassem, quem a^segura que nSo foram desio- 
cadas e trazidas do tempio do cabo da Roca pelos ara- 
bes ou pelos seus vencedores? A final, nào ha mais 
razao para crer aue o subterraneo fosse antes per- 
tenga ao tempio de gentios do que mesquita ou egre- 
ja, visto que d'elle se nSo refere algum indicio pecu- 
liar e caracteristico. 

Sem nos mettermos a decidir em ponto tio contro- 
vertido, julgàmos, porém, que se poderia perguntar: 
Serào lambem as inscripgOes romanas licengas e deva- 
neios de gothica arcbitcctura? Scria moralmente pos- 
sivel que os sectarios de Mahomet ou os portuguezes 
de D. Affonso Heuriques langassem mào, para as suas 
edificagOes religiosas, de pedras contendo inscripgóes 
e symbolos evidentemente genlilicos? Se disserem que 
pela mesma razSo os nao deviam ter conscrvado, res- 
ponde-se que vae grande diCferenga de construir desde 
alìcerces a aprovejtar o que jà estava feito, corno se 
observa em Santa Sopliia de Constanlìnopla, hoje mes- 
quita de turcos, e em tantas mosquitas purificadas e 
sagradas cm catbcdraes e matrizes depois de ganha- 
das em ciuco mil batalhas, que tanto custou a liber- 
tar do jugo sarraceno à peninsula bispanica! Acaso 
implica com a existencia do tempio do cabo da Roca, 
mais proximò ao mar que ao Tejo, a existencia de 
outro tempio situado quasi à beira d'este rio? Àcerca 
da significagào e destino da serpente do zimborio, do 
capitel da columna e do subterraneo de toda a fabri- 
ca, duvidar nào é destruir. Alguem dirà que nao de- 
notava? pois nós insistimos em que denotava. 

Quando as razOes sào eguaes, tanto vale a aucto- 
ridade que nega comò a que affirma: assìm, em um 
caso similbante, em quanto a dialectica, argumenta 
mr. de Montesquieu no Espirilo das leis. E se o nu- 
mero das columnas ndo condiz com o dos signos, ndo 
poderia cada urna d'ellas conter mais symbolos do que 
pertencente a um mez? ou fora impossi vcl que al- 
guns se inutilisassem e destrui^sem pela diuturnidade 
dos tempos depois de tantas vicissitudes, nao esquc- 
cendo o fatai terremoto de 1755? 

Se da porgdo que se descobriu do subterraneo se 
nao refere nem um signal privativo, quem sabe o que 
là para diante se acharia a nao ser a incuria dos des- 
cobridores? E dado mesmo que fossem moiros ou chris- 
tàos OS architectos do que hoje vemos na sé de Lis- 
boa, repugna porventura à razào o ser aquella con* 
cavidade o tempio primitivo, depoìs soterrado pelo 
cresciraento do terreno, ou qualquer outro accidente, 
corno està acontecendo na egreja de S. Fedro em Ro- 
ma, S. Thiago em Compostella, e na Lapa de Bclem? 
Todavia, iimitàmo-nos a dizer, comò Voltaire: Je ne 
donne pa& mon avis cornme bon, mais setdement com- 
me mien. 

Este edificio, nos annos de 1344, 1356, 1373 e 
1755, soffreu, por causa de terremotos, mudangas na 
sua semi-arabe e gothica architectura, similbante à 
de Santa Sopbia de Constantinopla. Quanto ao fron- 
tispicio principal do vetusto tempio, vé-se por uma 
estampa que vem na obra: La galerie agréable du 
monde (impressa em Leyden no anno de 1729), to- 
mo I, que as torres eram compostas de corpos que 
terminavam em altos coruchéos. 



Na torre do lado esquerdo cstào dois brazGes d'ar- 
mas, em pedra, n'um d'elles uma arvore, e no outro 
uma roda de navalhas esculpidos. D*csta torre foi pre- 
cipitado, em 6 de dezembro de 1383, D. Martinho 
Annes, castelhano, naturai de Qamora, bispo de Lis- 
boa (desde 1381 até 1383), e cardeal creado pelo papa 
Clemente vii; Gongalo Vasques, dom prior de Guima- 
ràes, e um tabelliào do Algarve, que se tinham aco- 
Ihido a ella para impedirem que os si nos se tangessem 
em favor do mestre de Aviz, D. Joào i. 

antigo sino da sé de Lisboa iinha de altura, ató 
às presilhas, sete palmos e uma e mela pollegadas; 
de diametro, pela parte interior, oito palmos e uma 
e meia pollegadas; e de diametro, pela parte extcrìor, 
vinte e quatro e meio palmos. Era cercado com tres 
circulos de letras gothicas, e nos v&os que fìcavam 
entre os letreiros tinha diversos escudos d'armas e al- 
guns sellos. 

primeiro letreiro, junto às presilbas, era 'da fórma 
seguinte : — Sxe: mtanipana: dicuntur: comoda: sana: 
laudo: Deum: verum': voco: popidum: congrego: de- 
rum: defumios: ploro: satham fugo: festa: de coro: 

Segundo letreiro: — Angele: qui: meus: es: custos: 
pietate: superna: me: libi: comissum: salva: de fende: 
gubema: mentem: sanctam: spontaneam: honorem: 
beo: et: patria: l^erationem: 

Terceiro letreiro: — En na Era de: Mil: in: ccc: 
e: xv; annos: foi: feito: este: sino: do relogio: muy: 
nob: cidade: de Lisboa: por: mandado: do: muy: 
nobre: Rey: Dom: Fernando: de: Portugal: et: do: 
multo: honrado: Cabido da dieta: cidade: de Lisboa: 
X dos homes bbos: daeta cidade: Mar tre: Joham: 
Frances: me fez^: 

A sobredila era (1315) està errada, pois devia ser 
1415, que é o anno de Ghristo 1377, porque D. Fer- 
nando comegou a reinar no anno de 1367, e morreu 
em 1383. 

Antes do terremoto de 1755, o interior da egreja 
cathedral de Lisboa era de architectura ogival, sns- 
tentada em duas ordens de columnas, que formavam 
tres naves em arcos correspondentes, de boa pedra. 
As primeiras confrarias- foram estabelecidas com uoi 
fim piedoso e caritativo; reuniam-se sob a invocando 
de nlgum santo; e uma das mais . nota veis por sua 
influencia foi a dos franc-macons^ ou pedreiros livres. 
Foi està sociedade a que propagou o estilo ogivico, tao 
disti ncto da architectura do systema byzantino. A està 
confraria 6 devida a torre prodigiosa da cathedral de 
Strasbourg. 

Tinba o tempio da sé de Lisboa 96 palmos de lar- 
go, e de comprido, da poii^i principal até ao altar- 
mór, 264 palmos, que formavam um cruzeiro regular, 
coberto de uma boa cupula, cuja altura até ao pavi- 
mento era de 120 palmos. 

No anno de 174o, por ordem dei-rei D. Joào v, fez 
collocar o archilecto Antonio Ganevari, na torre do 
lado direito da sé de Lisboa, um grande relogio, que 
era o chamado da cidade. abbadb db Castro. 



DESERTO DE SAHARA 



N'essa vasta peninsula banbada pelo Oceano, pelo 
Mediterrano e pelo mar Vermelho, e unida à Asia pelo 
istbmo de Suez; n'essa antiga parte do mundo que 
denominàmos Africa, e que, apesar de tantas explo- 
ragóes, ainda hoje é tao imperfeitamente couhccida, 
ha um deserto immenso, a que alguns geograpbos 
dào uma extensào egual a metade da Europa. Sepa- 
ram-n'o da Berberia, pelo lado do norte, altas cordi- 
Ibeiras de montanbas. Outras serranias penbascosas 
limitam pelo lado sul, deixando para além d ellas 
OS paizes habitados pelos negros. Da parte do nascente 

< Ente sino foi «lestruldo pelo tArremoto de 1755. 



ÀBcmvo pnroBEsco 



93 



couflna coni o Egypto e coni a Mubia. Da parte do oc- 
cidente acha termo do Oceano. 

Deram os arabes a essa regìSo o nome de Sahara, 
(fue significa deserto, e pelo qnal é geralmeole co- 
nbecido, sendo reputado pelo maior deserto do globo, 

A sua superBcic aprcsenta algumas varìa^es de ae- 
|>ecto. Km umas paragens sào extensos territorios, se- 
meados de roclias e pcnedia, melo afogadas em ai 
l!m outras tambem mostra multiplicados accìdentes, 
mas aqu), em vei de rochas, erguem-se, com muita 
variedade de altura», monles de areìa movedÌ£a, aos 
quues a Turia caprichosa das Icmpeslades imprìmiu 
fórmas diversas. Em outras parles, em firn, é um 
areial a que d&o descobrem limitcs os olhos do bo- 
mcm para qualquer lado que se volvam ; é a imagem 
do mar, quando qualquer calmarìa Ibe aplaca as ou- 
das e alisB a superficie. 



TÌajante que avisla pela prìmeìra vet este deserto 
do alto dos rocbedoB, que Ihe servem corno de porla, 
seuie, segando dimeni, impressào egual a que Ihe causa 
aspeclo do Oceano, quando da coroa de um monte 
Ibe descobre o vullo magesloso ao cabo deponga via- 
gem pelo interior de um paiz. Fica absorto, ora enle- 
vado, ora corno que anniquilado, contemplando aquella 
immensa amplidào, que Ihe suggerc necessariamente 
a idèa da eteraidade, e peranle a qual nSo se póde 
considerar mais ^ue um simples e miseravcl atomo. 

mar verdadeiro freme constantemente, por mais 
que a bonanga ibe acalme as iras. Um ligeìro movi- 
mento, iniperceptivel à vista, impelle para ns nraias 
a onda franjada de cspumas, e que em leito de es- 
pumas vae espirar. Com està Tei^So nada ba parecido 
no deserto de areias, porq^ue a sua existencia nabitual 
É a da immobibdade, assimilbando-se a um mar que 




se soliditicasse qoando as aguas, depois de agitadas 
violentamente pelo lufùo, cafssem no remanso que vem 
após a tormenta. A similbanga està n'aquelle espafo 
infinilo de supfrlicic plana, onde ndo se ve mais que 
areia e ceo, unindo-se e confundindo-se no borìsonte, 
comò se obsena no Oceano, a cAr violacea do areial 
escandccido com o azul da abobada edeste. 

Estas arctas sSo silicosas, muìto finas e sublis, em 
uns sitios brancas corno as mais alvas areias dos nos- 
Eos rìos, em outros avermelbadas pela presenta do 
oxìdo de ferro. Em poucas paragens consenlem que 
n'ellas nasc^m e se cnraizem plantas; e quando o per- 
mittem, limita-se a vegetagSo a uma pianta odorifera, 
que 08 arabes denomioam shé, alguma coisa parecida 
com tomillio bravo; uma pianta espinhosa multo do 
goslo dos camelos; e a poucas mais variedadcs. 

Outra fei0o lem esic deserto que o fuz comparavel 
ao mar, e que consiste em possuir, corno esle, algu- 
mas ilhas, pois que se podem bem considerar assim 
OS oasis, essas porsOcs de terra abensoada que a Pro- 
videncin, em sua malernal soiicilude, dispoz no melo 
d'aquelles ardenles areiaes, e ondeas caravanas acliam 
uma esta^ao para descaiifarem da^ fadigas de sua pe- 



nosa viagem, esla^So tiio commoda e deliciosa que bem 
Ihe pOde quadrar o nome de paraìso teirestre. 

Sao OS oasis traclOB de terra mui ferteis, frescos e 
coberlos de pomposa vegetagao. Variam muilo na sua 
extensao, sendo o maior de todos o denomlnado oasis 
Fezzan, cujo comprimento regula por 500 kilomelros, 
com perto de 300 de largura. Raras vezes chove nos 
deserlos. Ù que dà aos oasis fertilidade e frosquidSo, 
com que se alimenta u'elles perenne verdura, bSo as 
aguas que vertem das serras mais ou mcnos dìstan- 
les, e que, infiltrando-se na areia, vSo convergindo 
para aquelles lerrenos mais baixos, D'est'arle ahi se 
encontram pogos inesgolaveìs de agua limpida e po- 
tavel. É lai a frescura da terra que em qualquer lo- 
gar em que se cave um pouco acba-se logo agua em 
abundancia. 

Diversas especirs de palmeiras, sendo mais com- 
mum a das tamaras, dSo sombra salutar aos numero- 
sos rebanhos de gado, principalmente lanigero, que 
por ulli paslam herva mimosa e succulenta, paslorea- 
dos por trìbus arabes nomadas. Occupam-se estas tam- 
bem com a cultura dos cereaes. Respira-se n'este oasis 
ar fresco e embalssmado de suaves perfum(>s. 



94 



àrghiyo PITTOBESGO 



BncoQtraro-se em certas localidades do deserto de 
Subarà abundaotes jazidos de sai minerai, que é ex- 
trabido pelas tribus babitadoras dos oasis, as quaes 
fazem d*elle um ramo importante do seu commercio 
com 08 pretos das regiues limitropbes. 

A falla de agua é causa de qtie scja mui liraitada 
a fauna d'este deserto. Lcdes, leopardos, tigres, bye-" 
nas, cbacaes, algumas vartedades de veados, antilo- 
pes e gazelias, e abstruzes, silo as principaes cspecies 
que percorrem aquelles «reiaos. 

As viagens atravez do deserto sào mui diflìceis» 
porque o vento a miude apaga as pégadas dos foras< 
tcìros, unico signal que cm muitas paragens indica 
o rumo que o viajantc deve seguir para que mìo se 
perca no meio d*aquelias tristcs soliddes. cxcessìvo 
caler d'esse clima tropical, augmentado pelas exbula- 
Ques ardeutes das areias, faz essas viagens penosissi- 
mas; assim corno tambcm as tornam perigosas os ac- 
commeltimentos das fcras e os assaltos das tribus ara- 
bes, sobre tudo durante a noite, quando os. viajantes 
sao obrigados a acamparem para tomarem algum re- 
poiso. 

Todavia, nao foram baslantcs tantos e tao grandes 
perigos e incommodos, a quo às vezes accrcscem af- 
ilictivas privagOes, para desalcntarem o boraem. Jun- 
lando-se em numerosos baiidos de gente a cavallo e 
a pé, e levando camclos carregados coni todo o ge- 
nero de provisOes, com armas, barracas de campanha, 
eie, atrevem-se a arrostar com lodos aquelles pe- 
rigos e incommodos. Escusado seria dizer que so os 
iiiteresses eommercìaes poderiam incitar os bomens a 
tao grande arrojo. A esscs ùcompanbaraentos de ne- 
gociantes deu-so, pois, o nome de caravanas. Os mcr- 
cadores que pretendcm atravessar o deserto^ ou algum 
raro viajantc que se resolve a acompanbal-os, movido 
de outro estimulo, reunein.^se em determiuadas povoa- 
^óes, que sao o ponto det^urtida das caravanas. Es- 
tas, corno dissemos, sào sempre uumerosas; mas às 
vezes compOem-sc de tanlos centos de bomens beni 
armados, que mais parecem exercìlos que ajunlamen- 
IQS comrocrciaes. 

Podera-se, em tal caso, reputar seguras as carava- 
nas contra os ataques das fcras e dos arabes. Mas, 
ainda assim, resta-lbes um perigo, eontra o qual de 
nada valem o numero dos bragos, e o valor e cora- 
gem dos peitos bumanos. Consiste o perigo n'essas 
borrorosas tempestades, em flue o eoo se cobre de um 
manto negro, e em que o t4fào al)razador, cbamado 
simun ou cansim, levanlando iws ares immensas mos- 
sas de areia, revolvendo-as <Tn medonbos redenioi- 
nbos, derruba, arrasta, e algumas vezes sepulla tudo 
quanto encontra diante de si. 

N'estas circunslancias tambem o desedo se assimi- 
Iba ao mar; porém o temporal que agita as ondas, 
por maior que seja, é menos pavoroso que a lempes- 
tade que revolve as areias do deserto. 

I. DB Vllukxa Barbosa. 



FRUGTOS DE VARIO SABOR 
II 

AVENTURAS DE UM CARANGUEJO 
(Via. pag. 82) 



Mas qual nào foi o seu pasmo, acordando ao rom- 
per da manba, ao ver-se no fundo do mar! Ignorava 
ainda o pbenoroeno da mare, e està, encbendo, apa- 
nhùra-o no seu ninbo. Hai tirava dos olbos a areia 
que Ib'os entupia, quando um enorme peixe o avistou 
e investiu com o terrivel intuito de o engulir. des- 
gragado teve apenas tempo de cavar mais funda a sua 



cova e cobrir-se, ficando com um s6 oiho de fora atè 

3 uè a mare desceu, dctxando-o em sécco. repoiso 
a noite dera-lbe forgas, mas tinba fome. 
Ao ionge avistavam-se umas penedias, que entravam 

Eelo mar a urna distancia incrivel. pobre orpbào co- 
rou animo e avangou para essa regiao desconbccida. 
Pelo caminbo encontrou alguns elementos de mesqui- 
uba e repulsiva nutrigdo; eram os restos de seus pa- 
rentes, fallccidos na vespera, e que outros vivos an- 
davam no piedoso empénbo de sepultar... nos esto- 
magos. meu beroe, arrancado do bergo no dia em 
que nascerà, n&o conbecia ninguem. Podiam todas as 
creaturas que encontrava da sua especie ser seus ir- 
maos, seus primos, seus tios, a sua familia toda; mas 
nào OS conbecia, nfio o conbeciam a elle. Eram entes 
estranbos, antipatbicos, pouco communicativo.^^, que, 
occupados na borrenda fadiga de corner seus proprios 
paes, nem sequer attentavam no triste que passava 
borrorisado. Depois de urna peregrina^ào qile se Ihe 
aGgurou muito longa, acolbeu-se a um rocbedo todo 
gretado, a cuja corea nao cbegavam as maiores mai-ós. 



VI 



Alli passou OS primeiros tempos de sua desventu- 
rada infancia, so, cmbalado pelas ondas e as lormen- 
tas no fundo da sua cella, sem familia, sem amigos, 
sem um so affecto que o aquccesse e Ibe alegrasse a 
tristeza de suas compridas noites, ou a monotonia de 
seus aborrecidos dias! Aquella solidào, aquelle des- 
aniparo no meio de tao continuo bramir de vagas e 
de ventos, aquellas penedias ennegrecidas, aquella fria 
casa de granito onde se abrigùra, depois de o torna- 
rcm pensador e pbilosopbico, foram-lbe pouco a pouco 
osfriando o peilo e endurecendo-lb'o mais do que a 
couraca que o cobria — quasi tanto conio as roclias 
onde babitava. Cbegàra & viriiidade, tu edade dos lon- 
gos passeios sem fìto, dos enlbusiasmos pelas noites 
em aue as aguas do mar, alluniiadas pela lua, res- 
plandeccm corno prala poiida, e fìcàrainsensivol, nào 
saindo urna unica vez da esticiteza da sua cella para 
ouvir a brisa nocturna cantar os seus amores com a 
espuma das ondas! 

VII 

Durante o dia, tirados os rapidos inslantes de suas 
niodestissimas refeigOes, ficava-se longas boras sobre 
penedo mais elevado, coni os olbos enormemente 
dilatados, fitos na cxlrema linba do Oceano, conio !?e 
de là esperasse a aurora de urna regeneragao que a 
Providencia Ibe pronieltéra em sonlios! sol ardente 
e esplendido que passava sobre elle nào o encantava 
nem distrabia; via-o com indifferenga erguer-se ma- 
gestoso por traz dos pinbaes de Hates, e, depois de 
inundar o universo de luz, e de alegria o peito de lo- 
dos os viventes, sumir-se no Oceano, tingindo as aguas 
de purpura e oiro. Passavam as eslagóes — a prima- 
vera com suas flores, cujos aroinas a brisa da inanlifi 
trazia ao mar; o eslio com seus cantos e seus amo- 
res; oulono com a sua doce mclancolia; e o in- 
verno com as suas lormenlas e tristezas; seni que nc- 
nbum especlaculo do ceo ou da terra atlrabisse a al- 
tengao do misantbropo. Alguns, poucos, da sua especic 
que babìtavam as mesinas regiues, viviam do mesnio 
modo, proximos e estranbos uns aos outros, insocia- 
veis todos, fazendo vida t parte, e espreitando-se mu- 
tuamente com ar suspeitoso. Triste existencia aquella ! 
Dir-se-bia uma colonia de espiOes que Deus emmude- 
céra para os punir do vii officio de delatoresl 



YIH 



Em suas longas meditagOes tinba por vezes o meu 
pobre caranguejo pensado no amor corno n'um senti* 



àrcoivo pittoresco 



95 



mento indigno dos quo vivem cntroguos à vida con- 
tcnip)ati?a. scu corano, empedernido corno as frias 
rochas sobre quo balia, torndra-se inaccessi vel o in- 
sensi vel. infeliz chegou a ignorar o scu sexot 

Um dia em que por acaso alongiìra mais o seu pas- 
scio pelos rochedos quo se intcrnum no mar, viu sair 
de urna Tenda urna csbelta carangueja que o cncarou 
hìuito lempo de um modo.singular. nosso heroe leve 
conio um rebate do genero a que pertencia no inven- 
civcl pejo que o fez baixar os oibos, e a sua couraga 
escura lornou-sc cor de rosa d forga de pudica ver- 
gonba. A carangueja mirava-o sem cessar, parecendo 
quei*er devoral-o com os oHios, que avangavani rapi- 
damente, dilatnndo-sc. No fini de demorado exame, e 
lendo-se sem dùvida convencido que nao se cnganava, 
avangou a femea, com suas grandes antennas esten- 
didas e as tenazes abeilas, para o joven caranguejo. 

misero, julgando que ia sor vidima de um ala- 
que ao pudor, quiz fugir, mas nSo póde; o terror vir- 
ginal collou-o ao rocbedo. Ksperou, pois, convulso e 
trèmulo, que a que elle considerava uma cr(>atura vi- 
ciosa e comida de criminosos desejos o immolasse no 
aliar da impudencia. Ella cingiu-o nos bragos com o 
louco e ardente entbusiasmo da màe que encontra e 
reconbecc o fìlbo que do bergo Ibc roubaram; cobriu-o 
dos beijos mais teriK)s e mais apaixonados que se po- 
dem dar entro caranguejos, e, apertando-o centra o 
scio, parecia querer dizer-lbe, na ancia de seus cari- 
iibosos extremos: 

IX 

«Achei-te, em fìm, fillio querido do meu amor, pe- 
dago da minlia alma, luz da minba vida, minila es- 
peranga unica, e derradeiro fruclo da minlia uniSo Ic- 
f^ilima! Oh! se tu soubesses corno le tenho procurado 
desde aqueile fatai dia em que a onda, invejosa da 
minba felicidade, te roubou aos meus carinbos! Corri 
lodos os mares, voguei sósinba, à mingua e sem con- 
forto, por lodos OS parceis! Oue eslranlios pelagos, que 
rochedos inhospitos e feros, que povos extraordinarios 
V ferozes encontrei em minbas Jongas peregri nagOes! 
Aqui me arrojavam os veutos irados contra broncas 
jKMiedias; além me perseguiam cnfurecidos peixes; e 
sempre fugindo, e sempre procurando, errei de praia 
em f)raia, de rocJia em rocba, examinando a um e 
um todos OS niilhòes de individuos da nossa especie, 
expondo-me às suas vistas impudenles, às suas apre- 
ciagOes injustas e mofadoras, aos perigos, A vergonba 
e à morte para te cncontrar, meu fìllio! Porque cu 
sabia que existias; todas as noiles sonbava comtigo, 
e nno sei que boa Providencia (porque tambem ha uma 
Providencia para os pobres caranguejos) nfio sei quo 
santa Providencia me diziar-^Caminba, |)obro màe, 
ufio desanimes; o ultimo da tua raga vive e bas de 
encontral-o. — live fé, e a minba recompensa é ver-tc 
nos meus bragosl» 

(ContinAn) F. Qomes.de Amorim. 



LUXO E MAGNIFICENCIA DA CORTE 
DEL-REl D. JOAO V 

(Vld. pag. 8G) 
IX 

Por efieito das combiiiagOes, a que ja nos temos 
referido por mais de uma vez, cbeganim ao mcsmo 
tempo às margens do Caia, com admiravei exactidào, 
as cortes portugueza e castelhana. 

Dìzem as testimunbas prescnciaes, que era um es- 
pecfaculo maravilboso e verdadciramcnte deslumbrante 
que n'esse momento se oiTerecia aos olbos em uma e 
outra margcni do rio.. E beni se póde julgar, A vista do 



que expendemod nos eapitolos aotecedentes, que nAo 
Da cxaggorag^o nos oncarecimentos com que taes te«- 
timunhas failam d'aquella esplendidtt solemnidade, 

À immensa muitiddo de povo que so apioboava ao 
longo das estradas e junto ao palacioponte; as tropas 
castelbanas'e portuguezas, com seus uniformes de ed- 
res vivas, e com os estandartes, luzentes de óiro, des^ 
fraldados ao vento, estendidas em bem dispostas alas; 
por toda a parte, em syn^etrica disposìgtlo, tremulando 
flammulas e galhardetes multicores; e os dois prestitos 
reaes, ostentando tanta rìqueza e magniflcencia, a des- 
filar magestosamente por eutrc tantos miihares de sol- 
dados e de populares, e ao som das musicas, das accia* 
magOes, do estalardos foguetes e do troar da artilhoria; 
tudo isto compunba um quadro, que difficilmente po- 
deria ser pintado bem ao naturai por m&o de mestre 
com pince! e tintas, mas quo é impossivel descrevel-o 
com palavras, por mais cxpressivas que sejam. Em 
firn, conio epilogo que rcvele os tragos grandiosos e 
as brilbantissimas còres de um tal pincel, diremos que 
alli concorrcram, para compelirem em todas as galas 
e pompas de que a realeza se póde cercar para osten- 
tagao da magestade, os dois monarchas mais opulen- 
tos da Europa, aquelles que tinbam por tributarias dos 
seus ibesouros as minas de prata do Perù, e as de 
oiro e diaqiantes do Brasil. 

Tendo-se apeado dos cocbes as duas familias reaes 
junto ós escadarias do palacio-ponte, subiram, e de- 
teve-sc cada uma na sala que Ibe pertencia. Com o 
pretexto de descangarem, ahi se demoraram em quanto 
OS secretarios de estado de ambas as coroaS se reu- 
niam no saldo centrai para mais uma vez, e em ul- 
tima conferencia, decidirem aigum d'aqueiles graves 
pontos da etiqueta que ainda nflo estivesse cabalmente 
rcsolyido; ou para esclarecerem qualquer dùvida que 
de novo se livesse suscitado. 

Concluido esle derradeiro accordo, recolberam-se os 
secretarios de e»tado às salas dos seus respectivos so- 
bcranos. Abriram-se immediatamente do par em par 
as portas do saiào centrai, e transpozeram os limia^ 
res d'cltas ao mcsmo tempo cl-rci fidelissimo D. Joào v 
e el-rei catbolico D. Filippe r, o primeiro seguido da 
rainba, D. Maria Anna d'Austria; da princeza das As* 
turias, D. Maria Barbara; do prinoipe do Brasil, D. 
José; e dos infantcs D. Pedro, D. Francisco e D. An- 
tonio: e segundo acompanbado da rainba, D. Isabel 
Farnesio; da princeza do Brasil, D. Marianna Victoria: 
do principe das Asturias, D. Fernando, quo ao dianto 
foi 6.*^ do nome entre os reis de Hespaoba; do infante 
D. Carlos, quo mais tarde succedeu no tbrono de Na* 
poles, e depois no de Hcspanba, com o nome de Car- 
los n; e do infante D. Filippo, quo veiu u serduque 
de Parma. 

Caminharam as duas familias reaes uma para a ou- 
tra, com passos medidos, até ao centro do saldo, e 
bem no meio d'elle, onde estava tracada a linba divi* 
sorìa das duas monarchias, pararam, e, saudando-se 
reciprocamente por modo identico, abragaram-sc logo 
depois, sem que algum dos soberanos nem dòs princi- 
pes da sua familia ultrapassassem os limites dos res- 
pectivos rei nos. 

Dcpoìs de empregadas as fórmulas afflciaes, com 
que a sabedoria dos diplomaticos procurerà salvar a 
digoidade e decoro das duas coroas, tiveram lìberdade 
pai-a conversarem familiarmente os dois monarciias e 
mais pessoas reaes. E assim se enlrcliveram por al* 
gum tempo, sempre de pé, e com lodo o cuìdado pam 
nào invadirem os dominios uns dos ootros. 

A estas primeiras vistas as8;isliram unicamente, por 
parte da corte portugueza o duquc de Cadaval, D. Jay* 
me, estribeiro-mór, o por parte &\ do Hespanho o du* 
que de Ossuna, estribeiro-mór. 

Quando os reis e os principes se acharam fatigados 
d'este ontreteaimcfUo fratcrnal, mas pouco commodo» 



96 



ARGBIVO PITTORESCO 



dirìgirani-se para as cadeiras, collocadas a certa dis- 
tancia, e de maneira que cada membro da familia real 
portugueza Ocava defroQte do membro da faoiilia real 
castelbaua que Ihe correspondia em jerarchia. 

A um. signal dos duques de Cadaval e de Ossuna, 
dado assim que os. reìs e princìpes mostraram desejos 
de. se senUrem, entrf»*am no saiào todas.as pessoas 
que compuDham. a^ duas cortes; adiantando-se a.todas 
oà.reposteiros-móires; a firn de descobrirem as cadeiras 
dosispberanos dePortugal e de Hespanha. 

Obegando junto das suas cadeiras, D. Joào v e D. 
Filippe V perroaneceram alguns segundos de pé, yol- 
tados um para o outro, e, miraudo-se atteutameote, 
para.que.os seus movìmentos fossem sìmultaneos/seQ- 
taramrse pausada e gravemente. O9 estadistas a quem 
coube a bonra de elaborarem programmalo cere- 
mòniisd deveriàm èstar multo desvanecidos, vendo a 
pontualidade e exactidào còm que os dois monarchas 
desempenhavam triste papel de manequins, a que qs 
obrigàra a politica pueril e absurda d aquelles tempos. 

Tendo os officiaes-raóres, damas,. titulares e mais 
personagens das cotnitivas dos dois soberanos tornado 
OS logares que a cada um competia, ém pé, fazendo 
parede de um e outro lado das cadeiras das pessoas 
reaes, quatro mogos da camara trouxeram e colloca- 
ram diante de suas magestades fidelissima e catbolica 
duasmesas cobertsis com pannos de tissù de'oiro. Apro- 
ximaram-se entào das mesas os secrctarios de estado; 
Diogd.de Mendònga Gorte-Rqal e marquez de la Paz, 
e; depois de lerem em alta voz os contratos nupciaes, 
cada um dos secretarios apresentou ao seu soberano 
as. refcridas .e^c^ipturas para serem.assignadas. Feito 
isto,.trocaram-se os contratos e novamentc se submet- 
teram à assignatura real, assignan.do em seguida as 
rainhas, princìpes, princezas e infantes. 

t^reencnidas todas estas formalidades, destrocaràm os 
secretarios de estadò os contratos, ficando cada um com 
que devia de ser guardado no archivo real do seu res- 
pectivo «oberano. Tiraram-se immediatamente as me- 
sas, e deu-se principio ao beija-mào e apresentagòes. 

Cruzaram-se no salào D. Maria de Lencastre, mar- 

Jueza de Unhào, que acabava de ser camareira-mór 
a princeza das Asturias; D, Anna de Lorena, nomeada 
caniareira-mór da princeza do Brasil ; a marqueza de 
Navas, que vinba. por camareira-mór da princeza do 
Brasil; e a duqueza de Hontelhano, que fora nomeada 
camareira-mór da princeza das Asturias. Feitas as cor- 
tezias a todas as pessoas. reaes com rigor da eti- 

Jueta, as camareiras-mórés sómente beijaram as màos 
as atigustas noivas. Seguiram-se, praticando a mes- 
ma ceremonia, as damas de bonor, os officiaes-móres 
e. mais, .criados .de ambas as casas, e os titulares. 
marquez de Abrantés, einbaixador de Portugal junto 
dei-rei catholico, ia nòmeando e apresentando a Fi- 
lippe, v as damas e fidalgos portuguezes; e me^mo 
fàzia airespeito dos de Castella a D. Jodo v marquez 
de Gapjecelatro, embaixador de Hespanba junto dei-rei 
fidelissimo. 

Acabado cortejo, tornou toda a nobreza a occupar 
OS seus logares anteriores, seguindo-se um concerto 
em que tocaram e cantaram os musicos e cantores dos 
dois soberanos. 

Succedeu-se ao concerto uma breve pausa, e logo 
depois levaotaram-se ao mesmo tempo el-rei D. Joào v 
e el-rei D. Filippe v, e, tornando suas filhas pela m§o, 
foram ao encontro um do outro até ao melo do saldo, 
onde trocaram as princezas. 

Este acto foi annunciado e soicmnisado no mesmo 
instante por tres descargas de fusilaria, dadas pelas 
tropas portuguezas e bespanholas, e logo correspon- 
didas pelas salvas de artiiheria das pragas de Elvas 
e de Badajoz. 

Em quanto estes sons festivos, acompanbados de 
musicas e de vivas, espalhavam alegrias, por aquelles 



arredores, eotre os dois povos da peninsula, passava- 
se triste scena de màgoas e saudades no proprio re- 
cinto que as duas nagòes ornamentaram para festas e 
regozijos. N'aquelle sal&o, pois, onde a realeza accu- 
mulerà esplendores, fazendo vaidosa ostentagao das 
pon)pa3,.dos attributos regios e do poder, quedistìa- 
guem ps reis dos mais bomens, a natureza vencìa e 
bumilhava a magestade, nivelando-a nos affectos e iia 
dor com a mais obscura das creaturas faumanas. 

Assim que se realisou a troca das princezas, segui- 
ram-^e as despedidas. De parte a parte foram affectuo- 
sas nos pàes das noivas; mas na esposa deirrei D. 
Joao V e na priaceza sua (liba produziram effeitos que 
^eiisibilisaram a todos os circunstantes. Jà todas as 
mais pessoas reaes tinham acabado as suas despedi- 
das, e ainda a rainha D. Maria Anna d'Austria e a 
princeza D. Maria Barbara, beijando-se com a maior 
effusào de ternura, solugando e banbando-se recipro- 
camente de lagrìmas, apcilavam-se em tao estreito e 
saudoso abrago, corno se n'elle dessem derrudeiro 
adeus da vida. Surdas a todos os rogos e esquccidas 
de todas as prescripgdes da ctiqucta, foi mister, para 
que tivesse firn està scena dolorosissima, que el-rci 
D. Joào V, mettendo-se de permeio, as separasse, le- 
vando pelo brago, auasi à forga, a esposa, em quanto 
a sua fiiba era conduzida, póde dizer-se, furtivamente 
pela; rainha de Hespanha, sua sogra, e com tanto ar- 
rebatamento, que a nào deixou despedir-se dei-rei, 
seu pae, nem das outras pessoas de sua familia. 

Assim se abbreviou a solcmnidade d'este dia, en- 
trando logo nos coches as duas famìlias reaes, e diri- 
gi ndo-se para Elvas e Badajoz com mesmo acom- 
panhamento com que tinham vindo. 



(Continua) 



I. DB VlLHXHA BARB08A. 



Os nomes, ou elogios, que os chimicos dào à podra 
cbrìsopeya, ou philosophal (que é mais abstniso mys- 
terio de sua arte, em cujo alcance suam todos elles 
ha muitos seculos), verdadciramente sào magnifìcos e 
excitadores de grandes esperangas. Chamam-lhe ceo, 
mysterio, chrisosperma, ou semente de oiro, terra bem- 
dita, agua de vida, agua sécca, arvore da vida, sello 
de Salomào, fogo da natureza, leite de virgem, mer- 
curio dos philosophos, dragào aguia, medicamento de 
todas as enfermidades, copo de pandòra, terra da pro- 
missào, sagrada obra da terra, e outros similbantes. 

Muitos nào temem entrar em logares altos, sem os 
talentos precisos para .0 seu manejo. É que fazem 
conta, nào de esalar com as suas diligencias as obri- 
gagOes do ofBcio, senào de fazer à boamente que 
souberem e que quizerem; e onde nào alcangarem 
com prestimo, nào tornar por isso molestia. D'este 
modo bem póde um mucbachó, ou qualquer mogo de 
servir, tanger orgào, levantando-lhe sómente os fol- 
les, e sóe comò soar. 

Da mandragora se dìz ser dotada de tao poderosa 
virtude para causar somno, que ainda so depcndurada 
no aposento faz dormir aos que tem cuidados. Que 
sera que algumas pessoas, que deviam desvelar-se nas 
obrìgagues de seus ofBcios, assim dèscangam e dor- 
mem, comò se Ihes nào tocassem? É, sem dùvida, 
que a sua negligencia e pouco temer de Deus Ihes 
serve de mandragora. 

Quando vemos alguns ministros de logares, (jue tem 
grandes occupagóes, desoccupados e entretenidos, e 
buscando em que passar as boras, muita fé é neces- 
saria para crer que cumprem sua obrigagào. li! verdade 
que até Deus, nào cangando com trabalho, descan> 
gou um dia; mas tambem é verdade que, nào neces- 
sitando de obrar com successào, se occupou seis dias: 
se a nossa semana tem um so dia de.fazer e seis sab- 
bados para descangar, isso é andar ao avesse de Deus. 

P. HAH0£L Bkbhardxs. 



15 



snellivo PIITURESCO 




si^ m Evoit\ 

A CAPBLLA-MÓR 



Assira romo a nalurcxa roinigna roiifunilir gonrros 
ilìlTureiilos v ajmilar iiu ritosiiio iiidivjiluu lyiw» oi't^a- 
iiicos osse uri il II II e II le dislinrios, assim laiiit)i>m fiarccc 
i|uc iiào ilcvcriu a urie iiiìslunir clciiii'iilos licturugi'- 
ni>os e inlrodu!:>r iiu mcsina ojira divcrsittiiik' ile p.s- 
lilus. N'csU' iKiiilo, jion'iii, furuiii lùo \>o\tvo (>si:i'U|>u- 
I0SO8 OS molliorcs iirli:'las, quc iios iiiimuinriilns i|ue 
rcstaurarain ou i-oii(|ileliiruui, t-ui vcz de si'fjuirL'iii os 



desoiiboB primilivos, sd altcnduram os (loslos ou as 
modiis domiiiantos, iiSo mi'iioa PxHusivas e capridio- 
sas nas lieilas ahos quo cui ludo mais. 

Decor.irnm pdiriiios de puro go(l)iro 03 arcliitrclos 
de D. Mh[)ucI roni a t'Ii^^iilc e florida ornaniciilacJìo 
(raracU'rislica das consiruryues porlugu<>xa8 d'a<|Ui'lla 
0|KK'liii. Os de l>. iufio III ou de D. Joào v, ajuDlumlo 
ao astilo f^tliico ou ao maiiudino do r<>nascim<>iil'j, 
(le ixa ni ti)- DOS aiiida maiores diKcorduiidas e coiilras- 
1C8. Avuliam, riilrv os iiumcrosos exemplos di' taos ir- 
rcfìuliiridades aribiledotiicas. as rgrejas de TI)omai', 
dt' Ri'lem e da so de Bvora. A capelUt-mOr da prinieint 
é o proprio tempio do scrulo xii, ao qual, som \\ie 



98 



ARCaiVO PITTORESCO 



alterar a anliga fórma, el-rei D. Manuel addicionou a 
nova ogreja quo ergueu dos alicerces e exornou com 
todas as galas da sua graciosa architcctura. Na se- 
gunda, aa corposa ^reja, obra prima d'aqueJie mesmo 
rei, acerescentou D. JoSo iii a capella-mór, onde vemos 
symbolisada a insìpionte decadencìa de Portugal, corno 
no restante do edificio a sua maior opulencia e gi*andc- 
za. Na lerceira, em firn, lia entre a capella-mór, que a 
nossa gravura representa, obra do arcbitecto dei-rei D. 
Joao V, e corpo do tempio, construido no reinado de 
D. Sancho r, um contraste ndo nienos notavel que o 
que nos resulta de compararmos o devoto instituidor 
da patriarcbal com o glorioso fundador da monarcbia, 
ou coni esfor^ado repressor dos excessos do clero. 

N5o nos move a exnggerat^'ocs o desejo de acbar 
conirasle? e corrcspondencias entro as pessoas e as 
coisas. D'aquollas refere a bistoria quanto basta para 
attestar o que dizemos. Estas s3o um livro aberto onde 
toilos podem ler. 

Na variedade, riqueza, polimonto e brillio dos mar- 
mores da capella-mór da s6 de Evora, na belleza das 
córes, na elegante e bem proporcionada articulagSo de 
todas as pegas, na exuberancia de luz e ornatos, ad- 
niiràmos o Juxo e raagnificencia de um rei que pa- 
recia convencido de que nas oslentagóes dìspendiosas 
tinba OS unicos e verdadeiros alicerces do aliar e do 
throno. Pelo contrario, no corpo do edificio, a austera 
simplicidadc das naves, a magestosa altura das abo- 
badas, a cor singela do granito, a tenue claridade, que 
nào cliega a dissipar as sombras mysteriosas das ogì- 
vas, tudo nos recorda as crengas imniarcessiveis dos 
bomons da edadc mC-dia, a sincera devogSo d'aquel- 
les que, juntamente com os seus grandes defeitos, ti- 
nliam a maior virtude de amarem a Deus e a patria. 

Falla autbenticidade ù unica memoria que nos resta 
da fundagào da s6 de Evora i. Todavia, a arcbitectura 
exterior e interior do tempio nào deìxa a menor dù- 
vida da sua remota origem. Nas grandes similbangas 
que tem com a anliga sé de Coimbra se desenba cla- 
Vamenle a mesnia epocba e lalvez o pensamento do 
mesmo arcbitecto. Mestre Roberto, que, com o estado 
de quatro mogos e quatro jumenlos, ia muilas vezes 
de Lisboa a Coimbra, desde 1162 até 1176, riscar as 
obras que baviam de se fazer e corrigir as que se ti- 
nbam feito, podìa egualmente vir a Evora, dez ou 
quinze annos depois, encarregado de missào identica 
pelo 5UCcessor de D. Affonso Henriqnes. 

Eilificadas pelo mesmo ou por ditferentes arcbite- 
ctos, que nSo ba penetrar as trevas de t5o remota an- 
tiguidade, as si^s de Coimbra e de Evora sSo duas rc- 
liquias preciosas d'aquella veneranda arcbitectura que 
nasceu forte, religiosa e guerreira com a monarcbia, 
e que tambem, corno ella, se conslituiu dos elemen- 
tos que diversas ragas baviam deixado napeniusula, 
e dos que das outras nagòcs vieram agglomerar-se em 
volla do nucleo primitivo da socieiiade portugueza. 

Depois que o 'filbo do coude de Borgonba, seni ou- 

1 É milito pnra botar quo tendo linrtdo om diversas opochas aljiftins 
doutoa antiquarlos no cabido da sé do Evora, neubum d'elica cacrevcsau 
da sua fimda^ao. A unica memoria a que allndimoe e a noticla extra- 
hida do livro dos anniversarlos, citada por André de Rescnde, e de- 
pois por varios cscriptorcg. D*esta nota se ve que D. Payo, prìinc-ro 
bisix) do Kvora, depois qne foi toroada aos moiros, pos a prime! ra pc- 
dra da egreja no «feo do aitar do S. Man^os a 21 de maio da era de 
l'Ili, que corrcapnnde ao anno d» Christo de IIHG. 

Sabomos, pois, qne no secolo xvr havia mn livro com està memoria. 
Mas em quo epocba teria sido escripta? £ por que razao f^iltariam Jà 
cm tempo de Severira de Faria outrns memorlas quo, se uxistissem, elle 
nào teria deixado de coiliprir? 

Por cima de um dos arcos quo separa m da centrai a nave da parte 
da Epistola, encostada ao parapcito do triforio, està urna figura tosca 
de pedra. £, scgundo cremos, e coro quanto nin^n^f m até liojc o tenha 
cseripto, o busto do arcbitecto. Nào tem barba. Oobre-lhe a cabe^a nm 
barrele & maneira de solideo, e o corpo urna roupa larga e franzida. 
"Hobre o pelto snst«nta nns mScs um tro^o on paralleliptpodo de pedra, 
com duas unicas letras de bello gotbieo redondo em relevo bem sa- 
liente — CE. Senio intciaes, ou a palavra a^i crradamentc cscripta? Ue- 
commondàmos o enigma aos archeologos, que bem merece urna solu- 
fSo. A rsculptura é imperfeita, e so a poderomos comparar A dns fi- 
guras qne so encontram n'aiguus tumulos dos priineiros tempos da 
monarchia. 



tros rccursos mais que a forga da sua espada e o re- 
soluto valor de seus companbeiros de armas, fundou a 
nossa independencia, a neccssidade de guardar e es- 
tender OS dominios adquiridos ligou os membi'os da 
Hova nagdo corno n'uma familia, corno n'um bomeiii 
so que se erguia intrepido e robusto contra todos os 
communs ìnimhgos. A religido cbrista, menos distante 
de sua pura origem, animando e forlaleccndo o sen- 
timento da propria conservagào, guiava os bragos dos 
arcbitectos, que sabiam guarnecer de torres e aineias 
OS tcmplos para servirem de castellos em ultimo cx- 
tremo, sem todavia Ibes tirarem o caracler de monu- 
nientos destinados ao culto da divindadc. 

Subia de ponto em Evora a convenicncia de cons- 
truir d'est'arte um asylo sagrado e forte, onde o povo 
se rcunisse para orar nos dias de paz, para orar e de- 
fender-se quando os muros da cidadc nSo bastassem 
a conter da parte de fora os inìmigos do reino e da 
egreja. Em muilas das terras Iranstaganas conserva- 
ram-se os moiros até ao reinado de D. Sancbo ii, dis- 
putando com furor aos cbristdos a posse das povoagOes 
em que tremulavam ora as quinas, ora o crescente, se- 
gundo a vària sorte dos combates. Erani os convulsi- 
vos arrancos de uma nacào moribunda que se debatia 
em vao para conservar os ullimos retalbos da terra 
cujos dons mngnificos por alguns seculos desfrucliira. 
As cbaves de Evora, sómente, assegui-ando o dominio 
da melbor parte do Alemtejo, poderiam retardar a ra- 
pidez d'aquella agonia torri vel e de.sesperada. Razào 
iiavia, pois, para recear dos sarracenos que tentassem 
vingar a grande affronta de Giraldo, reconquislando os 
muros em que elle grangeàra o glorioso cognome de 
cavalleiro sem pavor. 

Quando em 1376 o bispo D. Fedro iv edificou acrasla 
contigua à sé, posto que jà nSo bouvesse o risco das in- 
vasOes arabes, seguiu o esilio do tempio, erguendo no- 
vas muralbas de granito coroadas de anieias. Nào ser- 
viam ellas ainda entào de mero ornato, pois que, pou- 
cos annos depois, dos ameiados terragos da calbedral 
e do tempio de Diana pelejaram os populares com os 
do pallido da rainha D. Leoiior, quo se baviam eii- 
cerrado no castello pi'oximo. 

N'estas negras couragas de granilo està engastada 
da parte do oriente a branca e graciosa capella-mór de 
marmore, comò fina e esplendida joia em annel de 
ferro nào polido *. 

(Continua) A. Filzppb SutSsa. 



PISCICULTURA 

(Vid. pag. 60) 
II 



Parece que as primeiras tentativas para artificial- 
mente se obter a multiplìcagào de certas especies de 
peixes ndo sdo de data mui recente. 

Diante dos olbos temos um livro, no qual se me- 
mora um monge da abbadia de R(}ome, D. Plncbon, 

1 Estava Jd na typograpbla cete artigo o a nota precedente qn.inda 
nos eommunicaram o soguinto: No livro dos annivursarios do còro <l.a 
sé estào ordcnados cinco, para o dia 29 de noveinbro, por bemfcito- 
res da egreja. Com relafào ao ó.** dtz assim: «Item: no dito dia fi- 
zem anniversario por Martini Domingues que foi mostre da obra; e sho 
para csto anniversario vinte soldos antigos.» 

Tendo-se feito na sé, entro outi*as obras importantes, a do daustro 
cm 1376, nilo ha ccrteza de que as palavras citadas so refiram i cons- 
trucfSo do tempio. K, porém, mais provavel que assim seja, p<trquc, 
do outra aorte, nSU) dcixariam de espcciflc^ir a obra. É notavel qtin 
aos nomes de Affonso Domingues, arch'itecto da Bntnlha, e Douiing<us 
Dt>mingucs, arcbitecto do claustro de Alcoba^ì, tenhamoe de acrre»- 
centar o de Martìm Domingues, arcbitecto da sé de Kvnra, todos com 
o mesmo appellido. £, se em nossa suppos'fao uÌo erràmos, cada uni 
nos apparece um acculo, ponco mais ou menos, distante do ontro. Pcr- 
petaar-se*hta a arte na mcsma familia durante trcs seculos, aperfei- 
^oando-se successivamente até produzir a sua mai« sublime expressào — 
o mostdro da batalha? 

Conserva-se em tradirlo na sé de Evora qne o boato a que «lindi- 
raos represonta o arcbitecto do tempio, e bem assim que as duas le- 
tras gotbieas quercm dhcer sé. 



ItRCHIVO PITTORESCO 



99 



quc YÌvcu no decimo quarto seculo da nossa era, e 
quo, no dizer de alguem, se dedlcou a Keproduzir, por 
ineìos artiOciaes, os paciGcos habituntes das aguas. 
• Baldadas foram todas as pesquizas qfne fizcroos para 
&at>ermo8 algumas particuJaridadcs relativas àquelle 
iniciador da piscicultura, se o foi; ós especìcs icbtyo*- 
logicas, sobre que versaram seus estndos; e ù exten- 
8do e importancìa d'elies. 

: Se nSo bouve grande injustiga para com o pobre 
do iiiongc, ou censuravol desleixo, o profondo silen- 
cio quc a respeito d elle tem guardado quasi todos os 
que bào eseripto a bistoria da pìscicuUura, indica a 
pouca impoilancia dos seus ensaios. 

Quatro seculos dopois das experienciaR do cenobita 
de Héome, dois. bomeos notaveis, uni italiano, outro 
aileniào, Lazaro Spallanzani e Jacobi, crearam a arte 
importantissrma de que nos occupémos. 

Spallanzani, cirurgiào, naturalista e litrernto distin- 
ctissimo, a qucm as scioncias da nutureza devom em 
grande parte o scu descnvolvimcnto, e cujo nome é 
ainda boje e ba de sor durante muilas gera^Ges citado 
pek)s sabios com profunda veneratilo, estudou a fe- 
cundagùo artiGcial dos peixes, no intuito de roubar à 
natureza os importantissimos sogredos da gcragào ^, 
OS quaes, gra^as à sua intelligente perseveranza e ù 
de muitos outros pbysioiogistas, se patentearam àcu- 
riosidade dos invesiigadores, e constituem actuaimen- 
te, com o nome de cmbryogenia, um dos mais bellos 
e interessanles. capituios das sciencias medicas. 

Jacobi uào se propoz servir a sciencia especuhitiva, 
mas prestar um tambem relevante servilo à commu- 
nidade, centuplicando por um proa'sso, copiado do 
naturai, as cspecics que vivem nas aguas, e que o 
bomcro emproga na sua alimentagào, e rcpovoando os 
rios e mares, que mais de urna vez, e em diversos 
paizop, tem eslado a ponto de fìcai*em crmos. 

Koi em 1763 que JacoLi publicou as suas experien- 
cins e OS rcsultados que dVllas alcanQdra. 

Ciuco annos antes, linha o conde de Golstein, sabe- 
dor dos trabalbos de Jacobi, mandado ao pae do nota- 
voi cbimico francez Fourcroy * urna noticia resumida 
d*aquelles trabalbos, a qual foi pubiicada no Tratado 
(jcral das pescas^ de Henrique Luiz Duharael du Mon- 
ceau, agronomo intelligentissimo, que prestou muitos 
servigos ùs sciencias, e do qual se alBrma que, antes 
de Franklin, presentirà ser o raio produzido pela ele- 
etricidade. 

Desde 1765 foram as experiencias de Jacobi repe- 
tidas, era grande, pcrto de Nortelam, no Hanover; e 
taes foram os resuitados que produziram, que o go- 
verno inglez conferiu um premio a Jacobi. 

Vulgarisado o processo da fecundagao artiRcial dos 
peixes, seguiram-se as experiencias em differentes par- 
tes. Em Franga se fizeram ellas em 1820; em 1837, 
Sbaw repovoou de salmòes o Nilb, rio quo corre a 
oéste da Bscoda; (nn 1841, o inglez Boccius, do qual 
mr. Coste fa2 bonrosa mengao, enrlqueceu de trutas, 
pelo processo da feeundagao artifìcial, muitas aguas 
pertencentes a rìcos proprietarios da opulenta Albion. 

Provavelmente, em quanto Roccius, na Ingiateira, 
inspirado pela leilura do que àcerca d'este assumpto 

1 Al«m de ootras obras, deve-se a Spallanuinl « legulnte, pubii- 
cada em Parla em 1782: Jltmoria tobre ob rtjtroduc^Sc» animae». 

S Pertencc Foarfroy Aquclle notabflinimo grupo de sabios que flo- 
resceram na Europa pelos flns do soeulo possado e princlpios do aciaal, 
aoa qua«t a Pro%ideoc1a destinàra a uilssao Dobiliasima de tranafor- 
marifin o mundo pela Intelllgrneia e de crearem as sciencias, que até 
cntio estavam apena» osbo^adns, ov jasiam escondidas e Ignoradaa 
n»a tr«vaa, que os grandes geaioa d^aquoUa epocha disaiparam. Four- 
croy foi contemporaneo do immortai I^arolsier, do Bcrtbollel, Onyton, 
l'rycstley, Bergmann, Ampere, Davy, Dalembert« Monge, Lianeo e de 
outros, aos quacs a civUiaa^So Diodema deve todo o seu esf^leador. 

Ainda que por muitos outros serviQos nJto fosse Fourcroy crcdor da 
WMsa devo^flo e sympaUiia, bastavam para o tornar respeltavel e bem- 
quisto daas circunstanclas: a de ter aldo nm dos creadores da nomea- 
c4atura chimica, c^Ja primcira Idèa fot de Guyton do Horveau; o do 
ter concorrido valiesaneate para a organlsa^o das escholas polyte- 
rbnica e normal, para a crearlo daa escholas de medicina do Paria, 
Montpellier e Strasbourg, e de muitos lyccus, bem corno para o ea- 
graadeelmento do Jardim das pUwtas 4e Paris. 



; se bavia escrfpto em mais de um livro e joroal, na Al- 
lemanba e nos dois reìnos que separa o canai da Man* 
cba, conquistava o favor publico, Gebin e Remy, pò- 
brìssimos pescadoi^es de urna aldeola dos Vosgos, tal- 
vez analpbabetos, certissimamente estrarihos ds scien- 
cias, descobrìram e praticaram a fecundagào artiflcial 
dos peixes, guiados apenas pela pro|)ria observagao 
dos pbenomenos naturaos, e mereceram que a socie-: 
dado de emulagùo dos Vosgos Ibes conferisse em 1841 
Ulna medalha de animagfto ^. 

Passados sete annos, cm 1848, mr. Ouiitrefages leu 
na acadernia das sciencias de Paris uma memoria so- 
bre a piscicuitura, na qual expoz as experiencias de 
Jacobi, e lembrou aos agrìcultores a possibilidado. 
de abaslecerem de peixes as aguas, corno se fizcra 
na Allemanba e na loglaterra. Foi |)or està occasiào, 
se nos nao enganàmos, que o sabio professor se ser- 
viu de uma compara^'ào tao verdadeira comò pitto- 
resca, dizendo quo por meio da fecnnda^fio artificial 
se poderU semear peixes nas aguas, corno se semeia 
trigo nos campos. 

Como (Juatrefages deixasse no oscuro os nomes de 
Gebiù! e Remy, óu por nào ter conliecimeolo das ex- 
periencias por elies feitas,.ou por qualquor outro mo- 
tivo, quc nào importa averiguar, acudiu em desag- 
gravo dos seus laureados a soci(*dude de emulagào. 

D aqui largas e curiosas coritestacùes. 

Suscitaramse dùvidas àcorca da originalidade e 
prioridade do descobrimento dos dois obscuros pesca- 
dores. A discussào nào as dissifiou completamente de 
todos OS espirilos. auctor do artigo Piseicidlura du 
Encyvlopcdia universcd é um dos poucos que se mos- 
tram um tanto desfavoraveis aos dois mc^quinbos. llis- 
loriaiido o acontecimento, diz elle, coni certo ar de 
enfado, «que Gebin e Remy, nào obstantc a buiha 
quc se fez com as suas inve.sliga^Oes, apenas tinbani 
descobcrto factos jà conliecidos, e roinvonlado os prò- 
cessos imagioados por Jacobi.» 

A iojustiga é flagrante. 

Devem, porcm, estar consolados os dois pobresì- 
iibos, se ainda existem, e se as vozes da impronsa 
scientifica tem cbegado a seus ouvidos, com os ologios 
rasgados que Ibes bào tecido juizes competentissimos. 

Entro estes figura Labouìaye, quo, além de outras 
coisas mui lisongeiras, diz «que Gebin e Remy derum 
provas de tamanba intelligencia e sagacidade nas sua.s 
experiencias, que justiOcam pienamente as recompeu- 
sas houorificas que Ibes conferiu a sociedade de emù- 
lagào dos Vosgos. » 

Ambrosio Tardieu, no seu excellente Dkcionario de 
hygiene publica, fallando da piscicuitura, declara «quc 
nào póde deixar em silencio o admiravel dcseobrimento 
de dois bomens obscuix)s, que imaginaram e pratica- 
ram a fecunda^ào artificial dos ovos dos peixes, e os 
esforgos dos sabios que engrandcceram e completaram 
a sua obra, e cujo nome ficarà associado à piscicui- 
tura.» 

Heurtier, director goral do rainisterio do interior, 
em Franga, comega um rotatorio, que dirtgiu ao mi- 
nistro da sua repartigào, sobre o assumpto, com estas 
phrases: «Dois pescadores dos Vosgos, Gebin e Remy, 
tiveram o mei*ito de descabrir, por um notavel espi- 
rito de observaigào, o processo ae feeuudar artificial- 
mente OS ovos dos peixes, o qual, durante quasi um 
seculo, tinha sido exclusivaaiente do dominio da scien- 
cia. Foram elles os primeiros, em Franga, que soubc- 
ram dar-lbe uma appiicagào feliz e da maior utilidade. a 
Finalmente, por nào citarmos muitos outros, mr. Cos- 
te, cujo voto n està materia é de summo peso, no re- 
iatorio que fez subir à presenga do ministro do interior, 
da agrìcultura e commercio, àcerea do estabelectmento 

i Alguem diz q,ue Oebin era eataiajadelro. O nome do Remy ▼em 
eitado eom louvor no Diccìaaarlo Qtral de hiogra§^a e hUtoria, d« 
Dozobry o Bacbclct. 



iOO 



ARCHIVO PITTORESCO 



de piscìcultura de Huningue/ do qual jù vamos fal- 
lar, .expressa-se do seguitile modo: • Depois que o des- 
cobrimento da fecunda^So artificiale por muito tempo 
enccrrada nos laboratorios da sciencia, onde era cxclu- 
divamente consagrada às experìencias de physiologìa, 
foi transportada para o dominio da applicagào, onde 
OS felizes ensaìos do conde de Golstein, de Boccius, 
e sobre todos dos dois pescadores de Brosce, a acre- 
ditaram, tem-se cmprehendido serios estudos para dar 
aos processos que se prendem com està nova indus- 
tria todo rigor que se deve esperar dos metbodos 
mais bom provados.» 

I^m 1850, informou o professor Hiine Edwards o 
seu governo sobre o alcance do processo empregado 
por Gebìn e Remy, o qual estudàra no locai em que 
as experìencias tìnbam sido feitas e continuavam a 
fazer-se. Em consequencia do informe do sabio zoolo- 
gista, foi nomeada uma commissào para dirigir os en- 
saios de fccundagSio artìficial, repovoagào e acclìma- 
^ao, que se fizeram nas aguas de Versailles, nos de- 
partamentos de Isere, de TEure, e em muitos oulros 
do sul e do centro da Franga. 

Por este tempo, o engenbeiro cbefe do canal do Rhone 
ao Bhin, mr. Borthot, e mr. Detzem, engenbeiro às or- 
dens de mr. Bertbot, lembraram-se de ensaiar a fecun- 
dagao artificìal nas aguas que tinbam à sua disposigào. 

Luctando com muitas difficuldadcs, e scm auxiiio 
algum do governo, conscguiram scmear no canal um 
milhào de trulas, de salmOes e de mestigos das duas 
especics. Para melbor resullado colberem das suas cx- 
periencias, escolberam, para fazcl-as, um silio que Ibes 
parecou mui azado para a nascenga e dcsenvolvimento 
dos peixinbos, proximo do canal de Huningue. 

No curio esjjago de trcs mezes, conscguiram fecun- 
dar ires milhòes e trezentos mil ovos de diversas es- 
pocies, OS quaes produziram um milbào, seiscentos e 
oìtenta e Ires mil e duzentos pcixcs vìvos. 

Informado o ministro do interior lios lisonjeiros re- 
sultados oblidos por mr. Bertliot e Detzem, encarregou 
mr. Coste de ir em pessoa examinar aqueiies traba- 
Ibos, para depois emittir àcerca d'elles a sua opiniao. 

Mr. Coste foi ; e de tal importancia julgou o que 
viu em Huningue, 'que, em vez de continuar a via- 
gem scientìfica, que tencionara fazer pelo nascente e 
sul da Franga, voltou a Piu*is, a dar conta ao minis- 
tro da commìssdo de que fora encarregado. 

No seu relalorio, que temos presente, propoz mr. 
Coste que o governo concedesse aos dois engcnheiros, 
para construcgóes e dcspezas de cxploragào no esla- 
iH'lecimento de piscicultura de Huningue, a verba de 
(rinta mil francos, que, em dinheiro portuguez, anda 
por quatro contos e oitocentos mil réis. 

Por decisào ministerìal, datada de 5 de agosto do 
1852, foi sanccionada a creagào do estabelecimento 
de Huningue, conforme propozera mr. Coste. 

Foi, pois, creado o estabelecimento de piscicultura, 
que por muitas razoes se póde reputar o mais impor- 
tante da Europa. 

Ndo sendo razoavel alargar muito està noticia bis- 
lorica, e contando-se no que fica exposto o que nos 
parece mais importante relativamente ao desenvolvi- 
mento progressivo de tdo util e sympathica idèa, pas- 
saremos a mencionar o que nos consta das tentati vas 
feitas em Portugal para a criagào artificial dos peixes ^. 

Diremos depois, muito em resumo, as bases scien- 
tificas do processo, e explicaremos a eslanipa que orna 
comego d'este artigo. 

(Continua) Sousa TeIìLbs. 

1 A^cerca do estabelecimento de HuningnOi « ^*m de IngUterra, 
£8<*ocÌA e Irlanda, vcjam-se os dofs segnintes opnsonlos: Noticia hù- 
torUa ilo MtabtléHmento de piseicvUtira de Huningue (departamenfo do 
AUo-Kheno)j'pertemcente ao gorerno france» e a cargo da etdminiglra^So 
daa ptnitea e cali;(ulas. Strasbourg, ISiU.—Helatorio sobre a pUtc tenitura 
e a penr.a fluviarei* em Ingìaterra, na Eseocia e na Irlanda, conMde- 
ratio» »ob o duplo oapeeto dot proewoè de produe^ào, tanto naturaes 
tomo art}firiae*, e da legitlti^^ qne protege o poroamento da» agita» 
eorrmnte4i. 



GORAL E A SUA PESCA 

coral é um gracioso polypo, similhante na fórma 
a uma arvore pequeniaa, despojada das folbas e dos 
mais tenues raminbos. 

É conbecido e apreciado desdc a mais remota anti- 
guidadc corno um bello material para a fabricagào de 
variados adornos, com que as damas cxalgam a sua 
formosura. Porém, a respeilo da sua natureza, discor- 
davam os pbilosopbos e naturalistas antigos, scrvìndo 
apenas as suas opinióes encontradas para provar que 
a desconbeciam inteiramcnle. Uns afOrmavam que era 
um minerai ; outros esforgavara-se por demonslrar que 
era um vegetai; e o caso ó que neubum acertava com 
a sua vcrdadeira orìgem. 

Tbeopbrasto comparava o coral à hematitc. Diosco- 
rìdes dìzia que era um arbusto marinilo, que, poucx) 
depois de se tirar da agua, endurecia por cfteito do 
contacio com o ar. Està opiniao foi a quo mais se gc- 
neralisou e prcvalcceu. Os creditos quo Dioscorides 
gozava de sabio investigador dos segredos da natureza 
deram tal voga a essa opiniao, que foi acceita e res- 
peilada por todos os povos cìvilisados no longo curso 
de dezesele seculos, desdc o primeiro seculo d'està 
era, em quo viveu aquelle philosopbo naturalista, alò 
aos princi|)ios do xviii, em que Marsigii v(mu de certa 
maneira confirmal-a, dcscrevendo em 1706 o que elle 
cliaraava flores do pretendìdo vegetai, e que eram, 
nem mais nem menos, os aiiimaes fabricanles e ba- 
bitadores do esbelto e delicado polypo. Foram as in- 
vestigagOes de Peyssonel em 1750, secundadas depois 
por Milne-Edwards, que esclareceram a questào, de- 
monslrando que o coral era na reaiidade o resullado 
do endurecimenlo interior de um polypo, que os natu- 
rai islas collocam no fìm da ordem dos gorgonidas e na 
secgào dos polypos corticiferos, isto é, que a[)resentaiii 
uma especie de casca ou cortiga. Està, porém, ó ape- 
nas a parte mais recentemente fabricada pelo animai, 
e, por conseguinte, menos consistente que o interior. 
É loda crìvada de buraquinbos, que servem de vivenda 
aos aniinaes. Assim, pois, o coral propriamente dito 
lem por firn oSerecer solida base a essas numerosas 
babilagóes. Os animaes, formados de uma materia ge- 
latinosa, analoga A dos babitadores das nfiadréporas S 
lem aspecto de uma fior de cor esbranquigada. 

Dissemos que esle polypo é similbante a um pe- 
queno arbusto, sem folbas, mas com muitas ramifica- 
gOes. diametro do tronco nào excede a 20 ou 25 
millimetros. A substancia calcarea que o compòe està 
disposta por camadas concenlricas. É finissima, de 
muila dureza, e facii de receber qualquer lavor e po- 
limento. A parte exterior, ou casca, lem a cor acin- 
zentada, e é semeada de tuberculos, que terminam 
em uma aberlura, dividida em oito compartimentos 
para dar salda aos oito tenlaculos do animai. 

A cor interior do coral apresenta differenles varic- 
dades. Encootram-se polypos de um lindo vermelho, 
de cor menos viva, cor de rosa, e ale quasi brancos. 
Cbamam os naturalistas a este polypo coralHum i^i- 
brum, porém no commercio dào-lbc diversos nomes, 
segundo as suas córes, comò por exemplo: escuma ile 
sangue^ fior de sangue^ primeiro^ segundo, terceìro 
sangue, eie. mais bello coral é o das costas da 
Franga e da Italia. Sobreleva aos das outras parageiis 
na viveza da cor e no tamanbo do polypo. 

coral està pegado aos rocbedos pela base, em uma 
profundidade que varia conforme as localidades. Al- 
gumas vezes acba-se quasi a superficie da agua, mas 
commummente està a 200 e 250 metros de profundi- 
dade. mar Vermelbo e o Mediterraneo sao as pani- 
gens onde ale ao presente se lem acbado o coral. 
N'esle ultimo mar, encontra-se em mais abundancia 

i Vid. pag. 108 do voi. x e 64 do xi. 



XRCRIVO WTTOHESCO 



101 



nus ilhas Dulcarcs, na Corsoga, na Surdcnha, nas vì- 
sìiiliangas de Uarsdha, aa Sicilia, nas coslus de Tu- 
nis, de Argel e de Marrocos. 

Para a pcscu do coral cmpregam-se umas cmbarca- 
eòes muìto parecidas no lamanho, no Teìtio e na ar- 
Dia^ao com aa nossas rascas. Tanto os francowa comò 
OS italianos dSo-lhcs o nome de coralinas. Sao tripu- 
ladas, em gemi, por dez ou doze tiomcns, todos bons 
inurgulliadorcs. Consiste o apparetbo para a pesca em 
urna grande cruz de madeìra, com qiialro bragos de 
cgual comprimcnlo e mui fortos, da extremìdade dos 
<]uaes peiidem quatro redes, comò sacos. Ata-se urna 
grossa corda no centro da cruz, e, prendendo il parte 



interior um peso suDìcicale para levar ao fundo do 
mar o apparelbo, langa-BC esle à agua borìsonlalmenle. 
Ao mesmo leuipo desco um mergulbador ao fundo do 
mar, e, trovando do apparciho, vac raspando com cada 
um dos bragoa da cruz os rocbedos a quo estào agar- 
nidos OS polypoB do cara), ale quc lìcam cbeias as 
quatro redes. baz-se està opcraj^ com multa rapidez; 
e assim que termina, a um sìgnal dado pelo mergu- 
Jbador, os seus companlielros tratam immediatamente 
de o rcconduzir il embarcacào, bcm corno ao appare- 
Ibo carregado de coral. 

A maior parte da produc^ao d'està pescarla é Icvada 
a Leornc, quo 6 o principal mercado do coral. Urna 




rerta quanlidade 6 ahi vendida em bruto, e logo de- 
pois exportada para difTcrentes paizes. resto Bea 
pani 03 ourives e lapidarlos de LÌxinie, que sjto eml- 
iicntcs nos trabalhos de esculplura em coral. Bsta in- 
dustria dd occupa^ào n'essa cirtade a numerosos artìs- 
tas. Os variados adcrp£Os por elles fabricados (tara uso 
dos damas repregentam annualmente um avullado ca- 
pital, e constilucm um ramo Importante de commercio 
interior e de exporla(;ao. 

A pesca regular do coral data do melado do se- 
rulo XV, e dizem que foram os francezes quem Ihe 
deu comedo. que i certo é que foi a Franca a prl- 
mcira nn^ao que deu corta regularidade a està Indus- 
tria, instilulndo urna companUia para a pesra do co- 
ral, com varios privileglos, e com um estabrlceimento 
fHTmancnte na cosla de Argel, Foram abolittos os pri- 
vilegio? da companhia era 1791, ficando iivre a pesca 
do corni para todos os franrezes que commerriassem 
com a Riirbaria e Levante. Sobre as ruìnas d'aqueda 
companhia levantou-se outra, orgunisada por italia- 



nos, a qual obteve a posse do eatabelecimento a que 
acìma nos rcfcrimos, mediante urna contrìbui£3o paga 
em genero, isto é, no proprio produclo da sua indus- 
Iria. Passados cinro annos, prelendeu o governo fran- 
cez repor as coisas no antigo estado, creando urna 
nova companbia, A qual concedeu diversos privileglos. 
Por^m estes nunca foram bem executados, e a socie- 
dade colhia poue^s vantageus, quando os ingleies se 
apossaram do mcncionado està beleci mento, correndo 
anno de 1802. Entào leve a pesca do comi um grande 
desenvol vi mento, empi'egando n'ella os inglezes unias 
quatrorenlas emliarcavóes, Ucpois da paz gcral, em 
1816, restiluiu a Inglaterra à Franga o es label eei mento 
da costa de Argel. Desde 1830, em que os francenes 
se a[ioderaram do territorio argelino, a pesca do coral 
n'essa pragem tcm sido administrada por conta do 
estado, sendo pcrmtllida às embarca^s eslrangeiras, 
sob condigào de pagarem certo tributo. 

Os pescadores do Algarve occuparam-se por largos 
annos na pesca do coral, indo exploral-o oa costa da 



102 



ARCHIVO PITTORESCO 



Borbarìa. Està industria coirrcu cntre nós vùria forta- 
Ita, prosperando, docalodo, tornando a descnvolvcr-so 
por diiigencias do governo, que algumas providencias 
dea para esse fini, até que, novamente decadente, se 
extioguiu no seculo passado. A viiia de Castro Marim 
foi taivez a que mais se entregou a està industria. 

A pesca e comnicrcio do coral, sujeitos ao imperio 
da moda, tiveram outr'ora grande florescencia. Depoìs 
atravessaram um longo periodo em que estiveram quasi 
a extinguir-se, por faita de consumo dos seus produ- 
ctos. Modernamente tornaram a florescer, gragas aos 
aperfeiQoamentos introduzidos pelos artìstas na escul- 
ptura em coraJ. 

Em tempos remotos, a medicina servìu-se do coral 
para a composigào de ai^uns medicamentos. Hoje ape- 
nas se emprega, reduzido a pós, para a limpeza de 

deotes. I. db Vilubha barbosa. 



FRUCTOS DE VARIO SABOR 

n 

AVENTLRAS DE UM CARAXGUEJO 
(Vid. pag. 94) 

X 

Assìm diria, se podesse, aquella infcliz e ao mesmo 
tempo ditosa màe: mas ncgàra-lbe Deus a falla; e seu 
fiiho, endurecido pelas circunstancias da sua vida, es- 
tranilo aos affectos, e ja incapaz de sentil-os, inter- 
pretava de Lem diverso modo os afagos e caricias da 
que ignorava sor sua mhc, Eis o que elle quereria res- 
ponder, se fallasse: 

«Basta, creatura immoral e dcsromedida! Olhe que 
me està fazendo mal com os seus abragos ! Ai, o mcu 
peito! Nào me beije d'esse modo... Ob! impudente, 
pare abi, que està ofTendendo os bons costumes e a 
moral pubiica dos caranguejos! Veja que jà està por 
abi toda a gente da visinbanga ùs portas a olbar para 
nós!... Entào!... Ora para onde Ibe bavia de dar! 
Largue-me, jà disse! Eii nào sou d*esses que vossó 
parece estar costumada a amarrar assim publicamcn- 
te!... Isso ó uma ìndecencia, urna pouca vergonba! 
Va là para os seus eguaes, que cu cà nào goslo d'is- 
so!... Que despejo! A que estado cbegàmos!... Jàos 
innocentes sào assaltados pelos logares mais frequen- 
tados, à luz do meio-dia, para satisfazer os appetttes 
e as paixOes brutaes destas creatura» perdidas! Onde 
està a justìga? Onde està a Providencia? Onde està o 
castigo? Por que nSo cae o ceo aos pedagos, por que 
nào rolam estes rocbedos sobre tamanbos criminosos, 
para que allumia o sol taes iniquidades?! Ob! abo- 
minagào! Ob! sensuabdade! Ob! sacrilegio! Nào ba 
remedio, pois, senao succumbir?!» 



XI 



Iato diria elle, ou peior ainda, se Deus ibe bouvera 
concedido a divina faculdade de poder fallar. Mas co- 
rno nào fallava, luctou ; e, no furor da pudicicia, con- 
seguiu soltar-se dos bragos maternaes e fugir. Correu 
com toda a agilidade de suas varonis anteuoas, e, 
para escapar ao perigo que mais detestava, expoz-se 
a oatros maiores, saltando de rocha em roctra, de 
abysmo em abysmo, até que alcaogou o penedo onde 
habìtava. Dispuoha-se a respirar à vontade, quando 
Dotou com pfofundo terror que fora scguido, impla- 
cavelmente segiiido por aquella de quem fugial Entrou 
precìpitadtroente na sua cella, coja boca era tao es- 
treiia que, felixmente, odo cabia por eUa a sua per- 
seguidora! Està parou é porta, eacarando-o com os 
olhiohos espantaoos por nSio saber a causa por que 
mn filbo adorado mostrava tamauho horror a sua mite. 



caranguejo faiscava de colera ao ver-se com seati- 
nella à vista; mas depois de seguro de que a entrada 
da casa o defeodia, pozse tranquillamente a meditar 
na dcvassidào a que tinbam cbegado os costumes do 
seculo, que jà as femeas tentavam apanbnr marìdod 
ou amantes pondo-Ihes cérco às babitagOos! A pobre 
màe, aquella que elle julgava sua inimiga, ficou ve- 
lando à porta para que nenbum perigo perturbasse o 
som no de seu filbo! 

xu 

Ob! santo amor maternal, que, mesmo desprezado 
e rcpellido, protegcs e amparas os ingratos que te nao 
sabcm comprebender! Abengoado sejas tu para sem- 
pre!* Ó vós que sois màes, nào desampareis jàmais os 
vossos filhos; nào os exponbacs a que se criem longc 
de vós, porque mais tarde vos desconhecerào e rejci- 
tarno as vossas caricias; e pódc succeder- vos ainda 
peior do que aos pobres caranguejos!... Vós, princi- 
palmente, màes desnaturadas que engeitacs vossos fi- 
ìbos, nào vos occorre que o ciigeilado póde crescer a 
tempo que sejaes ainda novas e escravas das paixGes, 
que se póde enamorar de vós e vós d'elle (comò ba 
de fallar a natureza no coragào da màe que engeita os 
fìibos?), e que podeis assim commetter o mais bor- 
rendo e repugnante dos crimes? Nào tremeis, nào re- 
cuaes com a tremenda idóa de que a Olba langada à 
roda póde, tornando-se mulbor, ir servir a casa de seu 
proprio pae, e renovar com elle a atroz e infanda bis- 
toria de Myrrba e de Cinyras?! Ob! que esle reccio 
terrivel, à falta de outros motivos mais nobres, vos 
cbame ao dcver! E jà que tivestes a fragilidade de 
cair no primeiro erm, nào o aggraveis, presumindo oc- 
cultal-Q, com outro maior ainda. Lembrae-vos de que 
Deus ve ludo; e se nào soubostcs ser honestas e vir- 
tuosas, sabeì ao menos ser màes, porque so assim po- 
dereis rebabilitar-vos. 

xin 

A bistoria do meu pobre caranguejo toca o seu ter- 
mo. A màe, famìnta, insaciavel de o ver, tendo con- 
centrado teda a sua esperanga n'aquelle encontro, e 
vendo-se tao duramente receblda, sem saber por qué, 
nunca mais se afastou da fenda do rocbedo que Ibc 
guardava o filbo. Esle preferiu morrer de fome a ex- 
por-se aos carinbos cuja origem tiuba por suspeita ou 
depravada, sendo alias a mais santa de todas! 

Imagine-se bem a situagào de duas creaturinhns 
olbando-se noite e dia, sendo ambns causa innocente 
da morte uma da outra, sem melo de communicarem 
seus pensamentos, suas repugnaneias, suas aspira- 
góes; — uma sem poder perguntar: 



XIV 



«Que queres de mim? Que te fiz eu para que me 
venbas matar, sitiando-roe na minha cella, d onde nào 
posso sair em busca do meu sustento por ignorar as 
tuas intengOes?!...» E outra sem poder responder: 
«Sou tua màe, desgragado! Quo culpa tenlio eu das 
tuas desventuras, para que me odeies? Vem aos mcus 
bragos, filbo da minha alma! Nunca mais daqui me 
afastaroi nem tornarei a tomar alimento, e expirarci 
à tua vista, se me nào fizeres a esmola do teu amor! • 



XV 



Esle drama doloroso leve firn. A pobre màe come- 
gou a chorar; e, por um estranbo mjsterio, à medidu 
que as suas lagrimas se escoavam para o mar, o seu 
corpo dkniauia de votame, até ^ne de lodo se desfes 
e desappareceu a ultima gota salitrosa que Ibe pertcn* 
céra. fiUio, porém, ficou onde cstava, e completou 
sem violencia a sua metamorphose, de muito come* 



ÀltCBIVO PTTTOKESCO 



103 



iQada; convertea-se cm pedra, Assimiiando-se ù parede 
da sua cella, mas som perder a fórma primitiva. 

Haverà dozc aonos qne visitei aquellas praias, tes- 
timuobas de tdo doloroso successo, e, subiodo ao pe- 
iiedo que se ficou denoroiDaudo a Lapa dos^ caran^ue* 
jos^ là vi a pclriflcagdo, e h vista d'ella escrcvi està 
historia, tal corno a tradiQ&o a tinha conservado. 

F. GoMSS DB Anoanr. 



ABDUL-AZIZ, SULTÀO DA TORQUIA 

(Vld. pagr&l) 
II 

Nào creio na Turquia, repito, nào creio na possibi- 
lidade da cxistcncia de urna nagào onde quatro secu* 
los nào conseguiram fundir os diversos elemontos que 
refervera n'esse cadinho xiespolico. Nào creio n'uraa 
nagào onde a raga a quem a espada don a suprema- 
eia nào consegue, nem tenta mesmo, durante quatro 
socuios, transformar o sua occupagào militar n*um do- 
minio s(^lo e solido; n'uma nagào sr cujas instituigOes 
nào bastam quntrocentos annos, nem bastariam mil, 
para (omarom raizes no solo cm que imperam; numa 
nagào, em rìm, onde o poder pertence a urna minoria 
brutal e inintelligente, em quanto as ragas onde ba 
vi. la inlelleclual, as ragas que formam verdadciramente 
a nagào ou as nagóes constituintes d*esse liybrido con- 
junto, cstào condcmnadas a vegetar politicamente à 
sombra da arvore caduca e esteril da Sublime Porta. 

Pois quii! as ragas duras e encrgicas do Norie, inun- 
dando corno urna torrente o imperio romano, ainda vi- 
goroso, tcm forga bastante para arrasarem e confun- 
dircin instituigOes, e ao mesmo tempo malleabilidade 
bastante para se adaptarem aos moldes da antiga ci- 
vilisagào, que'hào de sobrevivcr à quéda do mundo 
aniigo, e em que se ba de vasar a civilisagào moder- 
na; assim que csses povos barbaros se acbam em 
contacto com os povos civilisados, resulta do seu cbo- 
que urna confusào fecunda, porque n'esse baralhar de 
instituigOes, de religiOes, de linguas, se eslào procu- 
Yando e casando os clementos d'onde liào de sair as 
nagóes vigorosas da moderna Europa, nagOos que nào 
sào nem gauiezas, nem frankas, nem celtibericas, nom 
gotbicas, mas francezas, mas hespanbolas, mas portu- 
guezas, qucr dizer, nagóes que datam cxclusìvamente 
d'essa epocba de elaboragào, e que à conquista fe- 
cunda opcrada sobre os paizes romanisados pela es- 
pada dos barbaros do Norie, e à outra conquista, nào 
menos ft»cunda, operada sobre os barbaros do Norte 
pela civilisagào e pela religiào das provincias de Ru- 
ma, devem a sua energia, o seu vigor e a sua indole 
toda progressista; e a raga brulal dos fìlbos de Otbman 
alaga o decrepito imperio byzantino, devastando ape- 
nas, fiào corno inundagào providencial que confunde 
seu natciro fertilisador com o solo onde pullulam 
clementos de fecundidade, mas corno flagello de Deus, 
corno terivel inundagào que desco de inverno, cm tor- 
rente espumante, das montanlias, e devasta, arrasa, 
destroe e passa, deixando a tristeza e a ruina onde 
oncouliou a llorescencia e a vida; essa raga exclusi- 
vamonlc guerreira, que, dcsde que dcixou de ser o tcr- 
ror da Europa, pa.-^sou a ser o ludibrio d'ella, porque 
mìo tinba motivo de existir que nào fosse a guerra, as- 
sim comò raio nào tem motivo de existir que nào seja 
a lempcstade; essa niga enconira um povo sem ener- 
gia, e nem sabe Iransvasar-lbe para as veias o seu san- 
gue juvenil e ardente, nem sabe receber das suas màos 
sem forga o legado civilisador; nào impóe a sua reli- 
giào, netn acceita a dos vencidos; nào cruza as ragas, 
nem ao menos tem vigor bastante para se substituir in- 
teiramente aos. autocbtoDas; acba-se cm contacto com 
a lingua grega, corno os barbaros do Norie comi a 



lingua latina, e nem percebe que^ idioma de Homero 

1>ossa vencer a sua pude Jin^uagcm, nem que a soai 
ingnagem possa modificar o idioma de Homero; con* 
servasse completamente distincta da raga opprimida> 
estupidamente tolerante com as idéas, estupidamente 
ìnlolerante com os bomens, sotdadesca infrene acam^- 
pada em territorio ìnimigo; e a Europa ha de accei* 
tar este arraial corno nagSo, ba de consentir que em 
pieno secolo xrx se de o nome do nacionalidade turca 
a um amalgama de slavos, de gregos, -de armenios; 
sobre os quaes tripudia, sem caracter, sem forga, sem 
iitteralura, sem tradigOes gue a prendam ao solo, sem 
coisa alguma do que constitue as nacìonalidades, uma 
borda semi-barbara de nomadas asiaticos! 

A Turquia é uma Dcgào diplomatica, e, por mais 
que tenie agora e lente lealmente acolher as idéas da 
civilisagào europèa, ficgào ba de permanecer sempre, 
porque é uma ìmpossibilidade completa a fusào das 
diversas ragas que povoam o imperio; e, desde o mo- 
mento em que essa fusào ó ìmpossivel, a lucia inte- 
rior ba de subsistir ale que as ragas iìutocblonas re- 
pulsem OS ìnvasores, e lomem posse de si mesmas. 
Ha muito que isso se ter! a effectuado se a questào do 
Oriente nào se tornasse de subito, gragas aos projc- 
ctos ambiciosos da Russia, o pUantasma que persegue 
em sonbos a diplomacìa Occidental. Recuam as poten- 
cias diante de uma solugào inevitavel, e temem as 
procellas que d'ahi bào de resultar; cm vez de cn- 
cararem face a fiice o perigo, preparando-se para elle, 
procuram prolongar o stalu quo, e afferram-se com en- 
tbusiasmo a ludo quanto Ihes possa dar uma vaga es- 
peranga de que esse slalu qua se]a definitivo. Por isso 
applaudem e apregoam todas as l'efoniias da Turquia, 
por isso acolhem coma uma promessa a vinda do sul- 
tào, e basta-lbes essa supposta garantia de um reno- 
vamento no imperio turco p^ara quo deixem succumbir 
com indiffei*enga os ìnlropidos cretenses, que invocam 
debaldo as suas tradigOes sublimes, a generosidade 
da Europa, a fraternidade que nos devia arrastar a 
soccorrer osses nossos irmàos, fllhos primogenitos da 
civilisagào holtenica, e que lem em resposta no Mo- 
nitor francez esse periodo, em que se commemora a 
Victoria proxima dos musulmanos: 

aTudo leva a acix^ditar que este ultimo esforgo da 
rebelliào, em que a parte sa da revolimo candiota nào 
tomou parte algumay nào conseguirà fazor voltar para 
a liba de Creta uma nova era de desgragas e do ruinas. » 

Esse mesmo artigo, lamentando que a rovolugào nào 
estivesse de lodo acalmada, comegava assim: 

«As esperangas que nos inspiràra o geito /hvoj^tW 
dos acontecimentos de Creta nào se roalisaram iotei- 
ramentu^» 

Nem se reaiisarào nunca. Subjugada aqtii a revolta, 
brola de novo além. artigo do Monitor era de 5 de 
dezembro de 18G6, e no dia em que estou oscre vendo 
(2 de outubro de 1867) vejo nos jornaes a noticia de 
ter rcbentado com mais forga a mal comprimida in- 
surreigào ^. 

Pois nào Ibes demonstram a cada passo estas ex- 
plosóes quanto ^. fìcticia a oxistencia da Turquia? 
A pesar do cuidado coni que o Occidente faz da iute- 
gridade do imperio ottomano a garantia do equilibrio 
curopeu, nào se està esse imperio desconjuntando a 
cada passo? Nào quebraram de lodo os principados 
danubianos os tenues lagos que os ligavam à Turquia? 
Julga-se possi vel, sem se derramarem ondas de san- 
gue, que volte a ilba de Creta para o dominio do sul- 
tào? A agitagào nào é constante de sul a norte, de 
oriente a occidente, e na [iropria capital, onde os ar- 
menios e os gregos cstào perfeitamonle organisados, 
nào existem fermcnlos perennes de revolta? 

I Voja-jse A e«le respolto tim artico do tnr. Bonlé, La Cfréte et là 
qtuòtion d'OrieiUf ni Revue den deux mondes de 15 de Janoiro de 18(>7t 

3 Quando CHte artigo so publlca (Jiilho de 1868} aiuda nào egtà ter- 
mluAda a ruvolta de Oreta.- - ' 



104 



ARCfflVO PITTOKESCO 



Gregos, armenios e slavos sSo as Ires ra^as princi- 
paes quG cxislom do imperio lurco. Vejamos qual é 
a ror(^ vìtat d'essas nacionalidades, a sua imcompa- 
tibiìidade coin o dotniaio turuo, e depois veremos se 
reccio de dospertar a grave qucslfio do Oriente nao 
estA obrigando a diplomacia occidenlal a combatcr eoo- 
Ira a naiureza das coisas, e a preparar, por coose- 
giiinte, urna calastropbe mil vezes mais funesta do quo 
o perlgo coDlra o qua! a Europa se procura garantir 
com esse cscudo apodrecido do imperio dos ottomanos. 

<Oontlii(Ui) H. Pimauo Cubai. 



PYRILAHPO PORTA-CANDEU 

Sào bem coDhecidos em lodo o nosso paiz uns in- 
seclos pcqucninos que se escondem em quanto o sol 
illumina a terra, e aue durante a noite vagueìam por 
eolrc as balsss e soure a rclva dos prados, brilbando 



na escuridào com uuia luz pbosphorìca, que de espiico 
a espayo se eclipsa. Yaga-lume, pyrilampo ou lutnicira 
s&o OS nomes vulgares com que o povo os designa; e, 
alum d'estes, ainda Ifaes dà outras dciiomina£ucs, se- 
gando as localidades. A estcs iosecLos, de que ha di- 
versas especies, cbamam os naturalìstus lampyris, cuì- 
locando-os no genero dos cleoptcj-os. 

PonSm singular inseclo, que se vó rcprcscnlado 
em a gravura junta, com quanto seja dolado da mias- 
ma propriedade de rcsplandecer nas trevas da noite 
com urna luz pbosphorecente, pertence ao genero tlos 
bemiopteroB e à familia das cigarras. Cbaina-sc fi» 
linguagem scìeaUSca. fulgora candelaria. Represcntu-o 
a noasa gravura no seu tamanbo naturai. A calx^H, 
de cOr avermelbada, tcm um grande prolongami-iilu 
curvo e ponleagudo, da Tórma do qual tira o insecto, 
som dbvida, o seu nome populur de pyrilamjio porla- 
eandeia. Os elylros, ou azas superiores, sào venb-s, 
com pintas cdr de laranja. A mesii>a cor de laranju 




% ^-^^ 



4^-<' 



Ihe tinge o rarpo e as azas inrerìorcs, terminando es- 
tas cm urna Tuxa prelu. 

A cste ìnscclo, de t&o exquiiiila forma e de tao vi- 
vas córes, concedeu a nalure^ia o dom de resplande- 
cer rom Oì; n'ili-KOs, cmbora pallidos, de urna luz phos- 
pborìca. h'ao desfrucla, por^m, cale dom por loda a 
Vida, apesar de ser bem corta, mas Burnente durante 
urna parte d'ella. 

Este pjrìinmpo 6 natm^l da Cbina. É o maior que 
aili se ennonlra d'entre as dìversas cspccios designa- 
das com o nome de fulgora. Vorim ouira especie lia 
na America incom para vel mente maior. C.bamam-ibe os 
amorÌL-anos porta- lanterna, e os oaluralislas fulgora 
lantemaiia. i. nm viuibu bubo». 



ORGCUIO DOS LNGLEZES 

Hci de revclar o mal e nao occultar o brm. Tonho 
ainda a palavra. Fui (cslimunba de urna d'csHas nia- 
nifcsIasOes exaggeradissimas do espirilo publìco in- 
gleR CUI urna circunstancia mui ddirada. 

l'm negocianle fora encarrcgado pelo governo de 
comprar madciras de conBlruri,~do para o |>orto de Ar- 
cbangel. A Itiglatrna, ii'aquellu epoclia, eslava vm si- 
tuagSo critii'ii : iicm podia reparar ncm cdilicur. Mas as 



circunstancias inudarani dcniro em pouio, e o goviT- 
no, acbandoo mcrcado em condit^Oe:] mais favurawis, 
accusou nc^cianle de falla de zelo, e arruìnou-u. 

infetiz aprescntou diversas mcmorias para se jus- 
lifìtar, pediu audirncias aos mìnistros, porém batduda- 
mcnte. A final, em um momento de desespera^ao, tv- 
solveu-se a espcrar o priineiro ministro Perceval à 
porta da camara popular, e, depois de lan^ar-lbe em 
roslo a sua deslealdade, matou-o. 

Prendcram o bomicida, e o processo inslaurou-ae 
sem demora. Ficando provado o crime, o infvliz foÌ 
julgado e condemnado a pena ultima. Na occasìào da 
execu^ao pnvo apintioava-se na pnifa onde se le- 
vantdra o cadafulso, e de lodas as partes se ou\iam 
estas palavras: 

— Adeus, infeliz! devias reparagao às leis do (eu 
paiz porque as linbas olTendido; mas. Deus te perdo<' ! 
prestaste um grande servilo a patria. Hnsiiiaste aos 
mintstros que devem sor justos e conceder as audìeii- 
cias que Ibes sao pedìdas. 

Aliriu-tie em seguida, a favor da viuva e dos fillio:- 
do ìitfeliz negocianle, urna subscripgao, que subiu a 
uma somma fio importante, que ne certo, em ouim 
oualquer circunslaiieìa, nSo leriam pensado que |)o- 
(Jeria necumular-se tumanha nqueza '. 

1 VAvtfMem rat & landra, pq^. ^. 



14 



AltCniVO PITTOItESCO 




Ila um grupo immortal na vclha tradito hcllenìca; 
é grupo de Edipo e de Anlìgona. Os modernos, em 
giurai, iiao comprehendem a sublìmidade do9 assura- 
plos da tragedia grega; o patbelico de Eschylo e de 
Sophocles, quo linlia suspensos e Tascinados os cspe- 
cladores dos llicatros alhenicnses, deixa-noa frios e 
som lagrìnias; admirùnios a grandeza da mole e o vi- 
gor do architeclo, mas n5o nos commovem desvcntu- 
ras que nUo perccbcmos; o patbelico de Euripcdcs, do 
tragico tSo accusado por Arislopbancs de estragar o 
gosto e de enervar o publico, chega-nos mais ao co- 
rajao, porquu aa paixOes que osse romantico da velba 
Alhcnaa agita no palco sao d'aquellas que o ^ntimento 
moderno, que o sentimento de todas as cdades facil- 
mente abrange e comprehende. 

A falalidade, que desdobra sobre os vaslos proEce- 
dIos as suas negras azas, e cujo sApro impelle os be- 
roes inconscienles pela estrada maldila onde os cspe- 
ram ns desgragas e os crimes, basta para gelar todo 
o interesse no cora^ào dos espectadores modernos. 



desespero de Edipo niio o podémoscomprehender; nSo 
vemos n'elle senSo um homero jnsto e boin, victima 
de olympicos tralantes, que se diverliam em transfoi^ 
mar em crimes as mais simples accOes da sua vida 
hoDesta. Atravessa a dcsboras um monte, encontra 
um bomem que o nflo deixa passar, mata-o para nSo 
ser morto; pois querem saber? esle bomem era seu 
pae, e aqui temos Edipo jà parricida! Segue o scu ca- 
minbo, ciiega a uma cidade aSIicta, presta aos habi- 
tantes um grande 8erri<;o, a instancias d'elles fas o 
sacrificio de easar com a painba, viuva inconsolavcl 
que morria por ser consolada; pois està ruinha ma- 
aura, que ainda namorava rapaies, era nem mais nem 
menos que sua m3e! 
[teprcsenlem uma pega d'esle gosto diante de uma 

filatéa moderna, e ver&o que redonda paleada a aco- 
iJb. È necessaria uma certa crudi^iio, um certo co- 
nbecimento do genio, das tradifùes, da indole do povo 
e da poesia grega, para que, repondo a scena no meio 
dos seus acccEsorios indispensaveis, se comprohenda 



ro6 



ARCHIVO PITTORESCO 



e se aprccìe o quc ba de grande ii'csta sombria tra- 
gedia. 

Apeiias, comludo, comega a cxpiagào dos imagina- 
rìos criroes, o drama torna-sc humano, e a commogdo 
dos albenìcnsos, abratìgondo o mundo iutciro, adquire 
OS foros de irnmortal. NOo é a vietimi da fatalidade 
que mundo contempla com dò profundo e profonda 
vcncragSo; é simplesmente o velho que a desgraga 
fulminou, proscrìpto que a terra inteìra repelle, o 
mendìgo em cuja iiobre face a desgraga apagou a luz 
dos olhos, e que percorre o mundo encostado ao hom- 
hro de Antigonn, da innocente fitha, que Ihe é unico 
amparo e guia. Esse grupo sublime é o que fica de- 
véras gravado na memoria de todas as geragòes, é o 
que a todos arranca lagrimas, é o que ba de inspirar 
por toda a extensdo dos seculos o talento dos artistas, 
estro dos poetas. 

contraste do homem forte prostrado pelo infortu- 
nio e amparado pela innocencia, do veino muro al- 
luido que a hera fragil esteia, do baobab fulminado 
pelo raio em torno do qual se enlagam amorosamente 
US escarlates bromelias, do carvalbo lascado quc a ro- 
scira cinge e perfuma, sempre, sempre fascìoou a ima- 
ginagào dos bomcns. A esse outro Edipo moderno, 
fulminado pela desgraga, meio buco, solfando os ca- 
bellos desgrenhados ao sópro do vendaval, confun- 
dindo com os grìtos da procella os seus grilos de des- 
espero, ao rei Lear, cm nm, deu tambem Shakespeare 
urna Antigona no doce vulto de Cordelia. Andrò Che- 
nier, esse grego de Byzancio quc poz aos labios a taga 
de leìtc e mei da poesia bomcrica^ ao apresenlar-nos 
em scena o grande veJbo de Smyr/ia, amda que seja 
quadro risonbo, ndo se esqueceu de por ao lado do 
sublime cego os pastorìnbos meìgos e alegres. Homero 
canta, e as criangas, de labios em fior, escutam. É 
ainda o grupo de Edipo e de Antigona, mas illumi- 
na-o um raio de sol. 

Esse .grupo escuiptural fulgura sempre na imngina- 
cdo dos artistas, comò fulgumu na phantasia dos poe- 
tas. Seja qual for o assumpto que representem, desde 
momento quc um pobre o velbo cego se ampara a 
urna crianga em piena primavera, podémos estur ccrtos 
quo artista se lembrou d*essc modelo irnmortal de 
Edipo e Antigona. Esse quadro de Dyckmans ^, de que 
Archivo da hoje uma bellissima gravura, representa 
um mendigo cego, de que uma pobre crianga é guia. 
Ló-se na physionomia do velbo a dor augusta e grande, 
no olbar da rapariga a resignada tristeza. Eil-o ainda, 
grupo que nos foi legado pela poesia bellenica. 

A cegueira ó uma das enfermidades que a arte fa- 
cilmente poetisa. Esses rostos sem lux parocc quo urna 
irradiagao interna os illumina. Goni as orbitas vasias, 
comò nas estatuas, o rosto de um cego parece adqui- 
rìr por esse facto um nào sei qué de escuiptural. Vi- 
vendi no mundo, é ao mundo estranilo. Solitario no 
centro do torbìlhlio, quem sabe o quc se aninha nos 
seus recessos sombrios! Aquelle para quem se apagam 
ns iuzes do corpo deve ter mais vivida a luz do espi- 
rito. A attengSo deve coocontrar-so-lbe n'esso mundo 
"intimo, tao rumorejanie, tao cbeio de vida e esplen- 
dor corno universo. tNa noite que me rodeia, dizia 
Milton, a luz da divina presènga brilba para mini com 
mais viva intensidadc. Deus contempla-nic com mais 
ternurn e mais compaix&o, porque so a olle o posso 
ver.» Tbomaz Ribeiro, n'uma das suas bellas poesias, 
Os ce^os, cxpi*imìu admiravelmeute, na muguifìca lin- 
guagem de que dispOe, o que em bumilde prosa qui- 
zemos dizer. 

«Nos carccres quc cm torno a niim contemplo, 
julgaes que as pobres almas escondidas, * 

cborosas com scu luclo^ esmorecidas, 
nào terdo para orar intuuo tempio? 

4 Esto qnadr» figura aa rtoa N^Umal Ùùtlerg ao Londrei. 



«Se a abobada é sombria, hd ÌUt no centro, 
onde calida prece o peito exhala; 
nas janellas, se a luz bate e resvala, 
accendem-se os sacrarios là por dentro! 

«Servem d'altares cinerarias tumbas; 
amor pede mysterio onde se acoite; 
festas a Deus tambem por alta noite 
celcbravam cbristdos oas catacumbas.» 

E depois, se o cego nem sempre o foi, se pódc con- 
templar um dia so as maravilhas da natureza, quando 
se Ibe cerra o carcere, de que esplendidas visòes Ilio 
nSo fica illuminado ! Quando nós fech/^mos os olhos e 
nos bate nas palpebras a luz ardente de um sol do 
verdo, comò vemos scintillarem na sombra fitas de 
oiro, e azul, e purpura! Para elles, que tem sempre 
as palpebras fechadas & luz do mundo externo, quando 
sol cà fora irradia ba de là dentro accender-se-lbc 
um kaleidoscopo maravilboso. Ha de a phantasia pin- 
tar-lhc quadro idealisado da nutureza exterior, bùo 
de ver aquillo de que um grande cego nosso com[tì- 
triota nos fez a confidencia sublime na introducgào 
das Cartas dEcho e Narciso: 

«Se a natureza me ncgou seus quadros, 
se OS fracos olhos meus nào descortinani 
sublime espectaculo dos campos 

co*as musas meditando cu sinto e gozo 
novas scenas phantasticas, risonhas 

don rebanhos ao campo, avcs ù selva, 
e graga a todo o mundo, e luz às sombras.» 

Era ainda isso o que Victor Hugo dizia nas Con- 
templa còes a um poeta cego: 

ChantCj Milton chautail, chante, Homère a chaììtè! 
Le po'éte des sens per ce la triste brume; 
L'aveugle volt dans l*ombre un monde de ciarle, 
Quand tosH da corps s'ètdnt^ Hosil de l'esprit s'allumc. 

É reflexo d'esse mundo luminoso interior quc dà 
ao roslo dos cegos tAo augusta expressdo; n'essas fci- 
góes veladas corre corno que a vaga transparencia d» 
lampada intima, e por isso, contemplando a bella phy- 
sionomia do mendigo no formoso quadro de Dyckmans, 
olvidàmos que nSo é elle mais, talvez, do quc um ho- 
mem vulgar, e, curvando-nos diante d'esse vulto que 
a desgraga fez augusto, corno que vemos n elle a syii- 
these dos sublimes cegos, llomcro, Milton, Ossian, que 
do scio das suas trevas foram para a bumanidadc piia- 
roes rcsplandecentcs. m. pimukiro cmaoa». 



LUXO E MAGNfFlCENCIA DA CORTE 
DEL-HEl D. JOÀO V 

fl'Id. paflr- 95) 
X 

Nào obstantc scr noite qu.indo acabou a funcgOo no 
Gaia, regresso das duas familias rcaes a Elvas e a 
Badajoz foi saudado com tres salvas de artilheria ero 
cada uma das pragas. 

A cidad^ de Elvas acbava-sc ataviada com esplen- 
didas galas para rcceber os seus monorchas e festejar 
condignamcnte os augustos noivos. As ruas por onde 
liavia de passar o prestito rcal offereciam ura espe- 
ctaculo grandioso. Às portas e janellas das casas es- 
tavam armadas de damasco carmesim, com sanefui? 
bordadas ou agaloadas e franjadas de oiro, tudo novo. 
Tinham-se erigido rouitos arcos trìumphacs, uns guar- 



ÀBCHivo prrroBESCO 



107 



ncciilos com pìntoras» outros ornaiD«nt«udos com tape- 
^vm e sedas. A$ lauiinorias das casas e as luzes aas 
(ocbas quc acooipanbavam o prestito faeiam realgar 
todas aquellas pompas. 

Rl-i*ei D. Joao v e mais pessoas reacs dirigiram*sc 
ù sé, i porta da qua! os esperava o senado da camara, 
patriarcha de Lisboa rcvesiìdo de poatifical, urna 
parte do collegio palriarcbal e o cabido da sé de El- 
vas. Conduzidas suas magestadrs e allezus dcbaixo do 
|)allio ale t capelb-naór com as formalidades do cos- 
tume, seguiu-se a cercmoDÌa das Lcncàos nupciaes, 
qiie foram laogadas pelo palriarcba. Te Deumy por 
musica vocal e ìnstrumental, executado pelos musicos 
e cantores da real caroara e da patriarcbul, poz termo 
às ceremonias da egreja. 

Na mesma bora em que se effeituava està solemni- 
dude celebravase outra egual uà sé de Badajoz, lan- 
y^ndo cardeal Dorju as bcngàos oupcines ao prìncipe 
e princeza das Asturias. Contavam enlào de edade, o 
prìncipe pouco mais de quiuze anuos, e a princeza 
dezesele. 

Da sé foram conduzìdos eirei D. Joào v e sua fa- 
mJlia, com o mesmo acompanbamento triumpbai, qté 
ao paco do bispo. 

Depois de alguns momentos de dcscango, abriram- 
se as portas de urna sala magnitkamente adereyada, 
e na qual se ia senir urna opipara ceia. Tanto os bo* 
fetes e eredencias, que estavum guaruecendo as» pa- 
nnles, conK) a mesa real, achavam-se ndo sómeote' 
adornados, mas, pt^de-se dizer, carregados de baixellu 
de oiro e prala, pois que em tao grande còpia alli 
brilbavam as sajvas, jarros, tagas, copas, gomis, fon- 
tes e outras variadas pegus da baixelia dos nossos reis, 
que, avultando multo pela sua riqucza e valor intrin- 
seco, ainda sobreleva mais pela belleza e excellencia 
dos pritnores d'arte. 

El-rei e as mais possoas reacs comcram em publi- 
co; que quer dizer quc cntraram na sala processio- 
iiulmente, pi^cedidos dos reis d'armas, arautos, pas- 
savantea, porteiros da canna, oliìciaes-móres, etc. ; e 
que, tomando todas as pessoas que comptinbam eslc 
prestito OS seus respeclivos logares, foram servidas 
suas magestades e altezas coni todo o apparato e ce- 
remonial da anliga corte portugueza. 

Acabuda a ceia, foi a familia real assistir a um bri- 
Ibante fogo de artifìcio, que estava disposto fora da 
praga para evitar algum sinii^tro. Foi dos mais sober- , 
J)os e^pectaculos d'estc genero que se tem feito no 
paiz; um d'esses espectaculos que ba longos annos se 
nao presenceiam; por quanto os que se fìzeram por 
occasiào da acclamando do sr. D. Fedro v, de saudosa 
memorìa, e pelas' nupcias deste soberano e do sr. 
D. Luiz I, nao babilitaram as pessoas que os viram 
a ajuizar da grandiosìdade e belleza das perspcclivas 
que apresentavam os fogos de artificio com que se 
festejaram os consorcios dos filbos dei-rei D. Joào v, 
a inauguratilo da estatua equestre dei-rei D. José i, 
os casamentos dos fìibos da rainba D. Marra r, e o 
nascimento da princeza da Beira, D. Maria Tberesa, 
prìmeiro fructo do matrimonio do principe D. Joao, 
depois rei, C.** do nome, e da princeza D. Carìota Joa- 
qaina de Bourbon, mais tarde raiuha. 

Apesar de ir muilo adiantadu a noite quando ter- 
minou fogo, nào finduram n*elle os festejos daqueiio 
dia. A familia i*eal ainda tevc de ouvir mais urna ionga 
serenata, depois da qual se recoilieu aos seus aposeo- 
(OS. Ksiava preencbido o programma das festas pu- 
blicas para aquelle dia; porém ainda faltavam dois 
actos importantes do eeremonial usado em tues occa- 
siOes. 

Gl-rei D. Joào v e a rainha sua esposa acompanba* 
ram os noivos à camara nupciai, e logo a rainba tra- 
lou de despir e metter na cajna a princeza, fazendo 
el-rei o mesmo servilo ao principe. Cumprida osta pra* 



tica, OS soberanos laDgau^am a Leog&o a seus Slhos e, 
despedindose d eUes com muitas deroonstragues do 
aSeclo, sairam da camara. Porém, corno aquelle acto 
de se deitarem juntos os noivos nllo era mais que urna 
simples ceremouia quc devia ter curta duragào, allenta 
a pouca edade dos conjuges, pois quc o principe D. 
José pouco excedia a quatoric aonos e a princeza D. 
Marianna Victoria ainda nào tinha completado eoze, 
Gcou na camara corno testimunba e guarda o mar- 
quet de Alegrete, Fernando Teiles da Silva, gcntiU* 
bomem da camara delrei e da do principe do Hrasii. 
Ao cabo de urna bora, durante a qual suas aUezasse 
eotreliveram conversando mui bouestameote, segundo 
referem as memorias do tempo, scpararam.-se os au- 
gustos noivos, sendo o principe couduzido para outra 
camara pelo marquez de Alegrete. 

?jo dia seguinte bouve beija-mào nos pa(os de El- 
vas e de Badajoz. D. Joào v e D. Filippe v enviaram 
comprimentos um ao ouiro por via dos seus genlis- 
liomens, aos quaes cncarregaram eguu|<nonte de levar 
e offerecer em seu nome a cada uma das princezas 
as joias que é de uso offerocerem-se corno prenda nu- 
pcial. 

De tarde passou a camareira-mór portugueza a Ba- 
dajoz, a firn de visitar a prìuceza das Asturias; e do 
mesmo modo veiu a Blvas a camareira-mór castelbanii 
para comprimentar a princeza do Brasil. Assim tam^ 
beui se trocatiim os preseiites envìados pelos dois so-; 
bcranos, catbolico e fidelissimo, aos criados que tii 
nbam servido as augustas princezas, sondo portadores 
d clles os guarda-joias dos ditos monarcbas. De parto 
a parte se manduram presentcs de subìdo custo,-taé8 
conio e.^padins com os copos do oiro cravejados do 
diamantes, caixas de rapè de oiro guarnecidas de bri- 
Ibantes, cx)Ilares e florcs dus mesmas e de outras pe- 
dras preciosas, etc. Os portadores das pi*endas tam- 
beni forum presenteados. Para que se faga idea do 
valor das joias. que foram offerecidas aos.principaes 
fidalgos e damas das duas cortes, dircmos quc el-rei 
D. Filippo V mimoseou com um, annel de nino d'ave- 
jado de diamantes, do valor de um conto e seiscen^ 
tos mil réis, a Francisco de Andrade Corvo, que levou 
a Badajoz os pi*esentes mandados ))or D. Joào v para 
OS oifuiaes-móres, damas e mais criados do serviyo 
da princeza do Brasil. 

Na mesma tarile mandou el-rei D. Joào v distribuir 
seiscenlos mil réis, a titolo de gratilicagào, por cada 
um dos regimentos que assistimm a sulemnidade, o 
avultada quantia em esmolas pelos conventos das freir 
ras, pelos presos e pela pobreza, 

A iioìte repetiram-se todos os festejos da vospcra. 

Escusado sera dizer que tudo quanto se fazia em 
Elvas para solemnisar aquelles reaes eiilaces era cxe^ 
culado em Badajoz com a maior pontualidade. Assiin 
lambem se passou a maubà do dia 21, em ambas oa 
cortes, em recepyòes officiaes e trocas de presentea 
cntre os principes e infantes. 

De tarde houve paradtr de toda a tpop^i e grandes 
cxercìcios miJitares, a que assistiram a familia real 
e immenso concorso de gente de todas as classes du 
sociedade. Eì-m D. Joào v, o principe e infantes, n 
cavallo, e seguidos de um mimeroso e lucido estado* 
maior, passaram revista aos regimentos de infanteria 
e cavallaria, formados em iinba de batalba. Logo de- 
pois executou-se um simulacro de combate, com cxer- 
cicio de fogo, cm que tqmou parte toda a tpupa. 

Acabou a funcgCto juntamentc com o dia, seguindot 
se-lhe as mesmas festividades das duas noites ante^ 
cedentes. 

A manbà do dia 22 foi consagrada a audicncias. 
De Badajoz viernm comprimentar os nossos soberanos 
e OS principes do Brasil muitas pessoas de distincgào 
da corte de Castella, seculares e ecclesiasticas, en- 
trando em numero das ultimas bastantes frades. Re- 



108 



ÀRCHIYO PITTORESCO 



ferem os chronistas d'estas funcgdes, e entendemos 
dever consìgnar aqui, corno eshibigào dos costumes 
d'aqueUa epocha, tao notavel em frivolidades, que 
n'estc mesmo dia vieram de Badajoz «tres senboras 
castelhanas rebugadas, ou segundo se explica o seu 
idioma, tapadas^ as quaes, entrando no pago, fizeram 
muitas -galanterias^ todas mui applaudidas e celebra- 
das.» 

Da cidadc de ElTas foram a Badajoz muitos fìdalgos 
e damas, prelados e frades, a rendercm horocnagens 
aos monarcbas de Hespanha e aos principes das Às- 
turìas. Mo sabemos, porém, se tambem là foram di- 
vertir a corte com momices tres senhoras portuguezas 
rebu^adas. N*este ponto, ou a Hespanha triumphou, 
levando a palma a Portugal, ou os nossos escriptores 
se esqucceram de commemorar este successo. 

(Contin&ft) I. DB ViLHKHA Barbosa. 



UUSBU DO BISPO OE BEJA 

(Tid. pa«. 76) 

II 

Em tempo de D. Fr. Manuel do Cenaculo, mandando 
sargento-mór Francisco Manuel de Mello abrir n'um 
sitio em que trazia obras o alicerce da muralha ro- 
mana, appareceu o fragmento que a nossa gravura 
represcnta. 

Bem comò o de muitas antigas povoagòes de Portu- 
gal, é solo de Beja riquissimo de vestigios de povos 
differentes que a habitaram. Dos romanos em particu- 
lar, jazem sepultadas na terra, que por tantos seculos 
possuiram, abundantes e preciosas reliquias, testimu- 
nbos irrefragaveis do adiantamento das artés em Roma 
e nas colonias que ella polla e dominava. Sabia-o o 
illustre prelado, e ensinava os scus dioccsanos a dis- 
tinguir e apreciar estas antigualbas venerandas. Por 
isso, quando, no ultimo quartel do seculo passado, se 
fazia em Beja alguma edincaglio que obrigava a revol- 
ver terreno e a expor à luz do sol as sombrias ca- 
tacumbas das velbas civilisagOes, nào apparecia coisa 
que por sua importancia merccessc conservar-se que 
nào losse logo recoihìda no museu episcopal. 

Posto que ninguem o saiba com certeza, so em cons- 
trucgóes se poderiam empregar as lapidas roubadas da 
e^reja dos jesuitas. Pela mesma via foi, pois, enrique- 
cida no seculo passado, e dcsbaratada no presente, a 
valiosa collecQ&o do bispo de Beja. Manifesta-se em 
multa coisa o progresso do nosso paiz; n'este ponto, 
porém, so a ignorancia progrediu. Infelizmente, aos 
vandalismos de Beja respondem os das outras povoa- 
(Oes, e até da propria capital do reioo. 

Com a metade superior do baixo relevo perderam- 
se todos OS sìgnaes caracteristicos da divindade que 
representava. Sdo em regra geral partidas ou muìto 
mutìladas, apesar da dureza do marmore, as estatuas 
romanas que em Portugal tem apparecido. Pouco resta 
jà da primeira fórma no fragmento, que estava met- 
tido n'uma parede da praga do Sapal, em Setubal ^, 
e que, segundo cremos, é o mesmo que ha pouco foi 
transportado para Lisboa por dìligencia do sr. mar- 
quez de Sousa. No museu Sisenando havia, além do 
grande torso de uma estatua que parece ter sido de 
Cybele, muitos outros fragmentos de figuras differen- 
tes, e nmn uma so completa. No tempio de Diana, em 
Evora, appareceu ha tempo um dedo agigantado de 
marmore, tamanho corno o brago de um recem-nas- 
cido, e que foi por certo de alguma grande estatua, 
cujos outros restos se perderam. 

As vicissitudes da guerra enlre ragos diversas e com 
religides differentes, a sanha dos vencedores contra 
OS vencidos, explicam-nos o facto de que se citam 

4 Vid. pag. 159 do voi. iv. 



tantos exemplos conformes. Era naturai que os godos 
destruissem os idolos dos romanos, os arabes os si* 
mulacros dos godos, e estes quaesquer objectos que 
Ihes lembrassem o culto de Mafoma. 

baixo relevo de que tratàmos parece que de pro- 
posito partiram, pois é grande a espessura do mar« 
more em comparagào da largura, que nùo passa de 
0'",12, e da altura, que nSo excede no pedago res* 
tante 0'",22. Na parte inferior conserva-se ainda o ves- 
tigio de um espigào de ferro, que servirla para apru- 
mar a figura sobi-e alguma peanha. 

No mesmo sitio em aue appareceu està reliquia 
achou-se tambem outro fragmento de barro, que re- 
presenta a cabega de um cervo entro duas grandes 
tetas. Parece um emblema do culto de Diana Mam* 
méa, sendo portanto possivel que no baixo relevo es- 
tivesse a imagem d'està densa, outr'ora tao venerada 
na peninsula, comò o attestam as memorias serto^ 
rìanas. 

Faltam-nos conhecimentos particulares de esculptura 
para julgar competefitemeote o merecimento artistico 
d'està reliquia notavel. Todavia, parece-nos correspon- 
der dquella alta idèa que todos formàmos do estado da 
arte em Roma quando as conquistas e a opulencia 
ajuntavam dentro de seus muros as obras primas e 
OS esculptores da clara Grecia. 

Diziam os gregos que Dedalo fora o primeiro que 
soubera fazer estatuas tao perfeitas, que olhavam, faU 
lavam e caminhavam, querendo significar assim que 
ninguem antecedentemente logràra comraunicar-lhcs 
a expressào da vida e do movimento. Nào olba nem 
falla a figura do nosso fragmento, porque Ihe faltam 
olhos e boca, mas caminba ligcira e naturalmente, 
mal poisando no chào as plantas delicadas. movi- 
mento e ar franzem-lhe graciosamente a tunica del- 
gada e leve, que, vestindo o corpo até aos pés, 

«...nem tudo esconde, nem dcscobre.» 

Apparecem por entro as fartas pregas os delinea- 
mentos dos membros, e até os contornos anatomicos 
do joelho, patenteando-se d'està sorte a pericia do es- 
culptor em imitar no marmore a transparencia das 
vestes, indicio certo de SUbido gran de perfeigào ar- 
tistica. 

fragmento de marmore representado na gravura, 
e de barro a que alludimos, sendo dos objectos que, 
por seu pequeno volume e peso, se transportaram de 
Beja, conservam-se na bibliotheca publìca de Evora. 

A. FlLIPPE SlMÒJGS. 



WALI DE SANTAREM 

(Conclus&o. Vid. pag;. 90} 

VI 

A T0M.VDA DE SANTAREM 

Pela calada da noite caminba a pequena hosle por- 
tugueza na direcgào do sudoeste; havia jù quatro dias 
que tinha deixado Coimbra, e, sempre em marchas 
nocturnas, pouco tinha adiautado; curiosos e aborre- 
eidos, OS cavalleiros portuguezes estranham o passo 
vagaroso a mie o seu chefe os condemna. Nào sao 
estes, comtudo, os habitos do rei de Portugal; quando 
determina surprehender uma praga musulmana, mais 
veloz do que o raio, mal fórma o designio e jà està 
diante dos muros ccrndemnados. Os inimigos pavidos 
véem no mesmo instante luzir ao longe no horisonte 
elmo e a couraga, e sobre as suas cabegas a for- 
midavel acha d'armas do terrivel Ibn-Errik. Por que 
motivo segue elle n'esla expedigao um tao differente 
systema? Ninguem o sabe, a nào ser, talvez, o prior 
de Santa Cruz D. Theotonio, Mera-Ramires e um ca- 
valleiro raysterioso, que ninguem conhece, mas que. 



ARCHIVO PITTORESCO 



apesar de vestir armas chriatiis, parece, pelo (ostado 
do rosto, havcr nascido nas faldas ardentes do AtluE, 
onde a lei de Mafoma impera. 



Siìo csies tres 03 que de mais perto rodeìam AfTonso ^ aliumiar os ferros das lan^as da poquena hosle, ca- 



HcDriques. El-rei mostra-se, comò de costume, sereno 
e rìsonho; mas scu roslo, onde baie de cbapa 
candido luar, é tao impenetravel corno a viscira do 
elmo, que IeTanl£ira para gozar mais à vonlade a fres- 
cura da noite. 

Como serpente de escamas de ferro, desenroia-se 
pclas eslradas a pcquena pbaiaDge portugueza; a Ina, 
alla 00 eco, accende a cada instante reQexos fugilivos 
no3 rscudoB, nas langas, nos capacctes e nas coura- 
{33, (Juem assim visse passar a hoste siienciosa dirla 
urna longa prociss^o de espectros, allumiada pela si' 
nislra pbosphoroscencia dos cemiterios. 

Tinham chegado à serra de Aibardos, e nem se- 
qncr suspeitavam aioda qital era ùm da expedi^ao. 
quando de repeate os vem 
surprehend er no va ordem , 
a de vollarem para orien- 
te, coHeando ao longo das 
serraa que julgavam ter de 
transpor. 

Que novidade seri està? 
Kìngucm sabe; continua 
a presidir myslerio a lo- 
das as opera^es d'i-ssa es- 
tranba cxpcdìcSo. cami- 
iitjo que BCgucm parece 
conduzil-OB a Santarem, 
mas sera possivel que para 
tomar praga tao forte ap- 
pcHidasse circi apenas tao 
pcquena porguo de bomens 
d'armas? 

E mudos caminbam ao 
longo das serras, e os ca- 
vai los, corno se conlieccs- 
sem a necessidade do si- 
lencìo, nem ousam soltar 
eeu nitrido impaciente. 

Ainda a tenue luz da au- 
rora mal arraiava bori- 
sonte, quando a boste por- 
tugueza entrava em Per- . -■ . ^. 

nes. Algum cabanciro ma- '^"'^^ 
drugador, que se encami- rraimemo de nm b»ixo roiev 

nliava para Irabalho com a cnxada ao bombro, des- 
viava-se assuslado, interrompia a sua cans&o malinal, 
e dizia, pcrsignando-sc: 

— Senbor Deus, onde irà rebcotar està trovoada 
guerrcira? 

Foi em Pcrnes que myslerio se desvelou; AObnso 
llenrìques rcumu em torno de si os seus caralleiros, 
e disse-tbes aual era a cspedii;ao intentada. Nao se 
esqueceu de Ines communicar a circunstancia da qua- 
drella deserta, e, para aìnda mais disfarsar a teme- 
ridade da empreza, invenlgu que lìnha algumas vede- 
las compradas. Ainda assim, os mais bravos dos scus 
companheiros eniìaram; era mais do que temerario, 
era louco verdadeiramente commetlimenio ; mas as 
liesitagòcs, se as houve, so se revelaram durante 
dia de descan^o que tiveram em Pemes; queria D. 
Alfonso que, se wali de Sanlarem tivesse pelos es- 
pìas noticia dos seus movimcntos, nUo vendo rebeo- 
lar a proL-cUa annunciada, caisee de novo no Labitual 
descuido. 

Quando h noite se reuniu a pequena boste, parocìa 
que Io<ios caminbavam alegremcnie para uma Victoria 
certa; as reflexOcs tinbam cessado, e, no momento do 
pongo, OS cavalleiros portuguezes n&o pensavam se- 
nno em nrvorar a banaeira da cruz nas muralbas de 
Sanlarem, ou em morrer briosamente pugnando ao 



lado do seu rei pela gloria do seit Deus e pela dila- 
tagli da sua patria. 
A lua, resvalando no firmamento aiul, nfto tardou 




minbando cada vez mais siienciosa e uoida. A algu- 
ma dislancia de Sanlarem pararam ; el-rei ia dar-Ibea 
as BUas ullimas instruccOes. Dozc escadas alias acom- 
panbavam os expediciooarìos; por cada escada d'estas 
deviam subir dez bomens & torre desguarnecida que 
africano iadicàra. Apenas cbegassem ao eirado, de- 
viam arvorar pendao real e correr a abrir as portas 
ao resto da for^a. N'esse instante decisivo, de que de- 
pendia a sorte da surpreza, era necessario que dSo 
OS movesse compaix&o intempestiva, e que seu ferro 
corlasse desapiedada mente muiberes ou crian^, se 
algumas enconlrassem no seu caminbo. N'oulro en- 
sejo se darìam ouvidos A voz da bumanidade; n'a- 
quella occasiao era sobre ludo indispensavel que nao 
se espaJbasse alarma an- 
tes i^ue a boste porlugue- 
ta livessc irrompido cm 
torrente tumultuosa pelas 
porlas cstoiradas do cas- 
tello 

Quando D. ASbnso aca- 
bou de dar cm voi mansa 
estaa mstrucEQes aos seus 
companbeiros d'armas, 
ca^alleiro myslerioso, do 
qucm fallàmos, aproxì- 
mou se d elle disse-lbe 
algumas palavras cm voz 
baixa D Affonso fez uni 
gesto de assentimeolo, e 
cootinuouvoltando-separa 
OS seus 

— Sobre ludo n3o vos 
esque^ esla rccommen- 
àa^no vali de Sanlarem 
e as muiberes da suafa- 
milia dcvem ser para vós 
pesiìoas sagra das; lomae-o 
pnsLoneiro mas por Deus 
nao mateis. 
Ùs cavalleiroB ouviram 
"Orn-, ^"^ silencio està recom- 
" mendagao cstranha para 

. toiDiDO encontrafio eia B«]ft ^gg^ pp^^ha, C, apcando- 

se todos,- proseguiram na marcha ioterrompida; mas a 
lua velava no eco, comò para proleger aquellca em cuja 
baniieira fluctuava seu crescente. Era necessario cs- 
perar que seu clarao denunciador se extinguisse no 
norisonle, e mcsmo que a pcsada modorra do quarto 
d'alva adormcccsse os atalayas dìspersos pelas mura- 
lbas da fortaleza. Uma soara que ondulava frouxa- 
mente ao sflpro da briaa nocturoa deu scguro abrigo 
a boste cbrisia. 

A lua, resvalando no firmamento, foi-se aproxi- 
manda do borisocite. Impacientes, os cavallelros por- 
luguezes prcstavam ouvido ao placido susurrar do 
Tejo, e alguns, levantando a cabe^a por enlre as es- 
pigas ondeantca, espreìtavam a sombrìa massa do caa- 
tello, aquì e além branqucada pelo luar moribundo. 
Em firn, de lodo expirou doce clarào noclurno. Si- 
ienciosa, mas apressada, a hosle portugueza foi encos- 
tar as escadas ao muro da torre. Por eotre as sombras 
da noìie mal se distinguiam ao perto esses vultos ne- 
gros, cm cujos elmos polidos apenas de quando em 
quando a frouxo raio de uma eslrella accendia um fu- 
gìtivo e clescórado relampago. Zuleyma, enlretanlo, 
dcbru£ava-Be do parapello, anciosa, sem poder dislìn- 
guir que eram esses vagos rumores e esses vagos 
esppciros. Cosendo-se com as muralbas, Mem Rami- 
res, que servia de guia, foi subindo silenciosamente 



Ito 



àRGmVO PUTOtESCO 



aie qve deti <le éara cono um vulto alvejante que nào 
sabfa que era. Denunciou-ja o.grito de terror que 
Zuleyoia 9oltou;do8 labios convalsos. Mem Ramifcs 
nào besitou um segando; qb ordoos do seu rei erai% 
tcrmìoantes, e o ìnstìocto da propria salvagfio n&o o 
acoDselharia nienos a praticar aqueUe acto fcroz. Er- 
guendo o punbal, ombebcu-o todo uo peito da viclima 
infelìz. Ao fncsmo tempo as outras escadas amarra- 
vam-se às ameias, e.um a um os valtos negros accu- 
mulavam-se no eirado, momeotos aotes qua«i deserta. 
alferes-mOr arvorava na muralha o balsào de AGGonso 
llenriaues. Mas oiitretanlo o grito do escravo fazia cor- 
rer pelo oaraeol da torre o tropel dos coavivas do ban- 
quete do \vali. Ào assomarem tumuUuosos, rccuaram 
com pavor e cspaoto; é que tiobam visto a baudeira 
odiada, o pcndCio de Ibn-Èrrik fazendo fluctuar uo sò- 
pro da brida noeturoa as soas pregas vencedoras. 

Mas logo depois travou-se o combate confuso e me- 
donbo. Viutfi e ciuco erani os portuguezos que esta- 
vam yà no aito da torre; poucos mais seriam os moi- 
ros que as delicias do bianquetear-se e as obriga^òes 
do scrvigo tiabam conservado acordados ale ùquellas 
horas. «Santiago e rei Affonso!» bradou Mem Ramires 
com energia, e esse punbado de bcroes, ìnvestindo 
ooro 08 moirps, levou-os de ronddo pela escada abai- 
xo. Era indescriptivcl o tumulto. Alguns dos portu- 
guezes correram a abrir a porta ao rei, quo de fora 
bradava com a sua voz potente, que se ouvia sem- 
pre eotre o revolutcar da peleja: «Santiago, corra, 
cerra ! » Mas as portas rcsistiam aos esforgos dos pou- 
cos quo tentavam arrombal-as, em quanto os outros 
luctavam com os moiros, excilados ao combato pelo 
wali de Santarcm Q pelo filbo do wali de Lisboa, que 
pelejavam corno desesperados. A gritaria era immen- 
sa, 0,03 soldados do castello, despcrtando estremo- 
nbados, corriam de um |iara o outro ludo, sem sabc- 
rcm que Uaviam de fazer, seni tomarem as armas, 
sem nada pcrceberem d*aquelle estranbo successo. Ao 
mesmo tempo as portas cediam ao impulso dos por- 
tuguezos, e Affonso Ilenriques, à testa da forga prin- 
cipal, irrompia coro tremendo impeto, e tornava com- 
pletamente iimlil mais larga resistencia. Ferro por- 
luguoz nào corlava jà senào gente inerme, ou solda- 
dos pavidoì^ e convulsos.que onipunhavam armas com 
u^ maos que o torror da surpreza parai ysa va. 

No meio d csla carnifìcina um cavaileiro so passava 
com a espada embaiubada, mas parecendo procurar 
alguma coisa com ancicdade entrc os grupos. Era o 
cavallejro mysterioso, que tanto dora que scìsmar aos 
liomens d'armas de D. ASonso; era o africano Mogbar. 
D. Affonso, por um resto de desconfian<;a, conservà- 
ra-o junto a si, e com D. Affonso é que elle entràra 
no castello tornado. Devoràra-o sorda impaciencia em 
quanto as portas resisliam aos golpes dos portugue- 
£08; mas, apenas tinbam cstoirado, entrerà elle im- 
petuosamente, e correrà as sala$ da alcagova a pro- 
cura d'aquelles que eram, um objecto do seu odio, 
outro do seu amor, quasi corno o seu odio terrivol. 

Alas, ao atravessar a corredoura da fortaleza, onde 
fora- mais renbido o combate, parou, sellando um 
grito. Acabava de ver o cadaver de Abu-Zakaria es- 
tendido no cbào e vertendo o sangue por dez largas 
feridas. 

— Ab! traidores! ah! vis nazarenos! bradou elle 
arrancando um punbado de cabellos, 

E, desviando com p pé o cadaver, corrou corno um 
louco pelos aposentos. Receiava que tambem Ibe es- 
capasse Zuleyma, a perola de formosura tao ardente- 
mente cubigada. 

Nào tinlia razùo, comtudo, em accusar do perjui'os 
OS portuguezes; a surpreza do castello nào fora com- 
pleta, e elles ndo tiobam podido escolber os pcitos a 
que dirigissem os golpes. No combate que se travàra 
eolre as sombras., Abu-2akaria, que se arrojava ao 



sitio onde era miior o perigo, succunabfra varado por 
dez espadafi sequiosas de sangue ismaelita. 

E africano percorria furioso as salas desertaa, 09 
aposentos abaodooados do harem, bradando: «Zuiey- 
ma! Zuleyma!»; porém ncnbuma voz respondia aod 
seus brados; apeuas se ouvia ao longe um rumor con< 
fuso do gemidos e maldigóes: era a carQÌ6cina quo 
eondouava. 

Um instincto indefinivel impelliu-o a subir pela es-> 
cada que ia ter ao eirado da torre. Mais de urna vez 
trope^ou em cadaveres que juocavam os degraus; cur* 
vava-se entào, e tonteava-os com mao trèmula; reco* 
nbcccndo vestes gucrreiras, soltava uro suspiro de al-' 
livio e continuava a subir a escada tortuosa. 

Eil-o no eirado em Qm. piimeiro albor da manhu 
illumina os campos com seu dubio clarùo melaoco* 
lieo; reiaoceaudo os oihos em torno de si, africano 
ve tudo solitario; mas, aOirmando-se mais, dcscobro 
junto ao parapeilo um vulto eovolto em roupas alvo- 
jantos; corre para elle e soita um grito de desespe- 
ro. É cadaver de Zuleyma. 

Ouautas blaspbemias podem sair da boca de um 
bomem devorado pelas mas paLvOes, todas ospuma- 
ram nos labios convulsos do africano feroz. Ccm ve< 
zes amaldigoou Ibn-Errik, cem vezes cbamou sobrc 
elle e os seus cavalleiros a vinganga do reo. Mas do 
subito soltou um brado angustioso, e após um instante 
de lucta brotaram-lhe dos ollios torrentcs de lagrimas, 
que Ihe inundarani as facos requeimadas. 

Nascerà sol; a sua luz doirada banbava em on- 
das de alegria os campos verdojantes, e o Tejo azul e 
sereno; nas ruas de Santarcm, apinhada la em bai.xo 
junto ao rio, ouviam-sc ainda clamor jubiloso dos 
vencodores e os gritos lastiniosos dos vencidos; mas 
a natureza, indifTerentc a essas luclas dos Itomens, 
ostentava d luz radiante de urna linda nianhà de pri- 
mavera toda a opulencia das suas vestes virginaes; 
oxhalavam seu aroma a laranjeira e a amendoeira 
em flor; a olaia, agitada pela brisa matinal, alcatifava 
chào com tapete odorifero das suas flores purpu* 
reas; a moldura d'esse quadro de borrores quo San- 
tarcm apresontava era tao graciosa e risonba, corno 
podia sor a moldura de urna pasturai deiiciosa. 

Mas, entretanto, africano, erguoodo inslinctiva- 
mente os olbos, vira flucluarem sobre a sua cabega 
as pregas, em que os raios do sol brincavam, da ban- 
deira da cruz. Prestando ouvido, pòde percebcr ao 
longe confuso .^llah com que as moiras de Santa- 
rem imploravam a compaixSo dos vcncedores. Rccuou 
horrorisado. Tudo aquillo Ibe era devido a elle, a elio, 
que devia ter jurado odio etorno a esse pendào mal- 
dito, e que fora entregar indefesos aos seus inimigos 
mortaos os seus irmaos de raga e de crenga. Foi co- 
tào'que as lagrimas Ihe borbulharam nos pllios. Pen- 
sou que a Providencia nao podia ter consenlido em 
quo traigào tao nefanda conseguisse o premio nefando 
que cubig;ira tambem. 

Entào, ajoeibando dìante do cadaver de Zuleyma-, 
pegou-ihe na mao livida e beijou-a, murmuraudo: 
«Pordào!» Ergueu-se dopois, e marcbou com ikisso 
firme na dirocgào do parapeito que dominava Tejo; 
mas urna reflexùo suspendou ; temeu que os forozes 
nazarenos, comò olle os chamava, deixassem para 
pasto dos abutros formoso corpo d aquella a quem 
amara até ao crime. Voltou alraz, 0, tornando nos bnv 
gos cadaver de Zuleyma^ dirigiu-sc para adarve 
sobranceiro ao rio. Por algum tempo mirou com uma 
especic de jubilo inexprimivoi Tejo quo deslisava 
là em baixo, placido, risonbo, palreiro, e arrastando 
niis suas aguas palhotas do oiro cambiante. Depois, 
dcscmpenando a sua alta ostaturn: 

-r Jà que na vida nào pude unir-me a ti, exclamou 
elle baloigando corpo de Zuleyma nos seus bragos, 
uoanos ao menos a morte na mesma sepoltura. 



ABCHIVO PITTOBESCO 



III 



Depois precipitott-o e prodpitou-se^'O Tejo abrìa-se 

Kr duas vczes para reccber aquellos duas prezas, e 
jo, unindo 80bk*e ellas a soa liquida mortatha, con- 
tinuou a desKsar placido, risonilo^ palreiro, e arras- 
tando na3 suas aguas palhetas de oiro cambiaote. 

Ad longe, dentro dos inuros da povoag&o conquis- 
tada, ìa-se extinguindo o rumor da carnificina; a brisa 
susurrava docemeotc entre os ramo» da laranjeìra flo- 
rida. 

Santarcm calava deflnitivamente e para sempre no 
poder dos chrìstàos; tomando-a^ D* ASbnso Henriques 
conio quo po2era à cintura as cbavcs da orgulbosa 
Lisboa. 

Do cavalleiro mysterioso quo acompanhùra D. Af- 
fonso Henriques durante a expedig&o nocturna é quc 
ninguem mais ouvira fallar. Gorreram, por conseguia- 
te, differentes versOes sobre a eotidade e a desappa- 
rigào d'esse vuUo enigmatico. 

Una diziam quc era um anjo dìsfargado, ou antes 
proprio Santiago, que viera mais urna vcz ajudar 
Afbnso Henriques a ganhar as suas inclitas victorìas. 
Gom touvavel modestia, os mesmos que, ù forga de 
brtos e coragem, tinbam conseguido abrir as portas 
aos seus companbeiros, diziam tel^o visto estender um 
dedOy e as portas alluirem-se por si. Outros allegavam 
c[ue elle era muito tostado pam anjo, e que para San- 
tiago Ibe fallava o cavallo bntnco; diziam entào esses 
que nào era o cavalleiro mysterioso senào o proprio 
fiataiìaz, que, com fingidas .promessas, conduzira Àf- 
fonso Henriques il beim. do cami^bo da perdi^ào; mas, 
quando Ihe ia a deitar o gadanbo, o santo prior do 
Santa Cruz D. Tbeotonio acudlra com a agua beuta e 
QS suas ora^Oes, e pozera^o em fuga dcsastrada. Af- 
firmavam algons que tinbam sentido perfeitamente o 
estoiro que olle dera ao desapparecer, e que ainda 
tinbam nas fossas nasacs os restos do cheiro de en- 
xofre que elle deixóra nos area. 

Mas D. Tbeotonio, quando ibe fallavam n'isso, ria- 
se e encolbia os bombros, e D. AGfanso Henriques, se 
algons dos seus privados Ibc tocavam em.similbante 
coisa, ria-se tambem e dizia: 

— Meus senbores, anjo ou demonio, nflo Ibc sejà- 
mos dcsagrudecìdos, porque a elle é que dovemos San- 
tarcm ^. M. PlKKBlRO CtlAOAS. 



, iO<MM)00 cada urna, a pareeria oiy sociedade em com- 
mandita, que aìnda existe, sob a denominagdo de «Em- 
preza da real fabrica de vidros da Marìnha Grande». 

Pondo de parto a aprecisQdo das razOcs que lova^ 
ram o governo a manaar proceder em 1859 a um in* 
querito rigorosissimo, quc so e£Feituou exemplarfflente 
para hoora dos professores que forara incumbidos de 
tao delicado encargo, diremos que d'abi resultou aca- 
barcm os privilegios de que tinbam gozado até cnt&o 
OS emprezarìos, som quc por isso a industria tivcsse 
medrado e acompanbado os progressos da sciencia, 

Com efTeito, os contratos uitimados depois do in- 
querito foram tfio pouco gcncrosos nas ciausulas, que o 
proprio eslado, quc favorecéra até alii as emprezas, co-» 
mo é sabido, com avultados subsidios e importantes pri^ 
vìlegios, jó obrigando-sc a Bear com uma certa quanti- 
dade dos productos da fabrica, yà dispensando as ma^ 
tcrias primeiras dos direitos de entrada, exigiu quc se 
Ihe desse renda annual superior a 1:000j^000 réis, 
segundo consta das condigOes de arrendamento publi- 
cadas na foiba ofBcial em 1860, 1863 e 1864, sondo 
apenas concedidas gratuitamente, ou antes, corno com- 
pensagfio da renda, e sempre em beneficio dos pinbaes 
reaes, doze mil carradas de Icnha por anno ^, em todo 
caso debaixo da vigilaocia da administragào 'das 
mattas. E obrigou a empreza a dar contas todos os 
aonos ao ministerio da fazenda do cstado da fabricff 
e numero de seus empregados. 

Antes de entregar a fabrica a uovas administragóea 
tem-se feito inventario e avaIia(^do dos prcdios fabris 
e ruraes, utensilios fabris e material movel das abe< 
goarìaS) para que no fim das emprezas podossem re* 
gular-se as indemnisagOcs por faltas ou dcteriora- 
(Oes. 

Consta, pertanto, dos inventarios pnblicados, que 
em 1827 o fundo fàbril e industriai fora calculado enì 
104:424iS440 réis*; em 1848, avaliou-se quasi por 
métade, ou 55:000i{il20 réis; e em 1863, a avaliaf&o 
deu total de 58:078ii;440 réis. 



A FABRICA DE VIDROS DA MARIiXHA GRANDE 

(Conclas&o. Yid. I>ag. 87) 
IV 

Tem side emprezarìos da rcul fabrica, desdc que 
foi doada por Sle|)bens ao estado: os srs. barlio de 
Quìntelia (liepois conde do Parrobo), Antonio Estcves 
Costa e outrof», de 1827 a 1847; Manuel Joaquim Af- 
fonso, de 1848 a 1859; Casimiro José de Almeida, de 
1860 a 1862; Francisco Tbomaz dos Santos, em 1863; 
e Jorgc Croft e o commendador Antonio Augusto Dias 
de Preitas, em 1864. No intervallo de umas a outras 
admiiiistragOes ou nUo bouve quasi traballio na fabri- 
ca, ou està funccionou por conta do estado. 

Em 1866, OS mesmos srs. Croft e Dias de Preitas, 
e mais os srs. Nuno Paolino de Brilo Froire, José Luiz 
de Oliveira, Miguel Antonio Leitào de Lima Palciìo e 
Antonio Correa da Silva Marques, formaram por tempo 
de trinta annos, com o capital social fixaao em réis 
90:000;JOOO, dividido em novocentas acgOes de réis 

i Af exlgpnclae da acf io do romance fisoram-me em algomaa coisas 
modificar oa factos hiatorlcoa; maa naa circanataiiclBa eaaeneiaM a to« 
mada de Bantarem foi corno eu a relatel; J4 se t6 qae a intorven^o 
éa afirioano é completamente pbantaaiada. A quem quizcr, eomtado, 
eonhecd-a com todui oa aeiM pormonorea verdadeiroa, aoonselharel qoe 
loia a magnifica deacrlpf&o que d^easa entrepresa faa o ar. A. Her- 
cnlano na sua Historia eie Portujùlf tomo x, ilv. ii, pag. 365 a S69. 



Entro OS melboramentos realisados na fabrica pelai 
actual empreza, conta-se, em primciro logar, a aperfcì* 
goada construc$2lò dos fornos, conforme as indicagòes^ 
da sciencia moderna, o que, conservando em elevado 
grau calor, permitto as fusOes em vinte e vinte o 
quatro horas, e da em resuUado poder cada forno fa- 
zer tres ou quatro aGnagòes por somana em cristnl, e 
seis em vidraga. Comparando isto com o que succedia 
aiitigaroente, e o que coosta do exceliente relatorio da 
commissào de inquerito do 1859, vé-se quo a produca 
gdo pódc sem difficuldado duplicar-se. 

Deve tambem notar-se o forno fcarquèse) de seccar 
lenba. Este* forno é de giganteas dimcnsOes. Entram 
n'elle doze wagons carregados de lenba, quc sécca ra- 
pidamente por meio de numcrosas bocas de calor; de- 
pois OS wagons correm em carris, com pcqueno im-' 
pulso, para as respectivas ofTicinas, e voltam por seu 
turno para conduzir novamentc a lonba por meio de 
uma plataforma girante. 

A estufa, onde se seccam as pedras para a construc- 
g&o dos fornos, e os potes ou cadiohos, 6 egualmente 
bojo obra digna da especial attengSo do visitante. A 
estufa 6 aquecida metbodicamente, a fim de conser- 
var sempre mesmo grau de. calor, o que é necessa- 
rio para tornar as pedras e os potos aptos para entra- 
rem nos fornos de tempero. 

1 Em 1855, sogundo a EttatUlica de Ltiria do ar. 1>. Antonio da 
CoAa, o transporte de cada earrada de lenha costava, ponce mais oa 
menoa, 300 róia. Hoje o córte, a faetnra e o tranaporte cuatam 600 
réìB, e 08 fornos oonsomero mais de 15:000 carradas annnaoa. 

S Vem a pag. 29 e 30 do Belatork» oa Inventarios feitos era lB27 
e 1S48; o a differen9a quo se nota entro a totalldade qne pomoe aqnl 
o a que 14 se encontra provém de nm erro nas aommas, que nSo pòàn 
omendar-se na improasSo, mas se acha corrigtdo naa li^fìrrma^Béi, 



112 



ARCmVO PITTORESCO 



Além disse, nào devcmos deixar de mencionar a 
arca corrente de tempero, pois é a primeira que se 
constroc em Portugal segunao o systema francez. Em 
doze pequenos wagons, que estào assentes em carris 
de ferro, vem a mercadoria fabricada-desde o forno 
até à galeria que coaduz ao graode armazero de es- 
colha e approvagào da obra, atravessaodo assim as 
seìs graduagOes de calor que constttucm a arca de 
tempero. D'està fórma, a mercadoria entra fabrìcada 
na boca da arca ainda incandescente, e sae depois na 
sexta graduagào jà temperada e resfriada. 

Outros melhoramentos se tcm introduzìdo nos dois 
ultimos annos, que deixàmos de enumerar porque 
daria aiuda a este artigo maiores proporgòcs; mas, 
ebtre esses, citaremos ainda, e por ultimo, o novo 
systema da lavagem da areia, gaiga a vapor, moinho 
movido por agua com pisào, mistura de composi(;des 
Sem pcrigo para os manipuiadores ^, ctc. 



VI 



processo da fabrica^ào do vidro é conhccido, e 
ndo se nos figura ser aqui o iogar proprio para tratar 
d'este assumpto, nem para entrar na comparagào com 
que seguem nas mais importantes fabricas da AUe- 
manba, de Inglaterra, da Belgica e da Franga, sobre 
tudo porque nào nos acbàmos habilitados para isso; 
mas, àcerca da qualidade, é nossa opiuiào, com fran- 
queza, que, posto nào possam aìnda os productos da 
rcal fabrica de vidros da Harinha Grande pòr-sc ao 
lado dos da Bohemia, tao estimados e apreciados em 
todos OS mercados europeus, figurarlo boje, comtudo, 
sem receio entro os productos das demais nagócs; e 
nào temos dùvida que apparecerào ató muìto bcm, 
logo que d boa qualidade do vidro se juntar o primor 
da fórma, em que se nos avantaja a industria cstran- 
geira. 

Em outros tempos, o traballio nao era conveniente- 
mente dirigido na Marinba Grande. À commissào de 
inquerito de 1859 tanto o reconheceu, que, na pro- 
posta submettida à consideragào do governo, estabc- 
ieceu que se devia exigir das futuras emprezas que o 
trabalbó fosse dirigido por bomem habìlitado com suf- 
fìcientes conhecimentos theoricos e praticos em fabrì- 
cas de vidros de primeira ordem ^. Àttendeu a isto a 
actual empreza, contratando para a Marinba Grande 
mestres francezes, que alli se conservaram por algum 
tempo, nào sem grandissimo sacrificio, mas com pro- 
veito da fabricagào. 

Para entrar, pois, em concurrencia com as outras 
fabricas, principalmente estrangeìras, que traziam ao 
mercado productos, se nào mais bem fabrìcados, ainda 
que de vidro inferior, corno dissemos, de certo muito 
mais baratos, e de mais variados feitios e iavores, no 
que primam as industrias franceza e allcmà, os actuaes 
directores pensaram, com razào, que deviam dar aos 
productos da real fabrica as mesmas vantagcns, e por 
ISSO na antiga tabella de ppegos fizeram consideraveis 
dlminuigóes. 

Vende-se actualmenle o vidro liso com o desconto 
de 30%, e o vidro lapidado com o de 25%; a vidraga 
delgada, cujo prego nas anteriores administragòes era 
de 200 réis por kilogramma, tem boje o prego de 140 
réis por kilogramma, e este abatimento fez-se propor- 
cionalmente assim para a vidraga grossa, comò para 
a de cordào e de córes, etc. 

Àos compradores por grosso, e em geral aos lojistas 
revendedores, foi concedido o desconto de 35% sobre 
a vidraria lisa, e 30% sobre a lapidada ou gravada; 
e outro tanto com respeito à vidraga. Se o pagamento 
for prompto, o que, segundo as praxes commerciaes, 

i A mistura fasia-se. n*oQtro tempo coro taraanho perigo para os 
operarlM, qne admirava corno elles podiam resfatir ao vuneno que 
aaDÌravam conatantemente. 

> Belatorio, pag. 135. 



se póde effeituar. dentro de um mez, o cómprador goza, 
além d'isso, do beneficio de 2% ^. 

desenvolvimcnto, ou antes as alternativas da prò- 
ducgào da fabrica, podem juigar-se pelos seguintes 
dados, que se nos deparam em dois livros publicados 
em epocbas diversas, e à vista de informagdes ofli- 
ciaes que devemos suppor fidedignas. 
- Temos, pois, que a producgào annual foi: 

Em 1855 — 555:480 pegas de crislal; 43:344 ditas 
de lapidagào; e 90:000 kiiogrammas de vidraga 2. 

Em 1863 — 668:812 pegas decristal; 36:300 ditas 
de lapidagào; e 96:874 kiiogrammas de vidraga*. 

Em 1867 — So a producgào das pegas de crislal ex- 
ccdeu numero de 800:000. 

Isto cm quanto à importancia da producgào. Agora, 
em quanto ao numero dos operarios, vemos, em pri- 
meiro Iogar, que pessoal da fabrica se divide nas 
seguintes classes: 

Pessoal da administragào economica e tecbnica, of- 
ficiaes e ajudantcs de cristal, ditos de vidraga, lapida- 
rios, floristas, rolhistas, machinistas, ofliciacs da cons- 
trucgào de fornos (olaria), carpinteiros, estendedores, 
trabalhadorcs da composigào, cinzeiros, atigadores, cai* 
cineiros, escolbcdores de casco, empalhadeiras de vi- 
dro, lavadeiras de areia, carreiros para transporte dos 
productos da fabrica, ditos para transporte da leuba, etc. ; 

E em segundo legar: 

Em 1813 (primciro anno de que rezam as contas of- 
ficiaes) havia 273 empregados na fabrica; de 1818 até 
1826, 500; em 1846, 286, incluindo 100 carreiros; em 
1847, 264; em 1855, 304; em 1862, 213, nào con- 
tando OS carreiros; e em 1868, occupam-se no fabrico 
do vidro nào menos de 649 pessoas de ambos os sexos. 

Esles ultimos algarìsmos evidcncciam ao mcsmo 
tempo as vicissitudes por que tcm passado a fabrica- 
gào do vidro na Marinha Grande, e os esforgos em- 
pregados, apcsar de nào baver jà nenbum dos antigos 
privilcgios, a firn de estabclecer a industria nas rae- 
ihòrcs e mais solidas condigóes, para que nào Ibe 
faitara clcraentos. proprio relatorio da commissào 
de inquerito afiìrma: «Nào é possivel deixar de con- 
cluir positivamente que ^a fabrica da Marinba Grande) 
està em excellentes conaigòes industriaes^.» 

Com verdade, a fabrica de vidros de que temos tra- 
tado 6 primeiro estabelecimento do seu genero em 
Portugal. Iscnto- de regalias officiaes, que às vezes sào 
um grande estorvo para desenvolvimcnto das indus- 
trias, fuzcraos sinccros votos para que possa attingir 
raaximo aperfeigoamento, compensando os enormcs 
sacrificios de seus emprezarios e administradores, e 
bonrando a nagào. bbito Arabia. 

1 A actual empreza, para alargar o seu commercio, n&o so, corno 
M viu, barateon os productos da fabrica, mag tambcm cstabclrcen 
depoaitoB importante» em diveraos pontoe do pai». Os principaes de- 
positos sSo: em Lisboa, na rua diretta de 8. Paulo, n.<*' 70 e 78, on- 
de, dcpoia da exposi^Ao imemacional do Porto, fez nma exposiyào dos 
productos que alli levara, e onde se encontra sempre abundante va- 
ricdade de coparia, frascaria, etc; no Porto, rua de 84 da Bandeira, 
Q.^' 26 e 28; e em Evora, pra^a da mesroa cidade. 

Nos depositos de Lisboa e Porto recebo enoomniendas aasim para o 
continente do reino, corno para as ilhas adjacentes, possessòcs ultra* 
marijiaa, e para o Brasil. Segundo as informa^es que temos, a em- 
preza obriga-se a exccutar quaesquer encommendas em cristal liso, 
florestado e lapidado; ou em vidro branco, verde e azul para frasca- 
ria de todas as dimensSes adeqnadas aos usos da pharmacia e droga- 
ria, ou em vidraga, quer em ciiapas, quer cm vidros cortados por me- 
didas regulares. 

S Yid. Ettatùtiea do àistricto adminiétrativo de Ltiria, por D, An- 
tonio da Costa de Sousa de Macedo, pag. 336 e 337. 

N1U> ha muftos annos qne se publicou està obra (1855), e, todavia, 
raros aio Jà os exemplares que se encontram no mercado; por isso 
nao julgamos fora de todo o proposito dizer aqui, para que possam 
sabct-o as pessoas cnrlosas, que o auctor da Ettatutica de Ltiria nSo 
■e limitou so a tratar de um ou outro dos mais Importantes pontoe da 
admÌnistra9llo publica, mas no seu interessantissimo livro compendiou 
todos; nfto se restrlngiu'só à estatistica, aos factos e seu agmpamcnto, 
porém, entrando na apreciayào das principaes questSes economìco-so- 
ciacs, e na sua compara^ào com as na9Òc8 mais cultas, desenvolveu-as 
e discutin-as com claresa, e apresentoa o estado d^ellaa no momento 
em qne o trabalho se realison. 

A obra, quando menos, foi tambem nm Importante e relevantlssl- 
mo servilo prestado ao districto de Leiria, de qne o eaclarecido au- 
ctor era entAo secretarlo geral. 

3 Vid. Informagdes, pag. 64. 
. A Vid. Relatorio citado, pag. 127. 



15 



ÀRCHIVO PITTORESCO 




MOSTEIRO DE S. JOÀO DAS VINHAS 

No Eccuto XI cxislia na cidade de SoisBons, eoi 
Fran^, urna ogrcja parochial, muì peauena e de fa- 
brica Immilde, codi a invocacio de S. Jo&o do Moole. 
No Bcu dislrìclo vivia por esse tempo um poderoso fì- 
dalco, cliamado Hugo de Cbateau-Thicrry. Era este 
fidàìgo um dos mais ricos cavalleiros da corte del-ret 
Filippc I. Hcrdàra avultados bens de scus paca, mas 
a parte principal da sua riqueza era o fruclo de cs- 
poliafOcs, de que se queixavam era \ào populares e 
ecclesiasticos. Edi quanto o vigor da edade Ibe per- 
mitliu usar e abusar impuncmeute da sua Torca, da 
sua opulencia e dos prìvilegios da uobreza, viveu a 
Vida hcenciosa a que se eatregavam os fidatgos, quasi 
geralmente, n'aquellas cras de ignorancia e de barba- 
ridadc. Logo, porém, que as for^as Ibe comecaram a 
declinar, vtudo os padecimentos recordar-lhe que se 
aproximava o termo da existeucia, peasou entao em 
pdr-se bem com Deus, e julgou que expiarìa lodos os 
scus pcccadoa com urna TundacSo religiosa. H'esic pro- 
posito, depois de solicitar as liceu^as neccssarias, cor- 
rendo o auDo de 1076, traosTormou, com grande dis- 
pendio seu, a pobre egrejinba de S. Joao do Monte 
eui um mosteiro de bcnediclìnos, para o qual alcan- 
gou dei-rei Filippe i o tilulo de abbadìa real. 

Passados doze ajinos, accrescenlou Hugo is doagòes 
com que dotàra o mosteiro umas graodes vinhas, que 
ficavam coutiguas ù cSrca d'elle, mas jà no arrabaldc 
da cidade. povo principiou dcsde eniao a chamar 
ao mosteiro S. Joao das Vinhas, e este nome, preva- 
leccndo ao anlìgo, atravessou os secuJos. 

Floresceram tanto cm virludes os monges do novo 
mosteiro, quo, ao mesmo passo que ìam excitando a 
devo^ao e conquistando sympalhias, adquiriam, ora 

[lor meio de doa^es, ora por Icgados, imporlanlcs 
icns, com que se molliplicou o scu patrimonio, 

Achando-se, pois, a ordem muito opulenta, e a com- 
muuidade elevada ao uumcro de sclcnta e quatro rclì- 



giosos, pareceu-Jhes pequena e mesquinha a rundacào 
e Hugo. Agsim, resolveu em capitulo dar comedo a 
uma recdificacSo genti. Governava o mosteiro Raul, 
decimo primeiro abbade, e estava em principios o se- 
culo XIII, quando se langou a pedra fuodameolai do 
novo tempio, que foi tra^ado com tal grandeza, que 
bem podia servir de cathedral ao maìor bispado da 
Franca. 

Tao coloEsal era a obra a que o abbade Raul mct- 
teu bombros, que, nSo obstante applicar-lbc a ordein 
todas as quanlias que podia dispensar dos grossos ren- 
dimentos do mosteiro, e apesar das continuadas es- 
molas com que os povos das circunvisinlianf^s vieram 
em seu auxilio, so nos fina do seculo xv cbegaram as 
obras a ponto de poder celebrar o bispo de Soìssons 
a dedicaèao da egreja. Fallavam, porém, a està para 
o seu acabamento nada mrnos que as duas clevadìs- 
simas torres da Trontaria. Come^das por Fedro de la 
Fontaine, vigesimo oitavo abbade do mosteiro, que 
Talleceu em 1516, foram concluìdas pelo seu succes- 
sor DO anno de 1520. 

Do mesmo modo se fabricaram em differenles epo- 
cbas a sacristìa, claustros, dormitorJos e as outras of- 
Gcinas do mosteiro. 

Ufanavam-se os monges de S. Joao das Viubas de 
terem conservado a aualeridade mouacbai e a regra 
da ordem cm tamanba observancìa, que nunca preci- 
sarani de reforma; bonra que bem poucos conventos 
desfruclaram. 

Corrcram TelìKcs os tempos para o mosteiro até quasi 
mciado o seculo xvi. A visita de Carlos v, iinperador 
da Allemanba e rei de Ilespauha, foi o preludio das 
infelicidades que, umas após outras, cairam sobre u 
communidade e sobre o edifìcio do mosteiro. Carlos v 
enirou alli nflo so corno adversario dos francestes, mas 
tambem corno ìiiiniigo Iriumphanie, que Ira^ìa uinda 
verdes os loiros da Victoria, que enlregàra ao seu al- 
vedrìo os destiuos da Frani,'a e a libcrdade do seu rei. 
vcncedor dcmorou-sc alguns dias no mosteiro de 



114 



ARCDIVO nTTORESCO 



S. Joào das Vinhas, e ahi assignou, aos 18 de sctem- 
bro de 1544, os preliminares da paz, por elle imposta 
a el-rei Francisco i, que ficùra seu prisìoneiro na ba- 
taiha de Pavia. 

Trcs annos depois» foi condcmoado o mosteiro de 
S. Joào das Viuhas a ser arrasado. RazOes cstrategi- 
cas aconselhavam esse sacriBcio» a Om de flcar em 
melbores condi$5es de defcnsa a praga de Soissons. 

ConsideragOes de veneraQSo e respeito salvaram 
d està vez o sancluario e monumento artistico. 



(Coiktln&a) 



I. DB YlLBÉXA BaRBOBA. 



A LENDA DO ETHER SULPHURICO 



Anles da lenda a sciencia. Todos conhecem o ether 
sulpburico, ainda que nào seja senào de nome. Todos 
subem que é um anesthesico poderoso, e, com quanto 
mais fraco que o chloroformio, tem sobre cste a sum- 
ma vantagem de nào produzir casos funestos, moli's- 
tias incuraveis, temveis vestigios. 

A letbargia pelo ether póde durar urna bora e mais 
scm pcrigo algum, porque nQo causa, comò o chloro- 
formio, dores de cabega, angustiamentos de gargaota» 
alteragào profunda do systema nervoso e outros mor- 
bos. 

Tempo vira em que o chloroformio ha de ser era- 
pregado outra vcz, quando for possivcl iibertal-o das 
propriedades perigosas. 

Obtem-se o ether misturando em urna retorla acido 
sulphurico e alcool, e aquecendo em banho de areìa 
até à cbulligao. 

alcool obtido assim é impuro, e convem estre- 
mal-o das substancìas cstranhas que o inquinam. 

Empregu-se para isso urna dissolugào concentrada 
de potassa caustica e urna distillagào em banbo-maria 
sobre uma camada de chlorureto de calcium fundido. 

etlier, corno o nome est<1 indicando, é mais mo- 
bil e leve do que o alcool, com o qual nào tem ana- 
logia alguma. 

seu gesto é amargo, e exhala um cbeiro acre 
extremamente volatil. Entra em ebuUigào a 35 graus, 
e uma corrente de ar vaporisa-o completamente em al- 
guns segundos. 

É por isso que, langado no rosto dos doentes, prò- 
duz grandissima imprcssao de frio, a qual é causa às 
vezes de urna reacgào favoravel. 

clbcr ó multo mais combustivcl do que o alcool ; 
inflamma-se subitamente nas proximidades de uma 
vela, e a sua chammn é esbranquigada e fuliginosa. 

Deve-se, pois, evitar a vaporisagào do ether em 
quarto fechado. 

Aioda nào ha muitos annos, morreu queimado um 
novcl chimico de grandes espcrangas, por ter deixado 
al)erto um frasco de ethor. 

ether, quando bebido em bastante quantidade, 
produz uma embriaguez, que dizem delìciosa, acom- 
panhada de geral quebranto em todo o corpo. A em- 
briaguez, porém, plouco dura, e dissipa-se facilmente. 

Dizom fìrodie e Orfila que conseguiram matar alguns 
nniraaes com o engorgitamento de gi^andes dóses de 
elher. Nào ha, porém, um unico facto que demonstre 
a inloxicagào ethcrea, e até hoje nào se conhece um 
so accidente funesto devido ao abuso do etber sulphu- 
rico. Fourcroy, notavel chimico francez, bebia um li- 
tro de cada vez, para alliviar umas terriveis dores 
provenientes de um csquirrho nas entranhas. Em vir- 
lude d*esla inocuidade é o elher muito empregado nas 
anesthesias, de preferencia ao chioroformìo, o qual, 
corno acima dissemos, deixa ós vezes terriveis e pro- 
fundos vestigios. 

vapor do ether torna, com effeito, o cerebro inerte 



e corno que cntorpecìdo. Durante cste entorpeci mento 
ou letbargia, o paciente é insensivel à dor. 

II 

Conhecidas as propriedades do ether e a maneira 
por que se oLtem, contemos em poucas palavraa a 
sua lenda. 

No anno de 1420 florescia em Franga um alchimie 
chamado Basilio Valentim, que era muito respeitado e 
acatado pela confraria dos que procuravam a grande 
obra, a panacèa uaiversal, a poeira projectiva, o eli- 
xir da vida eterna, a pedra pfailosophal e outros spe- 
cimens com que hoje assoma o riso aos labios, e que 
entào, n'essas epocbas de fé inquebrantavel e denodo 
a toda a prova, cavavam profundas rugas no rosto 
severo e esculptural dos obscuros sabios, cuja vìda 
foi uma investigagào porfiosa, um trabalho perpetuo, 
um tressuar sem descango. 

Hoje é moda roofar dos alchimios e das suas lon* 
cas pesquizas, das suas esperangas e illusòes. Somos 
comò OS Glbos prodigos. Mal herdàmos as riquczas 
accumuladas durante secutos de labor, comegàmos a 
espalhal-as com màos profusas, gastàmos ù folga, co- 
mò quem encontrou inexhaurivel mina; e em vez do 
abengoar os antepassados, que Icvaram a vida a en- 
celeirar e a opulentar-nos, langèmos-lhes às faces des- 
carnadas o escarneo e o vituperio, e gravàmos sobre 
tumulo d elles, em guisa de epitaphio, a mofa e o 
doseredito, e mìl epithetos descarìdosos. 

E, todavia, foram os alchimios os precnrsores da 
chimica moderna, d'essa caudal scieùcia, a qoaJ, à 
similhanga de um rio magcstoso que fertilìsa com o 
nateiro as varzeas e insuas, assim tambcm enriquece 
a humanidadc com successivos descobrimentos, e cada 
dia inventa novas substancias, aproveita novas com- 
binagOes. 

Se OS alchimios, csses sublimes ignorantes, nào se 
lan^assem, peito a peito, arca por arca, ao terrivcl 
monstro do desconhecido, tal vez a civilisagào nào bou- 
vesse attingido ainda a pujanga e grandeza, que fazem 
d'este seculo um monumento de trabalho e audacia. 

Basilio Valentim era, pois, muito afamado e nomeado 
entre os confrades da grande obra, e a sua fama au- 
gmentou e cresceu ainda, quando inventou uma pa- 
nacèa admiravel. Està panacèa, fabricada com alcool 
e vitriolo, podia curar todas as molestias e maiignas. 
Por isso foi denominada oleo de perennidade, Com ser 
miriGcó remedio contra toda e qualquer doenga, dis- 
sipava especialmente a melancolia e negros bumores, 
e até a demencia. Carlos iv, rei de Franga, o mente- 
capto, tomou o oleo de perennidade, o qual nào surtiu, 
pelos modos, grande effeito, porque o pobre rei baixou 
logo ao sepulchro. 

A morte de tao alto senhor langou no esquecimento 
a panacèa de Valentim. 

alcfaimio morreu tambem pouco tempo depois. 

Tinha passado um seculo após a morte de Basilio 
Valentim. Valerio Cordus iniciàra-se, mogo ainda, nos 
mysterios da doutrina alcbimica. 

Pobre, desherdado, pertencendo pelo sangue a ar- 
raya miuda, que na meia edade era a anima vilis, 
rebanho da gleba, um pouco inferior aos mastins, 
rafeiros, lebreus e podengos da matiiha senboriai, o 
joven alcbimio ergueu olbos apaixonados para a filha 
gentil do castellào, do veiho fìdalgo, o conde de Hen- 
neberg. 

Se nobrc barào tal soubesse, ccito mandaria de- 
pendurar o atrevido nas ameias do castello. Os corvos 
liaviam de folgar com o repasto, e a raga vii dos poGes 
ficaria atorrada com tao salutar exemplo. 

fidalgo, (jorém, era sujeito a terriveis insultos de 
humor negro, que o immergiam na mais torva e som- 
bria trisleza. 



(Ck>iitinùA) 



A. OsoRio OS Yasconcbllos. 



ÀBCmVO PITT0BE9G0 



115 



LOXO E MAGNIFICENCIA DA CORTE 
DEL-REI D. JOAO V 

(Yid. pf«. 106) 

Na manhà do mesmo dia 22 mandaram-se de uma 
para outra corte os onxovaes das princezas. da nossa 
infanta, D. Maria Barbara, prioceza das Asturias, foi 
feito em Paris. Imagine-se qual seria a sua riqueza, 
scodo o pensamento constante de D. Joào v desiutu- 
brar a corte de Castella com a opulencia e esplendo- 
res da coroa portugueza. Foi condnzido este enxovai 
em uma galera, seis carros mattos, ciuco andas e quinzc 
cargas. 

Até para osta conducg5o se fez programma com os* 
tentoso apparato. Rompia a marcha um piquete de 
soldados de cavallaria com os clarins na frente. Se- 
guia-sc um ropostciro, e logo depois quinze azeroolas, 
ricamcnte ajaezadas, levando as cargas cobcrtas coni 
pannos com as armas de Portugal e Castella. Ao lado 
das azemolas la outro reposleiro, encarregado de vi- 
giar pela boa ordem da marcba. Atraz das azemolas 
ìam cinco andas, cada uma com seu mogo da cstri- 
beira, dois liteireiros, e um mogo de cada lado. Se- 
gDÌam-se depois seis carros mattos, e a galera no fini, 
cada um acompaishado por um mogo da estribeira. As 
andas, carros e galera eram cobertos com ricos pannos 
coni as armas reaes bordadas. Fechavam a marcba um 
tenente, um alferes e oito soldados de cavallaria. 

Com todo este estado entrou em Badajoz Francisco 
de Andrade Corvo, encarregado de fazer a entrega do 
enxovai. Apinhoaram-se de povo as mas do transito, 
eneberam-se de damas as jauellas, e a famiiÌA rcal e 
mais pessoas da corte cbegaram ùs janellas do pago; 
eoi firn, alvorogou-se e moveu-se toda a cidade, corno 
se se tratasse da sua procisslio mais festiva. 

Na manhà do dia 23 foi el-rei D. Joao v com a sua 
familia a sé, onde o patriarcba do Lisboa olTiciou de 
pontificai, e de tarde passou ao Caia, pois que os doi» 
monarolias da peninsula tiaham njustado de se verem 
ahi novaraente n'esse dia. Fora tambem accordado que 
para està conferencia se proscreveria todo o apparato 
e eliqueta, e que nào haveria ceremonia publica. Eo- 
trctanto, a nossa familia real partiu de Elvas pelas duas 
horasda tarde em duas estufas, e com tanta criadagem, 
que foram precisos para a tansportarcm dezoito cocbes. 

El-rei D. Filippo v foi mais pontual. Jà se acbava 
com a rainba, principes e infantes no palacio-ponte, 
quando cbogou a familia real portugueza. Libertados 
das prescripgoes dos programmas officiaes, poderam, 
em éoì, conversar familiarmente, mas sempre de pé. 
Como da primeira vez que se viram, nao liwaram 
palavra ' alguma sobre negocios politicos. A caga, di- 
vertimento prcdilcclo dei-rei D. rilippe v, foi o prin- 
cipal assum[ito da conversagào cntre os dois sobera- 
nos, OS principes e infantes; em quanto as duas rai- 
iilias se entrelìnbam em mais intimos coUoquios com 
as princezas das Asturias e do Brasil, suas filbas. 

Os ministros de ambas as cortes, crendo que os seus 
sobcranos pouco teriam que dizer um ao outro, orde- 
naram, corno homcns de estado verdadeiramente pre- 
videntcs, que os musicos e eantores das tìaas reacs 
camaras comparoccssem no Caia para diversaod'aquel- 
les augustos personagens. Pori^m suas magestades e 
altezas acliarnm tanto enievo na conversa despren- 
dida da fria etiqueta, que se entretiveram assim até 
ser quasi noite, com muita magua dos instrumentis- 
tas e eantores, que tinbam estudado e ensaiado de- 
balde longas pegns de musica. Todavia, foi-lbes per- 
mitlido darem uma breve amostra da sua proficiencia, 
retirando-se depois as duas cortes. 

dia 24 foi destinado para descango da familia 
real, limitando-se as ceremonias e festas a jantar em 
publico, e ós illuminagOes» fogos de artificio e sere- 
nata, que se repetiram em todas as noites. 



A rainba e prtncoza do Brasil visitaram o convento 
das religiosas de Santa Clara. El-rei com o principe 
do Brasil e infantes foram passeiar pelos arrabaldes 
da cidade. N'este dia deu o secretarlo de estado Diogo 
de Mendonga Corte-Real um lauto banquete a muitos 
fidalgos e aitos funccionarios da corte de Castella, en- 
tro outros aos duques de Ossuna. 

Determinou el-rei, em obsequio da princeza do Bra- 
sil, que se fizesse uma cagada de coelbos na pequena 
tapada de Villaboim, pertencente A casa de Braganga, 
e nào muito distante da cidade de Elvas. Na manbc^ 
do dia 25 saiu do pago da cidade a familia real e sua 
comitiva com o apparato e ordem que se observava 
nas grandes cagadas em que ia o soberano de Portu- 
gal. Descrcveremos este prestito comò um quadro cu- 
rioso dos costumes da nossa antiga corte, e que vem 
adrede ao fim a que nos propozemos. Caminbava, pois, 
a real comitiva do modo seguinte: 

Quatro couteiros, a cavallo, com as suas ospiogar- 
das; oito trombetas de caga, vestidos de panno verde, 
tao agaloados do prata que mal se via a cor da libre; 
doze couteiros, a cavallo, divididos em duas partidas, 
cada uma de seis, commandada por um monteiro da 
comarca; sesseiita e quatro couteiros, a cavallo, em 
partidas de oito liomens, da mesma fórma comman- 
dadas; cincoenta e quatro batedores de matto, a pé, 
cada um com o seu cào atrelado, e com suas armas 
e cboupas; tres emprazadores; quarcnta e sete mogos 
do monte, a cavallo; um cbiua, ricamcnte vestido e 
bem monlado, com seis cavallos de mào para o mon- 
teiro-mór, conduzidos por seis palafrcneiros, tambem 
a cavallo; seis monteiros das montarias reaes; qua- 
torze officiacs ou couteiros das coutadas; trìnta e sete 
monteiros pequcnos; o ministit) geral das coutadas 
para expedir as ordens; dois carros para a caga, pin- 
lados de verde e prateados, de figlio elegante, e ti- 
rado cada um por seis mulas; e duas azemolas para 
mesmo fim. 

A familia real e mais pessoas da corte parlìram da 
cidade pela uma bora da tarde em uma serie de co- 
cbes, berli ndas e seges. Quando cbegaram à tapada 
de Villaboim acliarara formada, corno esercito para 
entrar em batalba, toda a comitiva venatoria, que os 
tioha prccedido. Apearam-se e entraram na matta as 
pessoas reaes e mais ìndividuos do seu sequito. A um 
signal do monteiro-mór correram aos seus postos lo- 
dos OS seus subordinados. Em breve formaram um 
circulo em volta da matta os monteiros, couteiros, ba- 
tedores e mogos do monte, e, assim dìsposlos, balendo 
a caga e caminbando para o lado onde estavam as 
pessoas reaes, fizeram correr e saltar na sua prescnca 
infinito numero de coelbos. 

Foi grande a morlandade, nom doixaria de sor 
grande ainda que suas magestades e altezas atiras- 
sem com os olhos fecbados. A princeza do Brasil, 
apesar da sua curta edade, tambem disparou alguns 
tiros com uma espingarda pequena e mui leve, pri- 
morosamente incrustada de oiro e prata era delicadis- 
simos lavores. Sua alteza matou dois coelbos, o que 
serviu de protoxto para todas as damas e fidalgos da 
corte exaltarem e cclebrarcm a dcstreza e pericia da 
jovea cagadora. Para memoria deste feito ordcnou o 
duque de Cada vai, estribeiro-mór, que fosse embal- 
samado um dos dois coelbos. 

Recolheu-se a Elvas a familia real ao cair da noite. 

Fora ajustado entro as duas cortes que se tornariam 
a ver, para as despedìdas, no dia seguinte, 26, o que 
80 levou a eOeito, parlindo ambas de Elvas e de Ba- 
dajoz para o Caia pela uma bora da tarde. Foram com 
mesmo estado e acompanhamento que le varani na 
segunda vez que se visitaram ; e tambem dispensaram 
ceremonial e etiqueta da primeira visita. Agora fo- 
ram ainda um pouco além, nas liberdades que toma- 
ram, do que tinbam praticado na ultima reuniào; pois 



116 



ARCHIVO PITTORESCO 



que, assini que entraram no palacio-ponto, os reis, 
principes e ìnfantes de Portugal e Castella abragaram- 
se, fallaram e passaram de urna sala para a outra, 
isto é, de um para o outro reino, sem se embaraga- 
rem com a linha divisoria das duas monarehias. De- 
poìs vìeram para a sala do. melo; sentaram-se, to- 
rnando OS seus respectivos logares; e om seguida os 
rousìcos e cantores das reaes camaras portugueza e 
castclhana tocaram e cantaram, por seu turno, quatro 
catitatas italìanas. 

Às despedidas foram muito demoradas e penosas, 
corno era naturai entro paes e filbas que se iam se- 
parar para nunca mais se verem. Erain sete boras da 
noite quando os soberanos de Portugal e Ilespanba e 
suas famìlias partiram do Caia para Elvas e Badajoz. 

Àssim terminou a mais esplendida e apparatosa fune* 
gao que se tem celebrado na peninsula. Das immensas 
soDimas n'ella dispendidas apenas colheu satisfa^ào a 
vaidade dos soberanos. Os doìs povos nada lucraram, 
continuando nas suas reiagOes a mesma frieza, a mes- 
ma desconfianga e rivalidade que sempre, até hoje, 
OS tem conservado em perpetua inimizade. A propria 
politica dos dois estados nào tirou as vantagens que 
OS estadistas aprégoavam corno fructo d'aquella dupla 
allianga. Quando, ao diante, se levantaram entro as 
duas nagòes interesses contrarios, ou quando se sus- 
citaram meros capricbos entre os governos dos dois 
paizes, esfrìaram-se e interromperam-se as suas rela- 
gòes politicas, e por muitas vezes se quebraram, sem 
que servissem de penbores de paz e de amizade os 
lagos conjugaes, que em differentes epochas uniram 
em intimo parentesco a familia de Braganya aos Bour- 
bons de Hespanha. 

No dia 27 de Janeiro, òs onze horas prefixas da 
manbà, partiram de Badajoz e de Elvas os soberanos 
de Castella e Portugal. Aquelles, antes de se dirigirem 
a Madrid, percorreram as principaes cidades da Àn- 
daluzia, que os receberam no meio de regozijos e bri- 
Ibantes festas. Estcs, no seu regresso a Lisboa, foram 
passar alguns dias no sumptuoso palacìo de Villa Vigo- 
sa, e ahi ofiereceram à joven princeza do Brasil o es- 
pectaculo de uma cagada de altaneria na grande tapada 
d'aquelle pago, feita com desusada pompa e apparato. 

Com tantos e tao variados festejos foram recebidos 
OS reaes viajantes na cidade de Evora e nas villas de 
Estremoz, Montemór-o-Novo e Aldeia Gallega, que so 
chegaram a Lisboa no dia 12 do seguinte mez de fé- 
vereiro. 



(Continua) 



I. Ds ViLHKSA Barbosa. 



ILHA DO FAYAL — HORTA 

ILHA DO PICO 
(Vid. pag. 89) 

Concorre muito para a bella perspectiva da cidade 
da Horta a magestosa elevagào do cono volcanico da 
ilha do Pico, de que ao diante fallaremos. 

As ruas da cidade sào alegres e ladeadas de edifi- 
cios, nào sumptuosos, mas elegantes. A egreja do an- 
tigo collegio dos padres jesuitas, que se ve represen- 
tada no lado direito da primeira gravura, e que é a 
matriz, passa pela mais vasta e graciosa do arcipe- 
lago dos Agores. 

No primciro andar da parte do edificio contiguo à 
matriz, para o lado do norte, é a casa das audiencias; 
no segundo andar celebra a camara municipal as suas 
sess5es. Na nutra parte do edificio, que fica para o 
sul, e que na dita gravura se observa unida à egreja, 
e dividida em tres corpos, tendo o centrai uma so ja- 
nella sacada em cada pavimento, e cada um dos la- 
teraes sete janellas de peito no andar superior, estào 
reunidas todas as repartigóes, exceptuada a adminis- 
tragao do concelho. 



As lojas d'oste edificio estao destinadas para arma* 
zens da alfandega. 

Tambem é digna de ver-se a egreja do Canno, que 
sobresae na segunda gravura que acompanha este ar- 
tigo. 

Ha no recinto da Horta um abundante mercade, 
onde se encontram todos os generos alimenticios que 
é uso venderem-se em taes logares; e um encantador 
passeio publico, rico de flores e arvoredo, e nUo me- 
nos rico de famosos panoramas, que eolevam a alma 
e muito a deiiciam. 

Desde 4 de julbo de 1833 goza a antiga TÌila da 
Horta fóros de cidade. Concedeu-lb'os o imperador D. 
Pedro IV, regente do reino em nome da rainba a sr.* 
D. Maria ii, scudo provedor da comarca da Horta o 
sr. Antonio José d'Avila, hoje conde d'Avila, presi- 
dente do conselho de ministros e ministro dos nego- 
cios estrangeiros, naturai d'aquella cidade. 

A elevagao da Horta a cidade previra-a e comò que 
a prognosticou o auctor da historia insulana, quando 
ao tratar das exceilencias do Fayal e da grande còpia 
de embarcagdes que demaodavam aquelles portos, e 
que de futuro a elles aproariam, a denomìnou alinda 
corte, cbeia de muitas e ricas joias e pegas, até no 
luzimento com que se trata e serve. » 

Actualmente é a Horta capital da iiha e do distri- 
cto do mesmo nome. 

Tem 3 freguezias, 1:685 fogos e 8:000 habitantes. 

Frequentam o seu porto numerosos navios de vela 
e de vapor nacionaes e estrangeiros. Para se fazer 
idèa do movimento maritimo alli, transcreveremos do 
Almanach do archipelago dos Acores, repositorio uti- 
lissimo de tudo quanto diz respeito àquellas illias, es- 
cripto pelo nosso excellente amigo e collega Francisco 
Maria Supico, a nota relativa ao movimento maritimo 
em 1865, a (jual é a ultima publicada. 

«Navios existentes em 1 de Janeiro, 9; entrados du- 
rante anno, 340. Total 349. Sairam em todo o anno 
340; foram condemnados 2; naufragou 1; existiam 
no porto em 31 de dezembro, 6. 

«As 340 embarcagóes safdas pertenciara às seguin- 
tes nacionalidades : portugueza, 142; ingleza, 65; bra- 
sìleira, 2; americana, 106; hespanhola, 4; franceza, 
10; italiana, 5; hollandeza, 1; suera, 1; prussiana, 1. 

«D'estes navios empregaram-se exclusivamente no 
commercio 185. Os restantes entraram por escala ou 
arribada. 

«Das embarcagóes empregadas no commercio foram: 
portuguezas, 178, incluindo 72 barcos sem coberta; 
mglezas, 40; brasileiras, 2; americanas, 5. Mediam 
21:891 toneladas, e conduziram 1:567 passageiros. 

«Nas que tocaram por arribada incluiram-se 88 ba- 
leeiras. a depositar azeite ou a tomar mantimentos; 18 
navios de vela a reparar avarias; 20 a tomar manti- 
mentos; e 29 vapores a tomar carvào e mantimentos, 
sendo 19 de guerra e 10 mercantes.» 

Nos nove annos decorridos, de 1857 a 1865, en- 
traram com avaria no porto da Horta 115 vapores e 
156 navios, cujas toneladas sommam 255:880. 

Os generos que em maior quantidade exporta o Favai 
pela Horta sào a laranja, principalmente, para a Ingla- 
terra e para a America; azeite de spermaceti; man- 
teiga; coiros verdes; obras de palba, chapeos e bor- 
dados; algumas vezes trigo. 

Ha na Horta, desde 1852, uma machina de vapor 
da forga de 8 cavallos, alta pressao, trabalhando no- 
risontalmente, a qual veiu de Londres e serve de rao- 
tor a tres apparelhos de fazer pregos e a tres pe- 
dras de moagem. Tem appenso um forno de cozer pào 
e bolacba. 

Em 12 horas de trabalho faz 1:400 libras de pre- 
gos; moe um moio de trigo e um de milho, e póde, 
em 24 horas, cozer um moio de pào ou bolacha. 

É notavcl pela perfeigào e pelos consideraveis va- 



ARCmVO PITTORESCO 



lorcs quB rcpresenia, e ainda mala, lalvoE, rar sor hn [ 
gruiitle purlu cxcrcida por mullieros, a. inaListn[t dos 
bordados brancos, e de palba e pila, a da traoda de 
l»iha para cbapcos, a dos chapeos de liomeiis v sc- 
Dhoras, e a daa eateìras de junco; e bcm assim a das 
ceslas e otilros objcctos de vioic, ao fubrico dos quaes 
se dedicarti especialmeiite bomens. Nilo suo csEaiì iti- 
duslrias, e mais olgumas quc nuo moncioiiàmos, pc- 
culiarcs da cidade; mas ha alli muilus que as cxer- 
ccm fi por alli se exportam em graodc quanlidnde. 

É curiosa a nolicia que o nosso bom amigo Supico, 
a quem jA iios referimos, e quo iios seiis cxcellenles j 
almanachs nos subministrou as bascs dVste arti^jo, | 
apreaenta do rendimento da alfaodega da llorla n'unì ; 
perìodo de treic annos. No decennio de 1853-1854, e ! 
18G2-1863, rendeu. lenno mèdio, 46:1095870 rèìs 
por anno; em 1863-1864, rcndcu 41:4945246 réh; 
em 1864-1865, rendeu 51:2005776 réis; e cm 1865- 
1866, rendeu 72:04758->9 róis. 

augmenlo da rcceìla d'aquella casa fiscal no ul- 
timo anno cìlado foi devido, aegundo a opiniào do sr. 
Supico, aos direilos sobre tabaco, ao excesso de im- ; 
porlag&o de mercadorìas eslrangeiras, e i somma pru- : 
duiìda pelo despacbo de fazeodas salvadas de um va- 
por inglez que naufragou na ilha do Pico. 

Ila na llorla, dcsde 18E)3, um tribunal do commer- 
cio de prìmeira inslitncia, que se compOo de seis Ju- . 
rados e tres substìtutos. 

No intuito de tornar mais seguro o famoso porto da 
Morta, onde, comò fica dìlo, concorrcm embarcasOes ; 
de quasi todas as parles do munclo, decrctaram as 
cortes em 1864 a conslrurgao de urna doca, e pura 
occorrer a està deapeza se eatabeleceu um imjioslo 
cobravel na alfandega da mesma cidade, o qual em 
1865 produziu 1:4645663 réis; e em 1866 a impor- 
tante quantia de 0:2745270 Té'is. 

Nao desconbecem os habitaiUeg da Horta as vanta- 
gens que Ibes hao de advir do derramamento da ins- 
trucQuo, e por isso alguns d'clles, cujos nomes multo i 
sentimos nào poder aqui citar, organisaram uma as- ; 
sodando que tein por 6m inuatcr uma aula noclurna i 
de instrucgao primaria para iiidividuos do sexo mas- ' 
cuHno. Escbolas primanas [Kira bomens, suslentadas ' 
pela Dagao, ha-as cm todas as Treguezias da cidade, 
e ulvez jil boje em todas aa do dislriclo; escaceavam | 
ainda ba jiouco para meninas, o que multo é para | 
iustimar. | 

Ijccu de segunda classe que alli exJste 6 regu- ; 
larmcnic concorrido. i 

1^01 tempo dccretou-se a creacììo de uma bibliotbeca ; 
pubiica na Morta, para a qual foram de Lisboa bastan- 1 
tcs livrea. Obstou à realisagao de tao civilisador pen- | 
samcnlo a Talta de casa apropriada; e suppomos que 
ainda boje os hortenses estao privados do bcncBcìo 
d'aquella insliluigAo. 

horam mais felizes rclativaineiile à imprensa, que 
cntre clles se eslabeleceu em 1855, pela iniciativa do 
sr. Joilo José da Gra(;a Junior, e que tem servido iiara 
a publica^ao de alguns pcriodicos, cntre os quaes so- 
liresaem o FayaUme e o AlUintko. 

Sete annos depois de ter pcnetrado a imprensa na 
cidade da llorta, em 1862, realisou-se alli um grande 
melhoramento aocìal. Creou-sc uma caixa economica. 

Devc-se cale relevante servilo aos seguinlea cava- 
Ibeiros: Antonio Garcia da Uosa Junior, Francisco Pei- 
xoto Lacorda Costa Hebello, JoSo José Paim da Terra 
Krum, José AtTonso llotclbo de Andrade de Camara e 
(Castro, Laureano Pereira da Silva, Manuel Gurciu da 
Rosa, Manuel José Sequeira, Manuel Maria da Terra 
lirum e Roberto Augusto de Mesquila Henriques. 

Fiquem estes nomes cxpostos ù venerajao dos que 
d'aquclle instìlulo colberem dìrécta ou ìtidircctamentc 
algum dos muitos benelicios que póde prestar a todas 
as pcssoaa, quatqucr qui^ spja a sua pusi(;rio social, e 




118 



ARCHIVO PITTORESCO 



malto eipecialmente és que, pela tenuidade de seus 
gaohoft, necessitàm ir pouco a pouco juntapdo peque- 
Dinas Darcellas para os apertos da vida, para a edu- 
cagùo aos filhos, para dote de suas filbas, e para mil 
outras applicacOeg uteis. 

N&o DOS Bendo possivel indicar o movimento pro- 
gressivo d'aquelle* estabelecimento de credito, trans- 
creveremos para aqui a passagem do relatorio da di- 
recgào do anno de 1866, a qual habìlitarà o leitor para 
ajuisar do engrandecimento de um instìtuto que con- 
tava na epocba a que nos rcferimos quatro annos de 
exìstencia : 

«0 movimento n*este anno (falla a dirccgào) cbegou à 
somma de 39:050jS905 réis, comparativamente maior 
que DOS annos anteriores; os depositos entrados reali- 
saram ll:40i)t230 réis; os emprestimos roontaram a 
30:629i$265 réis; do dia 31 de dezembro ficou consti- 
tuido debito da caixa no total de 11:612^880 réis, 
pelos capitacs e premios divididos aos deposilantes; os 
lucros foram de 1:284^610 réis, incluindo o de réis 
482t|KK)5 do presente anno.» 

seu credito ató d data do relatorio a que nos re- 
feriraos foi de 12:897,?490 réis. 

Os depositos foram eifecluados por 275 dcpositan* 
tes, e 08 mutuos feitos a 435 concorreiites. 

N&o faltam na cidadc da Horta estabelecìmentos pios, 
onde 03 enfermos, os velhos e os infantes pobres en- 
contram consolagOes e amparo. Floresce alli, corno em 
quasi todas as terras portuguezas de alguma importan- 
eia, urna irmandade da misericordia, que tcm de exis- 
toncia trezentofi e setcnla annos. firn principal d*a- 
quelle pio instituto é sustentar um hospital para po- 
bres. Occupa a misericordia o convento que foi dos 
franciscanos, representado à esquerda da nossa pri- 
meira gravura. 

No hospital tratam-se annualmente 650 a 700 doen- 
tes. 

Em 1843, sendo governador civil do districto, fun- 
dou Tui Horta o sr. Antonio José Vieira Santa Rita um 
asylo de mcndicidade para desvalidos de ambos os se- 
xos, para cuja sustentayiìo concorrem, além dos bom- 
fcitores, as confrarias da ilba do Fayal e a misericordia. 

Tambom a iniciativa do sr. Santa Rita dcvcm os 
bortenses a iustiluigào do asylo de infancia dcsvaiìda 
do infante D. Luiz, que reccbe e patrocina meninas 
dcsamparadas. Vive este sympatbico asylo de csmolas. 

Existem na Horta dois tlieatros. Um, dcnoniinado 
Uniào Fayalense, foi construido a cxpcnsas do sr. 
Joao de Bettencourt de Yasconcellos Correa d'Avila e 
de alguns amigos seus. Tcm sala vasta e elegante, 
urna ordein de caniaroles, e galeria, em que se ac- 
commodam a larga qualrocentos espcctadores. 

oulro, cbamado Theatro dos Artistas, pertence 
aos operarìos, que nas suas boras do descango se en- 
tregam ao cultivo da arte dramalica. Tem logares para 
cento e cincoenta pessoas. 

Os brios militarcs e o acrisolado amor à liberdade 
s&o prendas communs nos babitantes d'aquella cidade, 
e que nào devcmos dcìxar no oscuro. Todas as vczcs 
que a patria tem necessitado o auxilio d*aquelles leaes 
e esforgados servidores, tem-os enconlrado briosos e 
decididos a sacrificar-lbe tudo. 

Em duas epocbas notavcis, antiga urna, oulra re- 
cento, se assìgnalaram ellcs e se moslraram dignos de 
todo elogio. Em 1641, coadiuvando energicamente 
OS seus irmàos de Angra na expulsào do bespanhol 
oppressor; em 1821, secondando o grilo liberal sol- 
tado na bcroica cidade do Porto. 

Na sua viagem do Brasil para Portugal, o sr. D. 
Fedro iv visitou o porto da Horta, em maio de 1831, 
a bordo da fragala ingleza La Volage, e foi aquella 
cidade a primeira terra do arcbipelago agoriano a que 
aportou, dirigindo-lhe algumas palavras escriptas. Me- 
zes depois foi alli novamente e demorou-se alguns dias. 



Tambcm elrei o sr. D. Luiz esteve na Horto, em 
1858, sendo ainda infante. 

Commemoram muito especialmente alguns auctoresy 
que se tem occupado das coisas da cidade da Horta, 
a Dobreza de muitos de seus primeiros poroadores. 
D*aquelles varOes procedcm nko poucas familias dis- 
tinctas, que ainda hoje existem do districto, no ar- 
chipelago, e, certamente^ em varias outras terras do 
reioo. 

Quem a este respeito desejar copiosas noticias leia 
a Historia insulana do padre Antouio Cordeiro. 

(ContlnAii) Sotoia TKLum. 

D. CATHARINA DE BRAGANgA 

(Vld. pag. 59) 

Vamos entrar na mais aixlilosa de todas as oego* 
ciagòes quo se entabolaram para o casamento da filba 
dei-rei D. Joào iv. 

noivo agora é Luiz xiv, o que deu nome ao seu 
seculo, comò Periclcs, Augusto e Leao x. Tiuha eutào 
dezesete annos. 

Està por escrever a inacreditavel bistoria d'este prò* 
jectado casamento, de que as nossas cfaronicas apeoas 
fazem meog<ko, e que so é conhecida depois das in- 
vestiga^Ges que o visconde de Saotarem fez oos archi- 
vos de Franga, para esbogar o Quadro das rclacòes 
politicas de Portugal com as diversas potencias do 
mundo. Pelo que elle publicou se podia jà romancear 
està negociagào, a similbanga de Guizot no seu iivro 
intitulado : Un project de mariage royaL Nós, porém, 
limitàmo-nos ao estudo quo fìzemos para summarìar 
as negociagòes que houve, durante quatro annos, so- 
bre este assumpto. 

Comegaram cUas em 1655, quando o casamenleiro 
da nova dynastia, o padre Antonio Vieira, voltava para 
Maraobào. Mas, corno dizia o celebre diplomata Fran- 
cisco de Sousa Coutinbo, n*uma carta escripta de Paris 
por aquella epocba ^, «nào ba casamento se nào entra 
n elle um frade», a corte de Lisboa substituiu o padre 
Vieira por fr. Domìngos do Rosario, confessor da rai- 
nba D. Luiza, homom de saber e mui destro politico. 

A vida d'este frade vem escripta por menor na Uis- 
toria de S. Domingos, na parte que jà nào é da suavc 
penna de fr. Luiz de Sousa. Abi se dìz que era irlan- 
dez, que passàra a Hespanha, e la tomàra o habito de 
S. Domingos, doutorando-se em tbeologia, cujacadeira 
regeu em Lugo. Veiu a Portugal, quando Filippo iv nos 
dominava, para aqui fondar um convento de freiras da 
sua nagOo (o do Bom Successo, a Pedrougos). 

Fr. Pedro Mooleiro, no Claustro dominlcano 2, ac- 
cresccnta quo ol-rei D. Filippo iv enviAra fr. Domin- 
gos do Rosario por seu cmbaixador ao rei de Ingla- 
terra Carlos i, e por enviado ao papa Innocencio x. 

Depois da acclamagào dei-rei D. Joào iv, serviu este 
soberano com a mesma fidelidade (diz aquelle auctor) 
com que havia servido Filippo iv. 

Por duas vezes foi a Franga tratar do casamento da 
infanta D. Catharina com Luiz xiv; a primeira ainda 
no tempo de D. Joào iv, e a segunda no da regencia 
da rainba D. Luiza. E tal reputagào tìnlia na corte, 
que està princcza nomcou do seu couselbo e minis- 
tro assistente ao despacbo, iiào resolvendo ella ne- 
nbum negocio som consultar, e, pela grande con- 
fianga que d'elle fazia, todos os negocios do reino Ibe 
passavam polas màos. 

Este religioso te ve multa accoitagàp na corte de Fran- 
ga, mórmeute do cardeal Mazarino; e cmbaixador 
conde de Cominges, escrevendo-llie de Lisboa, dizia 
que fr. Domingos era bomem de maior capacidadc 
que tinba Portugal. Outros tacbam de grande ambi- 
cioso; e tanto que se nào contentava com apri vanga 

i Mbs. da Academla real das sciencias de LUboa. 
3 Lanfo ni, pag. 193. 



ARCmVO PITTORESCO 



119 



do pa(o e com a iofluencia qoe tinba nos negodos, 
aspirando a governar exclusivameote; e que se Ibe 
nào fora obstaculo a sua qualìdade de estrangeiro (que 
sempre cooservou), conquistarìa em Portugal o mes- 
mo poder que o cardcal Mazarìno exercia em Franga. 

É certo, poróm, que recusou acadcira de prima na 
universidacie de Cohnbra, o bispado de Tangcr, o ar- 
cebìspado de Goa, e o ser confessor da raìnba da Gran- 
Bretaoba (D. Catharìna de Portugal), e do sou conse- 
Iho, Bendo para isso convidado por cl-rei Carlos ii. 
Acceitou por ultimo a mitra de Coimbra, quo a esse 
tempo rendia sctenta mil cruzados, para com este ren- 
dimento acabar o convento do Bom Successo, e fazer 
a obra do collegio do Corpo Santo, cu)a fundagdo ob- 
teve da raìnba regente, que pagou o ch&o, e Ibe con- 
cedeu tercm os missionarios até cinco mil cruzados 
de renda. 

Tal era o homem que succedcu ao padre Vieira, no 
periodo da sua ausencia no Brasil. 

E para que bem o fìquemos conbcccndo, devemos 
acnx'scentar, que nas biograpbias estrangeiras anda 
este frade com o nome de Daniel O'Daly, que deveu ter 
antes de professar; porque oos negocios secolares as- 
signava-se unicamente fr. Doroiogos do Rosario, e so 
n'uma das obras que imprimiu em iatim pOe fr. Do- 
minicus de Rosarium O'Daly. auctor da Coimbra 
gloriosa ^ diz que elle era doscendente dos reis pe- 
qxienos da Irlanda e chefe da familia O'Daly. Falleceu 
em 30 de junho de 1662, e foi sepultado no collegio 
dos missionarios irlandezes, ao Corpo Santo, que elle 
fundàra em 1659. 

Agora que jà conbecemos o negociador, vamos dar 
vista das ncgociagOes. 

K3o conseguimos apurar se a proposta d*este casa- 
mento veiu da Franga ou foi de Portugal. Os nossos 
bistorìadores ìnculcam està ultima hypothese; mas, 
polo descnlace, julgàmos que foi artimanha do cardeal 
Mazarìno, para obrìgar Hospanba a fazcr a pa7 com a 
Franga, paim elle se yingar do principe de Condé, que 
militava no exercito bespanbol, dando por premio da 
nova allianga a mSo de Luiz xiv t infanta de Hcspa- 
nba. Maria Tbercsa, berdeira de lìjlippe iv, o que a 
final conseguiu o astuto cardeal. 

Como quer que fosse, o que sabcmos é aue em abril 
de 1655 cbcgou a Lisboa o cavalheiro de Jant, cmbai- 
xador de Franga; e nas instrucgOcs que trazia liam- 
s€ ostas clausulas: 

Que significasse a el-rci de Portugal, que quando a 
infanta sua 61ba estivessc em estado de casar ^, o car- 
deal (Mazarìno) faria o possivcl para que el-rei, seu 
amo, considerasse o proveito que oSerecia aquella al- 
lianga. 

Que faria (o embaixador) por fallar quantas vezes 
podcsse com a infanta; e obscrvaria com particulari- 
dade o seu espirilo, juizo, talhe, gestos e palavras; 
e se informarìa por alguns criados e ofliciaes, se n&o 
liavia alguma coisa que dizcr de sua pessoa ou em 
seu corpo, por defeito de nascimento; e faria por ba- 
ver dois rotratos d'ella, um em grande e outro em 
pcqueno. 

mesmo embaixador de Jant trazia podcres do car- 
dcal Mazarìno para fazer um tratado de liga entre Por- 
tugal e a Franga contra Castella, sobro o que liouvc 
muitas consultas de estado, a que assistia fr. Domin- 
gos do Rosario; e n'um dos dias de conselho, ostando 
docnte, à sua colla, no collegio do Corpo Santo, fo- 
rum OS miiiislros e o proprio embaixador da Franga, 
lista potoncia pedia a Portugal doze navios mantidos 
t custa d*estc reino, e um subsidio aimual de dois 
milhOcs de escudos; mas comò se Ibe objectou que 
Portugal nao podia dispensar nonbum dos navios da 
sua armada, que trazia na dofesa das possessOes ul- 

1 Mss. da blbllotbeca nacional de Lisboa. 
1 D. Catliarina tinba jà 17 anuos. 



tramarinas, estipalou-se que Portogal elevarla o subsi- 
dio a dois milhOes e quatrocentos mil cruzados; e que, 
além do que gastava na guerra das fronteiras, appli- 
carla mais todos os anoos trezentos e cincoenta mil 
cruzados para um pé de exercito considera vel, que 
opportunamente entrasse em Castella com as tropas 
dei-rei de Franga, 

Tal era o prego da liga que nos propunha Nazari- 
no, dando-nos apenas a faculdade de tirar de Franga, 
a nossa custa, officiaes, engenbeiros, cabos e macbi- 
nas de guerra. 

N'estc tratado n5o se fallava no casamento da in- 
fanta. Mas foi entao que el-rei D. Jodo iv nomeou 
fr. Domingos do Rosario seu enviado a Franga, para ir 
juntamente com mr. de Jant solicitar a ratiScaglio do 
tratado, o que se ndo conseguiu, porque o cardeal de- 
claroo que de Jant bavia excedido as suas instrucgOes. 

Durante as conforencias em Lisboa com este minis- 
tro de Franga, para a redacgao do tratado de liga, e 
depois da partida de fr. Domingos do Rosario para 
Paris, bouve uma serie de cartas dei-rei D. Jodo iv o 
da rainba D. Luiza para Luiz xiv e para o cardeal 
Mazarìno, que o viscondo de Santarem acliou nos ar- 
cbivos de Franga, e em nenbuma d'ellas se allude sc- 
quer ao casamento. Porém, n'um despacbo de mr. de 
Jant para o cardeal Mazarìno, em setembro de 1655, 
Ibe envia juntamente uma còpia das razOes allegadas 
pela rainba D. Luiza nas confercncias que sua mages- 
tade tivera com elle embaixador. 

N'osse pape), escripto e arrazoado com superior ba- 
bilidado politica, e ainda notavel pelaaltivez da pbra- 
se, se le este periodo: 

«Que a Franga Ihc fazia'Bsperar que quando se tra- 
tasse do casamento dei-rei (Luiz xiv) se teria particu- 
lar consideragOo com a infanta sua filba; que elle do 
Jant podia fazer conceito da sua belleza, pois a tinba 
visto; mas que sondo està a menor de suas qualida- 
des, e sondo a intongdo do cardeal dar a el-rei de 
Franga uma mulber de condigdo branda, submissa e 
obediente, era Catbarina, soa filha, o abbreviado de 
todas as perfoigucs ; de sangue tao illustre corno qual- 
quer da Europa, e digna so de um rei de Franga. Que, 
todavia, soubora com bastante displicencia quo a frus- 
travam d'aquolla esperanga, tornando por nretexto o 
procedimento de Portugal ^ ; mas que a tudo nos de- 
viamos resignar n'estc mundo: que se nio bouvossc 
para a infanta sua filba reis na Europa, nUo Ibe fai- 
tariam convontos em Lisboa, onde olla por menos de 
dois milbOes ^ poderia entrar para servir a Deus o res- 
tante de seus dias.» 

Acbavam-sc n'este ponto as negocìagOes com a Fran- 
ga, quando falleceu D. Joào iv, a 6 de novembre de 
1656, ficando a rainba D. Luiza regente do reino du- 
rante a monoridade de D. Affonso vi, que a este tempo 
contava apenas treze annos. 

Luiz XIV enviou a Portugal por seu embaixador o 
conde do Comingos, a dar os pezames A corte do Lisboa 
pela morte dei-rei D. Joao. E ao mesmo tempo a rai- 
nba D. Luiza nomoia fr. Domingos do Rosario por seu 
plenipotenciario, para ir exprossamente tratar do ca- 
samento da infanta D. Cutharìna com Luiz xiv, rei do 
Franga, e podir uma armada para segurar a barra de 
Lisboa, e mil cavallos para roforgar o exercito do Alcm- 
tejo. 

dote da infanta cram dois milbCes de cruzados e 
a praga de Tanger. 

Nào contentaram ao cardeal Mazarìno estas clausu- 
las, porque olle quoria uma praga marìtima cm Por- 
tugal para ancoradoiro das esquadras de Franga. 

A mosma protengdo bavia ja manifostado o cardeal 
antes da paz de Munster, porque o padre Vieira, n'uma 

i Nao activftr a guerra contra a Hespanha pelo modo indieado pela 
Fran^. 
S Era o dote que le Ihe bavia estipulado. 



120 



ARCHIVO PITTORESCO 



3 



consulta que Ihe fizeim o marquez de Nisa, nosso em- 
baìxador em Paris, diz-lhe que antes se de Mazagào 
uè Tanger, porque os cavalbeiros de Africa erara to- 
os uascidos e casados o'esta ultima praga, «e obri- 
ga-los (accrescenta) a que fìquein subjeitos a rei es- 
iranbo, é coìsa em que intendo nào virào nunca. Nada 
nos aproveitarà darmos-lbes agora Tanger senào para 
depois nos pedirera Lisboa, se quizermos nos soccorra 
poderosamente.» 
Tanto elle conhecia a per6dia do cardeal! 

(Contiuùa) A. dà Silva Tullio. 



OS DUELLOS 



Ha uiua contenda entro dois homens. Estes homeos 
encontram-sc e balem-se. É naturai. Os irracionaes fa- 
zem outit) tanto. Odiar quem nos odeia, verberar quem 
nos verbera, castigar quem nos insulta, ó o effeito do 
instincto. Os combates singulares tem a sua origem 
em a natureza; é um uso tao antigo comò a socieda- 
de. Os prìmeiros socos julgàmos que se seguiram aos 
primeiros afagos. primeiro dos combates é o prin- 
cipal capitulo da historia dos primeiros irmàos. 

combate em que morreu Àbcl nao foi um duello, 
mas antes um recontro, porque nào houve de um lado 
a resistencia uecessaria para dar ao acto o caracter 
de um combate singular. 

combate entro dois homens nào póde rigorosa- 
mente chamar-se duello senào quando é o resultado 
de urna provocalo e o effeito de um ajuste commum, 
em que intervcm outros homens, comò padrinhos, 
para a escoiha de dia, de campo, de armas, etc. Nada 
impedia que os homens se matassem sem accordo pre- 
vio; mas a cortezia cxigiu que houvesse accordo com 
determinadas formalidades. Ganbou porventura a hu- 
man idade com tal cortezia? 

Principia aqui a historia do duello. Deve-sc a dois 
irmàos esle lugubre invento. primeiro duello de quo 
ha memoria foi o de Eteocles e Polynices, que se ma- 
taram proximo das muralbas de Thebas, 1228 annos 
antes da era christà. No firn do mesmo seculo, em 
1209, houve oulro duello notavel, entre Paris e Mene- 
lau, junto das muralbas de Troia. Um, depois de doze 
annos de posse, batia-se para conservar a amante; e 
outro para reconquistar a mulher ao cabo de doze 
aniK)s de privagào. Sào factos dos tem[)OS heroicos. * 

Os duellos sào póuco frequentes entre os hebreus. 
Nào asseguràmos que se encontre na historia outro 
além do de David e Golias. Sabe-se o que succedeu. 
Uma crianga com uma pedra anniquilou um gigante 
armado de ponto em branco, o que veiu provar que 
OS grandes nào podem desprezar os pequenos, nem 
OS fortes desdenbar dos fracos. 

Enconlram-se na historia romana muitos exemplos 
de duellos. Ora é Manlio que briga com um gaulez e 
Ihe tira o collare ora ó Corvino que tambem alcanna 
triumpho contra um gaulez em combate onde o au- 
xilia um corvo. 

mais celebre dos duellos romanos 6, por sem dù- 
vida, quo se deu entre os Horacios e os Guriacios. A 
causa e o resultado sào conhecidos. Era para a eman- 
cipagào da cidade natal ; era para a escravidào da ci- 
dade rivai que os seis heroes combatiam. Contenda 
goral, e nào pendencia particular, tinha-os obrigado 
a Ian(;ar mào das armas. Cada um dos contendores re- 
presentava um povo : Roma vencia com Iloracio ; Alba 
foi vencida nos Guriacios. 

Està ó a razào constante dos duellos entre os an- 
tigos. Dependia a sorte de Troia do duello entre Paris 
e Menclau; e a liberdade de Israel estava no duello 
de David e Golias. 

Assira OS antigos poupavam o sangue humano, ab- 
breviavam as gucrras, que de outra fórma acabariam, 



comò hoje, com a exterminagào ou absorpQào de uma 
das na^Oes belligerantes. Tinham n*isto mais bom 
senso que nós. 

Nos tempos modernos, os duellos nào so nào poze* 
ram termo às guerras, mas tem ensangucntado a paz. 

Foram os barbaros do Norte que, escravisando as 
provincias romanas, introduziram* n'ellas o tristissimo 
uso, a que a ferocidade d aquelle povo recorria em 
qualquer circunstancia, quasi sempre para deseolaco 
de interesses particulares e muitas vezes miseraveis. 

A Europa, pelo espa^o de doze seculos, foi dizimada 
pelos duellistas, e os legisladorcs occupavara-sc antes 
em formar um codigo do duello, do que em condem- 
nal-o e punil-o. A lei, que estabeleceu muitos outros 
absurdos, indicava os casos em que podia recorrer- 
se ao duello, e legalisava o que era apenas tolcrado. 
Desde entào o duello decidiu todos os pontos duvi- 
dosos a respeito do jurisprudoncia, de theologia, de 
ampr e de vaidade. 

Ky com effeito, no amor proprio que existe a causa 
da mania do duello. Portanto, deve combater-se està 
mania com o amor proprio. Conseguir-se-hia prepa- 
rando a opiniào publica contra um uso que foi acccito 
por toda a parte. Gonseguir-se-hia incitando o escar- 
neo publìco contra uma loucura que se propagou com 
applausos geraes. Jd quo o rigor nada tem podido oh- 
ter, corabatamol-o pelo ridiculo. 

Figura-se-nos bastante ridiculo ver um homem of- 
fendido pedir ao acaso reparagào de offensa que nos 
tribunaes podia exigir e receber. Tal homem iliudiu 
ou desencaminhou tua mulher ou tua filha, e levou 
a dcsordem e a desola^ào ao scio da tua familia; e 
para teres direito de castigar esse homem, é mister 
que te arrisques a ser assassinado por quem te offen- 
(leu, e que vàs pcdir-lhe satisfaccio! 

Ila uma caricatura ingleza que representa bem as 
consoquencias de um duello provocado por uma causa 
similhante. Dois homens, no campo, apontando as pis- 
tolas, atiram ao mesmo tempo. A. sorte, que quasi sem- 
pre se mostra tao justa comò os homens, nào favore- 
ceu que foi offendido. Assassinado pelo homem que 
a injuriou, o mallogrado marido où pae expira^ di- 
zendo : — Estou satisfeito ! 

Resume-se n*este oxemplo o que o duello tem de 
barbaro e absurdo. 

que é um espadachim? Um miseravel que entre 
as diversoes do jogo e das orgias se exercita nas ar- 
mas, e que se encontra prompto para desaGar todos 
contando com o triumpho e com a impunidade. Nada 
tem que perder, porque a honra e a vergonha nào 
Ihe pesam nem o incommodam. Mas sera o espada- 
chim tao animoso no campo das batalbas? Nào: por- 
que alli nào conbece as balas que o podem ferir, nem 
apararà os golpes que podem matal-o. 

É, coratudo, taraaoho o imperio dos precooceitos, 
que, apesar de combatermos o duello, devemos con- 
fessar que ha casos em que ó mui difficil evital-o. 
Nào estamos ainda no tempo em que Themistocles po- 
dia dizer, curvado ao bastào de Eurybiades: «Date, 
mas ouve!», e conservar no exercito a consideragào 
que gozava. militar que, tendo recebido uma bo- 
fetada, desse a outra face, comò o Evangelho acon- 
selba, ganharia, por sem dùvida, o ceo, mas seria 
desprezado pelos seus camaradas. 

Ha tempos foi morto em duello um homem que era 
geralmcnte estimado. Bat(5ra-se com um duellista co- 
nhecido. Depois do facto, perguutava-se : «É possi voi 
evitar os duellos?» É. «Como?» Fazendo uma lei em 
que se estabelega que serd castigado comò assassino 
duellista de profìssào que matar alguem em duello; 
e que sera absolvido lodo aquelle que, sondo provo- 
cado por um duellista, o matar em duello, porque usou 
do direito de defesa e livrou a sociedade de um mau 
individuo. 



16 



ARCniVO PITTORESCO 




b d« corhei de gftU ou CArrofAi li1iunplu«s del-nl D. Jtdo T 



LUXO E MAGNlFir^NCU DA CORTE 
DEL-UEI D. JOÀO V 



0' programma dae solemnidades e fcstas com quc 
cl-rei D. Joào v detcrmindra celebrar as nupcias de 
seus filbo3 ainda nào eslava precncbido. Faltava-lhc 
uma parte muito importante, qual era a eolrada pu- 
btica dos prÌDcipcs do Braell na capital do raino e os 
festejos com que havia de ser solemnisada. Eete re- 
male de t&o Eumptuoeas ruDcc^cB correspondeu cahal- 
mente Aa pompas e esplendores ostentados do t^ia 
pela corte portugueia. 

Para transportar a familia real, o scu numerosis- 
simo sequito, e os cocbes, cavalgaduras e bagagens, 
foram enviados para a boca do Moniìjo um berganCÌm 
rea], irinla ^alcolas e escaleres; e mais de mil laluas, 

Tomo u ISSS 



fragatae, balcia, varioos e outras embarca(6es que na- 
vegam no Tejo. 

bcrganlim foi [eìto espressamente para servir 
n'esle dia. Excedia muito no tamanho, bem corno em 
elegancia e rìquoza, a todas as emt>arca£Oea reacs até 
eiitao vìetas no Tejo. Tambem se estrearam n'esta oc- 
casiao OS mais rìcos eecaleres e gaJeotas que figura- 
ram no corlejo. 

Petas dei boras da manhS do dia 12 de fevcreiro 
largou de Aldeia Gallega o berganlim real. Logo alraz 
vinbam as trinta galeotas e escaleres, disposlos em 
duas alas, e em seguida velejava aquella immensa 
Trota de barcos de tao variados feitios e tamanlios, 
todos empaveiadoe de bandeiras e flammulas multi- ' 
coree. 

Atravessou o rio esle brilbanlissimo cortejo em di- 
reitura ao convento da Madre de Deus, cm frcnle do 

3ual saudaram as salvas de artilberia do castello 
e S. Jorge, das forlalczas do Tejo e dos oavios da 



IHZ 



ARCHIVO PITTORESCO 



armado. Dcsde aqudle convento até Belem ia cos- 
teaiido terra, e em todo este trajecto a sua passa- 
gem foi verdadeiramente Itìurapbal. Às acclamagóes 
do povo accumulado nos cacs, nas janelias dos edifi- 
cìos e no aito dos montcs sot^ranceiros ao rio; os vì- 
vas das trìpulagues dos navios de guerra e mercantes; 
as girandolas de foguetes estoìrando no ar por toda a 
parte, em terra e no rio ; as salvas, que se repetirain 
por mais duas vezes, defronle do Terreiro do Pago e 
na chégada a Belem; muitas bandas de musica mar- 
ciaes, dispostas em differentes pontos da marinba, to- 
cando aiegrcs bymnos; e, finalmente, aquelle innu- 
meravel concurso de embarcaiQóes, muitas d*ellas re- 
fulgindo cobertas de oiro e sulcando magestosamente 
as aguas, formavam um espectaculo tao soberbo e ma- 
ravilboso corno esses que pbantasiàra o engcnho ima- 
ginoso do auctor das Mil e urna noiles. 

Para o desembarque da familia real tinba-se cons- 
truido um caes e comprida ponte em freote dos jardìns 
do palacio de Belem, no logar em que vemos agora 
caes de pedra da bella praga de D. Fernondo. Apcsar 
de ser feita de madeira toda aquella obca, era magne- 
tica e custou muitos contos de róls. 

Desembarcava-se dos escaleres em urna ampia es- 
cada de vinte dcgraus, no cimo da qual se Icvantava 
a grande altura um arco triumphul, de arcbitectura 
esbelta e coroado com as cstatuas da Liberdade, da 
Fama e da Fortuna. £ra està a entrada da ponte, que 
linha de comprimento uns dezoito metros, sendo guar- 
uccida de ambos os lados com bataustradas e vasos 
de flores, e o pavimento coberto de alcatifas. Onde 
acabava a ponte erguia-se um tempio, cuja cupukr, 
pintada interior e exteriormente «com figuras allegori- 
cas, era sustentada por columnas jonicas. 

Sairam do bergantim 05 soberanos e principes, e 
dìrigiram-se ao pago de Belem,. onde se acUava pre- 
parado para toda a corte um lauto refresco. Deniora' 
rara-se aqui suas mageslades e altezas em quanto des- 
embarcavam todas as pessoas da sua comitiva, e se 
apromptava e punba em ordem o prestito real. 

Era unia bora da tarde quando o cortejo se poz em 
marcba para a cidade, que n'essc tempo se achava 
multo afastada de Belem. 

Havia no prestito alguma differeuga do que condu- 
zjra a familia real da cidade de Elvas ao Caia, diffe- 
renza determinada pelo ceremonial usado na entrada 
publica dos soberanos na cidade de Lisboa. 

lani na frenle, a cavallo, os dois procuradores da 
cidade, seguindo-se: todos os empregados do senado 
da camara; os corregedores, tribunaes e mais empre- 
gados de justiga; os porteìros da canna, seis dos quaes 
Icvavam aos bombros magas de prata; os reis d'ar- 
mas ^, arautos ^ e passuvantes ^, com as. suas cotas 
e collares de oiro; o cocbe do corregedor da corte e 
casa; quarenta e oito cocbes dos lilulares; doze co- 
Gbes com os camaristos dos infantes e dei-rei, com os 
eslribeiros-mórcs, veadores e confessores da princeza 
do Brasil e da rainba; o cocbe do e&tribeiro-mór dei- 
rei; cocbe das camaroiras-móres ; onze cocbes das 
damas, agafatas e mogos da camara; nove cocttes de 
estado, ou de.respeito, da infanta D. Francisca, dos 
iofanteS'D; Antonio, D. Francisco, D. Pedro eD. Car- 
los, da princeza e do principe do Bra&il, da rainba e 
dei-rei; um cocbe com o infante D. Antonio, ouiro 
com inrante D. Francisco, outro com oa infantes D. 
Pedro e D. Carlos, outro com el-rei, a rainba e priu- 
cipes do Brusii; sessenta mogos de estribeira, a ca- 
vallo, eie, eie. 

Eotre OS triuta e nove cocbes da casa real que fi- 

1 Os trc8 reU d\\rma« intltulam-ao Fortagal; A}gaxvs e India. 

9 08 trcs arautos sSq denomiuados Lisboa, Silves e Goa, antigas 
capitaes d!aqttel]ea tres reinos. 

3 0« trcs paasAvantea cbamajn-se aantarem, Tavira e CodUm, quA 
eram anticamente; depois d*aqaellas cidadcs, ns prlncipacs terras dos 
dito» roinoa. 



guraram n'este acompanbamento bavia alguns que fo- 
ram estreados n^este dia. mais rico d'estes, e tao 
rico que sobresaia a todos os que até entào se tinham 
visto em Lisboa, assim comò aos que depois se viram, 
era o da pessoa dei-rei. Esmeraram-se tanto os artis- 
tas p^isienses em o afonnosear e enriquecer, que, 
sendo exposto ao publico antes de vir para Portugal, 
causou admiragUo na propria capital da Franga, nào 
obstante estar icofitumada a Ver as pomposas equipa- 
gens dei-rei Luiz xiv. Coutàmos of^reccr aos nossos 
assignantes, n'este volume, urna gravura d'este so- 
berbo cocbe, que aiuda se conserva em bom estado 
nas cocheiras reaes da calgada da Àjuda. 

Poz-se em marcha o prestito para a cidade, e, che- 
gaodo defronte do palacio do conie de Villa Nova de 
PortinHo, hoje da casa de Abraotes, parou a fim de 
se por na ordeoa em que bavia de fazer a entrada so- 
lenne em Lisboa. Safram dos coches os tres capitàes 
das guardas reaea e mais de quarenta mogos da ca- 
mara. Os prìmeiros montaram a cavallo e collocaram- 
se aos ktdos do coche àe sua» magcstades; e os se- 
gundos formaram alas, a pò, de um e outro lado do 
mesmo coche. Oe soldados d'aqucUas guardas vieram 
fazer uma scgunda ala em volta do dito cocbe, e os 
sessenta mogos da estribeira, tornando logar pela parte 
de fora dos ultimos, lambem a pé, fizeram terceira ala. 

Assim ordenado, proseguttt o prestito real até ao 
largo da Esperanga. Tiubam jà decorrido longos anuos 
depois (fue a cidade, rompendo o cinto de muros tor- 
reados com que a cingfra el-rei D. Fernando, se es- 
tenderà pelos arrabaldes. Na epocha, pois, em que se 
passam estas scenas^ era aquclle largo o limite de Lis- 
boa para a parte do- occidente. Achava-sc, pertanto, 
alti senado da camara para receber e felicitar os so- 
beranos e principes, que se apearam para ouvirem o 
discurso do mais antigo dos vereadores, ao que se 
scguiu a costumada entrega das cbaves da cidade. 

Em todas a» ruas do transito até à patriarcbai, si- 
tuada junto dos pagos da Ribeira, e que Scava a um 
dos lados da praga cbamada primitivamente paleo da 
Capella, depois praca da Patriarchal, e ao presente 
denominada do PelourinhOy viam-se, de espago a es- 
pago, com curtos intervallos, arcos triumpbaes de 
grande e custosa fabrica, levaniados pelos inglezcs, 
francezes, italianos e allemàes residentes em Lisboa, 
e empregados no commercio e outras industrias, e 
pelos negocianles, artistas e officiaes dos diversos of- 
Gcios mecanicos da cidade. 

Tendo enlrado as differentes classes em competen- 
cias de qual apresentaria mais brilbnnte demonstra- 
gào do seu affecto e respeito à {affli4ia real, todos os 
arcos eram grandiosos e ostenlavam multa riqueza, 
principalmente em pintura e tapegarias. primeiro 
arco, erigido no largo da Esperanga, era o dos ingle- 
zcs. Os outros levantavam-se na calgada do Combro, 
na rua direita do Loreto, rua larga das Portas de Santa 
Catbarina, Cbiado, rua Nova do Almada, rua Nova dos 
Ferros, praga do Pelourinho ^, Terreiro do Pago e larjgo 
da Patriarchal. Todas estas ruas e pragas estavam areia- 
das e juncadas de verdura e flores. As casas, ale aos 
primciros andarcs, tinham as paredes vestidas de pan- 
no» de Arras, e as portas e janelias com armagòes de 
damasco. Em grande numero d*ellas viam-se espelbos 
entre as janelias. 

Toda a tropa da guarnigSo de Lisboa, infanteria, 
cavalkria e artilberia, estava formada no Terreiro do 
Pago, e ahi dcu as descargas do estilo, seguidas d^is 
salvas do castello, fortalezds e embarcagóes de guerra, 
à entrada da corte na patriarchal. 

interior do tempio reluzia por toda a parte com 
as pedras preciosas, oiro e prata dos vasos sagrados, 

t FicAva esfaiu poqoena prn^ proxiaa. do Terreiro do Pa^o, no sitio 
correspondentc aos qnartoirdea da rua da Prata, entre as ruas dos Ca- 
peUistaa, ou Nova d'Rl-rei, e dos Retrosciroa, ou Nova da Coocelfiio. 



ARCHIVO PITTORESCO 



1^ 



das aifaias e das anna{)Ocs. cclebrado Ihesouro da 
<»peUa real, que encerrava ta&tas e tdo varìadas ri- 
qaczas, achava-se alli disposto em «pparatosa expo- 
sigdo. 

Depois de se cantar um Te Deum por otosica vocal 
4} ìnstramental, subirafn éo tenoplo para « page! suas 
magestadcs e altezas, « logo se deu priocipio ao bei- 
ja-miU). 

Fizeram-se n'essa noile t^splcodidas ìiluminacOe&, e 
houve um fogo de artificio de invengào grandiosa e 
magnifico effeiio. Os arcos trìumpbaes acima referi- 
dos, alguos iKilacìos dos mais opuientos fidaigos da 
corte, Terreiro do Pago e os oavios de guerra, apre- 
scnlaram mui vistosas ill«minagóes. Estes uJlimos, 
principalmente, ofifereciam um espectaculo, no dizei* 
de testifflunbas oculares« magcstoso e deslumbrante. 

fogo tcve por thcatro a praga d'armas do castello 
de S. Jorge. Fizeram-se alli para esse firn grandes 
construcgOes, com o auxilio das quaes se conseguiu 
imitar, com fogos artificiaes, dizem que com a maior 
naturalidade possivcl, uma erupgào do Vesuvio, cas- 
catas e fontes com muita variedade de repuxos, co- 
rno as que se cidmiram, alimcatadas por agua, no 
parquc e jardins de Versalbes, em Franga. 

Repetiram-se estes festejos, e varios outroa, nos trcs 
dias seguiotes. fogo «de vistas do castdlo de S. Jorge 
importou, nas qtmtro noites, na avultada quantia de 
quarenta contofi de réis, ou de cem rail cruzados, que 
ora modo de contar n aqueUe 4empo, e assim acbà- 
mos escripto em meroorias conteoìporaneas. Està som- 
ma, em uma epocha em qoe o oiro e a prata tinbam 
um valor inoito inferior ao que hoje lem, podenli dar 
urna idèa da graodeza do espectaculo. E um tal dis- 
pendio em quatro fogos de artificio póde tambem ser- 
vir de base para se calcular o dinbeiro que custaram 
ao tbesouro de Portugal a jopoada ao Caia, o encon- 
Iro e visita das duas familias reaes da peulnsula, e as 
festas do casamento do principe D. José e de sua ir- 
mà, a infanta D. Maria Barbara. 

(Gantbi6«) I. de V4i.iiBini Ba»bo«a. 



A LENDA DO ETffER SULPHUUICO 

(Conclaa&o. Vid. pag. 114) 

Aggravàra-se a molestia do margrave, centra a qual 
nada valiam tizaaas e siniples dos mais afamados em^ 
piricos. 

Acbacado de manias saoguinarias e violcntas, o 
terrivei caste! lào saia armado de ponto em branco 
pela potema abobadada, e corria a ponta da langa, 
montado no seu cavallo de batalba, os timidos babi* 
Nantes do burgo, que se escoavam pela cam^nna. 

Durante essas correrias medonbas, em que o fidalgo 
largava o cavallo a loda a brida, e, com a langa en- 
ristada, dcspedia chispas pelos olbos e varria tudo 
ndiante de si, a nìnguem obedecia o velbo castelldo. 
Querìa sangue, sangue, morte e ruinas. Debalde os 
camponezes erguiam os supplìces bragos aos cieos e 
ciamavam perdào. louco sanguinario despedìa o gla- 
dio, vibrava a langa, e, espumando de raiva e delirio, 
proseguia Irófego e fragueiro, semeando o tcrror e o 
espanto em derredor. 

Valerio Cordus, emtanto^ passava dias soterrado no 
seu laboratorio em continuo labutar. Quando sobrevi- 
nha a noìte, saia a furto, descia a «scarpa do fosso, 
subia à paligada, galgava as barbacàs, e, entrando 
por uma potema escusa, apertava nos bragos a linda 
castellfi, que o amava delìranle, corno sabem amar as 
poeticas e singelas virgens da pudica Allemaaba. 

— Valerio, damava ella, este amor ba de aer-fios 
fatai. Cruel maleficio deitaram a meu pae, que so 
pensa em matangas e chacinas. Quem sabe ee eu sou 
a causa dos seus tormentos? 



— Ob ! cala-te, mystica rosa, que oom a tua frograh- 
cìa diviua embalsamas a vida do pobre Valerio. Por ti, 
so poi* raerecer^tc, trabalho noite e dia n'um subtei^ 
raneo lobrego e cscuro. Tu ^ a Inz que me ^ssipas 
as trevas d'alma, -o raìo que me conduz na vercda da 
^iencia. Por ti, arrostarla a morte e uma eteraidade 
de lormentos do imCerno. Por U e pera ii busco a fa- 
ma, renome e as riquezas. Oh! Tu bas de ser mi- 
nba. "Boi de abragar^te, tssim, beai contra o peito, à 
/acc dos liomens, bcm corno o fago agora à face de 
Deus, que nos ve e abeiigoa, porqoc o nosso amor é 
casto virtuoso. 

— Nào! Valerio, nao! Negro <*. atroz presentimento 
me diz que bemos de ser infclizos. E, comtudo, sera 
•ti, que me importa a Tida! 

— Soccga, alma da minka alma, luz do nicu cor- 
po. Nào ba trabalho, por gi^ande q«te «eja, que afix nào 
leve a termo so para te alcangar. Hei de curar a san- 
guinaria loucura do conde de Hen iceberg, e corno pre- 
mio receberei a tua mao adorack, que me lia guiado 
no labyrintbo da \ìAh, 

— Se tal fizercs, Valerio, se conseguires afugentar 
as trevas que eniuctam a rasào de nien pae, se ras- 
gares o véo sangrento que Ibo empnna os ollios, dou- 
te tudo, tudo, o corpo e a ahna, o sangue e a vida. 
Seguir-tc-bci de rastos pelo muiido; seret mais do que 
iua Gsposa, screi tua escrava submi^a. 

— Seris meu anjo, a minba consolagfio. Vae, 
volta para o tecto paterno, aonde bombita a loucura. 
Vae consolar o misero pae, que se cont-orce nas vascas 
de atro delirio. No primeiro ifitervalio lucido, quando 
a tenue luz da nazào Ibe bruiulear no fuudo do ce- 
rebro, dize-lhe que Valerio, o pobre Valerio, póde sal- 
val-o. 

E mancobo apertou aìnda nos bragos a pudica 
donzella, cujos loiros cabellos, agitados de leve pela 
brisa bumida da noile, rogaram-lbe as faocs eiacande^ 
cidas. 

Valerio julgou que aqudJas trangas eram azas de 
anjo, tao suave foi a ifmpressào que sentiu. 

A doozelia desappareceu corno ama sylpbide vapo^ 
rosa. 

Dcslisando ao longo das muralbas, que se erguiam 
a pino por sobre a encosta aprumada, quem a visse, 
illuminada pela lua, sósinha, pensativa, juigàra ter 
evocado alguma visào angeKca, uma das poetioas fi- 
Ihas das brumas septeotrionaos, que se embalam nas 
nuveiis, gemere com a brisa, sorrìem com a pailida 
aurora, deixam os longos cabellos soltos ao sabor da 
viragào, por onde Irepam os gnomos, os espìritos do ar. 

Valerio ficou embevecido, extatico, mudo, vendo-a 
fugir quasi sem tocar com os pés na terra. Por um 
pouco se aisreceiou que os anjos arrebatassem a sua 
amada para os ceos. 

Desfdto encantamento, limpou uma lagrima de 
alegria e esperanga, e \'oltou para o subterraneo, t)nde 
se entregou à grande obra. man^iscripto de Basilio 
Valentim tinha-lbe desvendado um segrcdo, para elle 
de altissimo momento. Deitando a ferver urna mistura 
de acido soiphurico ou de eleo de vitriok) e alcool, viu 
que, em resultado d'està operagào, obiinka um liquido 
extremamente volatil e multo inflammavcl. Denomi* 
nou-o oleo de vitriolo dulcifìcado^ e, jurando nas pa* 
lavras do mestre^ ndo duvidou curar o furioso cas- 
teflOo. 

Em quanto Valerio Cordus, com as pupillas dilata^ 
das, pèscogo estendido, fauces abertas, màos trémulas, 
corpo arqueado, seguia pallido, receioso, palpitante, 
a operagào aJcbimica, à qual estava preso o seu futu* 
ro, outra scena, aSk> menos curiosa, se representava 
no castello. 

Toda a clerezìa dos arredores se bavia congre^ado 
no velbo solar, que estava aspet^indo de agua benfta, 
ao passo que com vozes roufenbas eatoava cxorcis* 



124 



ARCinVO PITTORESCO 



mos e emprausava o demonio, sob pena de castigo 
exemplar, para que abandonasse o corpo do fidalgo, 
qual, soltando gritos de descspero, eogeitava a santa 
eucbaristia, encerrada nas ambulas e ciborios. 

No outro dia aprestava-se Valerio para o solemne 
combatè; e, entrando ousado no castello, jurou pela 
sua cabega que era capaz de curar o conde de Hen- 
neberg. 

Com ser novo, grande reputagào de sabio bavia al- 
cangado Valerio; por isso foi accetta a sua offerta, su- 
jeìtando-se à condigào de se encerrar com o doente em 
urna torre solitaria. 

Dois foram os roczes que durou a lucta; mezes de 
angustia e receio para a donzella, que mal ousava 
esperar a salvagao do pae e a mào do amante. Pas- 
sado, porém, esse tempo, safu o conde inteiramente 
curado, e exclamou em voz alta e sonora no meio dos 
seus sequazes cspantados: 

— Como premio e recompensa, dou a mào de mi- 
nba filba ao meu Salvador. 

Grande foi a admiragào dos circunstantes; maior, 
porém, foi a aiegria dos dois amantes, cujos YOtos o 
ceo ouvira propicio e compadecido. 

Gorreram tres mezes. la grande festa no solar. As 
torres illuminadas langavam ao longe uns clar6es fui- 
Yos, que ìam morrer na orla da floresta. Ouvia-se um 
alarido de prazer por todo o ambito. Dangas e folga- 
res, repiques de smos, iantos banquetes, nada faltava 
ao iuzimento e apparato do festcjo. Valerio Gordus, o 
misero e pobre alchimio, desposàra a rica berdeira da 
nobre familia dos Hennebergs. cortejo que seguìa os 
noivos, jàmais se vfra outro mais cbeio de pompa e 
garbo. Giro, diamantes, pedrarias, aue n'aquella ma- 
gica noite brilharam à luz dos branaóes, jàmais olhos 
de bomem tinham admirado em tal excesso. 

Noite de aiegria e prazer para todos, de delicias 
indiziveis, de afagos e carinbos para os noivos. 

Por isso, quando os ultìmos soidos da festa se cs- 
vaeciam, donzellas e donzeis suspiravam de amor. 

No outro dia, jà o sol ia nado e esparzia a flux os 
seus raios doirados, e ainda no quarto nupciai nào se 
ouvia mais tenue rumor. Nenhuma gelosia se abrfra. 
Parecia reinar alli a paz e a escuridào dos tumulos. 

Gangados de esperar, abriram os famulos a porta e 
recuaram espavoridos. 

À desposada jazia morta e sangrenta nos bragps de 
Valerio, cuja cabega estava separada do tronco. 

velho conde de Hennebcrg, com as màos retintas 
de sangue, as barbas brancas salpicadas, os olbos in- 
jectados, rubros, safdos das orbitas inflammadas, en- 
costàra-se ao montante, e, langando um olhar sinistro 
e ameagador para os cadaveres, soltava umas garga- 
Ibadas roucas que faziam arrìpiar. 

Estava doido outra vez. 

Tal é a lenda do etber sulphurico, lenda terrivel, 
comò terrivel barào germanico, cujo lypo de familia 
tragou o grande Goethe no celebre Mào de ferro, 

A sciencia conta muitas d'estas Icndas, porque os 
combates com o desconhecido nem sempre s&o in- 
cruentòs. Quantas vezes a que devéra ser candida e 
immaculada tunica da verdade é regada pelo sangue 
do martyrio? Que o digam os viajantes que denodados 
se entranham nas invias solidòcs, e morrem sacriGca- 
dos affrontosamente pelos selvagens. 

Passaram dois seculos depois da tragica morte dos 
desposados. No primeiro quartel do seculo passado, 
um chimico inglez, chamado Gri£fiths, achou'a fòr- 
mula do oko de vitriolo dtUcificadOy ou oleo doce de 
vinfw, Griffiths estudou e aperfeigoou a fòrmula, e 
preparou, em firn, o ether comò hoje se prepara, e 
deu-lhe este nome em virtude da sua extrema fluidez. 
novo agente therapcutico alcangou grande voga, e 
todos porGaram em Ihe determinar a fòrmula. pro- 
prio Newton entregou-se a este trabaiho com o cos- 



turaado ardimento. Quatorze annos depois, foram mais 
felizes Grosse e Duhamel, porque descobriram, des- 
creveram e vulgarisaram os processos de fabricagào, 
OS (juaes, desde està epocha, poucas ou nenhumas 
modiflcagOes hào soffrido. 

Por muito tempo se exaggerou a importancia cura- 
tiva do ether sulphurico. Newton cbegou a juigal-o 
verdadeira panacèa. Hanckwitz, Hellot e Geofiroy de 
tal arte Ihe apregoaram as virtudes, que todos à uma 
desejavam tomar tao poderoso remedio. 

No principio d'este artigo jà vimos quaes as proprìe- 
dades therapeuticas do ether sulphurico, propriedades 
bem restrictas e limitadas. 

Muitos sào OS usos do ether, mas o principal con- 
siste na preparagào do collodium photographico. 

A. Obobio db Vasoohcìbllos. 



GELLERT 



FABULISTA E MORALISTA ALLEMAO 



Christiane Gellert nasceu em Haynichen, aldeia da 
Saxonia, proximo de Freyberg, aos 4 de julho de 1715. 
Era cura de alraas seu pae, cujos haveres devìam de 
ser tao escassos, que mal cbegavam para o sustento 
da familia, composta de treze filhos. 

Em um ensaio poetico, que compoz ainda em mui 
verdes annos, Christiano Gellert representava a fami- 
lia sob a fórma de treze pilares que se viam em frente 
da casa paterna, indicando que os treze filhos deviam 
amparar os seus velhos e dignos paes, assim comò um 
numero eguai de pilares sustentava o edificio. Dois 
d*esta numerosa familia mostraram desde muito novos 
as meihores disposigòes: Christiano Gellert, de quem 
vamos tratar, e seu irmdo Christlieb, que foi depois 
inspector de minas em Freyberg, e é auctor estimado 
dos Eleinentos de chimica metallurgica e de docima- 
sia, que o barào de Ilolbach traduziu em francez. 

A màe de Gellert era mulher bondosa e de excm- 
piar dogura. pae era o typo da probidade; amava 
a poesia, e sabia-a inspirar a seus filhos, principal- 
mente a Christiano, que mandou para uma das boas 
cscholas de Meissen. modo comò entào se derra- 
mava o ensino superior na Allemanha seria mais pre- 
judicial que util ao mogo Christiano, se para combater 
enfado dos methodos nào fosse prendado com as 
mais altas qualidades. 

Foi em Meissen que Gellert apertou os lagos de ami> 
zade que o ligavam a alguns aos bomens que depois 
formaram a pleiade de litteratos celebres do seu tem- 
po, entre os quaes figurava o satyrico Rabener. 

Em 1734 seguiu o curso da universidade de Leipzig, 
aonde tambem o acompanhou Rabener. Seu pae, tendo 
feito muitas despezas com a educagào de outros filhos, 
viu-se obrigado a mandar sair Christiano da universi- 
dade, quando apenas contava quatro annos do curso. 

Gellert quiz seguir a profissào ecclesiastica, porque 
fizera cstudos especiaes de theologia; mas certo aia, 
nào podendo continuar um sermào sem recorrer aos 
apontamentos que conserverà no fundo do chapeo, e 
vendo que mesmo à vista dos apontamentos se distra- 
hia, convenceu-se para logo que nào era aquella a 
sua vocagào, e entregou-se ao ensino particular. 

N'aquella epocha (1740) gozava boa saude. Nào fora 
ainda accommettido pela enfermidade oue Ihe bavia de 
ir pouco a pouco destruindo a vida. Encarregado da 
educagào de um de seus sobrìnhos, voltou em 1741 a 
Leipzig, cidade que estimava particularmente, e onde 
estabeleceu, passado tempo, definitiva residencia. 

Continuou alli os estudos da universidade, para se 
formar em uma das faculdades e poder dedicar-se ao 



ARCHI\0 fnrORESCO 



125 



ensìno publico. assumpto da sua these foi ó i^- 
logo. Esla disserta^ao, que é por sem dùvida um tra- 
baJho notavel, e ra qual eabóyou e analyaou os anti- 
gos Tabulìglas allemiìea, foi conio a introdiK^o daB 
euas fabulae, cujo germen }i se Ifae deseavolvia na 
menle, e figura à frente daB Fabuias e amtos, em to- 
das aa cdìgóes daa suas obras. 

Principiam d'aqui oa laTores litterarioa. Gellert com- 
punba pequeninaB obras em prosa e verso, e dava-as 
& publicidade em divcrsos Hemauartos de litteratura. 
Nao se apurAra, todavia, o gosto na patria de Gcctbc 
e Scbiller. A lingua DacioDal nào era honrada corno 
devia de sel-o. Na sociedadc passava cm moda e com 



desvanecimento o uso das liaguas eslranbas, sobre 
ludo franceza, e isto dava ù. conversa^ao um caracter 
extravagaDte e aemi-barbaro. Rastejava a poesia, em 
vcz de erguer-se altìva; e oa poetas, que adulavam 
OS gracdes e podcrosos, anten cantavam o nascimeo- 
to, as nupciàs e oa aDuiveraarioB festivos daa pessoas 
de elevada condicSo e abastadas, ou cboravaiD cm 
sentidas neniaa os seus deagoslos, do que caDlavam 
aa glorìas da patria ou laslimavam aa auas deagrasaa. 
Animo» mais despreoccupados e corajfles mais do- 
brcs procuravam, comtudo, vencer tal degrada^ao e 
enviiedmenlo. critico J. C. Gottschcd mostràra-se 
contrario ao mau gosto da cpocha, porém com tanto 



,/ »«'- 




CllHttluio aitliirt 



pedantismo, que ponco sjmpathica bo tornou a sna 
opposigiko. No entretanto, um grande servilo se Ibe 
devcu: foi desembara^ar o tcricoo, guiar a iitteratura 
allema para o bom carainho, e preparar diacipuloB que 
deviam ser mais distinctoB que o mestre. Entre estes 
conta-se o poeta Hagedorn, narrador e fabuiista, que, 
asaim corno o seu coetaneo Mailer, mostrava o que 
podJa e valia a poesia alIemS. 

mo^o Gellert filiàra-se no partido do grande lit- 
terato Gottsched, mas separou-se d'elle, corno outros 
discipulos, quando o mestre, eingularmentc cncoleri- 
eado e despeitado, aggredia sem prudencia ob anti- 
gOB partidarios e discipulos, que via jà seus rivaes 
naa letraa. 

A' polemica exaggerada nào se harmonisava com a 
indole pacìfica, nem com a probidade de Gellert. Dei- 
sou, pois, com OB seus amigoa, entre oa quaes se 
contavam nomea yi. illustres, corno Klop&tock, Kleist, 
Rabener, Schlegd, Schmid!, etc,, a publicagào onde 
Gottsched reinava corno despota, e rcsotveu-se a fun- 
dar com elles duas oulras publicaj^óes com os tituloB 
de Novas conirtóuifiJfS para distrac^ao do espirilo e 



CoUec^So de obras varias, que logo conquistaram sym 
palbìas e applauso. '> 

Eucontrava-se n'eetas duas publica^Ges o que a lit- 
teratura allema, nos seus diversos ramos, podia apre- 
sentar mais perfeito. Exclulra-se qualquer satyra pcs- 
soal; 03 mais intimos la^os de amizade Ugavam os 
collaboradores ; estes rcuniam-ec urna vez por sema- 
na; cada qual apresentava a sua obra, lia-a em voi 
alla, apresentava-a para ae discutlr, ouvia as obser- 
va^ùes e acceilava as emendaa. Em tao auspìcioso ce- 
naculo nSo assomavam invejas nem rivalidades; en- 
treapparecia a ambi^ao, é verdade, mas a ambìf^o de 
serem uteis e de ae cxercitarcm no bem. 

Aquelles mancebos comprehendiam superiormente a 
amizade, e a todos e em tudo se avaotajava Gettert. 
Prova-se isto com a sua correspondencia, e especial- 
mente na quo Irocava com Rabener. Gellert era o 
amigo liei, dedicado e sensivel. 

• Cada amigo novo, diz elle na sna corresponden- 
cia, é nova Telicidade que profundamente agrade^o ao 
ceo. Kao coiibcEo mais nobre distrac{;ao que reunir 
na mente os amigos' e consideral-os comò Formando 



ÌH 



àBCHivo pirroiEsco 



Tima s6 facnilia /no nuindo. Siato-me feliz quaindo obi- 
servo ora vm ora Dutro, e em cada qaal dcsci^o 
prendas e merecìmentos di?erso8, poróm em todos o 
mesmo sentimento para o qtie é bom e beilo, « co- 
ragOes sensi veis, nobpes e generososl E mais idìz soa 
tiuando considero tambem que portento a essa fami- 
ha, «e corno a sima se me exalta com o dcsejo de tor- 
oar-me digno d'elles!* 

De outra vez exclama^t^a: 

«A amìzade é um grandissimo senttmeote! e quao 
pequeno é o numero dos que sabcro apreciar este dom 
do oeo e utilisàr-se d'elle!.... Que dina o mondo, que 
Tvào póde comprebender taes delicadezas^ se nos ou* 
visse fallar d*esle modo? Julgaria gue disparatavamos. 
Mas que temos com a opinilo dessas almas frias e 
pusillanimes, que parece ignoram a sua propria natu- 
reza?» 

As obras de Gellert ganbaram-lbe muitos amigos, 
e ale amigos desconbecidos, que, sob o véo do ano- 
nymo, Ibe lestimunbavam a elevada coosideragdo em 
que tinbam o seu engenbo e o seu caractcr. E o maior 
triumpbo que póde desejar um poeta, nm escriptor em 
geral, é merecer, tanto por seu procedimento comò 

E or seu talento, a admiragào e a estima dos bomens 
ons e probos. Tambem é uma prova de que o es- 
criptor póde inspirar confianga e dar ao Icitor a con- 
vicgao que o animava e dirigia. 

Gellert alcangou na vida mais que um d'cstes trium- 
phos lisonjeiros. 

Nenhum podia ser-lhe, poréra, mais scnsìvel que a 
bonienagem de um nobre estrangciro que nao vira 
nunca, e que nem sequer conbecia. 

Admirador sincero das obras de Gellert, o barao de 
Cbaussen mandou otferccer-lbe uma perisào. poeta 
nào possuia riqueza; sabiam-n'o todos. Era, comtudo, 
orgulboso. Procedeu comò bomem brioso e honrado: 
nào acceitou o offerecimento do barào de Cbaussen. 

Annos depois, era 25 de Janeiro de 1759, escrevia- 
Ibe Christìano Gellert, em uma triste circunslancia, a 
segu iute carta: 

«Nào conhecendo ningucm que tenba prestado mais 
servigos que vós a minba roàe, <leveis de ser, meu ge- 
neroso amigo, a primeira pessoa a <}Qem eu participe 
a sua morte. Acabei de recéber està ma nova, e assim 
que julguei mais serenada a minha afQicQào, e cum- 
pri dever da piedade lìiial derramando abundan- 
tes lagrimas, assentei-me para vos escrcver: o meu 
coragào, profundamente conslernado, nào póde nem 
quer hojc expandir-se em outro objccto... A ultima 
bengào de minba màe foi para vós e para mini. Em 
nome d'està alma bemavenlurada, meu bom amigo, 
vos agradeco os beneficios com que a favorecestes du- 
rante tantos annos... Minba prezada màe nào còmpre- 
bendia que um estranilo podesse por tanto tempo pres- 
iar-tbe um benefìcio que uem ella nem sou tìlbo me- 
Tociam, corno a posteridade, se liver conbecimento de 
ial rasgo de pbilanthropia, nào comprebenderà que um 
bomem esclarecido, admirador das boas letras, longc 
-da minha patria, sem que eu Ihe soubesse o nome, 
me offerecesse uma pensào do modo mais generoso e 
tlelicado, e depois da minba recusa mandasse essa 
pensào a minba màe, que elle so conbecia pelas mi^- 
Dlias cartas. Amei sempre minba màe, e por isso, até 
ultimo suspiro, amareì e venerarci «o seu beiófei- 
tor...» 

Bacava so este facto para se provar, no caso de 
ser necessario, que era bem fnndado o triumpbo que 
aicangaram para logo as obras de Gellert, principale 
monte as Fabulas e contos, que vieram a lume em 
1746, e se viam em todas as màos. 

Bncantava reahi>ente possuir, em firn, um livro ao 
alcance de todos, escrìpto na lingua nacionai; um li- 
Tro onde tudo era simples, naturai, facii; um livro 
«Mde a cada passo se nos depafavam iigOes de mora! 



•e exeniplos de ihonradez. estilo era finente, sem pe* 
4aDleria; o verso perfeito; a phrase propria, escolbl- 
<la, sempre adeqnada «ao assnmpto. Gra(^ alegria^ 
«nlevos em todos os iquadros. A arte, cm vez de se 
iaifaater para a protecgào dos grandcs e poderosos, er- 
guia^se para o «usino dos pequonos e faomildes. E 
d'ahi nasceu a popularidade 4e Gellert, -qneboie pare* 
<^erù araso «exa^gerada, imas qee foi am ^grande facto. 
Vamos apreoiar algans d^esses quadros. 

^CcmtlnÙA) 



AS MINAS DE ALFARELLA DE lALES 

EM TRAZ-OS-MONTES 

É geralmente sabido que a grande riqueza minerai 
do solo de Ilespanba foi um dos inccntivos que a està 
regiào attrahiram successivamente os pbenycios, os 
gregos, OS cartbaginezes e os romanos. «Era nenbum 
paiz do mundo (diz o geograpbo Strabào) se acbou 
aìnda, comò em Hespanha, oiro, prata, cobre e ferro 
em tao grande quantidade, nem de melbor qualida- 
del.» Se acreditarmos alguns bistoriadores antigos, 
descobrimenlo das primeiras minas de Hespanha foi 
devido a um infeliz acaso. Infeliz, dizemos, porque a 
riqueza do seu paiz, incitando a cubica dos estrangei- 
ros, custou aos bcspanboes rios de sangue e a perda 
da sua liberdade. 

Dizem, pois, aquelles auctores, que bavendo uns 
pastores lan^do o fogo a alguns mattos, na raiz dos 
montes Pyreneos, o incendio em breve se estendeu às 
cspessissimas selvas aue cobriam aquella cadeia de 
mootanbas, do lado da Iberia; e tal foi a violencìa 
do fogo, que, bavendo queimado a superficie do ter- 
reno, fez correr regatos de prata derretida ^. Como 
quer que fosse, o certo é que os pbenycios se deram 
com maior cuidado à exploragào das minas de Hes- 
panha; depois d'elles os cartbaginezes; e por ultimo 
OS romanos, que priraeiramcnte langaram sobre ellas 
um tributo, ou as arrendaram aos particulares aue as 
queriam explorar; e por ultimo se apossaram de um. 
certo numero de minas, cujas excavagOes faziam por 
conta do eslado, conservando, quanto às reslantes, o 
mcsmo systema de arrendamento a particulares ou a 
companbias, por uma certa quantia fìxada de ante- 
mào ^. 

N'esta tao notavel riqueza minerai nào foi a Galle- 
eia menos favorecida da natureza do que as outras 
provincias da Iberia. Segundo uma antìga tradigào, 
refenda por Justino, bavia junto à frooteira d'està re- 
giào um monte sagrado, em que era prohibido tocar 
com ferro; sómente quando o raio fendia a terra 
(o que acontecia frequcntes vezes) era permittido rcr 
collier oiro que ahi ficava a descoberio, comò um 
presente da dinadade K Està tradigik), quanto a nós, 
mostra a facilidade com que se eucontrava o oiro puro 
quasi à superOcie do terreno. Mas a Gallocia ofiTcrecia 
tambem cobre, cbumbo, ferro e vej*melhào (minium)^ 
que até deu o nome a um dos rios do paiz ^. 

Nós suppomos que as minas da Gallocia so foram 
exploradas no tempo dos romano^. Nem os pbenycios, 
nem os cartbaginezes, passaram nunca, a nosso ver^ 
para o norte do Donro; aquelles, qaando muito, toca- 
riam de passagem m\ algum porno da costa. inte- 
rior do paiz estava, poróm, inexplorado naepocha da 
primeira invasào romana na peninsnla. Quanto aos*na- 
turaes do paiz, eram elles tao pouco cubigosos de oiro 
corno geralmente o Inram todos os povos na sua pri- 
mitiva. «Bsles metaes (diz um escriptor nosso) ndo ti* 

i Strab. — Qeoffrelph., llv. in, e Hcrodoto, l!v. rv, 152. 
> ArUtot. de Uìrab. Ansenlt. Dlodoro Sical., ÌW. y, 3(. 

3 Romey — Hitt. de Eupanha, parte x, eap. xn. 

4 Justin. — Hut^f lly. xuv, cap. ui. 

5 Id. ibid. 



ARCHIYO PITTOBESC0 



m 



ithaoi OS hespanboes tirado d'as mìims por stis mditS'- 
tm, ncm d'eJlas tinham coohecimoDto,. nem uso ; mas 
08 tioham soltos e havìdos prò dereiictOy comò, coisa 
a elles inutil... E eomo aquella gente vivia aa sim- 
pteza oatural, ou, para meUior dizer^ u'aqueUa feiici- 
dade, e ndo sabfa o uso d'aquelies metaes, «ao. pade- 
eia faha delles a troco do que bavia mialer K » 

Os romaoos, esses abriram no Gallecia amplas mi- 
nas, de algumas das quaes aioda heje cestam nini 
DOtaveis Yosti^ios. Tacs soo os que fòrmani: o assuro- 
pto d'este artigo^ e que existem na {oegueaia. de 8%. 
Miguel de Tres-Minass do extineto cDncelho de Alfa- 
rella de lales, comarca de Villa Pouc» de Agviar.. 

erudito, padre Argotev do aeu: cueìosq lifro Dt 
eLntiquitatdlm& canventus brmarnuguatani^ dea^Boa jà 
urna miouciosa descrìpgio d'estas excaiia$o«s.. Beve- 
mos, porém, à obsequiosa amizadie daar. AntoaioJoa^ 
qoim Goises Pereira, dia vilia dct Mocga, a seguiste 
ROticia, que elle obteve de* uni caralbeiro da JbeaU- 
dade, e que passàmos a trafiscrever fìelfflente: 

«A distaocia, apreximadameotev de 1:256 metroa 
do iogar da Rìbeìrinba, eatre norte e poente, existe 
urna eKcavaQdo sttbterpaocx, que tem a sua eoirada a 
fazer face ao nascente, partindo em direcQào ao poeo- 
te, Gome^ando do meio da cncosta do monte; a qual 
excava^o figura urna mina, tendo de largo, aproxi- 
madamente, 3 metros, e die eomprido, ató ao siliio 
aonde se pódè chcgar pelo aubterraneo, pouco mais 
ou menos, 800 melros. 

«N.'csta excavag^o aotam-se aos* lados, e desencon- 
tradas umas das outca?, certas concavidades, abertas 
na rodio a pico, oa coni outro ioslrumento identico 
d*aquellcs tempos^ figurando guarda-roupas, e com 4 
on o decimctros de fundo; as quaes se suppOe servir 
rem para quando ùns operarios eotravam e ouiros 
safam, com materiaes oa carros, fiazerem. alH arrumo 
e iiào se estorvarem. mutuamente. Ha emr certo siUo, e 
depois do mcio da mina, aos lados, urna especie de 
banquctas, que terao 3 a 4 decimeti-oa de largura; en- 
tre estas duas banquetus exislc agua estagnada, igno- 
rando*se a sua profundidado; e chegando^se quasi ao 
topo da excavagào, vése um oculo;, que Tem de cima 
em grande altura ; e d'este sitio em diant& uinguem 
tem passado, porque ba agun. 

«Saindo d està mina, e subindo ao cimo do monte, 
cncontra-se urna grande conca vidadc, que indica ter 
sido alagamcuto do terreno quo desabou sobrc. a ex- 
cavagào subterranea, de que tcmos failado,. e que as- 
sim probibe o seguimento duella por baixo do cbào. 
N'osta concavidade, e na superficie do solo, acba-sc 
matto de diffcrenles especies e castanheiros com ^ran- 
dos troncos, que mostram ter scculos de existencia. 

«N'osta concavidade, para a parte do nascente e no 
angulo do sul, desdc a superficie do monte ale a su- 
perficie da terra abatida, na altura de 40 metros, pouco 
mais ou mcnos, vose aborto na l'ocha, ao picào, um 
canal, que indica ter sido poyo ou oculo quadrado, e 
que continua através da depressào do terreno, sendo 
oculo que se divisa quasi ao fim do subterranco. 

«• Està obra mostra ser de muitos scculoa, e foi feita, 
som dùvida, para exploragdo de mineraes, pois Dào 
indica que podesse ter outro fim. Tem-se cocontrado 
em torno d'aquelles sitios ferro em differentcs forma- 
tos, especialnionte cbato e quadrado, de differentcs di- 
raensOes, mas nunca superiorcs a 1 metro, e sem con- 
figuragào quo indique ter sorvido de instrumento para 
qualquor uso *. Na povoagfio do Ribeirinbo, que é a 
mais visinba d*esto locai, existcm nos cunbaes de va- 
rìas casas umas pedras de granito, de 10 a 12 deci- 
metros' de comprido e 4 a 5 de largo, tendo no meio 
umas aberturas ovadas, que parcce terem servido para 
n'ellas se moerem quacsquer substancias, comò em aU 

i Nunet de Iie&o — Deéerip^. de Porlugal, eap. xxn. 

S Seri o ferro o minorai qxte oa romanos extrabUm d'està exeaTa^lo? 



mofariz. Notasse' que o terréno do quet fallAmos, eoi 
distancia de 5 kHometros para todos os lados, n&o 
produz pedra de granito. 

«£ quanto se póde dlzer àcerca d'estas mitias, que 
se denomiuam os Lagos da Ribeinnha,* 

Na descrìpQ5o que nos deixoa o padre Argote, fal- 
la-se em outra excavagào, que dSo é a que acima fica 
descripta^ e na qnal se notavam, a certas distancias, 
suas colnmnas e arcos bem lavrados> feitos, sem dù- 
vida, para evitar a mina da rocba onde era mais 
braoida. Taes obras ìndicam o aperfeigóamento a quo 
OS romanos haviam levado a arte da exploragSo daa 

miaas. IX Hwdei. sotto. Matob. 



ABDUL-lZIZ, SULTÀO DA TURQUIA 



(Vld. pag. 103) 



HI 



A nacionalidade mais viva,. m<iis forte, aquella quo 
deve por todos os motivos substdtuir no oriente da Eu-» 
ropa essa monarcbia monstruosa que se cbama iiluperio 
turco, é a nacionalidade helienica. A invas&o nào con- 
seguiu alteral-a, a nào ser retemperando no fogo da 
adversidadc a sua energia amoUocida pela coiTupgào 
da corte byzaotina. Maravilbosos deeretos da Provi- 
dencia, aue preparam nas loogas provagOes de quatro 
aeculos ne opprcssao a ]i?generagào de um povo! Foi 
a Grecia dos eunuchos e dos sophistas, a Grecia dos 
Gommenos e dos Paleologos, a Grecia do Baixo-Impe-* 
rio em fim (està palavra resumé tudo o que se póde 
imaginar mais infreno em corrupgào e em viteza), foi 
a Grecia do Baixo-Imperio que ajoelhou maniatada aos 
pés de Mabomet ii; foi a resurgida Grecia de Leonidaa 
de Uilciados^ a Grecia de Salamina e de Marathona 
que appareceu, fremente e beroica, apaixonada e su* 
biime, tendo transformado os griibOes em espada, aos 
olbos da Europa, que applaudia com entbusiasmo, e 
do sultSo, que recuava, corno Dario ou Xorxes, diantc 
do supremo esforgo dos personagens de Bschylo. 

Grxcia capta ferum victorem cepit, diziam os ro- 
mauos; nào o podiam repetir agora, k rudeza turca 
Gcou insensivel ao encanto magico d'essa harmoniosa 
lingua, d'essa arte esplendida, d'esse amor e d'essa 
concepgào delicada do bello. Barbaro e brutal, o otto^ 
mano alravessou a formosa peninsula ao galope do 
seu gioete, arrasando os monumentos, passeiando o 
facbo do incendio pelos bosques sacros, onde vigavam 
loireiro de Apollo e a oliveira de Minerva. Em quanto 
romano ajoeibava extasiado diante das estatuas do 
Phidins, o turco* mutilava*as com o alfhuge despie^ 
doso; em quanto os romanos estendiam, sorrindo, as 
màos vencedoras aos flòreos griibOes com que as gre- 
gas gcntis Ib'as prendiam, os turcos, até em amor 
despoticos, martyrisavam-Ibes os pulsos frageis com 
griinOes de ferro, e arrastavam-n'as para os scus gy- 
neceua infames. Mas qual foi a consequencia d'estas 
duas cooquistas tdo divcrsas? A Grecia, para conquis- 
tar OS romanos pela seducgdo, tevo do perder tudo 
quanto havia de varonil no seu genio, tevo de se ef* 
femiaar, de se corromper, de se transformar toda ella 
n'uma sensual betaì're, em cujos bragos vicram ador^ 
meccr os romanos degenerados que j<l desprezavara 
a simplicidade austera e forte d'ossa grave matrona 
que se cbamava a republica. A fu85o cntre as duas 
ragas operou-se, os conquistados absorveram os con- 
quistadores, e d'està unìno brotou um imperio latino^ 
grego; mas, filbo de urna ligagào orgiaca, nasceu ji 
com todos OS elemcntos de corrupgào e de decadcn.cia; 
nasceu velho, se me* posso assim exprimir; foi urna 
decrepitude monstruosa; foi o Baixo-Imperio em fim. 

A conquista turca n&o tcve os mcsmos resultados. 



128 



ARCHIVO PITTORESCO 



Os vencidos ndo conquistaram os vencedorcs, mas 
tambem os vencedores n&o absorveram os vencidos; 
brutalisaram-n'os, opprimiram-n'os, e, corno a oppres- 
salo origÌDa forgosamente a resistencia, corno o insulto 
provoca a ira, corno o desprezo acorda o sentimento 
da dìgnidade, a alma vini da Grecia despertou ao so- 
prò da indignagào, refugiou-se nos klephtas, heroicos 
proscrìptos, que iam procurar nas montanhas a inde- 
pendencia. A alma d'esses homens, enervada pela vida 
das cìdades, retemperou-se nas solidOes sublìmes, en- 
tre as neves immaculadas e a livre brìsa das altu- 
ras; jilas essas montanhas conservavam ainda os no- 
mes Bonoros da antiguidade pa^à; eram o Olympo e 
Parnaso. As memorias da patna primitiva, as recor- 
dagòes vagas d'esse passado a um tempo grandioso 
pela civiiisagào, ridente pela poesia^ austero pela li- 
oerdade, comegaram a reviver no espirito dos gre- 
gos degenerados. A oppressào foi a cadeia que pren- 
deu a Grecia antiga t moderna Grecia. Uma littera- 
tura popular cheia de seiva, de ardor, de enthusiasmo 
e de originalidade surgiu comò a expressào inevitavel 
d'essa bora de exaltagào dos espirìlos. Essa litteratura 
era ao mesmo tempo a manifestagào da nacioualidade 
hellenica persistente entre os vendavaes; traduzindo 
as inspiracOes quotidianas do beroismo klephtico, do 
odio aos oppressores, voava nas azas da tradlgào para 
OS tempos remotos, de que tinbam ficado no espirìto 
do povo umas vagas reminiscencias, e perfumava-se 
no aroma, para assim dizermos, fluctuante do paga- 
nismo em fior ^. A naciònalidade que se manifesta por 
uma litteratura popular tao formosa comò a da Gre- 
cia moderna nào póde perecer. A poesia é a sua voz 
eterna, o seu gemido de dor, o seu canto de espe- 
ranga. A lyra vela na sombra do tempio da liberdade, 
cm quanto o gladio nào póde defender, lampejando 
ao sol das batalbas, a densa sublimada. 

M'essas cang6es, riquissimos fastos da vida do povo 
gre^o durante a oppressào, transparece constantemente 
odio inveterado ao turco. É a cangào que solta o kle- 
pbta ao por ao bombro a carabina? So falla de vin- 
ffanga contra os turcos, de dcgolar muitos filbos de 
Otbman ^. É a cangio em que a donzellinba gentil, 
anciosa de noivar, pede à màe que Ihe escoiha um 
marido? Se a roàe pronuncia o nome de um turco, 
eil-a a donzellinba rccuando com borror e exclamando 
que prefere a morte. É simplesmente a cangào supersti- 
ciosa em que uma reminiscencia das antigas crengas 
pag&s vem povoar o espirìto do cantor? É a figura 
de Kbaros, o sombrio Cbaronte do velho lago Estygio, 
que passa, sinistro, na estropbe que tenta descrever 
a sua lugubre habitagao? Vereis o ingenuo trovador 
dar a essa casa a cor verde, porque é a cor simbolica 
dos mabometanos, e, por conseguinte, cor odiada. Em 
tudo transparece, palpita esse odio implacavel oue se- 
para conquistador no conquistado, o turco indolente 
e brutal do grego entbusiasta, activo e essencialmente 
poeta. 

Mas, dir-me-ha o leitor, esse odio foi a oppressfto 
que produziu, com a oppressào deve findar. Desde o 
momento em que a Turquia entra com passos rasgados 
no caminbo civilisador, e, por conseguinte, cessa de 
calcar aos pés uma raga inteira, apaga-se a injustiga 
secular, e apaga-se tambem a desculpa da revolta. 
Que importa? respondo.eu. Ainda que a Turquia possa 
resgatar agora para com as provincias gregas que Ihe 
ficaram nas màos, depois da independencia do Pelo- 
poneso e da Attica, a bnitalidade com que as oppri- 
miu, ainda assim nào consegue subjugar as aspiragdes 
do povo grego. Porque a questào da independencia 
nào é para esse povo uma questào de vinganga, é 

i Voja-8e o artlgo de mad. Dora d^Istrìa sobre ob cantos popnlarea 
da Grecia moderna na Pevùta dot doi» mujtdas de 15 de agx>sto de 
1867, tomo Lxx, S.** periodo. 

S JUi nationalUé hiìUnique d'aprh les chani» populairt»j por mad. 
Dora d'Istria. RevUta dos dois mundos, tomo i.xx, 2.® porìodo. 



uma questào de principios. Quer-se emancipar porque 
sente em si uma naciònalidade vigorosa e activa, por- 
que reconhece na sua litteratura espontanea, na sua 
educagào, no seu aferro às tradig6es, todos os elemen- 
tos proprios para constituirem uma autonomìa, porque 
estào as coìsas no mesmo estado em que estavam ha 
quatro seculos, e os ottpmanos, chegados parece que 
hontem, podem ser repellidos do solo que é grego e 
que profanaram. Na iiha de Candia, onde tao accesa 
anda a revolta, o dominio musulmano nào so nào é 
oppressor, mas até mesmo é leve o mais possivel. 
Parece que sào os christàos os predilectos das aucto- 
ridades turcas desde 1856 para cà. Essa indulgencìa, 
além de Ibes ser quasi imposta pelo tratado d'esse an- 
no, era tambem o primeiro passo dado no caminbo 
das ooncessòes. Isso de nada valeu nem ba de valer. 
Desde 1867 a rcbelliào tem sido quasi permanente. 
que importam aos gregos da ìlha de Greta as caricias, 
OS afagos dos turcos? que elles defendem n'esta lu- 
cia encarnigada é a santa causa da autonomia belle- 
nica, é o principio sagrado da sua naciònalidade. E 
digamol-o n6s, oue tanto prezàmos os nossos fóros de 
nagào livre, venderiamos a nossa independencia pelo 
oiro dos grilbdes que nos arrojasse a Hespanba ^? 

Assim a naciònalidade grega é inconcìlìavel com o 
dominio dos turcos, muito mais agora, que tem um 
nucleo em tomo do qual se agglomere. Esse nucleo 
é pequeno e tumultuoso reino da Grecia. Da anar- 
chìa que aUi tem reìnado tiram os graves politicos eu- 
ropeus a inducgào de que nào sào capazes os gregos 
de se governarem a si mesmos, e de oue a creagào de 
um poderoso estado bellenico em nana aproveitaria à 
civilisagào europèa. Menos do que a Turquia nào po- 
dia, de certo, aproveitar. A Turquia marcha tropcga 
e embaragada na estrada do progresso; a Grecia, entro 
OS seus tumultos, caminha tao desembaragadamente, 

Sue em trirìta e seis annos tem reconstruìdo vinte cì- 
ades antigas, fundado dez cìdades novas, e levan- 
tado perto de mìl e seìscentas vìllas e aldeìas, quei- 
madas pelos turcos ^; a instrucgào està n'esse pequeno 
reino b mais espalhada possivel 3; em firn, tudo é acti- 
vìdade e exuberancia de vida, cm quanto a ampia 
Turquia, galvanìsada de quando em quando por algum 
choque energico, recae depressa no seu primitivo tor- 
por e no seu resìgnado fatalismo. Eìs as duas nagOes 
entre as quaes a Europa besìta, mas besita pouco. 
De um laao uma naciònalidade exuberantc., do. outro 
lado um acampamento: opta pelo acampamento! 



(Oontinùa) 



M. PiKiiEiso Chaoas. 



Via-se a densa (Venus) toda omada e enrìquecida 
de joias, que mais pareciam roubadas à natureza que 
imitadas da arte: nos dedos anneis de dìamantes, nos 
bragos braceletes de rubins, na garganta afogador de 
grandes perolas, no toucado grinalda de esmcraldas, 
nas orelbas cbuveiros de aljofar, no peito um camafeu 
em figura de Cupido, cercado de uma rosa de jacin- 
tos com 08 ais da mesma fior comò raios; as alpargatas 
semeadas de todo o genero de pedraria, as roupas 
recamadas de oiro e tomadas airosamente em um cen- 
tilbo de saphiras. p. ahtohio vieira. 

1 N^nm folheto politico anoiiymo, pnbllcàdo em 1858 em Paris, com 
o titolo: La vériti «ur lu évèntnen» de Candie, folheto escripto exprea- 
Bamente para defender o governo turco, vem involuntariamente a prova 
da inoompatibilidade a que nos referlmot. Enumera as vantagens des> 
fructadas pela populaclU> chri8t& n^estes ultimos annos, e chega a di- 
zer (pag. SO, nota 1.*}: L'aiUoriti mutulmaite a pour eux heaueottp plus 
de minagemetUs qtté pour Us mustUmatis tux-mimé*. Apeaar dMsao, a« 
revolufdes relxmtam oom o vigor e com a unauimidade que^sabemos. 
Nfto se reconhece n^isto a for^ espansiva de uma naciònalidade rom- 
primida que prefere a emaiiclpa9So a quaesquer vantagens mate* 
riaes? 

• Beulé — Créte et la giuistion d'Orient — Revisla dos dot* mundos, 
tomo LXYii, 2.^ periodo (15 de Janeiro de 1867), pag. SOO. 

S Veja-se um curioso artigo sobre a instruc^JU) publica na Grecia, 
publicado no -voi. xi do Patmrama (S.** da 8.* serie). 



17 



ARCHIVO PITTOBESCO 




No anno de 1531 veiu a Hvora D. Pr. Ballhazar 
Limpo a tralar negocìos eeclesiastìcos com D. Joao in. 
Lamcnlarain juiilamente o devolo monanba, introdu- 
t'ior dos jeauìtas e da inquisi^ìio, e o solicilo frade, 
que tanto o bavia de auxiììar depoìs ii'aquclla ultima 
empreza, que n'uma cidadc dedicada por extrroio à 
Virgem Nossa Senhora odo livesgem urna so casa os 
carme] ilas. 

Gingia por esso tempo a mitra eborcnse o cardeal 
infante D. Henrìque, Gillo dei-rei D. Manuel. Associou- 
He l)is[io a seu irmao D. Joao in e a D. Fr. itaJtha- 
zar Limpo, u, lodos de commnm accordo, cuJdamm de 
precnciier a falta que lamanlia se ihes aGgurava. 

reformador apostolico (ia ordem do Carmo em Por- 
lugal so prelendia em principio que el-rei Ihe permil- 
tisse a fundagào de mn hospicio onde se albergasse e 
OS seus com pali bplros eoi quanto bouvesse de residir 
cm Evora para desempenbar junio da corte as suaa 
runc{Ccs. Pareceu peqneno o desejo à grande piedade 
dei-rei, que cm vez de um bospicio determiuou que se 



'Jb do Can 



fuudasse um convento. Para esle fini concedcu o bispo 
de Evora a crmida de S. Thomé, proxima da porta 
da Alagda, da banda de t6ra da munillia; deu o se- 
nado terreno adjaceiile para a fabrica e cérca do 
convento; e um eborcnse de grande fa;{enda e nùo 
nienor devo^ao, Ruy Dias Cotrim, eiiriqueceu com to- 
dos 03 seus bens a nova ordem, por doa£>io que Die 
fez aos 24 de outubro de 1533. 

Habitaram pacificamente os rcllgiosos o convento ale 
ao anno de 1663, em que serviu de roducto ao ler^o 
do Algarve, commandado pelò mostre de campo Ma- 
nuel de Sousa, na defesu que por alguiis liius oITcre- 
ceu a cidade de Evora ao excrcito caslelbauo. Tendo, 
poróm, osta de ceder 6 forga dos sillanles crivulìda- 
des dos sitiados, arruinou D. Joào d'Au:itria o con- 
vento em que mui valorosamente Ibe baviam resìslido. 

Ilecolberam-sc os frades a umas casas que tinbani 
na pra^a do Peixc, e là se conservaram ale ao anno 
de lC66, Dm que D. AITonso vi Ibes cedeu o palucio 
dos duques de Rragan^a, pouco distante da porla de 



130 



À&CBIYO PITTORESeO 



Moura. Àqui derani principio, a 6 de Janeiro de 1670, 
à nova egreja, cuja fabrica durou ale ao anno de 1691 , 
data que vimos esculpida ou pintada n'uma porta do 
còro. 

A egreja é darà, espagosa e de simplicissima arcbi- 
tectura. Como outras da mesma epocba, patcnteia a 
influcncia dos jesuilas, cujos tempio e saia dos actos 
seryiram de modelos aos architcctos de Evora no se- 
culo xvji. A decadencia da arte, que progrcdia cntdo 
rapidamente, j4 trazia a sua origem meiado o seeulo 
anterior, corno se \é uos enfezados productos da in- 
troducalo do cstilo classico em Evora. Todavia, n'es- 
tas ulti mas construcgócs abundam ainda os marmorcs 
e granitos auc os architectos vieram depois a substi- 
tuir pelas obras mesquinbas de pura alvenaria. 

portai é a unica parte do tempio digna de exa- 
me. Consta de duas grandes columnas espiraes, ou 
salomonicas, feitas de granito, e continuadas elegante 
e naturalmente em cima, em ordem a formarem a 
volta do arco, com os troncos e nós emblcmaticos da 
casa de Bragan^a. Vó-se bem que està construcgào nào 
é contemporauea da egreja, mas muito mais antiga. 
Talvez, corno diz o padre Fialbo, servisse de entrada 
aos pagos antes de a aproveitarem os frades para o 
tempio que ediBcaram. Nào podémos determinar com 
rerleza se o portai foì ou nao construido no reinado 
de D. Sebastiào, isto é, iia epocba em que parece quo 
se comegaram a usar em Portugal as columnas d*a- 
quelle genero ^. 

A gravura representa uma capella lateral da egreja 
do Carmo. retabulo, muito simples e assaz elegan- 
te, melbor pareceria se nào estivesse pinlado de có- 
res vàrìas, que mal se combinani com o doirado dos 
ornatos. 

Os retabulos das capellas do cruzeìro sào maiores 
e de mais delicado lavor, particulnrmentc o do aitar 
do Sacramento, que està do lado da Epistola. Ambos 
de talha doirada, assimilbam-se muito a um ou mais 
aitares da Cartuxa, em que tambem se véem grandes 
columnas espiraes com parras enroscadas. 

A escuiptura em madeira nào acompanbou a arcbi- 
tectura em sua progressiva decadencia. É magnifica a 
obra de talha do còro da sé, feita no seeulo xvi, e 
até ao flm do seeulo passado nào faltaram artistas que 
deixassem pelas numero^as egrcjas (Jos conventos de 
Evora trabalbos de grande merito, a. Pìlippk sxuòks. 



DUAS PALAVRAS ÀGERCA DO ECLEGTISMO 
EM PHILOSOPDIA 

Victor Cousin, que ba pouco falloceu em Franga, 
disse em um dos seus escriptos pbilosopbìcos: 

«As doutrinas exclusivas sào na pbilosopbia o mes- 
mo que os partidos na politica. Por minba parte devo 
dizer o seguinte: Ha jà muilo tempo que, depois de 
baver estudado e porcorrido mais de uma escbola, di- 
ligeociando apreciar bem o attractivo que cada uma 
d'ellas tinba por seu turno para commigo, cbeguei a 
descobrir quo a aucloridade dos dJlTcrcntes systcmas 
provinba de que todos tem eilectivamente alguma coisa 
de verdadciro e de boni; de sorte que a final suspeitci 
que nào' eram elles tao radicalmente inimigos uns dos 
outros comò b allegam e prctendem ser. » 

E.stas palavras do insigne bistoriador critico da pbi- 
losopbia dào uma clara idèa do eclectismo, ao passo 
que revelam uma prefcrcncia pessoal de Cousin no que 
respeita a systemas de pbilosopbia. . 

Vejamos, porém, se conseguimos formar um con- 
ceito mais positivo do eclectismo, a fim de que està 
expressào apresente ao espirilo mais definidos Iragos. 

A palavra eclectismo vem do gr^go ehlego^ composto 
de duas palavras: ck, preposigào que marca divisào, 

1 Vid. {Mg. 878 do voi. IX. 



separagào, exclusào, preferencia, preemineacia; e legOy 
escolber, colher, reunir; vindo assim a dizer tanto co* 
mo: escolber entre opinióes diversas. D'està sorte, ecle- 
ctismo em philosophia, ou pbilosopbia cclectica, é a es- 
colha, DOS diversos systemas pbilosopbicos, do que pa- 
rece verdadeiro, e rejeigào do restante. 

É obvio que o eclectismo presuppOe o conbecimento 
historico da pbilosopbia, independentemente da supe- 
rioridade do espirito, indispensavel para bem apreciar 
OS diversos systemas, e para fazer uma escolba rcQe- 
elida do que n'elles póde baver de verdadeiro e de 
bom. 

Sera, porém, necessaria uma historia espcciai da 
pbilosopbia, ou bastard a bistoria exterlor ou dos fa- 
ctos em geral? Tcrà a bistoria da pbilosopbia uma 
importancia real? Sera acaso de alguma couveuicocia 
para a humanidade? 

A estas perguntas vamos responder com as judi- 
ciosas ponderagOes de um escriptor pbilosopho de 
bom nome: 

«Se interessa saber o que fez Alexandre, quera ou- 
saria dizer que é de pouco prego o conbecimento do 
que Arisloleles pensou? É cerio que os acontecimen- 
tos exleriores tem um fulgor que a todos os olbos 
agrada; mas para as pcssoas que prezam o pensa- 
mento, qual maior successo existe do que uma idèa 
grande, do que uma penetragào originai da natureza 
das coisas? E se as causas da grandeza e da deca- 
dencia de 4jjn povo merecem o estudo attento dos 
maiores espiritos, que poderà dizer-se de uma pbilo- 
sopbia, da sua origem, dos seus progfessos, da sua 
quéda? E noie-se que os bomens perecem; as pbilo- 
sopbias, porém, nào acabam. » (M. Paul Janet — Uis- 
toire de la philosophie et réclectisme). 

Eslas elevadas ponderagOes de M. Paul Janet, do 
instituto de Franga, sào a mais convincente demons- 
tragào da legitimidade (digamol-o assim) e dos uteis 
da bistoria da pbilosopbia. 

Ainda mais. Se bem reQectirmos, a bistoria exte- 
rlor, ou dos factos em geral, e a da pbilosopbia, li- 
gam-se eslreilamenle; a ultima é uma parte integran- 
te, ou, para melbor dizer, complemenlar da 9Utra. 
interesse que uma nos inspira nào póde, em boa 
razàp, desviar-nos da oulra. 

«É permiltido à pbilosopbia, diz o mesmo sr. Janet, 
questionar sobre quacs sào os systemas verdadeiros 
ou falsos; mas, abstrabindo d*isso, é cerio que os sys- 
temas subsistem corno factos, uos quaes se manifes- 
tam as leis do desenvoivimento iutellectual da buma- 
nidade, mais decididamente do que na bistoria exte- 
rior, e ale do que na bistoria das letras e das artes. 
A bistoria da pbilosopbia langa grande luz sobre as 
proprias leis do espirilo bumano. Pelas suas relagOes 
com OS pbenomeuos da civilisagào, isto é, com as 
leis, com OS cultos, com as bellas artes, vae prender 
com OS outros ramos da bistoria. Pelas suas doutri- 
nas moraes e polilicas, é a pbilosopbia a expressào, 
ou por vezcs a anticipagào e o presentimento das gran- 
des epocbas bisloricas; resumé ou prepara as revolu- 
gòes, que ainda mais torna interessante a bistoria 
da pbilosopbia. j» 

Posto isto, vem a proposito perguntar, se effectiva- 
mente ba «ido escripta a bistoria da pbilosopbia, ou 
antes, se n oste rama de conbecimento tem appare- 
cido algumas obras notaveis. 

Afóra OS trabalbos da antiguidade e os commenta- 
rios sobre elles, vejo recommendadas pelos auclores 
do Manual de philosophia as seguintes obras: Ilislo- 
ria critica philosophix a mundi iturunabuliSy etc, de 
Brucker; L esprit de la philosophie spéculative j depuis 
Thalés jusquà Berìceley, de Tiedemann ; Histoire de 
la philosophie j do Tenncmann; Histoire de la philo- 
sophie ancienne, de Bitter; e, fioalmenle, as Licóts 
de Victor Cousin (curso de 1828 e 1829). Tambem 



ARCHIVO PITTORESCO 



13! 



8lto ciladofl, maé de passagcm, 08 escriptos de Bufate 
e de Géraodo. A Histoìna comparada dos systenvifde 
pkitosophia, d*este ultimo, é caracterisada de Clara, 
elegante, methodica; mas ìoferior, eoi erudi^fto, aos 
progressos recentes da scìencia hìslorica, e tendente 
a sacrifìcar todas as quesHlies à da orìgem das idéas. 
(Veja-se Mamtel de philosophity por Amédée Jacques, 
Juics Simon, Emile Saìsset). 

É cbegada a occasido, depois d'estes preliminnres, 
de tornar nota do grande servilo que a historia da 
philosophia presta à scìencia pliiiosopbica. 

sr. Janet fez urna observagdo multo engenbosa, 
que langa grande luz sobre a especialidadc qnc ora 
tocàmos. Na pbilosopbia nao succede corno nas demais 
scicncias. Cada nova escboia, prrsuadida de que at- 
tingili a verdade, é intolerante para com as suas prc- 
dcccssoras, e aie para coro as escbolas rivacs. Nu 

Ehilosopbia n5o ba Iradi^ócs, nem beranga; ba esta- 
elecimentos successivos de conquistadores, expulsos 
e substituidos uns pelos outros, t mancira dos autigos 
imporios da Asia, sem que nenbum d*elles consiga 
fondar um imperio defimtivo. «Assira, Descartes pa- 
recc deslombrar-se de que algum pbilosopbo o proce- 
desse, pois que nao conta com Platào, nem com Aris- 
toteles, nem com a edade mèdia. Locke, Gondiilac, e 
loda a pbilosopbia sensualista do seculo xviit, nao se 
raostram menos exclusivos a rcspoito do cartesianis- 
mo, do que Descartes se moslróra para com a pbilo- 
sopbia antiga. A timida e modesta escboia escoccza 
manifesta egual ddsdem para com o passado, e ero 
que antes d'ella foi completamente ignorada a exis* 
lencia do espirìto bumano.» 

SerA acaso raciooal, justo e vantajoso um tal metbo- 
do? N5o; porque o novo systema, ao derribar aquelle 
que precedeu, suffoca as verdades que porventura 
descobrìra o antcrior. 

Exemplifiquemos este enunciado. A dàvida metho- 
dica de Descartes [Le doute méthorlique — scepticismo 
^•olonlario e rcflcctido) 6 um excellcnte elemento para 
todos OS systcmas; a analyse dos crros dos sentidos 
e da imagi nagao é t«o vèrdadcìra para Helvotius corno 
para Malebrancbe; os sentimentos moraes foram ana- 
iysados pelos escocezes de um modo que todas as es- 
cbolas podcm admiltir. mesmo póde dizer-se do me- 
Ibodo iuductivo, de Bacon; da tbcoria da linguagem, 
de Locke e Gondillac; da tbcoria do babito, ae Maine 
de Biran. 

Haven^ algum remedio centra a intolerancia quo suf- 
foca as verdades parciaes de qualqucr systema? Sim; 
a bistoria da pbilosopbia tcm à sua conta operar a ne- 
cessaria conci liagSo, e estabelecer uma tradiyao cdn- 
tinuada, dando assim occasiào a perceber-se que em 
todas as escbolas bavera que aproveitar. 

Seria offender a penetragào dos leitores notar-lhes 
que um tal traballio, essencialmente bistorico, nào é 
mesmo que o eclectismo. Este ultimo é o effeito, o 
resultado benefico da bistoria da pbilosopbia, e nao 
póde por modo algum confundir-se com ella. 

eclectismo póde ser considerado ou comò metbo- 
do, ou corno* systema. 

No primeiro aspecto, importa o mesmo que uma 
disposìyào para encarar sem repugnancia os dìversos 
systemas de pbilosopbia e os auctores d elles — dispo- 
siQdo liberal e illustrada, que assenta na convicgSo de 
que em todos esses systemas póde baver uma parti- 
cula de verdade, e de que todos os pbilosopbos, todos 
08 pensadores dos tempos antigos e dos tempos mo- 
dernos, sdo outros tantos irm&os em espirito. E odo 
se receie que o methodo eclectico degenere j&mais do 
indifferentismo ou no scepticismo! Tambem na poli- 
tica e na religifto, uma tolerancia discreta odo poderd 
jàmais considerar-se corno devendo inevitavelmente 
produsir aquellas duas aberra^oes. 

Como systema, é o eclectismo um degrau necessa- 



rio da pbilosopbia, por quanto aproveita, com reOe- 
ctida escolba, tudo quanto de bom e verdadeiro julga 
ter eocontrado nos precedentes systemas, e ainda nos 
systemas rivaes. 

Quando M. Taine, ao fallar de Cousìn, caracterisa 
o eclectismo d'este pensador, corno scodo a philoso- 
phia de um cttriosOj afigura-se-me ser domasiadamente 
severo, e até monos justo. edeClismo presuppOe ne- 
ce^ariumerite o conbecimento da bistoria da pbiloso- 
pbia e a apreciagao profunda das doutrinas diversas, 
dando em resultado uma escolba apurada e reflectida. 
Q eclectismo examina primeiramente o que as diver- 
sas escbolas foram successivamente legando, e depois 
emprega uma critica severa para dislinguir o verda- 
deiro do falso e coordenar um systema. Nilo é ecle- 
ctico em pbilosopbia quem o quer ser, sendo um es- 
pirilo superior. (Nao obslaute osta aprociagao, voja Les 
philosophes franrais du xix.* siede, por M. H. Taine;. 

Està assignalada a difìficuldadc do eclectismo corno 
systema, e de envolta està tambem assignalado o dc- 
feito em que necessariamente labora comò tal. 

eclectismo pretende conciliar todas as verdades; 
mas, corno avisadamente diz o cìtado sr. Janet, para 
conciliar tudo, é necessario sabor tudo; para enca- 
dear todas as verdades, scria indispeosavel estar coN 
locado no contro da propria verdade. — espirito bu- 
mano nao ebega a tamanba altura! 

Gondcmnarcmos, pois, o eclectismo? Nao. Encor- 
ral-o-bemos nos limites da boa razào, «para que só- 
mente aspiro a recoibcr todas as verdades, vonbam 
ellas d'onde vierem... para comprobender o maior nu- 
mero possivel de coisas, e para acertar o màior nu- 
mero de vezes possivel.» (Afóra o escripto, jà citado, 
de M. Paul Janet, voja-se Premiers mélanges philoso- 
phiqires, de Jouflroy). 

Nào me propuz a tralar ex-professo um assumpto 
de tanìanba elevag^o; faltam-me para tanto os indis- 
pensaveis cabedaes: quiz apenas chamar sobre elle a 
atlengào das possoas curiosas, e apontar-Ibes as fon- 
tes onde podem beber larga doulrina. Aos doutos 6 
desneccssario o pouco que disse; ao commum dos lei- 
tores, que ainda, comò cu, nocessitam de aprendor, 
poderào ser de alguma utilidade as breves indicagOos 
que ficam exaradas. josi sii.vk3t»b ribbiuo. 



GELLERT 

(Vld. pag, 124) 
II 

Dissemos que iamos agora aprociar alguns dos bel- 
los quadros de Gellert. Vejamol-os, poeta defende 
OS pequenos e bumiidcs: 

O CAVALiLO DB KA^A 

«Um cavallo de raga apurada viu certo dia um ca- 
vallo do campo que puxava uma cbarrua e olbou-o 
com allivez. 

« — Quando terùs o mou garbo? dizia o primeiro em 
fronte do segnndo, reliocbando soberbamente. Quando 
pararà diantc de ti a muitiddo para te admirar a Fi- 
gura? 

« — Gala-te, respondeu o cavallo do campo, e doi- 
xa-me socegado, pois se cu nào cultivasse este campo 
com meu suor, acaso lerias a aveia que te engorda 
para contorneares com tanto orgulbo? 

«Vós que dosprezaes os pequenos e bumildes, il- 
lustres preguiQOsos, sabei que as vossas preten^es 
orgulbosas e a vossa cbamada superioridade so tem 
por base o trabaibo. Pois os que vos alimentam com 
seu labor ^ào porventura dìgnos de desprezo? Sup- 
ponde que revelaes diversa e mais esmerada educando; 
ISSO n&o vos dà o direito de serdes soberbos; pois se 
tivesseis nascido nas suas cabanas serieis corno elles, 



132 



ARCHIVO PITTORESCO 



e se elles fossein educados corno yós seriam corno sois, 
e talvez muito superìores. 

oO mundo passa bem sem vós, mas nSio póde pas- 
sar sem elles.» 

No fundo dos seus apologos ha sempre jovialidade : 

«0 louco, que ts vezes mostrava mais juizo do quc 
OS que ridiculìsavam, e talvez escolhesse o emprego 
de bobo para tornar os outros mais sisudos, Till Eu- 
lenspiegel (quem nào conhece este nome celebre?) 
viajava um dia por montes e valles com um bando 
de companheiros. 

«Quando chegava a qualquer montanha, descia-a 
Till mui devagar, triste e encostando-se ao cajado; 
pelo contrario, quando se tratava de subir uma en- 
costa, Till mostrava-se alegre e ligeiro. 

« — Por que pareces tao alegre na subida e tao triste 
na descida? Ibe perguntavam os companheiros. 

« — É naturai em mim, respondia Till. Quando des- 
QO, penso, corno louco que sou, na montanha que ha 
de vir, e a alegria deixa-me; quando subo, penso no 
proximo valle, e entào fico mais animoso. 

«Se nào queres entregar-te com excesso à prospe- 
ridade, nem desesperar-te com os golpes da adversi- 
dade, imita a prudencia de Eulenspiegel. Pensa, pois, 
na felicidade quando a adversidade te humilhar, e Icm- 
bra-te da dcsgraga quando a fortuna te favorecer. « 

Nos escriptos de Gellert nSlo fallava graga, comò se 
ve nos trecbos seguintes: 

O PAB MOBIBUSOO 

«Um pae deixava dois herdeiros: Christovào, que 
era mogo instruido, e Jorge, que era ignorante. Cne- 
gada a sua ultima bora, e antes de se partir d'este 
mundo, procurou com olbares inquietos o seu prezado 
Christovào. 

« — Meu filho, disse-ihe, aflOige-me uni triste pen- 
samento. Tens intelligencia, mas depois da minha 
morte nào sei corno poderàs viver. Tcnho n'aquelle 
armario, accrescentou, uma pequcna caixa com joias. 
Sào para ti. Toma-as, meu fìlbo, e nào dés nada a 
teu irmào. 

«Christovào ficou attonito e calado por algum tem- 
po. Por fim replicou: 

« — Meu pae, se me daes tudo, comò é que meu 
irmào poderà viver e prosperar? 

« -— Teu irmào! interrompeu o moribundo. Nào levo 
pena d'elle. Como é ignoiiante, nào Ihe faltarào melos 
para caminhar pelo mundo, e tambem nào Ihe faltarà 
quem o proteja.» 

O nSURARZO 

«Conseguirà um usurano accumular consideravel 
riqueza, nào por meio de fraudes e injustigas (por- 
que muitas vezes as combatia), mas com o auxilio da 
Providencia; e para que Deus reconhecesse a sua gra- 
tidào, que de certo esperava Ihe fosse retribuida com 
usura, mandou construir um hospital para os pobres. 

«Em quanto o edificio se levantava e o fundador ia 
vigiar as obras, pensando com os botóes no servilo 
que prestava* a Deus e aos pobres, um de seus ami- 
gos, que era homem engragiado, foi visitai -o ao sitio 
onde se fazia a edificagào. avaro, que se nào can- 
nava de mostrar e exaltar a sua obra, para Ih'a admi- 
rarem, perguntou ao indicado amigo, com certo modo 
jovial, se a casa scria bastante grande para os pobres. 

« — Creio que sim, respondeu o amigo; deve ter 
accommodagòes para muitas pessoas; mas, se deres 
logar a todos aquelles que tens arruinado, por certo 
que sera infinitamente pequena.» 

. Outras vezes, Gellert dava uma ligào aos pedantes. 



que n'aquelle tempo abundavam na AUemanha, comò 
aiiìda hoje apparecem alli e em outras nagòes, por- 
que hào de existir sempre; ott entào apresentava um 
exemplo de moralidade para combater os usos do 
tempo : 

OS DOIS GUABDAS 

«Dois vigias on guardas noctumos da cidade per- 
seguiam-se sem piedade nem tregoa em todas as ven- 
das de aguardente ou de cerveja, onde um encontrava 
outro. Nào faltavam pragas nem improperios. OfTen- 
diam-se a cada passo e desabridamente. Se um care* 
eia de accender o cachimbo com um cavaco, o outro 
buscava nào se servir do mesmo cavaco. Passaram 
em breve a exercitarem-se nas vìngangas e nas inju* 
rias que um inimigo figadal póde inventar centra ou- 
tro ìnimigo. A final, jà um pedia a Deus para sobre- 
viver ao outro, porque ainda queria ìnsultal-o depois 
de morto. 

«Procurava-se adivinhar, mas por muito tempo se 
ignorou, a causa de tal inimizade. 

«Tendo apparecido està rixa nos tribunaes, passa- 
dos muitos annos, soube-se a origem de tao implaca- 
vel odio. Qual era pois? A ìnveja da classe? Nào. Mas 
um soltava o seu grito nocturno: — Vigiae o fogo e 
as luzes! — outro nào repetia o mesmo, porque o 
seu canto era: —Tomae cuidado com o fogo e as 
luzes! — E està dilferenga no grito de vigilancia é oue 
dava causa às injurìas, ao odio, às rixas continuaaas 
e à vinganga. 

« — Pois entào OS guardas noctumos tinham con- 
tinuadas pendcncias por simìlEante bagatela? dirào 
muitas pessoas. Era uma insigne loucura! 

« — Nào censureis d'esse modo, senhores, porque 
póde succeder-vos alguma desgraga. Nào conheceis al- 
guns sabios, e dos mais distinctos, que nas suas con- 
troversias litterarias se tem injuriado com sanha maior 
por causa de insignificantes syllabas?» 

moralista allemào fulmina a venalidade no fune- 
cionario publico: 

O MO9O PRBT£XDBHTE 

«Um mancebo que desejava entrar na vida publica 
pedia a um homem influente que Ihe alcangasse certo 
emprego vago, e para isso Ihe deu um memorial. 
protector leu-o e mostrou interesse em tratar da pre- 
tengào. 

« — Lastimo, disse apertando-lhe affectuosamente a 
mào, lastimo nào ter conhecido ha mais tempo, por- 

3 uè aprecio e honro merito. É dìgno do emprego que 
eseja. 

«Gonversou algum tempo com pretendente, e pa- 
recia que encantava a conversagào. mancebo reve- 
lava intelligencia e estudo. — É, pensava protector, 
um homem que póde adiantar-se muito, desempenhar 
funcgdes elcvadas, pois saberà dirigir outras pessoas. 

« — Como jà coubego bem, disse protector, conto 
com emprego. 

«E, dizendo isto, acompaiihou mancebo até à porta 
da escada. No ultimo adeus, mogo pretendente lem- 
brou-se de ofiferecer dinheiro ao protector, na supposi- 
gào de que assim ficava mais seguro promettimento. 

« — Nào acceito, disse bonrado protector, porque 
emprego nào Ihe sera dado. Tem mau caracter. Quem 
offerece dinheiro é tambem capaz de acceital-o. 

«E fechou-lhe a porta.» 

Devemos observar que Gellert nào se aprcsenta mi- 
santhropo nem desalentado; deseja corrigir os defeìtos 
do proximo, porém sempre com estilo* ameno e jovial : 

O B8PIBITO OS COHTJtADXCfAO 

«Entre as boas qualidades que se notavam em Isa- 
bel havia um grave defeito. Contradizia tudo, que, 
segundo parece, é proprio do sexo fragil. Mas ainda 



ARCfflVO PITTORESCO 



133 



quando universo inleiro o assegure milhares de ve 
Eea nSo acrediCarei tal coisa e cont nuare dizendo 
pubi camente que é péta Conbe^o muitas mulheres 
tenbo ae observado com part cular atten£9o de algu 
mas exalCei a belleta quando estava avenguado que 
eram exiremamente feias com o desejo de ver o que 
d abì resultar a mas a final nenhuma me conira 
disse Siipponho pertanto menos esacto que em te 
das baia espinto de contradic(&o Vede ó bellas corno 
vos calumoiaml 



•Tralemos porém de Isabel Beta nao podia ca- 
lumntar se porque a contrad c^ao era o seu principal 
defeto 

•Eatava um dia à mesa com seu mando No melo 
de outros pratos veiu peixe coi do Gremos que era 
um lue o 

— Heu amor disse o mando meu amor é pos- 
sivel que me engane mas com franqueza parece-me 
que pe xe nào est& bem cozido 

— Estava adivinbando isso respoude a mulher. 



'jjr 




O eaplrlto do eootridletto 



Vejo que sempre lem occasiào para se enfadar com 
sua pobre niulner. Posso, comtudo, assegurar-lhe quo 
peiKe esl& bem cozido. 

• — N&o vale a pena, amiguinba, disGUlirmos por 
uma coisa iSo frivola! 

'Mas a mulbcr exalta-se ouvindo fallar asaim seu 
marido. Ha um animai que se enfure^^e quando Ibe 
raoslram aigum eatofo cncarnado; as azas eri£am-se- 
Ibc, as pennas lornam-se-lbe birtas, e solta lastimosos 
gritos: assim eslava Isabel n'aquelle momento; o seu 
rosto, pallido quasi sempre, tornon-se vermelho; as 
veias iocbaram-lbe; os olhos parecia saltarem-)be das 
ori>itas; a barba e o narìz dilataram-se-lbe ; os labios 
arroxearam-se-lhe; e os cabellos, encrespando-se-lbc, 



CDiiUda dit obrM Ululradu da Qellen 



perderam o brilbo. Passados alguns segundos, excla- 
mou com voz trèmula de raiva: 

• — É sua mulber que Ib'o afBrma: o peixe està co- 
zido em boa conta. 

• B, tornando o copo, esgotou o vinho. Fossem I& 
dizer-lbe n'aquelle momento que n&o bebesse! 

■ marido levantou-se sem profmr palavra. Logo 
que marido saiu, Isabel senlìu-se doente. Ncm podìa 
deixar de ser. BcMra vìnbo quando estava mais irada 
e (ìzera-lbc mal. 

«A casa parecia-lbe que se voltava de cima para 
baixo. Desapertam-lbe o veslido, apreaentam-Ibe saes, 
esfregam-tbe as fontes; nada se oblem; niìo dà signal . 
de Vida. 



184 



ilR€HIVO nTTORESGO 



«Ghamam o marido, qae se aprcsenta sem demora 
. e exclama: 

« — Minha alma, mulber do raeu coragdo, morres. 
Sou muito iofelizi Que fiz? para que havia de con- 
tradizer-te, pobre mulher?... Maldito peixe!... Tu sa- 
bfas que nSo ostava beni cozido... 

«A estas palavras, Isabcl tornou a si. 

« — Estava bem cozido, jà t*o disse ! Pois aìnda nSo 
te dàs por coDvencido? É demais... 
. fVé-se, porlanto, que o espirito de contradicgào foi 
mais energico que os mais fortcs reactivos que Ibe 
aprescntaram para a tornar ù, vida.» 

(Continua) 

MOSTEIRO DE S. JOÀO DAS VINHAS 

(ConcloB&o. Vld. pag. 118) 

Eram passados apenas vinte annos depois que os 
monges de S. Joào das Vinlias tinham conseguido sal- 
var seu mosteiro da demolìgào a que havia sido con- 
demnado, quando a guerra ci vii, atigada por odios re- 
ligiosos, veiu assolar o venerando monumento de arte 
gothica. 

Correndo o anno de 1567, em que mais encarnigada 
andava a lucta entre os catholicos e os scctarios dos 
erros de Calvino, em Franga dcnominados huguenotcs, 
pozeram estes ultimos apcrtado cérco à cìdade e praga 
de Soissons. Defendcramn a galhardamcnte os que 
n'eiia mantinham a auctoridade dei-rei Carlos ix ; mas 
a final foram obrigados a renderem-sc ao esforgo dos 
sitiadores. Foi uma scena horrorosa a cntrada dos hu- 
guenoles na cidade. seu rancor e sède de vinganga 
nOo se exerceram unicamente centra os quo Ihes dis- 
putarara a Victoria; foram cevar-se, principalmente, 
nos frades, seus inimigos irreconciliaveis, e ale nos 
proprios edlficios dos conventos. 

mosteiro de S. Joao das Vinlias foi vandalica- 
mente devastado. Os vasos sagrados, paramcntos e 
mais alfaias foram roubados; as santas imagens, a 
bibliolhcca e o archivo foram dispcrsos ou entregues 
iìs chammas; o incendio ou o camartello fez do mos- 
teiro ruinas, reduzindo a simpies paredes uma boa 
parte do tempio, dos claustros, do refeitorio, dos dor- 
mitorios e bospcdarias. Os sinos foram fundidos, e a 
egreja, profanada com inauditas torpezas, foi Irans- 
formada em cavallariga. 

Entre as obras de primor artistico que se perderam 
n'esta fatai destruigào, contava-se o altar-mór, de ta- 
Iha relevada e doiradu. 

Acabou temporarlamente aquella guerra religiosa 
com a horrivel malanga dos huguenotes em Paris, e 
em toda a Franga, no dia 24 de agosto de 1572. Nào 
tardaram os monges de S. Joào das Vinhas a metter 
horabros à rcedificagùo do seu mosteiro. Os estragos, 
porém, eram taes, que, apesar da rìqueza da ordcm, 
e das muitas dìiigencias e avultados melos que appli- 
cou para osta restauragdo, so por meiados do seculo 
seguinte se poz o remate a està grande obra. 

Entretanto, os dias de desventura nào eram ainda 
todos passados para o mosteiro de S. Jodo das Vinhas. 
Estava-lhe desti nada nova e maior catastrophc, porque 
està foi irremediavel. A rcvolugSo que destruiu a mo- 
narchia de S. Luiz, mudando ao mesmo tempo os des- 
tinos da Franga, pesou com mào inexoravel e vanda- 
lica sobrc mosteiro de S. Joào das Vinhas. 

Extinctas as ordens religiosas, aqueile mosteiro foi 
despojado immediatamente de todas as suas riquezas. 
A prata foi ievada à casa da mooda para sor cunha- 
da. Toda a obra de taiha da egreja, que era magni- 
fica, tanto OS altares comò as cadeiras do còro, foi 
arrancada e veodida. Egual sorte tiveram os paramen- 
tos e mais alfaias, os paineis, as imagens e os sinos. 
« Uas nào pararam aqui as devastagòes. Quando o de- 
lirio revoluciooario se Icmbrou, em 1793, de abolir a 



religiào catfaolica, substituindo-a pelo culto darazào, 
aquelle e outros mosteiros padeceram tao barbara des* 
truigfio conio se os assolàra um terremoto. 

Passada aquclla vertigem, foi restabelecido o verda- 
deiro culto, mas nunca mais se pensou em reconstruìr 
a egreja nem o edi6cio do mosteiro de S. Joào das 
Vinhas. D'aquella apenas se consen'ava de pé a fron<» 
tarla com as suas bellas torrcs. Tudo o mais era nm 
mootào de ruinas. Do mosteiro jazia por terra uma 
parte dos seus claustros e de outras obras de mere- 
cimento artistico. 

Achava-se, pois, o edlBcio n'este estado, quando o 
governo francez contratou a demoligdo da egreja, com 
excepgào de toda a frontaria, que foi mandada con- 
servar, entrcgando o prego da venda dos materiacs ao 
bispo de Soissons para as despezas da fabrica da sua 
catbedral. 

Em 1839, dcsenvolvendo-se em Franga, de anno 
para anno cada vez mais, o desvelo pela conserva- 
gào dos monumentos, tanto por parte dos poderes pu- 
blicos, comò por parte das associagóes particulares, 
foi consignada pelo governo uma quantiu avultadu 
para a conservagào da fachada da egreja, e das rui- 
nas dos claustros e de outras ofllcinas do mosteiro, 
notavcis pela sua architectura, sondo encarregada da 
superintendencia das obras a commissào archeologica 
de Soissons. 

A gravura que publicàmos a pag. 113 mostra os 
restos mais sumptuosos do antigo mosteiro de Sois- 
sons. As altas e brincadas torres da frontaria do tem- 
pio, que se crguem magestosamcntc por detraz dos 
langos desmoronados do claustro principal; e a gale- 
ria d*estc, que escapou d brutaiidade dos liomens e 
d acgào do tempo, dào claro testimunbo da magnifl- 
cencia e csplendor de outr ora do sobcrbo mosteiro 
benedictino. 

A fachada tem tres porticos, ornamentados com va- 
riadas csculpturas e coni estatuas de singular perfei- 
gào. As torres, alóm do seu porte esbello, ostenlarn 
ricas decoragOes, e tarabem algumas estatuas cxcel- 
lentes. Foi construida està frontaria, corno o fora o 
resto do tempio, segundo o estilo golhico puro, nào 
obstante ter a architectura passado por variadas mo- 
diflcagOes no longo periodo em que se fabricaram as 
difforentes partes da egreja. 

claustro principal, rcpresentado em a nossa gra- 
vura, ó obra do seculo xiv. As suas arcadas sào cle- 
gantes, mas singelas. Nào aprésentam aquella prodi- 
galidade de ornamentagOcs que distinguiu a archite- 
ctura gothica na sua decadencia, que assim se póde 
chamar ao periodo da transigào d este eslilo para o 
do renascimcnto. Excepluando os capilcis das colum- 
nas, que sào lavrados de folhagens, nào se encontram 
ulli mais lavores na cantarla. 

Ficava contiguo e communicava este claustro coni 
a egreja, com a casa do capitulo e refeitorio. Dos seus 
quatro langos, so dois existem cobertos de abobada; 
mas nenhum d'elles escapou incolume a furia da tor- 
menta que dcrrorou os outros. A linda fonte que or- 
nava centro do teireiro, oulr'ora jardim, està feita 
pedagos. 

refeitorio foi mais bem prescrvado de ruina. Era 
uma das mais bellas offici nas do mosteiro, pela sua 
grandcza, pelas bonitas jancllas e oculos quo the trans- 
mittem abundante luz, e pelas pinturas a fresco que 
Ihe decoram as paredes. Desdc o referido anno de 
1839 acba-se convenientemente resguardado de novas 
injurias do tempo ou dos homens. 

Além do claustro principal, tinha o mosteiro outro 
mais pequeno, porém oào menos apreciavel corno um 
gracioso specimen da architectura do renasclmento, 
no primeiro periodo da sua existencia, em que a ri- 
queza da ornamentagào se casava pcrfeitamcnte com 
a belleza dos lavores e com o bom gosto na sua dis- 



ARCHIVO PITTORESCO 



135 



tribai(;lko. Esle claustro ainda se conserva, posto que 
bastaDlemcQte eslragado. 

Véeoi OS Dossos leitores, pelo aue deixùmos refer 
rido» corno em Franga se cuida aa cooserYagào dos 
inoQumentos historìcos e artìsticos. Em quanto alli se 
leva o respeito e amor das antiguidades a ponto de 
se amparar e resguardar com incrivel zelo e desvelo 
quaesquer ruinas em que se Icìa urna tradigào histo- 
riea, e nas quaes a arte dcixasse gravada alguma das 
suas feigOes, entre nós abandonam-se, entregam-se ao 
mais culpavcl esquccimcnto, quasi que se votam ao 
desprezo monumeritos taes corno o convento de Christo 
em Tbomar, tao rico de arte e de memorias bistoricas! 

Aquelie zelo e desvelo ddo a medida do subìdo grau 
de civilisagào a que tem chegado o povo francez. In- 
felizmente, a nossa incuria e desleixo revelam mani- 
festamente a distancia que nos separa d*aquella nagSo 
na escala dos progressos e aperfeigoamcntos da hu- 
mauidade. 



I. DB YlLHEHA BARBOSA. 



ABDUL-AZIZ, SULTÀO DA TURQUIA 

(Vld. pag. 127) 

Abaixo dos grcgos, a populagào cbristà mais censì - 
deravei do imperio ottomano é a dos armenios; conta, 
segundo nos diz um dos seus principcs, membro de 
urna das famiiias mais consideradas entre elies ^, 
3.400:000 almas. Populagào pacifica e sem graudes 
aspiragoes de nacionalidade, é, coratudo, incapaz de 
se confundir com as outras ragas, e n'isso, corno em 
muitos pontos do seu caracter, tem urna nolavei simi- 
Ibanga com os bebrcus. Nào é d està nacionalidade que 
ba de vir um pcrigo qualquer para o imperio ottoma- 
no. Completamente indifferentes em qucstoes de poli- 
tica, OS armenios contentam-se em possuircm grande 
parte das riquczas do imperio; em scrcm os dcposita- 
rios do commercio e da industria ; em occuparem allos 
cargos na administragào; e em terem sc^ura a liber- 
dade da sua egrcja, que é uma das egi'ejas indepen- 
dcntes em que se fracciona o cbrislianismo. Julgam, 
comtudo, que, pelo facto de tomarem parte na admi- 
nistragào do imperio, se deva considerar a sua raga 
unida, pelo interesse ao menos, ao governo musul- 
mano? De modo nenhum; os inclividuos servem o es- 
tado, mas a nacionalidade subsiste: governa-se a si 
por meio de um conselho de notaveis residente em 
Constantinopla, com ramiGcagOcs nas provincias; paga 
OS seus tributos ao sultào; cumpre, em fim, os deve- 
res inseparaveis da vassallagem, mas no mais fórma 
uma especie de statura in stalu, que seria completa- 
mente inconciiiavcl com a existencia de uma naciona- 
lidade devóras predominante em toda a extensao do 
imperio. 

A nacionalidade slava, mais pacifica depois que o 
paiz onde estava espccialmente conccntrada, a Scrvia, 
se desmembrou para sempre do imperio ottomano, nào 
deixa, comtudo, de dar signal de existencia na Bos- 
nia e na Bulgaria, principalmente agora, que a idóa 
do panslavismo agita todos esscs povos irmùos. Apcsar 
d'essa nacionalidade nào ser revoltosa e impaciente 
corno a grega, nao deixa, comtudo, de residir n'ella 
perigo mais serio qua ameaga a Turqiite. Effectiva- 
mente, o panslavismo està sendo actualmente o pro- 
gramma da Russia, e Deus sabe que elaslicidade o 
gabinete de S. Petersburgo tenciona dar a essa pala- 
vra jà de si tao elastica. 

ElTectivamente, o principio das nacionalidades, prin- 
cipio santo em si, quando sào os povos que o invo- 
cam, tem servido de prctcxto às violencias menos dis- 

1 O principe Mek-B-Da^I'n — Bevuta do» doi» mundot, tomo i>XYn, 
2.' periodo (15 de junho de 1867). — 1.0 aoeiété arménienne eonttmpo- 
raine» .... • . . . 



fargadas dos goveroos ambiciosos. A communidade de 
raga nào póde ser o unico lago d'essas grandes fami- 
iias que se chamam nagOes; ha milbares de conve- 
niencias politicas e geograpbicas que podem dividir 
essas agglomeragoes, que seriam muitas vezes enor-^ 
mes n'um grande numero de paizes, comò muitas ve- 
zes associam povos de differente raga à sombra da 
influencia salutar de urna raga legitimamente predo- 
minante. Comtudo, esse principio geralmente sympa- 
thico vae dando um moto deslumbrante às bandeiras 
das phalanges conquistadoras. Quantas violencias nào 
legitimou principio do pangermanismo? quantas vio- 
lencias nào irà legitimar o panslavismo, tao apregoado 
agora? N'esse congresso de Moscow, aonde foram cha- 
mados os representantes de todas as famiiias slavas, 
indicou-se sem disfarce a iotengào da Russia. Eotre 
OS ornatos das salas do banquete fraternal figuravam 
as vistas das cidades slavas, Moscow, Kiew, Praga, 
Leopol, Belgrado, Constantinopla ^! Constantinopla, a 
velba Byzancio grega, transformada em cidade slava! ! 
É tirar muito depressa a mascara de defensor das na- 
cionalidades para mostrar o jà tao conbecido resto do 
executor testamentario de Pedro o Grande. 

Està pretcngào da Russia de ser o nucleo do pans- 
lavismo é absolutamente infundada. A Russia, nagào 
asiatica, nào tomou laivos slavos senào pelas suas 
conquistas successivas sobre a Polonia, conio o de- 
monstrou, com grande abundancia de razòes geogra- 
pbicas, ethnograpbicas e bistoricas, o publicista fran- 
cez Elias Regoault n*um livro celebre ^; mas, em todo 
caso, com razào ou sem ella, fez-se defensora de 
um principio, e, por mais que a Turquia procure en- 
trar na communhào europèa, que principio ba de op- 
por a essa propaganda panslavista que ameaga inun- 
dal-a? A Austria, que foi cbamada outr'ora por alguns 
publicistas uma Turquia cbristà, quando o principio 
das duas unidades, germanica e italiana, Ihe deu agora 
um tao profuodo abaio, amparou-se resolutamente na 
Hungria, e essa nacionalidade vigorosa, essa beroica 
nobreza maggyar, exaltada com o pensamento de re- 
cobrar o seu rei, e tao dedicada comò no tempo em 
que bradava com enlbusiasmo: Moriamur prò rege 
nostro Maria Thereza, agrupou-se em torno da dynas- 
tia, e renovou com a sua selva sempre juvenil o tronco 
lanbado pela secure rigida do conde de Bismark. 

Porém a Turquia, atacada pela Russia, nào jà sob 
futeis pretextos, mas em nome de uma nacionalidade 
que effectivamente espera da Russia a emancipagào, 
para onde se ba de voltar, ella que nào vó dentro de 
si mais do que nacionalidades bostis? A energia bel- 
lica d^csses ottomanos acampados na Europa ba muito 
que pereceu, e, ainda que subsistissc, de oada valerla 
n'uma guerra moderna e centra as forgas colossaes do 
imperio da Russia. b*à de novo o Occidente amparar 
esse baluarte vacillante? Podémos duvidar que seja 
tao fcliz corno em 1855. As populagóes christàs da 
Turquia jà sabem que entra na politica Occidental nào 
Ihes permittir launca uma existencia independente; a 
Grecia està fazendo agora d'isso mesmo dolorosa e tal- 
vez ultima experiencia. Ora, corno as nagOes que an* 
ceiam pela liberdade recebem-n'a do qualquer roào, 
comò preso n'uma masmorra nào quer mesmo sabcr 
quem Ibe proporciona cnsejo para evadir-se, segue-sc 
que, no momento em que um exercito russo appare- 
cer no Danubio proclamando-se defensor do principio 
dos nacionalidades, um immenso grito de sympatbia 
Ibe responderé, repcrcutindo-se dos Balkans ao (Xta, 
e imperio musulmano desoonjuntar-se-ba, em firn, 
com todas as consequencias que póde ter essa calas- 
tropbe sendo produztda por intervcngào da Russia. 

(OontinÙA) M. Pinheiro Cuaoas. 

1 Jallan Klacsko — L* congrit d« Motecm ti la propagane» panila- 
fdtU. — RevUta do* doU vmniot, tomo l.xxi, 2.^ periodo (1 de setom- 
bro de 1867), pag. 15(5. ' 

• t La quegtion tnrcpieww UnproprtvMnt appella polokaUt. Paria, IMS*. 



ARCHIVO PiTTOBESCO 



PEIXE ESPADARTE 

È esle peìxe um dos grandea habìtanles do Oceano, 
pois que seu comprìmento ebega a ser de quatro a 
ciiico mctros. Collocam-u'o os naturiilietas na classe 
doB squalos, na familia das iixas ou cagOes, e no ge- 
nero prislis, de que é typo. 

Linneo dcnominou-o sguatus prislis. Depots, o na- 
luralista M. Lalham deu-lbe o Dome de prislis anli- 
quorum, que foi adoptado. 

Espadarte ou peixe serra é o oome por qne é ge- 
ralmente conbecido na Europa. No Brasil, porém, cba- 
mam-lhe araQuagua. 

Tcm corpo mnì comprido e proporciooalineDte 
{Kiuco grosso. Na parte superior 6 de c&r ciozcnta es- 
cura, quasi negra sobre a espinba dorsal, passando 
nos lados a cimenta clara, até acabac em brauca no 



venire. NSo tem escamas este peixe, mas a soa pelle 
é coberta de pequenos tuberculos, que a faiem mui 
aspira. Tem às barbatanas peitoraes muilo compridas 
e as dorsaes curtas. A cabe^a é acbatada; os olbos 
sao pequenos; a boca é quasi circutar e guarnccida 
de dentcs concavos, mui basto» e tao junlos uns aos 
oulros, que parece um pedalo de paTÌmento lodo eri- 
(ado de grossos esptnbos. Porém o que faz mais qo- 
lavel este pcixe, e Ibe dà urna fei^ao partlcuiar, é o 
proIoDgamento do focinbo, de materia ossea, e assi- 
miihando-se no Feitto a urna espada de foiba larga e 
comprida, e com mais proprìedade a urna serra, por- 
que a guarneccm de cada Jado vinte dentes graiides, 
oBseos G ponteagudos, disposto» symetricamente eai 
opposiciio uns aos outros, e com intervallos eguaes 
eutre si. A mesma pelle do peixe cobra todo csle pro- 
longamenlo do focinbo, cuja extremidade é arreaon- 




£ip«d*cte OD pclxa w 



dada e desprovida de dentea. Reguia o seti compri- 
nicnlo peiu tcr^a parte do corpo do peixe. 

l'ossuimos duas espadas de espaaarte: urna com 
pouco mais de um metro de comprido; a outra com 
vinte centimetros de comprimento. A prìmeira, muito 
inferior às dos espadarles que altiugem o seu maior 
descnvolvi mento, lem oa dcnies da largura de um de- 
do na base. A segunda, pertencenle a uni espadarte 
pequenino, lem os dentes tio finos e agudoe comò o 
mais delicado pente, com a differenza de serem mui 
rijos e de modo algum Oexiveis. 

D'està arma proveiu ao peixe os dois nomes vul- 
gares de espadarte e peixe serra, por que é conbe- 
cido. 

Babilu espadarte em quasi todos oa marcs dos dots 
bemispberios. Sào pouco conhecidos os seus costumcs ; 
cntrclanto, nSo se póde suppor que sejam brandos e 
inoffcnsivos, attendendo-se à terrivel arma com que 
a natureza o dolou. 

Refi-rem os naluralistas antigos, e alguns modemos 
tanibem asseveram, que o espadarte, movido por uma 
implacavel aiitiputhia, faz cruel e porfìosa guerra à 
fiaieia. Dizem que apenas se cnconlram t3o flgadaes 
inimigos, espadarte investe a baleia com iherivel 



furia. Debalde se pOe em guarda este gigante dos ma- 
res, dispondo-se, logo que avista o seu adversarìo, 
para o supplautar e dcstruir, descarregando solire elle 
com loda a forga o peso enorme da sua cauda des- 
communal. espadarte, valendo-se da sua muita agi- 
lidadc, e sabendo tirar lodo o partido da dìfliculdade 
com que a baleia executa os seus movimenlos, arre- 
mette contra ella tao de improviso, e coin tal prcs- 
teza Ibe rasga o ventre ou o dorso com os agu^ados 
dentes da sua espada, fugindo i usta ntanea ni ente, para 
voltar logo depois ao ataque com a mesma vioicncia 
e deslreza, que a final acaba por alcancar completo 
triumpho. A calcia, faligada pelos movimenlos doses- 
perados a que a obrìga em vào a tenacidade e rapì- 
dcK dos alaques do seu ìnimigo; exhausta de foryas, 
e com as carnes por todo o corpo dilaceradas, morre 
infailivelmenle envolta em um mar de sangue. 

Conlam os maritimos que acontece algumas vezes 
accommetler o espadarte o casco de um navìo com 
tamanbo impeto e vigor, que, nào tendo forro de co- 
bra, e acertando na juntura das laboas, ebega a fu- 
ral-o, quebrando, n'esse caso, a sua arma, cuja ponto 
fica presa no coslado do navio, comò despojo de lao 
grande alrevimento. i, di vil.bui bibboo*. 



18 



ARCBIVO PITTORESCO 




l'i^lu lioa (erra de rorttigal n^o U>in gido sòfara para 
a» arlos, conio se afiftura a muila ^'enle que se nao 
qupr dar ao Iralialho de investigar os documeiitoa com- 
[irovutivos d'aquella asser^uo. 

progresso e esplendor daa arlos sno, pm lodos os 
li'itipos, o i-Dl>ito natui-al do desenvolviniciiio da civi- 
tisaiiào duB povos. Neiiliuma na(,'3o se cnrobusteefì e 
aperfeiijoa cin suaS coiidi^ùes soiiueiì, scoi quu uo 



niesmo tempo nella se desenvolva o amor das artes, 
diligenciando allìngir a perfeii-ào. 

Em duus epocbas n9o muito dìstanles enlre si, mos- 
traram os porluguczes, por mil ac<^ea de huroisnio e 
de amor da palria, terem adquirìdo aquella energia, 
aclJvidade e forga de vonlade, que fazem as nacOes 
poderosas, florcscentes e cìvìlisadas. 

Nào ù iiccessario por aqui dalas, certamonle, para 



138 



ARCmVO PITTORESCO 



que OS Dossos leitorcs saibain quc alludirnos aos rei- 
iiados de D. Joùo i e de D. Manuel; epocbas brilhan- 
lissimas da nossa bistoria, a primeira pelo vigor e 
espirito liberal quc imprimiu nas inslituigOes, e pela 
inicialiva que tornou 'nos comuicttiiDenlos d além-mar; 
a segunda pelo modo por que levou a cabo a arrojada 
enipreza do descobrimento da India, jà anteriormente 
projectada, e pelo esforgo e felicidade coni que sujei- 
lou ao sceptro de nossos reis tantas nagues e tao dif- 
ferentes mares, quc transformaram Fortugal cm uro 
dos maiorcs imperios dos tempos modernos. 

Foi, pertanto, n'esscs dois periodos que os artistas 
porluguezes^ estimulados pelos mesmos brios que in- 
citavam em geral os flihos d'està terra a adquirirem 
gloria para a patria e nome illustre para si, trilbaram 
cora passo firme o camìnbo escabroso da arte, con- 
quistando, n este assumpto, para o seu paiz fóros de 
nagào civilìsada. As suas obras ahi eslào espalhadas 
|)or lodo reino, para altestarem que tivemos mul 
distinclos archilectos, e eximios esculplores em pedra, 
em melai e em madeira. JJ apontariamos do mesmo 
modo para um grande numero de obras excellenles 
de bous pinlores, se o terremoto de 1755, sepultando 
muitas dcbaixo de ruinas; os restauradores ignoran- 
tes, eslragando muilas mais; e, finalmente, as revo- 
lugOes polilicas, dando azo, pela exlincgiio das ordons 
religiosas, ao exlravio de oulras, que tem sido expor- 
ladas para o eslrangeiro, nào tivessen) anniquilado, 
ou desfigurado e desbaratado tanlos quadros, com que 
se poderia formar uma galeria nacional de pintura, 
digna de ser vista e apreciada pelos bomens intelli- 
g(Mìles de qualquer paiz. 

Em tempos mais recentes renovou-se o impulso dado 
outr ora a favor das arles. As condigòes moraes e pby- 
sicas da nagào sob o governo dei-rei D. Joào v e dos 
soberanos que llie succcderam no tbrono, eram muilo 
menos favoraveis para o boni rosultado de similbante 
impulso, do que nos rcinados do mestre de Aviz e do 
rei afortunado, oiro do Brasil nào podia subsliluir 
nem compensar os cslimulos da gloria e do patriotis- 
mo que, sob tao variadas fórmas repassadas de poesia, 
inspiravam os nossos artistas nos seculos xv e xvi. 

Todavia, apesar da falla d'essas coudìyòes esseo- 
ciaes, as escbolas praticas, que entào se crearam em 
('dificagOes sumptuosas, produziram artistas de incon- 
lestavel merito nos diversos ramos da arte. 

Nào carecem, pois, os portuguezes de talento e apli- 
dào para as bellas artes. que demandam, para se 
distiuguirem na cultura d*ellas, sào os incenlivos mo- 
raes e physicos quc impelliram os grandes meslres 
por uma carreira gloriosa ale cbegarem ao tempio da 
immortalidade. 

Se aos nossos artistas modernos tem faltado està 
condigào essencialissima para os seus progressos, a 
muitos dos antìgos, que, em razào de a desl'ructarem, 
mais se avantajaram e sobresafram, faltou-lhes quem 
Ibes archi vassc os nomes para que a sua memoria 
fosse perpetuada. Por effeito d*este culpavel desleixo, 
|)0ssuc nosso paiz obras de admiravel primor, igno- 
rando-se, ou sendo objecto de dùvida, o nome do ar- 
tista que as execulou. 

É ponto duvidoso quem foi o arcbitecto que deli- 
neou tempio da Batalha, o nosso primeiro monu- 
mento artistico, e um dos mais gtoriosos padrOes da 
nossa historia. Para se dar a Alfonso Domingues a 
subida bonra de auctor, 6 mister recorrer a conjectu- 
ras, auxiliando-as apenas com documentos tao pouco 
explicitos, que nào bastam para repellir controversias. 

Ila de laborar em ideulicas, se nào maìores, dilB- 
culdades quem prelender nomear auctor ao retabulo 
do altar-mór da sé velha de Coimbra, a mais bella e 
primoi*osa obra de taiha quc ha em Portugal. nome 
de mestre Plolonìeus^ que o livro preto da sé de Coim- 
bra assignala ao auctor da tabula deaurata e de um 



outro quadro que representa a Annuncia^^ào da Vir- 
gem, nào póde pertencer ao esculptor que fez o fa- 
moso retabulo a que nos referimos. Mestre Ptolomeus 
era pintor. É possivel que fosse tambem entalhador, 
e fizessc as molduras de talha doirada para os qua- 
dros que pintou por ordem do bispo D. Miguel, reedi- 
flcador da sé. Porém, vivendo no seculo xii ^ nào 
podia ser auctor de um retabulo construido de talba 
doirada segundo o mais puro estilo da architectura 
golhica. Quanto 'à epocha em que foi fello, nào póde 
baver dùvida. Ainda quando se ignorasse a data em 
que estilo gothico chegou entre nós ù. sua maior 
perfeigào e pureza, bastava comparar o mencionado 
retabulo com a egreja da Batalha para se reconhecer 
que sào contemporaneas eslas duas obras. Por conse- 
guinte, esiti ainda por descobrir o nome do artista 
que tragou e execulou tao delicada e formosa fabrica. 

Nas mesmas trevas se esconde o nome do eximio es- 
culplor a quem devemos o celebrado pulpito da egreja 
de Sanla Cruz de Coimbra, que 6, sem questào, a pega 
de esculj)tura em pedra cinzelada em o nosso paiz 
com mais perfeigào e excellencia de arte. 

E, portante, muilo para sentir, e ale muito para nos 
envergonharmos, que assim estejamos tao faltos de no- 
ticias positivas e authenticas, ou em tao crassa igno- 
rancia a respeito dos auctores das tres obras mais ad- 
miraveìs que possuimos em architectura, em escul- 
ptura em madeira e em esculptura em pedra. 

Na falla, pois, de noticias e de documenlos, forgoso 
é recorrer a conjecturas e consideragòes quando se di- 
ligenceia Icvantar o véo mysterioso que occulta qual- 
quer successo, qualquer data ou nome. 

Anles de averiguarmos corno se chamava o artista 
que esculpiu o pulpito de Santa Cruz de Coimbra, é 
conveniente resolver se devemos allribuir uma tal obra 
a esculplores nacionaes. Infelizmente, nào nos podé- 
mos desvanecer com similbante supposigào. Por mais 
que amemos a nossa palria, acìma d'estc aflecto està 
amor da verdade. 

Ale ao meiado do seculo xiv achava-se entre nós 
ém grande atrazo a esculptura em pedra. Vé-se a im- 
perfeigào dos artistas nào so nos poucos edificios que 
nos restam d'essas eras remotas, com alguma orna- 
mentagào, embora singola, mas tambem em varios 
tumulos. da infanta D. Constanga, primeira mulher 
dei-rei D. Fedro i, fallecida cm 1345, sendo ainda 
infante seu esposo, mostra grosseira esculptura, tanto 
nos ornatos que Ihe decoram a caixa, comò na incor- 
rectissima e tosca cstatua da infanta que està deitada 
sobre a lampa -. 

Vinte annos jdepois, tinba fello a esculptura mui 
notaveis progressos, comò o alteslam os ricos mauso- 
léos da rainha D. Ignez de Castro e dei-rei D. Pedro i, 
que se acham na egreja de Alcobaga, e quc foram 
mandados fazer por este mesmo soberano, fallecido 
em 1367. Mostra bom gesto e certa delicadeza toda 
a obra de ornamentagào, exceplo as eslatuas dos so- 
beranos e as figuras dos anjos, todas as quaes care- 
cem de correcgào de desenho. 

Aperfeigoou-se muilo a esculptura no reinado do 
D. Joào r, do que é prova irrecusavel o monumento 
da Batalha. Nào se podem fazer em pedra silvas, ren- 
das e arabescos mais delicados e graciosos quc os que 
alli se admiram. Mas a estatuaria pouco ou nada se 
1 adiantou. 

t Continuou florescenle a esculptura nos quatro se- 
guinles reinados, mas na parte propriamente orna- 

! i O documeoto cm quc vem citado o seu nome é do anno de 1168. 

I ^ A infanta D. Con8tan9.\ JaK na egreja de S. Francisco de 8anta- 

I rem. Eateve depositada muttoa annos no tumulo aciina rcferido. De- 
poÌ8 foi traaladada para o niauaoléo dei-rei D. Fernando, aeu filfao, 

I feito com a capacidade necessaria para n*elle se accommodarem os 
dola eaixSes. Este fico mausolèo està no còro da dita egr^a. O 4|ue 
primeiro cncerrou o corpo da infanta D. Constan^a aclia-so hoje no 
museu archeologico da associa^So dos archilectos, no tempio gothico 
do Carmo, cm Lisboa. 



ARCmVO PITTORESCO 



139 



mcnlal. A ^statuaria dHo dcu passo algom no caminho 
rto progresso em todo esle longo periodo. mosleii'o 
de Santa Maria do Beicm, e toda a obra fcita por or- 
dem dei-rei D. Manuel no convento de Cbristo, em 
Tlìomar, e nas eapellas imperfeitas da Batalba, abo- 
nam quanto acabómos de dizer. Causam cnlevo e ad- 
mirando os brincados lavores, os rendilhados subtis, 
que o^mais delicado cinzel, dirigido por imaginagào fé- 
cunda'e poetica, alti esculpiu napedra. Porém, quanto 
lìs estatuas que decoram esses edificios, todas, seni 
exceptuar urna unica» s5o defeituosas no desenbo e 
grosseiras ha esculptura. Pcccam nos mesmos defeitos 
as que adornam o bello portai da egreja da Conceigùo 
Velila, em Lisboa, que jà disscmos em outro volume 
ter servido de porta travóssa ao magnifìco tempio da 
Misericordia, fundado por cl-rei D. Manuel ^ 

Sendo os edificios referìdos as construcgOes em que 
mais se empenbou a muniiicencia dei-rei D. Manuel, 
é fora de dùvida que n*elles se empregariam os mais 
insignes artistas quo houvesse no paiz. Admittida està 
proposi^ào, que temos por verdadeira, deve-se tirar 
por conclusào que em tempo d'estc monarcba os es- 
cuiptores nacionaes eram mui imperfeitos em todos 
OS trabalhos de figura, e que, durante a construc^'ào 
dos ditos edificios, nao vciu ao reino, ou, pelo me- 
nos, nào foi empregado nas obras do estado estatua- 
no algum estrangeiro de mereci mento. 

Portanto, apparecendo nos fìns do reinado de D. Ma- 
nuel urna obra de esculptura em pedra, qual o pulpito 
da egreja de Santa Cruz de Coimbra, de grande pri- 
mor apistico, e que sobresac principalmente pela bel- 
leza e perfeigfio das estatuas que a decoram, nào é 
possivel attribuil-a a artistas nacionaes, dando-se ain- 
da, para corroborar e.stas razOes, a circunstancìa de 
continuar a estatuaria, nos reioados que se seguiram 
ao de D. Manuel, no mesmo atrazo em que se achava 
anteriormente. 

Demonstrado, pois, ao que nos parecc incontesta- 
velmente, que o pulpito de Santa Cruz de Coimbra é 
producyào de artistas estrangeiros, resta-nos indagar 
OS seus nomcs. 



Outros sSo, felizmente, os principios do direilo das 
gentes por que se governam as nagOes modenias; boje 
nfio ba tolerar abi as atrocidades que em seus estados 
consentiam os antigos dynaslas, com grande quebra 
da propria dignidade e grave offensa da raoral uni- 
versa!, aos olbos da civilisagdo bodierna. 

Para evitar as sanbas da ioquisi^So, que jà outr'oru 
o bavia perseguido, permaneceu em Franga, nào ou- 
sando regressar ù patria, o dr. Antonio Nunes Ribeiro 
Sanches; e, a firn de subtrabir-se ao despotismo de 
um ministro, abandonou a patria e refugiou-so tam- 
bem n'aqui.'iie paiz o padre Theodoro de Almeida: dois 
sujeilos venerandos por letras e sciencias, dois enge- 
nhos primorosos, de que se orgullia com justiga Por- 



tuga!. 



II 



(Continua) 



1. Ds VxLUKXA Barbosa. 



UM INVENTO PORTUGUEZ 



Numerosos eidadàos portuguezes tem sido arrojados, 
em difTcn^ntes cpoclias, ao exiiio pelas vagas das gUer- 
ras civis; antes, porém, que se manifestassero tao pro- 
fundas, corno se manifestaram nos ullimos tempos, as 
nosstis dissensOes intestinas, jà em outros arredados 
baviam procurado em paizes estrangeiros a seguranga, 
que Ihes faltava no proprio, alguns varues benemeri- 
tos das letras patrias. 

Foram motores da expatriagào o odio dos reis, a 
malevolencia dos validos, e a perseguigào de um tri- 
bunal truculento, que se appellidava, por autonoma- 
'sia, do santo officio. Satisfez algumas vezes o sicariato 
a vindicta dos reis nos proprios logares em que os 
profugos procuraram asylo. Conformcs às normas de 
bom regiinen se reputavam essas negociagOes de san- 
gue: e OS obslaculos quo se julgavam empecel-o rc- 
movia-os o punbal do assassino pago pela munifìcen- 
cia règia. Condecorou a nossa historia com o titulo de 
principe perfeito o soberano que mais ampio uso fez 
d'estc deploravel recurso. 

1 Os noiMOfl cscriptorcfl contcnuporaneos tcin affirmado qnc este por- 
tico é tudo quanto resta da synagoga dot Jadeti«, quo «I-rei *I>. Ma- 
nuel converteu em tempio christio, dedicado a Nossa Senhora da Con- 
ceif&o, doando-o aos freires de Ohristo em troca da ermida do Nossa 
Scnbora do Rastcllo, onde fundou o moeteiro de Sanfa Maria de Be- 
lem. Està opinilo 6 inezacta, e procede da fatta de conhecimento da 
historia d^aquelle monumento e da situarlo da mencionada synagoga. 
Sobre «sta 'qnestio jA •■crevem<w largamente no Arehivo PUtoriteo. 



Sabem ainda os menos iidos em nossa bÌ!>toria lit- 
teraiMu, que o dr. Antonio Nunes Ribeiro Sancbes fora 
conselheiro de estado na coi'te da Russia e primciro 
medico dos czarcs. E logmiido varias distincgues bo- 
norificas, mereceu tambem os louvores do Plinio fran- 
cez, mr. de Buffon, e os do celebre Vic-d'Azyr, ha- 
vendo sido inscripto o seu nome no catalogo dos socios 
bonoranos da academia real de S. Petersburgo, e no 
dos socios correspondenles da academia real de Paris 
e da academia real das sciencias de Lisboa. 

Muitos, poróm, ignorarào porventura que, depois de 
discorrer pelas cidades de Pisa, Montpellier, Londres 
e Leiden, onde ouviu os mais eminentes professores 
das sciencias naturaes, muitos annos residira na Rus- 
sia, por fugir A pcrseguigào que em Portugal llie fi- 
zera o santo officio. Quando opprimido de mole?tias, 
e obrigado a procurar mais saudavel clima, quiz re- 
gressar 4 patria, reteve-o ainda longe d'ella o medo 
d'aquelle tremendo tribunal. 

Resolveu fixar a sua resìdencia em Paris; e se, para 
consolar das saudades que curtia, bastassem as es- 
timagues dos sabios e as distiiicgóes das pessoas de 
mais elevada gerarcbia d'està corte, cremos que nella 
podéra viver consolado; parecenos, todavia, que as 
eslimagOes e distiocgóes dos estranhos nem valcriam 
sequer a dulcificar-lhe os agros do deslerro, e muito 
menos a apagar-lbe as saudades da patria. 

marquez de Pombal, que à sciencia do dr. Ri- 
beiro Sancbes prestou respeitosa bomenagem, consul- 
tando-o em importantes negocios, e nome-adamente so- 
bre a rcformagào da universidade, por uma contradic- 
gào vulgar nos bomens de estado, nào so desprezou 
as grande» luzes do padre Theodoro de Almeida, mas 
obrigou-o a exilar-se, indo repartir com os estranbos 
OS conbecimentos que podOra liberalìsar aos naturaes. 

Incorrerà no odio d'este ministro a congregagao do 
Oratorio, e nào ousando proscrevel-a, comò fizera a 
companbia de Jesus, desembestou as suas iras contra 
alguns de seus memhros, sendo um d'elles, e dos mais 
conspicuos, padre Theodoro de Almeida. 

Nao podiam deixar de eslimar-se os dois illustres 
portuguezes, Ribeiro Sancbes e Theodoro de Almeida, 
refugiados ao mesmo tempo era Franga. Deviam li- 
gal-os em estreila amizade a communidade de patria, 
identìdade de cìrcunstancias, analogia de estudos, em 
fìm, aquclla affinidade scientifica, permitta-se-nos di- 
zelo assim, que attraile reciprocamente os sabios. 

Possuimos documenlos que provam estas relagOes 
de amizade. Pertenceram ao sv. D. José Valerio, bispo 
de Portalegre, que os guardava com grande aprego, 
bavendo-os adquirido quando era membro da congre- 
gagao do Oratorio ^ 

Sào duas cartas autographas do dr. Ribeiro San- 
ches: uma datada de Paris em 26 de setembro de 

1 Honvemol-oB com ontros por mercl^ do nosfo amigo, o rev. sr. co- 
nego vigarlo gcral do bispado, Mannol Teixeira de Agular, famulo 
qate foi de '«: est'.* e kérdtiiro de seni piipeii. ■ < 



140 



ARCHIYO PITTORESCO 



1774, outra datada da mesma cidade em 18 de Ja- 
neiro de 1777, e ambas dirìgìdas para BayoDa ao pa- 
dre Theodoro de Almeida. 

É a primeira, na maxima parte, resposta a uma 
consulta do illustre congregado sobre os seus padeci- 
mentos. Omittiremos està parte, porque tem pequena 
importancia com relagào à sciencia dos dossos dias; 
transcreveremos, porém, a outra parte, e integral- 
mente a segunda carta. 

Sào escriptas em papel ordinario e do mesmo for- 
mato, e ambas conservam o brazào d'armas, n'uma 
impresso em lacre preto, n'outra em lacre vermelho. 
£ mesmo brazdo que Ihe concederà a grande Ca* 
tbarina ii, e póde n'eiie decifrar-se o principio da le- 
genda com que a imperatriz o condecoràra: 

Nec sibi^ sed loti genitura se credere mundo 
Nao creu que para si viera ao mundo, 
Mas sim para util ser ao mundo todo. 

Nem sempre é correda a iinguagem d'eslas carlas; 

f)erdoàmos, porém, de boamente esse defeito ao in- 
eliz desterrado, que por tao longos annos se viu obri- 
gado a fallar diversas linguas estranbas, havendo, 
porventura, decorrido rauitos sem que ouvisse uma 
so palavra da materna. 

Os caracteres sào bellos, attestando os progressos 
da calligraphia n'aquella epocha. 



Ili 



. PRIMEIRA CARTA 

«Su' Theodoro de Almeyda — Ante ontem recebi a 
mui estimada carta de V M do 16 do corrente com 
a distinta relagào das suas queyxas: corno afecionado 
amigo e servo as quizera ver nào so diminuadas, mas 
conforme o meu desejo totalmente curadas: mas comò 
Medico fico de algum modo descansado, e o fìcarei 
mais quando receber resposta a està com as clarezas 
que pesso nesta. 



«Sabemos aqui de certo que o Nosso Monarcha nem 
vai ver Touros, nem que vai a cassa (ou caga): Sa- 
bemos que toma os Banbos das Alcagarias; e no mais 
■altum sUentium, comò he lei das cortes; quem ali 
^doeceo, sempre vai melhor ate bum certo dia... Deos 
omnipotente Ihe de a saude necessaria para ter cui- 
dado dos seus povos! 

«Tenho retardado resposta ao Estudante Palhares; 
estive molestadOf e nào fico sào, nem com vigor: o 
servirei no que pertende comò Portuguez do tempo 
velho, e por me figurar que sera util a àquella terra, 
e a bumanidade. 

«Admirome que uessa pestifera doenga dos gados 
ndo tenba o Parlamento dessa Provincia tornado as 
medidas necessarias para abrandala, ou extinguila: 
hoje em Hollanda se descobrirdo alguns meyos efiB- 
cazes. 

«Queyra Deos que V M consiga a venda das suas 
machinsTs no Perrol, e que esse Amigo se conserve, 
e que esteja em estado de as comprar. 

«0 Nosso' Flamengo na lida de sua Bibliotheca a 
Deos gragas vive com saude; o que me dà muita sa- 
tisfagào. 

* «Alegrome que V M tomou a resolugao de occupar 
pensamento no trabaiho divertido de fazer thermo- 
metros e barometros, e essa. Carla Geographica em 
madeyra (idea nova e curiosa para ensinar ura cego); 
V M tàobcm le por pausas, e quer comegar bua ca- 
mara obscura. 

«Est modus in rebus... ainda este traballio nào ha 
de ser que curar o enfado de estar so e de nao con- 
versar; mas se o juìzo e a appiica^ào, combinando e 



tirando consequencias materiaes, se engolfa nestes oh- 
jectos, para perto se mudou V M^ assim Ihe pesso 
que vegete agora a mayor parte da vida ; fassa o seu 
possivel para nào esfriarse e ter sempre o seu corpo 
na mesma temperatura: pòrque vem o inverno, os 
ventos, OS nevoeyros, etc. 

«Espero que V M me de noticias que me consolem, 
que sào aquellas que nào sente a minima modestia: 
e fico no entretanto as suas ordens com a mais prom- 
pta vontade para obedecerlhe. Deos guardo a V. M mui- 
tos annos. Paris 26 de Setembro de 1774.— De V M — 
mui fiel e obrigado servo e venerador — Antonio Ri- 
heiro Sanches.» 

Sobrescripto — *À Monsieur — Monsieur fAbbé d Al- 
meida — Bayonne, » 

Com a marca do correlo Paris. 

BBOUSDA CARTA 

«Sn' Theodoro de Almeida — Recebi a mui estimada 
carta de V M de 31 de Dezembro passado, no tempo 
que estava bem doente de bua violenta e rebelde tosse 
que continua ainda, mas mais supportavel, e comedo 
a sabir fora de casa. Alegrome que V M viva com 
aquella saude que sempre Ibe dezejo, e dezejo na con- 
tinuagào deste anno e muito mais com aquella paz 
de alma que ninguem conhece senào quem a possue 
e a entende: He vcrdade que montar a cavallo he 
bum remedio; nnis fazer jornadas longas a cavallo 
he triplicado reraedio; mayor diversidade de objectos, 
de alimentos, agoas, ares differentes... teve V M oc- 
casiào de gozar destes beneficios para fortificar a sua 
saude do que me alegro e felecito a V M. 

«Estimarci que V M tirasse o lucro que esperava 
da lotteria do Planetario: fico contente que bum seu 
Discipulo sabisse premiado com elle, e que possa ser 
util à sociedade Vascongada; porque penso que se de- 
via comegar o estudo da Fisica pello da Astronomia: 
Mas vejo que em Castella ainda estào ligados com as 
correnles da Fisica dos Coiiventos, Thomistas, Scotis- 
tas, Reaes Nominaes e Integraes: Quando se acabarà 
tanta parvoice fradesca? 

«Aqui nào chega nenhùa notìcia clara do estado da 
corte de Portugal: Sabesè que EIRey està hemipletico, 
mas com algua melhora; que a Snra Rainha he Re- 
gente; que alguns dos Amigos do Ministerio ou estào 
arrufadoSy ou baralhados: Nào me atormento para 
saber a verdade: Se viver tudo se saberà, e queyra 
Deos que com alegria. 

«Do nosso Flamengo nào tenho noticia depois de 
algumas semanas ; espero receber delie bìDas noticias 
comò dezejo. 

«De Almeida Palhares que estuda em Montpellier 
ti ve noticias; està determinado a ir para Portugal pello 
mes de Margo que vem; e eu sou desse parecer; por- 
que ir a Edimburgo he ja tarde; requer dinheyro bas- 
tante aquella Universidade, e ficar ali dois annos para 
fallar Ingles; porque as ligoens se dào nesta Lingoa. 
Deos Ihe de bom successo! 

«Fico as ordens de V M sem cerimonia, e tomara 
scrihe util para persuadilo que o venero e que o amo. 
Deos guarde V M muitos annos. Paris 18 de Janeiro 
1777. — De V M — mui certo e mui obrigado criado — 
Antonio Ribeiro Sanches. — Rue de Blancs Manteaux. 

«P. S.— Q...: Que casta de gente se prende pella 
Inquisigào de Castella? Sào Deistas, Atheistas, Judeos, 
Mouros, Calvinistas, ou Feyticciros, etc? aqui essas 
prizoens fazeni estrondo, e pasmo.» 

mesmo sobrescripto e a mesma marca do correi© 
da carta antecedente. 



(Continua) 



F. A. 1lODllf«rFi( T*K GlTBtflO. 



ABCfflVO PITTORESCO 



14t 



TEMPLO DO FOGO, EM ATESH-GAH 

Na provincia de Cbirvao, junto da costa de oésle 
do mar Caspio, em urna peoinsula cbamada Apscbe- 
ron, està situada a pequeaa cidade russa de Bakou, 
contendo urna populacAo de 6:000 almas. È urna forte 
)>ra(a de guerra, e tem o melbor porto do mar Caspio, 
muilo freguentado por ser alli o commercio floresccn- 
tc,' e nmito imperlante, sobre tudo, com Astrakbao, 
grande cidade e prìncipal emporio commercia] da Rus- 
sia europèa, cdlGcada em uma ilba d'aquelle mar. 



A cidade de Bakou foi sède de um soberano inde- 
pendente, que dominava no Cbirvan, com o titulo de 
Jdtan. Vencido pelos persns, Gcou Bendo vaseailo do 
seu rei até ao anno de 1723, em que, vencida, a seu 
turno, a Persia pelos russos, apossaram-se esles de 
todo Chirvan, Correndo o anno de 1735, ateou-se 
de novo a guerra entro a Persia e a Russia. Decidiu- 
se a Victoria em favor da primeira, que recuperou a 
provincia perdida. Rompendo oulra vcz a lucta enire 
as duas potencias no principio d'este seculo, a sorte 
das armas por tal modo foi conti-aria à Persia, que 
està najQo viu-se obrigada a comprar a paz a Iroco 




Tempio <Ia Fogo, ei 

de grandcs sacrilìcios pelo iralado de Goulìstban, em 
1813. A provincia de Cliirvan foi eniào cedida defì- 
tiìlivamenle 4 Russia. 

Nos arrabaldes de Bakou ba uma curiosìdade na- 
turai que lem dado a ossea logares grande celebri- 
dade. Existe alli um pantano sobre o qual se vOem 
conslantemenle mil chammas de cor azulada, que bri- 
Itiam de noile corno um mar de fogo. Este pbenome- 
no, que li o resullado da evaporagào. de um gaz produ- 
zido pela muìta quantidade de napbta que alli exìsie, 
o qual se indamnia ao contacio do ar, attrahe a oste 
silìo numerosa concurrcncia de gente. Nùo se julgue, 
porém, que sao curiosos que vao observar e admirar 
iso singular e vistoso phenomeno. Compùe-se de pe- 
regrinos loda essa mullidiio, quo alli aillue de dis- 
tanles parles da Asia para ec prostrar em adora^^o 
dinnle d'aquelle Togo eterno. 

Nao julgando baslunte està honienagem no que olbam 



e acalam cJimo pei'sonilicatào do Creailor, fundaram os 
adoradores do fogo n'aquellas visinbansas, em um lu- 
gar denominado Alesh-Gnh, um tempio, onde, por sua 
devof^o e cuidados, esiivesso alimentado o fogo pe- 
rennemente. 

Foram os guebros e os parsis, prìncipaes Iribus que 
seguem o culto do fogo, os ediUcadores do tempio. 
Juiilo d'elle coiistruiram um convento, onde viveni os 
sacerdoies encarregados de velarem pela con5erva(;iio 
do fogo sagrado. 

(Contlaia) t. DI Vilhui Biuom. 



orvaiho 6 o Prolbeo da natureza, que nas male 
raras produc^Oes se transforma: nas agucenas se faz' 
candido, encurnado nas roaas, nos amaranloe purpu- 
reo; em ronrhas do mar se hi perola, nas uvae ne- 
clar, mrl nas abelbas, eie. i>. turuin. Bivrntu. . 



142 



ARCHIVO PITTORESCO 



PISGICULTURA 

(Vid. pag. 98) 

ni 

Em principios do anno de 1859 publicou em o Ar- 
chivo Eural o sr. conselheiro Rodrigo de Moraes Soa- 
res, redactor d'aquellc periodico, dois excellentes ar- 
tigos sob liluio: As pescarias evi Portugal ^. 

No primciro, depois de mui sensatas consideragOes 
àccrca da importaocia da indnstria piscatoria e da prò- 
tec^ào quc merececn os que a ella se dedicam, men- 
ciona facto de nos assistircm todas as condigues 
para o estabelecimenlo d'aquella industria *; memora 
grande Qorescimento das nossas pescarias em outros 
tcmpos; indica a epocha em que comegaram a des- 
cair; bistorta as tentati vas do marquez de Porobal para 
restaural-as, e o inquerito a que as cortes de 1821 
mandaram proceder para se investigar a profundeza e 
origem d'aquelle mal. 

Aproveitando-se de alguns factos bem averiguados, 
na falta de estatisticas competentes e dignas de con- 
fianca, procura n'aquelle artigo o sr. conselheiro Mo- 
raes Soares determinar as causas da antiga decaden- 
eia das nossas pescarias e o estaciouamento em que 
estuo ha bastante tempo. 

No segundo artigo, referindo-se o sr. conselheiro 
Moraes Soares d memoria sobre o mesmo assumpto 
publicada pelo academico José Joaquim Soares de Bar- 
ros 3, diz que «abundando nas ìdéas de Barros pre- 
tendeu dar-lhes corpo e fórma nas bases de urna lei, 
que depois deverà ser desenvolvida em regulamenlos 
especlaes»; e, sem se demorar em defender cada uma 
das bases do seu projecto, insiste apenas em juslifì- 
car augmento do imposto e o da verba da despeza 
para organisar um ramo especial da administragào das 
pescarias. 

Desenvolvendo estes dois pontos, e depois de ter 
alBrmado que a industria da pesca deve em Portugal 
produzir annualmente mais de 2.000:000ig000 réis, 
accrescenta o illustrado oscriptor: 

«Uma industria que dà estes rcsultados nào mere- 
cerà a pena de se collocar em condi(;Ges favoraveis? 
. «Mas ha mais a dizor. As nossas costas mariti mas 
affluem * as mais preciosas especies de peixes e ma- 
riscos, e se nós seguirmos o exemplo que nos estSo 
dando as nagOcs mais illustradas, a que ponto nào 
podcrà subir a nossa riqueza ichtyologica?» 

A estas tao prudentes obsLTya(;òes accrcscenlou o 
sr. Moraes Soares um rapido esbogo da historia da 
piscicullura ^, que termina com as seguinles palavras, 
tanto mais dignas da ^ttengào dos poderes publicos, 
e mesmo dos mdividuos que quizessem emprehender 
a criagùo e multiplicagao dos peixes, quanto parteni 
dos labìos de um homcm compelcnlissimo n'este co- 
mò em outros assumptos: 

«Quem sabe o que se eslA fazendo em outros pai- 
zes (falfa o sr. conselheiro Moraes Soares), quem co- 
nhece as disposigòos naturaes de Portugal, que sào as 
mais aptas para todos os desenvolvimentos da indus- 
tria da pesca e da propagagao artiGcial dos peixes, 
sente-se repassado de amarguras observando a indiEFe- 

i "È o Arehivo Jiural am dos mais serlos e bcm redigidos periodfcos 
■cicntificoB portuguer.€8 que conhcccmog. Sentinios que nio ande nas 
mnos do todos, prìucf palmento do8 habitantes dos cainpos, quo n^cUe 
encontrarinm multa e muitissimo util H9Ì0. 

Os artigoe a quo nos roferiroos vem a pag. 5QQ e 533 do voi. i. 

' Kfio ha contradic^So entro o que o sr. Moraes Soares dir. da abnn- 
dancia das melhorcs especies de peixes nas costas e rios de Portugal, 
e o que dlsseroos da mlngua de pescado que dcsde certo tempo se està 
sentindo. Ha nove annos é que o sr. Moraes Soares escroveu, e de en- 
tilo para cà o facto que asseverÀraos tem-se dado. 

3 Memoritu eeonomieeu da aeademia real daa scicneiag, tomo x. 

* N^este legar refere-se o anctor do artigo que extra«tamos a uma 
Nota indieatvfa da» pHneipaes eaptcée* e variedades dt peixta t mari»' 
co«f que «e pe»eam na cotta maritima e rio» do eontinente do reino de 
Portttgal, a qnal trasladou do JCnsaio sobre a topograpliia medica de 
ZÀfkék, pablfeàda em 1843 pelo dr. P. I. dos Sanfcw Crns. 

> Podem ler-fe aUt.ioiklB alguoa promenorea sobro * historì* da pfa- 
ctcnltura, os quaes nlto mencionAraos no logar competente por nfto 
termoa a tenpo- naticla 4PelIes. 



renga com que os nossos homens de estado olbam 
para as coisas mais sérias e uteis. As lagóas de Al- 
bufeira, Obidos e outras nào se prestavam, bem corno 
OS nossos maiores rios e ribeìros, à fundagào artilicial 
das melhores especies de peixes? A ria de Aveìro nào 
tehi todas as condi^x3es para alli se fundar um esta- 
belecimento de pescarla comò o de Comachio? 

«Tomem-se em conta todas estas consideragOes, e 
digam-nos se merecerà a pena de gastar trinta e tan- 
tos contos de réis para dar um impulso regulnr e per- 
manente a um complexo de ìndustrias que, bem di- 
rigidas e exploradas, podem constituir copiosas fontes 
de riqueza publica. » 

Segue-se ós consìderagOes de que copiàmos o pe- 
riodo antecedente, um projecto de lei, que, obrigados 
(►eia estreiteza do espago, nao transcrevemos, mas cuja 
eitura recommendàmos, fazendo votos para quc seja 
convertido em lei, ou pela inicìativa do governo ou 
de qualquer representante do povo. 

No projecto a que nos referimos està expressamentc 
determinada a introducgào em Portugal da plscicultu- 
ra. No artigo l.** lé-se: «As pescarias, as sali nas, a 
piscicullura e as induslrias que immediatamente d'es- 
tas se derivam, constituirào de ora em diante um ramo 
especial de administragào publica, subordinado ao mi- 
nisterio das obras publicas, commercio e industria.» 
No artigo 5.° determi na-se a creagào de uma caixa 
centrai do melhoramento das pescarias e Ìndustrias 
annexas, parte de cujo fundo se estabelece que seja 
destinado para compra de barcos e apparelhos de pes- 
ca, para melboramenlos dos portos, para ensaios de 
piscicullura e aperfeiijoaraento dos processos da pre- 
parando do peixe, conforme o que for mais convenien- 
te. No artigo 12.°, em que concede auctorisagào ao 
governo para decretar os regulamenlos necessarios 
para a execuQào e desenvolvimento das bases da lei, 
declara-se que um dos fins a que tenderSo sera: in- 
Iroduzir e vulgarisar no palz os melhores melhodos 
de piscicidlura, a firn de povoar as nossas lagóas e 
rios das mais estimadas especies de peixes. 

Jà là vào nove annos que a voz auctorisada do sr. 
conselheiro Moraes Soares recommendou, entro outi^os 
muitos melhoramentos relati vos às pescarias, a intro- 
ducgào e vulgarisagào no paiz dos melhores methodos 
de piscicultura, e, louvado Deus! so teremos a con- 
signar tentativas de alguns cavalheiros que, por falta 
de condigóes favoraveis, nào conseguiram os rcsulta- 
dos que OS piscicultores estrangeiros tem obtido. 

Salvo erro, foi o nesso amigo o sr. Joaquim Pos- 
sidonio Narciso da Silva a primeira pessoa que em 
Portugal tentou a multiplicagào artiGcial de salmOes 
e trutas. 

Em 1856 mandou o sr. Narciso da Silva vir de 
Franga o Tralado de piscicullura de mr. Coste, re- 
centemente publicado, e diligenciou obter do ministro 
de agricultura, commercio e obrus publicas d^aquelle 
paiz a permissào para Ihe sercm fornecidos do esta- 
belecimenlo de Huningue os ovos fecundados, a firn 
de verificar se se desenvolveriam sob a iufluencia do 
clima de Lisboa. Foi graciosa e promptamente atten- 
dido, e expedida a oi'dem para que se satisfìzesse a 
sua requisigào. 

De dezembro de 1857 a margo de 1864 foram 
enviados ao nosso amigo 106:500 ovos fecundados 
de differentes especies, a saber: salmdes do Rhcno, 
54:000; salmóes do Danubio ^ 500; trutas do lago 
de Genebra*, 7:500; trutas vulgares, 11:500; tru- 
tas salmonadas *, 4:500; ombrina Chevaliery 8:500; 
fera *, 20:000. 

i Sio rcputados os melhores. 

9 Idem. 

3 Pareoe ao sr. Narciso da Silva qae é evta espeelo a que nniica 
vinga no nesso clima. 

, 4 Os peixea provenientes da evoln^&o d^estes ovos silo destinados a 
a'ervlreoi ile alinenfio ài «aiVat eapeaie». 



ARCHIVO PITTORESCO 



143 



Su a quarta parte, se tanto, dos ovos acima indi- 
cados chegou a Lisboa em estado de poderem servir 
para as experiencias. Os outros estavam corrompidos. 

Os apparelbos de que o sr. Silva se servia oram 
tauques de pò de pedra dispostos em fórma de escada. 
Os OYOs tìniia-os sobre lamioas de vìdro. Para conser- 
var mais baixa a temperatura da agua, durante os me- 
zes calmosos, empregava o sr. Silva o gelo. 

Nasceram os pcìxiubos; mas, baldados todos os cui- 
dados, morreram aos cardumes. Para evitar que pere- 
cessem todos, solicitou o sr. Narciso da Silva dei-rei 
a permissào de transporlar alguns para os lagos da 
reni quinta de Cinlra. 

Foi islo em 1861. 

Collocados alli, sob a vigilancia de um empregado, 
esperou o sr. Silva que vingassem, por isso que a 
temperatura era mcnor que a do locai onde, em Lis- 
boa, tinba comc^ado as experiencias, e a agua abun- 
dantissima. Nào sendo, poróm, aquellas duas circun- 
stancias as uuicas indispensaveis para o dosenvolvi- 
mento dos peixes, e tendo-se o encarregado do vivciro 
descuidado, corno suppóc o sr. Silva, de sustentar 
convenicntemenle os peixitos e de mantel-os nas con- 
digOes de aceio de que se nào póde prescìndir, foram 
pouco a pouco morrondo, e em breve se extinguiu a 
nova geragiìo. 

Durante urna viagem que o sr. Narciso da Silva fez 
pclas provi ncias do norte, diligenciou vulgarisar os 
processos da piscìcullura, e decìdir varios cavalbeiros 
a que se dedicassem a cslc ramo do estudos. Parcce, 
porém, que nOo couseguiu o que doscjava. 

Em dczembro de 1860 comegou o nosso amigo o 
dr. Joaquim Eleuterio Gaspar Comes, dislinclo pro- 
fessor do instìtuto goral de agricultura, a fazer alguns 
cnsaìos de multiplicagào artitioial de peixes na quinta 
da Bemposta, annexa ao instituto. 

Propozcra-se o intelligente professor nào so estudar 
praticamente a fecundagào e criagào arliDcial dos pei- 
xes, mas seguir e estudar o desen voi vi mento embryo- 
genico comò objeclo de demonstragào das ligòes de 
zoolecbnia. 

Obtidos do estabelecimento de piscicuttura de Hu- 
ningue os ovos fccundados, dizpozera na quinta da 
Bemposta o apparelho de incubagào, feito segundo o 
modelo do que ba no collegio de Franga; annexa a 
este apparelbo fizera construir urna piscina, na qual 
OS peixes recem-nascidos dcveriam estar por algum 
tempo, até poderem ser langados no grande lago, ou 
em qualquer outra parte, onde acbassem as condigóes 
proprias para se desen voi verem. 

salmào do Rheno e do Danubio, a truta dos lagos 
e a Irula salmonada foram as especios que o sr. dr. 
Gaspar Gomes preferiu para os seus ensaios *. 

No primeiro anno perdeu todo o trabalbo. A maior 
parte dos ovos cbegaram a Lisboa alterados, por ter 
sido muito demorada a viagem. Os poucos peixinhos 
que nasceram, ao desapparecer a vìsicula umbilìcal 
foram-se. Àttribue o sr. dr. Gaspar Gomes aquella 
mortandade ao exlraordinario desenvolvimento e pro- 
pagngào de um hissus, que se manifestou nos ovos e 
depois DOS peixes. 

No segundo anno salvaram-se mais de trinta sal- 
mOes e algumas trutas, que, obliterada a visieula um- 
bilicai, foram passados para a piscina e alli conve- 
nientemente alimentados. Além dos ensaios indicados, 
applieou-se o sr. dr. Gaspar Gomes a fecundagào dos 
ovos de outras especios icbtyologicas. Quaes cllas fo- 

i O estabelecimento de Huningue manda ^a tuttamente et ovos fé- 
cnndados à« pcssoas quo os rcquisitam; pela embalagem e polas tns- 
trac^òcs tambera se nSo calge quantla alguma. 8Ó se paga o trans- 
poi te pelos caroinhoB do ferro ou pelos paqnetes. 

Disse noe o sr. dr. Qnspar Gomes quo é digno do cspeclal mcnfào 
o modo corno em Huningoe se fsxem todas as opera^Ses relativas i 
reim'ssa dos ovos dee peixes; revolando-se na execu^ào d^ollas o me- 
Ihor methodo e arranjo, conscqncnclns da lotelligcncia e acerto com 
que ó dirigidò aquelle estabeleoimento. 



ram e quaes rcsultados obteve nào podémos agora 
dizer ^. 

Tencionava o digno professor proseguir em tao uteis 
estudos e dar-lbes mais desenvolvimento, quando se 
viu forgado a terminal-os, tirada a quinta ao insti- 
tuto. 

Na sua bella quinta de Cìntra tentou o sr. duque 
de Saldanha fazer a criagào artifìcial de peixes. Para 
conseguir a realisagào do seu empenho, mandou cons- 
truir uma excellente piscina, e mandou vir de Italia 
um sujeilo habilitado n'aquella especialidade para di- 
rigir OS ensaios ^. 

Diz-nos pessoa muito competente que nào so é muito 
entendido em piscicultura o individuo que o sr. duque 
de Saldanha encarregou d'aquelles trabalbos em Gin- 
tra, mas tambem que tudo alli està bem disposto. 

A primeira remessa de ovos fecundados que de 
Franga vieram para o sr. duque foi de 20:000. Viu- 
garam alguns milbares de peixes, e alguns attiogiram 
consideravel desenvolvimento. Alimentaram-n'os com 
figado de boi. Cbegados a corta grandeza, foram pas- 
sados para um grande taaque, onde ainda por algum 
tempo se Ibes admìnistrou o primitivo alimento. 

N'aquelle tanque viu o sr. dr. Gaspar Gomes alguns 
salmOes que pesariam um ou dois kilos. Parece, po- 
rém, que posteriormente morreram todos. Jà este anno 
(1868) vieram de Franga ovos que se desen voi veram. 
Òs peixes, segundo informagOes que nos deu o nosso 
bom amigo sr. Silva, eslào bem dispostos. 

As tentalivas feilas pelo sr. duque de Saldanba para 
obler peixes para fecundagào arlificial, parece nào po- 
derem servir de modelo de uma exploragào industriai, 
por muito dispendiosa. 

Tambem nos consta ter o sr. marquez de Niza, em 
1867, tentado alguns ensaios de piscicultura com ovos 
vindos de Franga. Infelizmente, goraram todos. 

É que sabemos feito em Portugal relativo à pis- 
cicultura. 



(Contin&a) 



SousA Tkllxs. 



GELLERT 

(Vid. pag. 131) 
IH 

livro de Gellcrt toroou-se o Livro do povo, Todos 
saòiam as suas fabulas de cor. E até havia quem nào 
se entregasse a outra leitura. 

Um dia de rigoroso inverno e copiosa chuva, parou 
à porta do escriptor popular um aldeào com o seu 
carro. aldeào subiu, perguntou pelo senìior que fa- 
zia Undas fabulas, agradeceu a Gellert o prazer quo 
Ihe dava o seu livro, e pediu-lbe que acceitasse uma 
carga de lenha que fora buscar com essa intengào. 

Outra vez, cstando o poeta em casa do seu enca- 
dernador, viu entrar um rachador, que lirou do cabaz, 
cbeio de objectos estranhos à lilteratura e a poesia, 
um exemplar das Fabulas e contos, encadernador, 
que conbecia o pobre homem, perguutou-lhe corno 
tinba comprado o livro. 

— Ora essa! disse elle, comprei-o com o meu di- 
nbeiro, depois de ver que o bailio e o mostre de es- 
cbola da minba aideia tinham um egual, que liam 
com alogria, porque Ibe achavam pilheria. Tenho um 

1 Além dos ensaios de piscicultura, fazla o sr. dr. Oaspar Gomes, 
na quinta annexa ao Instituto, ensaios de acclimatilo da cochonilba 
e da cria^So do sanguesugns. Em 1859 conseguirà que os Insectos, 
tendo passado por dlversos graus de acclimatilo, supportassem os ri- 
gores do inverno ao ar Itvre. No terreno onde agora se levanta o hos- 
pital Estephania ha^.a disposto uma bella nopaleira, com as tres es- 
pecios de cactos, optmtia hratUitnaitf vulgaris e eoeeineltl/er. 

£m 1861 mandou o sr. dr. Oaspar Gomes A exposifUo Industriai do 
Porto dois vasos com folhas de cactos chelas de Insectos, e com alguns 
ntnhos. 

< Conata-nos que o ptsclcultor do sr. duque de Saldanha fot por 
s. ex.* mandado a Franca estudar a arte do produzlr artificialmente 
OS peixes, para dopols vir para Clntra. 



144 



ÀRCHIVO PITTORESCO 



rapaz quc principia a ler, o, corno de certo lerà isso 
aos seróes, deixarei de ir à tahcrna... Parcce-me, pò- 
rem, que o que fez o livro m*o vendeu caro. 

— que vendeu o livro, ineu amigo, interrompeu 
o encadernador, nào foi quem o fez, porque so é ne* 
gociante. 

— Pois se soubesse n&o o feria pago tao caro! 
respondeu o rachador. 

— E a prova é que està aqui o auctor, accrescen- 
tou o cncadernador, apresentando Gellert. 

Eram dignas de ver-se a admira^ào do rachador e 
modo corno elle pretendìa animar o auctor, dizen* 
do-lhe que continuasse a escrevcr coisas alegres e 
moraes, e batendo-lbe com familiaridade no hombro. 

— Desejo, dizìa Gellert repetidas vezes, ser ulil aos 
bomens em geral, e ndo aos sabios propriamente di- 
tos, porque estes nao carecem de mim. homem 
mais bumilde merecc que eu trate de captivar-lhe a 
atteng&o e contribua para dislrabii-o; merece tambem 
que cstude para Ihe dizcr verdades uteis, e excitar- 
Ihe na alma bons e bonrados sentimentos. 

Embora tivesse repetidamente, em innocentes saty- 
ras, censurado os defeitos do bello sexo, as nmlbe- 
res, comtudo, recebiam-n'o bem. E a prova estava em 
que as leiloras o mandavam comprimcntar, jà por 
racio de bilbetes, jà por racio de lerceiras pcssoas, 
e de vez em quando tambem Ihc enderegavam car- 
linhas pedindo-lhe conselhos. Gellert constituira-se, 
pois, pela natureza do seu caracter e do seu talento, 
um director litterario e moral, e por isso mantinha 
extraordinaria correspondencia com diversas pessoas. 

As raparigas perguntavam-lbe qual era a Icitura 
mais proveitosa para o coragào e para o espirito; se 
em logar de se dedicarem à leilura, deviam entre- 
gar-se exclusivamente aos cuidados domesticos; se a 
solidSo e distrabirem-se com os proprios pensamen- 
tos era preferìvel à frequencia no mundo; se, apesar 
do prazer quc havia era se corresponderem com as 
amigas, bavia n*isto coisa reprebensivei ou perda de 
tempo; se, n'eslc caso, deviam limitar-se ou abster- 
se inreiramente; e mil outras perguntas d'este genero. 

Gellert, hom, bumano, amavel, cortez, respondia a 
tudo; nào recusava conselhos ncm aos mogos, nem 
aos anciàos, nem às mulheres, nem aos bomens. 

Os paes pcrguntavam-lbe àcerca de quem deviam 
escoiber para ensinar seus fìlbos; e as màes interro- 
gavam-n*o relativamente à educagào de suas filbas. A 
todos fallava verdade inteira. «A educagào particular, 
escrevìa, nào é coisa facil, porque n'ella ha mil cs- 
torvos... mundo nào é bom sempre. Vemos cons- 
tantcmente os mesmos objectos, e, assira comò somos 
pouco observados, tambem observàmos pouco os ou- 
tros. Concentrados na familia, deixàmo-nos dominar 
pela indolencia e tornàmo-nos em tudo sobejamente 
uniformes. Em nossa casa costumàmos mandar antes 
de sa ber oliedecer, e d'este modo nào aprendemos a 
mandar nem a obedecer!» 

Gellert respondia a uma senbora, sob a fórma de 
um paradoxo: 

«Pede-me que escreva alguma coisa para incitar as 
màes a que sejam solicitas na educagào de suas fì- 
Ibns. pedido 6 justo; porém nào julgo que seja ou- 
Vida a rainha voz. Supponha que as màes seguem os 
nieus conselhos, e dào às filbas esmerada educagào, 
e Ibes ensinam ou mandam ensinar a fallar e a pen- 
sar, assira conio a coser, a bordar, a varrer e a fazer 
a comida: que resultarla d*abi? Sobre cera nieninas, 
(lez aptMtas acharào maridos, e d'essas dez so duas, 
quando muito, serào felizes. 

«Em quanto os bomens de outro modo para nada 
servium, rainha senbora, seria grandissiraa desgraga 
se todas as raparigas tivessem exaggerada instrucgào. 
Succederia qne, ou os horaens nào as quereriara por 
c'àu<\i da suiKTioridadc que viam uas mulliercs, ou 



as raparigas, se se adoptassem os meus conselhos, 
recusariam os bomens que Ibes fossem muito inferio-* 
res. amor, minba senbora, nào póde existir sem 
uma especie de equilibrio intellectual. Que as mulhe- 
res se elevem, pois, sera inconveniente cultura, a 6m 
de que possam agradar a seus futuros maridosl Con- 
seguir-se-ba jà muito se em cada nagào houver cui- 
dado em educar convenientemente certo numero de 
meninas, inspirando-lhes o gosto do bom e do bello, 
tomando-as amaveis e sensiveis, e boas donas de ca- 
sa, a fim de que os bomens intcliigenles e probos 
encontrem mulheres que tragam a alegria e a felici- 
dade ao lar domestico.» 

As suas leitoras e admiradoras enviavam-lhe de vez 
em quando incognitamente notaveis tcstimunhos da 
sua gratidào. 

Um dia recebeu uma pequena caixa, especie de car- 
tonagera de pharraacia ou confeitaria, cujo rotulo in- 
dicava um medicamento ou perfumaria; abriu-a e viu-a 
chela de luizes de oiro. Ficou, comò deve suppor-se e 
era proprio do seu caracter, muito enieiado em prc- 
senga do dinheiro, cuja procedencia ignorava. 

Outra vez, uma senbora desconhccida de Brande- 
burgo brìndou-o com duzentos escudos. 

Sabiara todos que o professor Gellert nào crarico; 
mas tambem era notorio que a sua modestia estava à 
altura do seu merecimento. Elle rccebia uma pensào 
modica, e um dos seus protectores quiz accrescental-a. 
Gellert escreveu-lbe o seguinte: 

«A pensào que me destinam é mais considera vel do 
quc pensava, e asseguro-lhe que so hontem 6 que 
soube que se elevava a quatrocentos e oitenta e ciuco 
escudos. Nào desejo tanto, mcu caro conde, e por isso 
uào devo acceital-a. Bem sabe que ha dez annos re- 
cebo, por deliberagào da corte, uma pensào de ceni 
escudos; ora, se ajuntasse as duas pensCes, receberia 
annualmente quinbentos e oitenta e ciuco escudos. È 
multo, e mais do que desejo. Com tal somma poder- 
se-hia dar outra pensào a algum homem de letras, e 
ainda me restarla bastante. Julgo, portanto, que é 
conveniente limitar a pensào a quatrocentos escudos, 
porque d*este modo ainda teria mais trezentos escudos 
que que recebo até hoje; e, se a Deus nào aprouver 
que me tome absolutamente inhabil para o trabalbo, 
està quantia é multo sufficiente para mim, e de certo 
poderoi fazer bem a pessoas mais pobres que eu.> 

Gellert levava a generosidade até o ponto de indi- 
car OS bomens illustres ou litteratos aos quaes se de- 
viam distribuir os cento e oitenta e ciuco escudos que 
tinha cscrupulo de acceitar. 

Gellert tinha poucas necessidades. Que 6 preciso ao 
poeta? espectaculo da natureza e alguns livros es- 
colbidos; deve ser feliz, e mais que muito se conse- 
guir gozar a sua felicidade. 

(Contin&a) 

Fazer cada um o seu officio é maxima importantis- 
sima, assira ao bem pnblico comò ao particular; por- 
que conserva a ordera, dirime as compctencias, e con- 
federa OS titulos de justiga com os da caridade. Quando, 
em uma gale vogando, cada remeiro nào desarapara o 
seu rerao, entào navega raais veloz e raais serena. 
Quando no instruraanto musico cada corda faz o seu 
officio, entào està perfeitamente teraperado; e no corpo 
bumano, se cada membro exercita sua funcgào pro- 
pria, entào logra perfeita saude; porque os ceos, as- 
tros e elementos acodera fielmente aos oflicios que o 
Supremo Senbor Ihcs distribuiu no principio de sua 
creagào, persevera era sua conta a republica da natu- 
tureza e a machina do universo. 

Bom disse Eiredo, que raelter-se o sacerdote nos nc- 
gocios seculares, e o rei nos espirituaes, seria o nies- 
mo que o sol e a lua trocarera os olBcios, presidindo 
sol à iioilc e a lua ao dia. p. m*kckl Bekkahdm. 



19 



ARCniVO PITTORESCO 




ILllA DO FAYAL — IlOftTA 

ILHA DO PICO 
(Vld. p»g. 116) 

Teiti a ckladu &a Horla liraz&o d'amia?, que Ilio Toi 
coi)c<h1Ì(Iu Iki pouco mais de Ires annos. 

È um cscudo esquarlelado, tendo no pnmeiro quar- 
te), em campo de prjla, as quinas de Portngal; do 
seguiido, em campo uzul. o busto de prata de i!ua 
inagestade imperiai o sr. 0. Fedro iv, e no contra- 
cliete a (.-oroa e sceptro de oiro, allusivos ao facto da 
sua abdii-a0o; no terceiro, em campo uxul, um lìvro 
de prala, tendo cscripla em letras azues a data de 39 
de abrii de 18*26, em allusao d Carla Conslilucional da 
monarchia; e no quarto, em campo de purpura, um 
caHicllo de prata, e, [loisado sobre elle, um a^r lam- 
bem de prata. Urla azul com a legenda em letras de 
oiro: -D. Luiz i ù muito leal cidaae da Horta»; coroa 
ducal; e por linibre um brago de prata armado de 
urna espada do mesmo metal. 

A gravura puLlicada em a caderneta paseada ^ 6 
mais urna prova do que asseveràmos da oellezu d'a- 
quella cidadc. A vasta bahia, a extensa poma de Es- 
palamaca, o forte Novo, a torre do relogio, o caes e os 
numeroEOs edìlicios quo o continuam pela terra den- 
tro, sombreados por rauitas e mui variaa arvores, for- 
mam um agradabilissimo conjunto. 

Se OS olhos, porém, se aprazcm de contemplar 
aquelle panorama, onde ludo estA indicando vida, 
movimento, trafcgo commercial, uào meiios se deleì- 
lardo de(endo-se um pouquinlio a ver a eslampa que 
acompanba eale arligo, u qua! rcpreucnta a notavel 
ilha do Pico, do lado occidenlal. 

Como n&o baste m o descnbo e o buril para patentea- 
rem lodas as unturaes maravilbas ^ue eucerra nquellu 
notavel poryào do arcbìpelago n^oriano, indical-as he- 

I Vid. pag. 117 (L'ctls roluiDS. 



mos aqui muito em resumo aoB que as nao conhecc- 
rem, valciido-iios principalmente da obra, mais de 
urna vez citada, do bom padre Cordeiro. 

Surge a ilba do Pico a mela legoa da ilba do 
Fajal. 

A bisloria do seu descobrìmcnto està envolvida em 
Irevas, que jA agora difficilmente se dìssiparSo. Entre 
as conj^cturus, mais ou menos admissiveis, que se 
encontram nos auctorog que d'esic ponto se occupa- 
ram, exìste urna graciosa e pueril, que atlribue a glo- 
ria da descoberla à Virgcm Maria. 

Expol-a-bemos para consola^ào de almas piedosas 
e dos que amam o maravilhoso. 

Principiacla a arroiear a ilba do Fayal pelos prìmei- 
roa descobridores da Terceira e S. Jorge, foi-se a vì- 
ver ali! vida solitaria um ermit&o. No estio, os que 
iam ao Kayal, a ver as fazendas que por là tiiibam, 
procuravam o eremita, deleiluvum-se de praticar com 
elle, e muito provavcl mente recommeudavam As suas 
oracAea oa campos e armcntios, que Lem desejariam 
que demo Ihcij nao prejudìcasse. Um bello dia, di- 
rigiudo-se alguua ao retiro do contemplativo, nao o 
encontraram, mas, com grande pasmo, foram topar 
com olle coflslruiudo um barquiuho todo forrado de 
coirò pela parte de fora. 

Cresceu-lhes a curìosidade de.saberem para que em. 
tao sìngela embarcagao e perguntarain-lh'o. 

Rcspondeu servo de Deus que era para se ir à 
visinba ilba do Pico, d'onde Ibe apparcciu uma mu- 
llier vcslida de branco, que o cbamava e Ibe dixia 
(certamente por aceuos) que se fosse para ella; e que, 
por Ibe parecer que era a Virgem Senbora, determì- 
nàra passar ìà, quando outra vez o cbamasse. 

Quizeram os que ouviram o penitente dissuadìl-o 
do seu inlento; mas elle, seni dar-lhes ouvidos, foi 
continuando a sua obra, e, comluida, mcttcu-Sc ao 
mar, e umica mais foi visto ncm acbado, Facendo o 
demonio [asaim o aClirma o cbrotiista), coni capa dt 



146 



ARCraVO PITTORESCO 



santidadp, morrer aquellc santo ermitdo, e sutnindo a 
bHrcasinlia, quc com tanta fadiga construira. 

Està ó a tenda, que bem dispensa commentarìos. 

Antonio Cordeiro, quc a reJata, acrrcsccnta n*outra 
parte as seguinles palavras, que revelam a siinpteza 
do sca espirito, e sAo um bom specinncn du maneira 
por que se escrevia muitas vezes a bistoria, nos tem- 
pos feiìzes em que a crenga religiosa fazia csquecer 
OS preceitos da pbiiosopbia e subjugava completamente 
a ruzào. 

«. . .E assim parece que aquelles mareantes portu- 
guezes, que da Terceira iara às iibas de S. Jorge e 
(ìraciosa, primeiro descobortas, esses descobrindo pri- 
meiro a do Fayal, descobriram a do Pico ao depois: 
se nào quizermos considerar, que pois aquelle ermi- 
tao, morador era o Fayai, julgou ver a Virgem Se- 
nbora nossa da parte da ilba do Pico, e que o cba- 
mava para là, a Virgem Senhora foi a descobridora 
d'està ilba, por nieio d'aquelle santo ermitdo, que so 
no seu batel foi para o Pico e n&o se soube mais d'elle; 
e se islo assim é, corno parece, a Santissima Virgem 
M5c de Deus foi a primeira descobridora da ilba do 
Pico, e dèscobridor segundo foi, por meio da Se- 
nbora, aquelle devoto ermiiao; e nào poddmos desco- 
brir mais divino invento a està ilba.» 

Ponhamos aqtii termo às citagOes de conjecturas e 
de piedosas lendas, para dizermos o que mais importa 
saber-se da ilba de que nos occupàmos. 

É a ilba do Pico a maior do arcbipelago de que faz 
parte. Ddo-lbe uns de comprimento dezeseis e outros 
dezoito legoas, e de largura quatro ou cinco. 

Dista urna ìegoa do Fayal, tres de S. Jorge, onzc 
da Graciosa, doze da Terceira, trinta e duas de S. Mi- 
guel, trinla e nove das Flores, quifrenta do Corvo e 
quarenta e sete de Santa Maria. 

seu maior comprimento é de lèste a ot^ste, desde 
a poma do Calbào Gordo até ao porto da Magdaiena; 
e u sua maxima largura de sul a norie, desde a villa 
das Lages até a villa de S. Roque. 

X quasi totalidadc das povoagòe^ 6 na orla da 
ilba. 

Partìndo do Calbào Gordo, assim chaniado pela gran- 
deza das penedias quc alli surgcm, para o poente, pelo 
sul, encontram-se: primeiro o porto denominado Ca- 
Ibeta de Nasquim; a distancia de um quarto de legoa 
surge um rocbedo, quo se estende em ponta para o 
mar; pouco mais adiante icvanta-se a Doirada, pene- 
dia que ou as aguas ou algum pbenomeno volcanico 
abriram pelo meio, e de cuja quebrada se desenca- 
deiam violcntos venda vaes, quc revoltam as ondas e 
pOem medo ao navegante, que nào raro alli padece 
naufragio; adiante mais demoram o porto de Santa 
Cruz e ìogar de Santa Barbara. 

Corrida uma legoa, abre-se o primeiro porto da villa 
das Lages, tao perigoso e ditficil para os quc o de- 
mandam, quc so em mezes de verào a elle concor- 
rem. Alóm d'este, tem a villa mais dois, um proximo 
do primeiro, outro distante legoa e meia, pouco mais 
ou menos, a que cbamam Ponta do Moiro, ambos ci- 
Ics seguros e frequentados. 

Scguindo, encontram-se: a babia do Galeào; legoa 
e mela adiante outro pequeno e bom porto; e d'abi 
a meia legoa o porto da Magdaiena, que é fronteiro 
ao Fayal e o quc mais proximo fica d'aquelia ilba. A 
pouca distancia do porto e villa da Magdaiena ba dois 
pequenos iibéos. 

Chegando ao poente, que 6 aqui, e voltando do sul 
para o norte, deparam-se-nos os seguintes logares di- 
gnos de mengào: a ponta Pequena, ou Fuma de Santo 
Antonio, que fórma para o interior espayosa enseada^ 
d'alli a meia legoa o caes do Norie, ou de S. Roque, 
por estar no districto da villa de S. Roque; mais meia 
legoa para diante, no fundo de uma enseada, a villa 
de S. Roque; a uma legoa da villa, no sitio cbamado 



a Prainba do Norie, o caes de S. Roque; a encumeada 
de Santo Amaro, para além da qual, coisa de uma 
legoa, se levanta a mai$ alta rocha da ilba, até à Ri- 
beirinba ou Prainba, que està em um porto, tendo de- 
fronte e mui proximo um ilhéo, ao qual se pòde ir a 
nado; a um quarto de legoa um pogo de agua salo- 
bra; e, finalmente, a ponta do Calbào Gordo, d'onde 
partimos para està digressào, feila segundo o roteìro 
do anctor da Historia iììsulana. 

As duas viilas mais importantes do Pico sào a daa 
Lages, que é a capital, situada na costa de sueste; e 
a de S. Roque, na costa do norie. 

À primeira dava o padre Antonio Cordeiro duzentos 
babitantes juntos e muitos ntais espalbados. Um au- 
ctor nioderno, que temos presente, dà à villa das La- 
gos tres mil babitantes e ao concelbo mais de doze 
uiil. 

Encarecem alguns escrìptores a salubridade do cli- 
ma do Pico, cbegando um, repetidas vezes citado n'ea- 
tes artigos, a dizer que d'aquelia ilba o melhor me- 
dico é seu clima. 

A pressa com quc temos de escrever esles artigos 
obsta a que possamos indagar o que ba de verdadeiro 
a este respeito na actualidade. 

Nào é, porém, coisa para espanlar quc os babitantes 
do Pico, pelos seus babitos e pelas condigOes em que 
vivem, gozem mais saude que os povos de oulras lo- 
calidades. 

Escasseiam no Pico mananciaes de agua potavel; 
mas a està falla occorreu a Providencia formando em 
muitas partes cavernas ou tanques de pedra viva, 
onde as aguas pluviaes se Congregam e permanecem 
defendidas de impurezas, que de fora Ibes podessem ir 
alterar a pureza, por meio de abobadas da mesma i>e- 
dra de que sào os deposilos, e comò aquelles feilas 
pela natureza. 

É solo da ilba volcanico, e comò tal pcdregoso, 
escalvado e apparentemente estcrii; e, comtudo, è 
aquelle abengoado torrào fertilissimo, desentranba em 
optimos fructos, que, segundo a opiniào ^eral, exce- 
dem em boodade aos de todas as oulras ilbas, e cria 
abundantes gados. 

A todas as producgòes d'aquelia terra levani reco- 
nbecida vanlagem os seus vinbos e as madeiras, prin- 
cipalmente do cedro e teixo. 

Dos vinbos se exportavam annualmente avultadis- 
simas porgóes. Diz fr. Francisco dos Prazeres Mara- 
nbào quc o Pico produz por anno de cito a dez mil 
pipas de vinho. A(!bàmos, |)orém, no Panorama com- 
putada està producgào em vinte a trinta mil jù- 
pas *. 

Nào podémos resistir ao desejo de transcrever para 
aqui a apreciagao que do vinbo do Pico, a que cba- 
mam vinbo passado, fez um escriptor grave *. 

Eil-a: 

«É tao generoso e tao forte, que era nada cede ao 
que em a Madeira cbamam malvasia; antes parere 
quc a està vence aquelle; porque da malvasia poUca 
quantidade basta para alienar um bomem de seu jui- 
zo, e nào se accommoda tanto à saude; porém o vinlm 
passado do Pico emprega-se mais em gastar os maus 
humores, confortar o estomago, alegrar o coragào, e 
avivar e nào fazer perder o juizo e uso da razào; e, 
além de ser suavissimo no gosto, é muito confortativo, 
ainda so com o cbeiro; e por isso é muito estimado; 
e vale muito mais que o outro vinbo da mesma ilba, 
coni ser lodo precioso."» 

Esqu(*ceu-se o bom do Fructuoso de mencionar uma 
qualidade d'aquelle nectar, que é fazer crescer agua 
na boca de quem le taes clogios e ainda nào pòde com 
elle alegrar o coragào. 

(Continua) Sousa Tbllm. 

f Panorama, voi. ir, pag. 42. 
^ Fruclnoso, liT. ti, c«p. xli. 



ÀRCmVO PITTORESCO 



147 



UM INVENTO PORTOGUEZ 

(Concliu&o. Vid. pag. 139) . 
IV 

$er(u mui instructìva, 8e a conbccessemos, toda a 
forrespoudeocìa d'estes dois sabìos. Documcotos esti- 
mUYcifl considerùmos, ainda assim, as duas cartas, 
porque nos mìaistraai inducgòes curiosas relativa» à 
poiiiica do tcaipo e à reformn do ensino das scieocias 
iialuraes, e provami a prlorìdade de um invento util 
à humanidade, e glorioso para a nagào portugueza. 

DescreveoD os biograpbos o dr. Rìbeiro Sancbos co- 
nio um bomem pusillanime, attribuindo a oste cara- 
cler a sua resoluQào de abandonar os curgos e bonras 
que lograva na corte da Russia, para fugir às luctas 
politicas, de quo entào era tbeatro. Foi ainda este ca- 
rader, e a dolorosa experiencia, quo havia adquirido, 
das incessantos perseguigOes do santo officio, quo o 
obrigarum a viver arredado dos seus e longe da patria. 

li certo que em Paris, onde nào ciiegavam as gar- 
raa de seus inimigos, e em reiagùes benevolas com 
o ministro, que ousara diminuir-lbes a auctoridade e 
rei'cear-lhcs as' allribuigòes, poderia soUar sequer al- 
gumas queixas conlra as suas dcmasias; e,' todavia, 
nào so as iiùo soltava, mas, referindo-se a inquisig-fto 
de um pai/, estranbo, guardava certo comedimeuto, 
corno recoiando que aiguma palavra indiscreta ferisse 
a susceptibilidade dos inquisidores castelbanos. 

Em um post scripia^ corno simples curiosidade que 
nào merecia inserir-se no corpo da carta, é que se 
a ventura a perguiitar: Qnc casta de gente se prende 
pela inquisicào em Castellai Sdo Deistas, AtheistaSj 
Jadeos, Mouros, CalvinistaSy ou Feytkcirosì 

E, sem se alrever a expor a singular impressa© que 
llie causava a noticia d'estes acontecimentos, soccor- 
ro-se, para de algum modo os conceituar, ó opiniào 
publica de Paris: Aqiù essas prizoens fazem estrondo, 
t pasmo. 

Parece-nos que muilo de proposito enumera as qua- 
iificayOes das victimas ordinarias do tribunal de fó; 
deixa-nos entrcver a repugnancia que deveria causar 
a urna inteliigencia tao esciarecida taraanba diversi- 
dade do molivos para perseguigOes rcligiosas. 

Deirei D. José falla com respeito, e do ministerio 
com precato, que o nào embarga, todavia, de dizer 
que alguns dos seus amigos eslào arrufadoSy ou ba- 
ralhados; admira, mas nào estranba, a escassez das 
noticias da corte. 

Cessa toda a circunspecgào do dr. Riboiix) Sancbes, 
ao sair dos dominios da politica para os das sciencias; 
acba-se nVstes muito a sua vontade, soito de todo o 
<!onstrangimenlo. Insurge-se por isso desassombrada- 
mentc contra o melbodo de ensino professado nas con- 
gregagOes rcligiosas de llcspanba (em Portugal jà a 
esse tempo sh acbava proscripto); fulmina sem dò nem 
compaixào os tbomislas, scotistas, reaes, nominaes e 
inlegraes. Kào podia ver com indiffercnga aquelle alto 
«ntendimenlo estas nescias aberragùes do verdgtdeiro 
metbodo de ensino das sciencias naturaes, e por isso 
em termos sarcasticos pergunla: Quando acabam tanta 
parvo ice fr adescai 

PódCj em verdade, expressar-se por està fórma o 
eminente pbilosopbo, que em uma de suas obras 

• Comhate os erros, as prevengOes desarraa, 
E os vàos fantasmas, illusOcs antigas, 
Que nas cscólas barbaras reinavào, 
I*ara os Cimerios montes affugenta: 
Novas vias cnsina, que endireitào 
Com mór certeza aos penetraes sagrados 
Das fysicas verdades rccatadas *. • 

Se OS frades, scctarios ferrenbos do antigo systema, 

1 Pepita dQ Elplno DartesM, tomo i, pag. 270. 



podessem punir o invectivador, cremos que o nào pou- 
pariam a severo castigo, mórmente sendo, corno era, 
de origem bebréa. E nào parecerà temerario o asserto 
a quem tiver coobecimento da vehemencia das pai- 
xòes, do entbusiasmo e ardimento com que se com- 
bateram n essa epocha as innovagOes quo os reforma- 
dores pretenderam introduzir nos melbodos de ensino 
adoptados na peuinsula. 



Roubaram as sciencias naturaes, se nào todo o 
temilo da vida, a maior parte d'elle, ao padre Theo- 
doro de Almeida; cultivou-as com rara prcdilecgào e 
desvelo, deveodo-se-lbe, incontestavelmeole, a crea- 
gào e desenvolvimento do gosto com que a ellas se 
applicaram muitos membros da nossa aristocracia e 
varios individuos das congregagòes monasticas. 

Aconipanbou-o para Franga este amor pelas scien- 
cias, e à conta d'elle se resoiveu a abrir em Dayofia 
um curso publico, ao qual concorreram muitos man- 
cebos ingenuos. 

Póde attribuir-se a paixào p.elos estudos pbysicos a 
tarefa, que se impoz, de conslruir barometros e tlier- 
mometros. Era, em verdade, para o cximio naturalista 
entrelenimento gostoso a pbilosopliìa experimental; 
folgava de trabalbar com as macbinas em presenga 
dos alumnos, demonstrando praticamente as verdades 
entào reconbecidas em sciencias naturaes. 

Uuer-nos, todavia, parecer que nào s6 o amor pe- 
los esludos pbysicos, uìas necessidade de grangear 
meios de subsistencia por este genero de trabalbo, o 
obrigaram à construcgào d'aquelles instrumentos; por- 
que, para nào perecer de fome, jà o bavia levado a 
sua desventura a mendigar em Tuy. 

Oulro celebre portuguez, pbilosopbo corno o padre 
Tbeodoro, mas de maior tomo, Rento Spinosa, tan)- 
bem trabalbou por suas màos para se sostentar, pò- 
lindo vidros para lelescopios e microscopios. 

Com tamanba aptidào para a mecanica, seria facii 
ao nosso congregado representar em madeira os ob- 
jectos Ggurados nos mappas. Sentimos iiUimo e inef- 
favel prazer ao nolar està feliz coincidencia: devc-se 
a um distincto engenbo portuguez a invengào das car* 
tas gwgrapbicas; pertence a outix) famoso engenbo 
portuguez a idèa de representar em relevo os objeclos 
n'ellas gravados. 

Occorreu naturalmente ao dr. Ribeiro Sancbes o 
proveilo que do novo invento poderia tirar a educa- 
gào dos cegos. É certo que dez annos depois, (un 
178 i, Valentim Hàuy, irmùo do celebre minemlogista 
do mesmo appellido, fundava em Paris uro asylo de 
c(»gos, eslabelecendo sobre a idèa do pbilosopbo por- 
tuguez metbodo de os instruir. 

Àttribue mr. Rouillet a Hàuy a concepgào desta 
idèa, islo é, a subslituig^o dos signaes visiveis por 
signaes em relevo ^; cremos, porém, que de boje em 
diante ninguem ousara contestar a prioridadc do in- 
vento portuguez. 

Dilata-se-nos ainda suavcmente o peìto ao recordar- 
mo-nos que dois nossos compatriolas se emperiharam 
em tempos dilTerenles, e por meios diversos, em pro- 
mover a educagào dos surdos-mudos e doscegos: re- 
ferirao-nos a Jacob Rodrigues Pereira e ao padre Tbeo- 
doro de Almeida. 

Para o aliivio de duas das maiores desgragiìs que po- 
dem ailligir a misera bumanidade, a pri vagito da vista 
e a da palavra, concorreram estes dois varQes genero- 
sos, ambos nascidos, comò diz Ribeiro dos Santos, 

«Para dar alto nome à clara Lysia *.» 

té 

F. A. IU>PiU«OR8 DB OusuÀo. 

1 Dictionnairt uniwrul de* tcUnee*, du Uttrta et de* arts — Art. 
Avettgle. 

) A Alm«uo em louvor dos nossoe grandes philosophot — Jomal de 
Cotmòra, n." xxTi, parto n. « 



14S 



XRCBlVtì PITTORESCO 



ABDUL-ÀZIZ, SULTÀO DA TURQUIA 

(Oonclusio. Vid. pag. 135) 
V 

Mas qua! 6 o motivo da politica adopladu pela Eu- 
ropa, que cifra Da existcncia d'esse imperio bybrido a 
seguraii^a e a tranquillidade do Occidente; que per- 
mitte e garante a oppressào de populagóes nossas irmàs 
pelo christianisnio, pela raga, pelas tendeucias civili- 
sadoras; politica incoraprehensivel que uo seculo xix 
impóe a ragas iutelligentes, ricas das mais velhas tra- 
digOes litterarias do mundo, o dominio de urna raga 
analphabeta, que, apesar de todos os sous recentcs de- 
sejos de acolher a civilisagSo europèa, ainda nào con- 
seguiu (insisti mos n'este facto porque é elle o caractc- 
ristico mais evidente da incapacidade de uni povo), 
ainda nao conseguin ter urna sombra, um vestigio, 
um vago reflexo de litteratura? 

A razào, dizem os poiilicos, é a necessidade de op- 
por urna barreira ù ambitilo da Russia, é a necessi- 
dade de nào consentir, que esteja Constantinopla, a 
ebave do Mediterraneo, nas màos do descendente de 
Catbarina. 

Mas esse systema é, pelo contrario, o mais proprio 
para favorecer a ambigào moscovita . Podia ella esta- 
car diante de duas coisas, ou diante de urna forga, ou 
diante de um principio. A Turquia jà n(io é urna for- 
ga, e nào sera nunca um principio; é um pbantasma 
diplomatico, é urna cortina transparente por traz da 
qual se divisam as bayonetas francezas e as esquadras 
britannicas. Ora esse pbantasma seria uma inutilidade 
se nào fosse um perigo. Da mesma fórma que um con- 
gresso europeu póde proclamar que a unica razào de 
ser do imperio turco é a garantia da tranquillidade 
Occidental, tambem podia proclamar que, para quo 
essa garantia existisse, era necessario que Constanti- 
nopla estivesse directamente nas màos das grandcs 
potencias curopéas. D està fórma é a Turquia uma in- 
utilidade; mas nós julgàmos demonstrar que é mais, 
que é um perigo. Essa fortaleza, padrasto do Occi- 
dente contra as tentativas invasoras da Moscowia, as- 
senta sobre um paiol de polvora: as nacionaiidades 
clifistàs comprimidas. A Russia, comprehendendo o 
seu papel comò o vae comprehendendo agora, nào 
precisa mover um soldado para fazer voar pelos ares 
a fortaleza; basta que de S. Petersburgo inflamme a 
)>o]vora preparada. panslavismo é o rastilho. 

Mas que desgragada mania é està dos diplomatas de 
quererem forgar a natureza das coisas, quando, se dei- 
xarem operar as leis providenciaes, oncontrarào n el- 
ias uma garantia mil vezes mais segura para a tran- 
quillidade europèa? Que monstruosa contradicgào é està 
que, ao passo que defende contra a Russia a integridadc 
do imperio ottomano, Ibe entrega, palpitante e dilace- 
rada, a infeliz Polonia? Nào parece que a intengào 
unica dos diplomatas é defenderem a oppressào onde 
quer que a encontram? Véem no Oriente calcada aos 
pés a nacionalidade grega, e comprimem-n a ainda 
mais por causa da ambigào russiana, e essa ambigào 
deixa de os assustar iogo que se manifesta ao norte 
tripudiando sobre o cadaver da Polonia assassinada? 
A Polonia, nagào essencialmente europèa, por tanto 
tempo nosso baluarte contra as invasóes das bordas 
asiaticas, derramou o seu sangue para preservar o 
Occidente por um lado da irrupgào d'esses tartaros 
que tomaram o nome de russos ^ por outro lado da 
irrupgào d'esses outros tartaros que se chaniam tur- 
cos; suspendendo aquelles no seculo xm pela Victoria 
de Lignitz *, a estes no seculo xvir pela Victoria de 
Vienna ®, e a Europa, que Ibe deve a existcncia, que 

1 Grotte» le rutttf roiu trouvert» le tartare, dixia NapolcJlo i. 

S 1231. 

3 Ganha pelo cavalheirosco rei JoSo Soblcski. 



duas vezes llic devea a preservagào da arca civilisado- 
ra, deixa-a succumbir miseravelmente, e coUoca-se... 
de que lado? Exactamente do lado d'esses tartaros que 
a Polonia tao briosamente repeiliu. É complice franca 
ou tacita das atrocidades da Russia,. e é protectoni da 
Turquia contra os povos christàos que ella esmaga. . 

E, comtudo, que melhores barreiras se podiam oppor 
à Russia do que essas duas fortes nacionaiidades, a 
nacionalidade slava e a nacionalidade hellenica; a na- 
cionalidade slava agrupada em torno da Polonia, que 
é seu nucleo legitimo; a nacionalidade hellenica do- 
minante em Constantinopla, que Ibe pertence pelas 
tradigOes e pelas aspiragOes da classe intelligente que 
a povòa? Receiam que a influencia russiana prepone 
dere entào mais do que prepondera agora? Por qué? 
Nào ha pontos de contacto alguns entro gregos e rus- 
sos. A religiào? Em piena edade mèdia nào bastava 
ella aqui na peninsula hispanica para àdormecer as ri- 
validades mutuas dos povos christàos, e no seculo xix 
è que havia servir de lago a duas nagòes naturalmente 
inimigas? Mas, pelo contrario, era mais um motivo de 
separagào. czar russiano assumiu a supremacia re- 
ligiosa no seu imperio, e o palriarcba grego de Cons- 
tantinopla podia resignar-se a curvar a tiara de S. Joào 
Chrisostomo diantc da coroa profana do descendente 
de um barbaro? 

Sim, essa preponderancia è para temer, mas com 
a politica actual; se a Grecia tem definitivamente de 
considerar corno inimigas as nagOos occidentaes, en- 
tào è naturai, è legitimo que se lance nos bragos da 
Russia, que Ihe offercce a liberdade, e que responda 
à indifferenga do Occidente com uma inimizade que 
sera temivel quando Stambul for outra vez Byzancio, 
e quando por traz do monarcha hellenico esliver exer- 
cendo sobre elle uma preponderancia, que a diploma- 
eia Occidental perde o direito de Ibe disputar, o auto- 
crata de todas as Russias. 

E a nacionalidade grega ha de irromper, poraue a 
natureza das coisas destroe os calculos vàos da diplò- 
macia. A forga e a oppressào de quatro seculos nào 
conseguiram domala; nào conseguirà domal-a tam- 
bem a politica habil que Abdul-Àziz pretende seguir. 
De certo que nào podèmos deixar de iouvar o sultào 
pela firme vontade que mostra de seguir um caminho 
tao diverso do dos seus antecessores ; nào podèmos 
deixar de applaudir a cunfianga com que procura na 
civilisagào europèa os melos de consolidar pela bran- 
dura seu imperio vacillante; mas, ainda que leve as 
suas concessOes ao cxtremo, nào conseguirà dominar 
OS acontecimentos. É sina fatai em politica expiarem 
OS innocentes os erros dos antepassados. abysmo 
cavado pelos aifanges brutaes dos Amuratbs, SolimOes 
e Selins nào conseguirà cerral-o a administragào pru- 
dente e benevola do actual soberano. A idèa da liber- 
dade e da independencia lavra com forga irresisti vel 
nas provincias gregas, e nào se contentarà senào com 
recobramento da sua autonomia. Tudo o mais è um 
sophisma similbante ao de Emilio de Girardin: «A Po- 
lonia livre na Russia livre», principio que os polacos 
repelliram com forga. A Polonia nào quer concessóes, 
nào quer transigencias ; quer a emancipagào a que tem 
direito, a separagào completa, o reconhecimento da 
sua veiha nacionalidade. Assim tambem a brandura 
que a administragào musulmana emprega actualmente 
com OS gregos, as amnistias que promette, nào pode- 
rào acalmar a sède inextinguivel de liberdade que os 
devora; à benevolencia dos lurcos preferem a sorte 
incerta que os espera na Grecia; famiiias intciras fo- 
gem de Candia, e vào para o exilio, exilio que aben- 
goam porque è a volta para a sua patria ideal, a Hel- 
lade, esquivar-se ao perdào dos oltomanos comò se 
esquivariam ao castigo. 

Abdul-Aziz, cedendo aos impulsos do seu generoso 
coragào e aos conselhos da sua intolligencia cultivada 



ÀRCaiVO PITTORESCO 



polo coHlacto com a Europa, rcspcita escrupulosamenle 
OS dircilos òo bomem, mas a sua cxisCcncia [nesma no 
solio de ByzaDcio é a poslergagao audaciosa de outros 
direilos nao monos eievados: os direilos dos povos. 



PAIZ DOS MENSA, EH A NUBIA 



Desde os mais remotos lempos lem sìdo a Africa 
objecto de numerosas explora^des. Modem a me ni e, o 
desejo de devassar rogiùes em gntnde parte ainda nòo 
atravcssadas pejos viujantee, e o empeiibo de acliar a 
solugao de alguns prollcmas, que ha seculos dcsafiam 
a ctiriosidade dos geogruphos e dos hislorìadores, lem 
ierado a està parte do mundo exploradorcs audazes, 



149 



quc, a troco muitas vezrs da propria vida, Tito pouco 
a pouco preenchendo ag immensas larunas que no 
principio d'este secalo os mappas accusavam. 

E, n5o obslante a serie quasi nSo interrompida de 
vìagcns e de oxploragOes, a Africa é ainda urna das 
regióes relativamente menos conhecidas. É quo para 
devassal-u lOma-Ee necessario caminbar por immensos 
desPrtos, atravessar lerrenos arìdos e pscassamenle ba- 
nbados ile rios, e poder fugir a ferocidade dos bomL'us 
e dos animaes. 

Se exccptuarmos a regiào que tianba o Mcdilcrra- 
neo, a qua! acompanbou quasi sempre no seu drsen- 
volvimenlo o muodo tiJstorico, legando por ve^es & 
posterìdado pagjnas quc o voivcr dos seculos n&o sera 
capaz de apagar, o resto do continente africano, cm- 
bora nem lodo complelamcnic dcsconbccido, p6de di- 
zer-se que permaneceu envollo em denso nevoeiro alÉ 
ao come<^ do Eccuto xv. 




Hslava deslinada a uni pequeno povo a gloria de 
pcuclrar, lalvez o primeiro, essa immensa cerracSo, e 
de emprebeoder, guìado por um principe, ctijo nome 
é, n&o a gloria de uma nagao, mas a da bumaoidude, 
as ousadaa navegagOes que baviam de patenlear ao 
mundo riquczas e regióes até entclo descoubecidas. 

Podem lioje as nat,-óes mais dianleiras na estrada 
do progresso pleìtear prefercncias sobre qual mais se 
avnntajc no cmpenbo de dcsbravar, para a sciencia e 
para a civìlìsa^ao, os immensos tractos de terreno do 
inlcrior da regiao africana: mas nao Ibes seri poRsi- 
vel apagar as puginas da historla em que se relatam 
as navegafCes e os dcscobrimenlos dos porluguezes, 
e dilfìcìl mesmo se tornarù a muiloa dos seus explora- 
dores pòrem pé em regìfio onde nao cbegassc multo 
iinlGs algum lìibo d'està lioje tuo malaventurada terra 
de Porlugal. 

>'fLO era pouco ja para gloria de um pequeno povo 
ter Icvado a calio a empreza, entao por mtiilos jnl- 
gada impossivei, de encontrar um novo caminbo para 
a India, doliratido a Africa; estava resorvado ao nome 
porluguez e n gran decer- se por outros cmprehendimcn- 
loa nlio menos dignos de Ibe ronquisiar o eterno re- 
ponliccimento da posteti da il e. 



Ltanla do pmli doa Modu 

A colonisat^o das costas meridionaes, e as explo- 
ra^es de ulgumas das regióes de Africa, sao litulos 
tanto ou mais dignos de admiraj^o, do que os aoterio- 
res descobrimentos. 

E boje imporla^maìs que nunca nao olvìdar simì- 
llianlcs litulos de gloria, para que de nSo protestarmos 
conlra o esquecimento a que parece qucrercm condem- 
nar-nos os que mais agora tem a peilo a explora^So 
da Africa, se nao infìra que de boamentc concorddmos 
na expolia^ao, ou reconhecemos que eslavamos em 
erro julgando-nos os primeiros europeus que haviam 
penetrado em muilos ponlos d'està parte do mundo. 
Uma das regiCes que mais altrabcm actualmenle os 
. exploradorcs francezes e inglezes foi pani os porlu- 
I guezes, ba alguns seculos, objeclo de nolaveis mves- 
liga^cs. Referinio-nos ao vasto tracio de terreno com- 
i preliendido entre o mar Vermeiho e o centro da Africa. 
[ Ao mesmo tempo quasi que liobravam o cabo da 
' Boa Esperan^a, tralavam os porluguezes de explorar 
I a Abysslnìa. que valeram essas explora^óes abi cs- 
' tao a dlzei-o as rela{;Oea das viagens de Francisco 
I Alvares, de Jeronymo Lobo, de JoSo dos Saulos e de 
outros, que sSo hoje outros tanlos Icstimunhos e pro- 
lostofl conlra as usurpa^Oes que ù nossa gloria fazera 



150 



ARGHIYQ PITTORESCO 



exploradores, ousados por certo, mas inenos digooa 
de admiragào do que se ere, porque teoi seguido, ein- 
Lora procureai escondel-o, pelo caminho quQ os portu* 
guezes Ihes deixaram assigoalado* 

É ao ludo d*essa regiào tao conhecida dos por(u« 
guezes, a Abyssinia, que demora um paiz, que, em- 
bora teoba urna feigào muito simìlbante à dos que 
Ibe ficam visinbos, e que foram visìtados pelos por- 
tuguezes, so modernamente tem sido estudado pelos 
viajantes. Referlmo-nos ao paiz dos Mensa. 

(Goatlnàa) T, die 0. 



GELLERT 

(Concluslo. Vid. pag. 143) 

Estando do campo bospcdado em casa de urna fi^ 
dalga, sua admiradora, Gellert escroveu estas linhas : 

«Occupo um quarto que da de um lado para o pa- 
teo, e do oulro para o jardim e para o campo. Ordi- 
nariamente, ùs seis boras da manhà estou ù janella, e 
contemplo coni vìstas insaciaveis os jardios e o campo 
que a ualureza amarellcccu. À vasta extensào do ceo, 
de que na cidadc nào tomos perfeita idèa, ó sempre 
espectaculo novo para mim. Abì fico em pò mais de 
mela bora a contemplar e a meditar. 

«lApós tao deliciosos instantcs, e incbrìado pelos 
perfumes da manbà, abro a porta para que entro aU 
gum criado; mas nào tenbo a fclicidade de que me 
sirva so um. Niìo, scnhor, cntram logo Ires ao mesmo 
tempo, correndo até junto de mim, sem tomar o fo- 
lego, para quo Ihes dò as minbas ordens; se prefiro 
um, OS outros mostram-se descontcntos; por isso, nào 
tenbo reraedio senào deixar-rae vestir e enfeilar por 
elles. Em quanto dura està operagào, entram lambem 
cinco ou seis càcs domesticos, uns galgo?, coni os 
quaes converso uni pouco, porque estou certo de que 
nào me responderào... 

«C4boga entào o café; tomo um livro e aprosento um 
certo ar de importancia, e de repente os criados dei- 
xani-me sósinbo. Os auctoros que me acompanharam 
foram Tercncio, Horacio e Gressel. Quando estou no 
campo é que cu cncontro n'ostes poelas mais bellezas 
que na cidadc. Nào se admire. A nalureza, que Ibcs 
inspirou os cantos, torna-sc aqui sua interprete; ex- 
plica-os, nào digo mais esplendidamenle, quando nie- 
nos por modo mais agradavel e darò que os commen- 
tadores mais auctorisados. A descripgào de urna bella 
paizagem, o quadro da innocencia e da solidào na 
vida campestre, me encanlam duplamente quando os 
comparo coni a natureza. E até as outras beilezas dos 
poetas me impressionani mais no campo que no meio 
do ruido da cidade; porque, gragas aos encantos da 
vida campestre, o meu espirilo é mais vivo e o mcu 
gosto mais deiicado. Està manbà 4iL>parou-se-me urna 
pega de Terenció; quiz lòia, mas nào pudc ir alòm 
da segunda scena, porque me eulevàra a simplicidade 
do auclor.» 

Foi pcrlurbada tao suave quietayào por mui gravps 
successos. Rebeutara a guerra dos sete annos (1756); 
a Saxonia fora invadida pelos excrcilos de Frede- 
rico ir. Os poelas deviam despedir-se da poesia, e os 
sabios de suas tranquillas elucubrayOes. 

Às desgra(;as da Saxonia serviram, comtudo, para 
tornar mais subidos os quilates de patriotismo e da 
grandeza de animo de alguns escriptoros allcmàes, 
e, entre outro§^ Rabener e Gellert» os dois intimos. 
Ha muitas cartas suas d'aquella epocba, as quaes se 
uotam nào so pelo esilio, mas tambem pelas idóas gè- 
ocrosas. 

Rabener sabe que o rei da Prussia quer vòl-o; o 
marquez d'Argens offereceu-se para o apresentar; Ra- 
bener recusou-se à apresentagào, dizendo: 

— Pois entào um francez é que deve, no centro da 



AUemaoha, apresentar um escriptor allemfio a um rei 
allemào? ' 

Quando Rabener mostrava desgosto pela posìgào em 
que se acbava Gellert, este respondia: 

— Ó meu amigo, meu bom Rabener, pergunta-me 
se eu tenbo recebido a peusào; nào, senbor, nào me 
tem sido paga. Até mui serenamente metti do fundo 
da gaveta a quitaQào que me enviaram, com o que 
nào me alvorocei. Se eu podesse dar paz e prosperi- 
dade à miuba patria com o sacrifìcio dos cem escu- 
dos, eu, que uada mais tinha quando me ìnhabilitasse 
para o trabalbo, fal-o-hia com grandissimo prazer!... 

Taes rigores, porém, com respeito a Gellert, nào 
duraram por muito tempo. A invasào prussiana veiu» 
pelo contrario, provar a estima e a consideragào que 
poeta gozava na Allemanba. Apreciavam u'elle nào 
8ó fabulista, mas tambem o moralista e o bomen^ 
esclarecido, o auctor dos Canlicos, onde se respira tao 
profundo sentimento religioso, e das Ligòes de morale 
onde se patenteia e defende a virtude com tao intima 
convicgào. 

Haynicben, cidade natal do insigne poeta, nào foi 
inrluida para os aboletamentos militares, e os prus- 
sianos diziam-n'o que era em attengào a pessoa e aos 
escriptos de Gellert. Os officiaes prussianos, generaes 
e principes, iam às vezes à universidade para assistir 
às lìgóes que o poeta popular dava àcerca de littera- 
tura ou de moral, e alti crani seguidos por mais de 
quatrocentos ouvintes. 

Um d estes officiaes disse que desejava avistar-sc 
com Gellert, porque Ibe era devedor. 

• — Devedor! por quo? perguntou admirado o poeta. 

— Porque as suas obras fizeram-me conbecer e amar 
a virtude. E em seguida quiz oOerecer-Ibe um brindo. 

— Obrigado! respondeu Gellert, recusando-se. Jà ò 
um sentimento dclicioso saber que foi possivel tornar 
melbor um de incus similbantes! 

Entrou-lhe em casa, em outro dia, sem a maior 
ccrcmonia, um tenente de liussares, arniado de ponto 
em branco, enlameado, de cbicotc em punbo e modos 
bruscos : 

— Fallo com o sr. professor Gellert, o celebre fa- 
zedor de livros?... Entào comò ton podido escrcver 
lauta coisa boa? Gosto do que o senbor escreve... 
nào està mais na minba mào... sr. Gellert nào ba 
de ser rico... Qucira, pois, acceilar està bolsa. Era 
de um coronel russo, a quem fiz o favor de abrir de 
meio a meio, com a minba espada, na batatha de 
Zorndorf... Nào a quer?... Entào aqui tem estas pis- 
tolas... sào de bom auctor... ou o meu cbicole. 

Gellert levando, porém, o ollicial à bibliotbeca, dis- 
se-lbc simplesmente, apontando para os livros: 

— As arnias de um escriptor sào estas, nào temos 
outras. 

poeta quiz tambem mostrar a sua generosidade, 
e offereceu ao brusco bospede um exomplar das Con- 
solaqùes para urna vida en ferma. 

— Acceito e agradego! disse o officiai de busi^ares. 
Servir-me-ba para quando seja mutilado pelos russos, 
ou para quando, por efleilo das campanbas, nào possa 
mover pé nem mào. 

Às vezes até algum sargento, doente ou ferido, que 
voltava aos lares com a baixa, torcia muitas legoas 
para conbecer Gellert, cujas obras léra no bospital. 

Fredcrico ii tambem quiz ver e conbecer Gellert. 
rei avistQU-se, effectivamente, com o poeta. A con- 
versagào foi demorada e variada. Trataram de scieo- 
cia e de litleratura. Fredcrico ir affirmava que a lin- 
gua allemà estava barbara e dura, e accrescenlavn : 

— Por que é que os escriplores allemàes nào so 
recomraendam, corno os francezes, por boas obras? 

— É mister que baja tranquillìdade, respondeu Gel- 
lert. Se eu fosse rei da Prussia, por cerio que a paz 
nào tardarla muito! 



ÀRCBIYO PITTORESCO 



151 



— Acaso depeode s6 de mìm? S&o Ires contra um. 
firn seguida, o grande Fredcrico perguntou-lhe se 

sabfa de cor alguma das suas fabulas. 

— Nào, senhor. 

— Veja eolào se se recorda. No entanto darei al- 
gumas voltas no quarto. 

Gellert Icmbrou-sc da fabula iotìtulada pintor, 
que termina o prìmeìro livro dos seus apologos, e re- 
citou*a. É osta: 



O PXMTOB 



«Um pintor de Atherìas» bomem esclarecido, que 
trabalbava antcs para ganhar fama e gloria, do que 
para ganhar dinheiro, mostrou um dia a entendedor 
um quadro em que representàra o deus Marte, e pe- 
dìu-lbe pareccr. entendedor dissc-lbc francamente 
que ndo llic agradava o quadro, porquc se notava 
nelle esforgo da arte. pintor oppoz-lhe mil objec- 
gOes. critico refulou-as, mas baidadamcnte. No meio 
desta controversia, entrou um pobre nescio, que foi 
observar a obra do artista com certa importancia: 

• — Bravo! exclamou & primeira vista. É urna obra 
prima! Que beJieza! Que pé! Como as unbas estdo 
babiimente representadas ! Marte parece vivo n'este 
quadro! Que arte, que csplendor no capacetc, no es- 
cudo, cm toda a urmadura! 

«0 pintor, enieiado, olhou picdosamcnte para o cri- 
tico e di5se-lhe: 

« — Estou convcncido. E vejo agora que nào foi dc- 
masiadamente severo. 

«E, assim que o noscio saiu, o artista passou o pin- 
ce! sobre o deus Marte. 

«Se aigum de vossos escriptos nào agrada aos en- 
tendedores, ó mau signal; porém, se obtiver para logo 
elogio dos toios e dos fatuos, langae depressa ao 
fogo a vossa obra. » 

— Muilo bcm, muito bem, disse Frederico ii; isso 
é naturai, gracioso e conciso. Nào o sabfa. Quem o 
ensinou a escrcver assim? 

— A natureza, senhor. 

— Imilou La Fontaine? 

— Nào, senhor, sou originai, o que nào quer dizer 
que seja bom originai. 

— Mei'ece bem a fama de que goza. 

E voitou-se para um dos ajudantcs de c4impo, que 
acompanhàra, para elogiar Gellert, que, por mo- 
destia, recuàra alguns passos. 

— Adeus, mou poeta; va verme, disse orci, des- 
pedindo-se; leve as suas Fabulas para que Ihe oi<;a 
algumas. 

Descrcvondo està visita ao seu amigo, Gellert di- 
zia-ihe: «Como deve suppor, nào fui, meu bom Ra- 
bener; o rei mio me tornou a mandar chamar; e eu 
nà4 me esquo^o d'estas paiavras, que se me afìguram 
mui sensatas: — Nào procurcs insinuar-te no animo 
dos reis." 

E dopois de taes tcstimunhos, Gellert tambem pò- 
dia escrcver: «É faci! grangcar a bencvolencia dos ho- 
mens, quando se faz a diligcncia para nào ser um es^ 
criptor inutil, e quando isso se consegue até certo 
ponto. » 

Frederico n, durante a conversacào, perguntàra pda 
saude do poeta, e recommendàra*lne um remedio con- 
tra a liypochondria, que infi>lizmente Gellert padecia 
havia aiino.^. Ignora-se se GelJort usou o remedio do 
grande Frederico, mas està averiguado que nào me- 
ìhorou enlào, porque cm 1763 e 1764 entrou nos 
lianho3 de Cnrlsbad, para onde foi tratai- da saude, 
bastante arruinada. A vida e animagào que reinavam 
n'aquella epocha entro os banhistas, a familiaridade 
cm que ahi se estava, os encantos que resultavam 
d'essa familiaridade, foi assumpto de muitas e mui 
interessantes cartas de Gellert. 

Em Carlsbad o poeta conheceu o famoso general 



austriaco Laudon, que, corno é sabido, bateu o grande 
Frederico em diversas batalbas. general e Gellert 
eocontravam-se muitas vezes nos seus passeios a ca- 
vallo; e porque ambos gostavam dos logares solita- 
rios e fugiam do bulìcio do muodo, estreitaram os 
lagos da amizade. 

— Quem vir por aqui tao grave e serio, dizia-lho 
um dia o general Laudon, nào a£Brmarà, por certo, 
que professor Gellert é o mesmo que nos dà livros 
alegres e divertidos. 

— Posso dizer outro tanto do general. Os que o vi- 
rem tao pacifico e retiradu nào podcni assegurar, cer- 
tamente, que e o mesmo que ganbou a batalha de... 
as de... e de... e que tomou a cidade de... em urna 
so noite. 

Os banhos nào restabeleceram Gellert. A saude foi- 
se-lhe enfraquecendo por tal modo, que aos 13 do 
dezembro de 1769 deu a alma ao Greador. 

A Allemanha inteira cborou a morte do seu escri- 
ptor popular e predilccto. 

No cemiterio da egreja matriz de Leipzig erigiu-se, 
por meio de subscripgào, um mausolèo, tao simples e 
modesto comò o que alli fora eternamente descangar. 

Um antigo livreiro da cidade, intimo e sincero amigo 
de Gellert, mandou tambem levantar, no jardim da sua 
casa, cm homenagem ao poeta, um monumento, que 
as pessaas que o tem visto acham digno de louvor pela 
originalidadc com que o esculptor o executou. É um 
cippo ou columna partida, tendo corno remate urna 
elegante urna sepulchral. No alto da urna estào duas 
Gragas infantis, corno orpbasinhas desamparadas, cho- 
rando a morte de um pae extrcmoso. A terceira Graga, 
na base da mesma urna, comò prendendo o medalhào 
de Gellert e debrugada sobre elle, parece dar-lbe o 
derradeiro adeus. As Gragas infantis symbolisam a io- 
nocencia e a pureza dos escriptos de Gellert. 

Ultimamente, Ilaynichen, sua terra natal, erigiu-lhe 
urna estatua, cuja inauguragào se verificou em outu- 
bro de 1865. Este monumento foi levantado na praga 
em que o pae de Gellert plantara urna tilia para com- 
memorar o anniversario natalìcio do futuro poeta. A 
arvore nào resistfra, porém, aos insultos do tempo. 
Derrubàra-a um tufào. Os compatricios de Gellert, fìeis 
à memoria d'este exemplar varào e egregio escriptor, 
substituiram aquella fragii lembranga por um monu- 
mento mais solido e duradoiro ^. 



TEMPI/) DO FOGO, EM ATESII-GAH 

(Concltttao. Vid. pag. 141) 

Exteriormentc nào apresenta o tempio feigào alguma 
architectonira. Simples muros, scm janellas, nem ci- 
malhas, frisos ou qualquer outro ornato, é tudo quanto 
se v6 nas quatro faces do ediGcio. interior mostra-o 
a gravura a pag. 141. Reina ahi a maior singeleza e 
austeridade. As paredes tem por unico adorno urna 
corea de amcias; e se nào fora uma especie de arco 
triumphal, que se crguc quasi no meio do tempio, 
mais pareceria uma fundigào que um legar de devo- 
gOes. 

arco 6 egualmente desataviado de ornatos. Da cu- 
pula que. Ihe serve de cobeilura, e de quatro corno 
pyras que a cercam, correspondentes aos quatro an- 
gulos do arco, saem charamas sempre ahmentadas 
com a mesma intensidade. 

que figura de ameias sobre as paredes do tempio 
sào outras tantas pyras, vomitando fogo continuamen- 
te. Junto das paredes existem umas construcgOes, co- 
bertas de abobada à maneira de copula, cujo interior 
serve de capellas para certas ceremonias e oragocs. 
resto do pavimento do tempio é occupado, pela maior 

i Vid. Magatin Pittoretfm, tomo xxzr, pftg. t05 a Slft. 



152 



ARCHIVO PITTORESCO 



parte, com urna grande variedade de fornalhas, umas 
eìrcularcs, outras quadradas, de quasi um metro de 
altura, dispostas sem ordem neoi syoietria, e todas 
langando fogo por urna abertura redouda, de pequena 
dimensfto, praticada na parte superior. 

A simplicidade que se ve em todo o edifìcio, interna 
e externamenle, nSo se deve explicar por pobreza de 
njoios dos fundadores, nem por mingna de talento e 
invcngào do architccto. A seita dos adoradores do fogo 
é numerosissima. Esid espalbada por differentes re- 
gióes da Asia; conta no seu gremio tribus poderosas 
e muitas famiiias enriquecidas pelo commercio. Con- 
siderando corno cidade santa Bakou, em razào do pbe- 
nomeno que referimos, e n essa qualidade obrigados 
a ir visital-a em percgrinagào, pelo menos uma vez 
na vìda; e sendo o tempio de Atesb-Gab o seu prin- 
cipal e mais venerado sanctuario, bcm se póde juigar 
que nào se poupariam a sacrifìcìos para o adornar e 
enriquecer, se a sua cren(;a Ibes p^rmittisse taes os- 
lontagOes. 

Quanto ao architecto, bastava a sua qualidade de 
fillio do Oriente para nos convencermos ae que so as 
pc^as religiosas Ihe coarctariam os vòos de sua imagi- 
nagdo ardente e pbantasiosa, corno é a de todos os 
artistas orientaes. 

Aquella simplicidade, pois, é um preceito religioso, 
e acba-se em nannonia com a singeleza dos costumes 
dos adoradores do fogo. Nos seus templos nào deve 
havcr coisu alguma que distrata ou capti ve a attcn- 
gSo, desviando-a do fogo, objecto unico do seu culto, 

Tres sacerdotes apenas tem a seu cargo a cooser- 
vagào do fogo sagrado, o servilo e aceio do tempio. 
Fazem as suas oragOes prostrados junto de um aitar 
que està debaixo do arco e cupula de que failàmos 
acima. Abi tambem cantam os seus byumuos em lou- 
vor do fogo, em tom suave e melodioso. 

Permittem a entrada no tempio aos viajantes, qual- 
quer que seja a sua relìgiào; e se estes assistem às 
suas praticas religiosas, lego que as acabam offere- 
cem-lhes algumas frutas e assucar cande. 

Ninguem, nem os proprios sacerdotes, podem apro* 
ximar-se do fogo que arde n'aquelle aitar sem ter a 
boca tapada com algum lengo ou manta, e as màos 
envolviaas em uma alva toaiha. 

Se acontece apagar-se o fogo, é mister accendel-o 
immediatamente, ferindo uma pederneira com um fu- 
sii de ago, ou esfregando com forga um contra o outro 
dois pedagos de pau bem sécco, ou fazendo projectar 
OS raios do sol através de um vidro convexo, sobre 
algum pedago de panno ou madeira velha. Quaesquer 
outros processos sào rigorosamente probibidos. 

Nào sào capazes os adoradores do fogo de apagar 
uma luz com o sòpro. Seria isso uma grande falta de 
respeito para com a divindade. Deve-se apagar agi- 
tando um leque, e se este nào se acbar à mào, po- 
dere substituir-se por uma toalba bem lavada. Tam- 
bem nào Ibes é permittido extioguir um incendio com 
agua. Por mais cristallina que seja, entendem que of- 
fenderiam com ella ao Greador. unico melo que a 
sua crenga Ibes consente para a extìncgào de um in- 
cendio é abafal-o iangando-lbe terra e pedras. 

É defeso aos adoradores do fogo derramar sangue 
de qualquer animai da creagào, e assim tambem ali- 
mentarem-se de coisa que padega morte. Resulta d este 
preceito religioso sereni de babitos fnigaes, e de cos- 
tumes doces e inoffensivos. 

culto do fogo yem de tao remota antiguidade, que 
mal se Ihe conhece a origem. Abragaram-n o muitas 
nagòes, diversificando, todavia, nas ceremonias e pra- 
ticas religiosas. 

Os antigos persas e todos os povos do norte da Asia 
adoraram o fogo comò a expressào mais pura da di- 
vindade na sua acgào continua sobre todos os seres. 
sol era, pertanto, consìderado por todos esses povos 



comò symbolo do fogo, corno o fogo por excellen- 
cia, corno a verdadeìra personificagào de Deus. Todas 
as madrugadas iam assistir ao seu nascimento, para 
saudar e adorar; e cada familia, por mais pobre 
que fosse, tinba no interior de sua casa, em legar re- 
catado, um sanctuario onde. conservava uma cbamma 
de fogo sempre bem accesa. 

A Grecia e Roma pagàs tributaram tambem ao fogo 
culto especial. Nos templos de Apollo em Athenas e 
em Delpbos, no de Ceres em Mantinea, nos de Mi- 
nerva e de Jupiter Ammon, ardia sem cessar uma 
pyra ante a estatua da divindade. Se, apesar dos des- 
velos com que os sacerdotes cuidavam da sua con- 
servagào, chegava a extinguir-se o fogo por algum 
caso fortuito, so devia tornar a accender-se no dia se- 
guinto, aos raios do sol nascente. culto de Vulcano 
era na Grecia mais particuiarmente a divinisagào do 
fogo. 

Os romanos adoptaram este culto, à imitagào dos 
gregos, e Numa Pompilio fundou um tempio de Vesta, 
e junto d'elle uma casa, onde estabeleceu sacerdotisas 
encarregadas de alimentarem o fogo sagrado no aitar 
da deusa, e de velarem dia e noite pela sua cooserva- 
gào. Ai da virgem que o deixasse apagar, estando-lbe 
confiada a guarda d'elle. Severissimas penas puniam 
sem demora a infeliz; e Roma cobrìa-se de trìsteza e 
orava contrita, implorando a clemencia dos numes, 
porque suppunba que a cxtincgào do fogo sagrado nas 
aras de Vesta era signal evidente de que algum crime 
manchàra a pureza do tempio, ou que alguma catas- 
trophe nmengava a republica. 

Quando os bespanboes conquistaram o Perù, acha- 
ram os pacifìcos peruvianos entregues ao culto do sol, 
fogo celeste e eterno que allumia e vivifica todos os 
seres da creagào. 

Os adoradores do fogo estào presentemente limita- 
dos à Asia. Os guebros e os parsis, que habitam na 
actualidade o Kerman e o Goudjerate, sào as princi- 
paes tribus que seguem similbante culto, comò dis- 
semos em outro legar. Perseguidos pelos mabomelanos 
desde o anno de 665, os parsis viram-se por longos 
annos proscriptos e dispersos, comò os judeus. Kn- 
contraram a final protecgào sob o dominio da Russia, 
que OS deixa viver em paz no livre exercicio do seu 
culto. Além do tempio de Atesb-Gah, possuem outro 
em Bombajm, posto que menos concorrido de pere- 
grinos. 



I. DB VlLIIBKA BaBBOSA. 



Adriào Junio viu em Malinas um carogo de ccreja, 
lavrado em fórma de bocetinha, que Ihe cabiani den- 
tro, por miudeza da arte, e boa vista, e grande fleima 
do artifice, quinze pares de dados, todos com todos 
OS seus pontinhos muito bem signalados. 

Mais 6 ainda o que refere o padre Gaspar Escoto, 
da companbia de Jesus, na dedicatoria do seu livro, 
intitulado Technka curiosa^ ao principe Joào Filippe, 
arcebispo de Moguncia; onde diz que Allemanha e 
Italia admiraram este prodigio da arte, a saber: vinte 
e cince pegasinhas de artilheria, feitas de pau, com 
suas carretas e trinta balas; que tudo junto cabla em 
um grào de pimenta cavado, e de mediano tama- 
nbo. 

Isto (na supposigào de que é verdade) coisa era sub- 
tilissima; e so serviria de dar traballio a quem o fez, 
e a quem o via em espremer os olhos e conter o fo- 
lego, para que o trem de artilheria nào voasse pelos 
ares. Porém peior se empregaria o tempo no paleo 
das comedias, ou na casa do jogo, ou em murmura- 
gOes e detracgOes do proximo, ou em compor versos 
e escrever cartas de assumptos amatorios, ou em cur- 
tir paixOes de melancolia e de escrupulos. 

P. Manubl Bbwmabdbs. 



20 



ARCmVO PITTORESCO 




Eia aqiii um tributo de espoiitanea e reverente admi- 
racào, que ha muis de mcio secuio consacrava i memo- 
ria do homem verdadeiramente cxtraordinarìo, aquelle 
que em Portugal se propoz celebrar na lìnguagem das 
musas as conquistas da pliìlosopbìa e os trabalhos dos 
seus adeptos. Porvenlura era està a segunda vez qne 
enlre nOs apparecìa commemorado em publico o nome 
do pensador solitario de Hollanda scm o acompanba- 
mento obrìgado das calumnias e dos epilbetos injurio- 

■udfmla friBceu, a celebre SjuIIih de la itaturt, ttiManaU takTido 
lioje por oIh-b do bu-ls d« Ualtncb. 

Uft opinLio da algnui naia naiLbot da panlbeltmo, que nM do prò- 

i Sèrvimo-xu» da prcrcnncls na tmurrlpflo d'«U traci» d* Dcm 
editto do Kttptou, ìil coiDD «ata pocniK foL rtiprodiuldD pfllo u. con- 
ultaeim J. F. do Ctuinho no Jonul o IrU. 1M8, voi. i; ■ quii » 

por Uk canildcribllliilnumente d« adicSu pabllcidu '«n LÌiIh» 
B« UBoa de ISIJ e 1815. 



SOS, com que os delraclores da sua doutriua cosluma- 
vam affrotilal-o, infamando-ibe a pessoaedesluzindo- 
lhe a sabedoria i, 

Considerado corno auclor de um systema, que 6 pro- 
miscua e simultaneamente um poderoso esfor^o, urna 
das mais vastas coocepcues da intcUìgencìa bumana, 
e, se assìm o querem, c.iemplo memoravel dos des- 
acertos em que pode perder-sc o espirito, quando ex- 
Iraviado pelas especulacOes abstractas, Spinosa merecc 
a lodos OS respeitos urna allencSo particular. scu 
nome e o seu systema cbegaram a adquirir iios uUi- 
mos tempos importancia e reputa^uo laes, que pro- 
meltem tornar-sc immorredouras. Resurgidos da quasi 
obscuridade, ou antes, do desprezo em que jazeram 
por mais de um eeculo, mal comprehendìdos e peior 
inlcrprctadoa, esse nome e esse systema comegam a 
reaplaudecer corno que de repente, e v&o ganhando 
de dia para dia novo lustre, ccrcados de uma aureola 
radiosa, cujo brìlbo contrasta singularmente com as 
irevas da ignominia em que pi-clcDderain submcrgil-os 
08 seus aniagoaistas. 

pensador inoffensivo, que, na opiniao de Male- 
branche, uSlO passava de um mtseravel sophisla, vciu 
a ser por Schleiermacber reverenciado e invocado co- 
rno se fóra um santo. atheu de systema, a quem 
Bayle prodigalisàra uitrajes e vituperios, e que iiùo 
escapàra aos pungentes sarcasmoa de Voltaire, parece 
aos olbos da Allemanba moderna o mais religioso dos 
bomens. Deus de Spinosa, que o secuio xvn bavia 
despeda^ado comò se fóra um ìdolo, cbegou a scr o Deus 
de Lessing, de Goethe, de Novalis; e n'essa doulrioa 
que Leibnitz qualiGcàra de extravagante, apenas pro- 
pria para embair o vulgacbo, e que outros julgaram 
espantosa chimera incompativel com o senso commum, 



154 



ARCrm^O PITTORESCO 



vd Jacobi a ultima palavra do racionalismo, e Schel- 
ling presentimento, ou antes, o lypo da philosophia 
verdadeira. Pouco tardou que està sorte de enthusias- 
mo, transpondo os limites da Àllemanba, invadisse a 
F'ranga e yiesse mais ou mcnos à generalisar-se por 
toda a Europa. 

Nào é para nós, mcsquinba creatura, a presciencia 
dos destinos que nos arcanos do futuro se reservam 
ù nova doutrina. Tao pouco podómos entrar na sua 
anaiysc e aprecia(;ao. RegistAmos pura e simplesmentc 
OS factos, abrindo com estas hreves liubas a noticìa 
em que ìntentdmos por ao alcance dos menos ins- 
truidos ns particuiaridades da Tida do homem, cuja 
gloria reflue até corto ponto sobre a nossa patria; pois 
se nào temos acbado provas incontestaveis de que elle 
visse a primoira luz em o dosso solo, é pelo menos 
certissimo que de Portugal sairam os seus progenito- 
res. Sirva essa noticia, quando menos, de incitamento 
à curiosidade e esludo. A pessoa de Spinosa, tanto 
conio a sua doutrina, sao perfeilamenle originaes. 
Acba-se estampado no scu modo de viver o mesmo 
sello de singularidadc, que distingue a sua maneira 
de pensar e de escrever. Seu caracler e coslumes ir- 
reprebensiveis, seu isolamento, as enfermidades phy- 
sicas e moracs da sua natureza, rcvelam frequente- 
mente segredo das suas especulagoes, e devcm con- 
citar-lhe o rcspeilo e estima ainda d'aquelles que, 
tendo por erradas as suas concepgOes, insislem em 
ver no spinosismo, de envolta com o anniquilamento 
dos principios religiosos, a destruigào da moral e or- 
dem publica, suslcnlaculos da existencia e da pros- 
peridade dos eslados. 

ri 

Aos 24 de novembre de 1632, uà cidade de Amster- 
dam, nasceu Baruch de Spinosa de urna familia de 
judeus porluguezos. Tal ha sido n'estc ponto a opi- 
niào correntemente seguida por todos os seus biogra- 
phos que podémos consultar, depois que assim o affìr- 
niAra o ministro lutberano JoSo Coloro na vida que 
d'elle escreveu, e que, se nSo estaraos em erro, se 
imprimiu pela primeira vez em 1706. 

ComlTido, José Agostinho de Macedo, nSo so no 
trecbo que coHocàmos à frcnte d'estc arligo, mas em 
outros logares de seus escriptos, dà corno certo e as- 
sentado que Spinosa fora oriundo de Beja, d'onde seus 
paes tiveram de expatriar-se para fugir às pesquìzas 
e rigores da inquisigào. Que determinados a buscar 
guarida na Ilollanda, a exemplo de tantos seus cor- 
religionarios, se dirigiram occultamente para o Porto, 
indo a mae no estado de gravidez; e que» sondo ahi 
demorada pelos trabalhos do parlo, seguirà pouco de- 
pois com marido viagem para Amsterdam, levando 
comsigo filho recem-nascido, e de compauhia outro 
judeu notavo!, rabbi Jacob Wurteira (que outros cba- 
niam Moysés), o qual viera a sor o primeiro mostre do 
pequeno Baruch. D*aqui tirava José Agostinho grande 
gloria para a sua patria, e para si a ufania de haver 
por compatricio tao abalisado engenho. Debalde pro- 
curàmos até hoje avoriguar d'onde houvora olle taes 
noticias, e o grau do credibilidade que devamos dar- 
Ihcs; poróm a insistencia com que o diz e repete tan- 
tas vezes parece indicar que algum documento au- 
thontico, ou, pelo menos, a tradìgào acaso conservada 
entro os bejenses desde o soculo anterior, Ihe servi- 
ram de fundamenlo para desviar-se n'osta parte da 
opiniào geralmente propalada, e que elle mal podia 
ignorar. 

Seja, porém, corno for, é certo que o pae de Ba- 
ruch, Miguel de Spinosa, se estabelecéra em Amster- 
dam, e que exercia ahi a profissao commercial, vi- 
vendo folgadamentc com a sua familia em urna bella 
casa, situada nas proximidades da antiga e afamada 
synagoga portugueza. Tioha além de Baruch duas 0- 



Ihas, Rebecca e Merian de Spinosa, que casaram hou- 
radamente com israelitas portuguezes. 

Nao faltou a Baruch a educagao litloraria propria 
para desenvolver a imaginagào viva e o entendimento 
perspicaz com que a natureza o favorecéra, e que n'elle 
desde a infancia comcgaram a manifestar-se. Após os 
estudos da Biblia e da lingua hobraica, que consti- 
tuiam a parte essenciai do ensino das synagogas, pas- 
sou a aprender o latim, que era ainda entùo na Europa 
a lingua uoiversal dos sabios. Deram-lhe por mostre o 
medico Van-den-Eude, homem instruido, mas espirito 
ousado e inquieto, que, passados annos, veiu a ter- 
minar tragicamente no palibulo uma vida avonturosa, 
morrendo enforcado em Franga, accusado de conspi- 
rador. 

prìncìpal e mais veridico biographo de Spinosa, 
jà citado Coloro, que tomàmos por guia em nossa 
narrativa, aflìrma que Van-den-Ende se comprazia em 
espalhar no espirìto dos seus alumnos as primeiras se- 
mentes do atheismo. Tinha olle uma filha unica, a 
qual era tao perita nos sogredos da musica e da la- 
tinidade, que se tornerà capaz de supprir o pae nos 
seus impeaimenlos e ausencias, dando ligOos aos es- 
cbolaros. Como n'csla qualidade Spinosa havia fre- 
quentos occasiOes de vel-a e tratal-a, veiu a concebo'r 
por ella uma paixao ardente, com proposilo de ospo- 
sal-a, sogundo o que seus amigos Ihe ouviram con- 
fessar muitas vezes. Nào quiz, porém, a fortuna que 
lograsse o firn de seus dosejos. A 6lha de Van-den- 
Ende, ainda que nao fosse uma formosura perfeita, 
possuia, comtudo, em grande còpia as gragas do es- 
pirito, e attractivos baslantes para conquistar adora- 
doroa. 

Aconteceu, pois, que, ao passo que subjugava o co- 
ragao de Spinosa, achou-se roquestada de uni man- 
cebo hamburgUGz, por nome Kerkering, que cursava 
tambem o ostudo da lalinidado. Rem depressa pcrco- 
beu oste que linlia um rivai, e para logo redobrou cui- 
dados e assiduidade, a fini de supplanlar o seu compe- 
tidor. Ganhou, finalmente, a preferencia; para o que 
muilp concorreu, ao que parece, o brindo que fez à 
donzella de um colar de porolas, do valor de duzen- 
tas ou trozontas pistolas. Sensi voi a dcmonstragOos de 
tamanho peso, ella ihe promolteu a sua mao, e dcs- 
empenhou a promessa fielmente, logo que o apaìxo- 
nado mancebo abjurou a religiao protostante que se- 
guia, para abragar a catholica romana, em que a sua 
amada havia sido educada. 



(Continua) 



iKHOCEircio Fbakcisco da Silva. 



FRUCTOS DE VARIO SABOR 

(Vid. pag. 102) 

III 

AS ROSEIRAS DO AMOR 
I 

DCAfl PAMILIA8 

A distancia de dois kilometros ao norte da Povoa 
de Varzim oxisle uma formosa aidoia que lem o poe- 
tico nome de Avelomar. Estendem-se as suas casinhas 
brancas, de lèste para oeste desde um silio chamado 
Lameiro até quasi a borda do mar; alli, na parte mais 
elevada do areial, ha uma comprida filoira de moinhos 
de vento, que sao corno a guarda avangada das pri- 
meiras habila^Oos. A aidoia é grande, e os seus mo- 
radores nao passam a vida ociosos. A maxima parte 
emprega-se na cultura dos extensos campos que ro- 
deiam a povoagao; outros occupam-se na pesca; e al- 
guns v5o procurar a fortuna longe da patria, em via- 
gens aventurosas e longinquas, no Brasi!, na India, na 
Australia, em todas as regiOes onde se acha oiro, e... 
um cemiterio para os que nao voltam. 



ABCHIVO PITTORfiSCQ 



15S 



Ao logitf ero que sio edificadas as oltimas. casus ao i 
pé do areial cbama-se Aldeia Nova, que defronla coid 
a proia de Esteìpo; os Domes dft3 outras praias 8ào, 
viado do Qorte: Àradìuiui, CarrcirO) Boccas e Gannas; 
de Estciro para q sul, cfaamaoi-se: Forcada, Amaro^ 
sa, Fragosa e La^a, mie jà coofiiia com a fregoezia 
de Briris. A costa é de espago a espa^o povoada de 
exteosas peoedias, que tm mnitos sitìos avangam mais 
de um kik>metro pelo mar dentro. Nos interva^los do 
uns e outros rochedos formou a naturcza portas natu- 
rac;^^ por oode, uoa dias de bom tempo, saem os ba- 
teis de pesca, muitos dos quaes nem sempre tornam 
a voltar se os enconlram os temporaes nas grandes 
longitudes a que eJles se aventuram. 

Ha jù muìlos annos viviam no legar de Aldeia Nova 
dois pescadores visìolios e amfgos, socios ambos n'um 
baici que era sempre dos mais felizes na pesca. Eram 
elles tambem os mais audazcs de quaotos ousavam 
disiaocìar-se até perder a terra de xistas mas o seu 
barco Irazia sempre os maiorea cangros, ais pescadas 
mais agriganladaSy os rtti\^s mais colossaes e mads sa- 
borQSQ6> maìor alkundancia de axraias, de fanccas, de 
pargos, de peixes agulbas, e de toda^ as riU'iadas es- 
pcckca que n'aqueUies Qoares se cucontram. Casaram- 
se OS. dois. pescadores; e a mulhcr de um leve um 
filbo quasi ao mesmo tempo em que a do outro tirtba 
urna iilba. coiUeotamiento das duas familias kÀ es- 
^lantoso. As màes, que eram egualmente aifiigaa urna 
da patra, hgo que se erguerajou da cauia fòiram abra- 
car-se,, e exclamarara ambas a um lempo: 

— Fc«-me Deus a vontadc^! 

UxclamngOes que os lanridofi tambem tiobasQ sol- 
tado um pai^ o outro iogo que nasceram as crian^^as. 
Qs baptisados G;2seraro-se no mesmo dia, scado padri- 
nho e madrìaba da. lueoina os paes do m^eoiao,. e 
d*esle OS da meuioa. 

Ao jantar, perente os convidados. e coni os copoa 
e canecas em pu»bo, juiarain solemnemeute os dois 
paes e as duas macs que os pequenoa baviam de casar 
um cooi outro,. se Nesso Senhor uào manifestasse 
a sua santiissima vontade em contrario por algurm 
fórma inesperada. CUorai'am todos de alcgria,. contri- 
buiudo vinbo com boa parte das lagrimas; dcram- 
so abragos a torto e a direito com as melbores itrtcD- 
fOes» e todos se ajustaram para irem dangar na bóda 
de P^dro e de Maria, que devia ser d*alii a dezeseis 
aiiQOs,. pelo menos. 

II 



08 FILTIOS 



bavia iw terreiro. Estes exercicios erara feilos com 
tao conseienciosa regularidade, que aos quinze annos 
e auetor d'cUes coi^undia urna vogai com um al^- 
rìsmo, e o professor, que lia oauito bem o latiiu aem 
o entender, julgava o discipulo estupido comò um car- 
neiro, o aconselbava o pae a que o casasse quanto aa* 
tes,. porque talvex o casamento Ibe aclarasse as id6as. 
Os dois cooipadres acfaavam, porém, ainda muito ce^ 
do; e, para fazerera do raogo gente, levaram-n'o con- 



sigo ao mar. 



ni 



A PRnfXIIlA VIAOKU DX PKDBO 



Cresceram os pequenoa rapidamente, corno se ti- 
vessem pressa de cbegar à edade em que dcviam co- 
megar a amar-se. Maria, pra nào gastaimos t(»apo 
com. vfis descripgóes, parecia urna rosa das mais for- 
mosas e aveludadas que dào as melbores roseiras. Pe- 
dit) fez-se um gentil rapaz; e, sem que ninguem Ibe 
dissesse as combìnagoes feitas pelas duas familias, co- 
UK'gou a gostar devéras da pequena; e aos quatorze 
annos cantava por amor d'ella ao desaOo com oa mais 
illustres i'mprovisadores da aldeia, e cnsaiava-se a jo- 
gar o pau, com o vago presentimento de que dentro 
emi pouco teria de defender o seu tbesouro a cacbei- 
rada. 

Maria aprendtìu a ler e escrever com o padre Ma- 
nuel, um saniK) bomem que passava a vida ebcio de 
impacicncia a esperar pelo dia da bóda dos dois ra- 
pazes, para saborear o jantar, que na sua canilida 
iraaginagào concebia de concerto com os seus gostos, 
e a sua inclinagào pelas saladas de lagosta e de ca- 
ranguejo maxime. 

Pcdro, em vez de olbar para a carta dos nomes, 
olhava para Maria; e,, quando a nào tinba presente à 
]ig(io, sivfa sem ceremonia da escbola e ia atirar pau- 
ladas, para se esercitar „ ao tronco de um platano qiie 



Està demoQStrado ba muito tempo,, e por isso se 
nào trata de prorar agora aqui, que todo o namocado 
é poeta, admittindo que poeta é synonymo de pedago 
d*asno. nesso amigo Fedro jà improvisava ao des- 
afio cantigas que Ibe davam. direito a ser membro de 
qualquer academia, se porventura bouvesse alguma na 
sua terra, 'ou se as de fora admittisscm socios que an- 
dassem de laKEiaucos e calgas de bacta branca. Mas 
iku aldeia uào havia inslitutos sabios, e oe da ctdade,. 
ou nào tiiibaiu coahecimento suUkieote da vocagào 
do rapaz^ ou nào quireram no seu grcmio um lapms 
que assauharia pela sua simplicidade e faria dar urroa 
aos outros ienmortaes.. mancebo nào foi acadcmiro^ 
astìiffl' corno nào conseguirà aprender a ler correcta- 
QìeBte. Mas, em eompensagào, nonca nenbum poeta,. 
mesmo dos mais graudcs, soobou e viu as maravi- 
Ubas que encbtam a pbantasia do joven pcscador. 

No primeiro dia que foi ao largo e pcrdeu a terra 
dje vista y sentiu-se outro. A solidào do mar e dos ceos 
entrou-lhe n'aJma, e revelou-lbc a fórma e a gran- 
deza do seutunento qtre o dominava sem elle dar por 
isso; tcve,. ante o raagestoso especlacuio da immcn- 
sidade, corno urna intui>gào do seu destino, e previa 
que tinba nascido para o amor e para a. fatalidade. 

Nao comprebendendo nada do que instava sentindo,. 
langou os oibos em torno de si, e viu que de todos 
OS hdos, no Biar, no ceo, ao longe e ao perto, Ihe 
apparecia semjjre um ponto luminoso, urna estrella 
forraosissiaia — Maria,. 

Deitou maehinalmeute as linbas; e, comò os outros 
pescadores, segurou-asnasextremMades, a esperà que 
picasse peixe; este vciu e levou-lhe os apparelbos, 
sem (pie elle iizesse diligeneias para os cipaniaar. 
pae zangou-se e quii bater-lhc, mas o padri nbo in- 
Icrveiu sorrindo, e os outros coEDpanbeiros riram à 
farta da admiragào em que ikàra o mogo quando caLu 
em sL 

bareo depressa se foi carregando; a fortuna acu- 
dia, comò de costume, ivo cbamamento dos velbos 
pescadores. Pedro instava pela pallida, porque,. dhìa 
elle, sol ia baixando muito depressa; mas a ver- 
dade era porque o chamava outra luz que elle via 
na terra. 

— Deitemos as linbas so urna vez mais e Iogo par- 
tiremos, disse ,o pae, depois de ter reflcctido um pouco, 

— Gompadre, observou o padrinhov vejo além urna 
nuvemsinba que nào me cheira. Por hoje tcnoos jà 
a nossa conta; nada de tentar a Deus! A ambìguo 
perde os bomens. 

compadre Baltbazar resposideu, ao mesmo tempo 
que iscava os anzoes: 

— Ó compadre,. fa;s-Ihe mal levar mais raeia duzia 
de congros? 

— Nào; mas sera boat deixarmos cà alguns para 
ouiro dia. Olbe que nào os podémos apanbar todos, 
e a nuvem caminha e eogrossa sobre nós. 

— Ora adeus!... Jà cà sinto um a farejar a isca... 
zàs ! Elle cà vem ! 

E comegou a alar a linba, que ora abrandava, ora 
estendia com violenda^ asgundo os movimentos do 
peixe. 



156 



JLBCHIVO PITTORESCO 



Em inenos de um minuto entrava o congro no ba- 
tel. Era um peixe enorme, com o lombo cìnzento, 
quasi negro, a cabega aguda corno a <le algumas ser- 
pentes, e o ventre esbranqui^ado. 

— Bonito biche! exclamou o compadre Sebastiào. 
E, ati(;ado pela cubiga, iscou tambem os seus anzoes 
e alirou-os ao mar, sem se lembrar jà da nuvemsi- 
nha e das prudentes reflexOes que ella ha pouco Ihe 
suscitava. 

% IV 



A VUTEMSXmA 



mar estava mansissimo; o batel quasi immovel; 
ceo sei'cno; o borisonte claro para todos os lados... 
menos do sudoéste, onde se via a nuvem que notàra 
ha pouco compadre Scbastiào. 

Essa nuvem, que parecia ao principio urna tela de 
aranha esquecida pela vassoira dos ventos n'um can- 
tinho do eco, foi crescendo lentamente, tomando de 
instante para instante fórmas diversas e càprichosas, 
comò as das ondulagóes do fumo n'uma atmosphera 
calmosa, ou corno as evolugòes de um bando de es- 
torninhos perseguidos por um milhafre. Encolhia-se, 
estendia, alargava ou estreitava, similhando ora um 
immenso farrapo cor de chumbo, ora um castello cheio 
de torreòes em um monte cortado de valles profundos. 

Fedro olhava fitaraente para todas aquellas transfor- 
magóes, mas nào as via. No meio da nuvem estava, 
comò no mar e no eco, a imagem que elle tinha na 
alma, e era essa imagem que o mogo cuidava estar 
vendo. 

pae, padrinho e os outros homens da compa- 
nha nào rcparavam para o borisonte. Os seis congros 
que Balthazar desejava jà estavam pescados; os pes- 
cadores, sem se communicarem os seus pensamentos, 
juigaram todos ao mesmo tempo que era bom apanhar 
mais outros seis, e continuaram a deitar sileuciosa- 
mente as linhas. 

A pesca afì^urava-se a todos prodigiosa n'aauelle 
dia; nunca nmgucm tinha tido tanta felicidade; o 
peixe parecia supplicar que o apanhassem ; os velhos 
congros, que tinham vivido seculos, disputavam a vez 
de se atirarem ao anzol mortifero. Dir-se-hia que pre- 
sentiam unia revolugào proxima e terrivel no elemento 
que habitavam, e empenhavam-se para evitar, por meio 
de uma morte antecipada, a catastropbe da patria. 

De repente a superficie do mar encrespou-se ligei- 
ramente, comò se fosse tocada por um corpo que Ihe 
era repugnante. Os pescadores empallideceram e ala- 
ram velozmente as Imhas ; os peixes mortos comò que 
estremeceram no fundo do batel; os vivos mergulha- 
ram para as profundidades do Oceano, formando um 
redomoinho t roda do barco com a violencia com que 
todos agitaram ao mesmo tempo os rabos e as bar- 
batanas. 

À agua é dotada de tao extraordinaria sensibilida- 
de, gue nào creio que haja na natureza, a nào ser a 
sensitiva, animai ou pianta que possa comparar-se- 
Ihe. Se podesse observar-se o fluido que se suppOe 
circular dentro dos nervos do corpo humano, parece- 
me que se Ihe encontrariam as mesmas propriedades 
da agua, com pequeoissimas differengas. Àssim comò 
ha mulheres que empallidecem e tem convulsOes ner- 
vosas à vista de uma cobra ou ao contacio de um 
sapo, assim o mar, ao contacto dos ventos, muda 
tambem de cor, torna-se livido, agita-se, espuma de 
colera, ruge contra o elemento antipathico, e, depois 
de manifestar todos os symptomas que exprimem o 
sentimento animai, cae nas prostragOes que succedem 
a todas as luctas. 

Em quanto os pescadores, contentes com a sorte, es- 
tavam 

«N'aquelle engano d*alma ledo e cego 
Que a fortuna nào deixa durar muito», 



aproximàra-se e crescerà a nuvem, que vinha do su- 
doéste impellida por ligeiro vento. Atraz d'ella, e comò 
para assignalar o seu caminho, ia-se ferrando o ceo 
de negro. sol comegava a tocar nas aguas, e a noite 
parecia esperar com impaciencia que elle desappare- 
cesse para langar nas trevas o terror e o espanto. 

Quando Balthazar e Sebastiào viram o primeiro an- 
nuncio da procella na face do mar que se enrugava, 
recolheram, comò atraz dissemos, os apparelhos de 
pesca. 

(Continua) F. Ooms ds Amobdi. 



VILLA DA POVOA DE VARZIM 

(Vid. pag. 65) 
IH 

Sào conhecidas as desintelligencias que se deram 
na corte dei-rei D. Diniz, entre o principe Affonso o 
Bravo, seu filho legitimo e herdeiro do throno, e o 
bastardo Affonso Sanches, que, felizmente, termina- 
ram pela sensata intervengào da piedosa rainha D. Isa- 
bel. Nào nos cumpre averiguar agora este ponto da 
hìstoria patria, nem queremos tratar d*elle por me- 
nor ^. 

Pouco depois de Affonso Sanches estabelecer com 
sua mulher residencia no senhorio doado pelo rei la- 
vrador, o conde D. Martim Gii com sua mulher, D. 
Violante, quizeram disputar-lhes a posse, allegando 
que a Villa do Conde e dominios eram heranga dos 
seus antepassados, e d*abi se originou um grave liti- 
gio, em que foi mister intervir a auctoridade real, 
corno era de uso, e o rei mandou declarar que se fi- 
zesse boa a posse de seu filho ^, exonerando o conde 
D. Martim Gii do dito senhorio, e confirmando a sen- 
tenga com a carta de doagào. N'essa mesma epocha, 
ou decorrido pouco tempo, a Povoa foi elevada à ca- 
thegoria de villa. 

D. Affonso Sanches teve de sua mulher, D. The- 
resa, dois filhos, que morreram na infancia; e D. Joào 
Affonso, que foi o herdeiro de seus bens, senhor de 
Albuquerque, Medelhim e outras terras, cxerceu as 
funcgòes de alferes-mór de D. Affonso xi, rei de Cas- 
tella. D. Joào Affonso, a quem chamavam o Alaude^ 
casou com D. Isahel de Menezes, da qual nào teve 
filhos, mas deixou muitos bastardos reconhecidos. 

Tendo feito testamento com pìedoso intuito, Affonso 
Sanches e D. Theresa dispozeram n'elle que o castello 
de Villa do Conde, em que tinham vivido, fosse en- 
tregue às religiosas franciscanas de Santa Clara ^, con- 
forme consta das Provas da historia genecUogica da 
casa real portuguezay accrescentando-se que està doa- 
gào é datada do anno 1318, pouco mais ou menos o 
do fallecimento de Affonso Sanches. Para assegurar 
a necessaria decencia e o sustento das ditas religio- 
sas, OS devotos fundadores deixaram-lhes tambem o 
rendimento de varias terras, em que se incluia Povoa 
de Varzim *. 

Instituido roosteiro, a abbadessa gozou de taes isen- 
g6es e regalias, que aie as jurisdicgdes civil e crimi- 
nal Ihe pertenciam ; corno era naturai, a justiga nào 
se exercitava com rectidào nem com imparcialidade, 
e OS povos mais queixosos dos abusos do poder foram 
OS da Povoa de Varzim, a ponto que o sr. rei D. Ma- 
nuel, ao conhecimento do qual chegaram nào so essas 
queixas e contcndas, mas tambem os fundamcntos 

1 Vid. pag. 348 do voi. v d^este gemanarlo. 

< Segando o anctor das Memoriaa historiea», ji cttadaa, na dedalo 
do rei D. Dinls ae Ha: <Qae Varaslm de Jua&o e Tongnifto a par do 
Villa do donde, com oatraa mala terraa e igr^jelroa flcaasem com D. 
Thareja, aua mulher.» 

3 Vid. pag. 865 do voi. xv e 321 do voi. vi do Archivo Pittoreèto. 
N'este ultimo numero vem uma gravura reprcaentando o convento de 
Santa Clara. 

4 Vid. Memoriat citadas, pag. IS e 13. 



ARCmVO PITTORESCO 



d'ellas, entendeu que devia abolir o estado quc se 
creàra a abbadessa, com delrìmeolo do rcai poder, e 
outorgou A villa novo forai, confirmando o do rei la- 
vrador. Com este Toral lermÌDou o dìrcito do mosteiro 
das franciscanas de Villa do Conde ', e dcu-su A Po- 
voa a isencao de eleger juii, mordomo e cbegador, 
collocando assìm aquelle povo nas condi^fics cm que 
entao se achavam as principaes vjilas do reino. 

mosteiro u^o perdeu, lodavia, om rendimento, 
porque, ao passo que D. Manuel dava consideraj^o 
de municipio & Povoa de Varzim, eatabelecia para as 
freiras franciscanas, a titulo de compensacùo, urna 
tenga de duzenlas libras, e lodo o soIqo e peìxe real 
que vìessc à praia, o que 86 foi execulado depois do 
mllccimenlo do venturoso rei. 



Infere-se, pois, do quo fica posto, que a regenera- 
{^o, ou ante» a emancipacio, corno dìz o auctor das 
Memorias histm'kas, da villa da Povoa de Varzim, an- 
tìga Yarasim de Jusào, data do rcinado do sr. rei 
D. Manuel. Dcsde entao, os habitanles da villa rege- 
nerada, posto que tìvessem de luctar por muito tempo 
contra a ma vontade das religiosas de Villa do Conde 
e das pessoas graùdas que ae protegiam, e contra as 
dillìculdades quc d'ahi naturalmente resultavam, co- 
mef^aram a prosperar e a ver que cram abengoados 
OS fructos do seu trabalbo. 

Este desenvolvimento lornou-se tao notavel i^uasi 
meiado o seculo xvi, que o governador do arcebispu- 
do, provieor Antonio Veiho, deaignou a capella da 
Uadre de Deus para n'ella se conservar o sacrario; e 
no prìmeiro quartel do seculo seguinte, a freguezia 
de Argivae ficou inieiramente desnienibrada da Povoa, 
passando o parocbo, que era de ambas, a ter so re- 
sidencia na segunda das povosfOes, satisfazcndo-se 
d'cste modo as rcpetidas mstancias dos moradores, 

Jue se queixavam de nem sequer terem missa no dia 
o seu orago '. 

A capella da Madre de Deus estava situada ao poenic 
do adro da actual matriz, e era separada d'elle por 
urna ma. F6ra a escolbida por scr mais centrai. No 
principio do seculo xvin, o sacrario foi transfcrido 
para a egreja da miBericordia, quo entao servia de 
matrit e se acbava reataurada bavia annos. 

Os fundadorcB da capella da Madre de Deus foram 
o cavalteiro Joao Martins e sua mulher. Maria AfTon- 
so, no anno de 1542, contorme consta dos titulos que 
possuia o sr. Dento Pereira de Farìa Gajo, de Villa do 
Conde '. 

Desenvolvida a villa, e accrescentada a industria da 
pesca por essa mesma razfto, no comete do seculo xiv. 
salvo erro, o vigarìo da Povoa quiz auginentar a sua' 
congnia mandando pedir na praia uma esmola de peixe 
para o seu sustentò; ao que oa bona pcscadores se n5o 
oppozeram, e, comò exemplarea parocbiaoos, nao dei- 
xaram nunca o seu pastor sem esmala avultada. 

Deu isto, pcrém, orìgem a que as necessidades, ver- 
dadeiras ou apparentea, do cabido de Braga, que ahi 
via melo de se Baciar, se enlremoatrasse, prìmeiro 
timidamente, depois com desassombro, convertendo 
aquelle onus voiuntario em peaado diiimo sobre o 
pcscado, que os pobres pescaaores de Varzim, apeear 
de terem demonslrado que era em demasia injusto, 

t Noi 1.° do foni do ir. ni D. HuDd IS-i> oHP'lDKi' 'Q»» >>^ 



i, Mìgatl, Hqje i piidio«lr* Nimh Scnhor 




t58 



AJtcmvo pirmiussco 



pagmm na impoftincia de centenas de contos de réis, 
Q por cerio aioda hoje pogariam, se em 1834 ndo se 
conseguisse firmar o throno consti tucional da sr.' D. 
Varia ir e abolir os dizimos com que os povos erani 
vexados. 

(OOBftiBÙa) BbITO ÀRAirBA. 

PULPITO DA EGREJA DE SANTA CRUZ DE COIUBRA 

(Coaclnsfto. Tid. pag. 137) 

tempio de Santa Cruz de Coimbra, comò os nos- 
sos leitores sabem, foì fundado por cl-rei D. Affonso 
Henriques e reedificado por el-rei D. Manuel. tem- 
pio actual é, pois, obra d*este ultimo soberano. 

Tratando do mosteiro de Santa Cruz em o voi. viii 
d'este semanario, a pag. 295 referimo-nos a uma des- 
cripsùo d'esle monumento, fcita no anno de 1540 por 
D. Francisco de Mendanba, doni prìor do mosteiro de 
S. Vicentc de Fóra> em Lisbaa, a qual foi enviada ao 

f)apa Paulo iir, que desejou ter conhecimento do edi- 
k'io, e ao diaute se inseriu na chronica da ordem dos 
conegos regranles de Santo Agostinho. N'essa descri- 
p^Cio vera seguirne periodo, quo entào transcrcve- 
mos, e agora vamos reproduzir de novo, porque ncm 
(odos OS que lerem estas lìnbas terào c\ mùo o ci- 
tado volume do ArchivOy e porque o dito periodo é 
essencial às coosideraQòes que o assumpto nos sug- 
gere. 

Diz, portante, D. Francisco de Mendanba, fallando 
do portai do tempio: «Este portai fez raeslre Nicoiau 
francez, e trabalharam nelle os trcs francezes, tàobcm 
graiidcs mestres, a saber: Joào de Ruao, Jaques Lon- 
guim e Filippo Uduarte; que pera osta obra, e pera 
a das sepulturas dos primeiros Reys deste Rcyno nian- 
dou vir de Franga o senhor Rey D. Manoel de sau- 
dosa memoria.» 

Apoiando-nos om tao auctorisada opiniào, por quanto 
auctor d'ella foi contemporaneo dos reis D. Manuel 
e D. Joao III, e viveu no mosteiro de Santa Cruz de 
Coimbra durante o progrcsso das obras de rcediGca- 
fao, julgamos poder attribuir o celebrado pulpito d'a- 
quella egroja aos esculptores francezes a que se refere ras do pulpito, talvez, a nobreza de porte, que ent 



pulpito foi detiDeado e eacijklpidQ seguMo aa re* 
gras da arcbitectura cfaamada do reaasciineDtQ. . 

Os baldaquiuoa vasados, que fajsem docel is està* 
tuas^ 6do as unicas fei$0e3 do ealilo goibico ostampa* 
das no pulpito. Mas essa omacoentaoao foi accetta por 
muitos antagooistas da fórma ogiva!,, e vemol-a figu- 
rar em alguna dos primeiros mouttmeotos aue a ver 
nascenca eriglu, principalmente en> Italia. Em tudo 
mais» nicbos, peaobas» pilaslras, frisos, e etn lodo o 
genero de lavores» é puro estilo do renascimepto. 

Os sectarioa d'està grande reforma uao $0 proscre- 
veram, mas até tiveram em deaprezo as fórmas gotbi* 
Gas, reputando-as barbaras. I^oi està intima coovie^ào 
que os moveu a darem o nome de reuascenQa ao novo 
estilo, porque entenderam que> levaotaudo-o sobrc a 
mina da arcbitectura gotbica, faziam resurgir a arte 
das trevas da barbaridadc em que se deslustràra. 

Estas razóes levaram-nos, portante, a duvidar de 
que OS mesmos artistas que tragaram e executarani o 
portai da egreja e os mausoléos. reaes, segundo um 
estilo do arcbitectura a esse tempo j4 condepinado dos 
outros paizes da Europa, e que em o nesso se acbava 
tao proximo do seu ficB, delineasscm e esculpissom 
pulpito conforn^e os preceitos d^ um eslilo povo e 
•tao opposto ao veibo. 

Accresco ainda outra circuostancia, que corrobora 
a conclusào que tinìmos dos argumoutos expendidos, 
A escuiptura do pulpito é mais |>erfeita que a do por- 
tal e dos tumuios rcaes. Està circo usta ncia, ainda que 
seja considerada em gerai, é digna de reparo, e nào 
póde dcixar de ter algum peso na queslao. Porém^ se 
se attender a que o genero de escuiptura em quo. o 
pulpito mostra muito mais subido grau de perfeiyào 
6 nas estatuas que o decoram, rcconbecer-se-ba nào 
ser crivel que as mesmas màos que fizeram as esta- 
tuas do portai e dos referidos mausoléos, tuo incor- 
rectas no desenho, e com tao pouca delicadeza e graga 
de cinzel, esculpiasem as do pulpito, que, se nào sào 
isentas de algum defoito, aproscntam, todavia, dotes 
artisticos, nào sómenlo superiores aos d'aquellas, mas 
taes corno nào se enconlram em outvo edificio do nosso 
paiz. Um critico severo nào acbarà em todas as figu- 



0. Francisco de Mendanba. 

Passado pouco tempo depois de escrovermos osse 
artigo, visitàmos de novo o tempio de Santa Cruz, 
com fim especial de obscrvar e analysar o pulpito 
com mais attengào e miudeza, confrontando-o, quanto 
ao trabalbo artistico, com o portai da fachada da egroja 
e coro OS mausoléos dos nossos dois primeiros reis. 

Nào podia deixar de sor iinpcrfeito similbante os- 
tudo, por iiicompetencia nossa, pois que se rcquerom 
dotes e habilitagOos, que nào temos, para se poder 
discriminar a verdade em materia tao dclicada e no 
melo de tao escuro labyrintbo. Todavia, conio aquella 
analyse e confrontagào nos fizeram vacillar na opiniào 



similbantes obras é condigào essencial de primor. Cre- 
moa, porém, que o bào de satisfazer as boas propor- 
gOes que se observa n'ellas, assim corno corta expres- 
sào do sembiante, a graga e naiuralidade da roupagem, 
e a dolicadeza e esmero de irabulbo, gerulmente fal- 
lando. 

Apresentaremos outra razào, que, nào scodo de si 
bastantemente forte, tira, comtudo, alguma for^a do 
iogar em que a collocùroos, isto é, dopois das consi- 
deragOes que temos feito. 

D. Francisco de Mendanba nào diz quem fez o pul- 
pito, mencionando os artistas que trabalbaram no por- 
tai da egroja e nos tumuios roaes. Poder-so-ba res- 



quc tinhamos, se nào por incontostavel, pelo mcnos I pender, é certo, que o bistoriador so love em vista, 
por acertada e soffrivelmente fundada, exporomos aqui i nomcando os artistas, espocificar as obras para as 
as diividas quo nos sobrevicram ao espirito om resul- j quaos foram expressaroentc mandados vir de Franca. 



tado das nossas ultimas obscrvagóes. 



Entretanlo, sondo o pulpito uma pega tao fornK>sa e 



portai da egreja, e os tumuios dol-rei D. Affonso de tanta excellencia de arte, quo nào ba na fabrica 
Henriques e de seu fillio, el-rei D. Sancbo i, portencem ' do tempio coisa mais bella; e accrescendo a tudo isto 
a esse ostilo de arcbitectura de que ó typo o tempio 1 a sua significagào religiosa pelas figuras que o ador- 
e mosteiro de Nossa Senbora de Beloni. Cbamcm-lhe uam, além do uso para que é destìnado, custa a crer 
ostilo gotbico-arabo, ou gotbico-florido, ou manueli- i que se esquecesse D. Francisco de Mendanba de o 



no, que é corto é que roprosenta a arcbitectura go 
Ihica no ultimo periodo da sua degenoragào; n'aquella 
phase em que, indo beber inspiragócs em todos os es- 
lilos conbecidos, e perdendo, por consoguinte, o ca- 
racter definido, que marca as raias que soparam e 
estremam uns dos outros os divorsos ostilos arcbite- 
etonicos, so revela a anarcbia de idéas, quo, tanto 
uas artes comò na vida das nagOes, sempre é precur- 
sora de uma proxima e grande transigào. 



meacionar entro as obras dovidas ao cinzel dos ditos 
esculptores francezes, se estes fossem os seus auctoros. 

A conclusào logica de todos os nossos racìocinios 6 
que pulpito nào tove por arlifices os referidos escuU 
plores; mas que o seu auctor ou auctoros oram inques- 
lionavelmente estrangeiros, attendendo-se ao atrazo em 
que se acbava a estatuaria em Portugal até esse tem- 
po, e posteriormente. 

Se nos objectarem que nao póde admittìr-se que o 



ARCmVO PITTORESCO 



159 



historiatlor que archivou os nomes dos qnatro artistas 
francezes, chamados por el-rei D. Matiuet para a re- 
edificagSio da cgreja de Santa Cru;s, se descuidarìa de 
deìxar mettìorado o noiBe de um outro esculptor es- 
traTtgeiro t5o dìstincto, corno devia ser o que escu(* 
più pulpito, rcspondemos quo a objec^o ndo deixa 
de ter aiguma plausibilidadc, mas ndo cremos qoe ella 
onfraquo^a os nossos argumcnfos. Se devessemos crer 
que bom do padre era incapaz de incorrer citi es- 
quecimenlos d'esse genero, em que lanio peccaram os 
nossos antigos chronistas, socoorper-nos-hiamos à con- 
jectnra de que o pulpito fosse xnandado fazer em Ita- 
lia, onde te?e multa voga o estilo de que o mesmo 
pulpito é typo. E nao cause estranheza està idèa, por- 
que nào forara poucas as obras de esculptura que vie- 
ram de differentes paizes para o nesso no correr do 
Bcculo XVI ; e posto que o maior numero fosse em me- 
tal e em madeira, algumas eram csculpturas em pe- 
dra. Todavia, no presente caso nao nos inclinamos 
para està idèa, por diversas razGes, que omitlimos 
para evitar maior prolixidade. Em quanto nào encon- 
trarmos pessoa quo nos esclarega, ou documento ou 
memoria que resolva as nossas dùvidas, seremos do 
opiniao que o pulpito foi feito em Portugal; que o 
desenho e esculptura sao de artista estrangeiro, pro- 
vavelmenle italiano; e quo o nome d'este ainda se 
conserva occulto e desconhecido. 

Està pulpito collocado no corpo da egreja, junto 
ao cruzeiro, do lado do evangclho. Ergue-se acima 
do pavimento apenasl™,50, de modo que póde ser 
observado com a maior roiudcza. Nào tem docel, ou 
sobreceo. 

A gravura a pag. 137^ còpia de urna exceliente pbo- 
tograpbia, é t&o perfeita, e representa o pulpito com 
tanta exaclidào, mostrando dislinctamente os mais 
miudos lavores, que nos julgàmos dispensados de en- 
trar em descripQào mìnuciosa. 

Tom pulpito a fórma octogonal, mostrando so 
quatro faces. As principaes eslatuas que o decoram, 
sentadas e nicUidas em nichos, rcpresentam os quatro 
doutores da egreja, S. Jeronymo, S. Gregorio Magno, 
Santo Agoslinbo e Santo Ambrosio. Nas peanhas vécm- 
sc uns lindos quadros em baixo relcvo, esculpidos com 
summa delicadeza. Por cima dos nicbos, entro mui 
graciosas figuras de anjos, avultam as sabìdas divisas 
del-rci D. Manuel, a esphera armilar e a cruz da or- 
dem de Cbristo, distinctivo de todos os monumentos 
erigidos por ordem deste monarcha. 

Fazcm divisào àquelies nichos duas ordens de csta- 
tuas, muito mais pequenas que as dos doutores da 
egreja, e resaltando para fora dos aogulos do octo- 
gono, nao obstanle serem cstcs concavos em fórma 
de nicbos. Cobrem as estatuas formosos baldaquìnos 
rendilhados. As estatuas da ordem superior rcpresen- 
tam a religiao e as quatro sibylias, e as da ordem 
inferior os proplietas. 

Està é a principal obra de ornamentagao; mas, além 
d'ella, restante d'està parte do pulpito é todo lavrado 
em delicadissimos e varìados relevos, sabresalndo oìto 
pequenas medalbas com bustos. 

A parte inferior do pulpito, que serve de base à 
cadeira da verdade, 6 circular, e està egualmente or- 
nada com profusdo e com tuo bom gosto, que nào 
prcjudica, antes faz realgar, a parte que o esculptor 
atayiou mais esplendidamente. Dù principio a misula 
do pulpito um dragao com a cauda enroscada. D'alli 
vao subindo, corno em unneis, diversas cercaduras 
com variedade de lavores, e algumas adornadas com 
figuras de phantasia, rematando em um friso guarne- 
cido com seis seraphins. 

Além da perfei^ao da esculptura, é admiravel cste 
pulpito pela gra^a e belleza da composigao. Tendo sido 
o inventor tao prodigo na ornamentagao, que nao se 
ve espago algum na pedra que nao seja coberto de 



lavores, com tanta arte è bom gosto soube distribuir 
OS ornato^, qoe nenhum póde ser julgado aiti de mais, 
antes, pelo contrario, todos se combinam em t&o per* 
feita harmonia, que ninguem podera contemplar este 
pulpito, por mais profano que seja nos mysterios da 
arte) sem sentir, a par de admirugao, um verdadeiiH) 
enlevo» 

conde de fìaczynski, amador de bdlas artes muito 
entendido e consciencioso, possuiu-se de tal admira« 
gao e entbusiasmo ao ver estc pulpito, que, fallando 
d'elle no scu interessante livro Les arts en Portugal^ 
diz: «. . .c'est un vrai bijou, que lon serait tenté d'en- 
cbasser dans un médaillon ou dans une bague. • Com 
efTeito, nao se póde tecer maior elogio a uma obra de 
arte que julgal-a merecedora de ser encaixilbada em 
uma medalba ou engastada em um annel, comò ver* 
dadeira joia. 

Quanto ao seu estado de conservagao, é o melbor 
que se póde desejar. Parece que salu ba pouco das 
maos do esculptor. 

Ha pooco mais de ura anno, foi cste pulpito mode- 
lado cm gesso, por iniciativa e diligencia do sr. Joa- 
quira Possidonio Narciso da Silva, sondo entao presi- 
dente da associagao dos arcbitcctos civis portuguezes. 
Ficou tao perfeilo o modelo, que nao se diflerenja do 
originai senao na qualidade da materia. Peza-nos nao 
podérmos por aqui o nome do modelador, pois que 
bonra o nosso paiz o artista que fez tao peregnna 
obra. Este modelo, mandado fazer para ser collocado 
no museu arcbcologico da refenda associagao^ estabe- 
lecido na egreja golhica de Nossa Scnhora do Carme, 
em Lisboa, quo o terremoto de 1755 deixou em rui- 
nas, foi enviado pela mesma sociedade a exposi^ao 
universal de Paris de 1867, e ahi figurou na secgao 
retrospectiva das artes, onde foi observado com goral 
applauso. A associagao dos architectos prestou um ser- 
Vigo importante ao nosso paiz, fiizendo patente n'a* 
quelle mcmoravel cortamen uma das mais preciosas 
obras de arte que Portugal possue. Infelizmente, na 
volta para Lisboa, chegou o refendo modelo bastan* 
temente deterioradò. i. »» vilhbna barbosa. 



OS EMBUSTES DOS ADIVLXHADORES 

Nào irei boje desentranbar da bistoria dos povos 
antigos, nem dos fastos da edade mèdia, exemplos 
notaveis dos embustcs com que os adivinbadores bao 
explorado a credulidade dos povos. Uma senhora ce- 
lebre, que falleceu era nossos dias, nos fornecera um 
episodio curioso da sua vida de prophetiza; e so elle 
baslarà para demonstrar que a razào bumana deve 
estar acautelada centra as enganosas predicgOes do 
futuro, e repcilir afoita as praticas e os ardis que prc- 
suppOcm a intcrvengao do sobrenatural no mundo pby- 
sico e no mundo moral. 

M.*"* Lenormand, famosa adivinbadora franceza, 
nasceu em Alengon no anno de 1772, e falleceu cm 
Paris no de 1843. Recebeu uma educagào aprimorada 
em um convento de benedìctinas, e veiu depois esta- 
belecer-se cm Paris, babitando sempre a mesma casa 
na rua de Tournon. 

Logo desdc a infancia revelou uma disposigao muito 
notavel para fazer predicgOes; de sorte que jà no con- 
vento onde foi educada causava espanto e assembro 
ùs suas corapanbèiras. 

Precedida de uma certa reputagfio n'este deploravel 
' genero de talento e applicagao, dense ao mister de 
dcitar cartas para adivinbar o futuro. Em 1794 foi 
prosa, em razào de fazer algumas revolagóes arrisca- 
das; mas quando readquiriu a libordade, vìu crescer 
a voga que jà tinha, por maneira que d'allì em diante 
a credulidade publica, ainda, e principalmente, nas al* 



160 



ARCHIVO PITTORESCO 



tas ciasses da sociedade parìsiense, foi para ella urna 
rica e abuadante mina de exploraQfto. Durante as duas 
famosas epochas do iaiperio e da restauragào foi con- 
sultada pelas persooagens da mais elevada jerarchia, 
entre as quaes figurava desìgnadameote a imperatriz 
Josephina. 

Gora verdade està escripto quc, por espago de qua- 
renta annos, a corte e a cidade de Paris coacornam 
em chusma aos saldes de m.""" Lenormand; e ainda 
hoje, quando se graceja com a pessoa que recorre ù, 
predicQào pelas cartas, ouve-se a resposta emphatica: 
«Reparae que o proprio imperador Napoleào consul- 
tava ro.""* Lenormand!» E, com effeito, a tradigào po- 
pular faz d'està sibylla a Egeria do imperio. 

A imperatriz Josephina, que nascerà na Martinica, 
era um tanto supersticiosa, e por vezes recorreu à 
supposta sciencia de m/"® Lenormand em predizer o 
futuro. 

Na classica Historia do consulado e do iinpertOy de 
mr. Thicrs, ba, entre tantas bellas paginas, urna, na 
qual insigne e precarissimo historiador narra o ata- 

8 uè e a tomada de Ratisbonna, em abril de 1809. 
'esse episodio de guerra faz ao meu proposito a parte 
relativa ao ferimento aue o imperador Napoleào rece- 
beu perto d'aquella cidade: 

«Napoleào, diz mr. Thiers, impacientado pela re- 
sistencia que a cidade offerecia, e querendo pór-lhe 
termo, tinna-se aproximado de Ratisbonna, no meio 
de um vivo tiroteio sustentado pelos austriacos, de 
cima dos muros, e pelos francezes, da borda do fòsso. 
Precisamente na occasiào em que estava observando 
OS logares com um oculo, recebeu uma baia no calca- 
nhar, e disse com a placidez de soldado velho:— Es- 
tou tocado! — E em verdade estava tocado, e de um 
modo que podia ser bem funesto. Se a baia tivesse 
dado mais acima, fracturava-lbc o pé, e inevitavel 
seria a amputagào. Os cirurgides da guarda imperiai, 
aue a toda a pressa vieram ter com elle, arrancaram- 
Ine a bota, e pozeram um ligeiro apparelho sobre a 
ferida, que nào era de gravidade. Os soldados dos cor- 
pos mais vìsinhos, em sabendo qùe o imperador es- 
tava ferido, romperam as fiieiras, e n'um atomo se 
acercaram d'elle para Ihe dirigirem os mais estrondo- 
sos testimunhos de affeigào. Nem um so d'aquelies 
bravos deixava de considerar a sua cxistencia comò 
enlagada com a do seu general! Napoleào, dando a 
mào aos soldados que estavam mais perto da sua pes- 
soa, atfirmou-lhes que nenhum perigo corria; montou 
de novo a cavallo e foi percorrer a fronte do exercito 
para o tranquillisar ^.i» 

Os despachos envìados a Paris noticiaram a verda- 
de, isto é, que o imperador Napoleào recebéra urna 
ferida leve; mas o rumor publico, exaggerando o fa- 
cto, corno de ordinario succede, pintou o illustre fe- 
rido n'um estado verdadeiramente inquietador e des- 
csperado. 

Os boatos de fora penetraram no palacio do Elyseu, 
e cbegaram até aos ouvidos da imperatriz Joscpbina. 
A esposa e verdadcira amiga de Napoleào, vivamente 
commovida e desassocegada, lembrou-se logo, super- 
sticiosa comò era, de recorrer a m.*"* Lenormand, e 
de feito a mandou chamar. 

A sibylla moderna correu pressurosa ao palacio do 
Elyseu; fez o grande jogo das cartas egypcias, con- 
sultou Ariel, seu genio protector, e proferiu o seguinte 
oraculo ^ : 

«0 grande capi tao, o novo Cesar, jà coroado com 
rantos loiros, nào està em perigo de vida; pelo con- 

1 Higtoire du eoruulat et d« Vtmpire, tomo x, Ihr. xxxir. 

1 £ a prophetiza quem falla; ajlo aa snas proprias palavras, verti- 
daa em linguagem. 

Mad. Lenormand publicou em 1818 um escripto com o tftulo de 
ìfet prophitie»; e n'e«te eecripto so enOQntram as expressSes do texto. 
Declaro quo nfto tive k m&o o escripto de mad. Lenormand; mas en- 
contrel a reprodacfSo, n^esta parte, no Hrro Intitnlado: Ze« marchand» 
da nirael^j hUioire de la superatUion humairu, por Alfredo de Caston. 



trario, o seu signo de boa fortuna desenvolve-se. Gra- 
^as a Isdrall, anjo da terra, vencerà todos os seus 
inimigos; os reis e os povos hào de celebrar a gloria 
do maior bomem dos tempos modernos; e os proprios 
vencidos hào de reconhecer que Napoleào os bateu em 
nome da mais santa das causas. 

«Quando voltar à sua capital, novas leis, filhas do seu 
genio, da sua poderosa iniciativa, virao consolidar o 
seu tbrono e enlagar todos os francezes com o imperio. 

«Se OS ruins tentaram por vezes malquistar-vos com 
elle, esses mesmos bào ae confundir-se ao verem que 
nunca o imperador vos testimunbou tamanha conside- 
ragào e ternura comò em breve ha de liberalisar-vos. 

«No demais, creio ver sobre a minba mesa, pela 
combioagào do algarismo 7 e do numero 28, que an- 
tes de meio lustro ha de Deus conceder- vos uma ale- 
gria, que sera a felicidade do imperio, tornando-vos 
duplicadamente cara a todos os bons francezes.» 

Quereìs ver comò se realisaram os agoiros da im- 
postora? 

imperador Napoleào divorciou-se da imperatriz 
Josephina, a sua melhor amiga. Gasou depois com 
uma archiduqueza de Austria, a qual foi uma esposa 
bem pouco terna... D'este ultimo consorcio nasceu o 
rei de Roma, depois duque de Reichstadt, que mui 
mogo desiceu à sepultura na terra estranha. A Franga 
soffreu duas invasòcs, que a humilharam diante do 
mundo. Napoleào, condemnado ao destcrro, acabou 
seus dias no insupportavel rochedo de Santa Helena. 

«So Deus é grande, meus irmàos!» disse Massillon 
no exordio da oragào funebre de Luiz xiv; e esse ad- 
miravel grito, que a critica tem na conta de sublime 
nas circunstancias em que foi proferido, merece, em 
tudo quanto respeita à humanidade, ser sempre atten- 
tamente pondcrado. Josi SiLYcaTas Bzbbxbo. 



A santa casa da misericordia de Lisboa é uma das 
mais notaveis graiidczas que illuslram e acreditam està 
real cidade, com maior razào do que o colosso a Rho- 
des, as pyramides a Memphis, o iabyrintho a Greta e 
OS amphitheatros a Roma, quanto vac do exercicio 
perpetuo e continuo de solidas vìrtudes a todas estas 
ostentosas e inuteis vaidades. grande rei D. Manuel 
Ihe edificou tempio magnifico, e a dotou com um conto 
de l'éis de renda, e se assentou por confrade, elle, e a 
rainba sua mulher, e seus filhos, a quem cntào imi- 
tou, e hoje vae imitando, quasi toda a nobreza: e 
d'aqui tiveram origem todas as mais casas de miseri- 
cordia que ha em toda a christandade. 

Pedro Davity, auctor francez, diz por faganha, quc 
as rendas d'està casa chegam a quarenta mil cruza- 
dos. Porém, assim comò se enganou dizendo que as 
parochias de Lisboa sào 25, sendo 36, assim tambem 
errou n'est'outra conta; pois chegam a dispensar-se 
por anno noventa e quatro mil cruzados: e no anno 
de 1700 entraram na casa para estas despezas noventa 
e seis mil e novecentos e cincoenta cruzados, e no de 
1701 entraram cento e dois mil duzentos e trinta cru- 
zados. que tudo se emprega em todo o genero de 
obras pias, com tanta grandeza, prudencia e fidelida- 
de, que me persuado ser està santa casa uma das prin- 
cipaes columnas que sustentam o peso da ira de Deus, 
para que nos nào opprima irritada de nossos peccados. 

Se houvessemos de recensear as outras fundagòes e 
obras pias que fez o mesmo rei, nào seria facil achar- 
Ihe numero. Ainda dentro a Roma, e a Jerusalem, 
e a Gompostella alcangaram ! Aqui visitou no anno de 
1502 corpo do sagrado apostolo S. Thiago, levando 
pouca companhia: onde fez copiosas esmolas e mer- 
cés; e depois Ihe mandou uma lampada de grande va- 
lla e rica obra, em fórma de um castello, .assignando 
certa renda de juro, para que ardesse diante do se- 

pulchrO do apostolo. p. Masusl Bbeh4Rde8. 



21 



UICHIVO PITTORESCO 




bo pnU dolrftdft perlencenta i lé de E 



Ksta custodia é urna das mais ricas pcgas do tbc- 
souro da sé eborenso. Predosa pula maleriii, DO(ave) 
pelo feitio G valor artìstico, nQo è menos aprccìavel 
corno objcclo archeologico. Infelizmenle, pelo que res- 
peita a oste ultimo titulo, acontece o inesmo que tomos 
deplorado àccrca de inuitas-aDtiguidades patnas: IgDo- 
ra-se a sua origem, e tììo desconhecidos sao os nomcs 
de queni a mandou fazer, e do ourives que a ciaze- 
lou, corno a epoclia em que foi fabrìcada. 



Neoi o padre Manuel t'ialbo na sua Evora illus- 
Irada, nein o seu compilador, o padre Francisco da 
l'onseca, na Evora gloriosa, diiem colga alguma d'esla 
custodia,' nSo obslante fazeretu memoria de oulros va- 
306 sagrados nas vidas dos prelados d'aquclla sé. Mem 
sequer urna sìngela lradÌ£ito vem lan^ar alguma lux 
n'esle mysterio, ou, pelo uieDos, servir de guia aos 
curiosos nas suas investiga^des. 

È bcin singular que se saiba por urna ti-udigao pò- 



y 



162 



ABemya pjttobbsgq 



pular, passada de paes a filhos, que os mais antigos 
caliccs, que se guardoni nos thesouros da collegiada 
de Nossa Scubora da Oliveìra, em Guimardes, e da sé 
de Braga, perlenceram a S. Torquato, que padeceu 
martyrio no scculo vrii, e a S. Giraldo, que ciDgìa a 
mitra primacial de Braga quando baptisou o nosso pi4-. 
mciro rei, no principio do seculo xri, e nào haja no- 
ticia no proprio cabido de Evora de quem foi o doa- 
dor de urna pega tal corno a custodia, e em tem- 
pos muilo posteriores. Sé a consideragdo de reliquias 
santas, muho mais que o aprego archeologico, gran- 
geou para os dois caliccs a bonra de serem comme-, 
morados em tradigóes ' populares, a custodia merc- 
cia, certamente, da gratìdào do cabido eborense urna 
commemora^ao, embora simples, escripta ou tradi- 
cioual, do nome do bemfeìtor que a ollereceu àquella 
ogcpja. 

Està falia de noticJas tcm dado azo a variedade de 
opiniòes, algumas d'ellas absurdas, corno é a que at- 
tribue a custodia ao seculo xir. N'cssc tempo achava- 
8c cnlre nós em grande atrazo a esculptura em metal. 
Os vasos sagrados e outros objectos prcciosos do cullo, 
esculpidos em prata no reioado de 1). Sancbo i, e que 
se conscrvam no thesouro da casa rcal, no muscu ar- 
cheologico da academia das bcllas arles e em algumas 
egrejas do nosso paiz, dào testimunho nào so da im- 
perfeiguo da ourivasaria, mas tambem da singeleza e 
da carcucia de bom gosto na ornamentagao. As obras 
d'essa epo?ha lem um cunho tao particular e que tao 
bera as caracterisa, que nao 6 permitlido confundil-as 
com as dos seculos posteriores. 

Apenas o que consta de documento authenticO é que 
a custodia ji\ existia n'aquella sé em 15i1, porque 
vem mencionada em um inventario que se guarda no 
cartono, feito n aquelle anno por ordera do cardcal in- 
fante D. Uenrique, ontao arcebispo de Evora. 

Na falta, pois, de documentos que resolvam a qucs- 
tfio, ou de quaesquer noticias que possam, mais ou 
menos, esclarecel-a, ó forgoso recorrer à analyse das 
foigOes artislicas da custodia para se determinar ou 
fazer um juizo ajn'oximado da epocha em que està 
pega foi feita. 

Os ornatos da parto superior portencem ao estilo 
gotbico, e tanto se assimilbam aos da cgroja da fia- 
ta Iha, que bom poderiam passar, considorados sepa- 
radamentc do resto, por obra contemporanea d'aquelle 
famoso monumento. Porém a parte infcrior rcvela ma- 
iiifeslamente um trabalbo de epocba mais moderna. 
Tanto fcitio corno a ornamentagAo d'està parte, dosde 
a baso da custodia até ao caixilho quadrangular, no 
contro do qual se colloca ^ hostia, aprescntam um 
typo do ostilo que, succedendo ao gotbico puro, foi o 
ponto de transigào para o do ronascimento. 

Ha n'osta parte um adorno que caracterisa mais par-, 
ticularmente a custodia, denunciando os (ìns do se- 
culo XV ou OS principios do xvr comò a epocba pre- 
cisa om que foi fabricada. Esse adorno consiste nas 
sois campainbas, que pcndem e circundam o vaso que 
sustenta o refendo caìxilbo com a sua cupula. 

Em tempos muito rcmotos foi uso guarnocer certas 
vostimentas sacordolnes com guisos ou campainbas. 
Este uso vciu da Judt^a para a Europa. As vostes ta- 
lares do summo pontifico dos judeus oram orladas com 
uma corno franja de campainbas, a que cJiamavam 
liniiìmahuÌQ, 

Pasi^ados alguns seculos depois do nascimento de 
Jesus Cbristo, foi admittida a(]uolla pratica na egrcja 
ratholìca, em recordagdo da iei de Moysés, e corno um 
emblema de allianga cntre o novo e o velilo testamen- 
to. N<1o so sabc com certeza a data da introducgSo de 
Bimilhante uso; masaim que existia no comego do se- 
culo IX. 

No thesouro da sé de Aix-la-Chapelle, na Prussia, 
guarda-se, eoi bom cstado. de cooservagSo^ uma capa 



rìca, goamecida de campainbas, a qua! foi dada àqnella 
sé pelo papa Leùo m no anno de 801. 

Guilberme o Conquìsiador, duque de Normandia, e 
mais tarde rei de Inglaterra, fallccido DO^anno de 1087, 
deu a Hugo, abbade de Cluny, uma capa egualmente 
franjada de campainbas. 

Conrado, prior de Caotorbery, ou, corno nós Ihe 
cbamàmos, Cantuaria, em Inglaterra, correndo o anno 
de 1108, mandou fazer, para uso da sua egreja, uma 
capa cuslosamente bordada e guarnecida com cento o 
quarenta campainbas de prata doirada. 

Tbomaz Becket, arcebispo de Cantorbory, fallecido 
om 1170, e ao qual tributdmos culto sob o nome de 
S. Tbomaz, arcebispo de Cantuaria, usava de uma 
alva com guarnigào de guisos. Està vestimcnta ainda 
hoje se conserva com grande recato, corno uma apre- 
ciavel reliquia d'aquelle santo varào. 

Poder-se-bia citar outros exomplos com que se de- 
monstrassc que o uso das tintiìwabula se goneralisou 
a todos ou a maior parte dos paizes catbolicos. 

Presumo-se quo o fim para quo se erapregava si- 
milhante adorno' ora attrabir e conservar presa a at- 
tongao dos fieis ao sacerdote que celebrava a roissa 
ou (]ualquer outra coremonia religiosa. Por consoguin- 
te, as campainbas ou guisos eram de metaU e dispos- 
tos de modo que tocassem ao menor movimento do 
celebrante. 

Nào sabemos até que tempo durou osta pratica. No 
seculo xrir ainda se guarnociam as capas de asperges 
e outras vostimentas de campainbas e guisos; mas, 
om vez de sorom de metal, oram feitas de rotroz ou 
seda frouxa, de obra de passamanaria. Roduzidos a 
um simpics adorno commemorativo, em breve perdo- 
ram ossa propria feigào, porque pouco a pouco Ibos 
foram accrescentando onfoites, com que intoiramente 
desapparecou a fórma de campainbas e guisos, ficando 
om seu logar borlns e frunj.is; de passamanaria, de 
oiro ou seda, corti muila variedade de feilios. 

Um d'aquolles capricbos da moda, que a cada passo 
e em todos os tempos cstào introduzmdo ìnnovagOos 
nas artes, fez com quo os ourives, na sogunda mctado 
do seculo XV, se lembrassem de resuscitar o uso de 
tintinnabula applicado aos vasos sagrados. 

Nào se goneralisou osta moda em todos os paizos 
catbolicos, antos, polo contrario, vomos que se limi- 
tou d poninsula iberica e a uma mui diminuta parte 
da Allemanha. Nào tomos certeza de qual foi o paiz 
onde comegou. Pretende um auctor ostrangeiro que 
fora a poninsula, e que de Portugal passou oste uso 
a Flandres, por occasiào do consorcio da infanta D. 
Isabel, filba dei-rei D. Joào i, com Filippo o Bom, 
duque de Borgonba. 

Parecc-nos som fundamonto osta opiniào, pois quo, 
se fosse vordadeira, devoriam existir em Portugal al- 
guns vasos sagrados ornados com campainbas, foitos 
nos principios do roinado dei-rei D. Joào i. Porém ne- 
nhuns conbocemos d'essa epocba com similbante or- 
namento, nem nos consta quo existam no reino. 

Todas as obras do ourivasaria religiosa, fabricadas 
n*este paiz durante a primeira mctadc do seculo xv, 
aprosentara o mesmo*ostìlo gotbico puro que so ob- 
sorva no tempio da Batalha. Por consoguiule, distin- 
guem-se por uma perfeita barmonia enlre todas as 
suas partes; qualidade que falta na custodia da sé de 
Evora. 

Yarìas sés e outras egrejas do nosso paiz possuem 
vasos sagrado.s, principalmente calices, adornados com 
campainbas. Porém todos estào cinzelados conforme o 
estilo do architectura usado nos fius do seculo xv e 
principios do xvr. 

Portanto, nào cremos que fossem os flameogos gue 

recebessem aquellc uso dos portuguezes. Acbàmos msiis 

provavcl o contrario, scudo certo que existem oa Bel- 

I gica, que nós saibAmos, duas custodias.de origem ger- 



AfiCHIVO PITTORESCO 



163 



manica, fcitas no tempo de Filippe o Bom, duquo de 
Borgonfaa, urna ornada de campaiabas e a outra en* 
feìtada com guisos. 

As razucs cxpendidas tambem dos levam a suppor 
que, se està moda nos veiu de Flandres, seria em 
tempos posteriores a Filippe o Bom. Nào é preciso re- 
correr ao consorcio d'este soberano com urna infanta 
portogueza para explicar a ìotroduc^ào de qualqucr 
uso, industria ouartefacto d*aquelle paiz cm Portugai. 
Aquclla aJlian^a cimentou as rela^òes commerciaes cn- 
tre 08 dois paizes. Porém, muito ao diante, nos rei- 
nados'de D. JoSo ii e de D. Manuel, ó que cssas re- 
la^òes (ivcram o seu maior desenvolvimonto. 

A Lisboa affluiam entdo continuamente navios de 
todos OS portos de Flandres, importando variadas mer- 
eadorias. Um dos principaes arti^os d'essa imporlagào 
consistia em tapogarias e diversidadc de alfaias para 
servilo e adorno de egrejas. Eram as fabricas de Liege 
que forncciam, quasi exclusivamente, de vestimeotas 
e armagòes ricas as nossas cathedraes e os mais opu- 
Icntos mosteiros. Ainda no come^^o do scgundo quar- 
(el do seculo xvnf, quando eUrci D. Joao v quiz do- 
tar a basilica de Mafra com armugOcs e paramento^ 
que condisscssem com a sumptuosidade do edificio, 
recorreu As fabricas da Belgica, q principalmente às 
de Liege. 

Pódc-se admittir, portanto, e com plausibilidade, a 
supposigào de que nos viesse de Flandres o uso de 
adornar os vasos $agrados com campainhas. 

Consta- nos que os que a Hespanba possuc com si- 
milkantc genero de ornamentagào datam da mesma 
epocha dos nossos. 

Entcndemos, por conseguinte, que o refendo uso 
£0 iiitroduziu em o nosso paiz no dccurso do reìuado 
de D. Joao ir, e que nuo passou além da- primeira 
metade do seculo xvi, pois que o mais moderno dos 
calices ornados de campainhas, que conhecemos, lem 
a data de 1530. calice da collegiada de Nossa Se- 
nhora da Olivcìra, em Guimaraos, feilo poucos annos 
depois, segundo o ostilo arcbilectonico em vogarne 
rcjnado dei-rei D. Manuel, jà nào tem campainhas ^ 

De tudo que temos expendido concluimos que a 
custodia da sé de Evora deve ter sido fabricada pelos 
annos de 1480 a 1490. 

D. AffonsQ de Portugai, filho bastardo de D. Affon- 
so, mai^quez de Valenza, BIho primogenito do primeiro 
duque de Braganga, foi nomeado bispo de Evora por 
el-rei D. Joùo ii, no anno de 1485. Este prelado foi 
muito liberal com a sua egroja, «a qual ornou (diz o 
padre Fonscca na Evora gloriosa) com magnificasobras 
e magestosas fabricas...»; pelo que é bem de suppor 
que fosse este o doador da custodia. 

É de prata doirada esla pega. A escuiptura mostra 
que a ourìvasarìa se aproximava do maior gran de 
pcrfcigào a que chegou entre nós. A composigào do 
desenbo està longe de se poder classificar comò obra 
de goslo aprimorado* A pesar de excluirmos a cruz, 
que, pelo seu feitio e desproporcionado tamanho, re- 
putàmos um accrescentamento mais moderno, parecc- 
nos esita custo<)ia um pouco de fórmas ma^siyas e pe- 
fadas. Em parte poderi dcsculpar este defeito ser des- 
tinada està pega para um duplo servigo, pois que é 
ao mesmo tempo custodia e calice. 

Ha na dita so um vaso de prata lavrada, e com urna 
inscripgào em lalim, o qual se atarraxa no pò da cus- 
todia, ficando um bello calice. A ìnscripgào é em letra 
gothica, e consiste em um versiculo que os sacerdo- 
tes recitam na missa. 

Està custodia foi levada à exposìgào de Paris do 
anno passado, juntamente com o baculo, cuja gravura 
publicàmos a pag. 53, e com um calice de que bave- 
mos de tratar em occasiào opportuna. 

X. DK "VitMKKk Barbosa. 
<yid. pAg. 6'4o TOÌ. IT. 



FRUCTOS DB VARIO SABOR 

ni 

AS aOSEIRAS DO AMOA 
(Vìd. pag. 154) 

V 

TEMPSSTADS 

Sebastiao Palmeiro era um habil piloto t; umhomem 
cauteloso. Jà vimos comò a nuvem Ibc parecéra sus< 
.peita a tempo em que talvez tivessem podido ainda 
ganhar a terra; mas a ambigào de Baltliazar, e ad elle 
tambem, fizeram com que se de^cuidassem de ser pru- 
dentes. Tanto os dois velbos comò a trìpulagào eram 
homens de rija tempera, costumados todos, à cxcepgào 
de Pedro, a iuctar com os perigos constantos da sua 
profissOo; por isso foi rapida a impressao .que senti- 
ram aos prenuncios da tormenta, e cada um correu 
para o legar que llic era destinado corno niàrinheiro. 

Sebastiao tomou o leme e gritou : 

— Larga depressa, em quanto o vento nào puxa 
mais forte 1 

As duas velas da lancba foram soltas n*um momen- 
to, e barquiobo calu ù. banda, cumegando a agua a 
cantar-lhc na pròa, que se poz na terra. 

Sebastiao olhou para o sul e fez urna careta que 
equìvalia a baler com um martello no eoragào dos 
companheiros. 

— Duvido que Ihe escapemos. Pega tudo nos remos, 
e é remar firme e scm grande movimento,, para nao 
fazer balango que obrigue a batcr o panno... Ao mes- 
mo tempo vào pedindo ù. Seuliora das Neves que nos 
acuda. 

Todos obedeceram em silencio; mas, ao sentarem- 
se nos bancos, com os rostos voltados para a pópa, 
viram o mar ferver ao longe, e a vaga, que se levan- 
tava jà a graudes alturas, correr, bramindo sobre elles. 

Pedro, que nào trnha remo e ia.agarradp ao mastro 
de pròa, disse ao pae: 

— Là, vejo a casa do .padri nho Sebastiao. 

Ainda se nào via a terra, mas todos olharam, pri- 
meiro na direcgào que o rapaz indicava, e depois para 
este. 

— Endoideceu de medo! exclamou o pae. Tomcm 
conta, nào se deite elle ao mar! 

Pedro continuava a olbar; e comò se nào tivesse 
ouvido que disse Baltliazar, accrescentou : 

"^ A Mariquinhas està em pò no areial a olbar 
para cà... 

lima rajada de vento, batendo nas velas, mergu- 
Ihou a borda da lancba, pondo està quasi mela de 
agua. 

— Misericordia! clamou a gente largando os remos. 

— Alija! gritou Sebastiao. 

Peixe, redes, cantaros, cabos efateixa, tudo se lan- 
gou n um instantcvpor cima da borda. Ao mesmo tempo 
BaUbazar tentava esgotar a agua còm um balde. 

Pedro, na mesma posigào, aorrìa, com os olhos fi- 
tos na direcgào da terra. Era jà sol posto, e a cerra- 
gào crescia por todos os lados; principiava a chover, 
e mar e o vento augmentavam de braveza. 

batel jà nào podia com as duas velas ; metteu-se 
uma dentro. uso dos remos toroou-se impossivel 
por causa do cavado do mar. A gente, agarrada aos 
bancos, orava, ora para si, ora com vòz clamorosa e 
em còro, segundo o tcrror que ibe inspirava o aspe- 
cto da morte, mais ou menos proxima. 

— Gompadre Balthazar, disse Sebastiao lentamente; 
a idèa dos seis congros foi uma teniagào de Satanaz. 
OEfendemos a Deus com a nossa ambigào, e somos 
castigados. Jure-me que, se escapar, servirà de pae 
a minha filha e a casarà com o meu afilhado, con- 
forme tìnbamos contratado. . 



164 



ARCfflVO PITTORESCO 



. ; ^ 

— ó eompadre, disse elle a Balthasar, desconfip que 
DOS julgam mortos e que andam a procurar os nossos 
corpos pelas praias. 

Balthazar desatou a chorar. 

Fedro pegou no oculo, e, depois de um instante de 
observkgdo, jurou que vira Maria ajoelhada sobre a 
areia. 

Todos, cada um por sua vez, quizeram ver tam- 
bem, mas nSlo reconneceram pessoa alguma. 

navio passava muito longe da costa, com receio 
de que o noroeste o impellìsse sobre os cacbopos de 
que ella é povoada; e por isso nào era possivel reco- 
nhecer-se a geate que estivesse em terrà. Todavia, 
Fedro nào se tìnha enganado; nào porque visse real- 
mente, mas porque adivìnhàra, ou antes vira com a 
vista interior, esse pheaomeno que os sabios nào ex- 
plìcaram aìnda bem, nem explicarào jàmaìs satisfa- 
toriamente. 

Quantas vezes pensàmos n'uma pessoa^ que nào ve- 
mos ba muito tempo, e ella apparece-nos immediata- 
mente?! Quantas, andando pelas mas, vemos atraves- 
sar diante de nós um individuo que se nos afigura ser 
um amigo antigo, e, ao voltar a primeira esquina, 
topàmos com elle, com o verdadeiro, e nào com o 
que de longe nos trouxe està lembranga?! Estes mys- 
terios da alma e da vida, està relaglio do uosso pen- 
samento e do nosso espirito com aquelles com quem 
sympathisàmos, quem os poderà decifrar? Sera por 
acaso que encontràmos os auseotes no instante mes- 
mo, em que estavamos pensando n'elles? 

É a dupla vista, é o magnetismo, é nào sei o qué, 
mas cxiste. 

(Oontin&a) F. Gombs db Amoeim. 



— Juro-Ih'o eu, meu padrinho; interrompeu o mo- 
go, chamado à vida real pela voz do coragSo. 

Os dois velhos tìveram desejos de se abragar e de 
abrogar Fedro; mas, nào Ib'o permlttindo a situagào 
em que se achavam, contentaram-se com chorar em 
silencio. 

VI 

O SBFUOIO 

A noite avanzava terrivei e assustadora. For maior 
infelicidade, o vento rondàra mais para a terra, fl- 
xando-se no quadrante do sueste, e desviando a lan-. 
cba do rumo verdadeiro, sem que ninguem desse por 
isso. Gom a próa que levavam iriam infallivelmente 
espedagar-se nos rocbedos cbamados Cavallos de Fào, 
se alguma onda maior os nào subme^gisse primeiro. 

Fedro, que saira do extasis em que estiverà tanto 
tempo para jurar que desposaria aquella que amava, 
ia maravilhado por nào descobrir a terra, pois Ibe pa- 
recia que a tinna tido sempre t vista. Nào cessava 
de vigiar o horisohte, e, apesar de ser a primeira vez 
que fora ao largo, era talvez o mais tranquillo dos tri- 
pulantes, e o que menos pensava em morrer. Quem é 
que se lembra da morte, mesmo quando a ve perto, 
sabendo que tem quinze annos e que ama uma mulber 
formosa? 

Repentinamente afigurou-se ao mancebo que via al- 
guma coisa a distancia. Foz-se em pé, abragado com 
mastro, e, depois de se haver affirmado, bradou: 

T- Navio por sotavento! 

— Aonde? 

Foi a pergunta de todos; e ao mesmo tempo olha- 
vam para o ponto que ibes mostrava o rapaz com o 
dedo. Viram e crearam alma nova. Era uofi ràìo de 
esperanga. Mas o navio corria com o tempo e. estava 
muito distante da lancba; apesar de levar as gaveas 
nos segundos rizes, baveria porventura a pronabili- 
dade de o alcangar um fragil e pcqueno barquinbo, 
ameagado continuamente de ser engulido pelas ondas 
que brincavam com elle? 

Tal foi a interrogagào que fez a si mesmo cada pes- 
cador, e todos reconbeceram que era impossivel con- 
seguil-o. 

Felizmente, foram vistos; o navio, que era um 
grande brigue, atravessou immediatamente, fazendo- 
Ihes signal para que arribassem; mas, notando logo 
as difiìculdades com q^ie elles luctavam, desfez a capa 
e orgou para os soccorrer. 

Depois de grandes riscos e trabalhos, foram os pes- 
cadores igados todos para bordo do brigue, e a lan- 
cba rebocada, mela de agua. 

navio era inglez, e vinba fugindo à tempestade 
dcsde as alturas da barra do Forto, onde nào podéra 
entrar. Em breve se reanimaram os animos dos po- 
bres tripulantes da lancba; os marinbeiros inglezes 
emprestaram-lhes roupa enxuta, e o capitào lavou-os 
por dentro e por fora com excellente aguardente da 
Jamaica, mandandb-lhes depois dar queijo e bolacba, 
em quanto o tempora! nao permittia accender-se o 
fogào. 

Mesmo a bordo de tao grande navio a noite nào se 
passou sem receios e incommodos, porque o mar era 
muito, e vento fortissimo e de refegas. Ao amanhe- 
ccr avistou-se a terra perto, e o vento deu um salto 
para o noroeste. 

Èm vista d'està mudanga, o commandante inglez, 
que demandava Vigo para refugiar-se, resolveu-se a 
virar de bordo e tentar novamenle entrar no Porto. 

Seriam duas para as tres boras da tarde quando o 
brigue passava em frente de Aveiomar. Sebastiào, que 
fallava um pouco inglez por ter sido jà marinbeiro em 
navios da Inglatcrra, pediu um oculo para ver se avis- 
tava alguem nas praias, e notou que, effectivamente, 
por alli andava rouita gente. 



FAIZ DOS MENSA, EM A NUBIA 

(Vid. pag. 149) 
II 

Ha muito poucos annos que a regìào situada a oeste 
do litoral do mar Vermelbo, limitada ao sul pela Abys- 
sinia, ao norte pelo territorio de Habab, e confinando 
pelo occidente com o paiz dos Bogos, cqmegou a ser 
explorada pelos modernos viajantes. 

Foram as interessantesdescripgOes de Gourval e de 
Munzinger que principalmente attrabiram a attengao 
para os Bogos, e trouxeram tambem à luz, por assim 
dizer, a tribù dos Mensa, povo irmào d'aquelle, por 
aliianga e por analogia de costumes. A viagem do du- 
que Ernesto de Saxe-Gotha, em 1862, e a sua estada 
em Keren, capital do paiz dos Bogos, avivou ainda 
mais interesse que estas tribus jà haviam desper- 
tado. 

Sem resultado, certamente, buscariamos nas via- 
gens dos portuguezes a descripgào de tribus que so 
se estabeleceram e organisaram, nos territorios que 
boje occupam, em epocbas posteriores; mas o trana- 
Ibo nào sera do mesmo modo baldado .se procurarmos 
n'essas viagens o conbecimento puramente geograpbico 
do paiz que desejàmos conhecer, porque com satisfa- 
gào veremos concordes, as mais das vezes, os antigos 
exploradores portuguezes e os viajantes que moderna- 
mente tem percorrido a Nubia e a Abyssinia. E diga-se 
em honra de alguns d'estes ultimos, que nào é raro 
vermos por elles citadas as viagens dos portuguezes 
a està 4)arte da Africa, fazendo-se especialmente men- 
gào da de Francisco Alvares, uma das mais conbecidas 
de estrangeiros, pelas muitas traducgOes que do livro 
d*eUe sairam em differentes linguas. 

É sabido que Francisco Alvares, escolhido poi^ D. 
Manuel para ir na embaixada que este rei mandou ao 
Preste Joào, e que partiu de Lisboa em abril de 1515, 



ABCHIVO PITTORESCO 



1C5 



desembarcon, depois de varìoa succeasos, cm Mas- 
8aouà, no mar Vermelho, seguindo depois, por terra, 
a encontrar-se com o fumoso rei da Etliiopia, eia cujo 
reino andou alguns annoB, voltando depois a Portugal, 
onde cfaegou em 1527. Nao admira, pois, (]u^ possa 
<ter ajusiada inrormacào dopaìz quem por muito tempo 
n'elle pennaneceu; e cremos que n3o se eatraobaj^, 
por isso, que recoiramos às informagOes que temos 
de casa, prìmeiro que consultemos as eslranbas. E a 
viagem de Francisco Alvares vem tanto mais a pro- 
posito, quanto é certo que o roteiro da.embaixada em 
que ia o capellao dei-rei D. Manuel diverge apenas 
em algumas legoas d'aquelle que seguiu um nolavel 
viajante moderno, o sr. Lejean, quando em 1864 per- 
correu a regimo de que nos occunftmos. 

Bis comò illustrado auctor aa Yerdadeira infor- 
ma^am das lerras de Preste Jodo nos descreye o paiì 
que atravessou ao entrar na Abyssinia: 



•D'aqui nos partimoa ao oulro dia pela manha, ca- 
minbando sempre por rìbeiras séccas, e de urna parte 
e da outra serranias mui altas e de grandes arvore- 
doB de diversas nacOes e de fructo as demais, porque 
entre ellas ha algumas mui grandes arvores que d&o 
um fructo que cbamam tamarindos, comò cacbos de 
uvas, que entre oa moiros sio mui prezados. porque 
fazem d'elles vinagre, e vendem-n'os em aeiras comò 
passas de uvas. As rìbeiras séccas e caminbo por onde 
lamos mostram mui altas ciscadas, que se fazem com 
trovoadas, e nao impedem muito o caminhar, segundo 
nos disseram e nós depols em outros simìlhantes vi- 
mos, que tudo é desviar e aguardar duas boras a en- 
cbcnte da Irovoada, e lo^ tornam a caminbar; e por 
mui grandes que estas rìbeiras v&o com cstas aguas 
de trovoadas, tanto que saem d'enlre as serras e cbe- 
gam às terras campinas, logo cspraiam e se somem, 
e nem cbegam ao mar; nem podémos saber que rio 




Tjfot tealafoot dot 

ncnhum de Etbiopia entre no mar Roxo, que lodos 
assim fenecem, corno sSo na terra cha u campina. 
N'estas montanhas e serranias ha muttas alimarlas de 
diversas na^es, teOes, clepbantcs, tigres, on^as, to- 
bos, porcos, veados, antas, e de todas outras na^es 
que dizer se possa do mundo, salvo duas que nunca 
vi nem ouvi dìzer qne as alti bouvessu, e sao iirsos 
e coelhos. Aves de lodas as nagOes que no mundo se 
possam dizer, assim de nós conbccidas, corno nào co- 
nhecidas, grandes e pequenas: e outras duas aves nSo 
vi nem ouvi dizer havel-as alli; estas silo pégas e cu- 
COS. E as demais das bervas d'estas montanbas é man- 
gericSo e de bom cbeiro. • 

Està dcBcrìp^ao é pcrfeitamente exacta. Nas viagens 
modernas encontram-se, a respeito da formatilo e des- 
apparecimento das torrentes, n'osta parte da Africa, 
descrip^des bem similbantes à que acabSmos de ler 
em Francisco Alvares. 

Os babilantes, jù costumados a estcs phenomenos, 
raras vezt's so alerram ao ouvirem o mugido surdo, 
nngrossado pelo cebo das montanbas, que annuncia 
a aproximagao de urna d'cssas torrentes. Bem sabem 
elles que, na maior parte dos casos, a camada' de 
areìa que cobre o solo vac pouco a pouco bebendo as 
. vagas que se precipitum das montanbas, e que em 
poucos minu(os a torrente nao ù mais de que um fio 



So t*ìt iat Hcu* 

de agua que corre ainda por algumas horas, e por firn 
dcsapparece tambem. 

Por urna d'estas torrentes, contra a qua) parece nSo 
soubera acautelar-se a tempo, foi ba annos alcangada 
orna diviaSo do esercito do famoso Theodoros da Abys- 
sinia. A confusilo foi geral, e muitos soldados foram 
envojvidos pelas ondas, sendo nSo pequeno o numero 
dos morto s. 

A pobreza bydro^pbica d'esla parte da Africa é 
talvez a causa pnncipal da pequena exlensSo de terras 
araveis que n'ella se enconlram. Injuslamente quali- 
Bcam alguns vìajantes de indolentes e estupidos os 
Mensa e outras tribus que povoam a Nubia, quando, 
pelo contrario, mcrece ciCar-se a actividade e intelli- 

§encia, de que À&o testimunbo, aproveitando, à custa 
e penosos IrabaJhos, os pcquenos traclos de terreno 
que a natureza Ibes permitle cultivar. 

paiz dos Mensa é constituido por clevadas cadeias 
de montanbas, que apenas se abrem estreilamente, 
n'um ou n'outro sitio, para darcm passagem a algum 
rio, so engrossado momenlaneamente pela trovoada. 
mais pittoresco d'esses valles é aquollc onde corre 
o Lava, torrente sinuosa, entalada entre risonhas e en- 
cantadoras paìzagens. D'este rio é aOluente o Mensa, 
d'onde vem o nome aos babilantes. 



I6C 



iKGffivo mroiiEsc» 



D. CATHAiUNA DB BRAGANgA • 

(Yid. pag. 118) 

Fr. Domingos do Rosario regressoo de Paris sem 
conseguir a resolagao dog neaocios para que fora de^ 
putado, dos soccorros e o do casamento. 

Entretanto, o conde de Cominges, embaixador de 
Franga em Lisboa, prosegulu nas negociagOes, para 
que tiuba repetidas conferencias com os conselbeìros 
que a rainba regente havia nomeado por seus com^ 
missarios. firam o marquez de Nisa, os condes de 
Odemira e de Cantanhede, o secretano de estado Fe- 
dro Vicira da Silva e fr. Domingos do Rosario. 

A principio mostrou-sc o ministro de Franga indi- 
nado às propostas dcl«rei de Portugai ; mas o cardeal 
Mazarìno, que jd a cste tempo forjava o tratado dos 
Pyrcnéos, para fazer a paz com a Hespanha cm nosso 
detrimento, insistia em ndo reduzir o subsidio de dois 
milboes de escudos por aimo, pagos cm duas presta- 
gOcs, para assignar o pacto de ailianga, que solicita- 
vamos bavia quatorze annos, sem nunca se poder des- 
corti nar se as instrucgucs de Mazarino eram veras ou 
burlasi 

A rainba D. Luiza escreveu de seu punbo ao car- 
deal, pondcrando-lbe que Portugai nào podia pagar as 
sommas que se Ibe cxigiam; e que os seus ministros, 
considerando o estado do rcino, cercado por mar e 
por terra, acreditavam que a Franga nào havia de 
querer impossi bili tal -o de se defender. 

Quanto ao negocio do casamento da infanta com 
Luiz XIV, -que era um dos capitulos das instrucgOes 
que trazia o ^ondc de Cominges, éis p que consta da 
sua correspondencia, consultada pelo viscondc de San- 
tarera nos arcbivos do mìnisterio dos negocios cslrah- 
geiros, em Paris. 

N'um despacho para o cardeal Mazarino, datado do 
3 de jullio de 1657, refere oste embaixador que acbùra 
a infanta (D. Catbarina) tuo formosa, que julgava nào 
ser obra de um faomem, mas sim de Deus! 

N'outro despacho, coni data de 25 do refendo mez, 
tambem para o cardeal, diz o conile que a infanta era 
mais bella que o retrato que se vira em Franga i; que 
era formosissima e magestosa. E passando a descrever 
as suas perfeigOes, conclue que se pstivesse bem pen- 
teada e bem vestida (quereria dizer à moda de Pa- 
ris? isto é, de caracoes e espeitorada, conio enlào se 
usava), poucas Jjellezas da corte de Franga poderiam 
egualal-a *. E accrescentava .que està princeza era o 
amor e as delicias de todo o reino. 

Em outro despacho de 28 de seterabro do mosnio 
anno, escrevia Cominges a Mazarino, que a rainba de 
Portugai Ihe bavia promettido o retrato da infanta sua 
filba para madama de Cominges, e que o pintor No- 
cret ^ jd estava tirando, pelo que nQo seria difficil 
alcangar o oriqinal para Franga, sendo este o desejo 
de Portugai. E accrescentava que nào haveria muito 
trabalbo em obter a infanta, empregando n'este nego- 
cio fr. Domingos do Rosario, a fìin d elle alcangar o 
dote e fazer o tratado da liga, concluindo que era uma 
bellissima e amavel princeza, merecendo bem que o 
eco Ibe abrisse o caminho da Franga. 

Acabado o retrato, ou fosse porquc a corto de Por- 
tugai nao acreditasse na realisag(ko do casamento, por 
conbecer ja a dobrez do cardeal, ou por outro motivo 
que Ros é desconbecido, houve repugnancia em se dar 
retrato da infanta ao embaixador; e foi tal, que se 
reunìu o conselbo de estado para decidir se era da 
dignidade da coroa porlugueza concedel-o. A final, 

i Devia ter o qae Mazarino encommendira a mr. de Jant, corno 
Ji dissemos. 

S Os leltorea Jalgario da vcrdade com qno falli^va csto diplomatico, 
4 ▼lata do retrato qae pabUcÀmoa no comedo decita blographla, co- 
plado do qae vem nas Memoria» do conde de Grammont, gravado do 
originai quo le conaerva em Londres. 

3 Pintor francez qae entio vivia em Lisboa. 



com pretesto de ser para madama de Cominges, 
conc<ìdeu-8e; e tanto a rainba D. Luiza corno a in- 
fanta estimararo milito que o pintor Nocret o tivesse 
executado com tanto primor ^. 

ministro de Franga que refere tudo isto, n'om 
despacho dirigido ao cardeal Mazariuo, accresceota 
que a infanta fora retratada com penteado e vestido 
à franceza, e que madama de Cominges faria ver o 
retrato a suas magestadcs christianissimas. 

Para nos descnganarmos de que o embaixador Co- 
minges era um farcista que o cardeal Mazarino tinba 
encarregado de represcntar està comedia do retrato, 
oigamos o que diz mad. de Moteville nas Memorias 
que escreveu do reinado de Luiz xtv^: «Cominges, 
ministro de Franga em Portugai, quando se tratava do 
casamento do rei, enviou 6 rainba regente de Franga, 
D. Anna de Austria, um retrato da infanta D. Catba- 
rina, que a representava mui formosa, com quanto 
ella nào fosse; e depois me conlou este ministra 
que a rainba de Portugai Ibe offereciVa grandes som- 
mas para elle conseguir que sua Glha fosse rainba de 
Franga. » 

É està a explicagào do empenho coni aue o diplo- 
mala francez cndeusava a nossa infanta, devendo ella 
mui pouco ù formosura. 

E que fosse uma divindade, qùe importerà, se ao 
mesmo tempo que o conde de Cominges tratava em 
Lisboa do casamento da infanta de Portugai com o rei 
de Franga, o marquez de Lionne fazia perante a corte 
de Madrid propostas pnra obter para o mesmo sobe- 
rano a mào da infanta D. Maria Thercsa, filba dos reis 
catholicos, assentindo, com està clausula, em fazer a 
paz com Hespanha, desamparando de lodo o reino de 
Portugai. 

Tanto que D. Luiza de GusmSo soube desta perfi- 
dia do cardeal, maiidou dizer por fr. Domingos do 
Rosario ao embaij&odor de. Franga, que olla estava 
persuadida ser a sua demora em Lisboa, sem ultimar 
as negociagOcs, um lago para atemorisar os caslelba- 
nos, cujo maior receìo era o da allianga de Portugai 
com a Franga. 

Cominges participou isto mesmo ao cardeal, que, 
longe de se escandalisar, teve ainda a iinpudencia de 
recorrer ao artificio de ordenar a este diplomata que 
rcgressasse a Paris, diligeociando por que a rainba re- 
gonte de Portugai nomeasse um plenipolenciario quo 
fosse cm sua companbia, munido de poderes para con- 
cluir as negociagOes em Franga. Era evidenlemenle 
um novo efTugio para elle ganbar tempo, em quanto 
adiantava os prclin^inares do tratado com os uossos 
iuimigos. 

Os ministros. porluguezes, uà perigosa conjuntura 
cm que se viam, dissimularam ainda està fraudulen- 
cia do velho cardeal, e nomcaram para a nova em- 
baixada o conde de Soure, dando-lhe por secretarlo o 
dr. Duarte llibeiro de Macedo, eximio jurisconsulto e 
littoralo, cujas obras andam boje no catalogo dos nós- 
sos classicos. 

Levava o conde instrucgOes para insistir no tratado 
de allianga; e que se nào a conseguisse, corno era de 
suppor, passasse a Londres e ajustasse entao a iiga 
com a Gran-Bretanha, que por vezes nol-a tinba or- 
fcrecido. 

Quando o conde de Soure chegou ao Havre de Gra- 
ce, soube positivamente que se tratava do casamento 
de Luiz XIV com a infanta de Hespanha, e da paz com 
està potencia, para o que se haviam assignado as tre- 
goas. 

Nào obstante, seguiu para Paris. Mas em Ruào par- 
ticipou-lhe nosso agente na corte de Franga que o 
cardeal Mazarino o advertfra de que devia entrar em 
Paris incognito, porque nào era decoroso reccber uma 

1 Quadro elem., tomo IT. 

s Tomo xxxn d* OolUe. PiUu, 



ABcrnvo ^moitBsco 



167 



embaixada de PortQgal d« occaBÌào cm que (a é^s^ 
amparaKo pdos ajuates que fizera comEh^p«nh«« 

Desprezoa o noeso eoibaixtdor este aviso, e eotrou 
om Paris oom grande pompa; foi reccbido eoi audiea- 
eia publica por Luìz xiv^ e depois pelo curdeal, que 
se descalpou de ajustar o casamento do rei con)- a in- 
fanta de Hcspanba, por sor esse o desejo da rainba 
niiìe, tia da noi va ; e eguacs razues ailegou para tra- 
ttar da paz com exclasào de Portuffal. 

nosso embaixador, além das allcgagòes e quelxas 
que fez ao cardcai, aprcsentou-ibe urna memoria, a 
que cardeal rcspondeu verbalmente com evasi vas 
proprias do seu caracter doloso e refolbado. 

Por este tempo chegou a Paris o famoso marechai 
de Turcnoe, que sempre fora dedicado ìi Portugal, e 
bavia eombatido victoriosamcnte os hespanboes com 
o excrciio francez. Era,, além d'isto, admirador do 
conde de Souro, pela sua bravura corno general das 
armas nas campanhas do Alemtejo. 

Turenne conferenciou em segredo com o conde de 
Soure, proìiurou depois o cardeal, e inlcrccdeu a nosso 
favor com a efficacia de que dào tostimunho as iQcmo- 
rias contcmporaneas. Mas tudo foi baldado. So consc- 
guiu a permissào (que depois Ihc foi contestada) de 
apontar ao cmbaixador portuguez os oQìciaes que jul- 
gasse aptos para scrvìrem no excrcilo de Portugal, o 
que marecbai fez com o acerto e diligencia que tanto 
nos valcu. 

Ainda por ultimo ludibrio, expediu Mazarino a Lis- 
boa marquez de Chouppcs, com inslrucgOcs reser- 
vadas para a regente de Portugal. 

Foi recebido em audicncia publica, e se ibc nomea- 
ram por. conferentes o conde de Canlanbede, depois 
marquez de Mariaiva, o conde de Odemira, e o secre- 
tano de estado Pedro Vieira da Silva. 

Era assumpto da embaixada desculpar-se o car- 
deal de haver feito allianga com a coroa de Hespanha, 
offerecendo a prolecgao da Franga se D. Affonso vi 
quizesse abdicar, ficando com o titulo de rei do Bra- 
si!, e voltando Portugal ao estado em quo se acbava 
antes de 1640! 

Os ministros portuguezes, ao ouvìrem as proposKis 
do cardeal, ficaram assotnbrados; e o marquez de Ma- 
rtalva, levantando-se indignado, exclamou: que se a 
nobreza e povo da cidade soubesscm das proposigóes 
que se baviam lido, nenbum dos presentes, e mór- 
mente o sr. enviado, estaria seguro n'aquelle legar. 
E saiu da sala do conselbo. 

A rainba mandou logo despedir o ministro francez, 
assegurando-lbe que Portugal manteria a sua indepen- 
dencìa sem nunca mais importunar a Franga. 

Em quanto isto se passava em Lisboa, o conde de 
Soure, vendo que Mazarino se dispunba a partir para 
OS Pyrenèos, a assignar a paz com o primeiro minis- 
tro de Ilespanba, D. Luiz de Haro, mandou redigir 
pelo seu secretarlo de embaixada, Duarte Ribeiro de 
Maccdo, um manifesto, que fez imprimir e divulgar 
na lingua franccza,. e que se acba encorporado no vo- 
lume das suas obras com o litulo de Discurso politico, 
em que por 27 razòes for^osissimas se mostra comò 
Franca por jusli^a e.conveniencia nào devia fazer a 
paz sem inclusào de Portugal, 

Voi tal abaio que este papel fez no publico e na 
dìplomacia, que o cardeal o mandou probibir, sendo 
preso impressor, e amcagado o nosso ministro por 
lai ousadio. 

cardeal safu de Paris para a ilba dos FaisOes, nos 
Pyrenéos, onde assignou a paz e o centrato do casa- 
mento de Luiz XIV com a infanta de Uespanha, D. Ma- 
ria Tberesa. 

conde de Soure toUou a tratar com o marechai 
ifisconde de Turenne, que ihe obleve uma leva do 600 
miiitares; e conlratou o conde de Scbomberg, general 
allemao ao scrvigo da Franga» para passar ao dp Por- 



tugal, com posto de mestre de campo general, e o 
soldo de 12:060'Cruzados por anno^ 800i$000 réìs para 
prato, e 4:000 cruzados para seus dois filbos, Frede- 
rico e Menhard, officiaes de cavallaria ^. 

conde de Soure regressou a Portugal aos navios 
em que vinba Scbomberg com a tropa, os quaes Iho 
foram emprestados pelo rei de Inglaterra, onde o ma- 
rechai foi. emharcar, por Ibe ser prohibido fazel-o jem 
Franga. 

Tal foi desenlace das negociagDes com que o trei-* 
tento cardeal nos embaiu durante quatro anoos, trar 
zendo-nos engodados pela promessa do casamento da 
infanta D. Gatbarina com Luiz xiv. 

E nào so Portugal foi logrado.; outras nagOcs cafram 
na roesma cilada, corno é sabido. Parece-nos que Vol- 
taire foi primeiro que escreveu ^ ter planeado Julio 
Mazarino, desde as negociagOes de Munster, em 1648, 
a allianga das casas de Franga e Hespanha pelo ca- 
samento do rei; mas, corno a corte de Madrid repu- 
gnasse a este pacto, o cardeal, para a constranger, in- 
tentou caviliosamente diversas negociagOes nupciacs. 

Depois de bavermos escripto o capitulo publìcado a 
pag. 118, percorrendo a II istoria de Franga, de Lar- 
rey, auctor assàs minucioso, e que presenciou os suc- 
cessos do tempo de Luiz xiv, acbàmos alii mencionada 
uma negociagào desconbecida dos historiadores da dy- 
nastia de Braganga. 

Diz Larrey * que em 1652 enviàra a corte de Franga 
à de Portugal rar. Le Cocq, propondo, em segredo, o 
casamento do i*ei com a infanta D. Gatbarina, sendo 
as condigOes assislìr Portugal a el-rei de Franga com 
a somma de tres miihOes de oiro, e vinte e quatro 
navios de guerra, para soccorrer Barcelona, que se 
tinha doclarado pela Franga, e estava sitiada por D. 
Joào de Austria. 

Nenbum outro escriptor, que conhegamos, falla de 
tal enviatura; mas comò este é coevo, póde ser que o 
soubcsse de boa origem. Fazemos està inengdo apcnas 
para auxiliar as conjecturas que Gzemos sobre o ter 
provindo de Franga a proposta do casamento do rei 
com a infanta D. Gatbarina. 



(Contiuùa) 



A. DA Silva Tullio. 



A LUZ 

E a Inx rrsplandace nas trevas, 
mas aa trevaa nllo a comprehonderam. 
Ei^mg. de S. /«do, i, 5. 

A luz é a mais bella creagdo do Qmnipotente. 

Que seria o mundo sem luz? um montào de the- 
souros inuteis e de maraviihas perdidas, corno as que 
se acbam occultas nas entranbas da terra. 

É com a luz que as fórmas apparecem, que as sub- 
stancias tomam cor, e que a existeocia do universo 
se revela. 

Deus creou a luz em duas palavras: Fiatjux. «Que 
a luz seja e a luz foi, disse S. Joào; mas, accresccn- 
tou elle, as trevas nùo a comprebenderam, > 

Isso nào adroira: as trevas nào comprehendem a 
luz, ou nào se apropriam à luz, corno o frio nào se 
adapta ao caler, corno a morte se nào accommoda à 
Vida. 

Ambas se repellem : onde uma existe, a outra nào 
póde existir; quando uma nasce, a outra desapparece; 
e d'ahi vcm o implacavel odio dos espiritos das tre- 
vas contra os espirilos da luz. 

A presenga da luz devia alegrar a natureza inteira. 
Nào succede, poróm, tal. Ha olbos a quem ella offus* 
ca, porque ha entes enfermos ou doentes aue, logo 
que a luz apparece, fogem, dando gritos fuueores; as- 

■i HiMpier — F!e du mariehfd de Schonhtrg. 
S 8ìiéU di Jjouìm xit, tomo l, oap. IT. 
9 ToHio u, tSI. Ed. da 17U. 



168 



ARCHIVO PITTOBESCO 



siin é mocho quando o dia entreapparece no hori- 
sonte, e assim é o morcego quando tiVn raio de sol 
entra no escondrijo onde foi procurar a continuagào 
da noite. 

A verdade é a luz da alma. Quer Deus que està luz 
esclarega todo o myndo.- 

Gbama-se luz, por extensào ou figuradamente, a 
tudo que contrìoue para derramar a luz: o facho, 
candelabro, a lampaaa, o simples rolo de cera, sào 
luzes. E, com effeito, nenhum d'esses objectos serve 
sen&o para esclarecer ou allumiar. 

Ghama-se tambem luz, moralmente, aos espirìtos 
que tem consumido a vida -em diffundir a verdade, 
ou aos que tem fallado ou escripto àcerca de assum- 
ptos dimceis e obscuros, para os elucidar e commen- 
tar. Rousseau é uma hiz do seculo xviii; S. Thomaz 
de Aquino foi uma luz das escholas; Escobar foi uma 
luz dos jesuitas; Spinosa foi uma luz do seculo xvri; 
padre Antonio Vieira póde-se tambem dizer que foi 
uma luz do pulpito sagrado. 



Os instrumentos que servem para propagar a luz 
podem servir egualmente para propagar o incendio. 
Taes sào as fogueiras com que a inquisif^lìo soube es- 
clarecer e incendiar a Hespanha pelo longuissimo es- 
pago de tres seculos; e taes sào os fachos que levavam 
nas caudas as trezentas rapozas que Sansào langou nas 
vinhas dos philisteus. 



MUSEO DO BISPO DE BEJA 

(Yid. pag. 108) 
III 

Os objectos que representa a gravura perderam-se, 
e so se conservam os seus desenhos e alguns escla- 
recimentos entre os manuscriptos do fundador da bi- 
bliotheca publìca de Evora. Por isso em tudo o que 
dissermos nos reportaremos ao que cncontràmos es- 
cripto, sem tomar a responsabilidade de qualqucr opi- 
nilo archeologicamente contestavel. 





Fórma de ftindir anneis 

primeiro dcsenho é de uma fórma de fundir an- 
neis, com caracteres phenicios. Diz D. Fr. Manuel do 
Genaculo que a descobriu na visinbanga de Beja, e 
accrescenta que é de pedra Nis, da mesma contextura 
que a Cola (?). As letras pareceram-lbe pheniclas, po- 
rém jà dechnadas e visinhas da edade grega. 

Fr. José Lourengo do Valle, que se occupava muito 
de decifrar inscripgóes antigas, e às vezes a mesma 
por modos inteiramente diversos, deu a seguìnte ver- 
sào da prìmeira serie de letras: «Ama a Deus e a 
fortuna te ajudarà.» 

E a segunda traduziu-a assim: «Muda-te, com de- 
cente abrado geraràs.» 

A maìor parte dos leitores fazemos-Ihes a justiga de 
OS nào julgar mais conbecedores do phenicio do que 
nós, e por isso Ibes poupàmos o enfado de verem aqui 
as inscripgòes completas, restituidas, decompostas e 
analysadas pelo pacientissimo frade. 

Na bibliotbeca de Evora guardam-se dois anneis de 
chumbo, fundidos na fórma encontrada em Beja. 

bracelete de bronze appareceu n'uma sepultura 
da herdade do Baco, da freguezia do Cercai, duas le- 
goas distante da foz e porto da Villa Nova de Mil 
Fonles. 

A respeito do sitio em que se descobriu dà-nos o 
illustre prelado a seguinte informagào, que publicà- 
mos n6o so por importar à historia do bracelete, mas 
tambem comò prova do empenho e diligencià com que 
auctor dos Cuidados litterarios se dedicava aos es- 
tudos e indagagóes arcbeologicas : 

«Pelas observagdes que fiz no espago de mais de 
tres horas no exame do terreno do Baco, pareceu-me 



Bracelete de bronse 

da mais remota antiguidade. bom e bonrado lavra- 
dor capitào Simào dos Santos me facilitou quanto 
era necessario para o exame. Em uma àrea muito es- 
tendida se acha por quasi toda ella avultado numero 
de sepulturas, sendo especiaes as mais proximas a um 
copioso nascedio de agua corrente. Fiz abrir mais de 
dez sepulturas; todas ellas sào de uma simplìcidade 
notavel. Nos tópos e lados do vivo das sepulturas se 
acba forrada a terra de lages tóscas, e as coberturas 
sào de similbantes lages, das quaes a maior que medi 
tem seis palmos de comprido e tres de largo; as ou- 
tras sào pequenas e nenhuma d'ellas affeìgoada nem 
cortada; mas sào pedagos mal juntos, netShum artifi- 
cio, nem uma letra. Raro osso apparece, porque os 
corpos estào absolutamente gastos, creio que tanto 
pela humidade corno pelo tempo dilatado. Achei mis- 
turados na terra das sepulturas vasos de vidro que- 
brados e inteiros, e podem ser fiolas lacrymatorias ; e 
mais se acharam ferramentas de serralharia e ferra- 
ria quasi a desfazerem-se. Encontraram-se pucaros, 
tijelas e bandejas, tudo de barro, e algum mui fino, 
e delicado o seu lavor. Sào linbas curtas e raaiores, 
e muitos circulos fechados e pequenos. Serào insi- 
gnias dos enterrados ou de outro servìgo relativo aos 
defuntos, os quaes vasos logo que se expOem ao sol 
ou ao vento se desfazem, tendo-os, porém, em som- 
bra calada seccam bastantemente. Um annel de oiro 
muito delgado me consta haver-se alli descoberto, e 
vi depois com um gravado até agora imperceplivel, 
e uma cadeia gargantilba de oiro tenuissima e alter- 
nada de gràos facetados de materia vidrenta pareci- 
dós com granadas. » a. piuppe simSes. 



Usboa — Tjpogr»phia de Castro Irmio — Bua da Crai de Pan, 31 



n 



ARCHIVO PITTORESCO 




£iiu>u cqnMtra ilo Fraderlm ■> 



Se apraz & Providencia, na sua naturai solicitudc, 
cncarrcgap a ccrtos bomcna missòes importanlcs a bem 
da bumanidade, ou para salva^ao de um poro quc o 
infortunio arrojou A Dorda do abysmo, ou para rapido 
cngrandecimcnto de urna na^o, ale alli pequena, po- 
bro e desprczada, Frederìco ii da Prussia parcce ter 
sìdo um dcEses fnles privilegìados. 

encargo que o destino llie commctteu foi transfor 
mar urna monarchia nascente, mui limitada em terri- 
lorio e povoa^ao, cmpobrccida e devastada pela guerra 



chamada dos Irinla aniws, em que u envolveii o im- 
perador Leopoldo i, transrormal-a, dizemos, em um 
reloo grande, poderoso e florescenle, 

eieilorado de Brandeburgo, que seu art, Frede- 
rico I, conseguiu elevar A catbegoria de reino, nSo por 
meio de accues gloiiosas, mas sìm a iroco de conces- 
suGs pesadas e bumilhantes, exigìdas pela corte im- 
periai de Vienna d'Austria; esse paiz, que fora, por 
assim diier, o jopctc de visinbos ambiciosos durame 
loDgo curso de anuos, vendo-se obrigado couslanl«- 



170 



ARCmVO PITTORESCO 



mente a conaumir os seus rccursos e forgas vìtaes a 
prol de albetos iulercsses, ergueu-se ù altura de po- 
tencia de primeìra ordcm, gragas ao valor, energia e 
scieocia militar de Frederico ii, e gragas tambem As 
iiiustrada^ reformas com que reorganisou e melhorou 
OS dìversos ramos da administrayào publica, ao mes- 
mo tempo que dava impulso e animagào ùs iiidustrias. 

Na construcgdo d'esle ed^clo grandioso ìuctou com 
difficuldades que a todos se antoihavam insuperaveis, 
menos ao seu espirito elevado, extremamènte perse- 
venmte, e cujo valor e coragem cresciam peranle os 
obstaculos e uo mcio dos perìgos.* 

Voi d'esses dotes nobilissimos da sua alitia, e do 
amor que os seus subditos consagravam à patria e ao 
rei, que elle e a nagào tiraram alento e forgas para 
repellirem e vencerom a quasi toda a Europa, que, 
invejosa da sua gloriò, e atemorisada do vulto ingente 
«que a nova monarchia de anno para anno ia assu- 
mindó cada vez maior, se arremessou de improviso 
sobre a Prussia, Guidando esmagal-a facilmente sob o 
poso de tantos e tdo numerosos «exercitos. 

Mas de todos os seus ìnimigos salu Iriumphante, 
alfim. Frederico n, correndo com incrivel rapidez de 
um a outro ponto da frotiteira a embargar o passo aos 
invasores; correndo ù. fronte dos seus excrcitos, som- 

Ì)re infotiores em numero aos contrarios, venceu em 
latalbas campaes os austriacos, os saxonìos, 03 fran- 
cezes, OS sudcos e os russos. 

Às victorias das aguias pruàsianas foram dcvidas, 
ainda mais que ao ardor dos soldados, a um esforgo 
cxtraordinariQ da iutèlligcncia e do valor do sobera- 
no, no plano da batalha, e na intropidoz com que pe- 
lejava, arremessando-se com todo seu estado maior 
de encontro às phalanges inimigas, todas as vozes que 
julgava, comò condigào indispensavol do triumpbo, 
dover iniettar entbusiasmo e ardor das suas tropas, 
expondo seu peito ao ferro e ao fogo. 

Foi na guerra general tao dìstincto, e na paz legis- 
lador tao sabio e reformador tao prudente, que mero- 
ceu a bonra singularissima de sor em vida appeliidado 
grande^ ndo semente pèios seus subditos, que desfru- 
ctaram as vantagens das suas victorias e os dons do 
seu paternal governo, mas até pelos seus proprios iui- 
migos, aos q.uaes tanto fez padecer na alma e no corpo. 

De muitos outros modos mostrou Frederico u a gran- 
deza do seu animo. E patcnteou^a com a maior evi- 
dencia e briiho quando, depois de perder a batalba 
de Kolin, declarou de viva voz e publicou por e$cripto 
que a culpa fora toda sua, ndo cabondo aos seus sol* 
dados parte alguma n ella. Està confìssilo na boca de 
um bomem que tinha adquirido a justa reputagào de 
sor um dos niaiores capitàes do seu seculo, cqnstìtue 
um genero de gloria, póde dizcr-se, raro^ porque mui 
poucos' exen»plo3 apreseuta a bistoria de sim